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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Fernando Buen Abad Domínguez - Por que é que as pessoas insultam os seus governantes?

*  Fernando Buen Abad Dominguez

"Se não há justiça para o povo,
que não haja paz para o governo"
Emiliano Zapata

Tão velhos como a luta de classes, os insultos proferidos pelos oprimidos costumam ter uma mesma base histórica e um mesmo propósito político. São formas da “expressão” popular que nem sempre são “fáceis” nem sempre proliferam massivamente, mas marcam (como poucas) os territórios da luta simbólica onde, com frequência, o sentido do humor mais corrosivo surte efeitos demolidores na moral dos “amos” e nos seus galões de prestígio. Claro que nunca falta o engenhoso genuflexo que se julga capaz de neutralizar os “dardos” do insulto popular com escudos de silogismos de sucata e sem riscos. Moral e cacete.

Há insultos de todo o tipo contra as classes dominantes. Produzem-se de todas as formas e em todos os géneros. Há canções, danças, poemas... dramaturgia, pintura, cinema e humor de tons variados. Ironias, sarcasmos, chungas... e até afrontas directas baseadas quase exclusivamente na procacidade fermentada de uma jantarada de ocasião ou na necessidade profunda de ferir o poderoso em alguma das suas fibras sensíveis: mães, filhos ou parentes próximos. Mesmo que não tenham culpa directa das humilhações e da exploração que se acumulam nas costas da classe trabalhadora.

Há um sentido subversivo no insulto popular, contra os governantes do dinheiro e os governantes da política, que desliza de formas diversas entre os territórios semânticos de cada época. A maior ou menor intensidade do insulto pode ser conjuntural e é sempre um eco de conformações culturais predominantes. Nada escapa aos eflúvios do insulto cuspido pelos povos na cara dos seus verdugos. 
Soube-o Cervantes como o soube Daumier... soube-o Chaplin  e soube-o Cantinflas. Abarca as pessoas e as instituições, cruza os mares da fúria social para levantar tormentas de adjetivos, substantivos e verbos... gestos, esgares e contorções. Tudo serve se o insulto é certeiro, se faz tremer as estruturas do ego nas suas mais caras fortalezas do poder e consegue ridicularizar todos quantos sustentam a autoridade de uns contra a imensa maioria. Há mesmo insultos finíssimos.

Tudo isto lança o pânico na classe dominante que precisa, como do ar que respira, de alguns redutos de “respeito” ou medo para se manter de pé. Um “subordinado” que teime em insultar a autoridade, produto do aumento da consciência ou da fadiga, começa a ser temido e reprimido. Nos casos mais conspícuos forja-se um círculo virtuoso que, mais cedo que tarde, precipitará a queda de algum verdugo e facilitará mais um passo, ainda que pequeno, no caminho da emancipação. Assim o testemunham as melhores tradições do grotesco e dos carnavais. Para só referir alguns casos.

Mas no insulto também se reproduz a ideologia da classe dominante infiltrada nas cabeças dos dominados. Por exemplo, o sexismo que reina livremente no imaginário hegemónico burguês escorre sem controlo nem filtro sobre o arsenal dos que se treinam para insultar ou ofender os “patrões”. Por exemplo, todo o género de fetichismo dos genitais e toda a espécie de subordinação coital machista costuma florescer na metralha ofensiva popular carregada com a sua marca de classe e com força irreverente. Tudo isto estabelece uma diferença clara, mas lança um desafio semântico nodal. Não mediremos aqui com a mesma vara a intensidade humilhante dos insultos da classe dominante face aos arsenais da classe subordinada. Não cairemos nessa armadilha.

O “modo” no insulto popular é determinante. Implica os matizes e as intenções. Há insultos que vêm do picaresco e do humor sexualizado e há insultos que emergem do medo e da raiva. Não poucas vezes são combinações barrocas com resoluções explosivas. Mas na sua textura áspera, o insulto ao poderoso implica um rompimento. Não há insulto popular contra os oligarcas que não pondere o enérgico tesouro da rebeldia. Contundentes e expressivos, os insultos enriquecem na sua intensidade, e na sua qualidade, muitas das fórmulas linguísticas, mas com a jactância de quem descobre uma força ofensiva cheia de analogias que vêem o léxico como uma arma que tem, indubitavelmente, arestas destruidoras. A defensiva que passa à ofensiva. Tal como os tesouros, os insultos costumam estar à flor da terra e assim, pesadas de muitos séculos, as linguagens pejorativas de classe fortaleceram-se, pacientemente. É um arsenal popular de palavras que ao fazerem tremer a vaidade do poder e o poder da exploração, estendem o seu exemplo e contagiam-se para lá da perspectiva comum e da comarca da submissão (não há limites idiomáticos nem gestuais). É um jardim fértil onde se refazem os armamentos das batalhas diárias e o seu poderio se torna potencialmente infinito. Custe o que custar.

Também é possível criar novos insultos mediante a formação de conceitos e de vocábulos contra os estereótipos impostos que caracterizam uma conduta determinada ou o nome de uma classe de indivíduos (mas isto não é uma cátedra de gramática) porquanto o insulto reflecte o modo de produção e as relações de produção degeneradas em rebeldia provocadora do povo contra os seus “amos”.

Ficam fora desta reflexão aquelas manias burlonas que mais não são do que desplantes do individualismo burguês infiltradas nos povos como formas de catarse reduzidas a banalidades. Dessas, não obstante, convém resgatar o que de engenhoso possam desenvolver graças à criatividade pessoal e que bem podem dar um salto de qualidade mobilizadas ao abrigo de consensos que recolham o que de força rebelde ofereçam. Alguns exemplos muito valiosos estão a fermentar nos EUA, por exemplo, contra Donald Trump e as esquizofrenias mafiosas nos seus empresários da guerra.

Ora todos sabemos muito bem que a realidade não se transforma só com insultos aos “poderosos”. E que mesmo uma época fértil em injúrias graves não implica, “per se”, saldos positivos em matéria de organização nem de elaboração de programas revolucionários com vocação de praxis sistematizada. A proliferação dos insultos contra a classe dominante, por si mesma, não é mais do que um sintoma que, para crescer nos seus valores rebeldes, deve construir consciência e acção. De nada serve ficar satisfeito com uma concatenação de vociferações pejorativas se isso não passar de um mero reduto que tranquiliza. Logo que estejamos seguros da genuína origem popular dos insultos aos vitimários do povo trabalhador, é necessário acertar os passos que conduzem a uma saída emancipadora, de contrário ficaremos muito contentes insultando tudo para que nada mude. Como reformistas vulgares.

Fernando Buen Abad Domínguez

Tradução de Armando Pereira da Silva
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 17:19
https://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2018/05/por-que-e-que-as-pessoas-insultam-os.html

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Todas as “Lindas” são “Tontas”?

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO DE 2016


‘As mulheres mais bonitas são as que lutam!’
Todas as “Lindas” são “Tontas”?

Semiótica de certa inteligência monstruosa na ética e na lógica do mercado. 

Máscaras da “beleza” burguesa. Como se fosse pouca a avalanche repressora que a ideologia da classe dominante descarregou, historicamente, contra as mulheres, chegou o capitalismo com a sua criatividade e rapidamente as converteu em massa explorada com caráter decorativo e estigma de “cabeça oca”. A burguesia levou séculos a confiar o voto político às mulheres, por exemplo. "No comportamento perante a mulher, despojo e escrava da voluptuosidade comum, manifesta-se a infinita degradação na qual o homem existe para si mesmo... Do carácter desta relação depreende-se até que ponto o homem se tornou e se concebe como ser genérico: a relação entre homem e mulher é a mais natural das relações entre os dois géneros do ser humano". Marx  (traduzido do castelhano)

Convertidas em seres supérfluos, servis e dóceis, as mulheres do ideal burguês deverão assumir, além do mais, um mandato mercantil útil para reforçar o consumismo. Foram habilitadas culturalmente para fazer as compras de pequenas coisas. Nunca o “caro”, nunca o “eletrodoméstico” de “alta gama”, nunca as coisas que o homem compra. Os publicistas sabem bastante dessas trapaças ideológicas. Essa “capacidade” de compra estabelece o grau de êxito que as mulheres devem conquistar no torneio burguês do êxito social, a aceitação e a admiração de outras mulheres. Especialmente para a burguesia, a mulher (que se torna, também, propriedade privada) depende – suaontologia – da quantidade de dinheiro que o marido lhe dá para gastar nas coisas “do dia-a-dia” e na roupa que veste para decorar bem a sua personagem. Chamam-lhes “senhoras”.

Mas há um reduto ideológico (de falsa consciência) no qual se produzem e reproduzem as patologias mais humilhantes do capitalismo. É um reduto histriónico no qual as mulheres se vêem obrigadas a ser “tontas” rendíveis. Isso vê-se na “tele” nos “diários”… em todos os media e em todos os horários. É o reino do individualismo e da veneração do mercado que procura nas mulheres “lindas” a sua presa predileta porque, segundo reza a moral mercenária da publicidade, “o lindo vende”. A isso se deve a profusão histérica de estereótipos que a burguesia impõe às mulheres para as aprisionar numa prisão ideológica invisível aramada com anti valores de mercado e condutas convincentes para pôr a salvo as instituições da família, as igrejas e o estado burguês - O fetichismo da beleza feminina e o seu valor de mercado: vestidas ou nuas.

Trata-se de um reduto ideológico no qual se amassam convicções e condutas que, para cúmulo, conta com a cumplicidade de algumas mulheres e muitos homens. As mais colonizadas procuram a fama na farândola mediática burguesa. Com ou sem êxito, nas artes do exibicionismo das “lindas”, os princípios do mercado predominam, para além do imaginável, na própria vida diária, inclusive no quarto de banho onde entram centenas de produtos “indispensáveis” para manter o modelo de “beleza” ordenado pelos “media”. Trata-se de uma “tontice” imposta que envolve grande astúcia mercenária e uma moral de vendedor que, para se vender a si mesmo, conta com muitos clichés e muito pouco tempo. A “lindura” de mercado dura pouco porque a velocidade do consumismo é uma máquina produtora de desejos humanos infindáveis.

As “lindas” “tontas” são esse cliché que tem tido êxitos mercantis retumbantes. Dizem alguns que é uma forma de “sex appel” que condimenta magnificamente a imposição dos valores burgueses e todas essas aplicações, decadentes e humilhantes, que cada um de nós vê nas ruas na aparência mais cruel que a realidade impõe. Há pessoas que passam a vida inteira sem se aperceberem do papel que lhes é imposto por um sistema económico enfermo, também, como “mercadorias humanas”. Do seu disfarce, aquelas mulheres que representam (com vontade ou sem ela) o papel de “tontas” “lindas” vão medindo com uma vara burguesa a quantidade e a qualidade as suas vitórias sedutoras mais rendíveis. Poderá haver por detrás da aparência de “tontas”, inteligências mercenárias muito brilhantes escondidas entre os traços efémeros da sua “lindura”. Garantidas as regras do negócio, algumas contentam-se com a “fama”, outras aspiram a ser “divas”, pensando que se pode ser “bela”, “tonta” e, além do mais, “madura”. “Velha” é um termo que a burguesia usa quase exclusivamente para as mulheres proletárias.

Por tudo isso é que as lutas de género (que são realmente de classe) no mundo apresentam, com graus diversos, um caráter revolucionário fundamental. É especialmente com essas lutas, não exclusivas de mulheres, que se destrói sistemática e profundamente a ideologia da classe dominante e todas as suas ratoeiras opressoras por mais subtis ou sedutoras que se apresentem. A pesar disso, não contamos ainda com uma corrente crítica internacionalista capaz de gerar repúdios contundentes contra o modelo de humilhação com que a burguesia submete não poucos milhões de mulheres. Em todo o mundo e em pleno século XXI. É necessário sermos conscientes, sensíveis, solidários e proativos nas lutas emancipadoras que não são só de “género” porque são fundamentalmente de classe. É necessário desenvolver uma praxis revolucionária que censure e combata todo o modelo de opressão por mais “lindo” que pareça e abraçando sempre – com força amorosa e força científica – todas as vítimas. Ainda que o “lindo” e o “tonto” façam pensar a essas vítimas serem intocáveis, reverenciáveis ou superiores.

Uma longa lista de lutas, lutadoras e lutadores sociais enriquece a perspetiva revolucionária que nos aproxima de um mundo liberto, por fim, do capitalismo e de toda a parafernália grotesca que nos tem imposto, também, com as suas mercadorias humanas e ideológicas. Nessa longa lista de frentes da luta que se desenvolve, de maneira desigual e combinada, há um reportório de críticas que se impulsiona cientificamente porque aprendeu a não ser vítima das chantagens morais, éticas ou estéticas que a ideologia burguesa exerce fundamentalmente, para nos imobilizar e dominar. Um dia virá em que os povos deixarão de ser vulneráveis à guerra psicológica que usa “o lindo” e o “tonto” (entre milhares de subterfúgios) como estratégias de amolecimento, como ratoeiras para gerar solidariedades que, tarde ou cedo, operarão contras as vítimas. Nada mais anticristão. Um dia aprenderemos a deixar de ser usados pela lógica do mercado ainda que se apresente em “roupas interiores” com gestos sugestivos ou com “formosa” “tontice” imposta, dessa tanta sucata que ajudou a vender num mundo afogado com mercadorias que procuram milhões de compradores compulsivos.

Por Fernando Buen Abad Domínguez
(Trad. CS/LA)