segunda-feira, 23 de setembro de 2013

2004 - Os 80 anos de António Ramos Rosa


Para a minha geração, António Ramos Rosa representou a consolidação de uma via, especialmente consciente das exigências da inovação e da modernidade.
O poeta era também um desenhador

Publicado a 17 de Outubro de 2004, quando o poeta fez 80 anos . Hoje, dia em que António Ramos Rosa completa oitenta anos de idade, cumpre saudar a sua intervenção poética global, ou seja, quer no plano da criação poética, quer no da reflexão sobre a poesia, como porventura a mais marcante e plena de consequências de toda a segunda metade do século XX português.
Desde, pelo menos, aquele longínquo Outono de 1951, em que, no primeiro número da revista Árvore, da qual foi o mais proeminente director e colaborador, publicou um poema tão carismático e influente como Viagem através duma nebulosa e, entre outras, recensões críticas a obras tão importantes como Coral de Sophia de Mello Breyner ou Corpo Visível de Mário Cesariny, a presença de Ramos Rosa no quadro diverso e complexo da nossa poesia contemporânea não parou de impor-se como uma voz poderosa e inconfundível, capaz de levantar um mundo poético e ensaístico que se tem vindo a fixar no extraordinário monumento que é a sua obra, composta já por mais de setenta volumes.
Podemos dizer que, com maior insistência e mais cedo que qualquer outro crítico de poesia (e a sua acção neste campo está sólida e coerentemente ligada à sua actividade como poeta), foi António Ramos Rosa quem, sobretudo, lutou pela aceitação (por parte de leitores que, na década de 50 e no começo da de 60, eram ainda bastante reticentes, até mesmo, por vezes, em relação a Pessoa) de uma linguagem poética nova, em ruptura com os vários tradicionalismos líricos (mas não com a tradição lírica, como já o demonstrava, por exemplo, a própria poesia ortónima de Pessoa) e frequentemente apodada de incompreensível, arbitrária, incongruente.
O autor de Poesia, Liberdade Livre, que chegou a envolver-se em polémicas a este respeito, já no ensaio A Poesia é um diálogo com o Universo, saído, em 1953, no quarto e último número de Árvore, defendia que o "hermetismo, que se combate superficialmente, é muitas vezes o nome que se dá à densidade, à riqueza, à liberdade, à imaginação, ao especificamente poético". Este seu ponto de vista manteve-se, naturalmente, até ao presente e ainda recentemente, no livro A Parede Azul, e particularmente em ensaios, nele incluídos, como "A alteridade da poesia moderna", "O princípio criador", "A palavra subversiva" ou "Perspectivas da poesia portuguesa contemporânea", Ramos Rosa reformula uma idêntica concepção do poema como corpo autónomo ("A poesia moderna erige a sua total autonomia em relação ao real.
Esta autonomia implica a ruptura da causalidade realista."), com o seu sentido próprio, incoincidente, muitas vezes, com o que se supõe ser o sentido de um certo real: "A palavra (poética) subverte, instaura. Um mundo em que se formula uma palavra nova é um mundo que perde as suas articulações habituais." Este entendimento do fenómeno poético determina também, obviamente, a função e a atitude do crítico: "Interpretar já não é reduzir o poema a um sentido anterior mas procurar o que o poema inaugura, sabendo de antemão que qualquer reinscrição teórica é deveras impossível. Deste modo o 'comentário' deve evitar traduzir as figuras ou as imagens obscuras porque assim as reduziria a simples alegorias a fim de as tornar claras e compreensíveis. É que a palavra poética não é da ordem do discurso. Ela atinge esse ponto em que o discurso tende a abolir-se e a transmudar-se."
Em Herberto Helder encontra Ramos Rosa o caso ideal que lhe permite ilustrar o seu conceito de poesia como liberdade absoluta, como invenção verbal surpreendente mas nunca gratuita: "Mesmo nos poemas mais obscuros e mais densos, a poesia de Herberto Helder nunca é opaca. A sua efectiva obscuridade é luminosa e, não raro, incandescente. A sua luz, aliás enigmática, é a luz de um poeta que não cessa de acorrer ao enigma da criação poética e da matéria a que ela se liga, realizando assim uma fulgurante osmose verbal com o que é vertiginosamente incompreensível."
Em António Ramos Rosa, todavia, a situação é algo diferente, sobretudo na sua fase inicial. A "aventura poética" tem raízes num contexto histórico e social de que muitos dos seus primeiros poemas são a denúncia feroz e o implacável diagnóstico. O boi da paciência ouTelegrama sem classificação especial (como diz Eduardo Lourenço, "com a fulgurante síntese de uma universal e portuguesa situação - 'Estamos nus e gramamos'"), por exemplo, são pontos de intersecção privilegiados das mais fortes e densas linhas provenientes quer do neo-realismo, quer do surrealismo, o que, de resto, não deixa de ser igualmente verdadeiro para certos textos dos outros dois poetas maiores, ao lado de Ramos Rosa, da década de 50, 0'Neill e Cesariny.
O certo é que o conceito de poesia como uma potenciação da intensidade do uso da palavra, como uma "voz inicial", com peso e energia próprios, estava já lá, nesses poemas do começo, em 1958 recolhidos no pequeno caderno intitulado O Grito Claro, significativamente o número l da colecção A Palavra, em que sairia, entre outras, a obra de estreia de Luiza Neto Jorge, A Noite Vertebrada.
Para a minha geração, António Ramos Rosa representou, se não propriamente a abertura, a consolidação de uma via, paralela, sem dúvida, a algumas outras igualmente decisivas, mas especialmente consciente das exigências da inovação e da modernidade.
Poeta e crítico 

Morreu o poeta António Ramos Rosa



P

Autor de uma das obras poéticas mais extensas e marcantes da poesia portuguesa contemporânea, António Ramos Rosa morreu esta segunda-feira aos 88 anos.
António Ramos Rosa na sua casa em 2004 DAVID CLIFFORD/ARQUIVO

Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, deO Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até Em Torno do Imponderável, um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória, em Lisboa, no Hospital Egas Moniz.
Além da sua vastíssima obra poética, escreveu livros de ensaios que marcaram sucessivas gerações de leitores de poesia, como Poesia, Liberdade Livre (1962) ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), traduziu muitos poetas e prosadores estrangeiros, sobretudo de língua francesa, e organizou uma importante antologia de poetas portugueses contemporâneos (a quarta e última série dasLíricas Portuguesas). Era ainda um dotado desenhador.
Prémio Pessoa em 1988, António Ramos Rosa, natural de Faro, recebeu ainda quase todos os mais relevantes prémios literários portugueses e vários prémios internacionais, quer como poeta, quer como tradutor.
Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra – “Estou vivo e escrevo sol” –, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de papel. 
Para Pedro Mexia, poeta e crítico, Ramos Rosa mostrou, nomeadamente através das revistas que dirigiu e da primeira fase da sua obra poética, “que era necessário superar a dicotomia fácil entre a poesia ‘social’ e a poesia ‘pura’, e que o trabalho sobre a linguagem não impedia o empenhamento cívico”. Como ensaísta, continua Mexia, Ramos Rosa esteve atento ao panorama europeu e mundial, de René Char a Roberto Juarroz, e aos autores portugueses das últimas décadas, incluindo os novos: “Descobri muitos poetas através de obras como Poesia, Liberdade Livre ou Incisões Oblíquas.
Autor "muitíssimo prolífico", "nunca se afastou do seu caminho pessoal, mesmo quando a abundância e a insistência numa 'poesia sobre a poesia' fizeram com que nos esquecêssemos da sua importância decisiva."
O escritor e crítico Fernando Pinto do Amaral prefere eleger como "verdadeiramente singular" em Ramos Rosa “a atmosfera muito espacial que a sua poesia, ou melhor, os seus ciclos de poemas, são capazes de criar”. Atmosfera essa que resulta de uma “conjugação precisa de palavras”: “Isso vê-se muito bem em O Ciclo do Cavalo, de que gosto particularmente, e em Gravitações, onde se sente que há como que uma força cósmica que atrai e repele as palavras e a própria natureza.”
A ideia de respiração é, aliás, muito importante na obra deste autor, continua Pinto do Amaral, admitindo que não é fácil explicar o que dela emana, em parte porque passou por várias fases, “muito distintas”. É numa delas, mais realista, “ligada ao quotidiano e às suas burocracias”, que se insere um dos seus poemas mais conhecidos, O Boi da Paciência. “Ele, que também foi um funcionário de escritório, mostra aqui como pode ser monótona a vida e como é preciso combater a monotonia”: “Mas o homenzinho diário recomeça / no seu giro de desencontros/ A fadiga substituiu-lhe o coração”, escreve.
“Tudo está em tudo na poesia de Ramos Rosa”, “como no movimento constante de inspirar e expirar”, resume o escritor, defendendo que se trata de um poeta que precisará sempre de antologias: “Um jovem leitor que queira iniciar-se na sua poesia vai sentir-se muito facilmente perdido. Ele escreveu muito, publicou muito. Fazer antologias suas não é, no entanto, tarefa fácil, porque há uma unidade muito grande em cada livro, o que torna difícil escolher um poema em detrimento de outro.”
Com Isabel Salema e Lucinda Canelas 

na morte de antónio ramos rosa

Um grande poeta que parte

António Ramos Rosa
(1924-2013)

A Partir da Ausência
  

Imaginar a forma 
doutro ser Na língua, 
proferir o seu desejo 
O toque inteiro 
 
Não existir 
 
Se o digo acendo os filamentos 
desta nocturna lâmpada 
A pedra toco do silêncio densa 
Os veios de um sangue escuro 
 
Um muro vivo preso a mil raízes 
 
Mas não o vinho límpido 
de um corpo 
A lucidez da terra 
E se respiro a boca não atinge 
a nudez una 
onde começo 
 
Era com o sol E era 
um corpo 
 
Onde agora a mão se perde 
E era o espaço 
 
Onde não é 
 
O que resta do corpo? 
Uma matéria negra e fria? 
Um hausto de desejo 
retém ainda o calor de uma sílaba? 
 
As palavras soçobram rente ao muro 
A terra sopra outros vocábulos nus 
Entre os ossos e as ervas, 
uma outra mão ténue 
refaz o rosto escuro 
doutro poema 

 in "A Nuvem Sobre a Página"

http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2013/09/um-grande-poeta-que-parte.html

Nos 40 anos sobre a morte de Pablo Neruda - 2 poemas

Hoje

Nos 40 anos sobre
a morte de Pablo Neruda

Foto em L'Humanité de hoje
Tu És em Mim Profunda Primavera 

O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, fruta minha destes dias velozes,
diz-me, sempre estiveram contigo
por anos e viagens e por luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria,
ou só agora, só agora
brotam das tuas raízes
como a água que à terra seca traz
germinações de mim desconhecidas
ou aos lábios do cântaro esquecido
na água chega o sabor da terra?

Não sei, não mo digas, tu não sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas, aproximando os meus sentidos todos
da luz da tua pele, desapareces,
fundes-te como o ácido
aroma dum fruto
e o calor dum caminho,
o cheiro do milho debulhado,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra poeirenta,
o infinito perfume da pátria:
magnólia e matagal, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta das aldeias,
o pão recém-nascido:
ai, tudo o que há na tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e volto a ser contigo a terra que tu és:
tu és em mim profunda primavera:
volto a saber em ti como germino.

 in "Os Versos do Capitão"

Dicho en Pacaembu (Brasil, 1945)
 (Canto General)
Cuántas cosas quisiera decir hoy, brasileños,
cuántas historias, luchas, desengaños, victorias
que he llevado por años en el corazòn para decirlos, pensamientos
y saludos. Saludos de las nieves andinas,
saludos del Océano Pacífico, palabras que roe han dicho
al pasar los obreros, los mineros, los albañiles, todos
los pobladores de mi patria lejana.
Qué me dijo la nieve, la nube, la bandera?
Qué secreto me dijo el marinero?
Qué me dijo la niña pequeñita dándome unas espigas?


Un mensaje tenían: era: Saluda a Prestes.
Búscalo, me decían, en la selva o el río.
Aparta sus prisiones, busca su celda, llama.
Y si no te permiten hablarle, míralo hasta cansarte
y cuéntanos mañana lo que has visto.


Hoy estoy orgulloso de verlo rodeado
de un mar de corazones victoriosos.
Voy a decirle a Chile: “Lo saludé en el aire
de las banderas libres de su pueblo”.

Yo recuerdo en París, hace años, una noche
hablé a la multitud, vine a pedir ayuda
para España republicana, para el pueblo en su lucha.
España estaba llena de ruinas y de gloria.
Los franceses oían mi llamado en silencio.
Les pedí ayuda en nombre de todo lo que existe
y les dije: “Los nuevos héroes, los que en España luchan, mueren,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
son hijos de los héroes de América, son hermanos
de Bolívar, de 0′Higgins, de San Martín, de Prestes”.
Y cuando dije el nombre de Prestes fue como un rumor, inmenso
en el aire de Francia: París lo saludaba.
Viejos obreros con los ojos húmedos
miraban hacia el fondo del Brasil y hacia España.


Os voy a contar aún otra pequeña historia.

Junto a las grandes minas de carbòn, que avanzan bajo el mar
en Chile, en el frío puerto de Talcahuano,
llegò una vez, hace tiempo, un carguero soviético.
(Chile no establecía aún relaciones
con la Uniòn de Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Por eso la policía estúpida
prohibiò bajar a los marinos rusos,
subir a los chilenos.)

Cuando llegò la noche
vinieron por millares los mineros desde las grandes minas,
hombres, mujeres, niños, y desde las colinas
con sus pequeñas lámparas mineras,
toda la noche hicieron señales encendiendo
y apagando
hacia el barco que venía de los puertos soviéticos.

Aquella noche oscura tuvo estrellas:
las estrellas humanas, las lámparas del pueblo.


Hoy también desde los rincones
de nuestra América, desde México libre,
desde el Alto Perú sediento,

desde Cuba, desde Argentina populosa,
desde Uruguay, refugio de hermanos asilados,
el pueblo te saluda, Prestes, con sus pequeñas lámparas
en que brillan las altas esperanzas del hombre.
Por eso me mandaron por el aire de América,
para que te mirara y les contara luego
còmo eras, qué decía su capitán callado
por tantos años duros de soledad y sombra.

Voy a decirles que no guardas odio.
Que sòlo quieres que tu patria viva.


Y que la libertad crezca en el fondo
del Brasil como un árbol eterno.

Yo quisiera contarte, Brasil, muchas cosas calladas,
llevadas estos anos entre la piel y el alma,
sangre, dolores, triunfos, lo que deben decirse
los poetas y el pueblo: será otra vez, un día.


Hoy pido un gran silencio de volcanes y ríos.

Un gran silencio pido de tierras y varones.
Pido silencio a América de la nieve a la pampa.

Silencio: La Palabra al Capitán del Pueblo.

Silencio: Que el Brasil hablará por su boca.






Vídeo do Comício do Pacaembu
(S.Paulo) em 1945 onde Neruda leu o poema acima
.

(poema e vídeo copiados do blogue
«A Viagem dos Argonautas»de Carlos Loures)

http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2013/09/hoje.html

Natália Correia - DE AMOR NADA MAIS RESTA QUE UM OUTUBRO

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro 
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia in “Poesia Completa”

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Eugénio de Andrade - Nas ervas



Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

sábado, 14 de setembro de 2013

Brecht - Elogio da Dialética

 
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".

Bertolt Brecht

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Pedro Homem de Mello - Povo que lavas no rio


Américo Pereira


Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
Um beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
Água pura, fruto agreste
Mas a tua vida não.

Aromas de urze e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado

Mas a tua vida não. 


Povo que lavas no rio é uma canção portuguesa, um fado, com letra do poetaPedro Homem de Mello, interpretada originalmente por Amália Rodrigues com música de Joaquim Campos.
Depois da proibição do Fado de Peniche na rádio por ser considerado, pelo regime ditatorial em vigor na época, um hino aos presos de Peniche, após a gravação e o lançamento nas rádios, Povo que lavas no rio ganhou dimensão política.
Talvez devido a esse mesmo facto, as opiniões quanto à interpretação da letra dePedro Homem de Mellopoeta português de excelência, divergem em absoluto: enquanto alguns críticos creem que o poema imortalizado por Amália Rodrigues seja um depoimento de amor ao povo português o qual, ainda segundo esta linha de pensamento, enfrentava uma situação de grande pobreza no tempo da ditadurasalazarista, considerando o país da época como sendo rural e economicamente pouco desenvolvido face à industrialização europeia, outras correntes tendem a ver nas suas estrofes uma lírica de cariz fortemente ligado à homossexualidade masculina, acentuada pelos contornos de incursões às tabernas populares, onde o narrador teria procurado os seus parceiros, e visto recusadas as suas investidas ou, mais ainda, qualquer envolvimento sentimental mais profundo.
Daí as referências ao povo, neste caso portuense, que teria inevitavelmente tecido comentários aos seus devaneios, e dificultado a sua vida, ao beijo inconspícuo da partilha do mesmo copo, simbolizando o beijo em público que era, nessa época mais conservadora, absolutamente interdito aos homossexuais e, acima de tudo, a confissão lírica, ao afirmar que teria dormido com eles na cama, e enlameado por ter mantido este tipo de vida proibída. O autor, Pedro Homem de Mello, era ele próprio homossexual, e ter-se-ia assumido,1 não só através deste poema, mas também junto da comunidade que lhe era mais próxima, na Cidade do Porto, onde viveu, tendo sido assíduo frequentador do Café Rialto, em Sá da Bandeira.
Independentemente da divergência na interpretação da obra, a sua versão musicada em forma de fado, tornou-se no ex-libris do género em Portugal, e a música que mais reconhece a intérprete original. (Wikipedia)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ary dos Santos - HOMENAGEM AO POVO DO CHILE



Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos

Foto: HOMENAGEM AO POVO DO CHILE

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos

domingo, 8 de setembro de 2013

Manuel António Pina - O intruso

 

O intruso



Se me voltar fico
diante do meu rosto,
não suportarei
o meu puro olhar.
Quem me procurará
entre os homens?
Um intruso grita
dentro de mim, oiço-o no coração

como um irmão medonho
sonhando com a vida
por outro vivida
em mim, também em sonho.


(Manuel António Pina)

sábado, 7 de setembro de 2013

Manuel António Pina - a poesia vai


A poesia vai

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? - 


(Manuel António Pina)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

um poema de alberto caeiro


Victor Nogueira partilhou a foto de Ana Albuquerque.
5/9
Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse
Que nunca é o que se vê, quando se abre a janela. 


(Alberto Caeiro)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

um poema de Clarice Lispector

um poema de Clarice Lispector

Uma boa noite por terras do Sado.
Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector

Art by Mstislav Pavlov 

  •  Foto: Minha alma tem o peso da luz. 
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência
E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector  

Art by Mstislav Pavlov

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

um poema de Carlos Aboim Inglês



ESTOU TRISTE E DÓI-ME

Estou triste e dói-me
o coração tão fundo
que o grito coagula na garganta
e não circula
mais.

Quando o punhal se crava
na grossa veia cava
e não retira
mortal a ferida sangra
e não para fora.

Agora é tanta
a dor que se não chora
que decanta
na ruga em vão do riso
um limo de soluços mineral.

CARLOS ABOIM INGLEZ 
Foto: ESTOU TRISTE E DÓI-ME

Estou triste e dói-me
o coração tão fundo
que o grito coagula na garganta
e não circula
mais.

Quando o punhal se crava
na grossa veia cava
e não retira
mortal a ferida sangra
e não para fora.

Agora é tanta
a dor que se não chora
que decanta
na ruga em vão do riso
um limo de soluços mineral.

CARLOS ABOIM INGLEZ