Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Manuel Brito - A MANOBRA DE DIVERSÃO E A LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO
Ana Sá Lopes - Está em causa o normal funcionamento da democracia
terça-feira, 20 de outubro de 2026
José Pacheco Pereira - O VERBO DO ÓDIO
* José Pacheco Pereira
A melhor maneira de perceber o modo como pensam (embora chamar pensar seja um exagero) os homens e mulheres que hoje empurram a extrema-direita em Portugal são as redes sociais e os comentários não moderados. Respondo já a quem diz que o mesmo se passa do outro lado do espectro político – não é verdade, porque há uma enorme diferença de proporção. Há, de facto, mecanismos se afiguram parecidos, insultos, argumentos ad hominem, agressividade verbal, mas, para cada 100 de extrema-direita, há um da extrema-esquerda, e isso permite caracterizar este fenómeno como sendo um revelador significativo do populismo radical da direita.
José Pacheco Pereira - Os cristãos cruéis
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Hugo Dionísio - A inteligência artificial que (não) queremos!
As opiniões dividem-se profundamente sobre o que será o
trabalho sob o domínio da Inteligência Artificial. Entre os que dizem que não
sobrará trabalho algum e os que dizem o contrário, temos opinião para todos os
gostos. Será que a legislação existente está adaptada? Será que o trabalho
«tradicional» é compatível com a Inteligência Artificial?
Ora, é opinião consolidada que o modelo de trabalho mais
paradigmático nesta matéria será o das «plataformas informáticas».
Consequentemente, sabendo que assistimos à expansão deste modelo para a
restante actividade económica, talvez seja avisado começarmos, precisamente,
por aqui e tomarmos como exemplo a prática, supostamente excepcional, já entre
nós instalada.
Até ver, não nos é difícil constatar que, quanto mais
avançado o uso da inteligência artificial, maior a desumanização da relação
estabelecida entre «plataforma» e trabalhador. «Plataforma», porque não se
conhece o empregador. Nesta relação, o trabalhador apenas conhece acessos,
contas, tarefas, preços, rankings, metas, tudo emaranhado num
processo cujas variáveis são unilateralmente fixadas e mutáveis, desprovido de
interacção humana.
Para já, o paradigma do trabalho entre Inteligência Artificial e hum
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Daniel Oliveira - A barbárie de novo, agora em direto
* Daniel Oliveira
Após a execução falhada de
Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a
ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com
vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em
meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou
ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam
a ser o farol da barbárie
Sónia Sapage - Uma execução em directo é um retrocesso civilizacional
“Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreve o republicano Austin Scott nas redes sociais. “A América é melhor do que isso.”
Há uma semana, o Pentágono anunciou que irá transmitir em directo (streaming), no dia 3 de Dezembro, às 13h, a execução por fuzilamento de um militar condenado a pena de morte pelo massacre de Fort Hood, no Texas, do qual resultaram 13 mortos e 32 feridos, em 2009.
Nidal Malik Hasan, major e psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, especialista em stress pós-traumático, tinha 39 anos quando concretizou o ataque. Durante o julgamento, declarou-se culpado e assumiu a sua adesão aos ideais da jihad (guerra santa). “Eu estava no lado errado, mas mudei de campo”, justificou.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?
* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
João Miguel Tavares - “Grande solidariedade”? Será que a PSP não aprende nada?
Bruno Pinto errou gravemente. A PSP errou horrivelmente. Luís Carrilho preferiu alimentar o mesmo corporativismo que desempenhou um papel trágico em toda esta história.
* João Miguel Tavares
18 de Junho de 2026
Chegou nesta semana ao fim o
julgamento do polícia que matou Odair Moniz. Bruno Pinto foi condenado a três
anos e meio de prisão por homicídio, com pena suspensa. O agente da PSP ficou
ainda obrigado a pagar uma indemnização à família de cerca de 90 mil euros — 30
mil pela perda do direito à vida, 20 mil euros para a viúva e outros 20 mil
para cada um dos dois filhos de Odair —, mais uma pensão de alimentos para a
sua filha menor, no valor de 220 euros mensais, até ela atingir os 18 anos.
terça-feira, 16 de junho de 2026
Bruno Amaral de Carvalho - Relembrando Odair Moniz e tantos outros
Acanção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.
Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.
sábado, 23 de maio de 2026
António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos
* Rodrigo Tavares
Professor
catedrático convidado na Nova SBE
A pergunta
decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde
Não há nenhuma
atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere
impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.
Ao ler este
artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem
alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério,
chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro,
flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio,
lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio,
platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo,
telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais
provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar,
Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria,
Bielorrússia ou Zimbabué.
Agora seria
chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para
a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países.
Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de
Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em
que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela
Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless
Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana
Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do
Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.
Continuo? Na
montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta
da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de
preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão
converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase
obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e
fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à
associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores
de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não
acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como
acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no
trabalho.
Não faltam
precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações
identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu
tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção
de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus
compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos
seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do
Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours,
discrimination and delayed pay”, disponível aqui.
Há ainda as
violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes
químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de
vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de
reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de
cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é
contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A
autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and
Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.
Se quiser
conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em
bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).
Entre o impulso
de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de
extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de
qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia
fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos;
apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o
cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à
descarbonização.
E é exatamente
quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições,
frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da
coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma
forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e
passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser
sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos
insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.
A UE seguiu o
caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as
atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um
labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores
financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças,
auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a
máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a
taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de
ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.
Não precisamos
de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”,
“sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”,
“carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”,
“conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto
positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas
papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos
produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem
da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.
Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.
2026 04 30
https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-
sábado, 14 de março de 2026
Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais
* Daniel Oliveira
A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Boaventura de Sousa Santos - O Impensável acontece?
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Helder Moura - (560) A apropriação do ciclo do caranguejo
- hélder moura
- 03.12.25
Estes ciclos
biológicos há muito que são do conhecimento e prática dos nossos mandantes como
forma de conservar o poder.
É preciso
mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma, C. Malaparte.
A Polícia de
Cincinnati afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão
primeiro atendidas por um drone.
Não nos
vamos espantar quando virmos os novos drones para ambientes
interiores a percorrer as nossas casas.
Em 1935, o
médico, geógrafo e cientista social brasileiro Josué de Castro,
publica O Ciclo
do Caranguejo, onde descreve a vida de extrema pobreza de
famílias que vivem num mangue da cidade do Recife, em que não
tendo mais nada para comer que caranguejos aí apanhados que lhes provocam
diarreia que acaba servindo para alimentar outros caranguejos que por sua vez
vão servir para alimentar as famílias, num ciclo de interdependência que
constitui o ecossistema do mangue.
Estes ciclos
biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como
forma de conservar o poder. Veja-se, por exemplo, o que se passa na educação,
nos serviços de saúde, nas polícias, etc.: não se dão condições aos serviços
para funcionarem, incentiva-se a insatisfação, propõe-se então a solução
desejada, deixam de mostrar as manifestações de insatisfação, o sistema
continua a funcionar.
Como variante, Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.. Por exemplo, convencem-nos que é uma poupança económica dotar as forças de polícia com armamento do exército, e nós acreditamos, esquecendo que a utilização de novos armamentos e proteções implica sempre a adoção das táticas que lhes vêm associadas.
A Skydio é uma
empresa americana fundada em 2014 que em poucos anos passou de
uma relativa obscuridade para a maior fabricante de drones nos
EUA. Os seus drones quadricópteros com IA, povoam hoje os céus
das cidades americanas.
De acordo com
uma pesquisa efetuada
por Nate Bear, nos últimos 18 meses quase todas as grandes cidades americanas
assinaram contratos com a Skydio, incluindo Boston, Chicago, Filadélfia, San
Diego, Cleveland e Jacksonville. Atualmente, a empresa tem contratos com mais de 800 agências
de segurança em todo o país.
Os seus drones têm
estado a ser utilizados pelos departamentos de polícia municipais e outros
organismos (como Universidades), para recolherem informações em protestos,
ajuntamentos e outros.
Em
Atlanta, a empresa fez uma parceria com a Fundação da Polícia para instalar
uma estação permanente de drones dentro do Centro de
Formação de Segurança Pública de Atlanta. Detroit, gastou recentemente quase
300 mil dólares na aquisição de catorze drones, de acordo com um
relatório de compras da cidade. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA
também comprou trinta e três drones capazes de rastrearem e
perseguirem automaticamente um alvo.
Um porta-voz da
polícia de Nova Iorque, que foi uma das primeiras a adotar os drones Skydio, declarou recentemente
a um site de notícias que o Departamento
de Polícia de Nova Iorque (NYPD) realizou mais de 20.000 voos em menos
de um ano com 41 drones, o que significa que os drones são
lançados pela cidade 55 vezes por dia.
O sistema de IA
por detrás destes drones é alimentado por chips da
Nvidia que permitem a sua operação sem um operador humano. Possuem
câmaras de imagem térmica e podem operar em locais onde o GPS não funciona.
Também reconstroem edifícios e outras infraestruturas em 3D e podem voar a mais
de 48 quilómetros por hora.
Antes de março
deste ano, as regras da FAA determinavam que os drones só
podiam ser utilizados pelas forças de segurança dos EUA se o operador
mantivesse o drone à vista. Também não podiam ser usados
sobre ruas movimentadas da cidade.
Mas, uma isenção
da FAA emitida nesse mês, veio permitir que a polícia e as agências de
segurança operassem drones para além da linha de visão
e sobre grandes multidões. Sem a necessidade de ver o drone, e
com os drones livres para sobrevoarem as ruas da cidade, a
polícia está cada vez mais a enviar drones em vez de
polícias para atender ocorrências e para fins de investigação mais
abrangentes. Cincinnati, por exemplo, afirma que até
ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão atendidas primeiro
por um drone.
Esta ampla
cobertura é possível devido à plataforma
de acoplamento da Skydio. Estas plataformas estão posicionadas em
locais estratégicos da cidade, permitindo que os drones sejam
carregados, lançados e aterrem remotamente a muitos quilómetros de distância
das sedes da polícia. Após o lançamento, todas as informações recolhidas
durante os voos são guardadas num cartão SD interno e enviadas automaticamente
para um software específico configurado para uso policial.
Este
software é desenvolvido pela Axon, um dos principais financiadores da Skydio, e
permite, segundo um comunicado
de imprensa da Axon, "o envio automático de fotografias e vídeos
captados por drones para um sistema digital de gestão de
provas".
Acontece que a
Skydio é também um grande fornecedor do Departamento de Defesa, tendo assinado
recentemente um contrato para
fornecer drones de reconhecimento ao Exército dos EUA. Como
fornecedor significativo tanto para as forças militares como para as forças de
segurança civis, isto tem levantado algumas velhas questões (sempre atuais)
sobre quais são ou serão as informações partilhadas entre os militares dos EUA
e as agências de segurança interna através do sistema de gestão de provas
digitais da Skydio-Axon.
Se nos
lembrarmos que os conflitos são sempre os grandes laboratórios para o
desenvolvimento das novas tecnologias de vigilância, onde elas são testadas, e
se verificarmos que neste caso da Skydio ela captou centenas de milhões de
dólares de capitalistas de risco israelo-americanos bem como de fundos de
capital de risco com amplos investimentos em Israel, incluindo a empresa de
Marc Andreessen, a Andreessen Horowitz, e que as Forças de Defesa de Israel
(IDF) têm intensivamente usado os seus drones, não nos iremos
espantar quando para o próximo ano virmos novos drones
para ambientes interiores a percorrer as casas das cidades americanas
(e não só).
Tudo,
evidentemente, a Bem da Nação.
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