Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Miguel Cintra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Miguel Cintra. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

de Porfírio Silva a Luis Miguel Cintra, um poema

(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos, 
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.



(9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da 

http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2015/10/ainda-bem-que-nao-fui-cornucopia-este.htmlCornucópia

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Jean Genet - A Varanda

*Ípsilon*
 
A Varanda

Num bordel, no teatro como na vida

17.11.2011 - Tiago Bartolomeu Costa 
 

Luís Miguel Cintra encena esse monumento teatral que é A Varanda, de Jean Genet, peça ainda hoje indecifrável, de uma complexidade simbólica imbatível. A peça está em cena até 18 de Dezembro.

O Thèâtre du Gymnase, em Paris, onde Jean Genet viu estrear em 1960, pela mão de Peter Brook, uma versão de A Varanda que lhe desagradou profundamente, dedica-se hoje a espectáculos musicais e à apresentação sucedânea de peças com títulos como Os Homens Vêm de Marte e as Mulheres de Vénus, Como Casar com um Milionário e A Lésbica Invisível - One woman show. Longe, portanto, de peças de confronto e reflexão como as que Genet desejava, ao ataque de um público que se havia aburguesado e recusava ver, e estar, num teatro, como se estivesse em carne viva.

Escrevemos isto e olhamos para a fila que espera para entrar na sala de 800 lugares, sumptuosa nos seus dourados e vermelhos, em busca do riso fácil e premeditado. Talvez, numa irónica volta da História, a cama que Genet quis ver imaginada na plateia exista agora, materializada nas gargalhadas que reconhecem a normalização dos gostos, dos costumes e dos modos de se ser, afinal, espectador de teatro.

Então, dizia Genet, "era bem clara" a sua intenção ao escrever A Varanda: "A peça não é uma sátira a isto ou àquilo. Ela é - e será, portanto, representada como - a glorificação da Imagem e do Reflexo. O seu significado - satírico ou não - só assim poderá aparecer".

Trabalho inacabadoDir-se-ia, em jeito de descrição, que A Varanda se passa num bordel, aparentemente em Paris, onde nos seus diversos quadros e relações de poder se reflecte sobre a ideia de representação do poder e dos meios para o atingir, no caso, o prazer sexual. Os clientes solicitam a Irma, a dona do bordel (uma composição notável de Luísa Cruz), que os ajude a concretizar fantasias que possam, de certo modo, levá-los a acreditar que, de facto, são quem dizem querer ser. Mas para Luís Miguel Cintra, que com A Varanda volta a encontrar, pela terceira vez, Jean Genet (as outras duas peças foram Splendid"s, 1995 e Ela, 2011, e falta cumprir a promessa de encenar Os Negros, adiada para quando conseguir "que seja mesmo negra a nossa alma e para levarmos mais longe esse velho gosto de teatros dentro dos teatros", como escreveu no programa de Splendid"s), o seu prazer é mais humano do que aquilo a que, racionalmente, querem chegar".

Ao encenador interessa-lhe a "incompletude" inerente ao próprio jogo de representação: "Nunca se consegue chegar à forma definitiva e por isso será sempre um trabalho inacabado", diz-nos, indo ao encontro do que escreveu Genet: "A representação fictícia de uma acção, de uma experiência, dispensa-nos geralmente de as cumprir no plano real e em nós próprios".

Nesse sentido, A Varanda é, também, e sobretudo, um complexo jogo de actores, que a troupe do Teatro da Cornucópia, num gozo particular, se excede a executar. Uma das preocupações de Genet era, precisamente, dar a ver a dificuldade de materialização dos valores descritos na peça, nomeadamente na oposição entre forças de poder (prostituta/cliente, ordem/anarquia, paixão/ódio, família/isolamento, patrão/empregado, ladrão/polícia), através do jogo de actores, ao mesmo tempo actores de uma peça dentro de uma outra peça.

Numa carta datada de 1968 a Roger Blin, que seria o encenador de eleição de Genet, escrevia o dramaturgo: "Os actores têm sempre a tentação de "encontrar espontaneamente" os gestos que ajudam as palavras a saírem da boca. E isso dá então gestos e voz banais (no primeiro sentido de banal), uma espécie de redundância inútil".

Esta consciência levou Luís Miguel Cintra a um trabalho de profunda reflexão sobre o conflito entre o poder semiótico da palavra versus o poder simbólico da imagem. Já em Ela, onde o problema da representação da imagem do Papa - e um texto que emanou deste - era o centro do argumento, Cintra se havia visto confrontado "com discursos que pareciam incoerentes". A solução, diz, foi reconhecer "a incoerência da própria imagem com os gestos que estavam a ser feitos". A valorização dos dois aspectos vem desse dicotomia, dessa autonomia da imagem e da palavra, acredita. "Não há ninguém capaz de fazer esta personagem", diz o encenador, citando Roger (Vítor d"Andrade), o revolucionário que, de tanto acreditar no papel que está a representar, dá à peça a sua dimensão trágica.

O jogo de GenetA Varanda é uma das mais complexas peças de Genet e, ainda hoje, é difícil perceber de que falava o autor. Há uma dimensão contextual que se perdeu com o tempo, como as referências à Guerra Civil Espanhola, ou mesmo a dimensão religiosa, e que torna artificial - logo, teatral - a relação que se estabelece entre a palavra e a imagem. Deixou, com o tempo, de ser uma peça de teatro para ganhar, com a distância, uma caução de reflexão sobre a construção da própria imagem.

A importância da palavra, e das imagens criadas por e a partir delas, era para o próprio Genet fundamental. Com o desgosto causado pelas encenações que haviam sido feitas em Londres, em 1956, por Peter Zadek, ou em Berlim, Basileia e em Nova Iorque, deixou escrito como deveria ser representada a peça, caso não fosse feita por "um encenador inteligente" - o que manifestamente não é o caso de Luís Miguel Cintra, que constrói uma máquina teatral que de tão artificial se torna perigosamente irresistível (e o cenário de Cristina Reis, ecoando a ideia de caixas dentro de caixas imaginada por Genet, ecoa também o próprio teatro recente da Cornucópia, como A Cacatua Verde, de Schnitzler, apresentada no Teatro Nacional D. Maria II no início do ano, e um outro jogo dentro do teatro e da revolução).

Para Genet, as máscaras que as personagens deveriam usar, os coturnos sobre os quais se deviam empoleirar, as vestes que deveriam vestir para mais depressa, e mais perto, chegarem das figuras que deviam (desejar) representar, foram modos de pensar o próprio jogo teatral. E, por consequência, reflectirem sobre, e com, os espectadores.

O jogo de Genet, ao de certo modo impor um registo visual e cénico ao texto, dá à peça, acredita Cintra, "um carácter opaco" que não lhe interessou. Não o diz por oposição ao desejo do autor que se perguntava "como manter o equívoco até ao fim". Cintra está mais interessado naquilo que apelida de "pura metáfora" e, através dela, criar uma "cumplicidade" com o espectador que o leve a pensar onde está a verdade do jogo teatral e do próprio jogo social. E fala, por isso, da metáfora da vida e da morte, da representação e da imagem, da aproximação a um ideal e do confronto com esse mesmo ideal. Um jogo que certamente agradaria a Genet e que Cintra define como "uma multidão de metáforas, um sistema simbólico quase impenetrável, escrito na língua da ambiguidade e da ironia, monumental".

Até 18 de Dezembro (terça a sábado, às 20h30; domingos, às 16h)