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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vijay Prashad - O socialismo amadurece lentamente | Carta semanal 21 (2026)




Olalekan Jeyifous (Nigéria), Devotos da Petrotopia 01, 2021.


* Vijay Prashad

26.05.26 

Embora o sistema capitalista recompense ciclos de curto prazo, construir um futuro digno é uma tarefa lenta que exige organização, disciplina e uma luta constante para fazer surgir as forças sociais de um novo mundo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Em 1921, poucos anos após o início da experiência soviética, V. I. Lenin publicou um ensaio com o título revelador Novos tempos e velhos erros sob nova aparência. O ensaio deu início a uma linha de investigação que permaneceria com Lênin até o fim de sua vida, o que ocorreu três anos depois. O que o cativou foi a questão de como construir o socialismo em um país devastado pela guerra, com um capital mínimo à sua disposição, uma sociedade predominantemente camponesa e com altas taxas de analfabetismo (cerca de 70%) e ainda sem uma administração pública capaz de administrar um Estado de orientação socialista. Nesse ensaio, Lênin reflete:

Após um esforço enorme e sem precedentes, a classe trabalhadora de um país de pequenos camponeses e em ruínas, a classe trabalhadora que, em grande parte, ficou desclassada, precisa de um intervalo de tempo para permitir que novas forças cresçam e venham à tona, e para que as forças antigas e desgastadas possam “se recuperar”. … É preciso compreender isso e levar em conta a necessária — ou melhor, inevitável — desaceleração do ritmo de crescimento das novas forças da classe trabalhadora.

Esta carta semanal será dedicada à ideia do “intervalo de tempo” necessário para que um “país em ruínas” seja ressuscitado de seu atraso e alcance o socialismo (tenho refletido sobre isso ao reler nosso dossiê n. 100, O futuro). Discutiremos essa ideia tendo em vista a lentidão com que o processo socialista amadurece, enquanto a sociedade capitalista agoniza em meio à crise. O conceito de “maturação lenta” será apresentado aqui e aprofundado posteriormente nos trabalhos do nosso instituto.


Konstantin Yuon (URSS), Povo, 1923

Todas as revoluções socialistas do mundo moderno ocorreram em países pobres, em que o campesinato predomina e a riqueza tem sido sistematicamente drenada de seu território para terras distantes. Nessas nações mais pobres, os novos governos revolucionários — seja na União Soviética (1917), no Vietnã (1945), na China (1949) ou em Cuba (1959) — tiveram de desenvolver sua própria capacidade estatal partindo praticamente do zero e reunindo recursos financeiros para a construção de infraestrutura e indústria. Nem a capacidade estatal nem o capital surgiram facilmente nesses processos revolucionários, o que os obrigou a realizar experiências que não foram devidamente documentadas. Aqui estão seis pontos elaborados a partir do que sabemos sobre esses processos, que servem como base para desenvolver uma teoria do conceito de “maturação lenta”. Convidamos você a nos escrever com suas próprias ideias sobre esse conceito, com base em suas experiências e estudos.

1. A confiança se conquista aos poucos, e é difícil abandonar velhos hábitos.
Os governos revolucionários herdam estruturas moldadas ao longo de gerações por antigas hierarquias de castas e tribais que regem as relações agrárias, pela humilhação e expropriação coloniais e pela privação social total. Os bolcheviques na União Soviética, por exemplo, descobriram rapidamente que a antiga cultura burocrática czarista não havia desaparecido em outubro de 1917. A corrupção, a deferência à autoridade e a desconfiança nas instituições coletivas persistiram durante anos. Na China, após a Revolução de 1949, o Partido Comunista enfrentou repetidamente os resquícios da hierarquia confucionista, os sistemas regionais de clientelismo e os hábitos de sobrevivência dos camponeses, forjados ao longo de séculos de insegurança. Em Cuba, após 1959, a liderança revolucionária falava abertamente sobre a criação de um “novo ser humano”, pois compreendia que a consciência socialista não poderia ser imposta por lei da noite para o dia.

As pessoas que vivem sob a violência do colonialismo e as desigualdades do capitalismo aprendem a se proteger individualmente ou por meio de redes familiares. Para que um projeto socialista tenha sucesso, as pessoas precisam aprender a confiar nos sistemas coletivos. Essa confiança cresce lentamente com a experiência – por meio de escolas que funcionam, clínicas que curam, moradias que abrigam e instituições que perduram. Uma revolução pode tomar o poder do Estado rapidamente, mas não consegue transformar a psicologia social de forma tão rápida.


Douglas-Perez-Cuba-The-porvenir-2008

2. As redes comerciais e financeiras favorecem a ordem global atual.
O capitalismo não domina apenas por meio da ideologia, mas também por meio de redes consolidadas de comércio e finanças, bem como da infraestrutura de transportes e comunicações. Os países que buscam uma transformação socialista entram em um mundo já organizado em torno da acumulação capitalista. Após a Revolução Russa, a União Soviética enfrentou dificuldades porque as cadeias de abastecimento industrial, as redes bancárias e as rotas comerciais eram controladas por potências capitalistas hostis. A experiência de Cuba após o colapso da União Soviética em 1991 demonstrou isso de forma contundente: a ilha perdeu o acesso a combustível, peças de reposição, crédito e relações comerciais praticamente da noite para o dia, pois a economia mundial estava estruturada em torno de sistemas dos quais Cuba estava amplamente excluída (e dos quais está sendo ainda mais excluída atualmente pelo embargo petrolífero ilegal imposto pelos Estados Unidos). Após a reunificação em 1975, o Vietnã enfrentou enormes dificuldades para reconstruir uma economia devastada pela guerra, mantendo-se à margem dos principais circuitos financeiros e comerciais. Os sistemas existentes se perpetuam porque todas as instituições, desde os portos até as moedas e os padrões de software, atuam nesse sentido. Construir redes alternativas leva décadas, não anos.

3. Os custos de capital e de infraestrutura são enormes nos países empobrecidos pelo colonialismo.
Quando os revolucionários vietnamitas derrotaram o imperialismo estadunidense, herdaram um país fisicamente devastado pelos bombardeios e quimicamente contaminado pelo Agente Laranja. Cuba herdou uma economia baseada na monocultura do açúcar, ligada quase exclusivamente aos Estados Unidos. Em 1949, a China emergiu de um século de humilhações e domínio dos senhores da guerra, do imperialismo japonês e da guerra civil, com baixa expectativa de vida, analfabetismo em massa e fraca capacidade industrial.

Essas revoluções tiveram que construir ferrovias e portos, escolas e instituições científicas, redes elétricas e siderúrgicas – praticamente do zero. Os países capitalistas do Atlântico Norte se industrializaram ao longo de séculos, financiados pela escravidão, pela pilhagem colonial e pelos tributos imperiais. Esperava-se que as instituições estatais socialistas dos países mais pobres que haviam sido colonizados condensassem esse processo em poucas décadas, mesmo sob bloqueio ou ameaça militar, e depois eram acusadas de falência estatal. O enorme peso material retardou a transformação.


Đặng Thái Tuấn (Vietnã), Sem título (Loja de conveniência móvel), 2021

4. Pressões externas – como sanções, sabotagem, isolamento diplomático e guerra – retardam o desenvolvimento.
Todos os Estados revolucionários do Terceiro Mundo enfrentaram cerco militar ou sanções econômicas. A União Soviética foi invadida por soldados de mais de uma dúzia de países estrangeiros após 1917 e, posteriormente, enfrentou a invasão nazista, que causou a morte de pelo menos 27 milhões de cidadãos soviéticos e destruiu dezenas de milhares de cidades e vilarejos. Cuba vem sofrendo há décadas com as sanções dos Estados Unidos, destinadas explicitamente a provocar escassez e descontentamento social. O governo da Unidade Popular (UP) do Chile tentou uma transformação estrutural, mas enfrentou uma desestabilização econômica imediata, resistência das elites e intervenção externa antes que as reformas de longo prazo pudessem se consolidar. O governo sandinista da Nicarágua enfrentou uma guerra contra os Contras, financiada pelos Estados Unidos, e a exploração dos portos do país, incluindo Corinto. O Vietnã travou uma guerra anticolonial entre 1945 e 1975.

Essas pressões consumiram recursos que teriam sido destinados ao desenvolvimento social. As sanções aumentam os custos de transação, limitam o acesso à tecnologia e geram escassez crônica. A guerra destrói a infraestrutura e redireciona a força de trabalho para a defesa. Nessas condições adversas, as ineficiências não decorrem de ideologias ou erros de planejamento, mas das condições de emergência permanente impostas por potências hostis.

5. Todo processo é ineficiente em suas fases iniciais.
Os Estados revolucionários procuram criar novos sistemas administrativos, ao mesmo tempo que ampliam os serviços de educação e saúde, além de promover a reforma agrária e o desenvolvimento industrial. Erros e confusões burocráticas, gargalos e escassez são inevitáveis. O sistema de planejamento soviético inicial enfrentou dificuldades de coordenação, pois não havia precedentes históricos para a administração de uma economia continental baseada na justiça social, em vez do lucro. As comunas e os projetos industriais da China foram prejudicados pela falta de conhecimento técnico e pela implementação local desigual. Em Cuba, a escassez de profissionais qualificados se agravou quando muitos fugiram para Miami após a revolução.

A administração pública aprende com a prática. As instituições amadurecem por meio de tentativa e erro. Espera-se que os governos socialistas dos países mais pobres alcancem eficiência de imediato, ao mesmo tempo que enfrentam embargos, baixas taxas de alfabetização e escassez de tecnologia. A ineficiência inicial não é, portanto, algo excepcional, mas sim uma característica de qualquer transformação social em grande escala.


Ming Wong (Cingapura), Ascensão ao Palácio Celestial III, 2015.


6. Os ciclos eleitorais curtos impedem a transformação social.
A transformação social exige horizontes de planejamento que se estendem por décadas — e não por ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, que privilegiam o consumo imediato em detrimento da reconstrução a longo prazo. Os governos revolucionários exigem paciência antes que se vejam resultados concretos. Mesmo fora dos Estados explicitamente socialistas, governos que tentam implementar programas de redistribuição ou de desenvolvimento frequentemente enfrentam sabotagem por meio de eleições antes que os projetos amadureçam. Uma política transformadora exige continuidade, mas os sistemas eleitorais, moldados pelos ciclos da mídia e pelas pressões financeiras, recompensam a gestão de curto prazo. As experiências socialistas, portanto, se depararam repetidamente com a contradição entre o tempo histórico (o longo período necessário para transformar a sociedade) e o tempo eleitoral (o ritmo acelerado da política moderna).


Eva Schulze-Knabe (RDA), Mulheres

Na peça “A Mãe” (1931), de Bertolt Brecht, a personagem principal, Pelagea Vlassova, enfrenta uma tragédia após outra até que a Revolução Russa a leva a agir. Quando ela se vê numa cozinha com várias mulheres, uma das quais reclama que o comunismo não passa de um crime, ela responde cantando:

É lógico – qualquer pessoa consegue entender. É fácil.
Se você não é um explorador, você consegue entender.
Isso faz bem para você. Dê uma olhada nisso.
Os tolos chamam de tolice, e os corruptos chamam de corrupção.
É contra o que está podre e contra a estupidez.
Os exploradores chamam isso de crime.
Mas sabemos
É o fim do crime.
Não é loucura, mas
o fim da loucura.
Não é o caos
mas ordem.
É uma coisa simples
tão difícil de conseguir.

Ao pensar em “amadurecer lentamente”, me lembrei da música da Vlassova. Vlassova trabalhou a vida inteira, mas pouco tinha para mostrar além de sua dignidade. Ela pode não ter tido uma educação completa, mas era muito esperta. Ela sabia que o comunismo era uma “coisa simples”, mas não era do tipo que vivia no mundo da fantasia. É simples, mas “difícil de colocar em prática”.

Cordialmente,

Vijay

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/o-socialismo-amadurece-lentamente-256739
https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-amadurece-lentamente/

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo

* Vasco Cardoso

Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP

Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates e das lutas

Perdi a conta à rajada de artigos contra o PCP que foram publicados no seguimento da morte de Carlos Brito. À diversidade de autores – na maioria dos casos repetentes neste tema -, não correspondeu propriamente diversidade de argumentos, quanto muito a disputa por ver quem é que adjectivava de forma mais grotesca, quem fazia a melhor caricatura dos comunistas e do seu Partido. É nessa disputa que o artigo de Henrique Raposo se destaca. Pelo nível do insulto, pelo ódio incontido e, sobretudo, pela mentira grosseira e delirante, que nos vai tomando conta dos dias e que está para lá de Trump ou Ventura, como se sabe e se vê.

Como outros, HR julgou estar perante uma boa oportunidade para dar lastro ao seu anti-comunismo. É uma espécie de obrigação moral que assume e que tem estado presente em muitos dos seus textos. Compreende-se que assim seja, não é fácil viver do que se escreve... “Comunista do interior” - é este o título do artigo – é assim uma espécie de roteiro pelos mais primários preconceitos. Lá encontramos muito do que se destila por aí: comunismo igual a fascismo; comunismo depende da “irracionalidade“; o PCP queria substituir uma ditadura por outra ditadura; comunista bom é um ex-comunista.

Mas onde a mentira se junta com o delírio é quando HR passa à reescrita da história. É aí que HR se superioriza a intelectuais da estirpe de José Milhazes, numa espécie de vale tudo. As teses, mais coisa menos coisa, são estas: Álvaro Cunhal “não queria o 25 de Abril” e tudo fez para o “travar”, ao contrário de CB; AC e outros dirigentes do PCP que se encontravam no exílio (“parisiense”) durante o fascismo vivia no bem bom e “não conhecia o País”, ao contrário de CB que vivia na clandestinidade (no “interior”) e enfrentava a PIDE, pois claro!

HR estará convencido de que a distância temporal que nos separa da Revolução de Abril, somada às sucessivas campanhas contra o PCP (mais uma!) e ao processo de reescrita da história - que visa transformar os fascistas em democratas e os comunistas em inimigos da democracia -, serão suficientes para que as suas mentiras ganhem asas nestes tempos de “pós-verdade”. Mas a consistência dos “argumentos” é tão miserável, tão distante da memória e experiência concreta de milhões de portugueses que corre o risco de se virar contra o próprio autor. Como é comum e recorrente em muitos destes anti-comunistas primários aí está a tentativa de credibilizar o seu texto, invocando ser neto de um membro do PCP. Como se isso lhe desse autoridade suficiente (a ele, ou alguém) para fazer passar o seu contrabando ideológico.

É claro que HR sabe que está a mentir com quantos dentes tem na boca. Um partido que lutou ao longo de 48 anos para derrotar o fascismo, fê-lo para tornar possível o 25 de Abril, não para o impedir, como insinua HR. Um partido que, perante assassinatos, prisões, tortura e mil tentativas de liquidação, colocou alguns dos seus principais quadros no estrangeiro, fê-lo, não por privilégio de alguns, mas como forma de defender o Partido da acção repressiva do fascismo e da PIDE. Um Partido cujos dirigentes e militantes vieram das fábricas e dos campos, que passaram anos a fio nas prisões fascistas, que calcorrearam o País de lés-a-lés, que viviam com as mesmas dificuldades com que vivia a maioria da população, que tinham profunda ligação a sectores intelectuais, não é um partido que desconhecia a realidade, mas aquele que mais profundamente nela tinha mergulhado, facto que poderá ser confirmado na vida e na imensa obra teórica de AC.

Mas não é só, nem fundamentalmente, o passado do PCP que incomoda HR. Quanto muito, dificulta-lhe a vida. O que incomoda verdadeiramente HR é o que o PCP representa hoje, o que o seu ideal e projecto significam no presente e para o futuro. Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates, e das lutas, que se travam na nossa sociedade.

O que incomoda é o facto do PCP estar ao lado dos trabalhadores quando lhes querem impingir o Pacote Laboral, é a denúncia do sórdido negócio dos grupos privados que ameaça destruir o SNS, é o combate às privatizações e ao domínio do capital estrangeiro sobre a economia nacional, é a defesa dos interesses de Portugal perante imposições de Washington e Bruxelas, é luta pela paz quando muitos se deixam seduzir pelos tambores da guerra. E é a sua acção prática, quotidiana, aparentemente invisível, que se desenvolve em muitos locais onde vive gente de carne e osso, e que muitos destes escribas, nem suspeitam que possam existir. Uma intervenção corajosa e que, neste tempo de sombras, aponta um caminho de ruptura e alternativa, que não deixa os trabalhadores e o povo à mercê dos que se julgam donos disto tudo. Tudo isto tem muita força, como bem sabe HR, e é um poderoso capital de atracção junto de todos os que vivem mais perto das dificuldades do que dos jornais. No fundo, HR exprime o medo que sempre sentiram as classes dominantes ao longo de séculos. É o medo que empurra HR para o delírio e a mentira.

2026 05 22 

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-22-a-agua-suja-do-anti-comunismo-d75124b7

domingo, 19 de abril de 2026

Discurso de Chaplin em 'Monsieur Verdoux'


Aguardando a execução por seus crimes, Verdoux diz a um jornalista: "Um assassinato faz de alguém um vilão... milhões fazem de alguém um herói. Os números santificam meu bom amigo."



Transcrição das declarações finais de Verdoux ao tribunal durante seu julgamento em Monsieur Verdoux :

Juiz: Senhor Verdoux, o senhor foi considerado culpado. Tem algo a dizer antes que a sentença seja proferida?

Verdoux: Sim, senhor, eu tenho. Por mais negligente que o promotor tenha sido em me elogiar, pelo menos admite que eu tenho cérebro. Obrigado, senhor, eu tenho. E por trinta e cinco anos o usei honestamente, depois disso… ninguém o quis. Então fui forçado a abrir meu próprio negócio. Quanto a ser um assassino em massa, o mundo não o incentiva? Não é construir armas de destruição com o único propósito de matar em massa? Não explodiu mulheres e crianças inocentes em pedaços, e o fez de forma muito científica? Como assassino em massa, sou um amador em comparação. No entanto, não quero perder a cabeça, porque muito em breve perderei a cabeça. Mesmo assim, ao deixar esta centelha de existência terrena, tenho isto a dizer… Vejo vocês todos muito em breve… muito em breve…


As seguintes linhas foram suprimidas do discurso, presumivelmente para satisfazer o gabinete de Breen:

Ficar chocado com a natureza do meu crime não passa de uma farsa… uma simulação! Vocês se deleitam no assassinato… vocês o legalizam… vocês o adornam com galões de ouro! Vocês o celebram e o exibem! Matar é a atividade que sustenta o seu Sistema, a base da sua indústria!


Trecho de uma carta do Escritório Breen para Chaplin, parte de uma correspondência relativa à censura "necessária" do filme antes de seu lançamento: "A alegação de Verdoux é, derivativamente, que é ridículo se chocar com a extensão de suas atrocidades, que elas são uma mera 'comédia de assassinatos' em comparação com os assassinatos em massa legalizados da guerra, que são embelezados com galões de ouro pelo 'Sistema'."

Naturalmente, a alegação de Verdoux não foi bem recebida pelos responsáveis ​​pela censura.

https://www.charliechaplin.com/en/articles/244-Speech-from-Monsieur-Verdoux

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Prabhat Patnaik - Poderia a Europa proporcionar uma "terceira via"?


Desigualdade crescente da riqueza.


Prabhat Patnaik [*]

Com a administração Trump a adotar medidas brutalmente repressivas não só contra os imigrantes mas também contra os cidadãos americanos, surgiu uma tendência nos círculos liberais americanos de olhar para a Europa como uma "terceira via", um "modelo" diferente tanto da China como dos EUA, as duas grandes potências em disputa no mundo atual. É claro que os liberais americanos nunca foram apaixonados pela China; portanto, não é surpreendente que rejeitem o "modelo" chinês. Mas com a democracia a enfraquecer nos próprios EUA, eles veem na Europa um potencial para combinar êxito económico com democracia eficaz, direitos humanos e justiça social. Para que esse potencial se concretize, acreditam que a Europa deve colocar a sua economia em ordem, mantendo as forças de extrema direita à distância.

Embora a democracia europeia possa parecer atraente para os liberais americanos, aos olhos do terceiro mundo ela sempre foi associada ao imperialismo, e isso continua a ser o caso mesmo após o fim formal dos impérios coloniais. A Grã-Bretanha tem sido cúmplice ativa na maioria das conspirações levadas a cabo pelo imperialismo norte-americano contra governos "recalcitrantes" do terceiro mundo que procuraram ou exerceram controlo independente sobre os seus próprios recursos naturais, desde Mossadegh no Irão, a Lumumba no Congo, a Saddam Hussein no Iraque. Quanto à França, a descolonização nunca foi concluída na África francófona, com tropas francesas continuando a estar estacionadas na maioria das antigas colónias francesas formalmente independentes. Quando Thomas Sankara, do Burquina Faso, procurou livrar-se das tropas francesas, foi derrubado e assassinado num golpe de Estado que se suspeita ter sido fortemente apoiado pela França; só agora é que está a ser feito um esforço renovado em alguns países da África Ocidental, incluindo o Burquina Faso, para se livrar das tropas francesas.

O apoio dado pela Europa ao genocídio em Gaza faz parte desse padrão; e, além disso, vários liberais europeus alinharam-se, pelo menos implicitamente, com o apoio de seus governos ao genocídio, como ficou evidente, por exemplo, quando o cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, questionado sobre esse genocídio, disse que a política deveria ser mantida separada do cinema.

Mas vamos esquecer tudo isso; vamos também esquecer o facto de que a Europa é responsável pelo naufrágio dos acordos de Minsk, que poderiam ter evitado a guerra na Ucrânia, e é hoje a oponente mais veemente de qualquer solução pacífica para este conflito. Esqueçamos a sua cumplicidade tanto no esforço para alargar a NATO até à fronteira russa como na derrubada de Viktor Yanukovych, que foi auxiliada e incentivada, como até o Instituto Cato, sediado nos EUA, admite, pela administração liberal de Obama. Examinemos apenas o argumento restrito sobre a possibilidade de a Europa proporcionar uma "terceira via".

O que este argumento geralmente pressupõe é que estas peripécias de Trump são devidas inteiramente às suas falhas pessoais; o que não questiona é por que razão uma pessoa assim chegou ao poder nos EUA e por que razão também na Europa o meio-termo liberal parece estar a desmoronar-se, tal como aconteceu com a eleição de Trump nos EUA. Dito de outra forma, o argumento não relaciona a eleição de Trump, ou as perspetivas políticas da Europa, com quaisquer causas económicas subjacentes, em particular com o estado atual do capitalismo.

A característica mais marcante do capitalismo contemporâneo que caracteriza tanto os EUA como a Europa é um enorme declínio na participação da classe trabalhadora no rendimento nacional. Na verdade, esse declínio foi tão grande que Joseph Stiglitz chega a sugerir que o salário real de um trabalhador americano médio em 2011 era inferior, em termos absolutos, ao de 1968. Também na Europa, de acordo com o Banco Central Europeu, os salários reais, que caíram drasticamente em termos absolutos em 2022-23, não recuperaram o seu nível do quarto trimestre de 2021 até ao quarto trimestre de 2024; e a crise energética na Alemanha, resultante da guerra na Ucrânia, só veio agravar os problemas da sua classe trabalhadora. No entanto, para além das flutuações específicas, tem havido um choque salarial geral para os trabalhadores europeus (tal como, de facto, para os trabalhadores americanos) decorrente do fenómeno da globalização neoliberal, que se prolonga há décadas, em que a mobilidade do capital sujeitou estes trabalhadores ao impacto nefasto das enormes reservas de mão-de-obra do terceiro mundo nas suas reivindicações salariais. A cólera dos trabalhadores dos países capitalistas avançados contra os regimes políticos liberais que promoveram os regimes económicos neoliberais é, portanto, significativa e compreensível; o enfraquecimento das forças políticas liberais em todos esses países, do chamado “meio-termo” entre a extrema direita e a esquerda, é o resultado direto disso.

Na verdade, esses elementos "centristas", seja Hilary Clinton nos EUA, o New Labour no Reino Unido, Macron na França ou Friedrich Merz na Alemanha, também têm sido notavelmente alheios e, portanto, indiferentes à situação dos trabalhadores nos seus respetivos países; e muitos deles são ex-funcionários de grandes empresas, como Merz, que trabalhou na gigante financeira Blackrock. Os trabalhadores, portanto, voltaram-se para a extrema-direita ou para a esquerda; e onde a esquerda foi frustrada pelas maquinações desse “centro”, como foi o caso de Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha ou Bernie Sanders nos EUA, eles migraram em grande número para a extrema-direita. Só em França é que uma esquerda unida conseguiu frustrar tais maquinações e emergiu como a formação política mais forte, empurrando a extrema-direita liderada por Marine Le Pen para o segundo lugar.

Reverter o declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional, que constitui uma condição necessária para obter o seu apoio e, portanto, para preservar a democracia contra o ataque da extrema direita, requer uma intervenção fiscal ativa por parte do Estado. Mas tal intervenção é impossível num mundo onde não há controlo de capitais, pois qualquer intervenção desse tipo daria origem a uma fuga de capitais do país que a tentasse. Por outras palavras, qualquer reversão do declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional requer uma retirada do regime neoliberal, que só a esquerda pode realizar; a extrema direita pode prometer uma melhoria nessa participação, mas necessariamente trairá essa promessa, uma vez que a extrema direita requer, para o seu sucesso, o apoio do capital monopolista, que obviamente não toleraria um declínio na sua própria participação no rendimento.

Os círculos liberais americanos que depositam as suas esperanças na Europa para fornecer um "modelo", uma "terceira via", e gostariam que a sua economia passasse por uma transformação, não abordam este ponto básico. Ou seja, que a espontaneidade do capitalismo, restaurada pelo neoliberalismo após a fase pós-guerra de intervenção estatal keynesiana, implica uma tendência imanente de desigualdade de rendimentos que trouxe sofrimento à classe trabalhadora e cuja consequência foi a ascensão da extrema-direita. A Europa não pode servir de "modelo" de qualquer tipo, a menos que essa espontaneidade seja superada através da intervenção de um governo sensível às necessidades da classe trabalhadora, ou seja, um governo de esquerda, o único capaz de tirar a economia das garras do neoliberalismo, impondo controlos de capitais. Esses círculos podem ver a necessidade de algum recuo em relação ao atual nível de globalização, mas os controlos de capitais vão ao cerne do neoliberalismo.

Não apenas as economias europeias, mas a economia mundial como um todo atingiu hoje um momento crítico, em que a preservação da democracia exige a chegada ao poder de governos sustentados pelo apoio da classe trabalhadora (ou, no caso dos países do terceiro mundo, pelo apoio do povo trabalhador como um todo, composto por trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e pequenos produtores). Os limites à ação governamental na Europa surgem não por causa da natureza e do nível da integração europeia, mas, como em todas as outras regiões do mundo, por causa da camisa de força do neoliberalismo. O problema com os liberais, o que também se aplica à tendência liberal americana que temos vindo a discutir, é que eles não estão suficientemente conscientes deste facto.

A situação difícil da Europa hoje não é, portanto, diferente da dos Estados Unidos. É verdade que ela teve uma história diferente e, assim, um legado económico diferente dos Estados Unidos, decorrente das correlações muito diferentes das forças de classe no final da Segunda Guerra Mundial; mas todas essas diferenças foram superadas atualmente pela exposição comum às tendências imanentes do capitalismo neoliberal. As consequências dessa exposição exigem não a busca de algum “modelo” europeu distinto do que vem acontecendo nos Estados Unidos, mas a superação do capitalismo neoliberal. Donald Trump, é preciso enfatizar, não conseguiu isso, apesar de sua agressividade tarifária: ele permanece fiel à essência do neoliberalismo por seu compromisso com o livre fluxo de capitais transfronteiriços, especialmente fluxos financeiros.

22/Fevereiro/2026

https://resistir.info/patnaik/patnaik_22fev26.html
Ver também:

World Inequality Report 2026 (para descarregamento, 208 p.)  in  https://wir2026.wid.world/

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0222_pd/can-europe-provide-“third-way”

sábado, 6 de janeiro de 2024

O novo ano, o estado mínimo e a concertação social (2014)


05.01.24 | Manuel


Crónica escrita em Janeiro de 2014, em último ano do governo PSD/CDS/PP, denunciando a política de austeridade e de compra da paz social, muito semelhante à que se seguiu com o governo da geringonça mas este em versão mais mitigada. A história tende a repetir-se.

O ano de 2013 terminou com a privatização dos CTT, ficando como sócio privado maioritário o banco norte-americano Goldman Sachs, e o novo ano de 2014 iniciou-se com a privatização da Caixa Seguros, que é entregue à sociedade chinesa Fosun Internacional por 1209 milhões de euros, na saga da EDP e REN. É a privatização a todo o vapor e a todo o custo, com as empresas públicas a serem alienadas abaixo do seu real valor e entregues ao grande capital financeiro estrangeiro.

 


O ano de 2014 começou com a nomeação do ex-ministro José Luís Arnaut para o conselho consultivo internacional do tal Goldman Sachs, como paga pelos bons serviços prestados pela privatização dos CTT e não só, e com o ex-ministro Álvaro Santos Pereira para braço direito do economista-chefe da OCDE, também pelos bons serviços em prol do grande capital estrangeiro, e da candidatura de Vítor Gaspar, ex-ministro das Finanças, a director para os assuntos fiscais do FMI, contando com o apoio da Alemanha, igualmente pelo bom trabalho realizado em Portugal a favor do FMI, da Alemanha e do restante capital financeiro europeu; isto é, os lacaios do grande capital entre nós são premiados pelo trabalho de empobrecimento do povo português.

Dá para afirmar que até existe um estado social, cá e lá fora, para o bem-estar de toda a sorte de homens de mão dos bancos, entretanto as funções sociais do estado são privatizadas, bem como restante património público, no aumento da pobreza entre nós e na Europa. É mais do que simples promiscuidade entre a política e a economia, entre o estado e os interesses económicos privados, é o estado capitalista a funcionar no seu máximo esplendor, revelando a sua natureza, uma máquina de exploração e de opressão do trabalho pelo capital, é o Robin Hood ao contrário, roubando aos pobres para dar aos ricos.

Assim se vê que o estado não é uma entidade neutra, acima das classes, ele é um instrumento ao serviço da classe possidente e actuando sempre contra quem trabalha e produz, e quando concede mais alguma migalha aos trabalhadores ou aos cidadãos em geral é porque, como qualquer patrão que se preze, foi obrigado a isso pela luta travada por aqueles. A classe que o gere é gente cujos interesses se medem exclusivamente pelo saldo das contas bancárias, cuja alma sempre pertenceu ao diabo (capital), ainda antes de terem nascido, e que vão garantindo o futuro nem que seja pela eventualidade do povo se revoltar e ter de dar às de Vila Diogo. Há que acabar com a s ilusões quanto à natureza e bondade do estado, próprias da pequena-burguesia.

O ano de 2013 terminou com greves dos trabalhadores dos transportes e o ano de 2014 começou com greves dos mesmos trabalhadores, no entanto, em ritmo de passeio, numa paz podre social que tem permitido ao governo aguentar-se; greves que têm desaguado em pouca coisa. É a concertação social a funcionar, embora as medidas austeritárias sejam impostas à revelia do acordo pelo menos expresso das direcções sindicais, com excepção da UGT, e de alguma relutância das associações dos comerciantes que se vêem, estes, em grande parte, confrontados com a falência em catadupa; muito do aval é dado de forma implícita e disfarçada.

Esta paz social foi bem exemplificada, ainda há pouco tempo, pelo acordo entre o maior banco privado português (BCP), em situação de semi-falência, diga-se de passagem, e os sindicatos (da UGT), para a redução dos salários a troco de não haver despedimentos (estariam uns 400 previstos), embora este banco tenha sido dos que mais tem despedido ultimamente; no entanto, faz parte do plano acordado as reformas antecipadas, que mais não são que despedimento disfarçado, rescisões por mútuo acordo e programa de saídas por adesão voluntária. Ou seja, os despedimentos far-se-ão, mas de forma discreta, sem dar muito nas vistas. Na prática, os sindicatos foram levados, e com eles os trabalhadores, a aceitar todo o plano montado pela administração do banco a fim de o rentabilizar e assim salvá-lo da falência, já anunciada por diversos indícios, um pouco à semelhança do que o governo vem fazendo a nível do país.

O povo sente-se revoltado mas não manifesta essa revolta, não dá rédea larga ao que sente, auto-reprime-se, para além do cinto de contenção em que é envolvido pelos sindicatos reformistas e pelos partidos da esquerda responsável. Como que uma relação dialéctica entre os representados e os representantes, direcções sindicais apaziguantes, trabalhadores conciliadores e pacíficos. Embora a revolta seja visível, mas latente, só que não eclode, como vulcão adormecido.

O governo, através do Orçamento Rectificativo, vai “recalibrar” os cortes feitos aos aposentados, alargando a base sobre a qual o saque é exercido, será a partir dos 1000 euros mensais, que é na prática um verdadeiro imposto. Contudo, talvez para dourar a pílula, o roubo aos aposentados não se denomina “roubo” mas “contribuição extraordinária de solidariedade” (solidariedade para com os ladrões). De igual modo, o roubo de 5% e 6%, respectivamente, dos subsídios de doença e desemprego não é roubo mas “contribuição”, ou o aumento dos descontos para a ADSE, como forma de compensar em parte o chumbo pelo Tribunal Constitucional aos cortes nas pensões como o governo delineou inicialmente, é também uma “contribuição”; o alargamento do roubo a uma camada mais vasta do povo denomina-se “alargamento da base de incidência”.

Utiliza-se uma linguagem branda, simpática, soft, como agora gosta-se de dizer, para esconder a rudeza e a crueldade da realidade que se pratica. Passou a ser moda usar este tipo de linguagem especialmente quando Cavaco foi para o governo e deu início ao plano de concentração capitalista que agora estará perto de chegar ao seu terminus. Desde o cavaquismo que se começou a dizer “colaborador” em vez de trabalhador, ou seja, o trabalhador “colabora” com o patrão, a quem vende a sua força de trabalho e assim vê extorquida por este a mais-valia; o patrão já não é patrão é “empresário”, isto é, um empreendedor que gosta de empreender, de preferência à custa do estado, sem investimento de risco e quando há prejuízo o estado que fique com o passivo porque ele, o empresário e de sucesso, já colocou em bom recato os seus ricos lucros.

Esta mudança de linguagem aconteceu um pouco à semelhança, e pelas mesmas razões, da concertação social; ela própria faz parte da concertação social, ela é resultado da paz podre social que se vive em Portugal. Uma faceta do que se denomina como “nacional porreirismo”. Mas não é com esta paz podre e este mundo de conciliações que os trabalhadores se livrarão da política de austeridade que se promete por muitos e bons anos, senão décadas, assim como do que se encontra na sua base, a exploração do capitalismo.

Tem sido a concertação social que tem impedido a realização de greves gerais nacionais em quantidade e em amplitude de molde a derrubar o governo fascista PSD/CDS-PP. Em 2014, com a continuação da política de austeridade, com ou sem segundo resgate, e formalmente sem a troika, a atitude dos trabalhadores deve ser a de combate sem tréguas, embora em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu saia da cartola alguma benesse ou ligeiro alívio da austeridade.

É intenção clara do senhor Silva de Boliqueime ir prolongando, custe o que custar, a vida do governo, em Maio acabará o resgate e a troika ir-se-á embora, será um final feliz, segundo eles, e será véspera de eleições. Até ao Verão ir-se-á encanar a perna à rã, e para a encenação contribuirão PCP, BE e CGTP com o receio de não sofrerem o ónus do derrube do governo. Enquanto esta gente continuar com a estratégia de não ultrapassar os limites do quadro institucional, de querer apresentar propostas para resolver a crise, mas sem eliminar a causa que a provoca, então teremos esta paz podre, porque também o povo trabalhador eleitor ainda acredita que é possível resolver a crise do capitalismo sem lhe pôr fim, que este regime de democracia parlamentar é o regime político capaz de lhe resolver os problemas de povo explorado. Enquanto se mantiver estas ilusões, o governo de Cavaco sem Cavaco manter-se-á e outro que lhe suceda continuará a obra de acumulação e concentração capitalistas.

13 de Janeiro 2014
https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/o-novo-ano-o-estado-minimo-e-a-138441#:~:text=O%20novo%20ano,de%20Janeiro%202014



sábado, 30 de janeiro de 2021

Carta de Patrice Lumumba a sua esposa




Minha querida esposa,

Eu estou escrevendo estas palavras a você, não sabendo se elas um dia chegarão em suas mãos, ou se estarei vivo quando você as ler.
Ao longo da minha luta pela independência de nosso país nunca duvidei da vitória de nossa causa sagrada, da qual eu e os meus companheiros temos dedicado todas as nossas vidas.
Mas a única coisa que nós queremos para o nosso país é o direito a uma vida digna, a dignidade sem pretensões e a independência sem restrições.
Isso nunca foi o desejo dos colonialistas belgas e de seus aliados ocidentais, estes que receberam, direta ou indiretamente, aberta ou secretamente, apoio de alguns oficiais dos cargos superiores das Nações Unidas, o corpo sobre o qual nós colocamos toda a nossa esperança quando recorremos a ele para obter ajuda.
Eles seduziram alguns dos nossos compatriotas, compraram outros e fizeram de tudo para distorcer a verdade e manchar nossa independência.
O que eu posso dizer é o seguinte, que eu, – vivo ou morto, livre ou preso – não é o que importa.
O que importa é o Congo, nosso povo infeliz, cuja independência está sendo espezinhada.
É por isso que eles nos trancaram na prisão e por esta razão eles mantém-nos longe do povo. Contudo, minha fé continua indestrutível.
Eu sei e sinto profundamente em meu coração que mais cedo ou mais tarde meu povo irá se livrar de seus inimigos internos e externos, que eles levantar-se-ão como um só e dirão “Não!” ao colonialismo, a fim de conquistar sua dignidade em uma terra livre.
Nós não estamos sozinhos. A África, Ásia, os povos livres e os povos que lutam pela sua liberdade em todos os cantos do mundo estarão sempre lado a lado com os milhões de congoleses que não desistirão da luta enquanto houver um colonialista ou um de seus mercenários em nosso país.
Para meus filhos, que eu estou deixando e que, talvez, não os veja novamente, eu quero dizer que o futuro do Congo é esplêndido e que eu espero deles, assim como todo congolês, o cumprimento da tarefa sagrada de restaurar a nossa independência e nossa soberania.
Sem dignidade não há liberdade, sem justiça não há dignidade e sem independência não existem homens livres.
Crueldade, insultos e tortura jamais poderão forçar-me a implorar por misericórdia, porque eu prefiro morrer de cabeça erguida, com uma fé indestrutível e uma profunda crença no destino de nosso país, do que viver submisso e renunciar aos princípios que são sagrados para mim.
O dia virá quando a história falar. Mas não será a história que será ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas.
Será a história que será ensinada nos países que terão se libertado dos colonialistas e de seus fantoches.
A África irá escrever sua própria história e tanto no Norte como no Sul será uma história de glória e dignidade.
Não chores por mim. Eu sei que meu atormentado país será capaz de defender sua liberdade e sua independência.

Vida longa ao Congo!
Vida longa à África!

Da Prisão Thysville,
Patrice Lumumba

Traduzido por Igor Dias

http://territorioafricano.blogspot.com/2017/09/carta-de-patrice-lumumba-sua-esposa.html

sábado, 2 de julho de 2011

Poemas contra a "evidência" (3) - Brecht



Bertold Brecht



 .
Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas



Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã



Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?





Nada é impossível de mudar 



Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

*****



Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

   compiladas por  Luis Rodrigue




Charlot em "Tempos Modernos"


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Poemas contra a "evidência" (2)





Trabalhadores - Tarcíla

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
..
Castigo Corporal - Debret (Brasik)
Ruy Mingas: Monangambé
Poema- António  Jacinto
            
                                                
Monangambé
Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"

António Jacinto (Poemas, 1961)
               

                       
NOTA:

Monangambé (O contratado) eram angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, na era colonial. Por vezes, em províncias de Angola bem distantes dos locais onde viviam. Deixavam as famílias para trás e iam ganhar a vida.


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