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in Correio da Manhã - Domingo 2008.03.09
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Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
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Tenente General Tomé Pinto (1)
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P: Encontrava-se em Angola no 25 de Abril. Gostaria de saber a sua opinião sobre o sucedido nesse território ?
R: Desempenhava as funções de Chefe da 2.ª Repartição do Comando-Chefe de Angola. Era o oficial mais jovem nesse tipo de cargos. Assim, através de oficiais do meu departamento, fui apercebendo-me dos problemas profissionais existentes nas camadas mais novas, verificando haver ligação entre Luanda e Lisboa e vice-versa, nas movimentações do designado Movimento dos Capitães, então ocorridas e muitos dos telefonemas eram feitos do meu gabinete.
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Um desses oficiais e certamente dos mais entusiastas e conhecedor do desenrolar dos acontecimentos, Capitão de Cav.ª Vilas Boas, encontrava-se no estudo da informação (parte externa) e, dentro dos princípios de lealdade, de camaradagem e amizade, que eram seu timbre, íamos conversando sobre o assunto.
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Recordo, também, um indivíduo, cujo nome não lembro, do quadro da DGS, do tipo intelectual - que me ofereceu alguns dos livros proibidos, pois tinha funções de revisor, com vista à censura das publicações -, com quem conversava sobre a situação geral e a necessidade de vir a ser alterada. Numa das ocasiões, até me alertou para que avisasse um capitão, então colocado em Carmona (Uíge), por se estar a exceder na linguagem, havendo um seu adjunto que, por querer mostrar serviço, poderia arranjar-lhe problemas...
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P: Na sua opinião a DGS de Angola não estava muito actuante...
R: Estava mais passiva do que agressiva, nesta questão do Movimento dos Capitães. Depois, fui testemunha de dois ou três, em Tribunal, e fi-lo
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Pode dizer-se que, em Angola, existiam duas facções da DGS. Uma mais aberta, de que faria parte o Director São José Lopes e outra, mais virada para a zona urbana, um tanto anquilosada.
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Recordo ainda que, na perspectiva de abertura no meio militar, ter admitido, num briefing, a necessidade de haver uma tomada de posição do poder político central sobre o Ultramar, até 23 de Setembro de 1974, dia da abertura da Assembleia das Nações Unidas, onde já existiam 60 países a considerar Portugal como um país agressor.
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Esta preocupação não era tanto pelo que sucedia em Angola, onde a situação militar estava controlada, diria mesmo, resolvida, mas na Guiné...
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P: Em termos relativos quais eram os movimentos mais fortes, em Angola ?
R: Os três eram relativamente fracos e sem significado militar.
O mais forte, em termos políticos e com ligações internacionais, era o MPLA. No entanto, no aspecto militar já tinha pouco significado, ficando ainda mais debilitado com as divisões internas, entretanto ocorridas.
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A UNITA estava controlada pela nossa parte, apesar de, em Janeiro de 1974, ter havido uns graves incidentes, quando nos matou 23 militares, no Leste, tendo quebrado o entendimento reinante, sem aviso prévio....
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P: Há quem diga que isso teria sido provocado pelo General Hipólito...
R: Não considero assim. Se bem que ele não tivesse tanta flexibilidade e argúcia, como fora a actuação do General Bettencourt Rodrigues...
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A FNLA tentava algumas infiltrações esporádicas, com cerca de 100 ou 200 elementos mas, com o nosso sistema de informações, conseguíamos detectá-los e, muito dificilmente chegavam ao coração do Norte de Angola. Com esse esquema e utilizando helicópteros, eram detectados e atacados, passados cerca de três dias após atravessarem a fronteira, o que os obrigava a regressar ao Zaire.
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Assim, pode dizer-se que a situação estava sob controlo e sem tendências para a guerrilha crescer, porque o desenvolvimento económico e social era de tal monta, que tornava injustificado esse tipo de actividades. Isto é, os anseios dos angolanos, que estavam contra a situação política, ao assistir àquele crescimento económico-social, acabavam por não ter argumentação, pois que alguns dos objectivos da sua luta estavam a ser alcançados.
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Deste modo, estariam menos dispostos a combater. Para conversar e politizar arranjam-se sempre pessoas, agora para combater e viver com sacrifício é bem mais difícil.
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P: Em relação ao comportamento dos nossos militares...
R: Havia um clima de entendimento, disciplina, confiança, dádiva à missão mas com uma certeza, da maior parte dos militares, de que a mudança política da situação relativa ao Ultramar seria inevitável, a maior ou menor prazo. Daí a minha atitude referida naquele briefing. Não tanto por Angola, mas fundamentalmente pela Guiné, como já referi. Porque, em relação a este território, na arena política internacional, a pressão era muito grande, embora o General Spínola tenha promovido, de forma significativa, o desenvolvimento económico e social. No entanto, dada a pressão internacional, a dimensão do território, a qualificação dos guerrilheiros e os meios materiais que utilizavam, estava criada uma situação complicada para Portugal. Em Moçambique, a conjuntura também estaria controlada e a guerrilha não seria uma ameaça muito consistente. O desenvolvimento económico e social, a fixação das populações, o desenvolvimento do ensino, a formação de novos quadros, a fixação de muitos quadros idos da Metrópole, uma nova mentalidade e entrosamento entre pessoas e populações foi a arma de sucesso a partir de Portugal. O feitiço africano fez o restante.
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Apesar disso a pressão internacional iria agravar-se, havendo necessidade de uma mudança da nossa política externa. Daí, ter-se constado haver contactos para uma aproximação. Mas nós, os militares no terreno, não sentíamos que tal estivesse a acontecer.
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Então, o problema dos capitães, inicialmente apenas relativo às suas carreiras, viria a enveredar pela área política, admito que a partir de Janeiro de 1974. Isso notou-se também em Angola, onde o pessoal, estando atento, acompanhou e deu uma contribuição muito firme para a evolução daquela movimentação...
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P: Gostaria agora que referisse o sucedido no 25 de Abril...
R: Com o ambiente social existente, a vida em Luanda e em toda a Angola era agradável... Lembro que a maior percentagem dos efectivos militares já eram de origem angolana.
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Aquando do 25 de Abril, quero referir um aspecto interessante, no referente ao comportamento humano. Até dias antes, a maioria dos oficiais procediam de forma disciplinada e hierarquizada; acontece o 25 de Abril e recordo que, quando o Brigadeiro Oliveira Rodrigues, Chefe do Estado Maior do Comando-Chefe, regressou a Lisboa, apenas estavam dois ou três oficiais no aeroporto militar, à sua despedida, porque, naquele momento, estava chegando ao aeroporto civil, uma delegação de oficiais do MFA. A tendência de estar ao lado do poder e junto dele é tão velha como o homem... salvos raras excepções dos chamados teimosos e/ou de forte personalidade.
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Assistiu-se, assim, a uma rápida evolução descontrolada, com indisciplina em determinadas áreas... Entretanto, fiz algumas reuniões de informação com elementos de vários partidos, incluindo os recém-formados... Ia alertando para a necessidade de haver um comportamento muito ponderado...
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P: Apesar disso, a instabilidade passou a instalar-se em Angola e, nomeadamente, em Luanda ...
R: Claro! A segurança e a confiança existente do antecedente acabou por degenerar
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P: Estava a acabar a sua comissão ?
R: Sim. Lembro-me de ter embarcado dois dias antes do Almirante Rosa Coutinho chegar a Angola. O General Silva Cardoso ainda me convidou para continuar lá, dado o conhecimento que possuía do território e populações. Não aceitei por considerar aquela situação muito complexa. Ainda bem que o fiz, face ao que viria a ocorrer posteriormente...
Naquele período apareceram problemas em Cabinda e em muitos outros quartéis...
Um descontrolo completo, que não se chegava a entender. Não havia razões para tal descalabro...
P: Considera que tal terá sido alimentado nesse sentido ?
R: Sim. Pois bastava alguém levantar o braço, para os outros o seguirem... A instabilidade em Lisboa era grande e o slogan nem mais um soldado para as colónias deu os seus frutos. O processo entrou em descomando...
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P: Era e é um oficial qualificado, sendo um dos militares envolvidos no controlo do pessoal de operações irregulares (Catangueses, TEs, Flechas, etc.) e com quem sempre tive boas relações; mas não imaginava a preponderância, que viria a adquirir em todo o processo revolucionário.
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Lembro-me que, ainda com o General Silvino Silvério Marques, como Governador, no início de uma reunião realizada no Comando-Chefe, correspondente em Lisboa, ao Conselho Superior de Defesa Nacional, onde eu estava, como entidade convidada, para formalmente emitir opinião sobre a situação geral, aparecerem o Pezarat Correia, o Major Teixeira Gil dos Comandos e um outro oficial. Ao abrir a sessão, o General Silvério Marques disse das razões de estarem ali reunidos e estranhou a presença daqueles oficiais pelo que os inquiriu. Disseram ser elementos do MFA e que Lisboa sabia daquela situação.
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O Governador referiu, então, estar a exercer as suas funções com a confiança da JSN e do PR, acrescentado que não sendo seus convidados, deveriam ser expulsos. Mas, considerando que já ali estavam, poderiam continuar a assistir aos trabalhos do Conselho. Aquele General apenas viria a permanecer cerca de um mês, em Angola, à frente do Governo Geral.
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A minha comissão, que terminara em Maio, foi continuada por mais um ou dois meses e em Julho, regressei a Lisboa. Vim a saber que houve oficiais a tentar manter algum controlo naquela situação, como o Brigadeiro Heitor Almendra, o General Gonçalves Ribeiro e muitos outros. Este último geriu de forma eficiente e excepcional o regresso do pessoal civil de origem metropolitana e outro nascido já naquele território, de modo a que, quem quisesse vir, o pudesse fazer. Foi de tal forma que, em poucos meses a população portuguesa aumentou 7%. Foi a grande questão dos retornados e dos seus dramas pessoais.
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No continente também fomos excepcionais na recepção desse pessoal, já que, por exemplo, enquanto os franceses revelaram uma certa incapacidade para resolver o regresso dos seus nacionais aquando da questão argelina, nós conseguimos absorver esse aumento impressionante de população.
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Quem vinha de lá contava-me o que ia ocorrendo, com todos aqueles incidentes entre pessoas e instituições e a desagregação da estrutura do Estado. Poderia ter sido de outra forma ? Talvez sim, talvez não. Todos fomos apanhados um pouco inocentemente na enxurrada em África e, em Lisboa, o descontrolo e a instabilidade não permitiram que o processo, afinal por todos desejado, fosse controlado. Nos tempos de hoje tenho presente a descolonização inglesa e o desmembramento do apartheid, na África do Sul... e felizmente o processo de Macau, que espero nos dignifique e nos honre a todos nós.
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NOTA:
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(1) Entrevista ( 1ª Parte ).
Alípio Tomé Pinto nasceu em 14-1-1936, em Maçores (Trás-os Montes).
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No pós-25 de Abril participou activamente nos acontecimentos que, em 25 de Novembro de 1975, levaram à consolidação da democracia em Portugal.
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Foi Comandante Geral da GNR em 1982/88, onde desenvolveu significativa actividade no âmbito da ordem pública e da reestruturação orgânica e estatuária. Entre outras condecorações foi distinguido com a Medalha de Valor Militar com palma e ferido em combate por duas vezes.
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Era consultor de empresas quando foi entrevistado em 22-12-1997, em Lisboa.
in Portugalclub (realces da responsabilidade do PortugalClub ?).
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Do Livro "Memórias da Revolução" de Autoria do Coronel Manuel Amaro Bernardo.
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Mensagem de Salazar ao Governador de Goa (Dezembro de 1961):
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"Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados ou marinheiros vitoriosos ou mortos. O ataque que está a ser desferido contra Goa deve pretender pela sua extrema violência reduzir ao mínimo a duração da luta. Convém politicamente que esta se mantenha ao menos oito dias, período necessário para Governo mobilizar em último recurso as instâncias internacionais.
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Salazar exigia que os militares de Goa lutassem 8 dias antes de morrerem. porque convinha politicamente!
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Parlamento da União Indiana declara anexados os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli (11 de Agosto). Nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros anuncia que o parlamento de Nova Delhi aprovou a integração dos territórios no território da União Indiana (16 de Agosto). Conferência de imprensa de Franco Nogueira sobre a matéria (6 de Dezembro). Tomás recebe em audiência Salazar (10 de Dezembro). Voltam a reunir-se em 14 de Dezembro.
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União Indiana invade Goa (8 horas de Lisboa, 0 horas, locais de 18 de Dezembro de 1961). Na defesa de Diu, morre em combate o tenente Oliveira e Carmo, que não era salazarista, comandante de uma lancha que, antes do infausto, em reunião com os subordinados, proclama: fazemos parte da defesa de Diu e da Pátria e vamos combater até ao último homem e até à última bala.
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NOTA de Victor Nogueira -
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Adolescente em Angola na altura, crente então na exidestência dum Portugal uno do Minho a Timor [1], desconhecia as sucessivas tentativas de Nerhu para a resolução pacífica da integração e que a maioria da população do «Estado Português na Índia» não falava português. Mas causava-me então estranheza que durante as semanas seguintes os jornais de Luanda que havia «heróicas bolsas de resistência» das Forças Armadas Portuguesas. Pois então interrogava-me como tal poderia ser possível, se bastava que cada soldado indiano cuspisse na fronteira para que o Exército Português morresse afogado.
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Se o General Vassalo e Silva tivesse obedecido a Salazar em nome «da ética e honra militares», quase seguramente que democratas como o senhor General Lemos Ferreira não estariam a conceder décadas depois entrevistas «históricas» em nome da defesa da «pureza» do 25 de Abril e contra os «desmandos» e« totalitarismos» a que o 25 de Novembro pôs termo, pois, desobecendo à cadeia de comando, mesmo sózinho, teria enfrentado as tropas «estrangeiras» invasoras e morrido heróicamente em combate.
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Sabe-se o que sucedeu ao «traidor» General Vassalo e Silva por desobedecer a Salazar, tal como ao consul de Bordéus Aristides Sousa Mendes, ambos reabilitados apenas depois do 25 de Abril. «Haja Deus, Pátria e Família!»
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[1] - pejado de heróis e navegadores, mas então para mim surpreendentemente reduzido a duas ou três linhas e a Vasco da Gama ou Fernão de Magalhães nos livros juvenis enciclopédicos em inglês ou francês que o meu tio José João me oferecia.
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General Lemos Ferreira (1)
(...) P: Gostaria que abordasse os acontecimentos vividos no 25 de Abril..
R: Regressado da Guiné em Janeiro de 1974 no posto de coronel, fui colocado na Chefia da Divisão de Operações do Estado Maior da Força Aérea, em Lisboa. Aí assisti ao que se passou no 16 de Março de 1974 e ao fracasso que representou, mas não me preocupei muito com o facto, dadas as pessoas que, na época, exerciam a chefia superior das Forças Armadas - Generais Costa Gomes e António de Spínola - que justificavam confiança e respeito, por força do seu passado.
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Quando ocorreu o 25 de Abril, encontrava-me em Angola, incluído numa missão oficial de trabalho do Secretário de Estado da Aeronáutica, General Polleri. Depois de termos contactado os comandos locais das várias zonas, desde o Leste ao Norte, verifiquei que a situação de normalidade se mantinha, tal como a tinha conhecido em 1971. Quis o destino que fosse no último dia da visita e no Negage, a 25 de Abril, que tivemos conhecimento dos acontecimentos de Lisboa.
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Regressados a Luanda sem problemas, constatámos que, quer o Governador, quer o Comandante-Chefe, tinham actuado da melhor forma possível, recomendando calma às populações.
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O Comandante-Chefe fizera mesmo um comunicado afirmando que as Forças Armadas tinham uma determinada missão a cumprir em Angola e que continuariam a cumpri-la, até ser eventualmente alterada por quem de direito. Por estas ou por outras razões, na altura e nos dois dias seguintes, a situação em Luanda aparentava ser completamente normal.
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Entretanto, apesar de ter sido decidido sair desta cidade logo na tarde do dia 26, o avião militar que nos transportaria para Lisboa, um Boieng 707, empanou, pelo que ficámos retidos um dia a aguardar a reparação.
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Curiosamente, o referido avião ainda veio carregado com bombas de aviação, de 500 e
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Em acontecimentos a que não assisti, alguns militares teriam invadido aquele Comando e destituído as principais chefias, enviando-as para Cabo Verde num avião Nord Atlas da FAP.
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Assim, facilmente se compreende que o referido General se mostrasse encrespado no seu regresso de Cabo Verde com destino a Lisboa. No avião, durante o percurso, o General Bettencourt Rodrigues acabou por se tranquilizar e desabafar, contando algumas das peripécias menos dignas ocorridas com ele, em Bissau, dias antes.
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Chegado a Lisboa na noite de 27 de Abril, sábado, fui para casa e passei o domingo a ler os jornais atrasados e os do dia, bem como a observar as novas vedetas da Televisão. Apercebi-me estar em marcha, claramente, uma determinada orientação generalizada ao conjunto dos meios da Comunicação Social.
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Apresentado ao serviço na 2.ª feira, continuei a desempenhar as funções de Chefia da Divisão de Operações do Estado Maior da Força Aérea e, nos dias seguintes, fui progressivamente tomando contacto com as novas estruturas e pessoas que iam aparecendo, muitas delas completamente desconhecidas para mim.
Os problemas na hierarquia das FA
P: Como se processou a nomeação do Chefe do Estado Maior da Força Aérea ?
R: Na época, o CEMFA era o General Mera, que iria atingir o limite de idade dentro de poucas semanas. Por isso, no interior da Força Aérea, desde há vários meses que se referia ser o General Diogo Neto, quem deveria substituí-lo por ser o militar mais capaz. Naquela altura, este General encontrava-se em comissão de serviço em Moçambique, pelo que quando foi nomeado CEMFA demorou alguns dias a chegar a Lisboa.
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Por isto, quando ocorreu a apresentação pública dos membros da JSN, o General Diogo Neto não apareceu, dado estar ainda naquele território a processar a entrega do seu comando ao seu substituto.
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No decurso da breve cerimónia da posse do cargo de CEMFA pelo General Diogo Neto, aconteceu uma cena infeliz por parte de quem o empossou, (2) porquanto foi proferida uma forte diatribe contra os generais, em geral. Estando presente, pensei que se estava a cometer um erro grave que teria fortes repercussões negativas no futuro próximo.
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P: Isso sucedeu ainda antes do 1.º de Maio ?
R: Sim, a tomada de posse foi anterior a essa data.
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P: O que sucedeu a seguir ?
R: Cerca de um mês e meio depois, por volta dos princípios de Junho, fui convocado para uma reunião alargada, no auditório do actual IDN, presidida pelo General Spínola, em que este já se queixava de estar a ser atraiçoado. Recordei, então, o que se passara no acto de posse do CEMFA, em que se tinha humilhado a hierarquia desnecessariamente.
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De facto, sendo a natureza humana a que é, no contexto da Instituição Militar não se podem ignorar princípios básicos, sem o risco de procederem connosco de forma semelhante ao que possamos ter feito aos outros. Por estas e outra razões, a estrutura hierárquica militar abanou excessivamente no pós-25 de Abril e, durante tempo a mais, não houve coragem para agarrar a situação, com graves consequências negativas decorrentes para o País.
O 28 de Setembro
P: Sobre o sucedido no 28 de Setembro e o seu relacionamento com o problema angolano, tem algo a referir ?
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R: Os meus contactos com os elementos da JSN foram muito poucos, pois tratava-se de um órgão com vida curta, por motivos que eram óbvios para mim.
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Neste enquadramento, a luta pelo poder, no interior e exterior da JSN, foi algo que passou ao meu lado, com a circunstância adicional de me encontrar em Angola, desde Agosto até 27 de Setembro, em missão temporária de serviço. Na verdade, fora nomeado pelo CEMFA para cooperar com a Junta Governativa de Angola, no sentido de proceder a um estudo prévio técnico visando o levantamento e o desenvolvimento dos sete principais aeroportos angolanos, bem como a modernização da rede de serviços aeronáuticos e dos sistemas de comunicações, etc.
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Chegado a Lisboa a 27 de Setembro, uma sexta-feira, ao apresentar-me no Estado Maior, verifiquei haver bastante agitação devido à prevista manifestação da maioria silenciosa para o dia seguinte. O General Diogo Neto perguntou a minha opinião e eu disse-lhe que não fazia a mínima ideia, dado o meu afastamento de Lisboa durante as últimas semanas.
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Nessa noite, em Setúbal, onde vivia e vivo, a certa altura apercebi-me que as emissoras oficiais estavam a transmitir somente música clássica e que havia movimentação desusada na proximidade da minha casa.
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Saí para ver o que se passava e constatei estarem a montar barricadas na EN n.º 10, tal como aconteceu em muitas estradas do País. No dia seguinte, deu-se a junção das forças militares aos populares, que pareciam representar os partidos políticos esquerdistas.
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O resto do 28 de Setembro decorreu da maneira que é conhecida historicamente. Recordo, na oportunidade, a invenção da grande quantidade de armas que estariam circulando pelo País, exercendo-se forte acção psicológica e de manipulação sobre as pessoas...
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P: De modo a aterrorizá-las ?
R: Isso por um lado e, por outro, levá-las a acreditar que as barricadas, as revistas às pessoas e outras acções igualmente condenáveis teriam justificação.
NOTAS:
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(1) Entrevista ( 1.ª Parte )
José Lemos Ferreira nasceu em 23-6-1929, em Portalegre.
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Voou vários tipos de aviões de instrução, de combate e de transporte, quer de propulsão a hélice, quer com motores a jacto, tendo atingido um total de cerca de 11.000 horas de voo.
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Efectuou duas comissões de serviço no Ultramar. Uma na Índia, que terminou por força da invasão pela União Indiana e outra na Guiné, em 1971-74. Promovido a Brigadeiro Piloto Aviador em Agosto de 1974, desempenhou sucessivamente as funções de Director do Serviço de Instrução, Sub-CEMFA para o Pessoal, Sub-CEMFA para a Logística e Administração e CEMFA a partir de Janeiro de 1977. Desempenhou as funções de CEMGFA desde Março de
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É condecorado com a medalha de Valor Militar e a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, entre outras.
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Estava na reforma, quando foi entrevistado em 29-7-1997, em Lisboa.
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(2) Foi o então General António de Spínola, Presidente da Junta de Salvação Nacional.
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Do Livro:
"Memórias da Revolução" uma Obra Histórica de Autoria do Cel. Manuel Amaro Bernardo.
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