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terça-feira, 15 de março de 2016

Alentejo, um retrato desfocado



CRÍTICA

Tentativa de retrato de uma região e de um modo de ser que falha por evidente falta de conhecimentos empíricos e académicos do autor, Henrique Raposo.

Livros Alentejo prometido     


As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel, chegam a ser risíveis NUNO FERREIRA SANTOS




O polémico livro de Henrique Raposo (n. 1980), cronista do semanárioExpresso, incluído na colecção “Retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, procura traçar um retrato do Alentejo, mas o que acaba por fazer é apenas um retrato da sua própria família, parte da qual migrou para a Cintura Industrial de Lisboa pelos anos 1960. As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel (a propósito da ida a um casamento) numa área geográfica do Alentejo litoral — não muito afastada do triângulo entre Ermidas do Sado, Santiago do Cacém e Cercal —, chegam a ser risíveis.



Há alguns dias, João Miguel Tavares defendia neste jornal que Raposo seguia um modelo anglo-saxónico, que tem em Portugal uma cultora, Maria Filomena Mónica. O problema não é o modelo em si, o problema é que não é “Maria Filomena Mónica” quem quer, pois a Raposo faltam conhecimentos para ensaiar um suposto “retrato” de uma qualquer zona rural, com qualquer que seja o modelo — e não me refiro apenas aos conhecimentos empíricos, que a falha desses é demasiado evidente e difícil de suprir em pouco tempo. Mas umas leituras prévias de alguns trabalhos de Sociologia Rural, de História da Agricultura em Portugal, e de Religião Popular Portuguesa, talvez tivessem disfarçado um pouco a falta de conhecimentos empíricos sobre a ruralidade portuguesa em geral. Para se conhecer o Portugal rural não chega (como é óbvio), a alguém que passou os dias nos arrabaldes de Loures e de Odivelas, ter tido nas férias de há muitos anos “uma vidinha muito etnográfica” numa casa pobre, onde as pessoas se amontoavam nas camas em colchões de folhelho e de palha de centeio, e onde não havia água canalizada e a casa de banho era ao fundo do quintal, depois de se ter de passar pelo poço de onde se tirava a água para os despejos. São várias as afirmações que mostram o desconhecimento do autor sobre a ruralidade portuguesa, pois o que muitas vezes atribui ao Alentejo é comum a Trás-os-Montes ou ao Minho ou às Beiras: a venda, ou a tasca, ser o “epicentro social”, o facto de serem sobretudo os homens a frequentar os cafés, o machismo que ele encontrou no Alentejo não é em nada diferente do que se encontra em Freixo de Espada à Cinta (o Portugal rural é ainda machista, homens e mulheres afinam pelo mesmo diapasão), o facto de no passado se alguém ficasse doente só poderia recorrer a mezinhas e benzeduras… a lista poderia continuar.
Henrique Raposo não nasceu no Alentejo, mas numa família alentejana, e assume que “como todas as famílias de migrantes desenraizados”, também a dele construiu ao longo dos anos “um Alentejo mítico sem qualquer precisão no traço”, um “Alentejo enquanto espaço de fábula negra onde são possíveis pragas de Velho Testamento” como as vagas de gafanhotos africanos que ele “caçava com o mata-moscas” da avó. Então ele propõe-se retratar o Alentejo, retirando-lhe o lado mítico, e para isso vai visitando lugares que lhe são mais ou menos familiares, conversando com os mais velhos, ouvindo histórias, e ao mesmo tempo tirando conclusões (com alguns raciocínios enviesados), conclusões que da sua família, ou da meia dúzia de aldeias que visita, extrapola para o Alentejo todo.
Um dos problemas que parece estar na base de várias conclusões a que Raposo chega prende-se com a “estrutura fundiária” da propriedade. Diga-se, antes de mais, que o tipo de propriedade na zona em que o autor viaja é muito particular. E por várias vezes Raposo refere os “foros”, o “regime de aforamento” que foi instituído em 1887 pela Lei do Fomento Rural, de Oliveira Martins. Ora, esta região, em que a cultura do arroz assumiu grande importância, foi colonizada por gente vinda de fora que alugou parcelas de terreno (de poucos hectares) para explorar economicamente, mas ao mesmo tempo, e quando era necessário, trabalhava para outros proprietários. Estes colonos tinham hortas de onde poderiam obter algum sustento. No resto do Alentejo (o tal sobre o qual Raposo quer tirar conclusões), onde o latifúndio dominava exclusivamente, e que devido aos Planos de Fomento e Campanhas do Trigo produziam apenas cereais, os trabalhadores estavam restringidos a uma ocupação sazonal (sementeiras e ceifas), e não havia maneira de fugir à pobreza. O Alentejo vivia no século XX (até 1974) em quase regime de feudalismo, com verdadeiros servos da gleba pagos em géneros, de facto uma “terra sem lei” (como o autor nota mas por outras razões). Vem isto a propósito de várias considerações a uma suposta falta de vontade de trabalhar e a uma “raiz política” dos malteses, chegando a comparações com o denodo para o trabalho dos “ratinhos” (trabalhadores beirões que desciam sazonalmente ao Alentejo para as ceifas, mas que tinham nas suas terras as leiras e vinhas de onde tiravam o sustento o resto do ano).
Outra das afirmações “estranhas” é apresentar o Alentejo como “um espaço novíssimo” e dizer que “qualquer vila do Norte tem centenas ou milhares de anos” e que no Alentejo não. Ora, é exactamente na área onde Raposo centra o “estudo” que o Alentejo é “novo”, e falamos de Santo André e de Ermidas do Sado. No restante, romanos e árabes fundaram vilas e cidades, e ao longo dos séculos outras foram surgindo.
De entre as várias características (subjectivas) que Raposo atribui aos alentejanos, como a falta de hospitalidade e a desconfiança, há uma que sobressai no livro, que é a falta de solidariedade (o entendimento do voluntariado), e por caminhos travessos acaba por a justificar com “um problema de Santiago e de todas as cidades alentejanas: as pessoas não se identificam com os símbolos da terra”, e para isso recorre ao clube de futebol da terra e faz comparações com o Norte, nomeadamente com o Arouca e o Tondela. Também aqui foi infeliz, por desconhecimento ou esquecimento, e não mencionou (não passaram assim tantos anos) os clubes de futebol de Campo Maior, Portalegre ou Beja, o que deitaria a sua argumentação por terra.
Estranhamente, ou talvez apenas por razões ideológicas, Raposo parece querer tentar desviar a ideia da opressão dos senhores da terra sobre os trabalhadores, e a sua violenta exploração, para um outro tipo de opressão, fazendo afirmações como a que se segue para tentar justificar que o abuso físico sobre as mulheres (e “até a violação”) faziam parte da normalidade alentejana: “Os romances neo-realistas centram-se na opressão económica, mas a verdadeira opressão era sexual e íntima.”
Apesar de não ser um retrato do Alentejo, de estar muito longe disso,Alentejo prometido é um livro bem escrito e desenvolto, pesem expressões como “o odor a haxixe dos eucaliptos” (ou o autor não cheirou haxixe ou não conhece o cheiro dos eucaliptos).
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alentejo-retrato-desfocado-1726095

O Alentejo segundo Nicolau Breyner

“Antes pobrezinho em Lisboa do que rico em Estocolmo”





(...) Disse-me, a propósito das telenovelas e das exigências das gravações, que não tem vida própria. Esta casa está cheia de vida própria. Família, retratos, cães, uma casa habitada por gente. Para um ator, eu diria que tem muita vida própria. 


Tenho, tenho. Isso era a telenovela. Tenho uma vida que soube construir e defendo-a muito, a família é muito importante para mim. Da parte da minha mãe somos alentejanos há séculos, da parte do meu pai não. Sou um mestiço. O meu pai apaixonou-se pelo Alentejo. Era professor de História e Filosofia e foi abrir um grande colégio no Baixo Alentejo. Ainda eu não era nascido. Foi quando conheceu a minha mãe. Sempre fomos muito de família, embora a família não fosse grande. Tive só uma irmã, que morreu quando era muito pequenina, e só tenho um primo direito vivo. Mas o meu pai, a minha mãe, a minha avó e o meu avô vivemos sempre juntos. Eu sou a segunda geração que não é agricultora. O meu avô, pai da minha mãe, tinha duas herdades. Os Melos depois casaram com uma Breyner, estão em Serpa há 400 anos.


(...)  O Alentejo é uma das raras zonas em Portugal e na Europa que resistiu à predação.
Embora tenha terror de que um dia sucumba e seja vendido a retalho como o Algarve. O estio protege-o. É um santuário. O Alentejo é maior e mais complicado, e os estios são ferozes. Eu adoro calor, não me incomoda. Este tempo de chuva e frio é uma depressão. Antes pobrezinho em Lisboa do que rico em Estocolmo. No Alentejo, a desertificação, sendo péssima, defendeu o Alentejo. Foi o que o manteve perto da sua pureza. O homem é inimigo da terra. É uma praga, estraga tudo aquilo em que mexe. Eu sou muito português e gosto de ser português, acho Lisboa uma cidade fascinante, e sou provinciano. Gosto de cidades pequenas, de bairros... Vivo neste há 30 anos, mudando de casa. Gosto de pessoas que vimos toda a vida e nos falam na rua. Ninguém deixa de se falar na rua, seria uma má-criação. É humano. Não me tirem as coisas de que gosto.


Uma vez disse a um alentejano que, se calhar, tínhamos de encher o Alentejo de turistas chineses. Talvez não fosse boa ideia.
O Alentejo foi um dos últimos sítios a ter lojas chinesas, mas já tem, e Serpa também já tem. Mas eles aprendem a falar português com sotaque alentejano. É divertidíssimo.


Mais três gerações e são alentejanos, passa-lhes o bicho carpinteiro. Vão dormir a sesta...
No filme que fiz com o Jeremy Irons, "Night Train", ele dizia-me: "Vocês dizem tanto mal de Portugal, mas isto é tão bom, pá! É bonito, a comida é ótima, as mulheres são bonitas, as pessoas são boas... É tudo bom, não o estraguem."


O estrago sério começou com o hipermercado à porta das cidades.
É aterrador, o hipermercado e o centro comercial. Odioso. Entrei duas vezes no Colombo. E vou às Amoreiras porque é perto e entro sempre no mesmo sítio e saio depois de fazer o que tenho a fazer. Sou como os burros


Acredita que a crise trará o famoso regresso à terra? Os alentejanos fugiram da terra.
As pessoas estão a regressar à terra, eu vejo isso, e há uma explicação. Neste momento, a agricultura começa a ser um negócio. Há polos de agricultura. Eu tenho terras, mas não cultivo. Com grande pena minha. Como dizia o meu avô, a herdade tinha o tamanho exato para perder dinheiro. A seguir ao 25 de abril, quando começámos a destruir o latifúndio, não percebemos que há um certo tipo de agricultura que só dá em latifúndio. Eu tenho alguns cavalos e cães, mais nada. Tinha porcos e também já acabei com isso, só serve para gastar dinheiro. O sítio é lindíssimo, a serra de Serpa, faz parte do vale do Guadiana, mas é uma terra árida, dura, terra de xisto. É um sítio para estar e perder dinheiro. Até os cães são caros, a ração é cara... Tenho um Rafeiro Alentejano, um cão fabuloso, que é o mesmo que um Serra da Estrela. Na transumância, eles vinham lá de cima com os cães de guarda até ao Alentejo, e quando passava a neve iam para cima e os cães iam ficando. A raça é a mesma. Tenho tudo, Rafeiro Alentejano, Mastins de Bordéus, um Grand Danois... e dois Buldogues Franceses, o "Sr. Pacheco" e a "Sra. D. Maria José", que só dá pelo nome de "Senhora Dona". "Maria José" não dá. Tenho uma fotografia do Grand Danois com o "Sr. Pacheco" dentro da boca. Dão-se todos muito bem. O Grand Danois, o "Jipe" - tem este nome porque é um monstro de 78 quilos -, passou muito tempo no Alentejo e tornou-se um predador, de vez em quando matava umas cabras e comia-as.


E o porco preto? Como é que se perde dinheiro com o porco preto?
Porque eu não sei ganhar dinheiro com nada. Na minha profissão, ganho porque me pagam um ordenado. O negócio comigo não funciona.

(...)

http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-03-14-Antes-pobrezinho-em-Lisboa-do-que-rico-em-Estocolmo

segunda-feira, 14 de março de 2016

Almeida Faria - Ainda e sempre o Alentejo -

25

A mata dos eucaliptos é um silêncio de mar ao meio do dia; meio-dia, hora branca, meio-dia para todos, almoço para quem no tem; o deus do caos não tem aqui lugar, no seio dos eucaliptos acenando do alto uma luz de presença e de rumor do sol; perto cresce o viveiro dos eucaliptos finos, difíceis e pequenos, plantados com raiz funda durante o ano anterior, e dos pinheiros que os homens semearam e com força cresceram desde o ano anterior ao anterior; qual um golpe de machado certeiro e muito seco, estala um distúrbio ao longe de entre os ramos, um vibrar de asas para o vento e qualquer coisa de larvar com pêlos germinando; é o fogo; vem sobre os seixos respirando redondo um ritmo compassado e muito fundo num rugir de animais de dentro da floresta; nas águas houve círculos de peixes, um touro chorou dentro do mito e um cavalo com as crinas testeiras incendiadas e o peito branco de suor morreu sob uma nuvem; o fogo cobria a terra e o ar as águas, as cópulas dos elementos eram longas e lentas; dizem que o chefe que escapou ao fogo não voltou; um touro o levou e não o trouxe vivo; o seu gémeo e ele no ventre da virgem ficaram para sempre; o fogo estava ali, porém vinha de sempre, desde quando a terra se vestira de gente, de faunas e de flores, de florestas; no instante do fogo o medo se apossou dos homens da planície, a quem os deuses Ataegina e Corneus desapareceram; foi certamente então que vieram estrangeiros e lhes tiraram tudo, violaram as mães, estupraram as filhas; depois do fogo não mais nasceram sémenes das flores e as serpentes fugiram para as águas, os seus olhos não mais arrebataram aves, e os gatos, sós como crianças deixadas nos portais das ruas de noite sem ninguém, miaram para ninguém; as águas infiltradas queimaram as raízes; porém foram plantadas muitas cruzes e elas frutificaram amplamente; dum fogo assim nasceu o Alentejo, e nele uma tragédia despida de horizontes; horizontes de fogo; mar de fogo; o fogo; fogo no Alentejo; pelas manhãs de verão, quando o calor fatiga como agora e, na vila, a gente se recolhe à sombra dos portais, ou em noites varridas de invernos e de ventos, quando em volta das braseiras se juntam as famílias (a pata do vento cobre a vila, com chuva nos telhados e a névoa, como um fantasma branco, doloroso e mudo, corre as ruas desertas, brilhantes de humidade, por onde passos fogem ao silêncio das casas; oh, medo que tudo invades e tudo deixas morto, a alma, se ainda existe, está nos corpos fechada, com gordura por cima, e braseiras e sono; o tempo já não é «número do movimento» e a ordem deste, o ritmo, não é mais, pois tudo está aqui como preso da morte; a vila dorme, dorme; quem imagina a vida de tantos seres pequenos, sem interesse e contudo querendo ser humana? O mísero empregado de cartório, de armazém, que à noite, sob essa luz mortiça e alta e sem calor do tecto, escreve e labora contas que os mortos só conferem, se conferem; ele trabalha, no seu trabalho sórdido, despido de horizontes e de esperança, para um certo senhor invisível, absurdo, que o vigia e domina pelos olhos da fome; sai do emprego tarde, gelado, sem paixão, aguentando a vida na sua iniquidade; para quê este trabalho, para quê estes escravos? (escravo, não te esqueças que és escravo, que a tua condição não é certa nem justa, antes velha, imunda e destrutível; não hesites, que o tempo não consente a hesitação; não penses na mulher nem nos teus filhos, mas só nos filhos dos teus filhos, nos netos que nascerem quando estiveres já morto, e que nascerão livres se quiseres; crê, escravo, quer; não adormeças de tal modo que um dia acordes escravo já para além da morte; não confies tudo à eternidade; o tempo não consente que continues dormindo pelo eterno a dentro; acorda, vive, vê; não te enroles no sono como na mulher quente; não te esqueças do tempo; que te lembres a tempo; põe o despertador antes das sete; estamos na primavera e às sete é já dia; toma cuidado não acordes demasiado cedo; é preciso, porém, estar preparado antes de vir o dia, e ouvir os mais pequenos movimentos da noite, com os seus velhos monstros paquidérmicos; é necessário que durmas vigilante, que descanses desperto; e que saibas o sabor negro do tempo; e que sejas por fim o próprio tempo) o senhor será sempre senhor, enquanto for; longe, talvez, nas remotas cidades, homens lutam e esperam por qualquer coisa outra; é possível, e achamos até que fazem bem; mas nós, os que aqui vegetamos enterrados há tanto, sujeitos a esta rotina sem apelo, por que esperaríamos senão pelo jantar? Senhor, tem piedade dos que arrotam de fome, e salva-os ao menos, como esperam, desta pocilga, lá, em outra parte; porque, se para isto nos fizeste, criaste, que havemos de pensar de ti senão bem mal, que podes limpar as mãos da bela obra feita? Que ao menos o jantar não esteja hoje salgado, e que a chuva e o vento acabem cedo, e que durmamos esta noite em paz; que ainda assim as nossas digestões sejam mais fáceis, e que o almoço de amanhã não esteja, Senhor Deus, salgado), subitamente surge um grito de sereia crescendo e decrescendo como quem pede auxílio; é o fogo, um desastre, uma faísca verde que caiu num montado e o incendiou de raiva; e os bombeiros acorrem, levantam-se se dormem, interrompem a merenda, o almoço, o jantar, deixam os seus trabalhos e, seguros, sem uma hesitação no olhar firme, correm para o quartel, vestem-se e partem; e os miúdos os seguem, vão gritando; e a vila agita a vida; Jó os segue também e pede que os deixem ir com eles, vai com eles; os carros vermelhos atravessam a vila buzinando, tocando, com o jeep e a maca de socorros atrás; o fogo agita a vida; e a vila acorda, vive, nasce sob o baptismo inicial do fogo.


Almeida Faria
 (A Paixão – 1963)

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2016/03/ainda-e-sempre-o-alentejo-almeida-faria.html

sábado, 12 de março de 2016

O Alentejo, por Miguel Torga


Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora. Os espasmos irreprimíveis da outra, demasiado instintivos e afirmativos, não lhe permitem uma meditação construtiva e harmoniosa. E compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascesse a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. Só daquelas ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos, se poderia partir com confiança para as verdadeiras. Enquanto a nação andava esquiva pelas serras, ninguém se atreveu a visionar horizontes para lá da primeira encosta. Mas, passado o Tejo, a grei foi afeiçoando os olhos à grande luz das distâncias, e D. Manuel pôde receber ali a notícia da chegada de Vasco da Gama à Índia.

Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto
.
Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem, que no inverno se veste dum pelico castanho, e no verão duma croça madura. Que é parda mesmo quando o trigo desponta, e loura mesmo quando o ceifaram. Queixam-se da melancolia dos estevais negros e peganhosos, que meditam a sua corola branca um ano inteiro, da semelhança aflitiva das azinheiras, que parecem medidas pelo mesmo estalão, e não distinguem nos rebanhos que encontram, quer de ovelhas, quer de porcos, as particularidades que individualizam todo o ser vivo. Afeitos à variedade do Norte, que até aos bichos domésticos consente cara própria e personalidade, aflige-os a constante do Sul, que obriga todo o circunstancial a ocupar o seu lugar de zero diante do infinito. Perdidos e sós no grande descampado, sentem-se desamparados e vulneráveis como crianças. Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total.

Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos. A percorrer o Alentejo, nem me fatigo, nem cabeceio de sono, nem me torno hipocondríaco. Cruzo a região de lés a lés, num deslumbramento de revelação. Tenho sempre onde consolar os sentidos, mesmo sem recorrer aos lugares selectos dos guias. Sem necessitar de ir ver o tempo aprisionado nos muros de Monsaraz, de subir a Marvão, que me lembra um mastro de prendas erguido num terreiro festivo, de passar por Água de Peixes, que é um albergue de frescura e de beleza na torreira dum caminho, ou de visitar a Sempre-Noiva, onde há perpètuamente um perfume de flores de laranjeira a sair do rendilhado das janelas manuelinas. Embriago-me na pura charneca rasa, encontrando encantos particulares nessa pseudo-monotonia rica de segredos. Nada me emociona tanto como um oceano de terra estreme, austero e viril. A palmilhar aqueles montados desmedidos, sinto-me mais perto de Portugal do que no castelo de Guimarães. Tenho a sensação de conquistar a pátria de novo, e de a merecer. O chão das outras províncias já se não vê, ou porque vive coberto pela verdura doméstica de oito séculos, ou porque a erosão levou toda a carne do corpo e deixou apenas os ossos. Mas a terra alentejana pode contemplar-se ainda no estado original, virgem, exposta e aberta. E é nela que encho a alma e afundo os pés, num encontro da raiz com o húmus da origem. Abraço numa ternura primária as léguas e léguas duma argila que permanece disponível mesmo quando tudo parece semeado. O corpo, ali, pode ainda tocar o barro de que Deus o criou.

Mais do que fruir a directa emoção dum lúdico passeio, quem percorre o Alentejo tem de meditar. E ir explicando aos olhos a significação profunda do que vê. Porque cada propriedade se mede por hectares, são em redil os aglomerados, respeitosos da extensão imensa que os circunda, e um suíno, ou relegado à sua malhada, ou a comer bolota no montado, não faz parte da família, – é que o alentejano pôde guardar a sua personalidade. E talvez nada haja de mais expressivo do que esse limite nítido entre a intimidade do homem e a integridade do ambiente. Assegura-se dessa maneira a conservação duma dignidade que o bípede não deve alienar, nem a paisagem perder. Se há marca que enobreça o semelhante, é essa intangibilidade que o alentejano conserva e que deve em grande parte ao enquadramento. O meio defendeu-o duma promiscuidade que o atingiria no cerne. Manteve-o vertical e sozinho, para que pudesse ver com nitidez o tamanho da sua sombra no chão. Modelou-o de forma a que nenhuma força, por mais hostil, fosse capaz de lhe roubar a coragem, de lhe perverter o instinto, de lhe enfraquecer a razão. E é das coisas consoladoras que existem contemplar na feira de qualquer cidade alentejana a compostura natural dum abegão, ou vê-lo passar ao entardecer, numa estrada, com o perfil projectado no horizonte, dentro do seu carro de canudo. É preciso ter uma grande dignidade humana, uma certeza em si muito profunda, para usar uma casaca de pele de ovelha com o garbo dum embaixador.

Foi a terra alentejana que fez o homem alentejano, e eu quero-lhe por isso. Porque o não degradou, proibindo-o de falar com alguém de chapéu na mão.

Mas não são apenas essas subtis razões éticas e geográficas que me fazem gostar do Alentejo. Amo também nele os frutos palpáveis duma harmonia feliz entre o barro e o oleiro. Amo igualmente o que o homem fez e a terra deixou fazer. Diante de um tapete de Arraiolos, ou a ouvir uma canção a um rancho de Serpa, implico o habitante e o habitado no mesmo processo criador, e louvo-os no mesmíssimo entusiasmo. Não há arte onde o homem não é livre e a natureza não quer. Dando às mãos ágeis e fantasistas materiais nobres e moldáveis – o mármore, o cobre, a lã, o coiro, e o barro –, a terra alentejana quis que a vida no seu corpo tivesse beleza. E de Norte a Sul, desde as campanhas da Idanha, que já lhe pertencem, às figueiras algarvias, os seus montes, as suas aldeias, as suas vilas e as suas cidades são marcados por um selo de imaginação e de graça. Aqui uma varanda onde um ferreiro fez renda, acolá um pátio onde um pedreiro inventou uma nova geometria, além uma oficina onde um caldeireiro fabrica ânforas esbeltas e vermelhas como cachopas afogueadas. Aproveitando os incentivos do meio e os recursos do seu génio, o alentejano faz milagres. A própria paisagem sem relevo o estimula. Faltava ali o desenho e a arquitectura, que nas outras províncias existem na própria natureza. Pois bem: concebeu ele o desenho e a arquitectura. E, na mais rasa das planícies, ergueu essa flor de pedra e de luz que é Évora!

Beja tem a sua torre de mármore, com uma tribuna para ver meio Portugal; Portalegre os seus palácios barrocos, para encher de solidão; Elvas o seu aqueduto de sede arqueada e a sua feiura para meter medo aos Espanhóis; Estremoz a sua praça do tamanho de uma herdade. Mas Évora olha os horizontes do alto do seu zimbório espelhado, povoa as casas de lembranças vivas e gloriosas, e, sequiosa apenas do eterno, risonha e aconchegada, enfrenta as agressões do transitório com a força da beleza e a amplidão do espírito.

Será talvez alucinação de poeta. Mas porque nela se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de luar. E, sem guia, manda-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva completa do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no político e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.

Compreender não é procurar no que nos é estranho a nossa projecção ou a projecção dos nossos desejos. É explicar o que se nos opõe, valorizar o que até aí não tinha valor dentro de nós. O diverso, o inesperado, o antagónico, é que são a pedra de toque dum acto de entendimento. Ora o Alentejo é esse diverso, esse inesperado, esse antagónico. Tudo nele é novo e bizarro para quem o visita. Os arcos, as silharias, as abóbadas e os coruchéus das suas casas; a açorda de coentro e o gaspacho de alho e vinagre das suas refeições; as insofridas parelhas de mulas guisalheiras a martelar as calçadas ao amanhecer; as pavanas cinegéticas que oferece aos convidados; os magustos de bolota; os safões dos homens e o chapéu braguês das mulheres – são ferroadas no nosso cotidiano. Mas o que tem interesse é precisamente revelar aos olhos, ao paladar e aos ouvidos a novidade dessas descobertas. Mostrar-lhes a originalidade de uma vida que se passa ao nosso lado, e tem o inesperado de uma aventura. E mostrar-lho carinhosamente! Sem espírito de simpatia, tudo se amesquinha e diminui. E coisas grandes, como uma semeada ou uma ceifa no Redondo, podem ser reduzidas à pequenez duma vessada ou duma segada beiroa.

Quem vai ao mar, prepara-se em terra – diz o ditado. Aplicando a fórmula ao Alentejo, teremos de nos preparar para entrar dentro dele. Será preciso quebrar primeiro a nossa luneta de horizontes pequenos, e alargar, depois, o compasso com que habitualmente medimos o tamanho do que nos circunda. Agora as distâncias são intermináveis, e as estrelas, no alto, brilham com fulgor tropical. Teremos, portanto, de mudar de ritmo e de visor.

O Alentejo, visitado por alguém que leve consigo a capacidade emotiva e compreensiva de um verdadeiro curioso, é um Sésamo que se abre. As suas fainas, os seus costumes, as mutações impressionantes do seu rosto quando tem frio ou quando tem calor, os seus trajes e a sua própria fala – são outros tantos motivos de meditação e admiração. Mas o que nele é sobretudo extraordinário e a sua inflexível determinação de conservar uma fisionomia inconfundível, haja o que houver. Pode-se preferir uma região mais maneira ou mais angustiada, e uma gente menos soberba, mais autênticamente humana, e mais sinceramente generosa. Herdades mais à medida dos pés, cultivadas por semelhantes sem o ar de fidalgos a gozar férias rurais. Mas não se pode negar a evidência duma terra que merece como nenhuma este nome maternal e austero, e muito menos a dos filhos altivos e afirmativos que dá, imaginários como poetas e duros como azinhos. Cepa e rebentos de tal modo unidos e conjugados, que formam como que um só corpo e um só espírito. Um corpo hipertrofiado, que hipertrofia o espírito por indução.

O alentejano que sobe ao alto do castelo de Évora-Monte, erguido ali ao lado da térrea casinha da Convenção onde a concórdia da família portuguesa foi assinada, ele que tem o sangue de Giraldo-sem-Pavor a correr-lhe nas veias, que assistiu às façanhas e às hesitações do Condestável, e que fez parte da insurreição do Manuelinho, sente naturalmente dentro de si o irreprimível orgulho dum homem predestinado. A seus pés desdobra-se o extenso palco do seu destino: a infindável planície a que dá vida e movimento. São os rios e os ribeiros secos que faz transbordar de suor, os negros montados que alegra de vez em quando pintando de vermelho cada sobreiro, a sua casinha escarolada e erma com uma mimosa na botoeira, e as searas que ondulam e reverberam num aceno de abundância. Um mundo livre, sem muros, que deixou passar todas as invasões e permaneceu inviolado, alheio às mutações da história e fiel ao esforço que o granjeia. Nenhum limite no espaço e no tempo. Seja qual for o ponto cardial que escolha a inquietação, terá sempre o infinito diante de si, em pousio para qualquer sementeira. E essa eterna pureza e disponibilidade do solo exaltam o ânimo do possuidor.

Sim, pobre ganhão que seja, ele é um rei nos seus domínios. Não há outro português mais rico de pão, agasalhado por tão quente manta de céu e dono de tantos palmos de sepultura. Que minhoto ou estremenho se pode gabar de ver sempre o vulto dum seu irmão, que não tem medo da imensidade, a abrir um risco de fogo e de esperança com a ponta da charrua?

Miguel Torga
«Portugal». Coimbra, Ed. Autor, 1950; 4.ª ed. revista 1980.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Elísio Estanque ~ Com o Alentejo na alma

OPINIÃO


Um alentejano assumido pode ficar ou partir, mas mesmo quando parte nunca se separa. Caminha pelo mundo com o Alentejo na alma.


 Estamos em 1960 (ou talvez 1962), no Verão tórrido de um Alentejo desprezado pelo poder salazarista. Abril estava ainda fora daquele horizonte, aberto e amplo mas a vários títulos asfixiante. Uma calma que apenas estremecia à passagem esporádica de um ou outro automóvel com os pneus a guinchar na curva apertada após uma longa reta. Os sons das cigarras rompiam o silêncio e a monotonia daquele território árido, onde o amarelado da paisagem, o restolho seco, era apenas rasgado pelo tapete negro de alcatrão cintilante quase a derreter-se ao Sol abrasador. Mas na berma da estrada começava a vislumbrar-se, ao longe, uma poeria anormal em redor de duas silhuetas que se erguiam lado a lado com alguma coisa por trás. No início poderiam confundir-se com miragens em pleno “deserto” alentejano. Mas não. Eram bem reais. No seu movimento compassado percebi pouco depois que eram cavalos, trazendo atrás de si um homem acorrentado. Cavalos montados por aquela guarda, de farda cinzenta e botas altas, que aterrorizava crianças e ainda mais os adultos, pelo menos os mais conscientes das razões da sua miséria e do sufoco da sua liberdade. Do alto dos seus cavalos brancos estas figuras altivas eram a personificação do poder, em absoluto contraste com o ser miserável, com as mãos acorrentadas, curvado e maltrapilho, a desfalecer de sede. Deram-lhe água, mas só depois de saciar os cavalos no fontanário à beira da estrada.

Estes mesmos guardas, ou outros seus comparsas, eram aqueles que regularmente frequentavam o café-restaurante da família, com regularidade. Vinham por vezes em grupos de quatro, recordo-os, grandes e gordos, com ar carrancudo. Creio agora que percebiam a raiva silenciosa que causavam à sua passagem. Sentavam-se num espaço interior, mais resguardado da casa, e a mesa, devidamente preparada, com toalhas de tecido branco, em breve ficava recheada de iguarias, com vinho, presunto, queijo e às vezes outros petiscos. Ficavam horas a comer, mas falavam pouco; e depois de empanturrados saiam como se fosse da casa deles. Já se sabia que não pagavam a despesa, mas pelo menos era de esperar que tivessem um gesto, ainda que fingido, de pedir a conta. Assim pensavam as vítimas daquele saque (os meus pais). Porém, na maioria das vezes nem isso acontecia. Entravam e saíam atravessando o espaço público da taberna, espalhando um temor respeitoso entre os clientes domingueiros da “Casa de Pasto – o 15” (era esse o nome), um espaço nos fins-de-semana sempre animado por grupos de homens, na sua maioria mineiros que, entre cada rodada, exprimiam em coro a sua amargura, mas também a força coletiva através do agora celebrado “cante alentejano”.

Aquele acorrentado atrás dos cavalos da GNR poderia ser um “maltês”, o nome dado a quem, sem emprego certo nem inserção na comunidade, procurava o precário sustento andando de monte em monte, à míngua de uns dias de trabalho “a comedias”, como se dizia, ou seja, em troca de umas sopas e pouco mais (“come-a-dias”, porque havia muitos sem nenhuma comida, presume-se). Mas como se esse não fosse já um castigo suficiente, tratava-se de uma condição considerada não só “ilegal” como aparentemente ameaçadora para a ordem vigente. Por isso, o mínimo descuido era suficiente para que o desgraçado fosse parar à “pildra”. Pior ainda, para além da prisão, era a exibição pública da punição exercida sobre quem fugia de uma suposta “norma social”, na verdade artificial e só mantida por um regime ditatorial. Esses eram os malteses, um nome que na época carregava um sentido pejorativo que até as crianças temiam. Ser diferente já era uma ameaça que, não apenas o regime mas a própria comunidade olhava com suspeição. Mas os outros, aqueles que não andavam na mina, iam diariamente “à praça”, um “mercado” de força de trabalho, em sentido literal que decorria no largo principal da aldeia, onde, com alguma sorte, se poderia ser um dos escolhidos para trabalhar naquele dia. Trabalhos de sol a sol, enquanto os da mina, embora produzindo na escuridão e à luz do gasómetro, tinham pelo menos um emprego certo.

Estas memórias não se apagam. Nesse período ocorreram algumas greves nas minas. Recordo que numa delas a aldeia inteira andou em alvoroço quando se soube que a guarda tinha carregado sobre os mineiros. Umas dezenas foram presos. Alguns eram de Rio de Moinhos (a aldeia de que falo) e até um tio meu, soube depois, tinha sido levado para Lisboa, pela PIDE. Não ficou muito tempo na prisão, mas para um homem honrado e por todos respeitado – um assalariado para quem a única “subversão” cometida era trabalhar no duro para alimentar os filhos, ingerindo aquele pó durante décadas, que lhe provocaria o cancro que o matou anos depois –, as “duas chapadas na cara” que lhe foram dadas por um qualquer esbirro do regime, para que confessasse os nomes dos cabecilhas da greve, já foram um preço inconcebível. A dureza da vida no Alentejo nesses anos de penúria e repressão, para quem nasceu e vive como alentejano, não é uma mera “recordação”, é sim um elemento que se inscreve na própria identidade alentejana, pois a sua força é indissociável da resistência (em geral silenciada pela ameaça, nos anos de chumbo do salazarismo). O ressentimento cultivado por comunidades inteiras, por terem sido pisadas décadas a fio pelos protegidos do regime, não apagou o afeto, mas, para um alentejano, este não se mede pelo palavreado fácil. Pessoalmente sinto-o no acolhimento, no sorriso largo, na oferta de guarida ou do almoço, de braços abertos, em cada viagem às origens. Cada regresso é como um aconchego no seio de uma grande família cujos gestos protetores se perpetuam através das gerações. As caras de hoje, umas mais jovens, talvez de terceira geração, outras mais enrugadas – as que ainda reconheço –, foram transmutadas pelo tempo, mas é a mesma família. Felizmente, as conquistas democráticas devolveram alguma dignidade ao Alentejo, mas apesar do envelhecimento demográfico, não apagaram essa força cultural que hoje é reconhecida em diversos domínios patrimoniais, com destaque para os grupos corais ou a viola campaniça.

Os fluxos migratórios dos anos sessenta também marcaram a região e até aqueles que, como eu, não tiveram de atravessar fronteiras “a salto” para fugir da miséria (ou da guerra), foram reinventar a identidade do Alentejo para outras paragens, menos rurais mas ainda assim com um agudo sentido comunitário. Por exemplo, o bairro de Moscavide, onde vivi na década de 1970, forneceu-me o contexto suburbano onde as referências alentejanas se misturavam com outras origens. A chamada “cintura industrial de Lisboa” tem uma forte ligação ao Alentejo, como atestam os diversos movimentos de solidariedade com as lutas de mineiros (nomeadamente os de Aljustrel) e assalariados agrícolas alentejanos. E na margem sul do Tejo, na CUF, na Lisnave, na Setenave ou nas povoações de Almada, Barreiro ou Baixa da Banheira e de um modo geral nos municípios do distrito de Setúbal, a “marca Alentejo” permanece bem visível, incluindo nos nomes e noutros traços culturais reinventados a partir dos vínculos com a região. A riqueza artesanal, musical e gastronómica, recriam-se nas segundas e terceiras gerações que não perderam a memória e tudo isso se soma aos muitos milhares de portugueses que, não tendo nascido no Alentejo, sentem uma profunda identificação com a sua cultura e até com a própria geografia.

Mas a profundidade afetiva e identitária a que me refiro, apesar de se manifestar no sentido coletivista e na solidariedade, não dilui, muito menos apaga, as diferenças individuais, pelo que, independentemente dos percursos de cada um, as raízes e as origens sociais não se escondem nem se desprezam, nem pelo mais bem-sucedido cosmopolita ali nascido. Um alentejano assumido pode ficar ou partir, mas mesmo quando parte nunca se separa. Caminha pelo mundo com o Alentejo na alma.

Sociólogo, investigador do Centro de Estudos Sociais e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra


  1. Belíssima crónica que me trouxe ainda assim alguns detalhes novos que desconhecia. Pena que o Professor escreva tão raramente no Público, ou em qualquer outro jornal, aliaz. Fico-lhe grata.
  2. "Um alentejano assumido pode ficar ou partir, mas mesmo quando parte nunca se separa. Caminha pelo mundo com o Alentejo na alma." Com as pessoas de outras regiões isso também acontece? A pergunta impõe-se porque numa altura em que as extrapolações das qualidades, defeitos, capacidades e limitações das pessoas baseadas na raça, credo, origem e cultura são consideradas ofensivas, racistas e xenófobas, o elogio do alentejano (ou do português, ou do africano, ou o que seja) devia colocar-se exatamente sobre esse critério. Do mesmo modo que o extrapolar de facetas menos positivas desencadeou as reações que se viram, e que nunca vi quando atribuídas (com muito piores defeitos) aos alemães, americanos, israelitas, etc. Mas parece que o próprio anti-racismo é racista.
  3. O que impersiona na descrição de uns instantes desse tempo pesado é sabermos que, nesses exatos termos, a estória se repetiu por vidas e vidas. O que até assusta é darmo-nos conta de que a estrutura profunda da estória se pode reconhecer hoje e amanhã com os mesmos personagens vestidos de outras roupagens, servidos por sofisticados meios, mas cumprindo as mesmas missões. Não chamarão maltês ao desempregado de longa duração nem andam a cavalo os plantadores do medo, nem o servilismo se faz com migas e copos, nem os acorrentados terão os pulsos e ternozelos em carne viva. É tudo muito mais rápido, electrónico, mediático, asséptico e é no Alentejo e na cidade grande e por toda a parte. Mantém-se lenta pesada e dolorosa a resignação que tarda a fermentar a ordem da revolta.


https://www.publico.pt/sociedade/noticia/com-o-alentejo-na-alma-1725745?page=-1