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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Carla Romualdo - História em que não acontece nada

Carla Romualdo

19/02/2024

Era um modesto hotel de uma cidade de província. Um desses estabelecimentos semifamiliares, em que o dono parece ter conseguido desenvolver o dom da ubiquidade, não só para controlar os empregados e guardar a sua propriedade, mas também para observar com deleite a nossa cara de susto quando nos surpreendia em cada esquina. Era um homem calvo, de rosto amarelado, com um dente de ouro que reluzia em simultâneo com o relógio de pulso, uma espécie de sincronização prévia à dos smartwatches com os smartphones que me pareceu muito original. Esperava os hóspedes pela manhã, chegava a persegui-los se ousavam esquivá-lo, para indicar-lhes a salinha, mesmo ali ao lado, onde o pequeno-almoço estava a ser servido, como se estivéssemos em Xanadu e houvesse o risco de perder-nos. Desejava que estivesse “tudo de feição” e indagava detalhes sobre a nosso relacionamento com o colchão: demasiado brando, quiçá muito duro? E que tal as almofadas? A mantinha extra está na prateleira de cima do armário, favor não esquecer. Era diligente, atencioso, insuportável.

O dono alternava com um rapazola na recepção. O rapazola dava indicações sobre como abrir a fechadura da porta do quarto e qual a melhor estrada para a cidade mais próxima com a rispidez de quem já perdeu a paciência para velhadas e os olhos indisfarçadamente postos no “Velocidade Furiosa 14”, que a TV frente ao balcão parecia estar sempre a transmitir. Já o dono sintonizava a CMTV, para animar o ambiente.

A cidade era monótona, o tempo chuvoso, o quarto arcaico. Ao pequeno-almoço, sentávamo-nos todos na salinha acanhada e falávamos baixo porque todos escutavam todos, a rádio tocava “os grandes sucessos da década de oitenta” e havia sempre alguém a lutar para libertar o pão da torradeira (“ela prende muito”, esclarecia a empregada), enquanto uma jovem, a única que apreciava ser escutada por todos, de gorro cor-de-rosa e botas altas, apetrechada para uma neve imaginária, garantia ao marido que já sabia que iria ter problemas com a Cátia, porque ela não tem consideração por ninguém e até a mãe se queixa dela no supermercado.

As cidades onde não acontece rigorosamente nada, são agradáveis, à sua maneira. Visitei mercados vazios e castelos encerrados (“Tem de vir cá na Primavera!”), li os anúncios necrológicos afixados nas paredes, avistei uma fauna pujante e sabiamente misantrópica (um casal de javalis, de passeio com os javardinhos, escapou da estrada com a destreza de celebridades habituadas a esquivarem paparazzi), evitei experiências gastronómicas e preferi seguir o conselho dos locais, e, por fim, cheguei ao sítio onde realmente queria ir, no qual me esperavam paisagens deslumbrantes e um gato zarolho, mas cuja história fica para outro dia.

Pelo caminho, assisti aos exercícios de uns quantos praticantes de BTT, a quem admirei a valentia e lamentei a falta de juízo, enquanto os via lançar-se pela ribanceira enlameada, evitando os pinheiros por um triz, e dizia para mim mesma o que dizem todos os cobardes, que o que nos temos é um elevadíssimo instinto de autopreservação.

Os dias passaram com uma lentidão prazenteira, quanto bastasse para que eu pudesse entregar-me aos habituais devaneios sobre uma vida no campo em que me dedicaria a cultivar alfazema e a ordenhar as minhas cabritas que teriam os nomes das irmãs Brontë, até ao momento do regresso a casa, quando alegremente adio sine die estes planos e recordo que tanto as cabras como a alfazema provavelmente me fariam espirrar, e que o campo só é aceitável quando fica perto da esplanada de um bar, como nos ensinou certa canção.

Quem me conhece reserva sempre uma palavra de cepticismo desdenhoso para os meus planos de fuga para o campo, porque as pessoas, em geral, têm pouca fé nos seus semelhantes e houve um ou outro episódio em que fugi de certos animais que afinal eram amistosos (como se eu pudesse saber!) ou em que me esbardalhei por um caminho de cabras e amaldiçoei o concelho inteiro. Enfim, o que lá vai lá vai.

Saí do hotel a transbordar de amor pelas cidades de província, pelos castelos fechados até Março, pelos praticantes de BTT, pelas torradeiras que prendem muito, e até, talvez, pela jovem Cátia que nem pela mãe parece ser apreciada.

Bem vos avisei que não ia acontecer nada.

https://aventar.eu/2024/02/19/historia-em-que-nao-acontece-nada/#more-1341557

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Carla Romualdo - Harmonia conjugal


Abundance of Fruit (1860) – Severin Roesen

* Carla Romualdo

27/09/2023  

Aproveitei a pausa de almoço para ir às clementinas numa das poucas mercearias que por aqui resistem. Ao meu lado, entre os caixotes da fruta, uma mulher ia consultando a estátua maciça que a esperava à porta.

––Queres bananas, Zé?

A estátua não se moveu. Silêncio absoluto.

Ela escolheu um cacho e pô-lo no cesto.

––Queres ameixas, Zé?

E assim sucessivamente.

Quando o cesto já estava cheio e o Zé na mesma posição, ela mudou de táctica.

––A doutora diz que as pêras desintoxicam o fígado…

Ouviram-se, então, os sons ferrugentos de engrenagens há muito sem olear e o Zé moveu a cabeça na direcção da loja, encontrou o olhar expectante não só da mulher, mas dos clientes todos (também não éramos muitos), e com uma voz rouca, pouco usada, murmurou:

––Pode ser.

Depois levou com muito vagar a mão ao bolso da camisa, tirou de lá um maço amachucado e acendeu um cigarro, para grande escândalo fingido da mulher, que já sabia que ele ia fazer aquilo.

––Parece impossível, Zé! Assim não há pêras que te salvem.

O merceeiro, grande conhecedor de estratégias de venda, sentenciou:

––As maçãs são muito boas para os pulmões.

Ela foi pressurosamente escolher três ou quatro, não queria pesos na consciência. E assim se recompôs a harmonia conjugal.

https://aventar.eu/2023/09/27/harmonia-conjugal-2/#more-1338772

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Carla Romualdo - Dignidade

* Carla Romualdo 

As filhas da Dona Graça estavam certas de que a mãe já não tinha idade para dormir com o namorado. “Namorado”. Só o nome que ela lhe dava já lhes parecia ridículo. Uma mulher de 77 anos não tinha namorados. Vê-la de mão dada com ele pela rua era embaraçoso. Parecia-lhes uma manifestação de senilidade, sem dúvida, mas também de bizarria, porque havia algo de animalesco nesses apetites da mãe, e essa animalidade era um vexame para as filhas, ainda que ela parecesse incapaz de entendê-lo. A Mafalda até confessou que sentia a mesma vergonha que a fazia virar a cara quando, em criança, os cães copulavam à porta de casa e era preciso separá-los com um balde de água, mas a Joana achou a comparação excessiva. 

Em qualquer caso, quando a mãe metia o namorado dentro de casa, sem se esconder dos vizinhos, expunha-se a ela, mas também às filhas. Não se daria conta disso, do embaraço que era para elas? Com aquela idade, ainda precisava daquilo? Não tivera tempo suficiente para serenar? Se o pai levava dez anos morto, não fora suficiente para ela se esquecer dessas coisas? E esse homem, também próximo dos 80 anos, só podia ser um depravado que se aproveitava da solidão dela. Era uma situação intolerável, havia que pôr-lhe fim.

Estava já decidido que a Dona Graça seria inscrita num lar de idosos quando a senhora sofreu um AVC que lhe deixou uma incapacidade de 85%. Foi um alívio para as filhas. Agora a mãe já poderia ter um fim de vida digno. 


https://aventar.eu/2020/09/11/dignidade-3/

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Carla Romualdo - O pó da fivela



©Guy Denning
Já toda a gente conhece o Tomé e esse é o maior problema dele. Já não há ouvintes para os seus poemas, nem mecenas para umas cervejas, nem testemunhas para as epifanias que com frequência o arrebatam.
Ao Tomé, ignora-se e apenas quando não é possível evitá-lo.
É um homem de idade incerta, algures entre os 40 e os 65, escanzelado, com cabelo cortado às três pancadas, roupa que já passou por outros corpos antes de lhe chegar, sapatos cambados, dentes estragados, o nariz sempre a pingar porque, como ele vai contando a toda a gente, sofre de uma alergia que lhe dura o ano inteiro e tem o septo desviado.
Por acaso, no dia em que o conheci, e em que ele insistia em ler-me a sua elegia “A sétima morte dos ludopatas”, comecei por oferecer-lhe um lenço de papel, que ele recusou com gesto soberbo.
– Não, obrigado. Só uso lenços Poker.
Ora, a última pessoa a quem eu tinha visto usar lenços Poker foi o meu pai, que perdeu dúzias de lenços em anos de espera pelo autocarro. O meu pai chegava à paragem habitual, tirava o seu lenço do bolso, estendia-o sobre o muro baixo, sentava-se sobre ele para não sujar as calças, puxava do jornal e imediatamente se esquecia do lenço e mesmo do autocarro, pelo menos até vê-lo deter-se, de porta aberta, à sua frente. Era só na terceira ou quarta paragem seguintes que se lembrava do lenço que ficara sobre o muro. No dia seguinte, o lenço já não estava lá. Nunca estava lá. Julgo que houve uma bem oleada rede de venda de lenços Poker em segunda mão inteiramente financiada pelo meu pai.
Pois aquele poeta literalmente ranhoso, sempre aos caídos, pedinchão, que apenas tolerava, para o seu arrogante nariz pingoso, os já vetustos lenços de algodão marca Poker, agradou-me logo. Ouvi o poema, contribuí para a escrita do próximo, e da vez seguinte que passei lá no pouso dele levei-lhe um pacotinho de Poker que encontrei numa retrosaria moribunda da Barão de S. Cosme. Abriu a embalagem, revirou o pacote entre os dedos. Não ficou satisfeito.
– Só seis? Podia ser uma dúzia.
Nesse dia estava também a Véronique, a francesa, que num momento de debilidade havia aceitado traduzir-lhe um poema e assim se tinha convertido na maior – e única – esperança do Tomé para a internacionalização da sua obra. Pobre Véronique, nunca soube dizer non. E por isso está a meio, sempre a meio, da tradução de uma obra que o Tomé continua a reescrever porque é a primeira que será traduzida e é a que lhe abrirá as portas da fama internacional.
Porque o Tomé não tem dúvidas de que virá a ser um poeta célebre, ainda que seja postumamente. Quando lhe perguntamos pelos autores preferidos, diz-nos mal de todos excepto daquele a quem chama Mestre, cujo nome nunca revelou, mas de quem diz não ser digno de sacudir o pó da fivela da sandália. Dos que dizem que o Mestre não existe, ri-se com um riso amargo e chama-lhes néscios.
Às vezes, o Tomé bebe de mais, fica irascível, leva um soco de um forasteiro que não está para aturá-lo, ou cai na rua e vai na ambulância do INEM. Volta passado uns dias com passos mais arrastados e conta que esteve num retiro poético.
Soube hoje que o Tomé anda desaparecido há mais tempo do que o costume e que alguns dos que habitualmente o evitavam estão agora à sua procura. Não é por sentirem a consciência pesada nem têm motivos para isso. É só porque há pessoas que são muito maiores do que parecem, mas claro que isso só se aprende quando elas deixam de estar.
https://aventar.eu/2017/05/19/o-po-da-fivela/#more-1278123

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Histórias reais – Uma proposta irrecusável



É pouco provável que algum de vós tenha conhecido o Mocambo. Fechou portas em 1958, depois de década e meia de glória no esplendoroso Sunset Boulevard, onde os argumentistas fracassados acabam a boiar nas piscinas. Com a sua decoração carregada de estereótipos de uma América do Sul de caricatura, e as paredes cobertas de jaulas de vidro com papagaios, catatuas, e pombos, devia ser um desses lugares em que tudo é genuinamente postiço. Ver e ser visto no Mocambo era um imperativo para as estrelas da época e nenhuma falhava. E actuar no Mocambo era o empurrão necessário para qualquer carreira musical. Poucos eram, porém, os artistas negros que conseguiam um contrato, numa época em que a segregação racial ainda era a norma.
Impunha-se, portanto, jogar uma carta alta para que uma cantora negra pudesse actuar no Mocambo. Foi necessário que a sua amiga e admiradora fizesse ao dono do clube uma proposta irrecusável. Se ele contratasse certa cantora, a quem apenas a mais preconceituosa burrice poderia cerrar portas, ela, a sua amiga e admiradora, estaria todas as noites na fila da frente do Mocambo, sorriria para as câmaras dos fotógrafos que não deixariam de seguir-lhe os passos e com isso faria ao clube uma publicidade tão esplendorosa que nem o Mocambo poderia desdenhar.
O dono não recusou e a cantora fez um sucesso tal que a sua carreira nunca mais conheceria a sombra. E a amiga e admiradora cumpriu o prometido e lá esteve, sorridente, na primeira fila, noites a fio.
Até ao fim da vida, a cantora reconheceu a dívida de gratidão que tinha para com a sua amiga, a quem retribuiu com lições de canto.
A cantora era Ella Fitzgerald, a amiga e admiradora era Marilyn Monroe. Nunca consegui decidir qual destas versões prefiro, reconhecendo, embora, que a segunda é imperfeita. Talvez por isso mesmo.



 https://aventar.eu/2016/10/19/historias-reais-uma-proposta-irrecusavel/#more-1259645

Overcoming discrimination

On the touring circuit it was well-known that Ella's manager felt very strongly about civil rights and required equal treatment for his musicians, regardless of their color. Norman refused to accept any type of discrimination at hotels, restaurants or concert halls, even when they traveled to the Deep South.
Once, while in Dallas touring for the Philharmonic, a police squad irritated by Norman's principles barged backstage to hassle the performers. They came into Ella's dressing room, where band members Dizzy Gillespie and Illinois Jacquet were shooting dice, and arrested everyone.
"They took us down," Ella later recalled, "and then when we got there, they had the nerve to ask for an autograph."
Norman wasn't the only one willing to stand up for Ella. She received support from numerous celebrity fans, including a zealous Marilyn Monroe.
"I owe Marilyn Monroe a real debt," Ella later said. "It was because of her that I played the Mocambo, a very popular nightclub in the '50s. She personally called the owner of the Mocambo, and told him she wanted me booked immediately, and if he would do it, she would take a front table every night. She told him - and it was true, due to Marilyn's superstar status - that the press would go wild. The owner said yes, and Marilyn was there, front table, every night. The press went overboard. After that, I never had to play a small jazz club again. She was an unusual woman - a little ahead of her times. And she didn't know it."
http://www.ellafitzgerald.com/about/index.html

sábado, 23 de abril de 2016

Carla Romualdo - Pó enamorado

Pó enamorado



© CR
Durante anos, o meu pai repetiu que, logo abaixo do proverbial “aqui jaz fulano”, a sua lápide haveria de ressalvar: “Contra a sua vontade”.
Acabaria por escolher a cremação, até porque detestava enterros, mas continuou a gostar de contar o que diria a lápide que sabia que não iria ter.
As suas cinzas foram depositadas no jardim do cemitério, numa manhã de Verão que nada teve de solene. Mesmo antes de sair de casa, decidi que queria que pelo menos uma pequena parte das cinzas fosse para um sítio de que ele gostava. Não sendo um sítio onde se possam depositar cinzas, não seria viável depor lá mais do que uma reduzida quantidade. Só tinha à mão um daqueles frascos para champô de levar em viagem e, como nunca tinha sido usado, achei que poderia servir.
Nessa manhã, o grande volume de cinzas foi despejado no jardim, e, apesar do cuidado que se pôs na operação, formou-se uma nuvem de pó que me fez espirrar. Quanto se teria rido o meu pai se soubesse que a última coisa que fiz com ele foi espirrá-lo. Foi, aliás, a primeira vez que senti a falta dele, ao pensar que faltava ele ali para rir comigo. No recipiente disponibilizado pela funerária, um vaso negro, solene, as cinzas são qualquer coisa de sagrado, um despojo nobre. Num frasco transparente, as cinzas são comezinhas e domésticas, quase se pode falar com elas, dizer-lhes “Para já, vão ficar aqui na estante, têm luz, à beira da janela, e depois a gente leva-vos para aquele sítio.” Mas não cheguei nunca a falar com elas, não se apoquentem.
Trouxe comigo, portanto, o frasquinho com uma pequena parte das cinzas e pousei-o na estante, atrás da mesa onde escrevo. Se espreitarem, agora, por detrás do meu ombro, talvez consigam vê-lo. Nunca tinha visto cinzas humanas e reconheço que fiquei desconcertada. Creio que imaginava algo que pudesse assemelhar-se ao “pó enamorado” de Quevedo e afinal tudo se reduz a uma matéria cinzenta, algo granulosa, e cuja origem é indecifrável. É certo que a matéria se transforma, mas que o meu pai, mais o seu fato favorito, a sua gravata azul, o seu cachecol do FCP, sejam este pó cinzento que restou parece-me difícil de acreditar.
Como não choveu pouco nos meses seguintes, fomos adiando levar as cinzas para o outro sítio, porque a ideia de que as cinzas se fizessem lama era-nos desagradável. E, assim, o frasco foi ficando na estante. Não tenho nenhum interesse mórbido nas cinzas, quando penso no meu pai não penso nas suas cinzas, passam-se muitos dias em que nem me lembro que estão ali, e só mexo no frasco quando ele está mesmo em frente ao livro que quero tirar da estante.
Tal como o meu pai, eu também gosto de dizer que já sei o que dirá a lápide que não vou ter. Como, apesar de tudo, sou menos rezingona do que ele, a minha dirá:
“Gostei muito deste bocadinho.”
Penso que ele seria a única pessoa no mundo a achar verdadeiramente graça a isto. Acreditávamos ambos que uma piada pode resistir pelo menos tanto como o mármore.
No outro dia, perguntaram-me se sempre vou levar as cinzas ou deixá-las ficar e espantei-me com a pergunta. O plano não mudou, as cinzas têm destino. Mas não estão mal onde estão, lá isso é verdade, e continuo à espera do dia em que um visitante inadvertido perguntará: “Ah, esta areia trouxeste de donde?” e eu vou gostar de observar a sua expressão quando lhe explicar de que se trata. O que estou disposta a mudar é de frasco, até porque consigo ouvir o protesto do meu pai: “Meteste-me num frasco de champô?! Tem algum jeito?”
Nenhum de nós teve, alguma vez, jeito para o solene, lá isso não.
https://aventar.eu/2016/04/23/po-enamorado/#more-1251706

sábado, 12 de dezembro de 2015

Carla Romualdo - Eu às vezes embarco em conversas banais



Aqui chegados, há muito mais disponibilidade e paciência para meter conversa ou deixar-se meter conversa com desconhecidos. Às vezes, é gente intelectualmente estimulante, ou pelo menos assim o parece, esta luz mortiça até nos favorece, no bar modernoso do copo de tinto ao fim da tarde. Vêm com um Malraux debaixo do braço, óculinhos de massa, eu é que já não tenho 20 anos, essas deixas já não colam. Outras vezes, é o velhote chato da rua de Cimo de Vila, que vai batendo a bengala na calçada, e espera que apareça um aborígene para protestar-lhe do carro estacionado em cima da passadeira.
– É tudo deles, já viu?
É tudo deles, dos gajos que tomam conta disto tudo, do dono do bar de alterne que emprega a moça corcunda – já viu? tadita da catraia, catraia é como quem diz, já tem uns 50 bem atestados – do dono do hostel, do turista espanhol tan borde. Conversar com desconhecidos, já me explicava o meu velhote, é um marco civilizacional, não somos bichos que andamos para aqui, e é uma maneira como outra qualquer de fazer amigos. Numa cidade como a minha, pequenita, acaba-se sempre a descobrir que o desconhecido é primo do amigo da patroa do vizinho do Nando. Lembras-te do Nando? Então não?!
Passa, entretanto, o carteirista, que isto das cidades pequenas tem a vantagem adicional de conhecermos os carteiristas.
– Lá vai o gajo pró gamanço.
O carteirista – chama-se Rui – é aquele pintas que já foi puto reguila, adolescente malandro mas de bom coração e que poderia ter endireitado o rumo, mas teve uma infelicidade na vida – a mãezinha que se finou, um padrasto que lhe batia, uma mulher que lhe fugiu – e nunca mais saiu da cepa torta. Tem nariz comprido e afiado, é alto e magro como um canivete, tem um caminhar sacudido e sempre alerta, olha para trás muitas vezes, pudera!, tantos que têm contas para acertar com ele. É cobardolas, gosta de roubar velhotas, escapa-se a correr pelas escadas se pressente que alguém no prédio deu pela sua presença. Encontro-o muitas vezes pela cidade, normalmente à porta de um sítio, porque os ladrões de pouca monta são grandes observadores. Eu, se fosse presidente de câmara, havia de contratar um e tê-lo sempre por perto. Ninguém conhece a cidade como um profissional do gamanço.  Tu serias uma péssima presidente de câmara, atiram-me. Por acaso.
O que é certo é que, num dia, estamos a ser roubados, no outro sentamo-nos lado a lado com o mãozinhas, ao balcão. Pode acontecer.
– Já me roubaste cinco euros, ó artista. Devias ser tu a pagar-me o almoço.
– Deve estar a fazer confusão, menina. Acontece-me muito.
Lá fora instala-se o Toni, o da aparelhagem. É uma história comprida. O Toni queria ser artista. Começou a cantar no Ultramar, animava as tropas, cantava fado, músicas do Max, do Tony de Matos, do Francisco José, “teus olhos castanhos…”. Isto era na Guiné, aos anos que isto vai. Depois voltou, arranjou emprego como taxista. Casou com a Guida, que era filha do Gervásio. Sabes, o Gervásio? Tinha aquele tasco, lá em baixo, ao pé do tribunal? Esse, exactamente. O Toni gostava era de cantar, formou um conjunto, tocava nos bailes, cantou uma vez num daqueles espectáculos da Radio Festival. Depois, a Guida teve aquele problema, ui, aquilo é que foi. E o Gervásio acabou mal, estava-se mesmo a ver. Agora, o Toni vive da reforma. Anda por aí com um chapéu de palha, fato branco de dealer sul-americano, e uma coluna de som,  enorme, que ele traz num carrinho como se fosse uma botija de gás. Instala-se à porta da churrasqueira, do bingo, do bar, pede ao patrão para ligar as colunas, e toca a animar a esplanada. Canta músicas dos Iniciadores, dos Shadows, a “Pomba branca”. O grande êxito dele é aquela do “Som de cristal”, a mulher que, de tantas vezes ter sido deixada em casa pelo marido putanheiro, um dia foi trabalhar para um bar de alterne. As mulheres têm sempre fraca cabeça, nestas canções, também por aí se vê que sabem mais do mundo os do gamanço que os letristas.
A malta, ao balcão, ouve umas coisas, mete conversa, já não há conversas privadas. Ouve lá, tu não és o fulanito? Acabaram-se os anos finesse, do restaurante chique, da Avenida Brasil. Até o sushi, agora, só se for no rodízio. Pobres somos todos, mais nos vale conviver. Chega-me aí a broa, se fazes favor. E faz-me um sinal qualquer se me vires falar de mais.
http://aventar.eu/2015/12/11/eu-as-vezes-embarco-em-conversas-banais/#more-1241388

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Carla Romualdo - O homem que mandou Deus passear

 
“Jonas e a baleia”, ilustração no “Jami’ al-tawarikh” (Pérsia, c. 1400)
Jonas era um tipo ponderado, reflexivo, avesso a que lhe desordenassem os dias e ainda mais a receber ordens. Deus embirrou logo com ele. Ou não fosse Ele hábil a identificar os problemáticos, os que insistiam em pensar e duvidar e ver além. Jonas tinha de ser domado. E por isso, estando o homem posto em sossego, Deus foi ter com ele e mandou-o ir a Nínive, a cidade assíria do culto a Ishtar, deusa da fertilidade, do amor e do sexo. Vai lá e avisa-os de que o fim está próximo, diz-lhes que destruirei a cidade e todos os seus habitantes, ordena.
Jonas, que esperava a divina visita e adivinhava o desfecho de tal incumbência, correu para o porto mais próximo e apanhou o primeiro barco que saía, que por acaso ia para Társis, mas, sobretudo, não ia para Nínive.
A viagem começou bem e Jonas adormeceu tranquilamente no porão, escondido, a salvo de Deus. Mas logo as ondas começaram a agitar-se, uma tempestade violenta irrompeu, sacudiu o barco que parecia a ponto de estrancilhar-se. A tripulação apavorada adivinhou que aquela súbita fúria dos elementos não podia ser coisa terrena, e foi despertar o viajante que lhes parecera suspeito. Jonas, que dormia o sono dos justos que escapam a Deus, percebeu tudo nada mais abrir os olhos e confessou que a tempestade a ele se devia. Disse à tripulação que o lançasse borda fora, que dessa forma as suas vidas seriam poupadas. Os marinheiros não hesitaram e num instante Jonas debatia-se com as ondas geladas. Deteve-se então a fúria dos ventos e das ondas, mas apareceu uma titânica criatura, uma baleia, que engoliu Jonas. No ventre do bicho passou ele três dias tormentosos, negros dias e negras noites que mal podemos imaginar, e acabou a pedir perdão a Deus e a aceitar o encargo, que remédio. Deus não brinca: coacção, chantagem, tortura. Arrancada a cedência a Jonas, ordenou Deus à baleia que cuspisse o desgraçado homem para terra.
Lá foi Jonas a Nínive, sabendo no que aquilo ia dar. Os habitantes ouviram-no, acreditaram nas suas palavras, arrependeram-se e converteram-se. Deus, apaziguado o orgulho ofendido, comunicou a Jonas que tinha desistido da destruição. Que ficavam sem efeito as catástrofes programadas. E Jonas indignou-se. Porque já sabia que aquilo haveria de acontecer. Porque raios tinha sido mandado ali se Deus nunca quis, de verdade, destruir Nínive? O que Ele queria era exibir a grandeza, demonstrar quão fácil seria reduzi-los a cinza e desfrutar depois da sua conversão resignada, do arrependimento alimentado pelo medo, do choro e ranger de dentes que apenas Ele podia deter. Porque havia Jonas de ser um fantoche a cumprir ordens inúteis? Porque não tinha ido o próprio Deus interpelar os nínivenses, enumerar os seus tantíssimos pecados, ameaçá-los com o fogo eterno, mostrar-lhes a Sua fúria tremenda, o Seu poder infinito?
Era sempre a mesma coisa. Tinha ele deixado tudo para trás, tinha arriscado a vida, três dias passara nas entranhas de um bicho medonho para satisfazer um capricho, nada mais que um capricho de Quem não sabia deixar de exercer o poder absoluto, a todas as horas, por toda a eternidade. Um dependente emotivo, um tipo infantil, no fundo, e pensar que a Ele tinham sido confiadas todas as chaves do universo, que lástima.
Tão enfadado estava que decidiu ficar nos arredores, numa precária cabana por si construída, onde pudesse observar, bem de longe, a cidade. Para protegê-lo do sol, Deus fez nascer uma aboboreira para que as folhas lançassem sombra sobre a sua cabeça. Jonas alegrou-se. Vá lá, um gesto de delicadeza, finalmente. Deus mandou então um verme que em pouco tempo secou a aboboreira. Quando Jonas se despertou pela manhã e viu as folhas mirradas, a pobre planta corroída, pontapeou a areia, ergueu os braços aos céus e anunciou que desistia. Podia Deus matá-lo, sem mais manigâncias, que ele desistia.
Deus, numa refinada manifestação de sonsice, perguntou-lhe, de lá de cima:
– Fazes bem que assim te ires por causa da aboboreira?
E Jonas, libertando-se, para todo o sempre, das grilhetas, respondeu, imenso:
– Faço bem que me revolte até à morte.
A história de Jonas termina com a pergunta de Deus: se tens tu compaixão da aboboreira, não deveria eu ter compaixão dos homens e mulheres de Nínive?
Da resposta de Jonas nada se diz nas Escrituras. Nem do que a seguir lhe aconteceu. Porventura porque a resposta tenha deixado Deus embasbacado com a audácia da miserável criatura, ou talvez Jonas nem se tenha dado ao incómodo de responder. Mandou o Senhor ir dar uma volta, mais os seus planos de destruição massiva, as suas aboboreiras, os bichos gigantes que sulcam os mares, tantos e tão desproporcionados recursos para fazer ceder a vontade de um homem. Jonas, herói renitente, perdera o medo e encontrara um sentido profundo na revolta. Recusava-se a consagrar a existência a ser marioneta. Jonas tinha mais que fazer, e o seu mais que fazer era viver, a seu modo, a vida que lhe tocara, sem ingerências, sem acatar ordens. Já não se calaria, nem seria instrumento de uma vontade que operasse através dele, que o reduzisse a ferramenta. Por tudo isto, Deus entendeu que a sua história deveria ser interrompida naquele instante, frente a Nínive. Afinal, Deus soube sempre aquilo que o Orson Welles nos contou não vai há muito: “Um final feliz depende, naturalmente, de onde é que se pára de contar a história.”
Jonas morreu, como todos, mas mais livre do que quase todos.
https://ergoressunt.wordpress.com/2015/11/25/o-efeito-boomerang-jornal-tornado/

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Carla Romualdo - Nada de amores


 
Na pensão de sobe-e-desce, a empregada sacudia as colchas para a rua. Olhos concupiscentes fixaram-se nelas. Esvoaçavam com o pesadume dos tecidos velhos, gastos, deformados. A empregada sacudia-as com esforço, um rosto cansado e sofrido, uma imigrante de leste que trabalha sem folgas. Os velhos que passam o dia à porta da pensão conhecem o ritual das cinco, o sacudir das colchas. Não têm dinheiro para subir, limitam-se a andar pela rua, de trás para a frente, a meter conversa com as meninas, que são quase todas cinquentonas, à espera do milagre, da benesse, do dia em que as encontrarão de cabeça tão perdida, ou de coração tão apertado, que lhes darão uma borla, só para dizerem que não foi por dinheiro, só para se sentirem mais livres. Mas o dia nunca chega, ou pelo menos ainda não chegou. E eles andam sempre por ali, pés cada vez mais arrastados, a ver que se lhes acabam os dias e nada de amores.
Há quem se deite debaixo daquelas colchas, mas eles não. As colchas a arejar à janela são o único que conhecem do quarto, o mais próximo que chegarão. E por isso as olham como se de uma aparição se tratasse, tão esplendorosamente erótica, tão provocadora.
E elas, as mulheres, encostadas à parede, a vaguear para cima e para baixo, a bater com os tacões no chão para aquecer os pés enregelados, a rir umas com as outras, a fumar cigarros, a pintar os lábios, a praguejar contra o rapazola de mota que as insultou, a telefonar para a filha a saber se o catraio já não tem febre, a fazer de tudo menos caso aos velhos, os que não lhes podem pagar. Riem-se deles, os pobres trouxas, sempre por ali, a cobiçar, a invejar os que podem pagar, a sonhar que um dia lhes vai sair o euromilhões, só se for isso.
Às cinco da tarde, as janelas abriram-se, a empregada assomou-se com a colcha verde nas mãos, os velhos levantaram os olhos e uma das meninas, que de menina já perdeu tudo menos o título, disse, enfastiada.
– É só para inglês ver. Nunca as lavam, nunca as trocam. São sempre as mesmas.
Os velhos não a ouviram. Olhos pregados na janela. A esvoaçar, lá em cima, estava uma promessa de júbilo pela qual valia a pena passar os dias à espera. Ainda que nunca chegasse.
Imagem: Fiz a foto há uns tempos, mas tenho a certeza de que o edifício não é uma pensão de sobe-e-desce. Quem o reconhecer, fica avisado

http://aventar.eu/2015/11/11/nada-de-amores/#more-1238891.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Carla Romualdo - Está dizendo viva, viva


09/10/2015 por  
Sábado à tarde há iscas, bifanas, papas de sarrabulho. Não desfazendo, eu vou pelo convívio. É uma gente tímida, mas tímida também sou eu, e de tanto darmos um jeito para que caiba mais um acabamos por meter conversa.
A casa tem um canto, mais reservado, onde só há uma mesa grande, partilhada por desconhecidos ou disponível para grupos numerosos. Era lá que estavam eles e eu sentei-me por perto com o meu mais reduzido grupo. Eles eram dez, todos homens, todos velhotes, todos castigados por bastante mais do que os anos que tinham passado. Tinham pendurado os bonés no cabide atrás deles, alguns já não se atreviam a tirar o casaco. Um tamborilava os dedos sobre o tampo da mesa, que é uma forma, já se sabe, de marcar o compasso do que se evoca, e os seus olhos húmidos e enevoados confirmavam quão longe ele estava. Os outros seguravam os copos, cada um com o seu, como se houvesse que segurá-lo, não fosse a mesa virar a qualquer momento. Tem destas coisas, a casa, faz-nos sentir no mar alto.
Falavam alto, riam, contavam piadas. Ao segundo ou terceiro copo, um deles começou a cantarolar. Juntou-se logo outro, e outro, e outro. O que começara tinha boa voz, os outros desafinavam. Calaram-se logo em seguida, pediram mais vinho, mais iscas. Mas já se tinham soltado, estavam prontos. O cantor bateu com o copo, sinal de ordem à mesa, os outros calaram-se, a tasca calou-se também, sem saber por que o fazia, e ouviu-se, vinda do canto, uma voz sem rosto:
“No alto daquela serra / no alto daquela serra / está um lenço / está um lenço a acenar”
Os outros juntaram-se-lhe, um coro eufórico e desentoado. Noutra mesa, uma mulher abanou a cabeça para o marido e disse entredentes: “Cambada de bêbados”.
E eram. Uma estupenda cambada de bêbados, velhotes com colesterol alto, triglicerídeos em flecha, hipertensão, flebites nas pernas, diabetes, arritmia. Havia ali caras que pareciam saídas de uma unidade de cuidados intensivos. Se calhar, para a semana já não se levantavam da cama, ou seria para o ano, talvez num par de anos. Se calhar, estavam rijos como um pêro e ainda tinham muitas tardes de sábado. Ou talvez aquele grupo, com cada um dos desafinados, já não se juntasse mais, porque bastaria que faltasse um para que não fosse igual.
Seriam amigos antigos ou recentes, que a velhice traz também amigos, circunstanciais, os que se descobrem por perto apenas na ausência dos outros. Lembrei-me que o meu pai fez amigos até ao fim, o último terá sido uma semana antes, e nem por ser tão recente lhe faltou na despedida.
Chegaram mais iscas, mais jarros de vinho, e nem por isso eles se calaram. Cantavam cada vez mais alto, enchiam a sala, sem vergonha das senhoras com os maridos, nem do turista a gravá-los para o youtube, cantavam com todo o vigor, e no dia seguinte haveriam de acordar sem voz, ou com uma pontada nos pulmões, que diabo importava isso agora?
Encostei-me à parede de granito, ao lado da mesa grande. A algazarra era tanta que havia já quem saísse para não ter de aguentá-los. Ocorreu-me que o meu pai poderia estar ali, ele que até se recusava a cantar, mas que soube sempre tão bem gozar a amizade e as alegrias simples. E pareceu-me que sim, de alguma forma estava, podemos sempre acreditar que estamos onde nos recordam.
Quis sair antes deles, não quis ver o fim da festa, os abraços de despedida. Deixei atrás o coro desafinado e a voz ainda límpida do cantor que, dei-me conta então, era o único cujo rosto eu não tinha visto. Ainda o ouvi repetir os versos do começo:
“Está dizendo viva viva / está dizendo viva viva / morra quem / morra quem não sabe amar”.
Ilustração: Mariano Fortuny y Marsal, “Viejo desnudo al sol” (detalhe), 1863

popular : No alto daquela serra

Letra e música: popularjj

No alto daquela serra
no alto daquela serra
está um lenço
está um lenço a acenar

Está dizendo viva viva
está dizendo viva viva
morra quem
morra quem não sabe amar

Do outro lado do monte
do outro lado do monte
tem meu pai
tem meu pai um castanheiro

Dá castanhas em outubro
dá castanhas em outubro
uvas brancas
uvas brancas em janeiro