quarta-feira, 30 de setembro de 2015

um soneto de fernando assis pacheco



Primeira tirinha da Mafalda completa 51 anos

29 de setembro de 2015 - 14h09 


Em 29 de setembro de 1964, foi lançada a primeira tirinha de Mafalda no semanário “Primera Plana”, da Argentina. A personagem questionadora e indignada do cartunista Quino continua colecionando fãspelo mundo, 51 anos depois de seu nascimento.    



A tirinha ficou famosa por sua forte crítica social ao mundo moderno, associada sempre ao bom humor. Aos seis anos de idade, Mafalda odeia sopa e adora os Beatles. A garotinha de cabelos negros ornados por uma fita e rosto gorducho ficou conhecida por seu jeito rebelde e inconformado. Aos seis anos, filha de pais de classe média, ela nunca se limitou a questões típicas da infância, sempre lançando seu o olhar crítico e contestador para questões econômicas e sociais de todo o planeta. Confira abaixo:

 Mafalda faz 51 anos

Do Portal Vermelho, com Radioagência Nacional

http://www.vermelho.org.br/noticia/270842-11




um poema de armindo rodrigues


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Manuel da Fonseca - Maria Campaniça

A OPERÁRIA

terça-feira, setembro 29, 2015

Uma reportagem exemplar...

... chegada por mail amigo (que adoptei... com uns pequenos alinhavos para que também minha fosse):


A OPERÁRIA

Quando Deus fez o paraíso logo nele instalou uma fábrica de calçado e por isso Adão e Eva procriaram até ao mais ínfimo operário. De todos eles, Maria José está há 24 anos sentada aquela máquina de costura, a unir o forro dos sapatos e a cose-los na máquina, a colar juntas para sapatos como se tivesse sido predestinada para que o patrão tivesse uma vida criativa e feliz.

Mal levanta os olhos, e diz que é a "primeira vez" que são visitados por um primeiro-ministro.

Passos e Portas estavam de visita a uma benedita fábrica de calçado, perto de Alcobaça, que fornece essencialmente o mercado militar estrangeiro. E disse Passos que quando era mais novo era moda usar botas da tropa. Contou o presidente do PSD que "era moda... uma vez até fui a uma tomada de posse, quando estava na JSD, com botas de tropa e blusão de cabedal.".

Os operários mantinham a sua atenção no trabalho que estavam, mecanicamente, a executar. Tirar moldes, coser peles, colar solas…

Muito obrigado,
José Monteiro!

Publicada por Sérgio Ribeiro à(s) 11:05

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

William Wordsworth - Splendour in the Grass

A POEM A DAY, COMPLETE WITH ANALYSIS, CRITICISM, BIOGRAPHICAL INFO, LITERARY ANECDOTES, TRIVIA, AND OUR OWN SKEWED SENSE OF HUMOUR :-)
(Poem #1173) Splendour in the Grass


 What though the radiance
 which was once so bright
 Be now for ever taken from my sight,
 Though nothing can bring back the hour
 Of splendour in the grass,
 of glory in the flower,
 We will grieve not, rather find
 Strength in what remains behind;
 In the primal sympathy
 Which having been must ever be;
 In the soothing thoughts that spring
 Out of human suffering;
 In the faith that looks through death,
 In years that bring the philosophic mind.
.
-- William Wordsworth
William Wordsworth's 'Splendour in the Grass' is the poem we hear in the 1961movie by the same name.  Natalie Wood and Warren Beatty starred and Wood was nominated for an Academy Award for her role as Deanie, Beatty's girlfriend.

The poem is from Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood, which begins with the majestic:

  There was a time when meadow, grove, and stream,
  The earth, and every common sight,
            To me did seem
        Apparelled in celestial light,
  The glory and the freshness of a dream.

The entire ode is well worth reading.

My first introduction to Splendour in the Grass was on a day when I was home from school, sick with the flu. I passed the day watching movies on the television. Though I was only about eleven or twelve years old, the poem really resonated. And who can forget Natalie Wood struggling to read it in her English class, then hearing her recite it again, this time much wiser,at the end of the movie?

Kassie
...

Ruy Belo - Esplendor na Relva




* Ruy Belo


Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste


A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste


na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais 





in Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, 2010



Ruy Belo: uma poesia que aprendeu a ver com o cinema


No dia em que o cinema Medeia Monumental acolhe em Lisboa uma sessão dedicada à relação da poesia de Ruy Belo com a sétima arte, que encerrará com a exibição de Esplendor na Relva, o PÚBLICO revela o manuscrito original do célebre soneto que o filme de Elia Kazan inspirou ao autor de Homem de Palavra(s).

“Eu sei que deanie loomis não existe/mas entre as mais essa mulher caminha/ e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”. Com esta quadra, que evoca a protagonista de Esplendor na Relva (Splendour in the Grass, 1961), interpretada por Natalie Wood no filme de Elia Kazan, inicia Ruy Belo (1933-1978) um dos seus mais notáveis e discutidos poemas, de que aqui apresentamos o manuscrito original, e ainda um posterior dactiloscrito emendado à mão, dois documentos inéditos cedidos pela mulher do poeta, Teresa Belo.

Este e outros poemas do autor nos quais comparecem expressamente filmes e actores, como No way out, Humphrey Bogart, Vício de matar ou Na morte de Marilyn, irão ser ditos hoje à noite pelo actor Pedro Lamares, no Medeia Monumental, em Lisboa, a abrir uma sessão dedicada à funda e persistente relação que a poesia de Ruy Belo estabeleceu com o cinema. A noite fechará com a exibição de Esplendor na Relva, mas antes ainda será possível ouvir o ensaísta António M. Feijó falard’A Deanie Loomis de Ruy Belo, e assistir a um breve filme que o linguista e filólogo Luís Filipe Lindley Cintra rodou do casamento do poeta com Teresa Belo, celebrado em Vila do Conde, donde esta é natural, em 1966.

Ruy Belo evoca este momento no poema Portugal sacro-profano - Vila do Conde, que também se irá ouvir no Monumental, mas na voz do actor e encenador Luís Miguel Cintra, filho do cineasta de ocasião, que também assistiu à boda quando tinha 17 anos. O seu pai, de resto, não foi apenas o realizador de serviço, tendo assumido também funções de produção.

Desde logo, conta Luís Miguel Cintra, foi preciso desencantar o noivo, que não aparecia. “Faltou à hora do casamento e alguém disse que se calhar se tinha distraído e ainda estava na pensão. O meu pai foi procurá-lo e lá estava ele: era fim de tarde e distraiu-se a ver o pôr-do-sol”.

Mas “o mais engraçado”, acrescenta o actor, é que “eram tão ingénuos, tão puros, que não tinham combinado onde iam passar a lua-de-mel, não sabiam o que iam fazer a seguir, e foi o meu pai que os meteu no carro, depois do copo de água, à procura de um sítio simpático onde os pudesse deixar”.

Teresa Belo precisa que o local escolhido acabou por ser Espinho. E se ignora em que momento Ruy Belo escreveu o poema de Vila do Conde, esse “lugar onde o coração se esconde/ e a mulher eterna tem a luz na fronte”, sabe, em contrapartida, que Literatura explicativa, o poema inicial de Homem de Palavra(s), “foi escrito em Espinho, nessa lua-de-mel improvisada”. E tendo em conta os caeirianos versos que o abrem, tudo indica que o poeta continuava fascinado com os pores-do-sol que já o distraíam em Vila do Conde: “O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol/ nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol (…)”.

Ruy Belo não costumava datar os manuscritos, de modo que Teresa Belo também não sabe quando este escreveu a primeira versão de Esplendor na Relva, mas o mais provável é que tenha sido logo após ter visto a obra de Kazan, que se estreou em Portugal em 1962. “Começámos a namorar em 1961, e deve ter sido mais ou menos por essa altura que fomos ver o filme ao antigo cinema Eden”, conta.

E não a surpreende que Ruy Belo tenho esperado até ao final da década para dar a conhecer este soneto em Homem de Palavra(s), publicado em 1969 na icónica colecção dos Cadernos de Poesia da D. Quixote. “Ele escrevia livros muito organizados, e portanto ficavam bastantes poemas de fora à espera de um livro onde coubessem.”

As duas versões, manuscrita e dactiloscrita, que encontrou nos seus papéis e que nos autorizou a reproduzir mostram como o poema evoluiu até Ruy Belo se dar por satisfeito. Sendo que aquele que foi porventura o mais virtuoso fabbro da poesia portuguesa da segunda metade do século XX tendia a só se satisfazer com a exactidão.

É talvez por isso que, sendo emocionante ver agora na elegante caligrafia do poeta um soneto que os leitores de Ruy Belo tantas vezes leram em letra de forma, não deixa também de causar uma certa estranheza constatar que este Esplendor na relva possa ter tido versões anteriores, que não tenha nascido logo inteiro e perfeito, como sempre o conhecemos. Mas o que nos deveria espantar é justamente o contrário: que só alguns detalhes, ainda que bastante decisivos, distanciem esta primeira tentativa, escrita ao correr da caneta, do que veio a ser o resultado final.

Ruy Belo escreveu o poema depois de ver o filme de Kazan, que por sua vez se inspirou numa conhecida ode de William Wordsworth, fundador do Romantismo inglês e um poeta central na genealogia literária do poeta português, o que complica a aparente linearidade poema-filme-poema. Não por acaso, Esplendor na relva é um dos poemas de Ruy Belo que mais tinta tem feito correr, a começar pela do próprio autor, que em 1978, no prefácio à segunda edição de Homem de Palavra(s), o integra nos “poemas onde o cinema [o] ensinou a ver”.

Também o poeta e ensaísta Joaquim Manuel Magalhães, autor de alguns dos mais importantes e pioneiros textos críticos sobre Ruy Belo, e organizador da primeira compilação da sua obra poética, alude a este poema, vendo nele um exemplo da lição wordsworthiana: a da “poesia como memória, como transbordar de sentimentos após ter passado a emoção de os ter vivido”. Uma perspectiva que Pedro Serra, num ensaio mais recente, tenta pelo menos matizar, servindo-se deste mesmo poema para tentar demonstrar as dimensões pós-românticas da poesia de Ruy Belo.

Para lá de hesitações menos significativas - e descontando as maiúsculas nos nomes próprios, que o poeta viria a abolir em toda a sua poesia, para que "palavra alguma levante a cabeça no meio da frase" -, a versão manuscrita apresenta dois versos diferentes (e consideravelmente menos interessantes): onde hoje estão os já citados “e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”, o poeta começara por escrever: “e tem comportamento de rainha/ só possível a quem no ser persiste”. Versos que transitam ainda para o dactiloscrito, onde são depois riscados e corrigidos à mão para a sua versão definitiva.

E estes dois versos posteriores serão justamente aqueles em que irá centrar-se João Bénard da Costa, num texto que, sendo uma apreciação do filme de Kazan, é também do que de mais belo se escreveu sobre o poema que este inspirou. O histórico director da Cinemateca pergunta: “Resiste à ‘imaginação pura’ (…) ou resiste, ‘pura’, à imaginação? (…) Ou seja, o adjectivo ‘pura’ refere-se à imaginação ou a Deanie Loomis? Ou – pode ser também – à ‘linha que resiste’? Nestas três perguntas está o cerne de Deanie Loomis, de Natalie Wood e de Splendor in the Grass. São mulheres e filme da nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem à nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem a uma linha evolutiva que só na nossa imaginação existe?”.

Admite não ter respostas e suspeita de que o poeta também as não teria. O que sabe é que concorda com o que o próprio Ruy Belo escreveu, e que explica bem a importância do cinema na sua obra: “Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era já para os gregos”.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ruy-belo-uma-poesia-que-aprendeu-a-ver-com-o-cinema-1709272?page=-1

domingo, 27 de setembro de 2015

Ruy Belo - Na morte de Marilyn



* Ruy Belo


Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.



Ruy Belo
Transporte No Tempo

Editorial Presença

sábado, 26 de setembro de 2015

Joana Emídio Marques ~António Lobo Antunes. Ascensão e queda do ‘enfant terrible’ da literatura portuguesa

* Joana Emídio Marques
21 Fevereiro 2015
É o mais importante escritor português, mas o último romance vendeu 1600 exemplares na Fnac, quando há anos se vendiam 10 mil em três meses. Por que abandonámos este minotauro no seu labirinto?
Claudio Magris, um dos maiores pensadores da Europa contemporânea, dedicava a sua crónica no jornal Corriere della Sera, do dia 22 de janeiro, a António Lobo Antunes e chamava-lhe mesmo “um dos mais prodigiosos e fascinantes mestres”, “um Minotauro” da literatura. Ecos em Portugal deste notabilíssimo reconhecimento? Nenhuns. Apenas o blogue do projeto António Lobo Antunes na Web dava conta do acontecimento. Da editora D. Quixote, onde o escritor publica desde 1983, não houve qualquer reação nem no site, nem nas redes sociais. Aliás, na página do Facebook da chancela do grupo Leya, são escassas as referências ao escritor cujo último romance saiu apenas em outubro. Quem é que desistiu de Lobo Antunes? Os leitores ou a editora?
Pedro da Mata, diretor de comunicação da Fnac, dá-nos números arrasadores: nos três meses que passaram desde o seu lançamento, Caminho Como Uma Casa em Chamas vendeu apenas 1600 exemplares no conjunto de todas as Fnac portuguesas, que representam mais de 30% do mercado livreiro. E, apesar de a D. Quixote ter informado o Observador que o livro vai já na quarta edição, uma ronda pelas Fnac e Bertrand da cidade de Lisboa mostra que a única edição à venda é a primeira. Na livraria Bertrand do Centro Comercial da Amoreiras, uma das empregadas mostra no computador que nas outras casas deste grupo livreiro há ainda em stock entre 10 a 14 livros em cada uma.
Já a empresa GfK, que mede as vendas de livros não escolares de 80% do mercado português, confirma ao Observador que, entre 2012 e 2014, Lobo Antunes está apenas no grupo dos 40 escritores portugueses mais procurados. O grupo dos três mais vendidos é encabeçado por José Rodrigues dos Santos, cujo último livro ronda os 10 mil exemplares vendidos apenas nas lojas Fnac. Mais uma vez, Pedro da Mata resume bem a questão: “António Lobo Antunes deixou de ser um escritor da moda e tornou-se um escritor conceituado, 68% dos 1600 exemplares foram adquiridos por portadores do cartão Fnac, ou seja, são leitores cultos que compram livros todos os meses e provavelmente acompanham a obra de Lobo Antunes há muitos anos.”
Nelson de Matos, responsável editorial da D. Quixote entre 1981 e 2004, e um dos edificadores da carreira literária de Lobo Antunes, mostra-se “chocado e triste” com estes números e recorda que nos anos 80 se faziam “tiragens de 10 mil ou 15 mil livros que se vendiam em três meses”. O romance de 1999Exortação aos Crocodilos teve mesmo uma primeira edição em outubro de 1999 e uma segunda logo no mês seguinte, cada uma delas com a indicação de tiragens de 30 mil exemplares. Estamos a falar de 60 mil livros vendidos em dois meses. Mas, segundo Nelson de Matos, houve outras obras com vendas estrondosas, como A Morte de Carlos Gardel, que ultrapassou os 100 mil exemplares em pouco mais de um ano. Isto em 1994, quando não havia cadeias livreiras em todo o país, apenas pequenas livrarias.
Exortação aos Crocodilos
“Exortação aos Crocodilos”, de 1999, um dos grandes sucessos da carreira de Lobo Antunes
Sobre as muitas questões que estes números levantam, o Observador tentou sem sucesso falar com Maria da Piedade Ferreira, a editora de Lobo Antunes na D. Quixote.
Pedro da Mata considera que “há pouco investimento da editora neste autor e ele próprio não se promove, não interiorizou que as coisas mudaram. Hoje um livro e um autor vendem-se como um produto.” Seja pelas regras do mercado, seja por falta de investimento da editora ou por cansaço e pouca exigência dos leitores, a verdade é que o enfant terrible das letras portuguesas que fazia parar o país literário de cada vez que saía um livro seu, que tinha milhares de exemplares vendidos e edições esgotadas em poucos dias, desapareceu.
E desengane-se quem pensa que os seus livros de crónicas se vendem melhor. Pedro da Mata desmistifica: “quem gosta das crónicas de António Lobo Antunes vai lê-las na revista Visão e não compra o livro”. Nelson de Matos recusa esta teoria e contrapõe: “no meu tempo os livros de crónicas vendiam-se tanto como os romances, porque havia um trabalho de promoção do autor, um cuidado, um pensamento estratégico que deixou de haver por parte da D. Quixote e do grupo Leya em geral”.

A ordem natural das coisas?

Trinta e cinco anos de escrita, 25 romances, cinco livros de crónicas e um de correspondência, traduções em dezenas de línguas e pelo menos duas décadas à espera do prémio Nobel da Literatura fizeram de António Lobo Antunes “o elefante no meio da sala”, diz o escritor Bruno Vieira Amaral, 36 anos, prémio Pen Club Narrativa 2013.
“Ninguém escreve como ele. É, indiscutivelmente, o nosso maior escritor vivo e o único que pode legitimamente ambicionar o Nobel. Qualquer pessoa da minha geração que ambicione tornar-se escritor tem que passar por ele, lidar com a sua terrível força atratora, confrontar-se com o canto da sereia que é a sua escrita.” E remata: “só vende 1600 livros? Que bom para ele. Conquistou o direito de se estar nas tintas para os leitores, para o mercado e tudo isso”.
"António Lobo Antunes só vende 1600 livros? Que bom para ele. Conquistou o direito de se estar nas tintas para os leitores, para o mercado e tudo isso."
Bruno Vieira Amaral, escritor
Opinião diferente tem José Alexandre Ramos, responsável pelo projeto António Lobo Antunes na Web, que existe desde 2004 e que é provavelmente a mais bem organizada e completa base de dados sobre o escritor. Este analista financeiro, de 44 anos, aponta como determinante o facto de as editoras “só apostarem no que é vendável e não em literatura” e atira também contra a “parca” crítica literária em Portugal. “Estou convencido que muita gente continua a ler António Lobo Antunes; apenas deixou de ser moda comprar os seus livros para montra das estantes domésticas. E tem leitores cada vez mais novos. Mas a verdade é que é muito pouco o que se escreve sobre os seus livros em Portugal, e eu vejo isso no trabalho de recolha que faço. Sem falar na opinião de leitura do leitor comum, a crítica literária não sabe escrever sobre Lobo Antunes.”
Opinião idêntica tem o poeta e editor João Paulo Cotrim, que lê Lobo Antunes desde os 15 anos e considera que os livros e o escritor “não perderam o fascínio”, apesar de ele já não ser o “fenómeno mediático que foi”. José Riço Direitinho e António Guerreiro, ambos críticos literários com posições antagónicas perante a obra do escritor, lembram os tempos em que na Feira do Livro de Lisboa as mulheres faziam filas intermináveis para ter um autógrafo dele. “Era considerado o escritor português mais giro e muitas aproveitavam esse momento para lhe passarem os seus números de telefone pessoais”, conta Riço Direitinho, “depois ele dizia coisas que mais ninguém dizia, umas disparatadas outras não, e trouxe para a literatura uma novidade de temas, de estilo e de olhar”.
Por seu turno, António Guerreiro recorda: “Era um enfant terrible que depois adotou a postura de menino mimado, as pessoas queriam ouvir as suas boutades como quando ele chamava a Vergílio Ferreira ‘o Sartre de Fontanelas’.” Guerreiro, um dos críticos literários portugueses há mais tempo no ativo, tem escrito reiteradamente sobre “o excesso que se torna vazio” dos livros de António Lobo Antunes. Em 1990, assinou um texto intitulado “Crítica da faculdade de enjoar” onde se debruça sobre o livro Tratado das Paixões da Alma, afirmando que a obra de Lobo Antunes é um “kitsch de segundo grau”.
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António Guerreiro sobre “Tratado das Paixões da Alma”: “kitsch de segundo grau”
 Em 2007, o crítico Pedro Mexia quebrava a quase unanimidade que se instalou em torno do romancista, ao escrever: “o texto antuniano é hoje um melopeia cheia de repetições, parêntesis, devaneios, saltos temporais, períodos que não acabam e elidem os verbos (…) Essa concepção da escrita talvez explique o desgaste narrativo. António Lobo Antunes, sempre admirável nas duas páginas de uma crónica, tem escrito romances desnecessariamente prolixos e repetitivos.”
Nestas quase quatro décadas a viver para o oficio da escrita, António Lobo Antunes passou de um jovem, belo e promissor escritor a um homem envelhecido, descuidado com a sua imagem, como se aspirasse a fundir-se com o grotesco das suas personagens. Ao mesmo tempo, os seus livros trocaram o enredo por um trabalho sobre a linguagem que para uns é “genial”, como Riço Direitinho, João Paulo Cotrim e Bruno Vieira Amaral, e para outros, como António Guerreiro, é “vazio”.
A morte de José Saramago apagou do mapa o seu inimigo figadal e afastou aqueles que o liam como uma forma de contestar Saramago. “A geração que fez a Guerra Colonial e que lia e se revia nos seus romances foi morrendo, os currículos escolares não ajudam, nem a estúrdia coletiva em que vivem os jovens de hoje”, afirma Maria Alzira Seixo. Catedrática e especialista na obra antuniana, considera que este afastamento dos leitores de Lobo Antunes se pode ainda imputar à falta de investimento editorial e às políticas erradas do mercado de venda de livros.
"Era um enfant terrible que depois adotou a postura de menino mimado, as pessoas queriam ouvir as suas boutades como quando ele chamava a Vergílio Ferreira 'o Sartre de Fontanelas'."
António Guerreiro, crítico
“A crítica literária deixou de existir, os leitores não são convidados a pensar, a decifrar a obra. Um leitor de Lobo Antunes tem que ser envolvido pela obra, tem que aprender a lê-lo. Ora, sem uma editora que o ajude isto é uma tarefa impossível para ele”, declara Nelson de Matos.
Que elações podemos, então, tirar das escassas vendas do maior escritor português? António Lobo Antunes está morto? José Riço Direitinho é taxativo: “Lobo Antunes não está morto. Quem está morto são os leitores portugueses que só querem ler coisas fáceis, livros convencionais.”

Não entres tão depressa nessa noite escura

“A maior parte dos escritores deste país são castrados (…) fala-se em masturbação intelectual mas eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau. Não têm sangue, não têm tripas (…) depois as pessoas queixam-se que em Portugal ninguém lê. É evidente que não leem (…) Portanto, eu compreendo que A Memória de Elefante se venda e também compreendo porque é que os outros não se vendem. Eu acho perfeitamente natural que eles não vendam porque aquilo que eles escrevem não é para ser lido a não ser por pessoas que gostam de fazer palavras cruzadas na alma ou jogar gamão dentro da cabeça, mas não viver. Não tem nada que ver com a vida (…) Tudo isso se passa ao nível da pequena cotterie com todas as suas mesquinhices, um pequeno bordel.”
Isto pode ler-se na primeira entrevista de sempre de António Lobo Antunes, publicada no extinto jornal Diário Popular, em 18 de outubro de 1979.
Quando chega à cena literária portuguesa, dominada ainda pelos neo-realistas e pelo cânone literário do crítico João Gaspar Simões, Lobo Antunes tem 36 anos, traz a nunca totalmente digerida Guerra Colonial para dentro do discurso literário, uma linguagem coloquial onde abundava o vernáculo, um estilo e um olhar absolutamente novos sobre as misérias do quotidiano da gente comum: “Ele foi uma pedrada no charco num tempo em que a escrita portuguesa era muito apetecida”, lembra o editor João Paulo Cotrim.
“O que me impressionou nele foi a liberdade de escrita, a capacidade de dizer coisas despropositadas, as suas metáforas impossíveis”, conta Riço Direitinho, que nessa altura tinha 18 anos, escrevia para o DN Jovem e tentava imitar o estilo antuniano. “Todos nós o imitávamos, a escrita dele cola-se à nossa, o olhar dele colava-se ao nosso”, diz ainda o crítico.
LISBON, PORTUGAL - SEPTEMBER 13:  A portrait of writer Antonio Lobo Antunes on November 09, 2010 in Lisbon, Portugal.  (Photo by Pedro Loureiro/Getty Images)
António Lobo Antunes em novembro de 2010 (Pedro Loureiro/Getty Images)
Se muitos aderiram e se renderam, muitos outros desconfiaram e as suas piadas e alusões a escritores mais velhos valeram-lhe muitos inimigos. A crítica não lhe perdoava o sucesso, a liberdade, a pose. Mas, em meados da década de 90, mais precisamente em 1996, com o romance Manual dos Inquisidores, quase todos acabam por se render. Entre eles o editor e escritor Luiz Pacheco, que tinha o hábito de assoar o nariz aos livros dos escritores mais novos, e Eduardo Prado Coelho, à data o mais determinante crítico literário português. No JL de 21 de novembro de 1996, depois de o chamar de “mimalho” e de lhe criticar o uso de “metáforas patetas” e o “exibicionismo cultural”, Pacheco reconhece: “gosto muito”, “venho aqui para aplaudi-lo”.
Em novembro de 2014, pouco depois da saída do livro Caminho Como Uma Casa em Chamas, António Guerreiro escrevia no jornal Público: “Nas entrevistas, António Lobo Antunes apresenta-se como um escritor que vive dentro de si a experiência da co-naturalidade com o acto criador, recuperando ideias que hoje já não subsistem, nem sequer nos nossos mitos: as ideias de inspiração, de génio, de entusiasmo (no sentido grego de possessão pelo divino).”
Ora, quem está atento ao mundo literário sabe que em cada entrevista António Lobo Antunes fala do Zé (Cardoso Pires), do Ernesto (Melo Antunes), da “mão que escreve sozinha”, dos “livros que se escrevem a si próprios”, “da infância em Benfica”, “do medo da morte”, “da possibilidade de deixar de escrever”. Conhece a postura da cabeça apoiada no dedo, da voz baixa e arrastada como se falasse sempre e só consigo mesmo, sabe que ele raramente ri, exceto nas conferências no estrangeiro. Para Maria Alzira Seixo, Lobo Antunes “é um homem encantador, com uma capacidade de riso e de ironia que ele usava na escrita e deixou de usar com muita pena minha”, lamenta a catedrática.
“A crítica literária deixou de existir, os leitores não são convidados a pensar, a decifrar a obra. Um leitor de Lobo Antunes tem que ser envolvido pela obra, tem que aprender a lê-lo. Ora, sem uma editora que o ajude isto é uma tarefa impossível para ele.”
Nelson de Matos, editor
É toda uma mitologia pessoal, um solipsismo que a pouco e pouco foram sugando a própria obra. “A sua grande personagem é ele próprio”, afirma Bruno Vieira Amaral. “Ninguém vai ler uma entrevista do Lobo Antunes para ouvir o que ele tem a dizer sobre o mundo, ou mesmo sobre os livros que escreve, mas sim para ouvir o que ele vai dizer sobre si mesmo. E é aí que reside o meu fascínio por ele. Porque ele o faz de uma maneira única.”
Já José Riço Direitinho e João Paulo Cotrim reconhecem que pode haver algum cansaço, quer pela persona que o escritor criou, quer pelo ritmo de publicação. “São livros muito exigentes, que demoram tempo a fruir e se lidos uns atrás do outros dá a impressão que estamos sempre a ler a mesma coisa”, diz Riço Direitinho, antes de lembrar como ele enche salas noutros países, “porque não têm que o ouvir dizer as mesmas coisas todos os anos”.
E Cotrim desmente mesmo o mito de Lobo Antunes ser “pouco disponível para os media”, mostrando o livro Confissões do Trapeiro, de Ana Paula Arnaut, que compila todas as entrevistas saídas na imprensa portuguesa entre 1979 e 2007, e onde se podem encontrar conversas dele com jornalistas ou escritores praticamente todos os anos. 

Se é verdade que muitas obras se esgotam prematuramente por serem demasiado admiradas, a vaidade indisfarçada de Lobo Antunes, os prémios e as honrarias, a falta de uma crítica confrontativa, não o impediram de viver para a escrita e de fazer dela a única finalidade da sua vida, o seu único ato moral e o seu eterno enigma. Ser uma coqueluche dos media não o fez desinvestir da obra para alimentar o fornalha da vaidade. Se há quem pressinta nele algo de falseado isso é, para outros, motivo de adoração.
Mas nas montras das livrarias, o grande esforço de marketing da Leya parece ter ido todo para vender o jovem Afonso Reis Cabral, de 24 anos, prémio Leya 2014, e para Inês Pedrosa, quando tem no seu catálogo o que Riço Direitinho diz ser “o único escritor genial de língua portuguesa, vivo”. O desinvestimento pode confirmar-se também nas redes sociais: a página do Facebook da D. Quixote, com os seus 6107 seguidores, tem, desde outubro até agora, apenas cinco menções a António Lobo Antunes, contra 28 posts sobre o novo romance de Inês Pedrosa (colocados em menos de um mês).
O desinvestimento da editora em Lobo Antunes pode confirmar-se nas redes sociais: a página do Facebook da D. Quixote tem, desde outubro até agora, apenas cinco menções a António Lobo Antunes, contra 28 posts sobre o novo romance de Inês Pedrosa (colocados em menos de um mês).
“O enredo não me interessa para nada”, declarava o escritor em novembro em entrevista à Visão. Desde o ano 2000, comExortação aos Crocodilos, a escrita antuniana tornou-se um depurado ofício sobre a linguagem, que torna os seus livros mais próximos do trabalho poético do que do romance convencional. “Ele é um malabarista de intensidades que está, desde o primeiro livro, a traçar um fresco sobre a sociedade portuguesa do final do século XX e início do século XXI. O que ele escreve é de uma importância tal que não pode ser arrumado só porque não é novidade”, declara João Paulo Cotrim, que recusa terminantemente ver o génio de Lobo Antunes apenas nas crónicas: “as crónicas aproximam leitores porque são fáceis de ler e cheias de sentimentalismo, mas a grande obra dele são os romances”. Nelson de Matos corrobora esta posição: “sempre me desgostou muito esta colagem da sua imagem às crónicas, porque as crónicas não são nada quando comparadas com a genialidade, a capacidade de criação escrita dos seus romances”.
José Alexandre Ramos prefere apontar que “a escrita de Lobo Antunes se tornou mais refinada”, e acrescenta: “eu tinha medo que com a idade lhe acontecesse o que aconteceu ao Saramago e a outros cujos últimos livros não são nada, mais valia que estivessem calados”. E Maria Alzira Seixo afirma mesmo que ele “tem livros perfeitos como uma tragédia de Racine”.
A realidade é que, aos 72 anos, António Lobo Antunes parece ter sido sugado para um mundo intangível pelos leitores, tal como aqueles escritores que ele criticava em 1979: “é um escritor de nicho e, no panorama português, um escritor de nicho vender 1600 exemplares em três meses não é nada mau”, afirma o diretor de comunicação da Fnac.
Voltemos então ao olhar para o que diz o astuto Luiz Pacheco:
“Lobo Antunes, e gostaria de estar equivocado, caiu numa espécie de niilismo flamejante. Aura internacional bastante, nenhuma apetência para ficar por cá. Vejam o paradoxo: tínhamos um grande romancista de subúrbio; ficaremos qualquer dia a ler Lobo Antunes em francês ou em sueco…”
http://observador.pt/especiais/antonio-lobo-antunes-ascensao-e-queda-do-enfant-terrible-da-literatura-portuguesa/

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Rubem Fonseca: O Cobrador

25 de setembro de 2015 - 15h00 

Rubem Fonseca: O Cobrador

Portal Vermelho traz, nesta sexta-feira (25), um especial sobre Violência. O Prosa, Poesia e Arte selecionou o conto O Cobrador, que abre o livro de mesmo nome do escritor Rubem Fonseca. A obra, apresentada aqui na integra, foi publicada originalmente em 1979 e descreve com riqueza de detalhes o cotidiano de um “viciado em violência”.


 


O personagem principal sente prazer em “satisfazer seu ódio”. Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar”. 


Leia o conto na íntegra: 


Na porta da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.


Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.


Só rindo. Esses caras são engraçados.


Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.


Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.


São quatrocentos cruzeiros.


Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.


Não tem não o quê?


Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.


Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar¬rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.


Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!


Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.


* * *
A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada.



* * *
Me irritam esses sujeitos de Mercedes. A buzina do carro também me aporrinha. Ontem de noite eu fui ver o cara que tinha uma Magnum com silenciador para vender na Cruzada, e quando atravessava a rua um sujeito que tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali tocou a buzina. Eu vinha distraído pois estava pensando na Magnum, quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente. 



Como é?, ele gritou. 


Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco. Saquei o 38 e atirei no pára-brisa, mais para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio no pescoço e a roupa branca dele já estava toda vermelha.


Girou a cabeça que estava encostada no banco, olhos muito arregalados, pretos, e o branco em volta era azulado leitoso, como uma jabuticaba por dentro. E porque o branco dos olhos dele era azulado eu disse — você vai morrer, ô cara, quer que eu te dê o tiro de misericórdia?


Não, não, ele disse com esforço, por favor.


Vi da janela de um edifício um sujeito me observando. Se escondeu quando olhei. Devia ter ligado para a polícia.


Saí andando calmamente, voltei para a Cruzada. Tinha sido muito bom estraçalhar o pára-brisa do Mercedes. Devia ter dado um tiro na capota e um tiro em cada porta, o lanterneiro ia ter que rebolar.


* * *
O cara da Magnum já tinha voltado. Cadê as trinta mi¬lhas? Põe aqui nesta mãozinha que nunca viu palmatória, ele disse. A mão dele era branca, lisinha, mas a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo tem cicatrizes, até meu pau está cheio de cicatrizes.



Também quero comprar um rádio, eu disse pro muambeiro. Enquanto ele ia buscar o rádio eu examinei melhor a Magnum. Azeitadinha, e também carregada. Com o silenciador parecia um canhão.


O muambeiro voltou carregando um rádio de pilha.


É japonês, ele disse.


Liga para eu ouvir o som.


Ele ligou.


Mais alto, eu pedi.


Ele aumentou o volume.


Puf. Acho que ele morreu logo no primeiro tiro. Dei mais dois tiros só para ouvir puf, puf.


* * *
Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.



Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.


Meu arsenal está quase completo: tenho a Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Taurus 38 capenga, um punhal e um facão. Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só. Vi no cinema, num desses países asiáticos, ainda no tempo dos ingleses¬ um ritual que consistia em cortar a cabeça de um animal, creio que um búfalo, num golpe único. Os oficiais ingleses presidiam a cerimônia com um ar de enfado, mas os decapitadores eram verdadeiros artistas. Um golpe seco e a cabeça do animal rolava, o sangue esguichando.


* * *
Na casa de uma mulher que me apanhou na rua. Coroa, diz que estuda no colégio noturno. Já passei por isso, meu colégio foi o mais noturno de todos os colégios noturnos do mundo, tão ruim que já não existe mais, foi demolido. Até a rua onde ele ficava foi demolida. Ela pergunta o que eu faço e digo que sou poeta, o que é rigorosamente verdade. Ela me pede que recite um poema meu. Eis: Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/ Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/ parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde,/ tarde/ um dia/ ainda bem,/ demais./



Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende. Continuo: Sabia sambar e cair na paixão/ e rolar pelo chão/ apenas por pouco tempo./ Do suor do seu rosto nada fora construído./ Queria morrer com ela,/ mas isso foi outro dia,/ ainda outro dia./ No cinema Íris, na rua da Carioca/ o Fantasma da Ópera/ Um sujeito de preto,/ pasta preta, o rosto escondido,/ na mão um lenço branco imaculado,/ tocava punheta nos espectadores;/ na mesma época, em Copacabana,/ um outro/ que nem apelido tinha,/ bebia o mijo dos mictórios dos cinemas/ e o rosto dele era verde e inesquecível./ A História é feita de gente morta/ e o futuro de gente que vai morrer./ Você pensa que ela vai sofrer?/ Ela é forte; resistirá./ Resistiria também; se¬ fosse fraca./ Agora você, não sei./ Você fingiu tanto tempo, deu socos e gritos, embusteou/ Você está cansado,/ você. acabou,/ não sei o que te mantém vivo./


Ela não entendia de poesia. Estava solo comigo e que¬ria fingir indiferença, dava bocejos exasperados. A farsanteza das mulheres.


Tenho medo de você, ela acabou confessando.


Essa fodida não me deve nada, pensei, mora com sacrifício num quarto e sala, os olhos dela já estão empapuçados de beber porcarias e ler a vida das grã-finas na revista Vogue.


Quer que te mate?, perguntei enquanto bebíamos uísque ordinário.


Quero que você me foda, ela riu ansiosa, na dúvida. Acabar com ela? Eu nunca havia esganado ninguém com as próprias mãos. Não tem muito estilo, nem drama, esga¬nar-se alguém, parece briga de rua. Mesmo assim eu tinha vontade de esganar alguém, mas não uma infeliz daquelas. Para um zé-ninguém, só tiro na nuca?


Tenho pensado nisso, ultimamente. Ela tinha tirado a roupa: peitos murchos e chatos, os bicos passas gigantes que alguém tinha pisado; coxas flácidas com nódulos de celulite, gelatina estragada com pedaços de fruta podre.


Estou toda arrepiada, ela disse.


Deitei sobre ela. Me agarrou pelo pescoço, sua boca e língua na minha boca, uma vagina viscosa, quente e olorosa.


Fodemos.


Ela agora está dormindo.


Sou justo.


* * *
Leio os jornais. A morte do muambeiro da Cruzada nem foi noticiada. O bacana do Mercedes com roupa de tenista morreu no Miguel Couto e os jornais dizem que foi assaltado pelo bandido Boca Larga. Só rindo.



Faço um poema denominado Infância ou Novos Cheiros de Buceta com U: Eis-me de novo/ ouvindo os Beatles/ na Rádio Mundial/ às nove horas da noite/ num quarto/ que poderia ser/ e era/ de um santo mortificado/ Não havia pecado/ e não sei por que me lepravam/ por ser inocente/ ou burro/ De qualquer forma/ o chão estava sempre ali/ para fazer mergulhos./ Quando não se tem dinheiro/ é bom ter músculos/ e ódio./


Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles.


* * *
Da rua vejo a festa na Vieira Souto, as mulheres de vestido longo, os homens de roupas negras. Ando lentamente, de um lado para o outro na calçada, não quero despertar suspeitas e o facão por dentro da calça, amarrado na perna, não me deixa andar direito. Pareço um aleijado, me sinto um aleijado. Um casal de meia-idade passa por mim e me olha com pena; eu também sinto pena de mim, manco e sinto dor na perna.



Da calçada vejo os garçons servindo champanha francesa. Essa gente gosta de champanha francesa, vestidos franceses, língua francesa.


Estava ali desde as nove horas, quando passara em frente, todo municiado, entregue à sorte e ao azar, e a festa surgira.


As vagas em frente ao apartamento foram logo ocupa¬das e os carros dos visitantes passaram a estacionar nas es¬curas ruas laterais. Um deles me interessou muito, um carro vermelho e nele um homem e uma mulher, jovens e elegantes. Caminharam para o edifício sem trocar uma palavra, ele ajeitando a gravata borboleta e ela o vestido e o cabelo. Prepararam-se para uma entrada triunfal mas da calçada vejo que a chegada deles foi, como a dos outros, recebida com desinteresse. As pessoas se enfeitam no cabeleireiro, no costureiro, no massagista e só o espelho lhes dá, nas festas, a atenção que esperam. Vi a mulher no seu vestido azul esvoaçante e murmurei — vou te dar a atenção que você merece, não foi à toa que você vestiu a sua melhor calcinha e foi tantas vezes à costureira e passou tantos cremes na pele e botou perfume tão caro.


Foram os últimos a sair. Não andavam com a mesma firmeza e discutiam irritados, vozes pastosas, enroladas.


Cheguei perto deles na hora em que o homem abria a porta do carro. Eu vinha mancando e ele apenas me deu um olhar de avaliação rápido e viu um aleijado inofensivo de baixo preço.


Encostei o revólver nas costas dele.


Faça o que mando senão mato os dois, eu disse.


Para entrar de perna dura no estreito banquinho de trás não foi fácil. Fiquei meio deitado, o revólver apontado para a cabeça dele. Mandei que seguisse para a Barra da Tijuca. Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. Seguimos pelo Recreio dos Bandeirantes até chegar a uma praia deserta. Saltamos. Deixei acesos os faróis.


Nós não Lhe fizemos nada, ele disse.


Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima.


Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho.


Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.


O homem assistiu a tudo sem dizer, uma palavra, a carteira de dinheiro na mão estendida. Peguei a carteira da mão dele e joguei pro ar e quando ela veio caindo dei-lhe um bico; de canhota, jogando a carteira longe.


Amarrei as mãos dele atrás das costas com uma corda que eu levava. Depois amarrei os pés.


Ajoelha, eu disse.


Ele ajoelhou.


Os faróis do carro iluminavam o seu corpo. Ajoelhei-me ao seu lado, tirei a gravata borboleta, dobrei o colarinho, deixando seu pescoço à mostra.


Curva a cabeça, mandei.


Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi as estrelas no céu, a noite imensa, o firmamento infinito e desci o facão, estrela de aço, com toda minha força, bem no meio do pescoço dele.


A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como se fosse uma galinha tonta nas mãos de uma cozinheira incompetente. Dei-lhe outro golpe e mais outro e outro e a cabeça não rolava. Ele tinha desmaiado ou morrido com a porra da cabeça presa no pescoço. Botei o corpo sobre o pára¬lama do carro. O pescoço ficou numa boa posição. Concentrei-me como um atleta que vai dar um salto mortal. Dessa vez, enquanto o facão fazia seu curto percurso mutilante zunindo fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.


* * *
Uma caixa preta debaixo do braço. Falo com a língua presa que sou o bombeiro que vai fazer o serviço no aparta¬mento duscenthos e um. O porteiro acha graça na minha língua presa e me manda subir. Começo do último andar. Sou o bombeiro (língua normal agora) vim fazer o serviço. Pela abertura, dois olhos: ninguém chamou bombeiro não. Desço para o sétimo, a mesma coisa. Só vou ter sorte no primeiro andar.



A empregada me abriu a porta e gritou lá para dentro, é o bombeiro. Surgiu uma moça de camisola, um vidro de esmalte de unhas na mão, bonita, uns vinte e cinco anos.


Deve haver um engano, ela disse, nós não precisamos de bombeiro.


Tirei o Cobra de dentro da caixa. Precisa sim, é bom ficarem quietas senão mato as duas. Tem mais alguém em casa? O marido estava trabalhando e o menino no colégio. Amarrei a empregada, fechei sua boca com esparadrapo. Levei a dona pro quarto.


Tira a roupa.


Não vou tirar a roupa, ela disse, a cabeça erguida. Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta, anda logo. Dei-lhe um murro na cabeça. Ela caiu na cama, uma marca vermelha na cara. Não tiro. Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi lá dentro, grossas cusparadas. Mesmo assim não foi fácil, sentia o meu pau esfolando. Deu um gemido quando enfiei o cacete com toda força até o fim. Enquanto enfiava e tirava o pau eu lambia os peitos dela, a orelha, o pescoço, passava o dedo de leve no seu cu, alisava sua bunda. Meu pau começou a ficar lubrifi¬cado pelos sucos da sua vagina, agora morna e viscosa.


Como já não tinha medo de mim, ou porque tinha medo de mim, gozou primeiro do que eu. Com o resto da porra que saía do meu pau fiz um círculo em volta do umbigo dela.


Vê se não abre mais a porta pro bombeiro, eu disse, antes de ir embora.


***
Saio do sobrado da rua Visconde de Maranguape. Uma panela em cada molar cheio de cera do Dr. Lustosa/ mastigar com os dentes da frente/ punheta pra foto de revista/ livros roubados./ Vou para a praia.



Duas mulheres estão conversando na areia; uma tem o corpo queimado de sol, um lenço na cabeça; a outra é clara, deve ir pouco à praia; as duas têm o corpo muito bonito; a bunda da clara é a bunda mais bonita entre todas que já vi.


Sento perto, e fico olhando. Elas percebem meu interesse e começam logo a se mexer, dizer coisas com o corpo, fazer movimentos aliciantes com os rabos. Na praia somos todos iguais, nós os fodidos e eles. Até que somos melhores pois não temos aquela barriga grande e a bunda mole dos para¬sitas. Eu quero aquela mulher branca! Ela inclusive está interessada em mim, me lança olhares. Elas riem, riem, dentantes. Se despedem e a branca vai andando na direção de Ipanema, a água molhando os seus pés. Me aproximo e vou andando junto, sem saber o que dizer


Sou uma pessoa tímida, tenho levado tanta porrada na vida, e o cabelo dela é fino e tratado, o seu tórax é esbelto, os seios pequenos, as coxas são sólidas e redondas e musculosas e a bunda é feita de dois hemisférios rijos. Corpo de bailarina.
Você estuda balé?



Estudei, ela diz. Sorri para mim. Como é que alguém pode ter boca tão bonita? Tenho vontade de lamber dente por dente da sua boca. Você mora por aqui?, ela pergunta. Moro, minto. Ela me mostra um prédio na praia, todo de mármore.


* * *
De volta à rua Visconde de Maranguape. Faço hora para ir na casa da moça branca. Chama-se Ana. Gosto de Ana, palindrômico. Afio o facão com uma pedra especial, o pescoço daquele janota era muito duro. Os jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. A moça era filha de um desses putos que enriquecem em Sergipe ou Piauí, roubando os paus-de-araras, e depois vêm para o Rio, e os filhos de cabeça chata já não têm mais sotaque, pintam o cabelo de louro e dizem que são descendentes de holandeses.



Os colunistas sociais estavam consternados. Os granfas que eu despachei estavam com viagem marcada para Paris. Não há mais segurança nas ruas, dizia a manchete de um jornal. Só rindo. Joguei uma cueca pro alto e tentei cortá-la com o facão, como o Saladino fazia (com um lenço de seda) no cinema.


Não se fazem mais cimitarras como antigamente/ Eu sou uma hecatombe/ Não foi nem Deus nem o Diabo/ Que me fez um vingador/ Fui eu mesmo/ Eu sou o Homem Pênis/ Eu sou o Cobrador./


Vou no quarto onde Dona Clotilde está deitada há três anos. Dona Clotilde é dona do sobrado.


Quer que eu passe o escovão na sala?, pergunto.


Não meu filho, só queria que você me desse a injeção de trinevral antes de sair.


Fervo a seringa, preparo a injeção. A bunda de Dona Clotilde é seca como uma folha velha e amassada de papel de arroz.


Você caiu do céu, meu filho, foi Deus que te mandou, ela diz.


Dona Clotilde não tem nada, podia levantar e ir comprar coisas no supermercado. A doença dela está na cabeça. E depois de três anos deitada, só se levanta para fazer pipi e cocô, ela não deve mesmo ter forças.


Qualquer dia dou-lhe um tiro na nuca.


* * *
Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar — dou pequenos uivos, grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia, e meus pés deslizam pelo chão, meu corpo se move num ritmo feito de gingas e saltos, como um selvagem, ou um macaco.



Quem quiser mandar em mim pode querer, mas vai morrer. Estou querendo muito matar um figurão desses que mostram na televisão a sua cara paternal de velhaco bem-sucedido, uma pessoa de sangue engrossado por caviares e champãs. Come caviar/ teu dia vai chegar./ Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. A moça do prédio de mármore? Entro e ela está me esperando, sentada na sala, quieta, imóvel, o cabelo muito preto, o rosto branco, parece uma fotografia.


Vamos sair, eu digo para ela. Ela me pergunta se estou de carro. Digo que não tenho carro. Ela tem. Descemos pelo elevador de serviço e saímos na garagem, entramos num Puma conversível.


Depois de algum tempo pergunto se posso dirigir e trocamos de lugar. Petrópolis está bem?, pergunto. Subimos a serra sem dizer uma palavra, ela me olhando. Quando chega¬mos a Petrópolis ela pede que eu pare num restaurante. Digo que não tenho dinheiro nem fome, mas ela tem as duas coisas, come vorazmente como se a qualquer momento fossem levar o prato embora. Na mesa ao lado um grupo de jovens bebendo e falando alto, jovens executivos subindo na sexta-¬feira e bebendo antes de encontrar a madame toda enfeitada para jogar biriba ou falar da vida alheia enquanto traçam queijos e vinhos. Odeio executivos. Ela acaba de comer. E agora? Agora vamos voltar, eu digo, e descemos a serra, eu dirigindo como um raio, ela me olhando. Minha vida não tem sentido, já pensei em me matar, ela diz. Paro na rua Visconde de Maranguape. É aqui que você mora? Saio sem dizer nada. Ela sai atrás: vou te ver de novo? Entro e enquanto vou subindo as escadas ouço o barulho do carro partindo.


* * *
Top Executive Club. Você merece o melhor relax, feito de carinho e compreensão. Nossas massagistas são completas. Elegância e discrição.



Fica quieto senão chumbo a sua barriga executiva.


Ele tem o ar petulante e ao mesmo tempo ordinário do ambicioso ascendente egresso do interior, deslumbrado de coluna social, comprista, eleitor da Arena, católico, cursilhista, patriota, mordomista e bocalivrista, os filhos estudando na PUC, a mulher transando decoração de interiores e sócia de butique.


Como é executivo, a massagista te tocou punheta ou chupou teu pau?


Você é homem, sabe como é, entende essas coisas, ele disse. Papo de executivo com chofer de táxi ou ascensorista. De Botucatu para a Diretoria, acha que já enfrentou todas as situações de crise.


Não sou homem porra nenhuma, digo suavemente, sou o Cobrador.


Sou o Cobrador!, grito.


Ele começa a ficar da cor da roupa. Pensa que sou maluco e maluco ele ainda não enfrentou no seu maldito escritório refrigerado.


Vamos para sua casa, eu digo.


Eu não moro aqui no Rio, moro em São Paulo, ele diz. Perdeu a coragem, mas não a esperteza. E o carro?, pergunto. Carro, que carro? Este carro, com a chapa do Rio? Tenho mulher e três filhos, ele desconversa. Que é isso? Uma desculpa, senha, habeas-corpus, salvo-conduto? Mando parar o carro. Puf, puf, puf, um tiro para cada filho, no peito. O da mulher na cabeça, puf.


* * *
Para esquecer a moça que mora no edifício de mármore vou jogar futebol no aterro. Três horas seguidas, minhas per¬nas todas escalavradas das porradas que levei, o dedão do pé direito inchado, talvez quebrado. Sento suado ao lado do campo, junto de um crioulo lendo O Dia. A manchete me interessa, peço o jornal emprestado, o cara diz se tu quer ler o jornal por que não compra? Não me chateio, o crioulo tem poucos dentes, dois ou três, tortos e escuros. Digo, tá, não vamos brigar por isso. Compro dois cachorros-quentes e duas cocas e dou metade pra ele e ele me dá o jornal. A manchete diz: Polícia à procura do louco da Magnum. Devolvo o jornal pro crioulo. Ele não aceita, ri para mim enquanto mastiga com os dentes da frente, ou melhor com as gengivas da frente que de tanto uso estão afiadas como navalhas. Notícia do jornal: Um grupo de grã-finos da zona sul em grandes preparativos para o tradicional Baile de Natal — Primeiro Grito de Carnaval. O baile começa no dia vinte e quatro e termina no dia primeiro do Ano Novo; vêm fazendeiros da Argentina, herdeiros da Alemanha, artistas americanos, executivos japoneses, o parasitismo internacional. O Natal virou mesmo uma festa. Bebida, folia, orgia, vadiagem.



O Primeiro Grito de Carnaval. Só rindo. Esses caras são engraçados.


Um maluco pulou da ponte Rio-Niterói e boiou doze horas até que uma lancha do Salvamar o encontrou. Não pegou nem resfriado.


Um incêndio num asilo matou quarenta velhos, as famílias celebraram.


* * *
Acabo de dar a injeção de trinevral em Dona Clotilde quando tocam a campainha. Nunca tocam a campainha do sobrado. Eu faço as compras, arrumo a casa. Dona Clotilde não tem parentes. Olho da sacada. É Ana Palindrômica.



Conversamos na rua. Você está fugindo de mim?, ela pergunta. Mais ou menos, digo. Vou com ela pro sobrado. Dona Clotilde, estou com uma moça aqui, posso levar pro quarto? Meu filho, a casa é sua, faça o que quiser, só quero ver a moça.


Ficamos em pé ao lado da cama. Dona Clotilde olha para Ana um tempo enorme. Seus olhos se enchem de lágrimas. Eu rezava todas as noites, ela soluça, todas as noites para você encontrar uma moça como essa. Ela ergue os braços magros cobertos de finas pelancas para o alto, junta as mãos e diz, oh meu Deus, como vos agradeço!


Estamos no meu quarto, em pé, sobrancelha com sobrancelha, como no poema, e tiro a roupa dela e ela a minha e o corpo dela é tão lindo que sinto um aperto na garganta, lágrimas no meu rosto, olhos ardendo, minhas mãos tremem e agora estamos deitados, um no outro, entrançados, gemendo, e mais, e mais, sem parar, ela grita; a boca aberta, os dentes brancos como de um elefante jovem, ai, ai, adoro a tua obsessão!, ela grita, água e sal e porra jorram de nossos corpos, sem parar.


Agora, muito tempo depois, deitados olhando um para o outro hipnotizados até que anoitece e nossos rostos brilham no escuro e o perfume do corpo dela traspassa as paredes do quarto.


Ana acordou primeiro do que eu e a luz está acesa. Você só tem livros de poesia? E estas armas todas, pra quê? Ela pega a Magnum no armário, carne branca e aço negro, aponta pra mim. Sento na cama.


Quer atirar? pode atirar, a velha não vai ouvir. Mais para cima um pouco. Com a ponta do dedo suspendo o cano até a altura da minha testa. Aqui não dói.


Você já matou alguém? Ana aponta a arma pra minha testa.


Já.


Foi bom?


Foi.


Como?


Um alívio.


Como nós dois na cama?


Não, não, outra coisa. O outro lado disso.


Eu não tenho medo de você, Ana diz.


Nem eu de você. Eu te amo.


Conversamos até amanhecer. Sinto uma espécie de febre. Faço café pra Dona Clotilde e levo pra ela na cama. Vou sair com Ana, digo. Deus ouviu minhas preces, diz a velha entre goles.


* * *
Hoje é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mor¬tos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas, adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhas¬sem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos.



O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana.


Notícia: O Governador vai se fantasiar de Papai Noel. Notícia: menos festejos e mais meditação, vamos purificar o coração. Notícia: Não faltará cerveja. Não faltarão perus. Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores. Policia e hospitais preparam-se para as comemorações de Natal. O Cardeal na televisão: a festa de Natal está deturpada, o seu sentido não é este, essa história de Pagai Noel é uma invenção infeliz. O Cardeal afirma que Papai Noel é um palhaço fictício.


Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana. O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo.


Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal, para os jornais. Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo. É a síntese do nosso manifesto.


Ponho as armas numa mala. Ana atira tão bem quanto eu, só não sabe manejar o facão, mas essa arma agora é obsoleta. Damos até logo à Dona Clotilde. Botamos a mala no carro. Vamos ao Baile de Natal. Não faltará cerveja, nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro. 

http://www.vermelho.org.br/noticia/270707-11