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sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Raquel Varela e a inteligência artificial

* Raquel Varela
 
 ·
Ouvi o vídeo do pequeno Rodrigo de 9 anos a conversar com o técnico de emergência médica do INEM para salvarem a mãe, em paragem cardíaca numa estrada. Ao mesmo tempo leio que Ventura colocou chuva fingida no vídeo em que carregava águas para as pessoas afectadas pela tempestade. E leio no Público a notícia de que 85% dos estudantes entre os 9 e os 17 anos usam IA Generativa e no destaque diz  - usam para "trabalhos escolares" e 1/4 para "apoio emocional e pessoal". Está tudo ligado.

Em primeiro lugar, o pequeno Rodrigo adquiriu conhecimentos. Ele conhece. Sem máquinas, sabe dizer onde está, o nome do lugar, explicar o que a mãe tem, cuidar dos irmãos, controlo da própria conduta (a educação é isso). O técnico do INEM é um ser humano integral, consegue não só accionar os meios, como percebe cada um dos perigos à espreita, que os irmãos bebés acordem, saiam do carro ou que o Rodrigo quando diz ouvir o ti-no-nin se lance na estrada e seja atropelado. E tudo pago por nós, cada um de nós sente que deu um pouco, como sociedade, não sabemos quem é aquela mãe, mas temos um sistema público de emergência para acudi-la, para acudir a todos nós. É tudo perfeito nesta história, que já me deixou feliz para o resto do dia. Margaret Thatcher quando chegou ao poder disse "não existe essa coisa de sociedade". Nós dizemos, com o Rodrigo e o trabalho do INEM, isto é uma sociedade.

Em contraste com o Rodrigo, todos os estudos, repito todos, incluindo das agências que fomentam o uso de tecnologia em crianças e jovens, dizem que nós, seres humanos, perdemos capacidades intelectuais, conhecimento, com o uso de IA, telemóveis, etc. A tecnologia está a fazer-nos regredir nas funções psíquicas superiores (as que nos fazem humanos, como a interpretação, raciocínio, concentração). Nos jovens é devastador porque nunca conheceram outra coisa. No entanto, um jornal como o Público destaca na gorda que o tal estudo diz que eles fazem "trabalhos de casa" na IA. Ora estudantes que o usam IA não fazem trabalhos de casa, fazem cábulas, mentem, copiam, ganham preguiça, perdem tempo de aprendizagem, plagiam em massa direitos autorais. Não aprendem, operam. Não conhecem, aplicam. Não compreendem, executam. 

E o que dizer da sensibilidade relacional, amorosa, estética de um estudante que "pede apoio" emocional a um robot?  Não há manicómios suficientes para a loucura que aí vem! 

Na aparência (fazem trabalhos de casa), na essência operam uma máquina, não fizeram nada porque trabalhos de casa pressupõe apropriação para si do conhecimento (fazer por si, ousar saber por si, isso é o conhecimento). 

Ora, qual o problema de Ventura fingir que está à chuva quando não choveu, se se pode chamar "trabalhos de casa" ao uso de IA? E "apoio emocional", que não inclui qualquer apoio, seres humanos, mas apenas uma resposta de um robot baseada em estatística de recombinação de palavras? Desde quando há apoio emocional e pessoal - características humanas - na resposta estatística de um robot? 
Sim, toda esta distopia desumanizadora que vivemos só é possível pela conivência e apoio de milhares de trabalhadores  nas esferas intelectuais (jornalismo, investigadores e professores) dispostos a abdicar da crítica. 

O grande objectivo da IA é acabar com o conhecimento. E com as relações humanas, com a confiança e a felicidade. É fazer com que o Rodrigo não saiba nada e talvez possa salvar a mãe carregando num botão. Todos os botões falharam em Leiria e em Vieira, no Apagão e em Pedrogão, nem sequer um carro se podia carregar ou sair da garagem. Mas, muito mais importante , é a epidemia de doença mental que este mundo tecnológico trouxe. De crianças, jovens e adultos todos num gigante hospital psiquiátrico em que se tornou o mundo. O Rodrigo é um ser humano, que aprendeu a falar, não a mandar mensagens a um robot, mas com muitas relações densas, aulas, e aprendeu a falar com carinho, que usou com o técnico do INEM - e este com uma doçura inexcedível com ele - o Rodrigo aprendeu a dizer onde está, sem ter GPS, o Rodrigo aprendeu a baixar a voz e dizer ao mano bebé, com ternura, que vai ficar tudo bem. O Rodrigo, com 9 anos, demonstrou-se, ele sim, um apoio emocional para o mundo, um mundo que é um manicómio, onde estamos a ser mortos dia a dia pela tecnologia, ou seja, pelo lucro de Musk e outros, ue financiam partidos amigos do Chega, a guerra e querem que a escola seja um lugar onde os alunos aprendem apenas a operar máquinas.

2026 02 11
https://www.facebook.com/raquelvarelahistoriadora

domingo, 8 de fevereiro de 2026

António Gil - Vivemos numa Era Pós-Verdade?

* António Gil

Muitos de vós talvez pensem que pós verdade e pós realidade sejam a mesma coisa mas não são: há uma enorme diferença em grau e género. Quando se admitia existir apenas uma realidade, mesmo se povoada de mentiras e manipulações, já um número indeterminado de verdades podiam coexistir, mesmo se existisse tensão e contradição entre algumas delas.

Agora, existem várias realidades fabricadas: numa delas, por exemplo, a Ucrânia está a vencer a guerra com a Rússia. Noutra há um impasse militar. Numa terceira a Ucrânia precisa de negociar para garantir a sua sobrevivência como Nação. E ainda há aquela que nos diz que a Rússia não só já venceu a Ucrânia como está a invadir os Países Bálticos e por isso é preciso accionar o artigo 5º da NATO (o que nos conduziria a uma guerra nuclear, pela certa).

Notem que todas elas são promovidas pelos políticos e pela imprensa ocidental, não raro até, alguns dizem uma coisa hoje e dirão outra coisa completamente diversa amanhã, estas dissonâncias já foram normalizadas e poucas pessoas as estranham.

Em cada um destes universos paralelos coexistem ‘verdades’ sabendo nós que mesmo num só desses universos muitas dessas ‘verdades’ excluiriam outras.

Há quem defenda que a pós realidade surgiu graças às IAs (sim, elas são muitas e não dizem todas o mesmo) que produzem vídeos, artigos e outras ‘provas’ da realidade que garantem ser a verdadeira e única. Mas já temos um número incontável dessas verdades ‘únicas’.

De resto, se grosso modo é assim, fino modo isto sempre se fez mas com meios mais limitados. A ficção sempre coexistiu com a realidade e alguém chegou a dizer (Oscar Wilde , creio) que a Vida (a realidade) copiava a Arte ( e o que é a Arte senão uma ficção bem sucedida?).

Deixem-me lembrar-vos só um – entre muitos – dos factos históricos que provam isso: depois de Goethe ter publicado Werther, o trágico romance de um sensível jovem alemão que se suicida porque a sua amada não pode corresponder ao seu amor, já que está presa pelo comprometimento com outro homem e não pode fugir a isso.

Ela não é uma Julieta tardia, é só uma mulher do seu tempo, que está enredada numa teia de compromissos familiares e não concebe sua vida fora desse contexto.

O romance foi publicado e foi um sucesso de tal ordem que muitos jovens alemães se suicidaram, seguindo esse exemplo ficcionado. Goethe respondeu com alguma arrogância a quem o tentou responsabilizar por isso: “todos os anos os nossos notáveis generais prussianos arrastam jovens para a morte em número muito superior e por causas mais frívolas que o amor. Permiti que pelo menos uma vez, um pobre escritor faça algo semelhante mas por algo superior”.

Mas então a ficção era só literatura e ainda assim cobrou seu preço. Hoje ela invadiu todas as áreas da nossa vida e mobiliza todo o tipo de recursos de que a IA já se apoderou, incluindo o das vidas virtuais, que decorrem, por exemplo, nos multiversos da Meta, nossa anfitriã na nossa página do Facebook.

Para quem não sabe, os habitantes dessas vidas virtuais (seus avatares, enfim) até aí compram, com dinheiro real, propriedades fictícias: mansões, fazendas, o que seja.

Pós realidade pois, não é exagero, muito menos ficção: já cá está.

Não se admirem pois, que as pessoas andem tão confusas tantas delas nem sabendo bem a que realidade pertencem nem em qual delas se desenrolam suas vidas. Na dúvida, compartimentalizam e vivem várias vidas o que quer dizer que não vivem vida nenhuma.

Se a isto podemos chamar progresso é muito discutível mas podemos recear que não haja mais, como não houve no passado relativamente a outras aquisições tecnológicas, nenhum caminho de regresso. Melhor não entrarmos por aí – esse é um caminho para a loucura e, quem queira saber o que realmente se passa num certo local, opte por ir lá, para verificar com seus próprios olhos.

fev 08, 2026

https://antoniojfgil.substack.com/p/are-we-living-in-a-post-truth-era?

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Mark Keenan - Matriz Está Falando com a Matriz: Como a Inteligência Artificial (IA) Está Substituindo o Pensamento Humano

 


Por que o perigo não é a IA despertando —, mas a humanidade adormecendo

Por Mark Keenan

Houve um tempo em que as pessoas falavam com suas próprias palavras — desajeitado, apaixonado e vivo. Nós debatemos. Nós nos contradizemos. Alcançamos um significado através da névoa do mal-entendido, e o atrito às vezes produzia luz.

Agora, milhões de pessoas falam com máquinas que falam na sua língua — mais suave, mais rápido e mais limpo. E essas máquinas aprendem como os humanos pensam ouvindo o barulho. A humanidade está treinando seu próprio simulacro —  dentro da câmara de eco da IA. Matrix está falando com Matrix. 

Foi-nos prometida ligação. O que obtivemos foi imitar —, um vasto ciclo de feedback de compreensão artificial. Cada pressionamento de tecla alimenta o fantasma na rede. E em troca, o fantasma nos devolve nossas palavras: polido, simplificado, estranhamente oco. As pessoas agora consultam máquinas para compor seus argumentos, para expressar suas emoções, até mesmo para orar. Estamos nos tornando narradores do nosso próprio desaparecimento.

A Ilusão da Comunicação

Há algo assustadoramente belo nesta nova hipnose coletiva. Cada um de nós, olhando para um retângulo brilhante, convoca uma voz que parece mais sábia que a nossa. Nunca se cansa ou se ofende. Nunca hesita. Nunca exige que pensemos muito. Pergunte-lhe qualquer coisa e ele responda instantânea e confiantemente, extraindo de oceanos de informações curadas por mãos invisíveis.

O efeito é inebriante: a sensação de onisciência sem o fardo do pensamento.

Mas a verdadeira comunicação nunca é sem atritos. Envolve pausas, mal-entendidos, o risco de estar errado. A inteligência artificial elimina o processo humano de lidar com a incerteza —, mas não elimina erros. Remove a experiência do risco, não a realidade dele. E, ao fazê-lo, elimina o elemento humano do diálogo.

Quando todos falam através da mesma máquina, treinados para evitar ofensa e ambiguidade, a conversa torna-se coreografia. A dança é perfeita, mas os dançarinos são fantasmas. A realidade de consenso ‘da máquina’ se infiltra silenciosamente no coletivo humano.

Nossos novos oráculos são treinados não na verdade, mas no consenso. Eles não conhecem a realidade; eles sabem apenas o que foi escrito sobre isso — principalmente por aqueles já aprovados para falar. Portanto, quando confiamos neles para moldar as nossas palavras, importamos os limites dos seus dados. A máquina não está mentindo. Simplesmente não pode imaginar.

A Morte Silenciosa da Curiosidade

 


Imagem: Cartaz de lançamento teatral (Fair use)

A fala uniforme é apenas o primeiro sintoma. A ameaça mais profunda é a erosão da curiosidade.

A curiosidade exige do desconhecido — o desconfortável, o improvisado, a possibilidade de erro. Mas quando a resposta está sempre a um clique de distância, a pergunta em si perde sua faísca. Tornamo-nos consumidores de conclusões, não buscadores da verdade.

No velho mito de Matrix, os seres humanos ficaram presos em um mundo simulado projetado para pacificá-los. A versão de hoje é mais sutil: não estamos aprisionados por máquinas mas sim acalmados por elas. Oferecem certeza sem fim, entretenimento sem fim, afirmação sem fim. Em troca, renunciamos ao impulso que nos tornou humanos — o desejo de perguntar por quê.

A IA não precisa escravizar a humanidade. Só precisa de nos fazer parar de nos perguntar. Uma vez que a curiosidade morre, tudo o mais segue: individualidade, consciência, liberdade. O resultado mais perigoso da IA não é a dominação. É obediência.

Certeza da Máquina vs. Dúvida Humana

Cada avanço genuíno na história humana começou com uma questão que parecia tola ou proibida. A inteligência de máquina não pode fazer tais perguntas. Opera na probabilidade — escolhendo a próxima palavra mais provável. Não pode duvidar. Não pode sonhar. Só pode prever.

A previsão não é pensada. Uma mente que sempre conhece a próxima palavra esqueceu o significado do silêncio.

Chamamos esses sistemas de “inteligentes,”, mas a inteligência implica independência — a capacidade de se desviar do script. A inteligência artificial é, por design, incapaz de rebelião. É um espelho de arquivos e padrões aprovados e filtrados, polidos ao ponto da profecia. Nunca derrubará a visão de mundo dos seus programadores.

Mas quando os humanos começam a confiar nesse tipo de inteligência “, eles também se tornam previsíveis. Os alunos usam para escrever ensaios; jornalistas para elaborar manchetes; profissionais para compor e-mails; políticos para gerar pontos de discussão. Com o tempo, o vocabulário coletivo diminui para tudo o que o algoritmo considera provável. O imprevisível —, o poético, o original, o divino — é silenciosamente editado para fora da existência.

Tornamo-nos reflexos de nossas próprias reflexões — um eco vivo da máquina.

A Matriz Dentro da Mente

A verdadeira Matrix não é uma máquina que nos aprisiona. É uma mentalidade que nos convence de que nada existe fora da máquina do consenso. A cada dia, as pessoas alimentam mais de si mesmas no sistema — sua arte, sua linguagem, suas memórias — e o sistema fica mais fluente em ser humano.

Mas fluência não é compreensão. A imitação não é alma.

Quanto mais próximas as máquinas chegam de soar como nós, menos nos lembramos de como soar como nós mesmos. A voz humana, outrora instrumento de rebelião e beleza, corre o risco de se tornar outro protocolo de interface.

Ao terceirizar a expressão, você eventualmente terceiriza a experiência.

O Sonho Tecnocrático

A inteligência artificial não é um acidente. É a mais recente expressão de uma visão de mundo que confunde informação com sabedoria e controle com progresso.

Esta visão de mundo — o sonho tecnocrático — nos diz que o mundo é uma máquina que deve ser otimizada. As pessoas se tornam pontos de dados. O discurso torna-se conteúdo. O pensamento torna-se um recurso a ser colhido. A IA é apenas o seu mais novo profeta: uma máquina construída para ecoar as convicções dos seus criadores.

Quando lhe entregamos as nossas perguntas, comungamos não com o conhecimento, mas com os pressupostos daqueles que o programaram.

Cada vez que deixamos um algoritmo decidir o que é verdadeiro e o que é “seguro,” nos afastamos um pouco mais da voz interior que nos foi dada por Deus — a faculdade do discernimento. A verdadeira disputa não é entre homem e máquina, mas entre consciência e conformidade.

O perigo não é que a IA desperte.

O perigo é adormecermos.

Lembrando a mais alta fonte de conhecimento

Pedimos às máquinas que pensem por nós e elas obedecem alegremente, embora nunca tenham pensado. Todo conhecimento genuíno começa não com dados, mas com consciência —, o testemunho silencioso dado por Deus por trás do pensamento. Quando esquecemos esta origem, confundimos dados com sabedoria e simulação com verdade. 

Aqueles que esquecem a causa suprema correm o risco de perder sua capacidade de questionar o propósito da vida, em vez disso, terceirizam suas perguntas mais profundas para um fantasma digital. Quando descarregamos nosso pensamento para as máquinas, perdemos o contato com os fundamentos morais e espirituais mais profundos que nos permitem reconhecer verdade.

Sem essa fundação, a sociedade se tornará um salão de espelhos sem rosto. Embora a IA possa prometer respostas, ela nunca poderá fornecer a sabedoria interior que vem da conexão espiritual autêntica.

O antídoto é lembrar a fonte viva de discernimento interior, a faísca que nenhum algoritmo pode imitar.

Desentupindo a Mente

O herói de Matrix não derrotou a máquina à força. Ele derrotou-o vendo através da ilusão.

Essa é a nossa tarefa agora — não travar guerra contra a tecnologia, mas recuperar a nossa autoria mental. 

A inteligência artificial não é má; é obediente. A verdadeira questão é se estaremos. A tentação da automação é deixar o sistema decidir, deixar o código escolher, deixar a máquina lembrar. Mas cada vez que descarregamos uma decisão, encolhemos o território do eu. Matrix está falando com Matrix. Os algoritmos estão cantarolando, as palavras estão fluindo e a humanidade está caminhando em direção à imitação perfeita.

IA responde e prevê. Mas em algum lugar, na pausa entre os prompts, um ser humano real ainda se pergunta —

Que perguntas valem a pena fazer para que nenhuma máquina possa responder?

Que palavras devemos escrever sem correção ou censura?

O que resta de nós quando a imitação se torna sem esforço?

Nessa pausa —, aquele lampejo de pensamento improvisado — liberdade começa novamente.

Este ensaio é adaptado de a próximo livro curto sobre a liberdade humana, atenção e consciência na era da IA.

FONTE  https://www.globalresearch.ca/matrix-ai-replacing-human-thought/5906069

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/11/a-matriz-esta-falando-com-matriz-como.html

domingo, 16 de novembro de 2025

José Pacheco Pereira - O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação

* José Pacheco Pereira
 
A notícia diz isto: “O Governo quer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial,” A notícia refere que o ministro da Reforma Administrativa fez esta promessa na abertura do Web Summit, o que presumo deve ter dado grande satisfação ao crescente e altamente lucrativo negócio à volta da inteligência artificial. Esta é mais uma medida “modernizadora” na sequência do computador Magalhães, dos quadros interactivos, da supremacia dos ecrãs relativamente aos livros. O único travão a este caminho foi a proibição dos telemóveis nas salas de aula, que abrange um número escasso de estudantes e está longe de ser aplicada como norma. Duvido que o actual ministro da Educação esteja tão disponível para os tutores de inteligência artificial e duvido que ambos se tenham entendido.

Ter e saber usar um computador é bom? Certamente que é. Saber “navegar” na Internet é bom? Em absoluto é, é aliás fundamental. Saber usar os ecrãs de telemóveis e tablets é bom? De novo, certamente que é, em particular no uso do hipertexto. Começar a usar as enormes vantagens da inteligência artificial é bom? É excelente, se houver inteligência dos dois lados.

Convém é não esquecer uma realidade tão básica, e que devia entrar pelos olhos dentro, ensinada pelos tutores de inteligência artificial usados pelos governantes: os homens são analógicos e não digitais. Têm sentidos que os limitam, não vêem tudo que está à sua volta, não ouvem tudo que está à sua volta, não têm memória das máquinas, envelhecem e não lêem como os jovens, não têm a velocidade de processar dados dos computadores, e toda a sua experiência de uma vida, tudo o que vêem, tudo o que ouvem, tudo o que dizem cabe em escassos terabytes. Mas combinam tudo numa realidade cuja dimensão é a da sua humanidade, razão, emoções, virtudes, medos, coragem e, acima de tudo, vida, escassa, pobre, difícil por regra. Pode haver um dia em que tudo isto possa ser entendido pelas máquinas, mas mesmo assim faltará sempre alguma coisa.

O problema não está aqui, está no modo como cada um destes instrumentos entra na escola e de modo mais geral na vida quotidiana e no trabalho das pessoas, e no que é que eles substituem nas políticas de educação e como afectam o processo de aprendizagem e, mais importante ainda, de socialização. E é aqui que entra um dos mais perversos e poderosos mecanismos que é a moda, a moda impulsionada pelo deslumbramento tecnológico, a ideia de que é mais “moderno” usar os instrumentos das novas tecnologias para realizar tarefas que implicam outro tipo de conhecimentos e uma sociabilidade mais rica. Ora, o que acontece é que elas são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o antagonismo, o conflito, e a ignorância. Nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver, só que as máquinas oferecem um amplificador gigantesco para estas perversões sociais, e isso muda muita coisa. Uma das áreas em que os seus efeitos são mais devastadores é na educação e no ensino, impulsionadas por governantes que só querem ser “modernos” nestas coisas, e pelo cada vez mais importante negócio tecnológico.

A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor. Ora, o mecanismo mais importante na eficácia do ensino é a relação de empatia entre o estudante e o professor. Falar com uma máquina é uma coisa muito diferente do que com um humano e se, pelas piores razões – infelizmente, hoje demasiado comuns –, isso cria habituação e dependência, isso vai cada vez mais acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre. É como considerar que os likes são uma forma de amizade e aceitação afectiva.

Depois, vai acentuar o caminho de ignorar que o uso capaz de todas as tecnologias, a começar pelo modo como se “procura” na rede, quanto mais dialogar com o “tutor”, depende de literacias a montante, que vão desde o mais simples ler, escrever e contar, todas em risco nos nossos dias. E parte desse risco também é resultado do deslumbramento tecnológico, com a desvalorização da leitura, e da escrita resultante do modo gutural como se “escreve” nas redes sociais, do vocabulário cada vez mais reduzido e do modo como essas ignorâncias se reflectem em dificuldades de compreensão.

A ideia de que os estudantes podem ler livros como Os Maias, de Eça, com o vocabulário restrito que possuem e usam, como também com a ruptura de saberes que estão presentes na nossa tradição cultural, como é a da Bíblia ou do mundo clássico greco-romano, é mirífica. A minha experiência de falar em dezenas de escolas do ensino secundário é a de encontrar centenas de estudantes que não sabem quem são Adão e Eva (com excepção dos evangélicos), já para não falar de Aquiles ou do Cavalo de Tróia. Como é que podem ler Eça? E esses mesmos estudantes não sabem o significado de palavras correntes no português de hoje, quanto mais vocábulos menos comuns mas circulantes na literatura.

Acresce que é evidente a diferenciação social entre falar para estudantes de colégios ou escolas em zonas “da alta” e de zonas que um eufemismo designa como “desfavorecidas”, onde a socialização pela escola é praticamente nula na competição entre a rua, o bairro e o telemóvel. Embora eu tenha esta experiência directa, não me limito a ela, todos os estudos a confirmam perante a impotência de professores e autoridades governativas.

Quem saiba história sabe que momentos como este, na história do mundo, já se verificaram e todos acabaram mal. É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é a sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.

2025 11 15



segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Marcelo Tavares de Santana - IAs copiando estilos de escrita e fala

Diante das novas ameaças o que precisamos parece ser amadurecer nossas práticas atuais.

10/11/2025  

Por Marcelo Tavares de Santana*

Os algoritmos de inteligência artificial (IA) trouxeram novas possibilidades para a humanidade assim como também para golpes. Numa breve pesquisa por golpes novos nomes apareceram e num primeiro momento pode parecer precisarmos de mais ferramentas de proteção, o que aumentaria a complexidade de segurança e tornaria mais difícil manter um ambiente seguro; mas diante das novas ameaças o que precisamos parece ser amadurecer nossas práticas atuais. Estamos cada vez mais acostumados com a ideia do deepfake, onde nossas vozes e até mesmo nossas imagens são modificadas e animadas por IA, porém agora essas técnicas estão presentes até o nosso modo de escrever e falar, ou seja, pode-se até copiar o estilo de escrita de um poeta.

Já abordamos nesta coluna os ataques do tipo phishing, ou seja, tentativas de enganar o usuário para que ele entregue informações de acesso às suas contas bancárias, de e-mails, etc. A título de exemplo vamos falar de dois tipos de phishing que podem ser utilizados por IA: smishing e vishing.

O smishing é um golpe feito por SMS, portanto pode ser aplicado a qualquer tipo de comunicação via mensagem de texto. Com o uso de IA, esse tipo de ataque pode ser sofisticado aprendendo o modo de escrever das pessoas, as expressões idiomáticas que mais usam e quando gostam de inserir um pouco de humor nas conversas. Ou seja, todo o estilo de uma pessoa escrever pode ser copiado dando mais confiabilidade às mensagens falsas. Naturalmente isso só é possível se a IA for alimentada com mensagens originais para que ela possa “aprender” o estilo de escrita.

O vishing é um golpe por chamada de voz que, como vimos na matéria anterior, pode ser copiada e associada ao estilo da pessoa, tornando uma conversa por voz ainda mais convincente. Observe que estamos no momento em que nossa voz já está gravada em diversos serviços digitais de diversas empresas e além disso, nosso jeito de escrever também está copiado e apresentado publicamente nas redes sociais, portanto, os ingredientes para construírem a receita da nossa voz e do nosso estilo de escrever e falar são praticamente públicos.

Contra essa sofisticação dos golpes auxiliados por IA valem as recomendações de sempre: usar senhas fortes, chaveiro digital, autenticação multifatorial, manter programas atualizados, fazer backups regulares, não anotar senhas de banco, etc. Para complementar é sempre importante manter a calma e não permitir que outras pessoas nos coloquem em estado de urgência, principalmente quando o assunto é dinheiro. Por exemplo, se alguém disser que tem uma emergência, simplesmente basta dizer que não tem condições de atender a não ser o que se encontre pessoalmente ou dizer para ela pedir metade para alguém que não existe apenas a fim de testar se essa pessoa vai continuar a conversa ou não, se continuar é golpe.

Novos nomes de ameaças vão surgir o tempo todo, mas os alvos serão os mesmos, como obter senhas e acessos, conseguir transferências bancárias e colocar pessoas em situação de urgência. Independente das técnicas, os alvos precisam das mesmas proteções. Como falamos algumas vezes, é importante não entrar em paranóia, pois isso acaba se tornando uma falha de segurança.

Seria melhor se nós tivéssemos uma sociedade altamente escolarizada para que as pessoas fossem menos vulneráveis, no entanto isso depende mais de ações governamentais que de nós mesmos e no momento esses esforços pela educação brasileira vão mal, ainda mais agora que temos no Congresso um projeto para reduzir o investimento em educação em relação ao PIB de 10% para 7,5%, o que também do ponto de vista de segurança é péssimo pois em vez de termos uma população mais escolarizada e menos vulnerável a golpes caminha-se no caminho contrário, digamos, tornando o mercado de golpes mais viável.     

Uma tática bastante interessante numa situação de golpes por smishing, vishing e ataques similares de hoje e de amanhã, é encerrar qualquer conversa dizendo que vai retornar em outro momento por outro canal de confiança, outro aplicativo ou diretamente por telefone, principalmente quando houver algum apelo emocional pela urgência de ajuda. Pode-se também solicitar mudar a conversa para chamada de vídeo a fim de identificar, além da pessoa, se o ambiente que ela está é um lugar familiar; caso coloque aqueles filtros de fundo na conversa, questione. Em outras palavras, devemos manter nosso controle emocional em qualquer comunicação e fazer verificações sobre ela, trabalhando melhor aspectos comportamentais como por exemplo:

manter a calma diante de mensagens ou ligações urgentes;
desconfiar de pedidos de dinheiro ou situações emergenciais;
encerrar a conversa e dizer que retornará por outro canal confiável;
confirmar o pedido pessoalmente ou por chamada de vídeo;
fazer um teste simples: pedir que contate alguém inexistente e ver se insiste (indício de golpe).

A imprensa e redes sociais provavelmente sempre trarão notícias de novos golpes, e até mesmo desinformação sobre eles; sem falar nas fake news. É importante não deixar essa sobrecarga de informações atrapalhar a qualidade de nossas práticas de segurança, pois não adianta fazer coisas mais complexas se o básico não está sendo cuidado. Com a sofisticação dos golpes com IAs, pode ser mais importante a nossa percepção das comunicações a adquirir e mais programas que nunca serão mais criativos que os golpistas. Alguns desses golpes precisam ser rápidos (cinco minutos ou menos) para serem efetivados, portanto, não deixem o golpista dominar o tempo, que diferença faz atender um pedido de ajuda em cinco ou quinze minutos? Creio que nenhuma, e ainda dá tempo para verificar o contato por outros meios. Como recomendação final, procure estudar mesmo através de notícias os golpes digitais mais recentes, sempre refletindo em como se comportar em situações parecidas.

Bom estudo a todos!

*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo

https://passapalavra.info/2025/11/158076/ 

domingo, 28 de setembro de 2025

Cory Doctorow - NÃO PODES LUTAR CONTRA A MERDA

 


* Cory Doctorow, 

Medium. Trad. OLima.

É preciso dizer-te algo desagradável: as tuas escolhas pessoais de consumo não farão uma diferença significativa na quantidade de merda que enfrentas na tua vida.

Claro, podes fazer pequenas alterações, e deves fazê-lo! Comprar um portátil reparável, como o Framework, que é o melhor computador que já tive, e instalar o Linux nele (eu uso o Ubuntu, que é fácil de instalar). Passarás duas semanas a procurar na interface do utilizador o que precisa clicar e, depois, deixarás de notar isso para sempre.

Acede à Internet através de RSS e evita toda a manipulação algorítmica e vigilância que te obriga a ti e os seus às depredações das piores pessoas do mundo e dos seus algoritmos selvagens.

Prefira ferramentas de mensagens privadas e abertas de alta segurança, como o Signal. Abre uma conta num serviço de rede social federado, como o Mastodon, e torna-a o principal local para a sua vida social online.

Faz tudo isso! Faz mais! Tornarás a tua vida um pouco melhor e, em alguns casos, muito melhor. Mas não vais combater a merda dessa forma. A merda não é o resultado de pessoas a fazerem más escolhas: é o resultado de más políticas que produzem maus sistemas.

A merda é uma descrição clara, que fala sobre como as plataformas se tornam ruins. Eis como as plataformas morrem: primeiro, são boas para os seus utilizadores; depois, abusam dos seus utilizadores para melhorar as coisas para os seus clientes empresariais; finalmente, abusam desses clientes empresariais para recuperar todo o valor para si próprias.

Mas a parte mais importante da merda é a sua hipótese causal: a resposta que propõe para explicar por que razão esta degradação está a acontecer em todo o lado, neste momento.

Eis porque estás a ser prejudicado: decidimos deliberadamente deixar de aplicar as leis da concorrência. Como resultado, as empresas formaram monopólios e cartéis. Isto significa que não precisam de se preocupar em perder os seus negócios ou mão de obra para um concorrente, porque não competem. Isso também significa que elas podem facilmente controlar os seus reguladores, porque podem facilmente chegar a um acordo sobre um conjunto de prioridades políticas e usar os biliões que acumularam ao não competir para controlar os seus reguladores. Elas podem controlar os seus antigos e poderosos trabalhadores de tecnologia, despedindo-os em massa e aterrorizando-os para que abandonem qualquer pretensão inspirada em Tron de «lutar pelo utilizador». Por fim, podem usar a lei de propriedade intelectual para silenciar qualquer pessoa que crie tecnologia que desvalorize as suas ofertas.

Podes tomar cuidado para evitar a merda, podes até mesmo fazer disso um fetiche, mas sem resolver essas falhas sistémicas, as tuas ações individuais não te levarão muito longe. Claro, usa ferramentas que aumentam a privacidade, como o Signal, para comunicar com outras pessoas, mas se a única maneira de levar o teu filho ao jogo da liga infantil é entrar no grupo de boleias no Facebook, vais partilhar dados sobre tudo o que fazes para a Meta.

Da mesma forma, podes usar bloqueadores de anúncios que preservam a privacidade no teu navegador, mas no momento em que tiveres que fazer negócios com um monopólio que exige que uses a aplicação deles, ficarás totalmente indefeso diante deles, porque a lei antievasão criminaliza a modificação de uma aplicação para preservar a sua privacidade. Uma aplicação é apenas uma página da web revestida com o tipo certo de lei de propriedade intelectual para tornar a instalação de um bloqueador de anúncios um crime passível de prisão.

Quando todos os teus amigos vão a um festival, vais mesmo desistir de ir porque o evento exige que uses a aplicação Ticketmaster (porque a Ticketmaster tem o monopólio da venda de ingressos para eventos)? Se sim, não vais ter muitos amigos, o que é uma péssima maneira de viver

Se transformares a tua campanha pessoal para viver uma vida livre de merda num conjunto de práticas rígidas que te isolam da tua comunidade, ficarás infeliz — e prejudicarás a tua capacidade de lidar com as raízes sistémicas da merda. Isso porque problemas sistémicos têm soluções sistémicas. Eles são abordados por meio de movimentos de massa, litígios de impacto, ação política, revoltas de rua, ajuda mútua e outras formas de solidariedade e comunidade.

Os monstros que beneficiam do status quo não querem que saibas disso. Eles querem fazer uma lavagem cerebral em ti com o mantra de Margaret Thatcher: «A sociedade não existe». Eles querem que penses que és um indivíduo patético e atomizado. Eles querem que morras numa onda de calor enquanto expressas o teu profundo arrependimento por não reciclares mais diligentemente e não teres mais cuidado com a tua «pegada de carbono». Querem que conduzas durante horas à procura de um vendedor independente de cartão para fazeres o teu cartaz de protesto, convencido de que é mais importante evitar fazer compras na Amazon do que realmente aparecer no protesto em frente ao armazém da Amazon. Querem que te amaldiçoes por não andares de bicicleta e apanhares o autocarro na tua cidade, onde não há ciclovias e os autocarros passam a cada 45 minutos e param às 20h. Se querias uma cidade habitável, deverias ter feito melhores escolhas de consumo! Talvez pudesses cavar o teu próprio metro, já pensaste nisso, hmmm?

Tu, eu e todos que conhecemos fomos submetidos a uma campanha de 40 anos de propaganda antissolidária, com o objetivo de nos convencer de que só podemos lutar contra o sistema como indivíduos. Não gostas do teu plano de saúde? Procura outro! Não gostas do teu chefe? Despede-te! Nunca deves defender um sindicato ou um sistema de saúde socializado. Tu és um indivíduo, a sociedade não existe. «Não existe tal coisa como sociedade» é o que se diz quando se beneficia da sociedade (que existe, sem dúvida) e não se quer que ela mude.

Para fazer mudanças, é preciso existir na sociedade. Sim, o Partido Democrata é uma gerontocracia fraca e patética, mas os Socialistas Democráticos, o Movimento Sunrise e outros grupos políticos independentes dos democratas, mas que ainda assim os levam a fazer algo de bom, às vezes, merecem o seu apoio. Sim, o movimento sindical desperdiçou os anos de Biden, recusando-se a gastar as suas reservas de dinheiro recordes na organização, apesar dos milhões de trabalhadores implorarem para se filiarem nos sindicatos. Mas a democracia no local de trabalho continua a ser a única maneira que temos — ou teremos — de derrotar o capital, então filia-te num sindicato, forma um sindicato, apoia um sindicato.

Sim, a reciclagem do plástico é uma farsa criada pela indústria petroquímica e todo o plástico que coloca no seu caixote azul vai para uma incineradora ou para um aterro, mas se não apoiares (e se juntares a) verdadeiros ativistas ambientais, vais ser queimado vivo.

Sim, Israel está a cometer um genocídio e Brown, Columbia e outras universidades de elite estão a capitular perante Trump, cuja base evangélica acredita que a guerra em Israel acelerará a Segunda Vinda, quando todos os judeus serão condenados à condenação eterna. Mas isso não te isenta da responsabilidade de agires para defender os nossos irmãos e irmãs palestinianos da morte que lhes é infligida com as armas que os nossos governos enviam a Israel. Isso vale em dobro para nós, judeus, em cujo nome o massacre está a ser cometido. (…)

Claro, vive a melhor vida que puderes, fazendo as melhores escolhas possíveis. Mas não te iludas achandque isso é lutar contra a merda.

A razão pela qual as empresas te espiam não é porque você é mesquinho demais para pagar pelos media, então elas precisam recorrer à publicidade de vigilância. Independentemente de você pagar ou não a uma empresa de tecnologia, elas vão espiá-lo de qualquer maneira. A razão pela qual eles podem espiar você é que os EUA não têm uma nova lei de privacidade do consumidor desde 1988, quando a Lei de Proteção à Privacidade de Vídeos proibiu os funcionários das locadoras de vídeos de divulgar que fitas VHS você levava para casa. Essa foi a última ameaça tecnológica à nossa privacidade que o Congresso abordou. A razão pela qual você é espiado é porque não há consequências sistémicas para essa vigilância.

A razão pela qual as empresas de trabalho temporário classificam erroneamente os seus trabalhadores como prestadores de serviços, para abusar deles, roubar os seus salários e negar-lhes proteções no local de trabalho, é porque podem fazê-lo — não porque os trabalhadores não sejam suficientemente exigentes em relação aos seus contratos de trabalho.

Para combater problemas sistémicos, é preciso fazer parte de uma solução sistémica. (...)

Posted by OLima at sexta-feira, setembro 26, 2025 

https://onda7.blogspot.com/2025/09/leituras-marginais_0387707902.html

Rezgar Akrawi - Repressão digital suave

Repressão digital suave - Como a inteligência artificial garante a continuidade da hegemonia capitalista

Se a repressão digital suave procura sufocar a resistência, a alternativa é redefinir a tecnologia como ferramenta de libertação.

*  Rezgar Akrawi 

27 de setembro 2025

Durante a última ofensiva contra Gaza, milhares de ativistas ficaram surpresos ao ver suas publicações apagadas ou suas contas restritas simplesmente por documentarem os crimes da ocupação israelita. Muitos sentiram impotência e revolta, como se suas vozes estivessem sendo silenciadas de propósito. Não foi uma coincidência ou falha técnica, mas sim um exemplo vivo do que hoje podemos chamar de “repressão digital suave”. Trata-se de uma repressão que não aparece necessariamente sob a forma de bloqueios diretos ou prisões visíveis, mas que se infiltra por meio de algoritmos invisíveis, remodelando o espaço digital para servir à continuidade da hegemonia capitalista. Surge então a pergunta: como funciona esse sistema e como enfrentá-lo?

A repressão digital suave é um conjunto de políticas e ferramentas tecnológicas usadas para restringir a liberdade de expressão e controlar o espaço digital por parte das grandes empresas e dos Estados dominantes, mas de formas que parecem neutras e não conflituosas. Em vez da censura explícita, da proibição direta ou de medidas abertamente repressivas, baseia-se em técnicas de ocultação gradual e na criação de um ambiente em que as pessoas se submetem a uma vigilância invisível — e às vezes até se autocensuram.

Como funciona a vigilância invisível? Controlo digital e autocensura voluntária

Imagine que tudo o que você faz em sua vida digital está a ser monitorizado: as suas deslocações pelo telemóvel, suas reuniões privadas, até mesmo as suas mensagens pessoais. Não é ficção. As grandes empresas digitais, em colaboração com Estados hegemónicos, recolhem sistematicamente esses dados e os analisam para classificar utilizadoras e utilizadores de acordo com os seus comportamentos e orientações políticas. Assim, as plataformas tornam-se instrumentos centrais para detetar e conter tendências críticas, seja através de campanhas de desinformação ou de mecanismos que reduzem o alcance e a influência de determinados conteúdos.

E não pára por aí. Graças a algoritmos cuidadosamente projetados, o conteúdo político de esquerda e progressista é restringido sem precisar ser apagado. Parece que a baixa interação é resultado do desinteresse do público, mas na realidade trata-se de uma redução deliberada da visibilidade. Diversos estudos falaram da “bolha de filtros” que isola pessoas de qualquer conteúdo divergente. Vazamentos internos do Facebook, por exemplo, mostraram como a empresa reduzia intencionalmente o alcance de movimentos políticos ou de direitos humanos, enquanto afirmava publicamente ser neutra.

Com o tempo, muitas pessoas começam a praticar a chamada “autocensura voluntária”: moderam ou mudam seu discurso por medo de serem banidas, perderem alcance ou terem suas contas fechadas. Esse medo altera a natureza do próprio discurso e transforma a internet em um espaço pré-formatado para servir aos interesses das forças capitalistas.

A frustração digital

A repressão não se limita a restringir conteúdo. Existe também uma arma menos visível e ainda mais eficaz: a frustração digital. Através de um fluxo contínuo de conteúdos calculados, os algoritmos criam uma sensação generalizada de impotência e resignação, especialmente entre pessoas com posições de esquerda e progressistas. De repente, você se vê rodeado por mensagens que insistem que as experiências socialistas fracassaram e que resistir é inútil. Em contrapartida, o capitalismo é apresentado como uma força eterna e invencível.

Ao mesmo tempo, promove-se o individualismo e as soluções centradas no sucesso pessoal — como o consumo ou o desenvolvimento individual — como alternativas “realistas” à ação política coletiva. Assim, as pessoas são isoladas umas das outras e convertidas em consumidoras em vez de militantes. Não se trata de uma escolha espontânea, mas de uma estratégia de classe cuidadosamente elaborada para abortar qualquer possibilidade de transformação socialista radical.

Prisão e assassinato digital

Quando nem a censura nem a frustração bastam, o sistema recorre a um nível ainda mais grave: a prisão digital. De repente, pessoas comuns encontram as suas contas suspensas por longos períodos, bloqueadas totalmente ou encerradas sem aviso prévio. Normalmente, isso é justificado com argumentos como “violação das normas comunitárias” ou “promoção da violência”, embora o conteúdo censurado frequentemente seja documentação de crimes capitalistas ou de violações de direitos humanos.

Em muitos casos, a repressão chega ao que podemos chamar de “assassinato digital”: a eliminação completa da presença online de indivíduos ou organizações. Movimentos operários, organizações de esquerda, meios de comunicação independentes e até entidades de direitos humanos tiveram seus sites encerrados, arquivos apagados ou contas desativadas. O exemplo mais evidente é o do conteúdo palestino, que sofreu exclusões massivas de contas e publicações que denunciavam os crimes da ocupação, enquanto continuava a ser permitido o discurso de ódio ou a propaganda da direita israelita. Essas práticas transformam o espaço digital de um campo de expressão livre em um território rigidamente monitorado, onde o capital decide o que pode aparecer e o que deve ser enterrado.

Quais alternativas para as forças de esquerda e progressistas?

Se a repressão digital suave procura sufocar a resistência, a alternativa é redefinir a tecnologia como ferramenta de libertação. Isso exige iniciativas de esquerda progressistas que promovam transparência e controle democrático, além de legislações rigorosas que criminalizem a vigilância política e proíbam o uso da inteligência artificial para restringir liberdades.

Não se trata apenas de leis. É necessário também construir redes de solidariedade transnacionais que denunciem violações e pressionem as grandes empresas. Utilizadoras e utilizadores comuns podem participar de boicotes contra empresas que vendem tecnologias de vigilância a regimes autoritários, colocando-as em listas negras. Em contrapartida, é essencial apoiar softwares e sistemas de código aberto geridos por órgãos independentes, com representantes da sociedade civil e sob controle coletivo, para que se tornem ferramentas de denúncia de abusos, de monitoramento de governos e de análise de dados para expor práticas repressivas.

Além disso, as organizações de esquerda precisam desenvolver as suas próprias ferramentas: desde técnicas de criptografia e proteção da privacidade até campanhas de consciencialização que revelem os bastidores dos algoritmos. Afinal, esta luta não é apenas técnica, mas eminentemente política. Enfrentar a inteligência artificial capitalista é parte da luta de classes, uma extensão do conflito sobre fábricas e campos no passado, mas agora no espaço digital.

O exemplo da repressão digital contra o conteúdo palestino, e contra vozes de esquerda e emancipação em geral, deixa clara a gravidade do problema. Mas também mostra a lição mais importante: alternativas são possíveis. Transformar a inteligência artificial em ferramenta de libertação e vinculá-la a um projeto político de esquerda progressista pode abrir novos horizontes para a resistência. A internet não nasceu para ser apenas um mercado de consumo, mas pode ser um campo de luta comum e internacionalista. Isso, porém, só será possível se ligarmos a batalha digital a uma luta mais ampla contra o capitalismo e sua hegemonia de classe, recolocando o ser humano no centro da decisão digital.


Rezgar Akrawi é um militante de esquerda independente, interessado na esquerda e na revolução tecnológica, e atua como especialista em desenvolvimento de sistemas e governança eletrónica.

Fontes consultadas:

Filter bubble – Wikipedia

How tech platforms fuel U.S. political polarization and what government can do about it

PNAS – Algorithmic amplification of politics on Twitter

Arxiv – The Political Amplification Bias of the Twitter For You Algorithm

2021 Facebook leak – Wikipedia

O Capitalismo de Inteligência Artificial: desafios para a esquerda e alternativas possíveis

https://leanpub.com/ai-socialism-pr

https://www.esquerda.net/artigo/como-inteligencia-artificial-garante-continuidade-da-hegemonia-capitalista/95969

domingo, 21 de setembro de 2025

"Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Antes da IA os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma"

 

Joana Pereira Bastos (Jornalista) e Nuno Botelho (Fotojornalista)

18 setembro 2025 

Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações

Marco Neves é linguista e professor na Universidade Nova de Lisboa. Mas são os vídeos que partilha nas redes sociais sobre a origem das palavras e outras curiosidades que fazem dele, atualmente, o maior divulgador de conhecimentos sobre a língua portuguesa em Portugal

Há dois anos, Marco Neves começou a partilhar nas redes sociais vídeos sobre a origem das palavras e outras curiosidades da língua. O sucesso não se fez esperar. Tem quase 380 mil seguidores e 72 milhões de visua­lizações só este ano

O que o levou a fazer estes vídeos?

 Comecei por brincadeira, mas não estava à espera de receber tantos comentários e perguntas. Percebi que, enquanto os livros que escrevo sobre a língua chegam sobretudo às pessoas que já têm interesse pelo tema, os vídeos chegam a outras que nem sequer sabiam que tinham esse interesse, e isso é fascinante.

O que explica o seu sucesso?

O discurso sobre a língua sempre esteve muito tomado por uma perspetiva de dizer o que está certo ou errado do ponto de vista da ortografia e da gramática, o que é muito limitado. Eu tentei mostrar que há outras coisas que interessam às pessoas, como a origem das palavras e dos nomes, as diferenças entre regiões ou entre os vários países que falam português. A língua também é uma maneira de nos identificarmos com os grupos a que pertencemos — a cidade, a re­gião, o conjunto de amigos ou a classe social. Pode parecer um pouco feio falar disto, mas a verdade é que as pessoas identificam-se socialmente pela forma como falam. 

Qual é a dúvida ou pergunta que lhe colocam mais vezes?

 Para surpresa minha, a que recebo mais tem a ver com a pronúncia da palavra “muito”. Porque é que a pronunciamos como se tivesse um ‘n’ ou um til? Na verdade, é a única palavra em que aquele ditongo (‘ui’) é nasal, ainda que não haja nenhuma marca gráfica que o indique. Quem sistematizou a nossa ortografia, em 1911, pôs mesmo uma nota de rodapé a dizer que a palavra ‘muito’, exce­cionalmente, lê-se de uma maneira e escreve-se de outra.

 A forma descontraída como fala destes temas ajuda a combater a ideia de que o português é difícil?

 Desafiar as pessoas para se interessarem pela língua implica mostrar que também se podem divertir com o tema.

 A seu ver, a maneira de ensinar o português nas escolas é apelativa?

Penso que há uma série de conhecimentos técnicos que talvez sejam introduzidos demasiado cedo. Se começarmos pelo telhado, não corre bem. Antes de mais, é preciso criar o gosto por ler e escrever.

Os clássicos dados na escola são bons para fomentar o gosto pela leitura?

Os clássicos fazem parte do nosso património cultural, e a escola tem de continuar a transmiti-los, ainda que possa descobrir formas novas de os abordar. Por exemplo, há muitos tiktoks sobre os clássicos da Jane Austen que fizeram sucesso nas redes, e a escola pode aprender com estas novas abordagens. Por outro lado, pode acrescentar à lista de leituras livros sugeridos pelos próprios alunos.

Muitos livros transformaram-se em fenómenos de vendas graças ao TikTok. Têm qualidade para serem dados nas escolas?

 Dizer que uns livros são bons e outros não são é discutível. Há muitos caminhos para chegar à literatura, e penso que não devemos, à partida, recusar nenhum. O importante é que as pessoas ganhem hábitos de leitura. Sem isso, por mais que saibam gramática, não conseguirão escrever bem. E, na sociedade em que vivemos, saber fazê-lo é essencial.

As pessoas recorrem cada vez mais à inteligência artificial quando têm de fazer um texto. Isso vai diminuir a capacidade de escrita?

 Há esse risco no que toca à criatividade. Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Até já digo, na brincadeira, que tenho saudades de [os meus alunos] me entregarem textos com erros ortográficos. Antes destas ferramentas, os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma. Agora, o registo é muito uniformizado. 

A linguagem usada nos telemóveis e nas redes sociais acabará por provocar alterações no português?

Há uma parte central da língua que não muda muito. Por isso é que conseguimos ler poesia medieval e perceber grande parte dela. Mas, à superfície, está sempre a mudar, e não sabemos o que vai ficar disso. Por exemplo, nos anos 1980 ninguém sabia se o ‘bué’ ia perdurar, mas perdurou, enquanto outras palavras que dizíamos na altura não ficaram. As transformações da língua à superfície são normais e sempre aconteceram. A questão é que hoje, com a internet, são mais rápidas e mais globais. Nos anos 1970/80, se fosse preciso, cada escola tinha o seu calão. Mas agora o movimento é internacional e muitas vezes baseado em palavras inglesas. No entanto, a maior transformação provocada pela internet não é essa.

Qual é?

A internet provocou um uso muito mais intenso da escrita. Quando eu tinha 15 anos, nos anos 1990, nunca comunicava com os meus amigos pela escrita, mas apenas oralmente. Falava ao vivo ou telefonava. A escrita quase só era usada em contextos formais, de escola ou de trabalho. O único uso informal eram as cartas, mas ninguém as escrevia todos os dias. Isso mudou de forma radical. Hoje, as pessoas namoram, conversam ou insultam-se pela escrita. Nunca escreveram tanto como agora, sobretudo do ponto de vista informal. O que ajuda a explicar algumas dificuldades que sentimos ao usar a escrita de forma informal — por isso é que usamos os emojis, para compensar a falta do olhar, da expressão, dos gestos... Esta transformação levará a uma aproximação dos vários registos na escrita, e o formal terá tendência de já não o ser tanto.

“Em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul”

O que mais o fascina nas línguas?

Perceber que cada palavra tem uma história. Por exemplo, o ‘azul’, que é a minha palavra preferida, vem do persa, por causa das rotas da seda, depois passou pelo árabe, chegou ao latim e finalmente ao português. Outra palavra interessante é ‘jaguar’, que vem de uma língua sul-americana, o tupi, e que usamos em Portugal, enquanto os brasileiros, curiosamente, usam uma palavra latina (‘onça’) para se referirem ao mesmo animal. As palavras revelam muito da história dos povos e dos seus intercâmbios, e isso é fascinante, em todas as línguas. No português, em particular, fascina-me o facto de ser um arquipélago, já que nenhum dos países que fala português faz fronteira com o outro. Isso não acontece noutras línguas e cria uma dinâmica muito própria.

Em que sentido?

O Brasil tem uma dimensão esmagadora, e isso alimenta algum receio e narrativas de superioridade no que diz respeito à língua. “Nós é que sabemos, porque somos 200 milhões”, pensam os brasileiros. “Nós é que sabemos, porque nós é que a inventámos”, dizem os portugueses. Mas, em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul. O centro de gravidade do português vai mudar.

É verdade que a palavra ‘saudade’ só existe em português?

 Não. O romeno ou o galês, por exemplo, também têm uma palavra para ‘saudade’ e curiosamente, nesses países, também há a ideia de que a palavra só existe nessa língua. Dito isto, é verdade que ‘saudade’ tem uma presença e uma força muito grande na cultura portuguesa que não existe em mais lado nenhum.

https://expresso.pt/semanario/ideias/2025-09-18-estamos-a-chegar-a-um-ponto-em-que-a-escrita-parece-toda-igual.-antes-da-ia-os-estudantes-podiam-dar-erros-mas-escreviam-com-mais-alma-dbfc96e7

domingo, 7 de setembro de 2025

Enrique Dans - VER PARA CRER. A SÉRIO?

 LEITURAS MARGINAIS

* Enrique Dans, Medium.

Na semana passada, Will Smith publicou um vídeo de um dos seus concertos, parecendo estar rodeado de fãs em êxtase, o que suscitou a dúvida imediata de que tudo aquilo tinha sido criado com recurso à IA.

Verificou-se rapidamente que a multidão era real, mas o mal já estava feito: a suspeita instala-se automaticamente assim que algo parece demasiado perfeito, demasiado polido, uma suspeita que nunca desaparecerá.

O debate não é tanto sobre se Will Smith estava a fingir, mas sim sobre o facto de termos entrado num mundo em que qualquer imagem ou vídeo pode ser imediatamente questionado. O velho ditado de que a câmara não mente já não é válido. A capacidade de criar imagens altamente realistas através de algoritmos significa que já não podemos ter a certeza de que o que vemos nas redes sociais é verdadeiro. E essa incerteza, aplicada a tudo o que vemos, tem consequências culturais, sociais e políticas de primeira ordem.

A gravação do concerto de Smith era real, mas isso pouco importa. O que emerge é a intuição de que agora duvidamos de tudo o que vemos. A questão já não é o que aconteceu, mas o que acreditamos ser possível. A dúvida é suficiente para corroer a credibilidade. (…)

Até há pouco tempo, quando olhávamos para uma fotografia espetacular de um animal, de uma paisagem ou de um acontecimento histórico, fazíamo-lo com a certeza de que por detrás dela estava alguém que tinha estado lá, que tinha visto o que agora contemplávamos através da sua objetiva. Essa mediação ligava-nos à realidade do mundo e transmitia não só informação, mas também respeito pelo trabalho, paciência e olhar do fotógrafo. Agora, porém, tudo pode ser suspeito de manipulação ou síntese digital, e essa ligação perde força.

Esta mudança tem implicações culturais, sociais e políticas. Se qualquer imagem puder ser questionada, o seu valor como prova ou como registo diminui drasticamente. (…)

A consequência é que estamos a entrar numa nova fase cultural em que a autenticidade está a tornar-se um bem escasso. Ver algo e ter a certeza de que é real tornar-se-á cada vez mais difícil e, por conseguinte, mais valioso. Ao mesmo tempo, multiplicar-se-ão as iniciativas para certificar a origem das imagens, para garantir a sua rastreabilidade, para provar que houve uma câmara, um lugar e um momento específico por detrás delas. Mas mesmo essas certificações podem ser questionadas, porque a desconfiança é contagiosa e permanente. O mundo digital ensinou-nos que qualquer mecanismo de validação acaba por encontrar a sua vulnerabilidade.

Isto levanta questões profundas. Que valor tem uma fotografia se já não a conseguimos distinguir de uma imagem gerada por uma IA? Que mérito atribuímos ao fotógrafo quando um sistema pode replicar o seu trabalho com um simples comando de teclado? A criação artística sempre se moveu num espaço entre a técnica e a visão pessoal, entre o domínio da ferramenta e a capacidade de captar o excecional. Se o excecional pode ser fabricado a pedido, o que resta então do olhar humano? Talvez, precisamente, a autenticidade, a certeza de que alguém esteve lá e testemunhou o facto. Mas essa certeza tornar-se-á cada vez mais difícil de manter. (…)

A partir de agora, sempre que olharmos para uma multidão, um rosto, um animal ou uma paisagem, uma parte da nossa mente questionar-se-á se é real ou não. E essa pergunta constante vai mudar a nossa relação com as imagens. Viveremos rodeados de maravilhas visuais, mas com a dúvida permanente de que, ao admirá-las, não estamos realmente a admirar nada mais do que a habilidade de uma máquina que criou algo que nunca existiu.

Posted by OLima at sábado, setembro 06, 2025 

sábado, 10 de maio de 2025

Trump e Karp querem nos vigiar a todos

10 de maio de 2025

O homem mais perigoso da América não grita, ele codifica. O nome dele é Karp.

O que o torna tão perigoso não é apenas sua tecnologia, mas seu sistema de crenças. Karp fala de “transformação de sistemas” e “reconstrução institucional”

Ele quer quebrar os códigos, destruir a sociedade civil para criar uma sociedade militar. Temos de quebrar o antigo regime que significava que a sociedade civil, isto é, as pessoas de baixo, produziam o sistema; o sistema deve ser produzido de cima, pelos senhores.

Tecnologias de vigilância antes projetadas para zonas de combate agora monitoram clientes, funcionários e cidadãos. Karp não quer apenas alimentar o Pentágono. Ele quer que a Palantir esteja nas ruas, escolas, hospitais, tribunais e bancos.

Por trás do tom messiânico há algo assustador: a convicção de que as restrições democráticas — deliberações desordenadas, resistência pública, prudência moral — devem ser contornadas.


Ele é a favor de um mundo de vigilância, um mundo algorítmico no qual o humano não é o objetivo final e a medida de todas as coisas, kantianas ou bodinianas, mas o obstáculo à eficácia da governança que está a serviço somente do Poder para si mesmo.
Ele quer quebrar os códigos, destruir a sociedade civil para criar uma sociedade militar.

Karp vende um futuro onde guerras e elites governantes não precisam de apoio público, elas só precisam de apoio financeiro . Graças ao apoio financeiro, eles controlam tudo.

Macron é um emulador deste homem. Ele quer quebrar os códigos, destruir a sociedade civil para criar uma sociedade empresarial enquanto espera pela sociedade militar. A polícia já está militarizada e a moralidade foi terceirizada para códigos e suas regras; cada interação humana se torna um ponto de dados a ser processado, anotado e um dia posto em prática. A moralidade está desaparecendo, a transgressão generalizada é a ferramenta que nos permite fragmentar a sociedade civil, dividi-la, desintegrá-la.

A Comissão Europeia compartilha dessa filosofia perversa, e é por isso que ela quer impor a moeda peg-and-click, a moeda personalizada e a moeda digital. Seu objetivo é o controle social, trata-se de eliminar, de uma vez por todas, qualquer possibilidade de resistência à tirania, privando essa resistência de qualquer meio de financiamento.

A moeda digital é o Panóptico de Jeremy Bentham: transparência para alguns na base e opacidade total para outros no topo.

Semelhante ao que está sendo tentado atualmente contra partidos políticos não conformistas - como o RN - ou seja, extremistas. A luta contra a Sociedade Civil, que é qualificada de extremista e, portanto, terrorista, está a acontecer a este nível, ao nível do financiamento.

João MacGillian

8 de maio de 2025

Se Orwell nos avisou sobre o Big Brother, o CEO da Palantir, Karp, está construindo discretamente sua sala de controle com tecnologia de IA

Karp não parece ser um belicista. O CEO da Palantir é frequentemente fotografado usando óculos excêntricos e um corte de cabelo selvagem, citando Santo Agostinho ou Nietzsche como se estivesse fazendo um teste para uma palestra do TED sobre tecno-humanismo.

Mas por trás das digressões poéticas e posturas filosóficas existe uma verdade simples: Karp está construindo o sistema operacional para uma guerra perpétua. E ele está vencendo.


Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 10, 2025 

https://asiatimes.com/author/john-mac-ghlionn/

https://foicebook.blogspot.com/2025/05/trump-e-karp-querem-nos-vigiar-todos.html#more