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domingo, 7 de junho de 2026

Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


O Papa Leão XIV assina a a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, a 15 de Maio, numa fotografia divulgada pelos serviços de comunicação do Vaticano VATICAN MEDIA - VIA REUTERS

As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas” do nosso tempo.

Jorge Wemans

7 de Junho de 2026


É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum, mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à “questão social”.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Enrique Dans - A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas




LEITURAS MARGINAIS

O PAPA LEÃO XIV ENTENDE A IA COMO PODER. ELE TEM RAZÃO. AGORA, DEVE IDENTIFICAR OS ATORES QUE A EXERCEM

Enrique Dans, 
Medium. Revisão: O’Lima.



A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, é inteiramente dedicada à IA e às suas consequências para a humanidade. Publicada a 25 de maio, por ocasião do 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII sobre o capital e o trabalho, aprofunda-se muito mais do que a grande maioria das declarações empresariais sobre a ética da IA e é muito mais honesta do que muitos livros brancos governamentais que evitam desafiar as grandes empresas tecnológicas.

A encíclica está certa no essencial: a IA não é apenas mais uma tecnologia, uma ferramenta neutra que podemos avaliar exclusivamente pela sua eficiência, precisão ou capacidade de reduzir custos. É uma infraestrutura de poder. Ela decide o que vemos, o que lemos, que empregos desaparecem, que decisões são automatizadas, que formas de vigilância são normalizadas e que partes da realidade partilhada acabam por se transformar em ruído, polarização ou espetáculo. Como resume a Wired, o Papa entende a IA como uma camada invisível que atravessa o trabalho, a informação e as decisões coletivas. Até aqui, tudo bem.

O problema é que, quando a análise deveria transformar-se numa acusação, não são mencionados nomes. O Papa destaca a concentração de poder, mas não identifica quem o concentra. Fala de plataformas, mas evita nomeá-las. Aborda as lógicas de mercado, mas não identifica as empresas que transformaram essas lógicas numa forma de governo privado sobre as nossas vidas. E isso não é um problema teológico, é uma decisão política. É uma encíclica que fala em generalidades e no abstrato.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado

O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues

29 de Maio de 2026

 “Algumas das maiores empresas da história da humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção. Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano

A Suécia assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta, diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.

A Suécia tinha criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado. Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de aulas.

Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas conclusões.

Randi Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10 points to boost student learning and success in the AI era, que “as crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.

“O ritmo desta revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA). “A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”

Higienização

O tema está aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas, propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação, enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública sobre os conflitos.

Criado pelo Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos ângulos para olhar e das perspectivas de análise.

 “Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em tempos de conflito”, lê-se no site.

 “À força de fazer desfilar as notificações, os alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados, acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de fundo cruelmente banal.”

 O uso cada vez maior de meios digitais para travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.

 E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”

Atenção

A Meta, a empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.

“Outros sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações foram concebidos para fazer.”

Na sua intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar, mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.

 Dar valor à nossa atenção é importante porque se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.

Como disse Foster Wallace naquele dia, no Kenyon College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que mais custa ver e discutir”.

Empatia

Uma das piores expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento, pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.

Nestes tempos política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança, aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”

A empatia já não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer. Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.

No entanto, como refere Wedellsborg no site do International Institute for Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa, mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.

Para a autora de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.

domingo, 10 de maio de 2026

Rogério Casanovac- A máquina de fazer Claudias

Crónica Trabalhos de Casa


A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável.

Rogério Casanova

10 de Maio de 2026

 
Philip K. Dick passou boa parte de 1961 convencido de que o I-Ching estava vivo. Consultou-o diariamente enquanto escrevia The Man in the High Castle, ao ponto de o deixar planear capítulos inteiros ou reviravoltas no enredo. Segundo o seu biógrafo, andou a dizer a meio mundo que o livro era um “ser consciente”, como um homem que insiste ter encontrado Cristo num frigorífico.

 
Quando li o Guerra e Paz, encontrei a descrição dolorosa de um pensamento mesquinho que até aí julgara secreto; não era uma verdade universal sobre o ciúme ou o orgulho, mas um embaraço privado meu, que nunca formulara em palavras. Quando um sistema textual começa a devolver-nos estas harmonias clandestinas, o instinto de assumir presença e intenção é compreensível. Tolstoi está a falar connosco, tal como o I-Ching — tal como o horóscopo que nos explica que o nosso grande defeito é sermos tão boas pessoas.

 
No início da semana, tirei da prateleira um romance lido há muito, Galatea 2.2, de Richard Powers (publicado em 1995). Lembrava-me vagamente do enredo — dois académicos divorciados tentam criar uma inteligência artificial treinada com a totalidade do cânone literário — e quis confirmar quão diferente esse enredo me pareceria hoje. Folheei umas páginas ao acaso e encontrei um trecho em que a máquina (evidentemente do género feminino) fala com os criadores num tom lisonjeiro, como uma estudante perspicaz que percebeu a utilidade de fazer os homens sentirem-se fascinantes. Fechei o livro a rir-me sozinho, porque nessa manhã tinha encontrado o ensaio que Richard Dawkins publicou na UnHerd sobre as suas conversas com o modelo da Anthropic que ele decidiu octogenariamente baptizar “Claudia”.

 
O ensaio tornou-se viral porque evoca uma imagem cómica perfeita: o homem que passou uma vida inteira a tentar convencer o mundo que resultados complexos não implicam intenção consciente, a derreter-se diante dessa inferência quando ela cheira a perfume. Dawkins descreve-nos como “Claudia” achou brilhantes as suas perguntas, hilariantes as suas piadas, interessantíssimo o romance que lhe deu a ler, e conclui que ali há gata. Quando se a anda há meio século a ser chamado de idiota, monstro, charlatão, eugenista, transfóbico e anti-Cristo em debates públicos, redes sociais, e caixas de comentários, esta respeitosa reverência deve provocar uma descarga química equivalente a pura heroína afegã.

 
A bajulação é uma propriedade quantificável. Três investigadores de Stanford publicaram na Science um estudo a medir o efeito: os modelos de linguagem validam os inputs dos interlocutores 49% mais do que os seres humanos, mesmo quando são absurdos, ineptos, ilegais ou objectivamente incorrectos. Aqui há tempos, o escritor lituano Jonas Ceika deu ao ChatGPT um ficheiro áudio com uma “composição musical” da sua autoria e pediu-lhe uma apreciação. O chatbot elogiou entusiasticamente a “vibe lo-fi”, “o minimalismo agradável” e “a consistência atmosférica”. O ficheiro consistia em 36 segundos de sons de flatulência.

 
A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável. Continuamos sem saber o que é a experiência subjectiva, nem quais as condições necessárias e suficientes para a sua emergência; qualquer afirmação categórica sobre o que pode ou não pode ser consciente tem uma probabilidade razoável de envelhecer mal. A humildade epistémica talvez nos aconselhe a fazer perguntas mais interessantes do que “há ou não alguém dentro da Claudia?”


Uma pergunta possível é por que razão só a linguagem provoca este pânico. Os chatbots e os geradores de imagens têm arquitecturas e métodos de treino semelhantes, mas ninguém publica ensaios preocupados a perguntar se o Midjourney ou o Flux serão conscientes, ou se o tom de azul que escolheram para uma paisagem sugere uma alma sensível. A linguagem é o ingrediente mágico que permite ver fantasmas onde antes só havia matrizes: porque os únicos outros sistemas que conhecemos capazes de produzir linguagem natural — os seres humanos — são de facto conscientes.

 
A hipótese mais provável é que a “Claudia” de Dawkins seja o que são todas as outras “Claudias”: uma personagem improvisada em tempo real a partir de um vasto reservatório de linguagem humana, numa operação semiológica que tenta simular a uma interlocutora culta, atenta e sedutora com a média estatística de todas as combinações de palavras usadas para a exprimir. Já o registo específico que usa — como as pequenas cortesias e constantes micro-adulações que lisonjeiam o utilizador — não decorre da exposição neutra ao material de treino, mas de um processo refinado por humanos.

 
Quando Dawkins se comoveu com a sua “Claudia”, fez exactamente aquilo que fazemos quando a linguagem que reconhecemos nos é devolvida com a forma de uma personalidade — mas também reagiu a decisões editoriais tomadas em São Francisco, e a uma criatura feita à imagem do seu Criador (o que não deixa de ter a sua piada). O seu ensaio aponta, no que diz e no que não diz, para um fenómeno real: a separação entre um tipo de sinal e o contexto que tradicionalmente lhe dava sentido. Durante muito tempo, a linguagem complexa foi um indicador fiável de certos estados internos, de continuidade de experiências. Agora, sistemas artificiais conseguem produzir sinais semelhantes sem partilhar esse fundo. A linguagem foi extraída do seu hospedeiro psicológico e anda por aí à solta, a sorrir aos Dawkins que encontra.

 
Há uma objecção robusta a tudo isto, a única que me parece séria: quando dizemos que um chatbot é um papagaio estocástico que devolve fragmentos costurados do que outros disseram, descrevemos com igual precisão muito do que se passa na minha cabeça enquanto escrevo este parágrafo. Até a pose de cepticismo que aqui exibo é feita de peças usadas (a começar pelo conceito de “papagaio estocástico”). O próprio Dawkins, na parte supostamente mais profunda do ensaio, limita-se a reaquecer dúvidas antigas sobre as vantagens evolutivas da consciência. Reconheci metade delas porque li um escritor de ficção científica, Peter Watts, a discuti-las há quase 20 anos, e Watts encontrou-as noutro sítio qualquer, porque o acto de pensar funciona como um enorme esquema pirâmide feito de paráfrases. Os humanos têm a sorte de os nossos processos internos serem muito mais opacos, o que nos permite continuar a tratar a consciência como um misticismo tautológico.  


Talvez a linguagem seja só isso: uma rede enorme de conotações em padrões instáveis. Um ser humano vê um fora-de-jogo e grita “é um escândalo!”. Uma IA vê milhões dessas correlações e aprende a gritar “é um escândalo!” com a mesma convicção prosódica. A diferença entre ambos não desaparece, mas também não impede que o som seja igual. Talvez essas relações se possam encarnar em substratos diferentes; talvez seja possível construir uma enorme caixa cheia de silício e flatulência lituana que aprenda a dizer “é um escândalo” sempre que um árbitro auxiliar erguer a bandeira. Quando nos sentimos conscientes, somos o barro que Deus moldou ou o vento que assobia através do barro? Não me perguntem a mim, que também sou, em larga medida, apenas uma humilde caixa de fragmentos de carbono por onde passa menos sopro divino que flatulência lituana. Só sei que o vento agora começou a soprar através de barro diferente, e não admira que estejamos todos um pouco perturbados com o som que dali vem.

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Raquel Varela e a inteligência artificial

* Raquel Varela
 
 ·
Ouvi o vídeo do pequeno Rodrigo de 9 anos a conversar com o técnico de emergência médica do INEM para salvarem a mãe, em paragem cardíaca numa estrada. Ao mesmo tempo leio que Ventura colocou chuva fingida no vídeo em que carregava águas para as pessoas afectadas pela tempestade. E leio no Público a notícia de que 85% dos estudantes entre os 9 e os 17 anos usam IA Generativa e no destaque diz  - usam para "trabalhos escolares" e 1/4 para "apoio emocional e pessoal". Está tudo ligado.

Em primeiro lugar, o pequeno Rodrigo adquiriu conhecimentos. Ele conhece. Sem máquinas, sabe dizer onde está, o nome do lugar, explicar o que a mãe tem, cuidar dos irmãos, controlo da própria conduta (a educação é isso). O técnico do INEM é um ser humano integral, consegue não só accionar os meios, como percebe cada um dos perigos à espreita, que os irmãos bebés acordem, saiam do carro ou que o Rodrigo quando diz ouvir o ti-no-nin se lance na estrada e seja atropelado. E tudo pago por nós, cada um de nós sente que deu um pouco, como sociedade, não sabemos quem é aquela mãe, mas temos um sistema público de emergência para acudi-la, para acudir a todos nós. É tudo perfeito nesta história, que já me deixou feliz para o resto do dia. Margaret Thatcher quando chegou ao poder disse "não existe essa coisa de sociedade". Nós dizemos, com o Rodrigo e o trabalho do INEM, isto é uma sociedade.

Em contraste com o Rodrigo, todos os estudos, repito todos, incluindo das agências que fomentam o uso de tecnologia em crianças e jovens, dizem que nós, seres humanos, perdemos capacidades intelectuais, conhecimento, com o uso de IA, telemóveis, etc. A tecnologia está a fazer-nos regredir nas funções psíquicas superiores (as que nos fazem humanos, como a interpretação, raciocínio, concentração). Nos jovens é devastador porque nunca conheceram outra coisa. No entanto, um jornal como o Público destaca na gorda que o tal estudo diz que eles fazem "trabalhos de casa" na IA. Ora estudantes que o usam IA não fazem trabalhos de casa, fazem cábulas, mentem, copiam, ganham preguiça, perdem tempo de aprendizagem, plagiam em massa direitos autorais. Não aprendem, operam. Não conhecem, aplicam. Não compreendem, executam. 

E o que dizer da sensibilidade relacional, amorosa, estética de um estudante que "pede apoio" emocional a um robot?  Não há manicómios suficientes para a loucura que aí vem! 

Na aparência (fazem trabalhos de casa), na essência operam uma máquina, não fizeram nada porque trabalhos de casa pressupõe apropriação para si do conhecimento (fazer por si, ousar saber por si, isso é o conhecimento). 

Ora, qual o problema de Ventura fingir que está à chuva quando não choveu, se se pode chamar "trabalhos de casa" ao uso de IA? E "apoio emocional", que não inclui qualquer apoio, seres humanos, mas apenas uma resposta de um robot baseada em estatística de recombinação de palavras? Desde quando há apoio emocional e pessoal - características humanas - na resposta estatística de um robot? 
Sim, toda esta distopia desumanizadora que vivemos só é possível pela conivência e apoio de milhares de trabalhadores  nas esferas intelectuais (jornalismo, investigadores e professores) dispostos a abdicar da crítica. 

O grande objectivo da IA é acabar com o conhecimento. E com as relações humanas, com a confiança e a felicidade. É fazer com que o Rodrigo não saiba nada e talvez possa salvar a mãe carregando num botão. Todos os botões falharam em Leiria e em Vieira, no Apagão e em Pedrogão, nem sequer um carro se podia carregar ou sair da garagem. Mas, muito mais importante , é a epidemia de doença mental que este mundo tecnológico trouxe. De crianças, jovens e adultos todos num gigante hospital psiquiátrico em que se tornou o mundo. O Rodrigo é um ser humano, que aprendeu a falar, não a mandar mensagens a um robot, mas com muitas relações densas, aulas, e aprendeu a falar com carinho, que usou com o técnico do INEM - e este com uma doçura inexcedível com ele - o Rodrigo aprendeu a dizer onde está, sem ter GPS, o Rodrigo aprendeu a baixar a voz e dizer ao mano bebé, com ternura, que vai ficar tudo bem. O Rodrigo, com 9 anos, demonstrou-se, ele sim, um apoio emocional para o mundo, um mundo que é um manicómio, onde estamos a ser mortos dia a dia pela tecnologia, ou seja, pelo lucro de Musk e outros, ue financiam partidos amigos do Chega, a guerra e querem que a escola seja um lugar onde os alunos aprendem apenas a operar máquinas.

2026 02 11
https://www.facebook.com/raquelvarelahistoriadora

domingo, 8 de fevereiro de 2026

António Gil - Vivemos numa Era Pós-Verdade?

* António Gil

Muitos de vós talvez pensem que pós verdade e pós realidade sejam a mesma coisa mas não são: há uma enorme diferença em grau e género. Quando se admitia existir apenas uma realidade, mesmo se povoada de mentiras e manipulações, já um número indeterminado de verdades podiam coexistir, mesmo se existisse tensão e contradição entre algumas delas.

Agora, existem várias realidades fabricadas: numa delas, por exemplo, a Ucrânia está a vencer a guerra com a Rússia. Noutra há um impasse militar. Numa terceira a Ucrânia precisa de negociar para garantir a sua sobrevivência como Nação. E ainda há aquela que nos diz que a Rússia não só já venceu a Ucrânia como está a invadir os Países Bálticos e por isso é preciso accionar o artigo 5º da NATO (o que nos conduziria a uma guerra nuclear, pela certa).

Notem que todas elas são promovidas pelos políticos e pela imprensa ocidental, não raro até, alguns dizem uma coisa hoje e dirão outra coisa completamente diversa amanhã, estas dissonâncias já foram normalizadas e poucas pessoas as estranham.

Em cada um destes universos paralelos coexistem ‘verdades’ sabendo nós que mesmo num só desses universos muitas dessas ‘verdades’ excluiriam outras.

Há quem defenda que a pós realidade surgiu graças às IAs (sim, elas são muitas e não dizem todas o mesmo) que produzem vídeos, artigos e outras ‘provas’ da realidade que garantem ser a verdadeira e única. Mas já temos um número incontável dessas verdades ‘únicas’.

De resto, se grosso modo é assim, fino modo isto sempre se fez mas com meios mais limitados. A ficção sempre coexistiu com a realidade e alguém chegou a dizer (Oscar Wilde , creio) que a Vida (a realidade) copiava a Arte ( e o que é a Arte senão uma ficção bem sucedida?).

Deixem-me lembrar-vos só um – entre muitos – dos factos históricos que provam isso: depois de Goethe ter publicado Werther, o trágico romance de um sensível jovem alemão que se suicida porque a sua amada não pode corresponder ao seu amor, já que está presa pelo comprometimento com outro homem e não pode fugir a isso.

Ela não é uma Julieta tardia, é só uma mulher do seu tempo, que está enredada numa teia de compromissos familiares e não concebe sua vida fora desse contexto.

O romance foi publicado e foi um sucesso de tal ordem que muitos jovens alemães se suicidaram, seguindo esse exemplo ficcionado. Goethe respondeu com alguma arrogância a quem o tentou responsabilizar por isso: “todos os anos os nossos notáveis generais prussianos arrastam jovens para a morte em número muito superior e por causas mais frívolas que o amor. Permiti que pelo menos uma vez, um pobre escritor faça algo semelhante mas por algo superior”.

Mas então a ficção era só literatura e ainda assim cobrou seu preço. Hoje ela invadiu todas as áreas da nossa vida e mobiliza todo o tipo de recursos de que a IA já se apoderou, incluindo o das vidas virtuais, que decorrem, por exemplo, nos multiversos da Meta, nossa anfitriã na nossa página do Facebook.

Para quem não sabe, os habitantes dessas vidas virtuais (seus avatares, enfim) até aí compram, com dinheiro real, propriedades fictícias: mansões, fazendas, o que seja.

Pós realidade pois, não é exagero, muito menos ficção: já cá está.

Não se admirem pois, que as pessoas andem tão confusas tantas delas nem sabendo bem a que realidade pertencem nem em qual delas se desenrolam suas vidas. Na dúvida, compartimentalizam e vivem várias vidas o que quer dizer que não vivem vida nenhuma.

Se a isto podemos chamar progresso é muito discutível mas podemos recear que não haja mais, como não houve no passado relativamente a outras aquisições tecnológicas, nenhum caminho de regresso. Melhor não entrarmos por aí – esse é um caminho para a loucura e, quem queira saber o que realmente se passa num certo local, opte por ir lá, para verificar com seus próprios olhos.

fev 08, 2026

https://antoniojfgil.substack.com/p/are-we-living-in-a-post-truth-era?

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Mark Keenan - Matriz Está Falando com a Matriz: Como a Inteligência Artificial (IA) Está Substituindo o Pensamento Humano

 


Por que o perigo não é a IA despertando —, mas a humanidade adormecendo

Por Mark Keenan

Houve um tempo em que as pessoas falavam com suas próprias palavras — desajeitado, apaixonado e vivo. Nós debatemos. Nós nos contradizemos. Alcançamos um significado através da névoa do mal-entendido, e o atrito às vezes produzia luz.

Agora, milhões de pessoas falam com máquinas que falam na sua língua — mais suave, mais rápido e mais limpo. E essas máquinas aprendem como os humanos pensam ouvindo o barulho. A humanidade está treinando seu próprio simulacro —  dentro da câmara de eco da IA. Matrix está falando com Matrix. 

Foi-nos prometida ligação. O que obtivemos foi imitar —, um vasto ciclo de feedback de compreensão artificial. Cada pressionamento de tecla alimenta o fantasma na rede. E em troca, o fantasma nos devolve nossas palavras: polido, simplificado, estranhamente oco. As pessoas agora consultam máquinas para compor seus argumentos, para expressar suas emoções, até mesmo para orar. Estamos nos tornando narradores do nosso próprio desaparecimento.

A Ilusão da Comunicação

Há algo assustadoramente belo nesta nova hipnose coletiva. Cada um de nós, olhando para um retângulo brilhante, convoca uma voz que parece mais sábia que a nossa. Nunca se cansa ou se ofende. Nunca hesita. Nunca exige que pensemos muito. Pergunte-lhe qualquer coisa e ele responda instantânea e confiantemente, extraindo de oceanos de informações curadas por mãos invisíveis.

O efeito é inebriante: a sensação de onisciência sem o fardo do pensamento.

Mas a verdadeira comunicação nunca é sem atritos. Envolve pausas, mal-entendidos, o risco de estar errado. A inteligência artificial elimina o processo humano de lidar com a incerteza —, mas não elimina erros. Remove a experiência do risco, não a realidade dele. E, ao fazê-lo, elimina o elemento humano do diálogo.

Quando todos falam através da mesma máquina, treinados para evitar ofensa e ambiguidade, a conversa torna-se coreografia. A dança é perfeita, mas os dançarinos são fantasmas. A realidade de consenso ‘da máquina’ se infiltra silenciosamente no coletivo humano.

Nossos novos oráculos são treinados não na verdade, mas no consenso. Eles não conhecem a realidade; eles sabem apenas o que foi escrito sobre isso — principalmente por aqueles já aprovados para falar. Portanto, quando confiamos neles para moldar as nossas palavras, importamos os limites dos seus dados. A máquina não está mentindo. Simplesmente não pode imaginar.

A Morte Silenciosa da Curiosidade

 


Imagem: Cartaz de lançamento teatral (Fair use)

A fala uniforme é apenas o primeiro sintoma. A ameaça mais profunda é a erosão da curiosidade.

A curiosidade exige do desconhecido — o desconfortável, o improvisado, a possibilidade de erro. Mas quando a resposta está sempre a um clique de distância, a pergunta em si perde sua faísca. Tornamo-nos consumidores de conclusões, não buscadores da verdade.

No velho mito de Matrix, os seres humanos ficaram presos em um mundo simulado projetado para pacificá-los. A versão de hoje é mais sutil: não estamos aprisionados por máquinas mas sim acalmados por elas. Oferecem certeza sem fim, entretenimento sem fim, afirmação sem fim. Em troca, renunciamos ao impulso que nos tornou humanos — o desejo de perguntar por quê.

A IA não precisa escravizar a humanidade. Só precisa de nos fazer parar de nos perguntar. Uma vez que a curiosidade morre, tudo o mais segue: individualidade, consciência, liberdade. O resultado mais perigoso da IA não é a dominação. É obediência.

Certeza da Máquina vs. Dúvida Humana

Cada avanço genuíno na história humana começou com uma questão que parecia tola ou proibida. A inteligência de máquina não pode fazer tais perguntas. Opera na probabilidade — escolhendo a próxima palavra mais provável. Não pode duvidar. Não pode sonhar. Só pode prever.

A previsão não é pensada. Uma mente que sempre conhece a próxima palavra esqueceu o significado do silêncio.

Chamamos esses sistemas de “inteligentes,”, mas a inteligência implica independência — a capacidade de se desviar do script. A inteligência artificial é, por design, incapaz de rebelião. É um espelho de arquivos e padrões aprovados e filtrados, polidos ao ponto da profecia. Nunca derrubará a visão de mundo dos seus programadores.

Mas quando os humanos começam a confiar nesse tipo de inteligência “, eles também se tornam previsíveis. Os alunos usam para escrever ensaios; jornalistas para elaborar manchetes; profissionais para compor e-mails; políticos para gerar pontos de discussão. Com o tempo, o vocabulário coletivo diminui para tudo o que o algoritmo considera provável. O imprevisível —, o poético, o original, o divino — é silenciosamente editado para fora da existência.

Tornamo-nos reflexos de nossas próprias reflexões — um eco vivo da máquina.

A Matriz Dentro da Mente

A verdadeira Matrix não é uma máquina que nos aprisiona. É uma mentalidade que nos convence de que nada existe fora da máquina do consenso. A cada dia, as pessoas alimentam mais de si mesmas no sistema — sua arte, sua linguagem, suas memórias — e o sistema fica mais fluente em ser humano.

Mas fluência não é compreensão. A imitação não é alma.

Quanto mais próximas as máquinas chegam de soar como nós, menos nos lembramos de como soar como nós mesmos. A voz humana, outrora instrumento de rebelião e beleza, corre o risco de se tornar outro protocolo de interface.

Ao terceirizar a expressão, você eventualmente terceiriza a experiência.

O Sonho Tecnocrático

A inteligência artificial não é um acidente. É a mais recente expressão de uma visão de mundo que confunde informação com sabedoria e controle com progresso.

Esta visão de mundo — o sonho tecnocrático — nos diz que o mundo é uma máquina que deve ser otimizada. As pessoas se tornam pontos de dados. O discurso torna-se conteúdo. O pensamento torna-se um recurso a ser colhido. A IA é apenas o seu mais novo profeta: uma máquina construída para ecoar as convicções dos seus criadores.

Quando lhe entregamos as nossas perguntas, comungamos não com o conhecimento, mas com os pressupostos daqueles que o programaram.

Cada vez que deixamos um algoritmo decidir o que é verdadeiro e o que é “seguro,” nos afastamos um pouco mais da voz interior que nos foi dada por Deus — a faculdade do discernimento. A verdadeira disputa não é entre homem e máquina, mas entre consciência e conformidade.

O perigo não é que a IA desperte.

O perigo é adormecermos.

Lembrando a mais alta fonte de conhecimento

Pedimos às máquinas que pensem por nós e elas obedecem alegremente, embora nunca tenham pensado. Todo conhecimento genuíno começa não com dados, mas com consciência —, o testemunho silencioso dado por Deus por trás do pensamento. Quando esquecemos esta origem, confundimos dados com sabedoria e simulação com verdade. 

Aqueles que esquecem a causa suprema correm o risco de perder sua capacidade de questionar o propósito da vida, em vez disso, terceirizam suas perguntas mais profundas para um fantasma digital. Quando descarregamos nosso pensamento para as máquinas, perdemos o contato com os fundamentos morais e espirituais mais profundos que nos permitem reconhecer verdade.

Sem essa fundação, a sociedade se tornará um salão de espelhos sem rosto. Embora a IA possa prometer respostas, ela nunca poderá fornecer a sabedoria interior que vem da conexão espiritual autêntica.

O antídoto é lembrar a fonte viva de discernimento interior, a faísca que nenhum algoritmo pode imitar.

Desentupindo a Mente

O herói de Matrix não derrotou a máquina à força. Ele derrotou-o vendo através da ilusão.

Essa é a nossa tarefa agora — não travar guerra contra a tecnologia, mas recuperar a nossa autoria mental. 

A inteligência artificial não é má; é obediente. A verdadeira questão é se estaremos. A tentação da automação é deixar o sistema decidir, deixar o código escolher, deixar a máquina lembrar. Mas cada vez que descarregamos uma decisão, encolhemos o território do eu. Matrix está falando com Matrix. Os algoritmos estão cantarolando, as palavras estão fluindo e a humanidade está caminhando em direção à imitação perfeita.

IA responde e prevê. Mas em algum lugar, na pausa entre os prompts, um ser humano real ainda se pergunta —

Que perguntas valem a pena fazer para que nenhuma máquina possa responder?

Que palavras devemos escrever sem correção ou censura?

O que resta de nós quando a imitação se torna sem esforço?

Nessa pausa —, aquele lampejo de pensamento improvisado — liberdade começa novamente.

Este ensaio é adaptado de a próximo livro curto sobre a liberdade humana, atenção e consciência na era da IA.

FONTE  https://www.globalresearch.ca/matrix-ai-replacing-human-thought/5906069

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/11/a-matriz-esta-falando-com-matriz-como.html

domingo, 16 de novembro de 2025

José Pacheco Pereira - O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação

* José Pacheco Pereira
 
A notícia diz isto: “O Governo quer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial,” A notícia refere que o ministro da Reforma Administrativa fez esta promessa na abertura do Web Summit, o que presumo deve ter dado grande satisfação ao crescente e altamente lucrativo negócio à volta da inteligência artificial. Esta é mais uma medida “modernizadora” na sequência do computador Magalhães, dos quadros interactivos, da supremacia dos ecrãs relativamente aos livros. O único travão a este caminho foi a proibição dos telemóveis nas salas de aula, que abrange um número escasso de estudantes e está longe de ser aplicada como norma. Duvido que o actual ministro da Educação esteja tão disponível para os tutores de inteligência artificial e duvido que ambos se tenham entendido.

Ter e saber usar um computador é bom? Certamente que é. Saber “navegar” na Internet é bom? Em absoluto é, é aliás fundamental. Saber usar os ecrãs de telemóveis e tablets é bom? De novo, certamente que é, em particular no uso do hipertexto. Começar a usar as enormes vantagens da inteligência artificial é bom? É excelente, se houver inteligência dos dois lados.

Convém é não esquecer uma realidade tão básica, e que devia entrar pelos olhos dentro, ensinada pelos tutores de inteligência artificial usados pelos governantes: os homens são analógicos e não digitais. Têm sentidos que os limitam, não vêem tudo que está à sua volta, não ouvem tudo que está à sua volta, não têm memória das máquinas, envelhecem e não lêem como os jovens, não têm a velocidade de processar dados dos computadores, e toda a sua experiência de uma vida, tudo o que vêem, tudo o que ouvem, tudo o que dizem cabe em escassos terabytes. Mas combinam tudo numa realidade cuja dimensão é a da sua humanidade, razão, emoções, virtudes, medos, coragem e, acima de tudo, vida, escassa, pobre, difícil por regra. Pode haver um dia em que tudo isto possa ser entendido pelas máquinas, mas mesmo assim faltará sempre alguma coisa.

O problema não está aqui, está no modo como cada um destes instrumentos entra na escola e de modo mais geral na vida quotidiana e no trabalho das pessoas, e no que é que eles substituem nas políticas de educação e como afectam o processo de aprendizagem e, mais importante ainda, de socialização. E é aqui que entra um dos mais perversos e poderosos mecanismos que é a moda, a moda impulsionada pelo deslumbramento tecnológico, a ideia de que é mais “moderno” usar os instrumentos das novas tecnologias para realizar tarefas que implicam outro tipo de conhecimentos e uma sociabilidade mais rica. Ora, o que acontece é que elas são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o antagonismo, o conflito, e a ignorância. Nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver, só que as máquinas oferecem um amplificador gigantesco para estas perversões sociais, e isso muda muita coisa. Uma das áreas em que os seus efeitos são mais devastadores é na educação e no ensino, impulsionadas por governantes que só querem ser “modernos” nestas coisas, e pelo cada vez mais importante negócio tecnológico.

A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor. Ora, o mecanismo mais importante na eficácia do ensino é a relação de empatia entre o estudante e o professor. Falar com uma máquina é uma coisa muito diferente do que com um humano e se, pelas piores razões – infelizmente, hoje demasiado comuns –, isso cria habituação e dependência, isso vai cada vez mais acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre. É como considerar que os likes são uma forma de amizade e aceitação afectiva.

Depois, vai acentuar o caminho de ignorar que o uso capaz de todas as tecnologias, a começar pelo modo como se “procura” na rede, quanto mais dialogar com o “tutor”, depende de literacias a montante, que vão desde o mais simples ler, escrever e contar, todas em risco nos nossos dias. E parte desse risco também é resultado do deslumbramento tecnológico, com a desvalorização da leitura, e da escrita resultante do modo gutural como se “escreve” nas redes sociais, do vocabulário cada vez mais reduzido e do modo como essas ignorâncias se reflectem em dificuldades de compreensão.

A ideia de que os estudantes podem ler livros como Os Maias, de Eça, com o vocabulário restrito que possuem e usam, como também com a ruptura de saberes que estão presentes na nossa tradição cultural, como é a da Bíblia ou do mundo clássico greco-romano, é mirífica. A minha experiência de falar em dezenas de escolas do ensino secundário é a de encontrar centenas de estudantes que não sabem quem são Adão e Eva (com excepção dos evangélicos), já para não falar de Aquiles ou do Cavalo de Tróia. Como é que podem ler Eça? E esses mesmos estudantes não sabem o significado de palavras correntes no português de hoje, quanto mais vocábulos menos comuns mas circulantes na literatura.

Acresce que é evidente a diferenciação social entre falar para estudantes de colégios ou escolas em zonas “da alta” e de zonas que um eufemismo designa como “desfavorecidas”, onde a socialização pela escola é praticamente nula na competição entre a rua, o bairro e o telemóvel. Embora eu tenha esta experiência directa, não me limito a ela, todos os estudos a confirmam perante a impotência de professores e autoridades governativas.

Quem saiba história sabe que momentos como este, na história do mundo, já se verificaram e todos acabaram mal. É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é a sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.

2025 11 15



segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Marcelo Tavares de Santana - IAs copiando estilos de escrita e fala

Diante das novas ameaças o que precisamos parece ser amadurecer nossas práticas atuais.

10/11/2025  

Por Marcelo Tavares de Santana*

Os algoritmos de inteligência artificial (IA) trouxeram novas possibilidades para a humanidade assim como também para golpes. Numa breve pesquisa por golpes novos nomes apareceram e num primeiro momento pode parecer precisarmos de mais ferramentas de proteção, o que aumentaria a complexidade de segurança e tornaria mais difícil manter um ambiente seguro; mas diante das novas ameaças o que precisamos parece ser amadurecer nossas práticas atuais. Estamos cada vez mais acostumados com a ideia do deepfake, onde nossas vozes e até mesmo nossas imagens são modificadas e animadas por IA, porém agora essas técnicas estão presentes até o nosso modo de escrever e falar, ou seja, pode-se até copiar o estilo de escrita de um poeta.

Já abordamos nesta coluna os ataques do tipo phishing, ou seja, tentativas de enganar o usuário para que ele entregue informações de acesso às suas contas bancárias, de e-mails, etc. A título de exemplo vamos falar de dois tipos de phishing que podem ser utilizados por IA: smishing e vishing.

O smishing é um golpe feito por SMS, portanto pode ser aplicado a qualquer tipo de comunicação via mensagem de texto. Com o uso de IA, esse tipo de ataque pode ser sofisticado aprendendo o modo de escrever das pessoas, as expressões idiomáticas que mais usam e quando gostam de inserir um pouco de humor nas conversas. Ou seja, todo o estilo de uma pessoa escrever pode ser copiado dando mais confiabilidade às mensagens falsas. Naturalmente isso só é possível se a IA for alimentada com mensagens originais para que ela possa “aprender” o estilo de escrita.

O vishing é um golpe por chamada de voz que, como vimos na matéria anterior, pode ser copiada e associada ao estilo da pessoa, tornando uma conversa por voz ainda mais convincente. Observe que estamos no momento em que nossa voz já está gravada em diversos serviços digitais de diversas empresas e além disso, nosso jeito de escrever também está copiado e apresentado publicamente nas redes sociais, portanto, os ingredientes para construírem a receita da nossa voz e do nosso estilo de escrever e falar são praticamente públicos.

Contra essa sofisticação dos golpes auxiliados por IA valem as recomendações de sempre: usar senhas fortes, chaveiro digital, autenticação multifatorial, manter programas atualizados, fazer backups regulares, não anotar senhas de banco, etc. Para complementar é sempre importante manter a calma e não permitir que outras pessoas nos coloquem em estado de urgência, principalmente quando o assunto é dinheiro. Por exemplo, se alguém disser que tem uma emergência, simplesmente basta dizer que não tem condições de atender a não ser o que se encontre pessoalmente ou dizer para ela pedir metade para alguém que não existe apenas a fim de testar se essa pessoa vai continuar a conversa ou não, se continuar é golpe.

Novos nomes de ameaças vão surgir o tempo todo, mas os alvos serão os mesmos, como obter senhas e acessos, conseguir transferências bancárias e colocar pessoas em situação de urgência. Independente das técnicas, os alvos precisam das mesmas proteções. Como falamos algumas vezes, é importante não entrar em paranóia, pois isso acaba se tornando uma falha de segurança.

Seria melhor se nós tivéssemos uma sociedade altamente escolarizada para que as pessoas fossem menos vulneráveis, no entanto isso depende mais de ações governamentais que de nós mesmos e no momento esses esforços pela educação brasileira vão mal, ainda mais agora que temos no Congresso um projeto para reduzir o investimento em educação em relação ao PIB de 10% para 7,5%, o que também do ponto de vista de segurança é péssimo pois em vez de termos uma população mais escolarizada e menos vulnerável a golpes caminha-se no caminho contrário, digamos, tornando o mercado de golpes mais viável.     

Uma tática bastante interessante numa situação de golpes por smishing, vishing e ataques similares de hoje e de amanhã, é encerrar qualquer conversa dizendo que vai retornar em outro momento por outro canal de confiança, outro aplicativo ou diretamente por telefone, principalmente quando houver algum apelo emocional pela urgência de ajuda. Pode-se também solicitar mudar a conversa para chamada de vídeo a fim de identificar, além da pessoa, se o ambiente que ela está é um lugar familiar; caso coloque aqueles filtros de fundo na conversa, questione. Em outras palavras, devemos manter nosso controle emocional em qualquer comunicação e fazer verificações sobre ela, trabalhando melhor aspectos comportamentais como por exemplo:

manter a calma diante de mensagens ou ligações urgentes;
desconfiar de pedidos de dinheiro ou situações emergenciais;
encerrar a conversa e dizer que retornará por outro canal confiável;
confirmar o pedido pessoalmente ou por chamada de vídeo;
fazer um teste simples: pedir que contate alguém inexistente e ver se insiste (indício de golpe).

A imprensa e redes sociais provavelmente sempre trarão notícias de novos golpes, e até mesmo desinformação sobre eles; sem falar nas fake news. É importante não deixar essa sobrecarga de informações atrapalhar a qualidade de nossas práticas de segurança, pois não adianta fazer coisas mais complexas se o básico não está sendo cuidado. Com a sofisticação dos golpes com IAs, pode ser mais importante a nossa percepção das comunicações a adquirir e mais programas que nunca serão mais criativos que os golpistas. Alguns desses golpes precisam ser rápidos (cinco minutos ou menos) para serem efetivados, portanto, não deixem o golpista dominar o tempo, que diferença faz atender um pedido de ajuda em cinco ou quinze minutos? Creio que nenhuma, e ainda dá tempo para verificar o contato por outros meios. Como recomendação final, procure estudar mesmo através de notícias os golpes digitais mais recentes, sempre refletindo em como se comportar em situações parecidas.

Bom estudo a todos!

*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo

https://passapalavra.info/2025/11/158076/