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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Stalin e o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro



Iosif Stalin, entrevista sobre o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro. 14 de março de 1946.

Nesta entrevista encenada para um jornal, Stalin respondeu ao discurso de Winston Churchill em Fulton, "Os Nervos da Paz", com a advertência de que uma "cortina de ferro" havia descido sobre a Europa. Ocorrendo logo após o discurso de Stalin sobre a eleição de 9 de fevereiro e pouco antes do "Longo Telegrama" de George F. Kennan, a troca de mensagens ajudou a definir o vocabulário inicial da Guerra Fria. Stalin retratou Churchill como um belicista que promovia um bloco anglófono, defendeu a predominância soviética na Europa Oriental como uma necessidade de segurança baseada no sacrifício em tempos de guerra e insistiu que a política soviética era pacífica, enquanto a "resistência" ocidental era provocativa.

Fonte original: Pravda, 14 de março de 1946.

P: Qual a sua avaliação do recente discurso do Sr. Churchill nos Estados Unidos da América?

A. Considero isso um ato perigoso, calculado para semear a discórdia entre os estados aliados e dificultar sua colaboração.

P: Pode-se considerar que o discurso do Sr. Churchill causou prejuízo à causa da paz e da segurança?

A. Certamente. A essência da questão é que o Sr. Churchill agora assume a posição de um belicista. E o Sr. Churchill não está sozinho nisso; ele tem amigos não só na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos da América.

É importante notar que Churchill e seus aliados lembram muito, nesse aspecto, Hitler e seus aliados. Hitler iniciou a tarefa de desencadear a guerra proclamando a teoria racial, declarando que apenas os povos que falavam alemão constituíam uma nação plena. Churchill também iniciou a tarefa de desencadear a guerra com uma teoria racial, afirmando que apenas as nações que falam inglês são nações plenas, destinadas a governar os destinos do mundo inteiro. A teoria racial alemã levou Hitler e seus aliados ao ponto de que os alemães, como a única nação plena, deveriam dominar as demais nações. A teoria racial inglesa leva Churchill e seus aliados à conclusão de que as nações de língua inglesa, como as únicas nações plenas, deveriam dominar o resto das nações do mundo.

Em essência, o Sr. Churchill e seus amigos na Inglaterra e nos EUA apresentaram às nações não anglófonas algo como um ultimato: reconheçam voluntariamente nossa dominância e então tudo estará em ordem; caso contrário, a guerra é inevitável.

Mas as nações derramaram seu sangue ao longo de cinco anos de guerra cruel pela liberdade e independência de seus países, e não para trocar o domínio de Hitler pelo domínio de Churchill. É totalmente provável, portanto, que as nações não anglófonas, que incluem a grande maioria da população mundial, não concordem em aceitar uma nova escravidão.

A tragédia do Sr. Churchill é que ele, como um conservador inveterado, não entende essa verdade simples e óbvia.

Não há dúvida de que a postura do Sr. Churchill é uma postura de guerra, um apelo à guerra com a URSS...

P: Como o senhor avalia a parte do discurso do Sr. Churchill em que ele ataca a ordem democrática nos estados europeus que são nossos vizinhos e em que critica as relações de boa vizinhança que foram estabelecidas entre essas nações e a União Soviética?

A. Esta parte do discurso do Sr. Churchill é uma mistura de elementos de difamação, grosseria e falta de tato.

O Sr. Churchill declara que "Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste, Sófia – todas essas cidades famosas e as populações da região circundante estão na esfera soviética e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não só à influência soviética, mas também, em grande medida, ao crescente controle de Moscou". O Sr. Churchill caracteriza tudo isso como as ilimitadas "tendências expansionistas" da União Soviética.

Não é preciso muito esforço para demonstrar que aqui o Sr. Churchill difama de forma grosseira e impudente tanto Moscou quanto os estados vizinhos da URSS mencionados anteriormente.

Em primeiro lugar, é completamente absurdo falar de controle exclusivo da URSS em Viena e Berlim, onde existem Conselhos de Controle Aliados compostos por representantes de quatro estados e onde a URSS detém apenas um quarto dos votos...

Em segundo lugar, não se deve esquecer as seguintes circunstâncias. Os alemães lançaram a invasão da URSS através da Finlândia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria. Os alemães conseguiram lançar a invasão por esses países porque neles existiam governos, na época, hostis à URSS. Como resultado da invasão alemã, a União Soviética perdeu cerca de sete milhões de pessoas para sempre em combate contra os alemães e, também devido à ocupação alemã, no exílio forçado de cidadãos soviéticos para trabalhos forçados na Alemanha. Escusado será dizer que a União Soviética perdeu várias vezes mais pessoas do que a Inglaterra e os Estados Unidos da América juntos. Possivelmente, existe uma inclinação em alguns lugares para relegar ao esquecimento esses sacrifícios colossais do povo soviético, que garantiram a libertação da Europa do jugo de Hitler. Mas a União Soviética não pode esquecê-los. Pode-se perguntar o que há de surpreendente no fato de a União Soviética querer segurança no futuro, em suas tentativas de garantir que nesses países existam governos que mantenham relações leais com a União Soviética? Será possível, sem perder o juízo, caracterizar esses esforços pacíficos da União Soviética como tendências expansionistas do nosso Estado?

O Sr. Churchill declara ainda que "os partidos comunistas, que eram insignificantes em todos esses estados do Leste Europeu, ganharam poder exclusivo..."

Como se sabe, a Inglaterra é agora governada por um governo de partido único, o Partido Trabalhista, que impede os demais partidos de participarem do governo inglês. Churchill chama isso de democratismo autêntico. Polônia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária e Hungria são governadas por um bloco de vários partidos — de quatro a seis — que garante à oposição, se mais ou menos leal, o direito de participar do governo. Churchill chama isso de totalitarismo, tirania, estado policial...

O Sr. Churchill quer que a Polônia seja governada por Sosnkowski e Anders, a Iugoslávia por Mikhailovich e Pavelich, a Romênia pelo Príncipe Stirbey e Radescu (todos não comunistas; Pavelich era um nazista croata), a Hungria e a Áustria por algum rei da Casa de Habsburgo, e assim por diante. O Sr. Churchill quer nos assegurar que esses senhores dos esconderijos fascistas podem garantir o "democratismo pleno". Esse é o "democratismo" do Sr. Churchill.

O Sr. Churchill se aproxima da verdade quando fala do crescimento da influência dos Partidos Comunistas na Europa Oriental. Deve-se notar, porém, que ele não é totalmente preciso. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo não apenas na Europa Oriental, mas em quase todos os países europeus onde o fascismo já predominou (Itália, Alemanha, Hungria, Bulgária, Romênia, Finlândia) ou onde houve ocupação alemã ou italiana (França, Bélgica, Holanda, Noruega, Dinamarca, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Grécia, União Soviética, etc.).

O crescimento da influência dos Partidos Comunistas não pode ser considerado acidental. É um fenômeno completamente regular. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo porque, nos piores anos da dominação fascista na Europa, os comunistas se mostraram lutadores confiáveis, corajosos e abnegados contra o regime fascista, pela liberdade do povo...

Essas são as leis do desenvolvimento histórico.

É claro que o Sr. Churchill não gosta desse desenrolar dos acontecimentos e, freneticamente, soa o alarme, o chamado às armas... Não sei se o Sr. Churchill e seus amigos conseguirão, após a Segunda Guerra Mundial, organizar uma nova campanha militar contra a "Europa Oriental". Mas, se conseguirem, o que é improvável, visto que milhões de "pessoas comuns" se mantêm vigilantes em defesa da paz, então pode-se afirmar com certeza que serão derrotados, como foram derrotados no passado, há vinte e seis anos.

Fonte: Robert H. McNeal, ed., Lenin. Stalin. Khrushchev. Voices of Bolshevism (Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1963), pp. 120-123.

https://soviethistory.msu.edu/1947/cold-war/cold-war-texts/stalin-on-churchills-iron-curtain-speech/

Churchill - Discurso da 'Guerra fria', em Fulton (1946)

 

Em 5 de março de 1946, a presença de Winston Churchill e do presidente Harry Truman transformou o ginásio de uma faculdade em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano em um palco mundial, quando Churchill proferiu seu discurso mais famoso do pós-Segunda Guerra Mundial: "Os Nervos da Paz".

O fato de Churchill e Truman terem viajado até Fulton, no Missouri, é a história de um reitor universitário com a audácia de pedir o aparentemente impossível; de um ex-aluno do Westminster College com acesso ao Presidente dos Estados Unidos; de um Presidente dos Estados Unidos disposto a aceitar o convite; e de um primeiro-ministro britânico recém-derrotado com a perspicácia de reconhecer uma oportunidade.

É uma história de coincidência e de um momento aproveitado com ousadia — uma combinação que Churchill explorou ao longo de toda a sua vida.

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Fico feliz em vir ao Westminster College esta tarde e me sinto honrado por me concederem um diploma. O nome "Westminster" me é familiar. Parece que já ouvi falar dele antes. De fato, foi em Westminster que recebi grande parte da minha formação em política, dialética, retórica e mais algumas disciplinas. Aliás, ambos estudamos na mesma instituição, ou em instituições semelhantes, ou, pelo menos, em instituições afins.

É também uma honra, talvez quase única, para um visitante particular ser apresentado a uma plateia acadêmica pelo Presidente dos Estados Unidos. Em meio aos seus pesados ​​encargos, deveres e responsabilidades — não solicitados, mas dos quais não se esquiva — o Presidente viajou milhares de quilômetros para dignificar e abrilhantar nosso encontro aqui hoje e para me dar a oportunidade de me dirigir a esta nação irmã, bem como aos meus compatriotas do outro lado do oceano, e talvez também a alguns outros países. O Presidente disse-lhes que é seu desejo, como tenho certeza que é o de vocês, que eu tenha plena liberdade para oferecer meu conselho sincero e leal nestes tempos de ansiedade e incerteza.

Certamente aproveitarei esta liberdade e sinto-me ainda mais no direito de fazê-lo porque quaisquer ambições pessoais que eu possa ter nutrido na minha juventude foram satisfeitas para além dos meus sonhos mais ousados. Deixe-me, no entanto, deixar claro que não tenho qualquer missão ou posição oficial e que falo apenas por mim. Não há nada aqui além do que você vê.

Posso, portanto, permitir que minha mente, com a experiência de uma vida inteira, reflita sobre os problemas que nos afligem no dia seguinte à nossa vitória absoluta nas armas, e tentar garantir, com toda a força que me resta, que o que foi conquistado com tanto sacrifício e sofrimento seja preservado para a glória e segurança futuras da humanidade.

Os Estados Unidos encontram-se, neste momento, no auge do poder mundial. É um momento solene para a democracia americana, pois a primazia no poder vem acompanhada de uma responsabilidade inspiradora para com o futuro. Ao olhar ao redor, é preciso sentir não apenas a sensação de dever cumprido, mas também a ansiedade de não ficar aquém do nível de realização alcançado.

A oportunidade está aqui agora, clara e brilhante para ambos os nossos países. Rejeitá-la, ignorá-la ou desperdiçá-la trará sobre nós todas as longas reprovações do futuro.

É necessário que a constância de espírito, a persistência de propósito e a grande simplicidade de decisão guiem e regulem a conduta dos povos de língua inglesa em tempos de paz, assim como o fizeram em tempos de guerra. Devemos, e acredito que iremos, provar que estamos à altura dessa exigência rigorosa.

Quando militares americanos se deparam com alguma situação grave, costumam escrever no cabeçalho de suas diretrizes as palavras "Conceito Estratégico Geral". Há sabedoria nisso, pois leva à clareza de pensamento. Qual é, então, o conceito estratégico geral que devemos adotar hoje? Nada menos que a segurança e o bem-estar, a liberdade e o progresso de todos os lares e famílias de todos os homens e mulheres em todas as nações.

E aqui me refiro particularmente às inúmeras casas ou apartamentos onde o assalariado se esforça, em meio aos acidentes e dificuldades da vida, para proteger sua esposa e filhos da privação e criar a família no temor do Senhor, ou segundo concepções éticas que muitas vezes desempenham um papel importante.

Para garantir a segurança dessas inúmeras casas, elas devem ser protegidas dos dois saqueadores impiedosos: a guerra e a tirania.

Todos nós conhecemos os terríveis distúrbios em que a família comum mergulha quando a maldição da guerra se abate sobre o provedor e aqueles para quem ele trabalha e sustenta.

A terrível ruína da Europa, com todas as suas glórias desaparecidas, e de grandes partes da Ásia, nos encara de frente. Quando os desígnios de homens perversos ou o ímpeto agressivo de Estados poderosos dissolvem, em vastas áreas, a estrutura da sociedade civilizada, as pessoas humildes se veem diante de dificuldades insuperáveis. Para elas, tudo está distorcido, tudo está destruído, tudo está reduzido a pó.

Ao estar aqui nesta tarde tranquila, estremeço ao imaginar o que está realmente acontecendo com milhões de pessoas agora e o que acontecerá neste período em que a fome assola a Terra. Ninguém consegue calcular o que tem sido chamado de "a soma incalculável da dor humana". Nossa tarefa e dever supremos são proteger os lares do povo comum dos horrores e misérias de outra guerra. Todos concordamos com isso.

Nossos colegas militares americanos, após terem proclamado seu "conceito estratégico geral" e calculado os recursos disponíveis, sempre passam para a próxima etapa — ou seja, "o método". Aqui também há amplo consenso. Uma organização mundial já foi criada com o objetivo primordial de prevenir a guerra. A ONU, sucessora da Liga das Nações, com a adição decisiva dos Estados Unidos e tudo o que isso implica, já está em funcionamento.

Devemos garantir que seu trabalho seja frutífero, que seja uma realidade e não uma farsa, que seja uma força para a ação e não apenas uma enxurrada de palavras, que seja um verdadeiro templo da paz onde os escudos de muitas nações possam um dia ser erguidos, e não apenas uma arena na Torre de Babel.

Antes de descartarmos as sólidas garantias do armamento nacional em nome da autopreservação, devemos ter certeza de que nosso templo não está construído sobre areias movediças ou pântanos, mas sobre a rocha. Qualquer um pode ver, com os olhos bem abertos, que nosso caminho será difícil e longo, mas se perseverarmos juntos como fizemos nas duas guerras mundiais — embora não, infelizmente, no intervalo entre elas — não tenho dúvidas de que alcançaremos nosso objetivo comum no final.

Tenho, no entanto, uma proposta concreta e prática para ação. Tribunais e magistrados podem ser criados, mas não podem funcionar sem xerifes e agentes da lei. A Organização das Nações Unidas deve começar imediatamente a ser equipada com uma força armada internacional.

Em tal assunto, só podemos proceder passo a passo, mas devemos começar agora. Proponho que cada uma das potências e estados seja convidada a dedicar um certo número de esquadrões aéreos ao serviço da Organização Mundial. Esses esquadrões seriam treinados e preparados em seus respectivos países, mas se deslocariam em sistema de rodízio entre eles. Usariam o uniforme de seus países, porém com distintivos diferentes.

Eles não seriam obrigados a agir contra a própria nação, mas, em outros aspectos, seriam orientados pela Organização Mundial. Isso poderia começar em pequena escala e cresceria à medida que a confiança aumentasse. Eu desejava ver isso realizado após a Primeira Guerra Mundial e confio sinceramente que possa ser feito imediatamente.

Seria, contudo, errado e imprudente confiar o conhecimento secreto ou a experiência com a bomba atômica, que os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Canadá agora compartilham, à Organização Mundial enquanto esta ainda está em seus primórdios. Seria uma loucura criminosa lançá-la à deriva neste mundo ainda agitado e desunido. Ninguém em nenhum país dormiu menos tranquilo por esse conhecimento, o método e as matérias-primas para aplicá-lo estarem, atualmente, em grande parte, em mãos americanas.

Não creio que teríamos dormido tão tranquilamente se as posições fossem invertidas e algum Estado comunista ou neofascista monopolizasse, temporariamente, essas agências temíveis. O mero medo delas poderia facilmente ter sido usado para impor sistemas totalitários ao mundo livre e democrático, com consequências assombrosas para a imaginação humana. Deus quis que isso não aconteça, e temos pelo menos um respiro para colocar a casa em ordem antes de enfrentarmos esse perigo, e mesmo assim, se não pouparmos esforços, ainda possuiremos uma superioridade tão formidável que nos permitirá impor dissuasões eficazes contra o seu uso, ou a ameaça de seu uso, por outros.

Em última análise, quando a fraternidade essencial da humanidade estiver verdadeiramente incorporada e expressa em uma organização mundial com todas as salvaguardas práticas necessárias para torná-la eficaz, esses poderes serão naturalmente confiados a essa organização mundial.

Agora, passo ao segundo perigo desses dois invasores que ameaça o lar e o cidadão comum: a tirania. Não podemos ignorar o fato de que as liberdades desfrutadas pelos cidadãos em todo o Império Britânico não são válidas em um número considerável de países, alguns dos quais muito poderosos.

Nesses Estados, o controle é imposto ao povo comum por diversos tipos de governos policiais abrangentes,  a um grau opressivo  e contrário a todos os princípios da democracia . O poder do Estado é exercido sem restrições, seja por ditadores, seja por oligarquias coesas que operam por meio de um partido privilegiado e uma polícia política. Não é nosso dever, neste momento, em que as dificuldades são tão numerosas, interferir à força nos assuntos internos de países que não conquistamos em guerra.

Mas jamais devemos deixar de proclamar, em tom destemido, os grandes princípios da liberdade e dos direitos do homem, que são herança comum do mundo anglófono e que, por meio da Magna Carta, da Declaração de Direitos, do Habeas Corpus, do julgamento por júri e do Direito Comum Inglês, encontram sua expressão mais famosa na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Tudo isso significa que o povo de qualquer país tem o direito e deve ter o poder, por meio de ações constitucionais, através de eleições livres e irrestritas com voto secreto, de escolher ou mudar o caráter ou a forma de governo sob o qual vive; que a liberdade de expressão e de pensamento deve prevalecer; que tribunais de justiça, independentes do executivo, imparciais a qualquer partido, devem administrar leis que receberam a ampla aprovação de grandes maiorias ou que foram consagradas pelo tempo e pelo costume. Eis os títulos de propriedade da liberdade, que deveriam estar presentes em cada lar. Eis a mensagem dos povos britânico e americano para a humanidade. Preguemos o que praticamos, pratiquemos o que pregamos.

Já mencionei os dois grandes perigos que ameaçam os lares do povo: a guerra e a tirania. Ainda não falei da pobreza e da privação, que em muitos casos são a principal preocupação. Mas se os perigos da guerra e da tirania forem eliminados, não há dúvida de que a ciência e a cooperação poderão trazer ao mundo, nos próximos anos, e certamente nas próximas décadas, com o conhecimento adquirido na escola da guerra, uma expansão do bem-estar material que ultrapasse qualquer coisa já vista na experiência humana.

Agora, neste momento triste e sufocante, estamos mergulhados na fome e na angústia que são as consequências de nossa luta colossal; mas isso passará, e poderá passar rapidamente, e não há razão, a não ser a insensatez humana ou o crime desumano, que negue a todas as nações a inauguração e o desfrute de uma era de abundância. Muitas vezes usei palavras que aprendi há cinquenta anos com um grande orador irlandês-americano, um amigo meu, o Sr. Bourke Cockran: "Há o suficiente para todos. A terra é uma mãe generosa; ela proverá em abundância alimento para todos os seus filhos, se eles cultivarem seu solo com justiça e paz."

Até o momento, acredito que estamos em total acordo. Agora, enquanto ainda buscamos o método para concretizar nosso conceito estratégico geral, chego ao ponto crucial que me trouxe até aqui.

Nem a prevenção segura da guerra, nem a ascensão contínua da organização mundial serão alcançadas sem o que chamei de associação fraterna dos povos de língua inglesa. Isso significa uma relação especial entre a Comunidade Britânica e o Império Britânico e os Estados Unidos. Não é hora para generalidades, e ousarei ser preciso.

A associação fraterna exige não apenas o crescimento da amizade e da compreensão mútua entre nossos dois vastos, porém afins, sistemas sociais, mas também a continuidade da estreita relação entre nossos conselheiros militares, levando ao estudo conjunto de potenciais perigos, à similaridade de armamentos e manuais de instruções, e ao intercâmbio de oficiais e cadetes em escolas técnicas. Deveria incluir a manutenção das atuais facilidades de segurança mútua por meio do uso conjunto de todas as bases navais e aéreas de ambos os países ao redor do mundo. Isso talvez dobrasse a mobilidade da Marinha e da Força Aérea americanas.

Isso ampliaria consideravelmente as Forças do Império Britânico e poderia muito bem levar, se e quando a situação mundial se acalmar, a importantes economias financeiras. Já utilizamos em conjunto um grande número de ilhas; outras poderão ser confiadas aos nossos cuidados conjuntos num futuro próximo.

Os Estados Unidos já possuem um Acordo de Defesa Permanente com o Domínio do Canadá, que é tão devotamente ligado à Comunidade Britânica e ao Império. Este Acordo é mais eficaz do que muitos dos que foram frequentemente firmados no âmbito de alianças formais.

Este princípio deve ser estendido a todas as comunidades britânicas, com plena reciprocidade. Assim, aconteça o que acontecer, e somente assim, estaremos seguros e aptos a trabalhar juntos pelas causas nobres e simples que nos são caras e que não representam nenhum mal para ninguém. Eventualmente, poderá surgir — e acredito que surgirá — o princípio da cidadania comum, mas talvez nos contentemos em deixá-lo ao destino, cujo braço estendido muitos de nós já conseguimos vislumbrar claramente.

No entanto, há uma questão importante que devemos nos fazer. Uma relação especial entre os Estados Unidos e a Comunidade Britânica seria incompatível com nossa lealdade primordial à Organização Mundial? Respondo que, pelo contrário, é provavelmente o único meio pelo qual essa organização alcançará sua plena estatura e força.

Já existem as relações especiais dos Estados Unidos com o Canadá, que acabei de mencionar, e existem as relações entre os Estados Unidos e as repúblicas sul-americanas. Nós, britânicos, temos o nosso Tratado de Vinte Anos de Colaboração e Assistência Mútua com a União Soviética.

Concordo com o Sr. Bevin, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, que, no que nos diz respeito, bem poderia ser um Tratado de Cinquenta Anos. Nosso objetivo é apenas a assistência e a colaboração mútuas. Os britânicos têm uma aliança com Portugal ininterrupta desde 1384, que produziu resultados frutíferos em momentos críticos da guerra recente. Nada disso entra em conflito com o interesse geral de um acordo mundial ou de uma organização mundial; pelo contrário, contribui para isso. "Na casa de meu Pai há muitas moradas."

Associações especiais entre membros das Nações Unidas que não têm qualquer propósito agressivo contra outro país, que não abrigam qualquer desígnio incompatível com a Carta das Nações Unidas, longe de serem prejudiciais, são benéficas e, a meu ver, indispensáveis.

Falei anteriormente sobre o Templo da Paz. Trabalhadores de todos os países devem construir esse templo. Se dois desses trabalhadores se conhecem particularmente bem e são velhos amigos, se suas famílias estão interligadas e se eles têm "fé no propósito um do outro, esperança no futuro um do outro e benevolência para com as falhas um do outro" — para citar algumas belas palavras que li aqui outro dia — por que não podem trabalhar juntos na tarefa comum como amigos e parceiros? Por que não podem compartilhar suas ferramentas e, assim, aumentar a capacidade de trabalho um do outro?

Na verdade, eles devem fazê-lo, caso contrário o templo poderá não ser construído, ou, sendo construído, poderá ruir, e todos nós seremos novamente considerados incapazes de aprender e teremos que ir e tentar aprender novamente pela terceira vez em uma escola de guerra, incomparavelmente mais rigorosa do que aquela da qual acabamos de ser libertados.

A Idade das Trevas pode retornar, a Idade da Pedra pode retornar nas asas brilhantes da ciência, e aquilo que agora pode derramar bênçãos materiais imensuráveis ​​sobre a humanidade, pode até mesmo trazer sua destruição total.

Cuidado, eu digo; o tempo pode ser curto. Não deixemos que os acontecimentos se prolonguem até que seja tarde demais.

Se houver uma associação fraterna do tipo que descrevi, com toda a força e segurança adicionais que ambos os nossos países podem obter dela, asseguremo-nos de que esse grande fato seja conhecido pelo mundo e que desempenhe o seu papel na consolidação e estabilização dos alicerces da paz. Esse é o caminho da sabedoria. Prevenir é melhor que remediar.

Uma sombra paira sobre os cenários tão recentemente iluminados pela vitória dos Aliados. Ninguém sabe o que a Rússia Soviética e sua organização internacional comunista pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites, se é que existem, de suas tendências expansionistas e proselitistas. Tenho grande admiração e respeito pelo valente povo russo e pelo meu camarada de guerra, o Marechal Stalin. Há profunda simpatia e boa vontade na Grã-Bretanha — e não duvido que também aqui — para com os povos de todos os russos e uma determinação em perseverar, apesar de muitas diferenças e rejeições, no estabelecimento de amizades duradouras. Compreendemos a necessidade russa de ter segurança em suas fronteiras ocidentais, eliminando toda possibilidade de agressão alemã.

Damos as boas-vindas à Rússia ao seu devido lugar entre as principais nações do mundo. Saudamos o hasteamento de sua bandeira nos mares. Acima de tudo, saudamos os contatos constantes, frequentes e crescentes entre o povo russo e o nosso povo em ambos os lados do Atlântico. É meu dever, porém, pois tenho certeza de que desejariam que eu lhes apresentasse os fatos como os vejo, expor-lhes certos fatos sobre a situação atual na Europa.

De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha encontram-se todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas cidades famosas e as populações ao seu redor estão no que eu chamaria de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas também a um controle muito elevado e, em muitos casos, crescente por parte de Moscou.

Somente Atenas — a Grécia com suas glórias imortais — tem a liberdade de decidir seu futuro em uma eleição sob a supervisão britânica, americana e francesa. O governo polonês, dominado pela Rússia, foi incentivado a fazer incursões enormes e injustas na Alemanha, e expulsões em massa de milhões de alemães, em uma escala terrível e inimaginável, estão ocorrendo agora. Os partidos comunistas, que eram muito pequenos em todos esses Estados do Leste Europeu, ascenderam a uma preeminência e a um poder muito além de sua representatividade e buscam, em todos os lugares, obter o controle totalitário.

Governos policiais prevalecem em quase todos os casos e, até agora, com exceção da Checoslováquia, não há verdadeira democracia. A Turquia e a Pérsia estão profundamente alarmadas e perturbadas com as exigências que lhes são feitas e com a pressão exercida pelo governo de Moscou. Os russos em Berlim estão tentando construir um partido quase comunista em sua zona da Alemanha ocupada, concedendo favores especiais a grupos de líderes alemães de esquerda.

Ao final dos combates em junho passado, os exércitos americano e britânico recuaram para oeste, de acordo com um acordo prévio, até uma profundidade de 150 milhas em alguns pontos, numa frente de quase quatrocentas milhas, a fim de permitir que nossos aliados russos ocupassem essa vasta extensão de território que as democracias ocidentais haviam conquistado.

Se agora o governo soviético tentar, por meio de ações isoladas, construir uma Alemanha pró-comunista em seus territórios, isso causará novas e sérias dificuldades nas zonas britânica e americana, e dará aos alemães derrotados o poder de se colocarem em leilão entre os soviéticos e as democracias ocidentais. Quaisquer que sejam as conclusões que se possam tirar desses fatos — e são fatos —, certamente esta não é a Europa Libertada pela qual lutamos. Nem é uma Europa que contenha os elementos essenciais para uma paz duradoura.

A segurança do mundo exige uma nova unidade na Europa, da qual nenhuma nação seja permanentemente excluída. É das disputas entre as principais potências europeias que surgiram as guerras mundiais que testemunhamos, ou que ocorreram em tempos passados.

Duas vezes em nossa própria geração vimos os Estados Unidos, contra a sua vontade e as suas tradições, contra argumentos cuja força é impossível não compreender, serem arrastados por forças irresistíveis para essas guerras a tempo de garantir a vitória da boa causa, mas somente depois de terem ocorrido terríveis massacres e devastação.

Por duas vezes os Estados Unidos tiveram que enviar milhões de seus jovens através do Atlântico para combater a guerra; mas agora a guerra pode encontrar qualquer nação, onde quer que esteja entre o crepúsculo e o amanhecer. Certamente devemos trabalhar com propósito consciente por uma grande pacificação da Europa, dentro da estrutura das Nações Unidas e de acordo com a nossa Carta. Considero essa uma causa política aberta de suma importância.

Diante da Cortina de Ferro que se estende por toda a Europa, existem outros motivos de preocupação. Na Itália, o Partido Comunista enfrenta sérias dificuldades por ter que apoiar as reivindicações do Marechal Tito, formado no comunismo, sobre o antigo território italiano na cabeceira do Adriático. Contudo, o futuro da Itália permanece incerto.

Mais uma vez, não se pode imaginar uma Europa regenerada sem uma França forte. Toda a minha vida pública trabalhei por uma França forte e nunca perdi a fé em seu destino, nem mesmo nos momentos mais sombrios. Não perderei a fé agora. No entanto, em um grande número de países, longe das fronteiras russas e em todo o mundo, quintas colunas comunistas estão estabelecidas e atuam em completa unidade e absoluta obediência às diretrizes que recebem do centro comunista. Exceto na Comunidade Britânica e nos Estados Unidos, onde o comunismo está em sua infância, os partidos comunistas ou quintas colunas constituem um desafio e um perigo crescentes para a civilização cristã.

São fatos sombrios para qualquer um ter que recitá-los no dia seguinte a uma vitória conquistada por tanta camaradagem em armas e pela causa da liberdade e da democracia; mas seríamos muito insensatos se não os encarássemos de frente enquanto ainda há tempo.

A situação também é preocupante no Extremo Oriente, especialmente na Manchúria. O Acordo de Yalta, do qual participei, foi extremamente favorável à União Soviética, mas foi firmado num momento em que ninguém podia afirmar que a guerra com os alemães não se estenderia por todo o verão e outono de 1945, e quando se previa que a guerra com os japoneses duraria mais 18 meses após o fim da guerra com os alemães. Neste país, vocês são todos tão bem informados sobre o Extremo Oriente e tão dedicados amigos da China, que não preciso me alongar sobre a situação naquela região.

Senti-me na obrigação de retratar a sombra que, tanto no Ocidente quanto no Oriente, paira sobre o mundo. Eu era ministro na época do Tratado de Versalhes e amigo íntimo do Sr. Lloyd-George, que chefiava a delegação britânica em Versalhes. Eu mesmo não concordava com muitas das coisas que foram feitas, mas guardo uma forte impressão daquela situação, e acho doloroso contrastá-la com a que prevalece agora. Naqueles dias, havia grandes esperanças e uma confiança ilimitada de que as guerras haviam terminado e que a Liga das Nações se tornaria onipotente.

Não vejo nem sinto essa mesma confiança, nem mesmo as mesmas esperanças, no mundo devastado que se encontra atualmente.

Por outro lado, repudio a ideia de que uma nova guerra seja inevitável; e muito menos que seja iminente. É porque tenho certeza de que nosso destino ainda está em nossas próprias mãos e que detemos o poder de salvar o futuro, que sinto o dever de me manifestar agora que tenho a ocasião e a oportunidade de fazê-lo. Não acredito que a Rússia Soviética deseje a guerra. O que eles desejam são os frutos da guerra e a expansão indefinida de seu poder e doutrinas.

Mas o que temos de considerar hoje, enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento de condições de liberdade e democracia o mais rapidamente possível em todos os países. Nossas dificuldades e perigos não serão eliminados se fecharmos os olhos para eles. Não serão eliminados simplesmente esperando para ver o que acontece; nem serão eliminados por uma política de apaziguamento. O que é necessário é um acordo, e quanto mais se adiar esse acordo, mais difícil ele será e maiores serão os nossos perigos.

Pelo que observei de nossos amigos e aliados russos durante a guerra, estou convencido de que nada os encanta tanto quanto a força, e nada inspira menos respeito do que a fraqueza, especialmente a fraqueza militar. Por essa razão, a antiga doutrina do equilíbrio de poder é falha. Não podemos nos dar ao luxo, se pudermos evitar, de trabalhar com margens estreitas, cedendo à tentação de uma demonstração de força. Se as democracias ocidentais se mantiverem unidas, em estrita observância aos princípios da Carta das Nações Unidas, sua influência na promoção desses princípios será imensa e ninguém ousará perturbá-las.

Contudo, se eles se dividirem ou vacilarem no cumprimento do seu dever, e se estes anos tão importantes forem deixados escapar, então, de fato, uma catástrofe poderá nos atingir a todos.

Da última vez, eu vi tudo isso se aproximando e clamei aos meus compatriotas e ao mundo, mas ninguém me deu ouvidos. Até o ano de 1933, ou mesmo 1935, a Alemanha poderia ter sido salva do terrível destino que a atingiu e todos nós poderíamos ter sido poupados das misérias que Hitler desencadeou sobre a humanidade.

Nunca houve na história uma guerra mais fácil de prevenir com uma ação oportuna do que aquela que acaba de devastar vastas áreas do globo. Acredito que ela poderia ter sido evitada sem que um único tiro fosse disparado, e a Alemanha poderia ser hoje poderosa, próspera e honrada; mas ninguém quis ouvir e, um a um, fomos todos tragados pelo terrível turbilhão. Certamente não podemos deixar que isso aconteça novamente.

Isso só poderá ser alcançado se, agora, em 1946, chegarmos a um bom entendimento em todos os pontos com a Rússia, sob a autoridade geral da Organização das Nações Unidas, e se esse bom entendimento for mantido ao longo de muitos anos de paz, por meio do instrumento mundial, apoiado por toda a força do mundo anglófono e todas as suas conexões. Eis a solução que respeitosamente lhes apresento neste discurso, ao qual dei o título "Os Nervos da Paz".

Que ninguém subestime o poder duradouro do Império Britânico e da Commonwealth. Porque vocês veem os 46 milhões de habitantes da nossa ilha afligidos com a falta de alimentos, dos quais produzem apenas metade, mesmo em tempos de guerra, ou porque temos dificuldade em reativar nossas indústrias e o comércio de exportação após seis anos de intenso esforço de guerra, não suponham que não superaremos estes anos sombrios de privação, assim como superamos os gloriosos anos de agonia, ou que, daqui a meio século, vocês não verão 70 ou 80 milhões de britânicos espalhados pelo mundo, unidos na defesa de nossas tradições, nosso modo de vida e das causas mundiais que vocês e nós defendemos.

Se a população dos países de língua inglesa for somada à dos Estados Unidos, com tudo o que essa cooperação implica no ar, no mar, em todo o globo, na ciência, na indústria e na força moral, não haverá um equilíbrio de poder instável e precário que ofereça a tentação da ambição ou da aventura. Pelo contrário, haverá uma garantia de segurança inabalável.

Se aderirmos fielmente à Carta das Nações Unidas e avançarmos com força serena e sóbria, sem buscar as terras ou os tesouros de ninguém, sem tentar exercer controle arbitrário sobre os pensamentos dos homens; se todas as forças e convicções morais e materiais britânicas se unirem às suas em fraternidade, os caminhos do futuro estarão claros, não apenas para nós, mas para todos, não apenas para o nosso tempo, mas para o século vindouro.

Winston Churchill

5 de março de 1946

Faculdade Westminster, Fulton, Missouri

https://www.nationalchurchillmuseum.org/sinews-of-peace-iron-curtain-speech.html

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

João Marques de Almeida - Há sempre uma direita pronta para ajudar o PS

* João Marques de Almeida

Este manifesto dos “não-socialistas" é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele.

26 jan. 2026

Entre 2005 e 2011, Sócrates foi primeiro-ministro de dois governos socialistas, um deles com maioria absoluta, o outro não chegou ao fim do mandato. Não me interessa falar da falência de Portugal com Sócrates em São Bento. Também não me interessa falar das acusações de corrupção contra o antigo PM socialista. Interessa-me falar dos atropelos de Sócrates contra a democracia portuguesa.

Nenhum outro PM em Portugal, desde 1976, ameaçou tanto a democracia. Sócrates controlou a justiça, conseguindo ter na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça pessoas da sua confiança e que sempre o ajudaram nos seus casos com a justiça (e mais tarde sentaram-se, sem qualquer vergonha, na primeira fila a assistir ao lançamento do livro de Sócrates). Sócrates usou uma empresa do Estado para tentar comprar um grupo de comunicação social. Sócrates nunca soube lidar com a liberdade de imprensa, ameaçando e procurando condicionar jornais, televisões e rádios. Não faltarão jornalistas para o confirmar. Sócrates (juntamente com Ricardo Salgado) controlou o sistema financeiro português, colocando pessoas da sua confiança a mandar na CGD e no BCP. Nunca nenhum PM foi tão longe na tentativa de criar um “capitalismo de Estado”, em aliança com Salgado.

Ou seja, tivemos dois governos do PS que ameaçaram o estado de direito e a separação de poderes, a liberdade de imprensa, a independência de bancos e que usaram empresas públicas para fins políticos. Onde estavam as pessoas de direita que assinaram agora um manifesto contra André Ventura quando Sócrates se comportou como um tirano? Nessa altura, não tiverem sobressaltos democráticos? Nunca escreveram manifestos? Ficam mais preocupados com as palavras de Ventura do que com as decisões e as ações de Sócrates? No mínimo, é muito estranho considerar que palavras de um líder da oposição são mais graves do que as decisões anti-democráticas de um PM.

Só mais um ponto. António José Seguro nunca se distanciou de Sócrates enquanto ele foi PM. Foi sempre deputado e fez campanha a apoiar Sócrates em 2011. O distanciamento de Sócrates depois de ele ser acusado é muito fácil.

Em 2015, sem mandato dos eleitores (é o que o PS diz hoje contra a lei laboral do governo), António Costa fez uma coligação parlamentar com partidos, o PCP e o Bloco, que apoiaram sempre ditaduras. A última foi a da Venezuela, cheia de assassinatos e de presos políticos. Aqui vou citar o manifesto dos “não-socialistas por Seguro”: a defesa dos “valores democráticos e humanistas” e dos “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Todos sabemos que os aliados do governo socialista de António Costa defendem “valores democráticos” e “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Onde esteve o sobressalto democrático dos ilustres signatários em 2015? Muitos deles trabalharam com Passos Coelho e nem isso os levou a escrever manifestos na altura.

Conheço muitos dos signatários do manifesto dos “não-socialistas” e sou amigo de alguns, mas cometeram um enorme erro político (e direi isso a todos quando falar com eles). Antes dos erros, se os signatários não me levarem a mal, este manifesto não terá impacto nas eleições de 8 de Fevereiro. Não vai trazer mais um voto a Seguro na segunda volta, os portugueses são livres, e pensam pelas suas cabeças. Se algum impacto tiver, será aumentar um pouco os votos de Ventura.

O manifesto comete dois erros políticos graves. Em primeiro lugar, apelando ao voto em Seguro estão a ajudar a reconstruir a legitimidade política do PS. É o que José Luís Carneiro está a fazer à boleia da candidatura de Seguro; e o candidato vai ajudar o líder socialista. Os signatários estão assim a contribuir para o renascimento do PS, o que me espanta porque se definem como “não-socialistas.” Também me surpreende que aqueles que conheço, e que sei bem o que me dizem do PS, dos governos socialistas que Seguro apoiou e até do próprio candidato (quando era líder do PS), assinem este manifesto. Mas ninguém está livre de cometer erros.

Este manifesto também é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele. Há uma questão interessante quando se lê o texto do manifesto: que tipo de governo maioritário os signatários defendem? Uma maioria absoluta da AD; eu também gostava muito, mas não analiso a política com base em sonhos. Uma maioria absoluta da AD com a IL. Também gostava, mas acho muito improvável. Implicitamente, também viveriam bem com uma nova geringonça. Já viveram sem sobressaltos democráticos e apoiam o candidato apoiado pelo PCP e pelo Bloco. Essa maioria, não quero nunca mais.

Aliás, a AD na prática já beneficia da dimensão eleitoral do Chega. É isso que impede uma nova maioria parlamentar das esquerdas. No dia em que as esquerdas voltassem a ter maioria parlamentar, voltará a haver uma nova geringonça, seja quem for o líder do PS e mesmo que Seguro esteja em Belém. Algum dos signatários acha que o Presidente Seguro impediria uma coligação entre o PS a as extremas esquerdas, quando conta com os apoios dos comunistas e dos bloquistas?

Entendo perfeitamente que nenhum destes signatários seja capaz de votar em André Ventura. Há muita coisa em Ventura que me causam muito desconforto, desde as generalizações injustas até à demagogia, passando pela sua visão da economia, como mostram as suas posições sobre a privatização da TAP e o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. Discordo da visão presidencialista de Ventura. Mas é muito diferente não ser capaz de votar em Ventura ou apelar ao voto em Seguro. Estão a apoiar um socialista que nunca se distanciou dos piores erros feitos pelos governos do seu partido, pelo contrário apoiou activamente Sócrates. Estão a apoiar um socialista que fez ataques absolutamente injustos e falsos ao governo de Passos Coelho quando liderava o PS. Estão a contribuir para a legitimidade eleitoral do PS, quando os socialistas não o merecem. Um partido que nos últimos 30 anos, esteve 22 no governo, e que tanto mal fez a Portugal.

O Chega apareceu, em grande medida, por causa de todo o mal que os governos socialistas fizeram a Portugal. Os eleitores do Chega e de Ventura são aqueles que mais perderam com os governos socialistas. Não acho nada estranho que não se goste do resultado do socialismo. Eu também não gosto. Mas, por isso mesmo, acho muito estranho que se apoie um socialista. E Seguro nem sequer precisava destes apoios para ganhar as eleições no dia 8 de Fevereiro. O manifesto foi um erro inútil.

https://observador.pt/opiniao/ha-sempre-uma-direita-pronta-para-ajudar-o-ps/

José Manuel Fernandes - Quanto mais chamarem fascista a Ventura, mais ele agradece

José Manuel Fernandes 

Se continuam a dizer que é preciso votar Seguro para salvar a democracia não só não ajudam a sua campanha como degradam o prestígio da democracia, pois não há nada de antidemocrático em votar Ventura.

26 jan. 2026

Há inúmeras boas razões para não se votar em André Ventura na segunda volta destas eleições presidenciais – razões que em muitos casos partilho –, mas defender que é preciso fazê-lo para salvar a democracia é um insulto à inteligência e a repetição de uma estratégia que já deu muito maus resultados noutros países – precisamente o tipo de resultados que estes “gladiadores antifascistas” dizem querer evitar.

Devo dizer que logo na noite da primeira volta, ao ouvir o discurso de António José Seguro, receei que na sua campanha se fosse por aí pois ouvi-o afirmar, se bem que de passagem, que na segunda volta estaria em causa a democracia. A verdade é que, nas poucas vezes que falou ao longo desta última semana, me pareceu sempre mais moderado. O mesmo não pode ser dito de muitas outras intervenções nestes últimos dias, nalguns casos protagonizadas por pessoas com um trajecto de moderação.

Tomo dois exemplos, por os considerar significativos. O primeiro é a capa da revista Visão, que graficamente parece fazer um paralelo entre a segunda volta das eleições de 1986 mas depois acrescenta, sob o título “Democracia em jogo”, que, ao contrário do que sucedeu há 40 anos, “agora o que está em causa é o futuro do regime democrático”. O segundo é o podcast do Observador com Sérgio Sousa Pinto, Realpolitik, onde no mais recente episódio o antigo deputado sugere que quem for votar em Ventura sem perceber que a democracia está em jogo é porque é “atrasado mental”. Pelo que percebi esta passagem tornou-se viral nas redes sociais, ainda julguei que correspondia a um lapso passageiro, mas ao ouvir todo o episódio percebe-se que a convicção de Sérgio Sousa Pinto é que o que está em causa é mesmo a democracia, fazendo até comparações com o que se passou na Europa na década de 1930.

Esta retórica é factualmente errada e politicamente perigosa. No limite é ela que é antidemocrática por só admitir pensamentos e propostas políticas conformes ao socialmente estabelecido. Mas vamos por partes.

Esta eleição é assim tão diferente da de 1986? É, até porque os tempos são outros. A política vivia-se com muito maior intensidade há 40 anos, a clivagem esquerda-direita estava muito mais marcada na cabeça dos eleitores e os dois candidatos eram aquilo que podemos classificar como “figuras respeitáveis”, ambos vindos da elite lisboeta, ambos tendo passado por governos, numa ocasião tendo até estado juntos numa coligação governativa.

Dito isto, a verdade é que mesmo assim boa parte dos argumentos usados contra Freitas do Amaral, o candidato da direita, eram também “anti-fascistas”. Era considerado “irrecusável que o maior perigo no actual momento decorre da dinâmica ultra-reaccionária, fascizante e agressiva da candidatura de Freitas do Amaral” (Resolução Política do XI Congresso do PCP). Comparativamente os termos do apelo ao voto em Seguro pelo actual PCP até é feito em modos menos dramáticos.

Mais: eu acompanhei como jornalista essa campanha eleitoral (fui destacado para fazer a cobertura da candidatura de Freitas do Amaral do princípio ao fim) e por isso tenho memória de como o debate, vivíssimo na altura, era mesmo sobre se a sua vitória representaria ou não um regresso ao passado. O próprio Mário Soares, no famoso debate na segunda volta, insistiu por mais de uma vez na tecla de que Freitas “se tinha convertido tarde à democracia” e acusou-o várias vezes de radicalismo.

Em resumo: a campanha de 1986 foi muito diferente da que estamos a viver, mas infelizmente nessa altura como agora repetem-se argumentos e ressuscitam-se os fantasmas do “fascismo” e do “regresso ao passado”. Há hábitos que nunca mudam.

Desta retórica também faz sempre parte a ideia de que só a vitória de Seguro garante a defesa da Constituição e dos seus valores. Mais uma vez é uma retórica com vários problemas, a começar pelo se assumir que a nossa Constituição está escrita na pedra e nunca pode ser revista ou modificada. Não estou de acordo, como não estiveram de acordo as maiorias parlamentares de 1982 e 1989 que reviram substancialmente o texto constitucional apesar de também então haver quem garantisse que isso seria o fim do mundo, ou pelo menos o fim da democracia. Não foi, foi até o que permitiu tornarmo-nos numa democracia plena e não tutelada ou limitada.

Todos os partidos têm o direito de propor, no tempo certo, alterações à Constituição e a verdade é que o partido de André Ventura até já o fez em 2022. Será que essas propostas corresponderiam ao fim do regime constitucional? Sinceramente não creio, mesmo discordando de muitas delas. Na altura a que levantou mais controvérsia foi a criação da possibilidade de haver penas de prisão perpétua. Pessoalmente discordo, mas quando 25 dos actuais 27 países membros da União Europeia prevêem a possibilidade da prisão perpétua será que posso considerar que esse é um sinal do “fim dos direitos, liberdades e garantias” assegurados pelo actual texto constitucional?

Parece-me óbvio que não e também me parece óbvia outra coisa: há temas que hoje estão na discussão pública – nomeadamente os relativos à imigração e à nacionalidade – que até há bem pouco tempo eram considerados temas tabu. Quem quisesse debatê-los tinha logo de enfrentar uma chuva de insultos e de acusações. Era assim porque se queria impor uma determinada ortodoxia e calar, pela intimidação e pelo ostracismo social, quer discordasse. Formalmente não existia nem existe censura prévia, na prática havia e há um clima censório que poucos se atreviam e ainda atrevem a desafiar.

Mas há ou não há um risco para a democracia? É ou não verdade que a direita populista cria regimes autoritários, pelo que é melhor não correr qualquer risco e manter a política de “linhas vermelhas”?

A resposta a esta pergunta exige que olhemos para o que se tem passado noutros países europeus, sobretudo para aqueles onde partidos parecidos com o Chega já foram ou são governo. E a resposta é que apenas na Hungria nos deparamos com uma situação em que existe uma clara deriva autoritária e uma real eternização no poder, acontecendo porém que na Hungria tudo começou quando o partido de Viktor Orban ainda integrava a mesma família política europeia do nosso PSD, o PPE (Orban chegou pela segunda vez ao governo em 2010 e o seu Fidesz só saiu do PPE em 2021).

Temos depois situações onde partidos parecidos com o Chega já estiveram várias vezes em governos – a Áustria, a Finlândia, a Holanda, a Suécia, por exemplo –, tendo entrado e saído sem que a democracia acabasse. Na Polónia lideraram o governo durante muitos anos, governaram mal e por isso estão hoje na oposição, mesmo tendo eleito o Presidente da República. E quanto aos prognósticos de que a Itália regressaria ao fascismo quando Giorgia Meloni chegasse a primeira-ministra, estes revelaram-se não só errados como mistificadoras.

Por outras palavras: por mais que seja tentador fazer comparações com a Europa dos anos 30 do século passado, nem a Europa de hoje tem qualquer semelhança com a Europa desses anos negros, nem a maioria dos nossos actuais partidos populistas tem matrizes ideológicas sequer vagamente comparáveis (a não ser nalgumas franjas limite).

Vamos por isso ver se nos entendemos: esta segunda volta pode ser para escolher entre civilidade e alarvidade, entre europeísmo e nativismo, entre continuidade e ruptura, entre estatismo de esquerda e estatismo de direita, entre boa educação e má educação, entre serenidade e excitação, entre cordialidade e demagogia, entre institucionalismo e subversão das normas, pode ser sobre estes temas e muitos mais mas não é nem deve ser apresentada como uma escolha entre democracia e regresso ao autoritarismo. Até por ser um discurso perigoso para a própria saúde da democracia pois, para sectores importantes do eleitorado, sobretudo do eleitorado mais jovem e que já nasceu muitos anos depois do 25 de Abril, acaba-se a associar democracia a um estado do país que os deixa profundamente descontentes e insatisfeitos.

Infelizmente este risco existe – basta olhar para os estudos de opinião que revelam a degradação da ideia democrática entre as gerações mais novas. Essas gerações exigem mudanças porque são quem está, em termos relativos, a perder nas sociedades mais desenvolvidas. Em Portugal, por enquanto, ainda preferem candidatos mais institucionais, mas que propõem mudanças (o candidato mais votado pelos jovens foi Cotrim Figueiredo), mas se lhes disser que tudo é intocável a começar pela Constituição e a continuar nos políticos de sempre, um dia destes temos uma surpresa.

Ou melhor, já tivemos essa surpresa: André Ventura está na segunda volta.

https://observador.pt/opiniao/quanto-mais-chamarem-fascista-a-ventura-mais-ele-agradece/

sábado, 24 de janeiro de 2026

Luís Fazenda - A algazarra das direitas. O voto antifascista reúne-se para Belém

* Lus Fazenda

24 de janeiro 2026
 
O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo.

1 - A longa campanha eleitoral da primeira volta das presidenciais, com candidaturas anunciadas logo a seguir às legislativas de Maio, tornou-se num embate político significativo, sem desfecho previsível à partida. Este facto fez crescer a participação de eleitores.

A campanha, sobretudo à direita, teve pouca confrontação, ou sequer comparação, de programas e ideias e centrou-se nos perfis dos aspirantes a sucessor de Marcelo e nas sondagens constantes. Em parte, isso deveu-se a uma legião de comentadores de tv que censuram a discussão das políticas públicas porque supostamente tal facto seria "próprio" de eleições legislativas e não de eleições presidenciais. Os candidatos estariam limitados a expor a sua leitura das competências do cargo e, quando muito, falar de política internacional. A manobra é clara para poupar a crítica ao governo e fazer desaparecer as oposições.

2 - Os debates entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, ou entre Ventura e Cotrim de Figueiredo, foram cenas reles de ataques pessoais e acusações sucessivas e mútuas de imoralidade. Foi grande a algazarra. O clima de quezília, que seria imediatamente contestado em qualquer candidato de esquerda, transportou-se para propostas hostis.

Foi o caso de Cotrim de Figueiredo. Fez um ultimatum a Montenegro, numa espécie de OPA ao PSD. E conseguiu 16%, mais 5 pontos que Mendes. Esta tentativa de acossar o líder do PSD, pretendendo que o candidato laranja saísse da corrida fica como uma manobra de ultrapassagem da IL ao PSD.

Como tem sido hábito, as sondagens e pretensos barómetros foram as principais protagonistas, para os quais os candidatos são instrumentais. Estudos diários de amostra reduzida insinuam empates e provocam transferências de votos, verificando-se no final diferenças de monta onde havia proximidade. O "empate" entre Seguro e Ventura cifrou-se em 8 pontos de diferença.  

3 - Os candidatos e a candidata à esquerda trouxeram o debate das políticas governativas da AD. Foi reconhecido por todos os quadrantes democráticos que Catarina Martins fez uma excelente campanha sobre como cuidar da democracia política e da democracia social e reagiu sem tibiezas ao assalto à Venezuela por parte de Trump.

Seguro, o improvável candidato do centro, trouxe uma olímpica posição presidencial sem demarcação do governo, embora afirmasse a defesa da Constituição, com poucas referências a compromissos concretos, exceto no SNS. Averbou 31% e classificou-se em primeiro lugar, graças à divisão da direita.

Felizmente, a greve geral irrompeu pela campanha adentro, mudando a agenda até aí dominada pelas políticas anti-imigração. As questões do trabalho vieram para primeiro plano, forçando Seguro e Gouveia e Melo a endurecer posição. Seguro promete veto ao pacote laboral. A nota artística vai para o Almirante que confessou que teria feito greve. A defesa dos Direitos do Trabalho trouxe de forma concreta a resistência constitucional que atravessou esta contenda eleitoral.

4 - O que Montenegro caracteriza como "uma dispersão de votos do centro" é uma forte derrota do governo e da AD. A AD tem um desgaste claro na sua base eleitoral. Contudo, o 5º lugar do candidato do governo não pode apenas ser atribuído à irritação popular pelos seus negócios pessoais, ou por ser mal amado pelos caciques do PSD. Os ziguezagues de Mendes sobre as leis laborais, ou sobre a ministra da Saúde, desagradaram a gregos e troianos. E pôs em relevo que uma parte do eleitorado do PSD está a ser atraído pelo radicalismo da extrema-direita e pelo radicalismo dos liberais. É previsível que o governo acentue a sua agenda de direita para recuperar apoio nas classes médias, hoje muito permeáveis a hostilizar o Estado social. Em particular, a IL é uma pedra no sapato do PSD. O que deixa uma pergunta óbvia: que faz ali o PS como sócio orçamental?

5 - A candidatura de Gouveia e Melo merece uma reflexão. Foi mais uma arremetida populista contra os partidos, considerando todos em geral responsáveis pela oligarquia que controla o Estado. Incapaz de apontar o periscópio à elite económica que capturou os Partidos do poder e que põe e dispõe nessa oligarquia, veio paradoxalmente reclamar-se de uma posição entre PSD e PS. Precisamente os partidos que têm sido as válvulas de segurança da oligarquia. Rodeou-se de várias figuras do PSD, do ex-recluso Isaltino e de empresários do pior do "sistema". Este foi o maior dos paradoxos para os seus apoiantes. Colheu votos heterogéneos à direita e à esquerda, perdendo muitos destes para Seguro na reta final da campanha. Foram 12% de votos que não têm destino e acompanham o Almirante sem espaço político. O caldo de cultura que cimentou esta candidatura é o mesmo que anima André Ventura. A saber: a hostilidade aos negócios da elite e a rápida confusão entre estes e o regime democrático.

6- A "normalização" do Chega ganhou um novo fôlego. O discurso de equiparar a democracia à corrupção faz o viés do caudilho que quer três salazares e pretende uma constituição autoritária e um sistema presidencialista. Enganaram-se aqueles que prenunciavam um Ventura cordato, escondendo as arestas da sua dinâmica reacionária. Com apoio em todas as classes, da alta-finança ao operariado, realizou uma campanha popular beneficiando da sobreexposição nos canais televisivos a somar à hegemonia que apresenta nas redes sociais. A boçalidade é justificada por falar para o povo. Ninguém pode subestimar a votação de Ventura, alcançando 23%. Na Madeira ver suceder a extrema-direita ao PSD é como passar a um novo inferno. Em todo o caso, a consolidação da extrema-direita segue os métodos internacionais e genericamente trumpistas. Sem disfarce, o Chega tenta ganhar balanço para disputar a chefia da direita ao PSD.

7 - Os votos da candidata e dos candidatos apoiados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP e pelo Livre foram reduzidos. Catarina Martins teve 2% e os outros menos.  Pode dizer-se que, em certa medida, representaram a resistência ao voto útil em Seguro. É uma votação do núcleo forte das respetivas áreas políticas e as eleições presidenciais dão para ver essa elasticidade. Esta observação vale para todos. Qualquer um destes partidos sabe que tem uma margem de simpatia superior aos votos obtidos. O que obriga a uma reflexão sobre a força do chamado voto útil. Conhecemos durante muitos anos o apelo ao voto útil, alegando vantagens de poder contra o PSD. Hoje, a esta dinâmica juntou-se outra: a do voto útil antifascista. A resistência e afirmação destas áreas é essencial para não deixar a oposição à esquerda completamente nas mãos do liberalismo democrático do PS sem qualquer projeto social nem perspetiva soberana.

8 - O quadro que se apresenta para a segunda volta, a 8 de Fevereiro, é marcadamente bipolar. O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo. Um candidato democrata apoiado por setores da esquerda e da direita contra o candidato reacionário. A vitória de Seguro permite continuar a resistência constitucional aos ataques da extrema-direita e de parte da direita. Aqueles que lutam pelo Socialismo têm uma dupla tarefa: explicar que Seguro já se desfez do socialismo há muito, ao contrário do que diz Ventura, e de que não há luta a sério pelo socialismo sem democracia. A defesa do regime constitucional potencia o contra-ataque à AD e ao trumpismo mundial.

9- O governo de Montenegro e o PSD, tal como a IL decidiram não indicar o voto em Seguro num ato de suposta “neutralidade”.Alguns argumentam de que se trata de preservar o jogo parlamentar do governo para permitir maiorias de voto. Na verdade, é a perda de compromisso democrático e cedência a Ventura.

Entretanto, a direita que vai apoiar Seguro quer que essa candidatura se defina como “moderada” contra o extremismo, sem referência à causa democrática. Querem prolongar a “normalização “do Chega, apagando o perigo autoritário. Pretendem descafeinar ainda mais a plataforma política de Seguro, tentando aproximá-lo do candidato de “centro-direita” que perderam para a segunda volta da corrida a Belém. O povo de esquerda dirá melhor nas urnas.

https://www.esquerda.net/opiniao/algazarra-das-direitas-o-voto-antifascista-reune-se-para-belem/97197
 

Jaime Nogueira Pinto - Retrato eleitoral do país: da esquerda para a direita

 * Jaime Nogueira Pinto 

Pelos seus dois protagonistas não creio que esta campanha tenha muitas razões para se radicalizar. Seguro porque a radicalidade não está no seu modo de ser; Ventura porque já segurou o seu eleitorado.

24 jan. 2026,

No retrato eleitoral do país temos, da esquerda para a direita: Catarina Martins, do Bloco de Esquerda (2,06%); António Filipe, do Partido Comunista (1,64%); Jorge Pinto, do Livre (0,68%); e o anti-Chega com “licença para odiar” André Pestana da Silva (0,19%). Todos juntos, não chegam a 5% dos eleitores. Porém, independentemente da sua representatividade real, é de prever que a representação na comunicação social desta imaginária “vanguarda esclarecida” continue pujante.

Temos depois “o campo socialista”, dito “campo democrático”, como na Primeira República, curiosamente representado por António José Seguro, um filho mal-amado da Esquerda e do próprio PS. Seguro é alguém de grande honestidade pessoal que, de hesitação em hesitação, acabou por pôr reservas a Sócrates e por ser irradiado por António Costa.

À direita do campo socialista, o retrato fica simultaneamente mais fragmentado e mais nítido, com a primazia de André Ventura a deixar muito boa gente à beira de um ataque de nervos.

O PSD, ou o que ficou do velho PSD – que no breve consulado de Sá Carneiro e da primeira AD marcou a resistência possível aos desmandos do MFA e da extrema-esquerda; que no primeiro Cavaquismo enveredou por uma política que, infelizmente, não prosseguiu, e que, com Passos Coelho, voltou a mostrar sentido de bem público – sai mal na fotografia. O seu candidato captou pouco mais de um terço do eleitorado cativo da AD, que ou foi atrás do liberal Cotrim de Figueiredo ou se deixou encantar por Gouveia e Melo. Espera-se agora ardente e democraticamente que este eleitorado, deixado livre, se sinta obrigado a votar pelo seguro, ao lado do Partido Socialista e da extrema-esquerda, para “defender a democracia”.

Uma campanha alegre

Mas se os apparatchiks socialistas em funções foram apoiando António José Seguro a conta-gotas e a contragosto, ter um amigo dócil em Belém ser-lhes-á de extrema utilidade para se reorganizarem. Por isso o tempo vai ser agora de entusiasmo democrático e de serrar fileiras contra “o regresso do fascismo”.

Assim, daqui para a frente e nas duas semanas de campanha que nos esperam, é comprar pipocas para assistir ao filme que se anuncia: uma longa noite de cinema com dois campos bem definidos. No trailer, insiste-se que a luta não é entre esquerda e direita, mas, mais existencialmente, entre “democracia” e “autocracia”.

De um lado, no “campo extremista”, podemos já antever um Tarrafal em cada esquina, nazis empunhando fachos e cartazes não-inclusivos, Pides a perseguirem incautos imigrantes, intrépidos resistentes anti-fascistas e louçãs donzelas, enquanto três ou quatro Salazares saem vampirescamente das tumbas para devorar as conquistas de Abril… todos ao serviço do super-vilão Mordoor-Ventura, que se prepara para executar o maléfico plano de acabar com a democracia em Portugal. Do outro lado, no “campo democrático”, a racionalidade, a respeitabilidade, a moderação, enfim, a normalidade, o humanismo, a democracia.

“Democratas” e “Extremistas”

Convém, no entanto, recordar que “a democracia” ou a definição de democracia tem sido sempre um exclusivo da esquerda, da mais extrema (quem não se lembra dos regimes democráticos e das boas práticas que inspirou e inspira?) à mais moderada, à de “rosto humano”; e tem sido sempre a esquerda a incluir ou excluir da “democracia” e a chutar para o “fascismo” ou para a “autocracia” os protagonistas que a ameaçam.

Agora é Ventura. Parece que nem Ventura nem os seus muitos eleitores são democratas. Porquê? Porque não, porque todos os democratas, a começar pela candidata do Bloco de Esquerda e pelo candidato do Partido Comunista, que saberão do que falam, dizem que não é, que não pode ser, até para não estragar o enredo da fita.

Embora o método não varie muito, o facto de ser o PS de António José Seguro e de José Luís Carneiro a encabeçar este campo socialista, dito “campo democrático”, não deixa de evidenciar que a esquerda sobrevivente é agora a do centro, a colada ao Centrão. O PS que, com o PSD, constitui o eixo-ideológico e partidocrático da Terceira República, entra numa nova pele. Assim, pela moderação, fica nesta eleição mais próximo do seu parceiro alternativo de governação de meio século – o PSD – que, pela indefinição, também dele se aproxima.

De qualquer forma, passada a lua de mel na casa do campo democrático da segunda volta, o actual primeiro-ministro e líder do PSD vai ter de continuar a equilibrar-se num perigoso modelo tripartido de poder (três forças que colaboram em duo pela negativa, mas nunca pela positiva), ficando refém de dois inimigos, o PS, pela esquerda, mais forte se tiver um amigo em Belém, e o Chega, pela direita, mais forte por se ter encontrado, nesta eleição, a capitanear o campo da direita. Por quanto tempo irá este PSD resistir num “centrismo” que os ventos da História também parecem ameaçar? Poderá, sem grande cumplicidade em Belém, jogar o jogo do centro hegemónico, do centro charneira, ora pactuando à direita, com o Chega – como na lei da nacionalidade –, ora à esquerda, com o PS – como na recusa em alterar alguns pontos ideológicos programáticos da Constituição de 1976?

Mantendo essencialmente a lealdade do eleitorado do Chega, Ventura ganhou, para já, um espaço significativo na direita, marcando como seu um quarto do eleitorado nacional. Aproveitando o eventual aumento de votação que a segunda volta lhe poderá trazer, Ventura deverá definir e afirmar melhor os valores do nacionalismo conservador e social que são a razão principal da sua popularidade (a que os seus adversários chamam “populismo”, conceito que alguém definiu como “a popularidade dos outros”). E esses valores não são muito diferentes da patria et libertas romana e maquiavélica; ou, na versão mais contemporânea, cristianizada e conservadora, Deus, Pátria e Família, a trilogia agora adoptada em democracia por Meloni, por exemplo, e que o facto de já ter sido defendida autoritariamente não invalida.

Ou será que os seguidores da trilogia revolucionária de 89, Liberté, Égalité, Fraternité, à sombra da qual se assassinaram, de Paris à Vendeia, dezenas de milhares de franceses, ou os ainda admiradores do socialismo do Gulag têm alguma coisa a dizer contra esta trilogia conservadora?

O problema da direita tolerada pelo 25 de Abril foi precisamente deixar-se intimidar pela esquerda e pelos seus rótulos e não defender em democracia nada do que tivesse sido defendido pelo Estado Novo, independentemente da sua validade. André Ventura, com todos os seus defeitos e virtudes, não tem esses medos ou tabus. É um político de outros tempos, que nasceu e cresceu em democracia, que vive dela e não tem qualquer interesse em acabar com ela.

Seja como for, pelos seus dois principais protagonistas, não creio que esta campanha tenha muitas razões para se radicalizar. Seguro, também porque a radicalidade não está no seu modo de ser, poderá facilmente apresentar-se como “o único democrata”, o conciliador ou o reconciliador, deixando para os outros a “fúria antifascista”; André Ventura, porque já segurou o seu eleitorado, quererá capitalizar o facto de ser um contra todos e captar a direita que não se queira diluir em Seguro com a esquerda e a extrema-esquerda e capaz de resistir à pressão.

 https://observador.pt/opiniao/retrato-eleitoral-do-pais-da-esquerda-para-a-direita/

sábado, 6 de dezembro de 2025

JoãoRodrigues - Ódio diário sem notícias


* João Rodrigues

Em 1927, no livro Liberalismo, Ludwig von Mises afirmou: “Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenções e que sua intervenção, até ao momento, salvou a civilização europeia. O mérito que, por isso, o fascismo obteve para si estará inscrito na história.” 

A decadência da linha editorial dos jornais está bem patente num artigo ignobilmente ignorante da autoria Ricardo Simões Ferreira, Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias. 

Diz que Ludwig von Mises “provou matematicamente” que o socialismo não funciona. Mises nunca usou qualquer matemática nos seus livros e artigos antissocialistas. O seu famoso argumento acerca da impossibilidade do cálculo económico em socialismo é um exemplo disso. Não é pior, nem melhor, por isso. Mas os factos contam. E obviamente, houve economistas socialistas que, armados da teoria neoclássica, por exemplo, lhe responderam. O liberal austríaco Joseph Schumpeter, o da destruição criativa, deu-lhes razão e tudo. 

Por outro lado, não há hoje uma única faculdade de economia que tenha cadeiras de economia marxista e mesmo o pensamento de Keynes é ensinado numa versão diluída pela economia neoliberal avassaladoramente dominante, infelizmente. Os estudantes é que perdem com a falta de pluralismo. 

Quanto ao Manifesto do Partido Comunista, que aposto que este fulano nunca leu, continua a oferecer pistas frescas para quem quer compreender o mundo, tal como A Riqueza das Nações, de Adam Smith, de 1776, por exemplo. Haja curiosidade pelos clássicos. São sempre surpreendentes. Leia-se o que Smith escreveu sobre a vulnerabilidade estrutural dos trabalhadores perante os patrões ou sobre o lado negro da divisão do trabalho ou sobre a natureza de classe do Estado ou....

O chorrilho de aldrabices prossegue, incluindo a ideia de que os professores e logo os jornalistas são comunistas encafuados: “é preciso limpar” o ensino, urra. Isto é a retórica do fascismo. No fundo, ele sabe que os comunistas são parte essencial do antifascismo que cruza Marx e Keynes, da economia política à política económica, do Brasil à China. O objetivo é só instilar medo. Mas nós não temos medo. Ou, melhor, até temos, quando nos sentimos sozinhos, mas sabemos que não o estamos e por isso o medo passa. 

E não é só a ignorância da história das ideias que assim se revela, é também ignorância da história económico-política deste país capitalista: qualquer pessoa séria sabe que os últimos quarenta anos não têm sido dominados pelo “socialismo”, mas sim pelo neoliberalismo e pela sua lógica privatizadora e liberalizadora, tornando Portugal um dos países europeus como menos ativos públicos empresariais ou menos stock da habitação pública, em percentagem do total, por exemplo. E este padrão tem sido impulsionado pela lógica da integração europeia, que impede estruturalmente políticas económicas keynesianas, para já não dizer socialistas, até pela anulação de vários instrumentos de política económica. 

Na realidade, esta gente não descansa enquanto existirem alguns elementos de civilidade democrática na sociedade portuguesa, da escola pública ao SNS, passando por alguns direitos laborais, cada vez menos face ao crescimento dos direitos patronais. O anticomunismo revela o reconhecimento de que os comunistas portugueses foram e são uma condição necessária, mas não suficiente, claro, para todos esses elementos. Esta é a verdade. 

Enfim, jornais dirigidos por gente desta são puros veículos de desinformação, de mentira e de ódio. Liberais até dizer chega, em suma.

Postado por João Rodrigues às 6.12.25

https://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2025/12/odio-diario-sem-noticias.html

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

António José Rodrigues - Os revanchistas de Novembro de 1975

*  António José Rodrigues

A decisão do governo da AD de constituir uma comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro configura mais um capítulo da operação de falsificação e de deturpação da história, por parte daqueles que nunca se conformaram com a Revolução de Abril. Na verdade, 50 anos depois aí temos muitos dos herdeiros do regime de Salazar e Caetano, agora de forma aberta, a animarem as comemorações do 25 de Novembro, os mesmo que foram objecto das benesses do fascismo, e que são hoje, no Governo e fora dele, os protagonistas da defesa dos interesses do grande capital.

A tentativa de apagar da memória do povo o 25 de Abril e substituí-lo pelo 25 de Novembro está bem patente nas afirmações do ministro da Defesa Nuno Melo, o homem forte das comemorações, as quais foi decidido alongar o período das comemorações por mais cinco meses, até Maio de 2026, para assegurar «que outras datas e acontecimentos só possíveis porque houve o 25 de Novembro venham a ser consideradas, como sejam a aprovação da Constituição da República e as eleições legislativas que deram lugar à primeira legislatura em 25 de Abril de 1976». Afirmações confirmadas na Resolução do próprio Governo.

Uma subtil mas pura mentira, considerando que as primeiras eleições legislativas decorrem da Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, em pleno período revolucionário, e foram fruto da Revolução de Abril. Eleições que a contra-revolução quis adiar para impor uma solução referendária anti-democrática, à laia da Constituição de 1933, elaborada a partir de cima e sem a participação dos eleitos pelo povo. O objectivo em prolongar até Abril as reaccionárias comemorações para assinalar as eleições de 1976 anunciadas como as primeiras, é claro: identificar o processo revolucionário como um período ditatorial. Exemplo de que o 25 de Novembro não pôs fim ao processo iniciado em 25 de Abril, como pretendiam as forças reaccionárias, foi a aprovação e a entrada em vigor da Constituição da República, traduzindo, não apenas, o resultado dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas o resultado da luta do povo português e das forças revolucionárias.

Daí que a Constituição da República ainda hoje, apesar de amputada por sucessivas revisões constitucionais promovidas pelo PS e PSD, continue a manter conteúdos profundamente progressistas, e por isso a ser o alvo preferencial da direita de todos os matizes. Os partidos de direita perseguem o objectivo de rever a Constituição da República, procurando retirar princípios e valores que esta encerra e atentar contra os direitos nela inscritos, com o supremo objectivo de consumar a reconfiguração do Estado ao serviço dos interesses do grande capital nacional e estrangeiro.

O «verão quente» de 1975, que antecedeu o 25 de Novembro, foi um período caracterizado por uma profunda crise político-militar, com graves repercussões no plano económico e social e que, no essencial, resultou da ruptura no campo democrático, com os dirigentes socialistas a assumirem uma posição de reserva e oposição à evolução do processo revolucionário e a liderarem um processo de divisão, quer do movimento democrático quer do movimento popular e sindical em que a acção provocatória do 1.º de Maio de 1975 é momento marcante. Mas também pela cisão no MFA, entre o Grupo dos Nove e a Esquerda militar, que conduziria à desagregação e paralisação das estruturas superiores do Movimento das Forças Armadas (MFA). Um objectivo há muito perseguido pelas forças de direita e da social-democracia, do Grupo dos Nove, mas também de sectores esquerdistas agrupados em torno de Otelo Saraiva de Carvalho, ao mesmo tempo que a Esquerda militar perdia posições importantes nos centros de decisão político-militar.

Uma situação que permitiu que se desenvolvesse um conjunto de acções contra-revolucionárias na tentativa de inverter o curso da Revolução de Abril, nomeadamente recorrendo ao terrorismo, de forma organizada, procurando semear a intranquilidade e o pânico, isolar as forças de esquerda, desestabilizar a situação política e pôr em causa a própria democracia. Uma acção terrorista que atingiu sobretudo o PCP e os sindicatos, e de que é impossível desligar, como pretendem alguns, as acções e iniciativas políticas que caracterizaram o chamado «verão quente» de 1975.

O balanço destas acções é público e conhecido. Em Julho tiveram lugar 86 actos terroristas, dos quais 33 assaltos, pilhagens e incêndios de Centros de Trabalho do PCP e outras 23 tentativas repelidas. Acções acompanhadas do lançamento de bombas, fogos postos e agressões. Em Agosto, mais de 153 acções, das quais 82 assaltos e destruições de Centros de Trabalho (55 do PCP e 25 do MDP/CDE), 39 incêndios, 15 bombas, 23 agressões.

Neste quadro, o 25 de Novembro de 1975 foi o corolário de um longo período de instabilidade, em que o agravamento da crise político-militar e a ofensiva contra-revolucionária decorrem em paralelo, nomeadamente com a queda do V Governo Provisório e o afastamento do general Vasco Gonçalves, também das estruturas superiores das Forças Armadas e do MFA. O afastamento de Vasco Gonçalves era um objectivo há muito perseguido, como nos retrata António Avelãs Nunes no seu livro O Novembro que Abril não merecia: «A pedido do grupo de Melo Antunes, Carlucci pressionava Costa Gomes no sentido de demitir o V Governo Provisório, substituindo o Primeiro-Ministro e afastando os comunistas do novo Governo, e instava os embaixadores da França, RU, e RFA para que também eles pressionassem Costa Gomes (“temos agora de nos interrogar de que lado está Costa Gomes ou, em qualquer caso, se ainda vale a pena preservá-lo”)».

Este longo processo que antecedeu o 25 de Novembro foi também marcado por várias tentativas e acções contra-revolucionárias, em que se destacam o golpe Palma Carlos, o 28 de Setembro e o 11 de Março, através das quais os seus autores e cúmplices as procuraram sempre justificar como sendo respostas a tentativas ou golpes do PCP. O 25 de Novembro não foi excepção.

Das várias provocações montadas neste período com o objectivo de responsabilizar os comunistas e o movimento operário e contra eles atear a ira popular, o assalto à Embaixada de Espanha é profundamente ilustrativo, enquanto o terrorismo bombista ganhava também um lugar de destaque, com a activa participação de militares e políticos, bem como de organizações como o MDLP-Movimento Democrático de Libertação de Portugal, inspirado e chefiado por Spínola, e o ELP-Exército de Libertação de Portugal, entre outras organizações terroristas e contra-revolucionárias que actuavam a partir do estrangeiro, nomeadamente do Brasil e de Espanha.

O 25 de Novembro foi sustentado numa grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada e que contou com o importante contributo de Mário Soares, principal promotor de uma vergonhosa campanha anti-comunista, realizada na base da mentira e de processos de intenções irreais, do PS e do Grupo dos Nove, onde participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, cujo objectivo era a instauração de uma nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente, a ilegalização e destruição do PCP.

A verdade é que, após o golpe do 25 de Novembro, a rápida tomada de consciência dos militares democratas dos riscos que a democracia corria, nomeadamente aqueles que tendo combatido a Esquerda militar não se identificavam com a direita reaccionária, conduziu à criação de uma nova linha de defesa da democracia, designadamente no seio das Forças Armadas, e impediu que o 25 de Novembro liquidasse a revolução portuguesa e as suas conquistas. Importa, a propósito, relembrar o papel do esquerdismo e de forças como o MRPP, a AOC ou o PCP(m-l) que se aliaram ao PSD e ao CDS, e acabaram por se revelar agentes da direita e da extrema-direita, sem esquecer que destes partidos emergiu um número infindável de figuras, de que Durão Barroso será o expoente máximo pelos elevados cargos que exerceu no plano nacional e internacional, mas que se estende por um número infinito de políticos, jornalistas, «comentadores» e «analistas», que hoje se albergam no bloco central de interesses e continuam, «coerentemente», anticomunistas e ferozes defensores do grande capital, que havia sido derrotado no 25 de Abril e no 11 de Março.

O 25 de Novembro, ao contrário do que muitos dos seus protagonistas disseram e escreveram e alguns continuam a insinuar, não foi um golpe promovido pelo PCP, pela Esquerda militar ou pela «ala gonçalvista» do MFA, mas sim um golpe militar contra-revolucionário, fruto de uma cuidada e longa preparação, no quadro de um tumultuoso processo de rearrumação de forças no plano político e militar.

Álvaro Cunhal, no livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), explica que, «como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se a tese do "recuo" – a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe. Essa tese do "recuo do PCP" é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas "abandonados pelo PC" à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral (O Antigo Regime e a Revolução).

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um, as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL1). Outro, uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política».

O PCP teve uma acção incansável no sentido de evitar o confronto, expressa em intervenções do seu secretário-geral, comunicados da sua Comissão Política e em variados documentos incluindo no próprio jornal Avante!, apontando uma saída política para a crise, propondo e concretizando encontros com todos os sectores, do PS (que recusou) aos agrupamentos esquerdistas, da Esquerda militar ao Grupo dos Nove e a militares esquerdistas ligados ao COPCON, embora sem resultados práticos.

Uma proposta que não obteve respostas, até porque o PS e os seus aliados tinham prosseguido as encenações e provocações com o objectivo de atingir e responsabilizar o PCP: primeiro, o caso do jornal República com os trabalhadores a tomarem posição contra a direcção do jornal e a orientação política por este seguida, tendo os dirigentes socialistas e os responsáveis do República, como então afirmou o PCP, «elementos mais do que suficientes para saberem que é uma calúnia tão torpe como absurda o atribuírem a responsabilidade da posição dos trabalhadores do jornal ao PCP»; depois, as manifestações no Patriarcado, resultado de algumas justas reivindicações profissionais do trabalhadores da Rádio Renascença não terem encontrado, por parte da hierarquia da Igreja, qualquer perspectiva de solução, com os comunistas a condenarem «todos os actos e atitudes que representam uma ofensa aos sentimentos religiosos do nosso povo». Na altura, o PCP sublinhou ainda «que sempre tem defendido e continua a defender a liberdade religiosa» sem, contudo, deixar de registar com preocupação uma nota pastoral dos Bispos, considerando-a uma «clara intromissão negativa na actual situação política, o que só poderá agudizar as dificuldades existentes».

Os acontecimentos do 25 de Novembro, porventura, nunca teriam acontecido se os golpistas liderados por Spínola não tivessem sido derrotados em 11 de Março, uma derrota que originou a imediata tomada de decisões históricas como a institucionalização do Movimento das Forças Armadas (MFA), a extinção da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, a criação do Conselho da Revolução, a nacionalização da banca, dos seguros e de empresas como a TAP, a CP, a CIDLA, a SACOR, e ainda o aumento do Salário Mínimo Nacional para quatro mil escudos. A democracia portuguesa escolhe o rumo do socialismo.

Após a derrota do golpe de 11 de Março, em «meados de Julho» de 1975, como nos relata o insuspeito historiador José Freire Antunes (antigo deputado e dirigente do PPD/PSD) no livro O segredo do 25 de Novembro, o então major Ramalho Eanes, usando o nome de «João Silva», faz um contacto telefónico com o tenente-coronel Tomé Pinto, que se encontrava na 2.ª repartição do Estado-Maior do Exército. Era o pontapé de saída para a constituição do «Grupo Militar» que haveria de promover o golpe do 25 de Novembro.

Curiosamente, o mesmo Tomé Pinto, agora tenente-general na reforma, foi escolhido por Nuno Melo para presidir à comissão das comemorações dos 50 anos do 25 de Novembro.

O golpe do 25 de Novembro significou a criação de uma nova situação política, uma viragem à direita na vida nacional, mas os mais ambiciosos objectivos contra-revolucionários foram derrotados. A força e a dinâmica do movimento operário e popular e a intervenção esclarecida do PCP foram factores determinantes para a contenção do golpe. Em lugar de reprimido e ilegalizado, o PCP continuou no Governo e a reforçar a sua influência social e política. A aprovação da Constituição e a sua entrada em vigor constituiu um factor de primeiro plano para travar os planos golpistas. Será com a formação do primeiro governo constitucional do PS sozinho, mas de facto aliado à direita, que se virá a institucionalizar o processo contra-revolucionário.


Revolução de AbrilEdição Nº 399 - Nov/Dez 2025

https://omilitante.pcp.pt/pt/399/447/2218/Os-revanchistas-de-Novembro-de-1975.htm?