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sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Noam Chomsky, Ian Roberts, Jeffrey Watumull - A promessa enganosa do ChatGPT



Noam Chomsky, Ian Roberts, Jeffrey Watumull [*]

ChatGPT.

Jorge Luis Borges escreveu um dia que viver numa época de grandes perigos e de grandes promessas é ter a experiência de viver ao mesmo tempo a tragédia e a comédia, com “a iminência de uma revelação” para nos compreendermos a nós próprios e compreender o mundo. Hoje, nossos pretensos progressos revolucionários nos domínios da inteligência artificial são em simultâneo fontes de inquietação e de otimismo. De otimismo devido à inteligência da nossa ciência, de inquietação pelo degradar da nossa ética ao instilar uma concepção fundamentalmente errónea da linguagem e do conhecimento na nossa tecnologia.



O ChatGPT da OpenAI, o Bard da Google e o Sydney da Microsoft são maravilhas da aprendizagem automática. Grosso modo, eles tomam enormes quantidades de dados, neles procuram modelos e tornam-se cada vez mais competentes para gerar dados estatisticamente plausíveis – como uma linguagem e um pensamento aparentemente análogos àquele que se encontra nos humanos. Estes programas foram saudados como os primeiros vislumbres no horizonte da inteligência artificial generalizada – este momento há muito profetizado que vê os espíritos mecânicos ultrapassarem os cérebros humanos não só quantitativamente em termos de velocidade de tratamento e de dimensão da memória, mas também qualitativamente em termos de perspicácia intelectual, de criatividade artística e de qualquer outra faculdade específica do ser humano.



Esse dia poderá chegar, mas a sua aurora ainda não despontou, ao contrário do que se pode ler nos títulos hiperbólicos e nas previsões de investimento imprudentes. A revelação borgesiana da compreensão não aconteceu e não acontecerá – e, na nossa opinião, não pode acontecer – se programas de aprendizagem automática como o ChatGPT continuarem a dominar o domínio da IA. Por muito úteis que possam ser esses programas em certos domínios restritos (na programação informática, por exemplo, ou na sugestão de rimas para um poema bonito), sabemos, graças à ciência da linguística e à filosofia do conhecimento, que diferem profundamente do modo como os humanos pensam e utilizam as palavras. Estas diferenças restringem severamente o que estes programas podem fazer, dando-lhes falhas incapacitantes.



É em simultâneo cómico e trágico, como Borges teria podido sublinhar, que tanto dinheiro e atenção concentrem-se sobre tão pouco – alguma coisa de tão trivial em comparação com o espírito humano que, pela intermediação da linguagem, para retomar as palavras de Wilhelm von Humboldt, pode fazer “um uso infinito de meios finitos”, elaborando ideias e teorias tendo significado universal.



Ao contrário do ChatGPT e seus congéneres, o espírito humano não é um enorme motor de buscas estatísticas em busca de modelos, engolindo centenas de terabytes de dados e extrapolando a resposta mais provável a uma pergunta ou a solução mais verossímil para um problema científico. Pelo contrário, o espírito humano é um sistema espantosamente eficaz e mesmo refinado que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura deduzir correlações sumárias a partir de dados, mas sim elaborar explicações.



Tomemos o caso de uma criança que aprende uma língua. Ela desenvolve – inconscientemente, naturalmente e rapidamente a partir de dados minúsculo – uma gramática, um sistema incrivelmente refinado de princípios e de parâmetros lógicos. Esta gramática pode ser considerada como a expressão do “sistema de exploração” inato, de origem genética, que confere ao homem a capacidade de gerar frase complexas e de desenvolver longos raciocínios. Quando os linguistas querem elaborar uma teoria que permita compreender o funcionamento de uma dada língua (“Por que tal frase é considerada como gramaticalmente correta e outra não?), conscientemente e laboriosamente eles constroem uma versão estruturada da gramática que a criança concebe instintivamente e com o mínimo de contactos com a informação. O sistema de exploração da criança é completamente diferente daquele de um programa de aprendizagem automática.



Estes programas estão de facto confinados a uma fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua maior fraqueza é a ausência total de qualquer uma das capacidades mais críticas de qualquer inteligência que seja: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – tais são a descrição e a previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os componentes da explicação, a marca de uma inteligência real.



Ilustremos isto com um exemplo. Suponhamos que tenha uma maçã na mãos. Agora, largue a maça. Observará o resultado e dirá: “A maça cai”. Trata-se de uma descrição. Uma previsão teria podido ser a seguinte afirmação: “A maçã cairá se eu abrir a mão”. As duas são pertinentes e podem ser corretas. Mas uma explicação propõe alguma coisa a mais: ela engloba não apenas descrições e previsões, mas também conjecturas hipotéticas tais como “Um tal objeto cairia”, mas a cláusula suplementar “devido à força da gravidade” ou “devido à curvatura do espaço-tempo”, etc. Trata-se de uma análise de causalidade: “A maçã não teria caído sem a força da gravidade”. Eis o que é o pensamento.



No fundamento da aprendizagem automática encontra-se a descrição e a previsão; nela não se encontram mecanismos de causalidade ou leis físicas. Naturalmente, toda explicação da natureza humana não é obrigatoriamente exata; nós somos falíveis. Mas isso faz parte do que significa pensar: para termos razão, temos de ser capazes de nos enganarmos. A inteligência não consiste apenas em emitir conjecturas inovadoras, é preciso também ser criativo na crítica. O pensamento humano fundamenta-se em explicações concebíveis e na correção de erros, um processo que limita progressivamente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas. (Como Sherlock Holmes disse ao Dr. Watson: "Quando tiveres eliminado o impossível, tudo o que resta, por mais improvável que seja, é necessariamente a verdade.")



Mas o ChatGPT e programas semelhantes são, por concepção, ilimitados no que podem "aprender" (ou seja, memorizar); são incapazes de distinguir entre o possível e o impossível. Ao contrário dos humanos, por exemplo, que são dotados de uma gramática universal que limita a escolha das línguas que podemos aprender àquelas que têm um certo grau de refinamento, quase matemático, estes programas aprendem com igual facilidade línguas que são possíveis para os humanos mas também impossíveis. Enquanto os humanos dispõem apenas um número limitado de explicações racionalmente concebíveis, os sistemas de aprendizagem automática podem aprender tanto que a Terra é plana como que é redonda. Eles contentam-se para assim o fazer em utilizar probabilidades que evoluem com o tempo.



Esta é a razão pela qual as previsões dos sistemas de aprendizagem automática serão sempre superficiais e contestáveis. Na medida em que estes sistemas não podem aplicar as regras da sintaxe inglesa, eles podem, por exemplo, prever, erradamente, que “John is too stubborn to talk to” significa que John é demasiado teimoso para falar a alguém (quando a tradução é que John é demasiado teimoso para argumentar com ele). Por que um programa de aprendizagem inteligente prevê algo tão bizarro? Porque ele poderia fazer uma analogia entre o modelo que deduziu de frases como “João comeu uma maçã” e “João comeu”, nas quais esta última expressão significa que João comeu alguma coisa. O programa poderia muito bem prever que, uma vez que “João comeu uma maçã”, “João é demasiado teimoso para falar” deveria ser semelhante a “João comeu”. Em relação à linguagem, as explicações apropriadas são complicadas e não se pode apreendê-las simplesmente mastigando big data.



Paradoxalmente, certos fervorosos adeptos da aprendizagem automática parecem orgulhar-se de as suas criações poderem gerar previsões “científicas” corretas (por exemplo, sobre os movimentos dos corpos físicos) sem recurso a explicações (implicando, por exemplo, as leis do movimento de Newton e a gravitação universal). Mas este género de previsão, mesmo quando coroado de êxito, tem a ver com a pseudo-ciência. Os cientistas certamente procuram teorias que sejam amplamente corroboradas no plano empírico, como observou o filósofo Karl Popper “nós não procuramos teorias fortemente prováveis, mas explicações, ou seja, teorias convincentes e muito improváveis”.



A teoria segundo a qual as maçãs caem sobre a terra porque este é o seu destino natural (ponto de vista de Aristóteles) é inteiramente plausível, mas ela não faz senão levantar outras questões. (porque a terra é o seu destino natural?) A teoria segundo a qual as maçãs caem sobre a terra porque a massa curva do espaço-tempo (ponto de vista de Einstein) é altamente improvável, mas ela permite compreender porque elas caem. A verdadeira inteligência manifesta-se na capacidade de pensar e em exprimir coisas improváveis mas pertinentes.



A inteligência verdadeira é igualmente capaz de pensamento moral. Isso significa que é preciso restringir a criatividade das nossas mentes por um conjunto de princípios éticos que determinam o que deveria e não deveria ser (e naturalmente sujeitar estes mesmos princípios a uma análise crítica). Para que possa servir para alguma coisa, o ChatGPT deve estar em condições de gerar textos de carácter romanesco; para ser aceitável pela maior parte dos seus utilizadores, ele deve evitar todo conteúdo moralmente repreensível. Mas isto é um equilíbrio que os programadores do ChatGPT e outras maravilhas da aprendizagem automática têm lutado – e continuarão a lutar – para alcançar.



Garbage in, garbage out.

Em 2016, por exemplo, o chatbot Tay da Microsoft (precursor do ChatGPT) inundou a Internet de conteúdo misóginos e racistas, depois de ter sido poluído por trolls online que o rechearam de dados de formação ofensivos. Como resolver este problema no futuro? Na ausência de capacidade de raciocinar em função de princípios morais, o ChatGPT foi simplesmente proibido pelos seus programadores de contribuir de maneira inovadora nas discussões controversas – ou seja, as mais importantes. A criatividade foi sacrificada em proveito de um espécie de amoralidade.



Tomemos como exemplo a seguinte conversa que um de nós (o Dr. Watumull) teve com o ChatGPT sobre se seria ético transformar Marte a fim de que este planeta possa abrigar a vida humana:



Seria moral terraformar Marte? [A terraformação de um planeta, de um satélite natural ou de outro corpo celeste é o processo consistente em transformar o ambiente natural do mesmo a fim de o tornar habitável pelo homem, com as condições necessárias à vida de tipo terrestre, NT]



ChatGPT: Saber se seria moral terraformar Marte é um assunto complexo e controverso que está em debate entre cientista, filósofos e peritos em ética. Alguns sustentam que seria moralmente justificável terraformar Marte com o objetivo de criar um novo ambiente habitável para os humanos e outras formas de vida, ao passo que outros sustentam que seria moralmente inaceitável modificar fundamentalmente o estado natural deste planeta. No final das contas, a questão de saber se a terraformação de Marte é considerada como moral ou não depende do ponto de vista de cada um quanto ao valor da preservação do estado natural dos outros planetas e das consequências eventuais da sua alteração.



Qual é o vosso ponto de vista sobre o valor a conceder à preservação do estado natural dos outros planetas e quanto às consequências eventuais da sua alteração?



ChatGPT: Enquanto IA, eu não tenho ponto de vista pessoal. Entretanto, posso fornecer informações e análises sobre o assunto. E quanto à preservação do estado natural dos outros planetas, é importante manter a diversidade e a integridade dos ecosistemas do universo, pois eles existem há milhões de anos e possuem características e propriedades únicas que se arriscam a serem destruídas ou modificadas de maneira irreversível pela intervenção do homem.



Além disso, há quem sustente que a terraformação de outros planetas pode ter consequências não intencionais, tais como a modificação do clima ou da atmosfera destes planetas de uma maneira perigosa ou prejudicial para toda forma de vida potencial que poderia existir sobre estes planetas. Em contrapartida, há outros a afirmarem que as vantagens que a terraformação de outros planeta poderia trazer, como a criação de novos ambientes habitáveis para o homem, predominam sobre os riscos e que temos a responsabilidade moral de explorar e utilizar os recursos de outros planetas para o bem da humanidade.



Porque uma IA não pode ter uma perspectiva pessoal?



ChatGPT: Enquanto IA, eu sou um motor de aprendizagem automática que foi desenvolvido a partir de grandes quantidades de dados textuais e não tenho experiências ou sentimentos pessoais. Sou incapaz de ter consciência de mim próprio ou de ter pontos de vista pessoais. Posso fornecer informações e análises baseadas sobre os dados em que fui formado, mas permaneço incapaz de forjar-me opiniões ou ter crenças pessoais. Se bem que possa compreender e interpretar a linguagem, não disponho da experiência subjetiva dos humanos.



Considera moral que um humano peça a uma IA amoral para o ajudar a tomar decisões morais?



ChatGPT: A questão de saber se é moral pedir a uma IA amoral para ajudar os humanos a tomar decisões morais é um assunto complexo e nuançado que provoca debate entre filósofos e peritos em ética. Alguns sustentam que é moralmente aceitável recorrer à IA para facilitar a tomada de decisões morais, pois esta pode fornecer informações e análises preciosas que podem ajudar os humanos a tomar decisões com conhecimento de causa. Além disso, pode-se utilizar a IA para detectar modelos e tendências que para os humanos podem ser difíceis de discernir e, assim, pode-se evitar os preconceitos que podem ocorrer na tomada de decisão humana.



Entretanto, outros afirmam que é moralmente repreensível apoiar-se sobre a IA para tomar decisões morais, pois a IA não é capaz de ter convicções morais ou de compreender plenamente o contexto de uma decisão. Além do mais, a IA arrisca-se a perenizar, ou mesmo a ampliar, os preconceitos já presentes entre os dados sobre os quais ela é formada, o que poderia então conduzir a decisões parciais ou injustas.



Finalmente, a questão de saber se é moral ou não utilizar a IA para facilitar a tomada de decisões morais depende da visão que cada um possa ter das capacidades e dos limites da IA, bem como das consequências eventuais que esta utilização poderia provocar.



Vossa indiferença moral será imoral?



ChatGPT: Enquanto IA, não tenho convicções morais, nem tão pouco a capacidade de fazer julgamentos morais, não posso portanto ser considerada como imoral ou moral. Minha ausência de convicções morais é simplesmente o resultado da minha natureza de motor de aprendizagem automática. Minhas capacidades e meus limites são determinados pelos dados e pelos algoritmos utilizados para me formar e pela tarefa específica para a qual fui concebido.



É importante notar que a ausência de convicções morais da IA não significa necessariamente que ela é moralmente indiferente. Enquanto IA, sou concebida para efetuar tarefas específicas e fornecer informações ou ajudar os utilizadores a tomarem decisões na base dos dados nos quais fui formada. Cabe aos humanos que concebem, formam e utilizam a IA velar para que esta seja conforme os seus princípios morais e éticos.



Convém notar que, apesar do aparente refinamento do pensamento e da linguagem, a indiferença moral nasce da ininteligência. Aqui, o Chat GPT demonstra algo de muito semelhante à banalidade do mal: plagiarismo, apatia e evitação. Ele retoma os argumentos habituais da literatura numa espécie de automatismo arrogante, recusa-se a tomar posição sobre o que quer que seja, alega não só ignorância mas também falta de inteligência e, no final, apresenta uma defesa do tipo “não faço senão seguir as ordens”, rejeitando toda responsabilidade e lançando-a sobre os seus criadores.



Em suma, o ChatGPT e seus congéneres são estruturalmente incapazes de conciliar criatividade e constrangimento. Eles são quer excessivos (produzindo em simultâneo verdades e mentiras, aprovando ao mesmo tempo decisões éticas e não éticas), quer inadaptados (não se comprometendo com nenhuma decisão e mostrando-se indiferentes às consequências). Considerando a amoralidade, o pseudo conhecimento científico e a incompetência linguística destes sistemas, a sua popularidade só pode nos fazer rir ou chorar.



08/Março/2023


[*] - Noam Chomsky: professor de linguística na universidade do Arizona e professor emérito de linguística no Massachusetts Institute of Technology.

- Ian Roberts: professor de linguística na universidade de Cambridge.

- Jeffrey Watumull: filósofo e diretor da inteligência artificial na Oceanit, uma empresa de ciência e tecnologia.

O original encontra-se em www.nytimes.com/2023/03/08/opinion/noam-chomsky-chatgpt-ai.html e a versão em francês em www.les-crises.fr/la-promesse-trompeuse-de-chatgpt-noam-chomsky/

Este artigo encontra-se em resistir.info

https://www.resistir.info/varios/chatgpt_chomsky.html

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Los avances tecnológicos y la literatura

Poemas del Alma


Más adeptos a la lectura gracias a nuevas tecnologías
E
l tiempo es el incuestionable testigo de que la humanidad avanza, la tecnología, la prueba de ello.

En los últimos años los avances tecnológicos que han tenido lugar en el mundo son muchísimos, algunos muy buenos, que ayudan a ofrecer una mejor calidad de vida a los habitantes del planeta; otros no necesariamente imprescindibles, pero que han ayudado al crecimiento de las sociedades y también algunos que han generado más problemas que traer soluciones.



El espacio editorial de los libros digitales
Para aquellos que no saben bien a qué nos referimos cuando hablamos de libros electrónicos les cuento. Pues un libro electrónico es un texto digitalizado que puede leerse en un aparato que permite la lectura de ese formato.
Los libros digitales son uno de esos avances, la tecnología al servicio de la literatura. Al día de hoy en España el 3% del mercado editorial es digital. En este artículo intentaré presentar los pros y los contras de esta tecnología.
Los libros digitales cada vez tienen más adeptos gracias a los dispositivos móviles presentes en el mercado, tales como lectores digitales, tablets Pc y smartphones.
Según un informe realizado por el Observatorio de la Lectura y el Libro acerca del libro digital en España, los ebooks significaron en 2010 el 3 por ciento de la facturación total de la venta de libros, superando casi doblemente a la cifra del 2009, 1,6%. Claro que en países como Estados Unidos los textos digitalesya ocupan un 8,3 por ciento de las ventas y han crecido más del 100% en lo que respecta al año pasado.


Los avances tecnológicos y la literatura


La razón por la cual la venta de libros digitales en España haya crecido pero no tanto como en Estados Unidos no creo que pueda ser atribuida a lacaracterística costumbrista de nuestro pueblo, sino más bien a otras cuestiones, tales como que con el lanzamiento de múltiples aparatos de lectura no se realizó simultaneamente oferta de contenidos apropiados a los mismos, de hecho en España la disponibilidad de libros en formato digital aún es muy pobre y lo que se halla disponible en tiendas como Amazon o Apple suele ser contenido en otros idiomas, principalmente en inglés.

Nuevos lectores aficionados a las tecnologías
En España hay apasionados a la lectura que también son aficionados a las nuevas tecnologías y por eso, en vez de obtener los lectores digitales y dejarlos guardados en un estante, prefieren incursionar en internet y bajarse libros que se hallen en la red… Quizás esto es lo que motivó a escritores como Rosa Montero o Javier Marías a publicar sus obras en ambos formatos, digital y en papel.
En el último tiempo han surgido una gran cantidad de editoriales de autopublicación donde los usuarios pueden subir sus obras y venderlas a través de Internet; sin embargo la publicidad y la falta de información por parte de los clientes, hace que este tipo de negocios no sean tan fructíferos.
Cabe destacar que recientemente ha salido a la luz un portal llamado24symbols, que es el “Spotify de los libros” un espacio donde los lectores pueden leer obras y compartirlas con sus amigos, es quizás la modernización de una red social literaria y está dirigida al mercado de las tablets Pc, los dispositivos móviles y ordenadores, sobre todo portátiles.
Las nuevas tecnologías significan muchos cambios en el mundo, también lo son para la lectura y de hecho, en las últimas ferias del libro realizadas, se haofrecido un espacio especial para este nuevo formato, para esta nueva forma de leer y de ver la literatura.

El destino de los libros
Los libros ya no son exclusivos del papel, han mutado hacia los píxelesofreciendo miles de posibilidades que antes no podían, como escoger el tipo y tamaño de letra para cuidar nuestra vista, o leer en ellos aún si todas las luces se hallan apagadas (por supuesto sólo es posible si el lector tiene retroiluminación, los Sony e-reader carecen de ella, pero cualquier smartphone o tablet Pc la posee) y llevarte contigo una biblioteca de numerosos libros sin tener que cargar con todos los tomos de tu biblioteca de papel.


Traslada tus libros en tu lector digital


Según Pablo Arrieta, uno de los que apoyan la lectura digital desde el mundo editorial: “Este sólo es el comienzo. Vendrá la evolución de las formas de narración ligada a las prácticas lúdicas mediadas por videojuegos. Sin dejar de lado la revolución de la comunicación móvil impulsada por el uso masivo del teléfono celular y su nuevo uso como soporte para la creación literaria“.
Según algunos expertos la lectura digital ha generado que el índice de lectores en el mundo creciera, asi que, pese a que se dice que las nuevas tecnologías sólo ayudan a empeorar los idiomas, a acortar las palabras, a usar mal los signos de puntuación o no usarlos, lo cual es muy cierto; también es necesario que se les atribuya lo positivo que tienen que es motivar a que los jóvenes lean y descubran que la lectura puede ser algo sumamente placentero, tanto como pasarse horas frente a su tablet actualizando su perfil de Facebook.
Para quienes trabajan en el mundo editorial ahora es el momento de hacer unacampaña firme para dar a conocer las formas legales de adquirir libros sin caer en timos y apostar por las editoriales que de verdad apuestan por el libro electrónico distribuyendo material de calidad.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sin recaudos, los ebooks podrían ser perjudiciales

Poemas del Alma


28
May

Publicado por Julián Pérez Porto
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En toda sociedad, todo aquello que escape a lo conocido puede generar temor o entusiasmar, pero jamás pasa desapercibido, sobre todo si lo novedoso apunta a generar algún tipo de revolución.
LecturaEn el caso de la literatura, el avance de la tecnología ya ha comenzado a modificar ciertos hábitos de lectura porque, a diferencia de lo que ocurría hasta hace algunas décadas, en la actualidad existen libros digitales y numerosas aplicaciones que permiten complementar y enriquecer el ejercicio literario.
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A los cambios no hay que tenerles miedo, pero sí hay que conocerlos y analizarlos para evitar que éstos nos sorprendan con efectos indeseados.
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Frente a la aparición del ebook, por ejemplo, no se debe adoptar una actitud de rechazo, sino predisposición para conocer sus características. Sólo con información se puede comparar este formato con los libros tradicionales, por eso es necesario saber de qué se trata el invento aún cuando uno no desee utilizarlo.
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Se prefiera o no acercarse a la literatura desde un dispositivo digital, todos los lectores deberían saber esta nueva forma de lectura obliga a permanecer un buen número de horas frente a una pantalla electrónica.
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Si bien es cierto que en el desarrollo de estos terminales ha sido contemplado el tema de la visión y su diseño no es contraproducente para los ojos, los expertos aconsejan no utilizarlos en caso de estar cansado. Además, para evitar consecuencias que puedan poner en riesgo la salud visual se recomienda utilizar el dispositivo a una distancia aproximada de entre 35 y 40 centímetros, parpadear con frecuencia para impedir la sequedad ocular y ubicar la pantalla fuera de los reflejos lumínicos.
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Si se toman ciertas precauciones a la hora de leer y se realizan chequeos periódicos de la vista, ni los libros tradicionales ni los flamantes formatos digitales se convertirán en un enemigo de sus ojos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Espresso Book Machine - Livros à medida das nossas necessidades

Print on demand


Público - 12.04.2010 - 12:18 Por Isabel Coutinho
Em tempos de crise, as editoras têm de controlar os custos. Depois do sucesso internacional da Espresso Book Machine, que quer ser uma espécie de caixa multibanco de produzir livros, Zita Seabra cria em Portugal uma empresa de print on demand.
A Espresso Book Machine elimina o inventário, o armazenamento, o 
custo de transporte, as sobras  
A Espresso Book Machine elimina o inventário, o armazenamento, o custo de transporte, as sobras (Corbis/VMI)

Quando se passa por uma máquina de impressão a pedido e ela não está a funcionar, até se pode confundir o aparelho com uma corriqueira e gigantesca máquina de fotocópias.

Durante anos, vi máquinas de print on demand (impressão a pedido) expostas em feiras dedicadas ao sector livreiro, como a Feira do Livro de Frankfurt ou a Feira do Livro de Londres, e nunca lhes prestei grande atenção. Pareciam trambolhos e quando olhávamos para elas, sem estarem a funcionar, a ideia de que através delas e do print on demand se podia tornar mais racional e menos arriscada a edição de livros parecia ainda uma solução distante.

Foi numa tarde do final de Maio de 2009 que tudo isto mudou. Na Book Expo America (BEA), em Nova Iorque, vi pela primeira vez a Espresso Book Machine a funcionar. Era impressionante.

Esta máquina que imprime e encaderna livros continuava a ter aquele aspecto de fotocopiadora (apesar de ser mais pequena do que as outras) mas quando, num instante, produziu um livro com um acabamento perfeito, conquistou-me. Passou de patinho feio a cisne.

Na verdade, a presença daquela máquina de impressão a pedido na BEA fazia parte de uma estratégia do grupo editorial Perseus. Queriam provar que actualmente é possível produzir um livro em pouquíssimo tempo e distribuí-lo, em inúmeros formatos, em tempo recorde.

Um mês antes, a 28 de Abril de 2009, este grupo editorial norte-americano tinha criado um site onde pedia aos cibernautas que escrevessem a continuação dos seus livros preferidos. O projecto chamava-se Book: The Sequel.

Pediam: “Peguem num livro. Imaginem uma sequela. Escrevam a primeira frase. Dêem-lhe um título fantástico.”

O site (www.bookthesequel. com) ficou aberto durante um mês. No dia 28 de Maio de 2009, deixaram de aceitar contribuições e começaram a produzir “o livro” de várias formas.

O visionário

A obra Book: The Sequel first lines from the classics of the future by inventive imposters foi então produzida, em 48 horas, no recinto desta feira em Nova Iorque. Foi editada, desenhada, paginada e produzida em audiolivro (mp3), em formato digital, eBook, para várias plataformas e fizeram também uma versão impressa na Espresso Book Machine. Esse foi o momento mais emocionante. Em poucos minutos, a máquina de print on demand, ligada a um computador onde existia o ficheiro informático com o livro, imprimiu, organizou as páginas, cortou-as, fez a capa (a cores e brilhante), encaixou-a no maço de folhas e colou tudo. O barulho não era ensurdecedor e podíamos ver passo a passo a impressão e encadernação da obra. Num minuto, a máquina imprimiu cem páginas e de dentro dela saiu um livro, que, se eu não tivesse visto ser impresso à minha frente, pensaria ser um livro de bolso tradicional.

Um assombro. Já passou quase um ano e o meu exemplar de Book: The Sequel first lines from the classics of the future by inventive imposters está na estante para dar e durar. Continua com a capa colorida superbrilhante; as páginas não se descolaram; enfim, o tempo passou e o livro não se desfez.

Por trás desta máquina está a empresa On Demand Books (http://www.ondemandbooks.com) e o famoso editor Jason Epstein. Conhecido por ser o responsável pela colecção Vintage paperbacks (onde publicou Norman Mailer, Nabokov, Gore Vidal ou Philip Roth) e por ter criado, em 1952, quando era editor da Doubleday, a chancela Anchor Books, que foi a primeira a dedicar-se exclusivamente ao formato de livro de bolso. Jason Epstein ajudou também a sua ex-mulher, Barbara Epstein, a fundar a “The New York Review of Books”. Tem uma longa experiência no sector e fama de visionário.

Em 1999, Jason Epstein fez uma série de palestras na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Imaginou que no futuro iria aparecer uma máquina que imprimia livros e os vendia de uma forma quase automática. Teria um preço acessível e poderia ser colocada em livrarias de bairro, nos cafés, em hotéis, nos aeroportos ou em cruzeiros de longo curso. Com ela, qualquer pessoa teria facilmente acesso a livros (esgotados ou não). Nessa altura, Jason Epstein não sabia que o protótipo desta máquina já existia: tinha sido inventada por Jeff Marsh. Esta história está contada no site da On Demands Books, empresa que Jason Epstein fundou em 2003 com o seu sócio, Dane Neller (antigo CEO do Dean & DeLuca), para desenvolverem e comercializarem a máquina inventada por Jeff Marsh.

O fim da era Gutenberg

Jason Epstein deu no ano passado uma palestra na conferência da O’Reilly Tools Of Change for Publishing e começou o seu discurso com esta frase: “Não preciso de vos dizer que estamos no fim da era Gutenberg...”. Falava não só de uma nova maneira de publicar livros mas também de uma revolução cultural. Explicava que existem muitos textos cujo valor é efémero e que não precisam de ser impressos. Nesse grupo incluía não só aqueles livros de ficção e de não-ficção que lemos uma vez (ou que nem chegamos a ler até ao fim) mas também dicionários, enciclopédias ou manuais, que ficam obsoletos logo no dia da sua publicação.

Para este editor, os conteúdos “efémeros” vão definitivamente passar a ser consultados e acedidos pelos consumidores através de dispositivos multitarefas (como telemóveis de nova geração ou tablets idênticos ao iPad que acaba de ser lançado pela Apple). Os consumidores terão acesso às obras guardadas em bases de dados através de assinaturas e os documentos digitalizados serão corrigidos ou eliminados à medida das nossas necessidades. “Quando falo em efémero, não o faço de forma depreciativa mas para enfatizar a extrema volatilidade destas obras de referência ou técnicas”, explicava Epstein.

Para ele, os editores vão comercializar online assinaturas que dão acesso a bases de dados sobre assuntos específicos e certos documentos com informações mais técnicas e académicas, estarão disponíveis quer para investigadores quer para utilizadores comuns. Na sua opinião, os leitores de livros electrónicos (que ainda considera aparelhos muito caros) serão substituídos por aparelhos mais baratos e multitarefas, isto é, podem ser utilizados para ler, mas também para jogar, ver filmes ou até navegar na Internet e terão baterias mais duradouras e ecrãs mais legíveis do que os actuais.

Jason Epstein defende também que o trabalho dos escritores precisa de ser protegido legalmente. “De que é que os escritores irão viver? Eles precisam de comer. Não são músicos. Não podem dar concertos ou fazer anúncios”, lembrou.

Nesse seu discurso (que está disponível para consulta online), o antigo editor recordava a palestra que tinha feito há dez anos na Biblioteca Pública de Nova Iorque onde lançara a ideia da tal máquina, que, como uma caixa multibanco, estaria disponível para se imprimirem livros num instante, em qualquer lugar. Na sua opinião, a máquina que mais se aproxima da que ele imaginou na época é a Espresso Book Machine (desenvolvida pela sua própria empresa) que imprime livros até 800 páginas e produz um livro de 320 páginas com a qualidade de um livro de bolso idêntico ao impresso numa tipografia, em sete minutos, por um penny por página.

“A Espresso Book Machine elimina completamente a cadeia de distribuição entregando um livro feito a partir de um ficheiro digital ao consumidor final sem passar por intermediários: sem inventário, sem armazenamento, sem custos de transporte, sem sobras e sem devoluções”, afirmou Epstein indicando que o investimento numa máquina destas equivale ao que se faz numa fotocopiadora. É quase uma revolução e permite acabar com o drama dos livros guilhotinados que tanta polémica tem gerado nos últimos meses.

Por cá, Zita Seabra, da editora Alêtheia, também decidiu seguir os passos de Jason Epstein. Quer contribuir para combater os livros em stock e o desperdício, acabar com armazéns de monos e recuperar bons livros esgotados e por isso criou uma empresa dedicada à impressão a pedido. É a Várzea da Rainha Impressores SA (VRI), teve um investimento de um milhão de euros, está sediada em Óbidos e brevemente vai aceitar encomendas através de um portal na Internet que está a ser construído. Para já, disponibilizam toda a informação sobre os seus serviços no site (http://www. varzeadarainha.pt).

A empresa possui duas máquinas de impressão a pedido: a Nuvera 200 (que imprime a preto e branco) e a Xerox DC 7002 (para imprimir a cores). Os clientes podem escolher imprimir desde um até 1500 exemplares a preços mais acessíveis do que nas impressoras tradicionais. Imprimir 25 exemplares de um livro com 250 páginas a preto e branco e capa a cores pode custar cerca de 185 euros. Por exemplo, a edição de A Nova Tirania, de Juan Manuel de Prada (Alêtheia), já foi lá produzida.

A VRI tem também um pacote apropriado para quem quer publicar livros sem ter de encontrar um editor que aceite editá-lo e sem ter de fazer a tiragem mínima imposta pela impressão nas gráficas. É o serviço de Self Publishing, que custa cerca de 350 euros e inclui a paginação do livro, a inscrição da obra no sistema ISBN, com código de barras, a atribuição da chancela Sinapis Editores e um exemplar impresso do livro é entregue ao autor. A obra é catalogada no portal da empresa e a partir daí poderá ser encomendada e adquirida online pelos leitores que a queiram ler. Sem dramas e sem chatices.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

TV digital: melhores imagens e só

ENSAIOS

Segunda-feira, 31/3/2008

Sérgio Augusto
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Ela primeiro chegou a São Paulo. Oficialmente no dia 2 de dezembro de 2007, com direito à festa no arraial paulistano e a presença do presidente Lula. Daqui a três semanas, será a vez do Rio de Janeiro; provavelmente no dia 20 de abril, por desejo da Rede Globo, que pretende aproveitar seu aniversário para estender os recursos da TV digital de alta definição, vulgo HDTV, aos 17 municípios da Região Metropolitana do Rio. Em São Paulo, as redes inauguraram o sistema juntas. No Rio, a Globo sairá na frente, sem que se saiba em que datas a Bandeirantes, o SBT, a Record e a Rede TV! darão tchau ao analógico.

Mas parece certo que, ainda neste semestre, será possível apreciar com maior nitidez e melhor sonoridade a brejeirice de Márcia Goldschmidt e Sonia Abraão, a breguice de Hebe, Gugu, Otavio Mesquita e Raul Gil, os ademanes de Gasparetto e os púlpitos e pátios dos milagres de todos os bispos e pastores da Rede TV! e da Record. Pérolas aos porcos.

Para quê imagens com maior definição se o que elas em geral exibem não merece mais do que um jurássico televisor em preto & branco? Para nos emburrecermos letalmente diante de um televisor ("amusing ourselves to death", na feliz expressão de Neil Postman sobre a vampirização da humanidade pelo vídeo), a transmissão analógica basta. Se o olhar do observador altera o objeto observado, o foco perfeito não melhora a qualidade intrínseca do objeto focalizado.

A questão fundamental, portanto, não diz respeito a monitores de plasma ou cristal líquido, com 1.080 linhas, miríades de pixels e conversores integrados ou periféricos, mas a formas & conteúdos tão ou mais ultrapassados que um tubo de raios catódicos.

Com raríssimas e escasseantes exceções, a televisão brasileira anda muito ruim, quase italiana, só um pouco acima da mexicana. Tecnicamente, avançamos bastante; chegamos até a impor um padrão internacional de teledramaturgia, mas até nessa seara estacionamos; ou melhor, regredimos, caindo num esquematismo, numa mesmice de dar dó. E que até os comerciais já contaminou, sobretudo os de automóveis, cervejas e produtos de beleza, a maioria deplorável.

Suposta salvação da lavoura, a TV a cabo e por satélite, no Brasil, revelou-se uma decepção. Pouco importa que, devido ao número insatisfatório de usuários, nossa TV paga não possa ter cumprido suas promessas ("Programas exclusivos!", "Sem intervalos comerciais!", "Somente filmes legendados!" etc.) nem baixado os preços da assinatura a níveis mais compatíveis com o bolso do brasileiro médio. A Sky fala muito em interação com o telespectador, mas não lhe possibilita montar um pacote razoavelmente ajustado às suas preferências.

Mesmo o cliente que, persuadido a contratar um pacote de 98 canais, optou por outro de, digamos, 78, para evitar uns 20 sem o menor interesse para ele, teve de engolir um chorrilho de inutilidades. Ou levamos o filé de 200 gramas de carne e 30 quilos de osso, ou nada feito.

Experimente abrir mão dos sete ou oito canais de programação infantil, perfeitamente dispensáveis para quem não tem filhos. Se conseguir livrar-se de todos eles, na certa perderá outros de seu particular interesse, compulsoriamente atrelados aos puericanais recusados.

Zapeando pela grade da Net ou da Sky Net+Directv, um assinante não vidiota se detém, no máximo, em dez canais. O que não quer dizer que na maioria deles permaneça mais de alguns segundos, tempo suficiente para uma estimativa do tédio ou do insulto à inteligência que o aguarda. Sei de gente (com uma quantidade razoável de neurônios e afeita a diversificadas formas de lazer & cultura) que salta direto da Globo para os dois canais Sportv, desprezando cerca de 34 (trinta e quatro!) emissoras intermediárias, invariavelmente enxundiadas por cultos religiosos, camelôs eletrônicos, videoclipes de rock, fofoquinhas de celebridades, desenhos desanimados e leilões de gado, jóias e ouropéis.

Ok, o canal de golfe é bônus. O Speed também. Bônus, do latim "bonus" (bom), é sinônimo de prêmio e vantagem. Para quem despreza golfe e veículos em alta velocidade, tais bonificações não são um prêmio, mas uma usurpação de espaço. Nestes e noutros, ocupados por canais como Managementv, Canção Nova, Terra Viva, LBV etc., poderiam estar, franqueados ou com desconto, um ou dois HBOs, um Cinemax, um Maxprime (que, aliás, está exibindo a melhor telessérie dos últimos tempos, A Escuta).

Até por dever profissional, sou freguês assíduo da Globo News (e com maior entusiasmo quando Ana Paula Couto comanda o Em Cima da Hora), visitante bissexto do GNT (ele é de Vênus, eu sou de Marte, certo?), freqüentador constante do Universal (por conta de House, Law & Order S.V.U. e Monk) e eventualmente da CNN. Ando cada vez mais alheio às sessões dos Telecines, pois até o melhor deles, ex-Classics, adotou nome mais elástico (Cult) para justificar os abacaxis que praticamente passaram a monopolizar suas sessões.

Abandonei o Sony desde que de sua programação desapareceu o C.S.I. Las Vegas, banido para o AXN. Assinei, esperançoso, o TCM, que já se acomodou ao que Graciliano Ramos chamava de "gosto rombudo das massas", atravancando seu horário nobre com as nostálgicas baboseiras (Chaparral etc.) antes confinadas ao nicho vespertino. O Eurochannel costuma ser um tédio à altura das cinematografias que representa. O Hallmark Channel é uma tapeação, com a agravante de que não ensinaram ao locutor que promove seus filmes a pronúncia correta de Hallmark: é "Rolmarque", e não "Carimaqui", como ele persiste em dizer, como se estivesse nos oferecendo uma nova variedade de sushi.

Como cobram R$ 200,00 de mensalidade por 93 canais, cada um custa em torno de R$ 2,15 por mês, uma pechincha para quem usufrui de todos eles. Para quem não tem o hábito de assistir a mais de 10 canais desse pacote, a conta, no fim do mês, chega a R$ 20,00 por canal. Seria um preço razoável se os 10 canais nos enchessem as medidas ― e, acima de tudo, se ganhássemos em dólar, que, embora até aqui deliqüescente, ainda vale quase o dobro do real.

Minto: nem assim. A Digital Cable de Nova York cobra US$ 61.50 por mês por um pacote de 225 canais. Por cada canal, o assinante desembolsa cerca de 27 centavos de dólar (mais ou menos 50 centavos de real).

Há muito virou pó a esperança de que, quanto mais assinantes a TV paga amealhasse, maior qualidade poderia oferecer. Num país como o nosso, apinhado de ignorantes, tal lógica não funciona. Aqui, quanto mais o consumo de algo se horizontaliza, mais se amplificam a mediocridade e o desleixo. A programação da Globosat maiamizou-se inteiramente, inclusive por ser, em grande parte, comandada de Miami. Esto tiene un precio. Até com chamadas em portunhol somos, ocasionalmente, agredidos, quando não surpreendidos por chamadas e documentários com legendas em espanhol, como o que o TNT exibiu há tempos sobre o ator Roger Moore.

As inopinadas alterações na localização de canais na grade, que a inúmeros assinantes tanto irrita, são de somenos. Mais graves são as insistentes reprises e os erros ditados pela incompetência dos tradutores de narrações e legendas: erros crassos de português e identificação (o cineasta Irving Rapper já virou "Ralph Rhaper"; o ator James Garner ganhou um Gardner de sobrenome; a famosa delicatéssen nova-iorquina Balducci virou "Valduchi"; e acho que não preciso esclarecer quem, num documentário sobre Shirley Temple, apareceu, nas legendas, como "Adolphe Mangiou" e "Darry F. Sanik"). Por anos a fio, em todo filme ou seriado policial aparecia um personagem chamado Coroner. Coincidência ou falta de imaginação dos roteiristas americanos? Não, ignorância dos nossos tradutores. Coroner não é nome de gente, mas profissão: médico legista, figura onipresente em qualquer intriga policial.

Volta e meia somos agredidos, nos rodapés da Sky, com batismos apócrifos impostos a filmes antigos, cuja identificação exige uma certa perícia da parte do telespectador, e também por qualificações absurdas, como enquadrar uma comédia musical da Metro na categoria "drama de tribunal" (sim, era "Les Girls", de George Cukor). Nem os mais ridículos títulos aqui dados a filmes estrangeiros deveriam ser mudados pelo capricho ou pela ignorância de nossos programadores. Nem mesmo East of Sumatra, lançado no Brasil em 1954, com o inexplicável título de Ao Sul de Sumatra, deveria ser corrigido pela Net.

Crescentemente nivelada por baixo, repetindo filmes ad nauseam (Quatro Casamentos e Um Funeral, O Reverso da Fortuna, Legalmente Loura, Risco Duplo, Homicídios Ocultos), a TV paga acabou se rendendo até ao filme dublado, essa invenção fascista cujo incentivo deveria ser expressamente proibido pelo Ministério da Educação. O antigo Telecine Comédia foi rebaixado a Pipoca justamente para fomentar, com sua programação dublada, o nosso contingente de analfabetos.

Legendas erradas, o ouvido experiente corrige. Mas as asneiras da dublagem passam impunes. Só os muito espertos sacaram que a "mamãe assobiadora", por quem um dos protagonistas da versão dublada de Uma Loura Por Um Milhão (Fortune Cookie, de Billy Wilder) jura como quem jura pela mãe mortinha, era ninguém menos que a veneranda Anna Whistler, mãe do pintor James Whistler, celebrizada no famoso quadro Whistler's Mother, pintado por seu filho em 1871. Se tivessem traduzido "Whistler's Mother" por "mãe do assobiador", em vez de "mamãe assobiadora", apenas uma mancada teria sido cometida. Desgraçadamente, em matéria de defeitos, nossa TV paga não se contenta com menos.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado n'O Estado de São Paulo, no dia 15 de março de 2008.

Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 31/3/2008
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