Mostrar mensagens com a etiqueta Blog Voar Fora de Asa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Blog Voar Fora de Asa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Pablo Neruda - O Povo




* Pablo Neruda

O povo passeava as suas bandeiras rubras
e estive no meio deles, na pedra que tocavam,
na jornada fragorosa
e nas altas canções da luta.
Vi como iam de conquista em conquista.
Só a sua resistência era caminho
e, isolados, eram como estilhaços
duma estrela, sem boca nem brilho.
Juntos, na unidade feita silêncio,
eram o fogo, o canto indestrutível,
a lenta passagem do homem sobre a terra,
feito profundidades e batalhas.
Eram a dignidade que combatia
o que fora espezinhado, e despertava,
como um sistema, a ordem das vidas
que batiam à porta e se sentavam
com as suas bandeiras na sala central.

in “Canto Geral

http://voarforadaasa.blogspot.com/2020/02/o-povo-pablo-neruda.html

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Han-Shan - Tudo o que vejo são tolos…

* Han-Shan


Tudo que vejo são tolos
Empilhando mais e mais alto ouro e grãos
Ficando bêbados e comendo criaturas
Imaginando que estão se dando bem
Inconscientes do abismo do Inferno
Buscando apenas a felicidade dos Céus
Mas com karmas como Vipula*
Como podem escapar do desastre?
Subitamente quando o homem rico morrer
As pessoas se acotovelam ao redor se debulhando em lágrimas
Então contratam algum monge para cantar
Apesar de tal paga fantasmagórica ser nula
E providenciar bênçãos futuras
Por que sustentar os carecas?
Melhor despertar ainda a tempo
Não crie um inferno de escuridão
Seja uma árvore que não teme vento algum
Firme e amovível pelo destino
Diga aos tolos que for encontrando por aí
Que deem ao menos duas lidas nisto.


* Vipula é o nome de uma montanha na Índia. Quer dizer “enorme” em sânscrito e era com frequência usada pelo Buda como uma metáfora para coisas sem limite aparente.



Han-Shan, poeta zen do século IX
Tradução: Monge Marcos Ryokyu.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Rainer Maria Rilke - Deus, que será de ti... (Was wirst du tun,Gott...)

(duas traduções e o original)

Deus, que será de ti...

Deus, que será de ti, quando eu morrer? 
Eu sou teu cântaro (e se me romper?) 
A tua água (e se me corromper?) 
Sou teu agasalho, sou teu afazer. 
Vai comigo o significado teu. 

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus, 
que com quentes palavras te acolhia. 
Perdem teus pés exaustos as macias 
sandálias: também elas eram eu. 

De ti desprende-se o teu longo manto. 
O teu olhar, que a minha face, quente 
coxim acolhe, virá entrementes, 
virá procurar-me longamente 
e deitar-se depois, ao sol poente, 
entre pedras estranhas, nalgum canto. 

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


trad. José Paulo Paes

- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.


Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)


Was wirst du tun,Gott...

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel läßt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.



RILKE, Rainer Maria. "De O livro das horas". Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
trad. José Paulo Paes
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 09:39 
http://voarforadaasa.blogspot.pt/2016/08/deus-que-sera-de-ti-rainer-maria-rilke.html

terça-feira, 24 de maio de 2011

Esteiros - Soeiro Pereira Gomes - ilustrações de Álvaro Cunhal




TERÇA-FEIRA, 14 DE ABRIL DE 2009
Esteiros - Soeiro Pereira Gomes


Esteiros

"Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro."





Ilustrações de Álvaro Cunhal






Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mãos de lama que só o rio afaga.

O U T O N O





1


Fecharam os telhais. Com os prenúncios de outono, as primeiras chuvas encheram de frémito o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. -- Vento para enxugar e sol para calcinar -- sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.
Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
-- Indústria pobre, senhor Castro -- chorava-se o Zé Vicente ao pagar a renda do terreno. -- Indústria pobre... -- E era.
Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe -- sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia sete de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumentos de lata e cega-regas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao ceu. Patrõese mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: -- Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornadaé o resto. -- Mas a cadência dos assos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.
Ali se guardava o suor dum verão de fadigas, Vento e sol; fadigas e suor -- era o que os telhais queriam.