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quinta-feira, 30 de março de 2017

A Vermelha, de Iúri Amador



  • Domingos Lobo 


A cultura como modo de resistir aos muros de nojo do fascismo
A Cultura Resistente
A Vermelha, de Iúri Amador


Uma das mais profícuas formas de resistência aos fascismos de Salazar e Caetano foi, entre nós, protagonizada pela Cultura, ou seja, a partir de corajosos actos de intervenção cultural, tendo como espaço privilegiado de acção as colectividades populares de desporto, cultura e recreio.


A geração neo-realista conhecia estes espaços e neles desenvolvia diversas funções, desde as de dirigente associativo, de organização de bibliotecas, passando por questões ligadas ao ensino, desde a alfabetização, até aulas de francês, matemática e história, suprindo, desta forma, nos meios rurais e operários, a quase inexistência de uma rede da escola pública acessível ao proletariado.


Foi assim, em Vila Franca de Xira, apodada a vermelha pelos esbirros do fascismo, que o grupo neo-realista, Alves Redol, Dias Lourenço, Bona da Silva, Garcez da Silva, Soeiro Pereira Gomes, Arquimedes da Silva Santos, Rodrigues Faria, Carlos Pato e Jorge Reis, tendo em conta os números avassaladores de analfabetismo no concelho, com uma média de 67 por cento nos anos 1930, atingindo nas freguesias rurais (S. João dos Montes e Calhandriz) os 90 por cento, assumiram o desenvolvimento cultural das populações como tarefa prioritária, espaço onde sobrevivia a esperança, a liberdade e, sobretudo, a lucidez que era necessário manter no meio do caos social imposto pelo salazarismo, tendo a cultura como espaço de batalha que os intelectuais travaram contra o fascismo. E quando a liberdade política faltou, esses intelectuais, afastados do espaço público, foram mais longe e entenderam a cultura como a própria batalha,1 dado que só havia uma razão válida e apaixonante: o amor pela humanidade e o fortalecimento de uma sensibilidade colectiva ético-moral como modo de resistir e inventar o futuro. 


Um percurso e um tempo


O Grupo Neo-Realista de Vila Franca foi pioneiro dessa desordem cultural contra o fascismo e as várias repressões que o constituíam. Dos primeiros textos publicados no Mensageiro do Ribatejo, onde saiu o poema Turbilhão (1936)de Dias Lourenço que transportava já a temática, o ambiente metafórico do neo-realismo, até à famosa conferência de Redol sobre Arte, realizada em 36, no Grémio Artístico Vilafranquence, à criação e dinamização de bibliotecas no Ateneu, no Sport Lisboa e Vila Franca, no Ginásio onde, segundo António Redol, se formou uma biblioteca que foi a mais importante das existentes em Vila Franca, na qual nem sequer faltavam livros de Eça e de outros autores da Geração de 70, de Gladkov, Bukharine, Plekhanov, Gorki, Zola, Barbusse, Romain Rolland. A biblioteca organizada por Soeiro na Euterpe Alhandrense, os colóquios, os recitais, palestras de Redol sobre a música das gentes da bord’ água, de Soeiro sobre a evolução do universo, de Agostinho da Silva sobre petróleo, etc. A cultura como modo de resistir aos muros de nojo do fascismo, que juntava em seu torno um largo punhado de jovens intelectuais, pescadores, operários fabris e rurais, que tinham a consciência plena do país que habitavam e do meio em que a sua acção se desenvolvia e que tentaram, e em muitos aspectos conseguiram, modificar o estado das coisas, quer promovendo eventos culturais para além dos literários (teatro, cinema, artes plásticas), até à acção política, camuflada nos famosos passeios do Tejo e de acção directa nas fábricas de Alhandra, Vialonga, Alverca e Póvoa.


Além da particularidade dos aspectos culturais, éticos e políticos desenvolvidos pelos autores neo-realistas, o ensaio A Vermelha, de Iúri Amador, persegue de modo crítico e teórico a História da Resistência ao Estado Novo no Concelho de Vila Franca de Xira, entre 1926 e 1974; caracteriza de forma profunda e informada um concelho que reuniu, durante décadas, graças à sua privilegiada situação geográfica, condições singulares de desenvolvimento social, económico e cultural que marcaram, indelevelmente, um percurso e um tempo. Ali se deram os «primeiros passos» da resistência do PCP; a organização de importantes surtos grevistas (o 8 e 9 de Maio de 1944); a resistência do pós-guerra; os «anos do silêncio» (1950/57); a radicalização contra o Marcelismo, etc. De tudo isto nos fala o ensaio de Iúri Amador, livro que vem situar, de forma quase sempre correcta e lúcida, o lugar fundamental que a resistência dos comunistas, seus companheiros e aliados, tiveram no processo histórico, mesmo que condicionado à investigação de um pequeno núcleo, que conduziu ao 25 de Abril.


De salientar a proficiente tarefa da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo na publicação de livros que, para além da revitalização da memória dos anos do fascismo, nos trazem profunda análise desses dias, reconstroem e recolhem elementos históricos que andavam dispersos, através de um olhar contemporâneo, assertivo e livre. 


1 Iúri Amador, A Vermelha, p. 58, Edição Letras Parelas, Prior Velho, 2016

http://www.avante.pt/pt/2261/argumentos/144686/

quinta-feira, 24 de março de 2016

Domingos Lobo Esteiros, 75 anos depois


  • Domingos Lobo
Quando o real se transformou
em arte socialista




1941, ano da publicação de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, é, apesar da desregulação social e política que a guerra estabelece, e da opressão generalizada, um período de alguma agitação no meio político e literário, tanto pelo agudizar das contradições que o conflito vem instalar nas relações entre as diversas classes sociais, manifestando-se de forma mais incisiva nas zonas industriais e de latifúndio, quer pela ameaça real de a guerra se expandir para Leste (a Alemanha preparava-se para invadir a URSS), quer pela contínua resistência que as forças progressistas travam contra o fascismo luso, a partir de acções de massas, na denúncia do agravar da repressão, do desemprego, das condições de vida e de trabalho e o flagelo da fome que atingia sobretudo as classes economicamente mais frágeis.


Os alemães, fazendo pressão sobre o governo de Salazar, tendo por causa o volfrâmio, torpedeiam o cargueiro Ganda e os vapores Corte Real e Cassequel; com mais subtileza, mas prefigurando a mesma intenção de cerco e influência, a Universidade de Oxford, obedecendo a uma «sugestão» do governo inglês, atribui a Salazar o título de doutor honoris causa; há greves de estudantes e dos operários têxteis da Covilhã. O País sofre a acção de um ciclone devastador.


No campo da acção e intervenção cultural, nesse ano de 1941, Alves Redol publica Marés, Fernando Namora Terra, Bento de Jesus Caraça Conceitos Fundamentais da Matemática, João José Cochofel Sol de Agosto, Joaquim Namorado Aviso à Navegação, Manuel da Fonseca Planície, Mário Dionísio Poemas e Sidónio Muralha Beco; inicia-se a publicação dos cadernos de poesia Novo Cancioneiro. Livros que vêm contribuir, face ao comprometimento social que expressam, para uma mais apurada, interventiva e abrangente reflexão sobre as complexidades relacionais entre a arte literária e o real avassalador desses dias de brasa; o mundo objectivo do trabalho e da exploração que o envolve, fazendo com que essa relação se torne mais clara, dialéctica e consciente, impondo uma visão humanista do mundo e uma linguagem que se opunha aos desvarios modernistas de Marinetti e D’Annúnzio, que os escribas salazarentos de serviço adoptariam como modelo de intervenção literária e filosófica (António Ferro, Augusto de Castro, Fernanda de Castro, João Gaspar Simões, António Quadros, Álvaro Ribeiro, Orlando Vitorino, etc.), e às confusões estético/conservadoras dos presencistas, que correspondiam «a um certo ambiente de cepticismo quanto aos ideais oitocentistas e republicanos de progresso que se relaciona com o colapso do liberalismo em 1926, e por isso os presencistas aspiram, em geral, a uma literatura e uma arte desarticuladas, se não mesmo alheadas, de qualquer doutrina directamente interventora».1 Pressupostos teóricos, estéticos e políticos em tudo opostos aos do neo-realismo.

O aparecimento de Esteiros, edição que exibia uma belíssima e expressiva capa desenhada por Álvaro Cunhal, vem aprofundar o caminho de descoberta e denúncia social, iniciado com Gaibéus, de Redol, incidindo a obra de Soeiro e a sua especulação político-social sobre os universos da exploração do trabalho infantil, cujas coordenadas mais abjectas escapavam às consciências burguesas e a grande parte da intelectualidade urbana.


Soeiro Pereira Gomes introduz no discurso literário deste exemplar romance, dados sociológicos novos, uma linguagem sensível e arguta que mergulha fundo nesse nicho de desprezível exploração, dado que exercida sobre os mais indefesos elementos da base social, levando o leitor a tomar consciência dessa realidade, da vida agreste desse núcleo sobre o qual o fascismo exercia toda a sua inumana brutalidade, exibindo sem disfarce a infâmia ideológica e funcional que o estruturava – essas vulneráveis ilhas humanas, ainda não inscrito no corpo diegético do neo-realismo: o mundo da infância e da pré-adolescência, da miséria que invade, desde o berço, esse território que queríamos de descoberta e construção do ser, invadido de forma violenta pela ganância que vai destruindo sonhos, capacidades, modos outros de crescimento e realização pessoal e colectiva; um mundo do desenrasca, da luta quotidiana por um naco de pão para enganar a maligna, do trabalho escravo nos telhais, da rebeldia, da ternura, do companheirismo, da aventura e da transgressão – esse universo épico, que o verbo dorido e sensitivo de Soeiro Pereira Gomes trata e percorre com objectividade e plena maturidade formal e sintáctica; a expressiva utilização do linguajar das gentes da beira Tejo, doseando de modo exemplar o drama e o jocoso popular com a agudeza de análise das contradições da burguesia, o gradual cinismo que os títeres em presença estabelecem entre si, Castro vs. Zé Vicente, para melhor definirem os campos da usura e o espaço que a ambos cabe na refrega da cupidez. Castro usando, sabido e matreiro, controlada impudência; Zé Vicente, exercendo sem rebuços a violência física e económica sobre os assalariados, que dependiam da parca jorna, ganha de sol a sol nos telhais, para iludir a fome: «Se eu pudesse baixar, um escudo que fosse, àquela gente...», pensa Zé Vicente, a pressentir-se já apeado da pileca e da pose afidalgada de outrora – intuindo a ameaça que a Fábrica Grande representa para os seus modos de vida e de exploração. Zé Vicente, espoliado do espaço em que assenta o seu telhal, regressará à condição de pobreza e à proletarização; Castro, vendo partir para a Fábrica os braços que tanta falta lhe fazem nos campos, pressente que outros tempos virão, que o progresso social que a Fábrica representa, começará a invadir o seu espaço, que o medo, a cobiça, o seu sorriso enigmático e cínico, e o seu modo de exploração feudal poderão ter os dias contados.2


Uma galeria mínima, mas exemplar, de senhores deste microcosmos da margem Norte do Tejo, que Soeiro Pereira Gomes caracteriza de forma acutilante, juntando-lhe um bando de subalternos menores que contribuem, sujando as mãos e traindo a classe a que, por origem, pertencem, para que a exploração perdure e se torne norma: mestre Zarolho, o Cabo de Mar, os rendeiros da Quinta Alta e a GNR, braço armado do poder fascista.


Soeiro cria, com Esteiros, um fresco denunciador da sordidez que o fascismo luso exibia nas suas invisíveis margens (onde os tiques da ignomínia foram mais profundos e duradouros), na análise que constrói, ancorado nos traços significantes da matéria social e histórica que dominava a Europa – o feroz capitalismo ungido no terror –, no modo como elabora, a partir das personagens principais (Gineto, Gaitinhas, Maquineta, Sagui) a representação realista e modelar desse período, das circunstâncias atípicas em que a sua acção (partindo do particular para o colectivo) nele se desenvolve, marcando as componentes teóricas que condicionaram o desenvolvimento do País nessa fase histórica (1930/40), fazendo-o através do narrador e da coerência ideológica com que este intervém na diegese, num permanente e eficaz registo crítico, autodiegético, expondo dialecticamente o conflitual evoluir do discurso literário. Soeiro é, em Esteiros e, mais tarde em Engrenagem, um intelectual, como o definia Gramsci, que conseguiu juntar teoria e prática, transformando a sua escrita em processo histórico real.

Inventariando as condições de vida e de trabalho de uma comunidade, a dos putos dos telhais e dos seus progenitores, em circunstâncias específicas (a da aprendizagem, por métodos extremos, do modo de exploração capitalista), Soeiro Pereira Gomes diz-nos da luta que é necessário travar contra o poder burguês, a sua visão do mundo, desse modo estabelecendo parâmetros para a superação dos cercos impostos por uma política de terror, despótica e discricionária que lhe dá guarida, suporte e protecção.


Nas determinantes estéticas e conceptuais de Esteiros, para além do preclaro alinhamento com a corrente neo-realista sendo, na produção literária do movimento, uma das suas obras de referência, e do qual Soeiro é um dos principais obreiros, revela-se a determinante eficácia com que consegue superar as contradições herdadas do realismo burguês, refazendo alguns tiques estéticos do naturalismo, introduzindo no discurso um vigoroso e assertivo exercício de análise social; as circunstâncias e consequências das contradições sociais da burguesia, clarificando opostas concepções da vida e do mundo, os critérios de classe que se expressam através dos códigos da linguagem (o filho do Castro é Arturinho ou o menino, o Gaitinhas, que com ele brinca, é apenas o João ou o rapaz) recorrendo aos métodos analíticos do marxismo3 e aos princípios filosóficos e humanistas do realismo socialista, que Soeiro, com hábil sageza, inscreve no corpo textual.


Também os afectos, a cumplicidade, as condições económico-sociais como entrave a que os sonhos se cumpram, mesmo os sonhos mais ingénuos que se derretem pelos declives da impotência, atravessada de raiva e de ternura: – E o teu pai? – perguntou Gineto.


O filho de Madalena olhou a névoa que ensombrava o horizonte...


– Está muito longe. – E a medo, como se revelasse um crime: – Queria que eu fosse doutor.


A voz de Gaitinhas era de lágrimas cristalizadas. E Gineto teve pena que ser doutor não fosse coisa que se roubasse.

«A consciência do homem não só reflecte o mundo objectivo, mas cria-o»4 É a partir desta consciência, da encenação do real e das suas circunstâncias, as atmosferas e as tipicidades de um determinado tempo e lugar e da ideologia que lhe dá suporte – em Esteiros a componente estético/ideológica tem uma das suas expressões mais representativas –, que Soeiro parte para a tarefa de criar esse universo em que pode espelhar a sua particular reflexão sobre o mundo e idealizá-lo melhor e mais justo, desenhando nos sonhos de Gaitinhas-cantor, que irá pelo mundo à procura do pai, esse supremo desígnio: voltar, dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais. Ou seja, encenando a matriz social em que as necessidades materiais vivam a par com as necessidades lúdicas, físicas e culturais, que permitam aos oprimidos libertar-se do jugo dos opressores. Soeiro tem plena consciência do papel activo e crítico que cabe ao escritor que quer agir sobre o real como contributo para a tarefa comum de transformar a vida.


Os grandes escritores do neo-realismo, ou a ele ligados por laços de companheirismo militante, inscreveram em alguns textos a condição social dos jovens, a partir das suas raízes de classe, elo mais fraco na cadeia de exploração capitalista, fazendo-o com ductilidade, lirismo, expressivo afecto. Os meninos pobres ou, como as sacrossantas almas neoliberais propagam, useiras e vezeiras em criar módulos semânticos que diluam a realidade, filhos de famílias desfavorecidas, como se a ganância capitalista fosse um jogo de roleta e a pobreza um contínuo jogo de azar, percorrem, com maior ou menor grau de intervenção crítica dos seus autores, alguns títulos do melhor que a literatura em português produziu no século XX: Capitães da Areia, de Jorge Amado; Bonecos de Luz, de Romeu Correia; Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol e Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira.


Em Micropaisagem, do livro O Aprendiz de Feiticeiro, Carlos de Oliveira deixa-nos este impressivo testemunho: A paisagem da infância não é nenhum paraíso perdido mas a pobreza, a nudez, a carência de quase tudo. É desta certeza, desta nudez e da carência de quase tudo, da situação social dos putos da beira Tejo, que o autor de Contos Vermelhosnos diz com extrema serenidade discursiva, mas atingindo o cerne do sistema que conduz a este estado de coisas – daí a sua recorrente actualidade.


Soeiro traz para a literatura portuguesa, inscrevendo-a na modernidade, um modo singular de abordagem dos fenómenos estruturais da usura capitalista, um estilo que dilui no discurso ficcional os propósitos sócio-políticos que a determinam, fazendo-o com hábil sagacidade, com evidente optimismo, não escamoteando os aspectos sórdidos da realidade que descreve, penetrando esse universo cercado dos homens, mulheres e crianças que do rio e suas margens tiram o parco sustento, abordando com pertinaz sensibilidade as linhas definidoras de um onirismo infantil e da prática adulta da sobrevivência.


Soeiro Pereira Gomes traz para Esteiros problemas novos, que a estética de afirmação libertária amplia, que configuram a representação de agentes singulares, esse coro de meninos/homens, que actuam na trama romanesca como intérpretes de um período histórico imoral e violento: crianças sujeitas a escravidão de classe num tempo de terror. Os jovens protagonistas de Esteiros são heróis positivos, dado que vítimas de uma engrenagem social poderosa que eles, com a rebeldia dos verdes anos tentam, no modo ingénuo de fugir ao cerco, subverter com pequenas, marginais tropelias. Personagens que agem e respiram dentro do seu espaço e do seu meio social: o rio, os telhais, os becos e os casebres onde habitam, os pomares que assaltam, o lodo dos esteiros. Um mundo onde as suas pequenas espertezas de meninos não fariam eco, não fora o facto de terem nascido em condições adversas, de extrema pobreza, e num tempo injusto e, por essa circunstância, estarem vulneráveis, sujeitos a todas as formas de espoliação e cerco. É a análise fecunda, a arguta sensibilidade que implica ao descodificar a particularidade social e política que descreve, o modo narrativo, o lírico/épico como envolve no discurso este núcleo de homens e crianças, que vivem e lutam por sobreviver num mundo e num tempo que lhes é hostil, que torna Soeiro Pereira Gomes um dos autores mais relevantes do período intenso e estrutural do nosso neo-realismo, o seu dinâmico humanismo, na vertente do realismo dialéctico, trazendo a literatura, a sua voz ficcional, como mais tarde o fará Manuel Tiago, para o vasto território da luta de classes e das mais justas expectativas políticas e sociais do nosso povo.

Soeiro transporta para Esteiros alguns elementos definidores da arte realista, encenando no seu corpo discursivo uma análise objectiva, crítica e duríssima sobre o tempo histórico que ficciona; no rigor com que olha e descreve a realidade que percepciona, na linguagem que utiliza para expressar e combater a intolerância e a ignomínia, no modo sensitivo como percorre os quotidianos sofridos da malta dos telhais, seus desesperos e medos, os seus parcos dias de festa, na Feira, lugar de sonho e de respiração, o tempo breve da felicidade em que se tornam, por escassos momentos, de novo meninos fascinados pelas luzes do carrossel, pelos ruídos mágicos que envolvem o terreiro, pelos bolos ou pelos olhos solares da Rosete, e os dias sofridos no Telhal Grande, de sol a sol, descalços, pisando brasas e vertendo sangue, ao mando das vozes cavernícolas do Má-Cara e do Carraça: – Traz mais bolas, filho dum boi! Se vou aí, inté te borras todo; Langão!, Carreguem-lhe no peso.... É um olhar fecundo, humano, que o autor de Engrenagem verte sobre este mundo agreste, no modo seguro como estrutura este seu primeiro romance – Soeiro tinha 32 anos à data da sua publicação –, no apuro oficinal como a denúncia de um tempo social e de um regime político opressor nele se incorporam; nos sintagmas estilísticos, na abordagem esquemática do seu ordenamento fabular, na relação que estabelece entre a literatura e a realidade histórica – é já o realismo socialista, pontuado por uma hábil, inventiva voz lírica, que nesta obra-prima desponta.


Obra que devolve, como nenhuma outra, à nossa consciência colectiva, o tempo da rebeldia e da ternura, as falhas de carinho, o medo, o companheirismo, os traços de uma infância perdida na lama dos esteiros, o mágico-simbólico dos sonhos crepusculares, esse território oculto das crianças a quem roubaram os melhores anos da vida: o crescimento harmónico, a arte de brincar, de saber escrever as cartas de amor para as Rosetes que nos acasos da vida nos sobressaltam; compreender os mecanismos que fazem andar o mundo e proceder à sua paulatina aprendizagem. Gineto, Sagui, Malesso, Guedelhas, Maquineta, Coca, Gaitinhas, rapazes a descobrirem a vida, sós e aflitos, pelos caminhos cruzados do medo, da miséria, da violência dos mandantes, «Se não se calam, racho um!», o lado sórdido de um futuro pardo, minguado de horizontes: Gineto marinheiro, fugitivo dos telhais e dos açoites das sombras, salteador de laranjais, a quem o pai nem sonhar deixava; Gaitinhas que queria ser doutor e não pôde concluir a escola primária para ir trabalhar no Telhal Grande; Sangui que dormia na Capela Velha e brincava com o seu infortúnio para espantar o medo: «agora sou um santo»; a mulher que perdeu o filho nas cheias e continuava com os braços dobrados sobre o peito a engalhar o vento; a luz que de noite se acende no lugar onde as águas tragaram o Malesso; Maquineta que se quedava extasiado com o ruído das máquinas da Fábrica Grande, não sabendo que ela representava uma mais sofisticada forma de exploração; a ternura pela Doida e a sua colectiva, solidária defesa; o relógio de Maria do Bote, esse sonho antigo a desfazer-se nas mãos do agiota em troca de um naco de pão.


Mas há sempre, na literatura como na vida, cadinhos de sol, uma luz que se acende na noite: Gineto que espera, face encostada às grades da enxovia, o regresso à vida livre – afinal, foi preso por roubar laranjas, ou um pão, tanto faz. Sonha que o Gaitinhas, o Maquineta, o Sagui ou o Tom-Mix dos filmes, o virão libertar e ele possa, uma vez mais, ir à Feira e debruçar os olhos sedentos de ternura nos olhos da Rosete; Gineto sonha mas não sabe que Gaitinhas anda já pelo mundo em busca dessa estranha, misteriosa coisa que faz os homens maiores que a sua altura, e quando a encontrar é ele que virá libertá-lo e mandar para a escola aquela malta dos telhais – moços que parecem homens e nunca foram meninos.



Apoios:

Obras Completas de Soeiro Pereira Gomes – Publicações Europa-América/1972

Soeiro Pereira Gomes e o Futuro do Realismo em Portugal, de Álvaro Pina – Editorial Caminho/1977

Literatura e Luta de Classes, de Augusto da Costa Dias – Editorial Estampa/1975

Ilse Losa: Vida e Obra, de Ramiro Teixeira – AJHLP/2015

No Centenário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes (2009), de Vítor viçoso, in Nova Síntese, nº.4



História da Lit. Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva, pág. 1091, 8ª. edição/1975, Porto Editora

2 Redol traria a seu modo, estes medos (o da emancipação dos oprimidos face à opressão monarco-feudal exercida sobre eles) dos senhores da terra, os Relvas deste mundo, opondo o trabalho rural à esperança que a industrialização representava, para o romance Barranco de Cegos.

3 O conjunto das relações de produção constitui a estrutura económica da sociedade, a base concreta sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política e às quais correspondem formas de consciência social determinadas. O modo de produção da vida social condiciona, na sua generalidade, o processo da vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é, inversamente o seu ser social que determina a sua consciência. In “Contribuição para a Crítica da Economia Política” Karl Marx

4 Lénine, Cadernos Filosóficos

http://avante.pt/pt/2208/temas/139581/

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Domingos Lobo - Alves Redol - A escrita contra a sujeição



 logo
Nº 315 - Nov/Dez 2011 • Efeméride

Alves Redol - A escrita contra a sujeição

Este texto pretende-se evocativo de um dos autores mais fecundos, éticos e corajosos da ficção portuguesa do século XX; um dos obreiros do movimento estético e literário que teve na sua génese o contar das vivências, das lutas e das dores dos humilhados e ofendidos, dos «homens que acrescentavam ainda mais realidade ao real», no dizer de Óscar Lopes. No ano em que se cumprem 100 anos sobre a data do seu nascimento, a obra de Redol merecia uma mais extensa, demorada e profunda análise: ficam, no entanto, neste texto breve, alguns sinais para que os leitores regressem a um autor e a uma escrita que, tantos anos volvidos, ainda nos convoca, seduz e indigna.

Porque, como o afirmou Alexandre Pinheiro Torres no seu ensaio Os Romances de Alves Redol, avieiros «há-os por todo o lado: milhões de avieiros, que vêm hoje até às margens das cidades, avieiros, cujas angústias simbolizam as de um povo traído em nova revolução frustrada pelas ambições dos burgueses iluminados como o Polidor de Reinegros» (1).

É ainda a oportunidade para relembrar um autor e uma obra singulares que as nossas faculdades de letras têm, de forma sistemática e ideologicamente orientada, ignorado.

Não deixa, no entanto, de ser uma obra urgente e necessária nestes dias amargos que nos impõem. O próprio Redol, no prefácio à 6ª. edição de Fanga (1963), não deixou de o assinalar: «Exijo para mim a saudável simplicidade de reenunciar as necessidades primárias do homem português alienado pela servidão, pela suspeita e pelo medo, sem que me perturbem os rótulos que cada qual queira emprestar-me. As verdades profundas e urgentes são muito lineares em certas épocas. A autêntica vanguarda literária está nos que souberam chapá-las a corrosivo nos lombos da besta.»

Tal como em 1939, ano da publicação de Gaibéus, embora escudados por uma subtil camada de verniz cosmopolita, sob a égide do neo-liberalismo, continuamos a ter à liça os Agostinho Serra, senhores de poder e mando, os Francisco Descalço, subalternos que lhes aparam as migalhas e estendem o tapete para que o esbulho e as humilhações quotidianas permaneçam intactas e se aprofundem. Para tanto, basta que alguma coisa mude, como dizia o senhor Giuseppe Tomasi di Lampedusa (um cenário minimal, um leve odor de Calvin Klein, um humor rançoso) para que a essência da exploração capitalista perdure.

Gaibéus mostra-nos um Alves Redol jovem que se lançava à tarefa de nos contar a saga desse rancho de homens e mulheres que das Beiras desciam, no final do Verão, aos vastos campos do Ribatejo para as tarefas de ceifa dos arrozais, mas, apesar de um romance primeiro e de juventude, este texto revela-nos um autor já destro no manejo da língua, senhor de um estilo seguro, de uma peculiar forma de contar que percorreria, num labor incomum (Alves Redol teve vida breve, vindo a falecer com apenas 58 anos), cerca de 34 títulos, abarcando o conto, o romance, o teatro e as estórias para a infância. Esse trabalho de contínuo e apurado exercício ficcional, culminaria com a publicação, em 1961, daquele que a crítica considera o seu melhor romance e uma das obras-primas do neo-realismo: Barranco de Cegos.

O autor era, aos 28 anos, um escritor já de prosa enxuta, rodada no conto, na crónica e na escrita jornalística, trazendo no bornal das experiências adolescentes uma breve e pouco frutuosa passagem por Angola, conhecedor das gentes e da paisagem ribatejanas, das grandezas e misérias da lezíria de entre Tejo, Sorraia e Almansor, observador atento e estudioso (veja-se esse incontornável ensaio de etnografia que é «Glória, Uma Aldeia do Ribatejo», no qual o ficcionista não está ausente) dos hábitos e tarefas do seu povo, desse povo da «borda d´água» ao qual orgulhosamente afirmava pertencer.

Das notas encontradas no seu espólio, consta uma sintomática reflexão sobre os ofícios de escritor, ofício que ele sempre exerceu com coragem, luta e desafio, não desligando essa tarefa das suas actividades políticas e cívicas: «Se um dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer». E esse prazer teve-o Redol em muitos dos seus textos, prazer que, junto com a indignada revolta que muitas das suas páginas ainda hoje nos provoca, com ele partilhamos e sentimos ao lê-lo.

Gaibéus, o primeiro romance de Redol, é um marco histórico no movimento neo-realista, dado que iniciador de uma corrente literária sem a qual dificilmente conseguiríamos entender o contexto sócio-económico vivido durante o regime fascista e as lutas a que essa especificidade social e histórica deu origem, mas inaugura igualmente um novo modo de contar, de olhar o real, embora nestas páginas perpasse, por vezes, indelével, o ofício de repórter que atenta aos pormenores da paisagem, aos humores do tempo e da natureza, detectável sobretudo no capítulo inicial. Pormenores que substantivam o estilo ao invés de o tornar opaco. Em Gaibéus, Redol introduz, com inteligente parcimónia, um processo narrativo que só encontraremos muito mais tarde na novelística portuguesa: a elipse, a repetição frásica (e, neste particular, os versos das cantigas que criam, na sua repetição sincrónica ao longo do texto, atmosferas a um tempo distanciadoras e dramáticas) e a heterodiegese.

E é este sentido de espaço amplo das personagens que entram na narrativa, a pluralidade de vozes que a enformam, que tornam Gaibéus uma epopeia na qual o herói é o corpo colectivo, esse punhado de homens e mulheres que de sol a sol na campina buscavam o sustento para os dias amargos do Inverno que se aproximava. E se, nesse corpo heterogéneo, apenas os sonhos esparsos do «ceifeiro rebelde» parecem entender a real dimensão do momento e da exploração de que são alvo os alugados, se apenas ele tem essa lucidez e essa isolada angústia, não é menos verdade que os outros, embora de forma menos evidente e dialéctica, sentem, cada um a seu modo, na pele e na carne a profundidade dessa exploração e da sujeição que os oprime: «aquelas, as éguas apeadas, estão com´à gente...». E sentem, mesmo dobrados sobre a terra, olhos cegos de tanta seara por ceifar, que «na crista das marachas os capatazes espiam sempre» e que o destino é coisa difícil de torcer, porque «a ceifa não pára, não pára nunca», metáfora de quem só a terra abarca no círculo do olhar – são batalhas sem fim, a da seara e a do destino, que não impossíveis de vencer. Até o céu, que tanto pode suspender um sol abrasador (áuga, áuga, pedem os alugados, gargantas secas de sol e suor), como trazer borrasca no capricho cinzento das nuvens. E, a chuva, obriga a paragem nas tarefas da ceifa e logo a menos jorna, menos dinheiro nos bolsos minguados para o regresso à leira natal e aos rigores invernais. Daí que os gaibéus prefiram sofrer a canícula e a secura das gargantas a rebentar de sezões (áuga, áuga) do que perderem um dia curvados, de sol a sol, na ceifa e na debulha.

Óscar Lopes refere, num estudo que dedicou a este romance de Redol, que o autor não prestou particular atenção, como faria em textos posteriores, como faria em Marés, Avieiros e no Ciclo Port Wine, «à dialéctica pessoal da conduta, à entredeterminação de uma personagem e da sua história», opondo-se, desse modo, ao personalismo literário da malta da Presença. Embora concordando com o mestre, entendo que nessa particularidade reside ainda hoje a importância dos modos narrativos experimentados por Redol e a singularidade semântica e de corpo orgânico deste modelar romance. Neste texto, o sujeito é o corpo colectivo, o rancho, essa anónima força que apenas a espaços se individualiza para introduzir novos elementos de unidade ficcional. Daí que o patrão, Agostinho Serra, seja apenas um esboço, um traço de pena («não tenho medo que me não gramem», diz ele e basta), que a Rosa do rancho do Francisco Descalço, depois de violada pelo patrão se negue a regressar à aldeia, se transforme em Balbina e se perca na Rua Pedro Dias, que o Cadete, o Pananão, o Passarinho, Fomelas e o Marrafa, sonhem com afagos de mulheres, ladrões heróicos e fugas para o Brasil, que «o ceifeiro rebelde» parta com o bornal às costas à procura de outro poiso para o corpo e outra sorte como maltês que é; rabezanos e gaibéus são apenas a mancha escura, anódina, dobrada na campina, dado que ali «não há homens, só máquinas» e o dinheiro que assim os obriga não é mais afinal «que a apoteose da incerteza do ano», todos «ferrados com o nove, quem padece é o pobre», atados ao mesmo chão. É a opressão que os irmana e torna corpo, que lhes dá o sentido de gesta e de colectivo e esse sentimento abstracto, mas fundo, da opressão, ainda que o não saibam expressar em acto (o único dentre eles que o sabe, partirá solitário pelos caminhos do mundo), conduzi-los-à, em Maio e Junho de 1962, à luta, à greve e às manifestações pelo aumento dos salários e pela jornada de trabalho de 8 horas.

Regresso a Óscar Lopes e ao seu texto (2) sobre Gaibéus para referir uma passagem com a qual não poderia estar mais de acordo: «o protagonista da acção é claramente colectivo, como acontece com o coro da mais antiga tragédia ática». É este aspecto, o da introdução na estrutura ficcional da personagem num ser colectivo, que pela vez primeira torna consequente e estrutural a estética neo-realista. Embora o realismo social já tivesse cultores de mérito, reconhecidos e influentes (Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, por exemplo), é com este romance que o neo-realismo se funda e vem consignar um dos mais profícuos e exaltantes movimentos literários de todo o século XX português.

Augusto da Costa Dias afirma, sobre as origens do movimento: (3) «O neo-realismo é, à nascença, contemporâneo dos primeiros esforços para a reorganização do Partido. Surge como sua expressão na batalha cultural e ideológica, como oposição fundamental à ideologia dominante das classes dominantes fascistas, ao totalitarismo da sua escolástica medieval, ao seu obscurantismo e ao obscurantismo raso em que embalsamava o povo, à proibição sistemática das realidades portuguesas das quais fazia uma antologia escolhida e folclórica para tapar a cloaca das suas devastações (...).»

Com Gaibéus inicia Alves Redol «o ciclo da ficção temática ribatejana», a que se seguiriam Marés, Avieiros e Fanga e, mais tarde, já no final da sua vida literária, os seus dois textos canónicos: Barranco de Cegos e Muro Branco.

Alves Redol insere-se, a partir dos anos trinta, na luta clandestina antifascista. É preso em 1944 e, de novo, em 1963. Gaibéus é apreendido pela PIDE, em 1940. O regime exerce várias pressões sobre as editoras que publicam os seus livros e submete os seus originais a censura prévia. É o único escritor português a sofrer semelhante humilhação.

O texto de Costa Dias remete-me novamente para o episódio que referi no início desta crónica. Estamos a viver, como nos anos 1940, uma feroz luta ideológica por parte dos média ditos de referência, patronato e subalternos de espinhaço torcido. Neste contexto histórico, faz todo o sentido regressarmos ao verbo libertário de Gaibéus, de Seara de Vento, de Esteiros, de Quando os Lobos Uivam, de Até Amanhã, Camaradas, de Casa na Duna, de Bastardos do Sol, de Viúvas de Vivos, de Levantado do Chão. São património nosso, ameias nossas, do povo que somos e nesse chão prenhe das palavras nos reconhecemos; o nosso mais perene «lugar do ser».

Enquanto nós referimos, com sentido orgulho, a efeméride de um autor que traça o percurso colectivo rumo à dignidade da nossa condição, os próceres da direita comprazem-se em rituais de afronta aos direitos que os trabalhadores conquistaram com Abril, o mesmo Abril que estava já, nos seus mais lídimos contornos, inscrito em muitos dos romances de Redol. A incontinência verbal com que nos invectivam tenta, em desespero, que nos demitamos de lutar, de exigir, de impedir o retorno aos dias azedos vividos por homens e mulheres que a escrita certeira e luminosa de Redol, com corajosa argúcia, denunciou. Ao evocarmos o autor, e o singular significado da sua obra, estamos a afirmar o repúdio por um tempo em que os homens traziam as gargantas secas de gritos, de fome, de febres e pediam em vão «áuga, áuga» e só o eco surdo da lezíria, ou das escarpas agrestes do Douro, lhes devolvia o angustiado rogo. Um tempo de desumanidade de cujo modelo de sociedade, preconizada pelos Agostinho Serra, de Gaibéus, António Falcão, de Fanga, Diogo Relvas, de Barranco de Cegos, e outros títeres menores, arautos de uma sociedade que estes senhores, herdeiros dilectos de uma galeria de fantasmas, ainda hoje evocam e tentam impor.

E não esqueçamos, como o próprio Redol afirma no prefácio de Gaibéus, que este romance «nasceu quando muitos morriam por nós». O nós que ele próprio inaugura na sua estrutura narrativa.

Notas
(1) Alexandre Pinheiro Torres, Os Romances de Alves Redol, Morais Editora, p. 358.
(2) Gaibéus – Óscar Lopes - Uma Leitura cinquentenária.- Cifras do Tempo, Editorial Caminho, Lisboa, 1990, p. 233. 
(3) Augusto da Costa Dias, Literatura e Luta de Classes, Editorial Estampa, Lisboa, 1975, p. 66.
Alves Redol nasceu em 29 de Dezembro de 1911 em Vila Franca de Xira, terra que alberga hoje, muito justamente, o Museu do Neo-realismo, corrente estética vinculada ao povo trabalhador e da qual Alves Redol é considerado um dos principais impulsionadores.

Da sua intensa actividade literária fala-nos o artigo do camarada Domingos Lobo. 

Com este breve apontamento, a redação de O Militante apenas quer sublinhar que Alves Redol foi um militante comunista consequente e destacado que tendo aderido ao PCP muito jovem, ao PCP se manteve ligado até ao fim da sua vida.

Alves Redol desenvolveu uma intensa actividade cultural e política no meio operário, participou activamente na actividade da Oposição Democrática, tendo nomeadamente sido membro da Comissão Central do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Foi dirigente do Partido no Baixo Ribatejo, tendo tido papel destacado em importantes lutas sociais antifascistas.
Foi preso por três vezes, em 1953, 1958 e 1963.

Faleceu em 29 de Novembro de 1969. O seu funeral em que participaram milhares de pessoas foi uma expressiva manifestação de pesar e de luta antifascista.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Morreu Papiniano Carlos

Fotografia de Papiniano CarlosPapiniano Carlos
1918-2012
Escritor (poeta e ficcionista)




Morreu Papiniano Carlos, o autor de A Menina Gotinha de Água


***
O escritor Papiniano Carlos, um dos últimos representantes do neo-realismo português, morreu hoje, no Porto, informou, em comunicado, a Direcção da Organização Regional do Norte do Partido Comunista Português.

O poeta, autor de Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que somava mais de 60 anos de militância comunista, contava 94 anos.
Papiniano Manuel Carlos Vasconcelos Rodrigues nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, a 9 de Novembro de 1918, fixando-se no Porto, aos 10 anos, onde estudou.
Publicou o primeiro livro de poesia em 1942, Esboço, quatro anos antes de Terra com Sede, a sua estreia na ficção, e de Estrada Nova, com capa de Júlio Pomar, obra que seria apreendida pela PIDE, a polícia política da ditadura.
A adesão do escritor ao PCP remonta ao final da década de 1940, no pós-guerra, actuando na clandestinidade com o nome "Garcia", numa alusão ao poeta andaluz Federico Garcia Lorca.
Na mesma altura, depois de ter frequentado a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, dedicou-se ao ensino, que teve de abandonar, por se ter recusado a subscrever a “declaração anticomunista”, imposta pelo regime aos funcionários.
Deu explicações e foi delegado de propaganda médica. O escritor português foi preso três vezes pela PIDE.
Com Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Daniel Filipe, dirigiu Notícias de Bloqueio, série de “fascículos de poesia”, publicados no Porto entre 1957 e 1961, designação da revista retirada do título de um poema de Egito Gonçalves.
Colaborou nas revistas Seara Nova e Vértice e integrou os corpos dirigentes do Círculo de Cultura Teatral do Teatro Experimental do Porto.
A Menina Gotinha de Água, para a infância, que viria a marcar o ressurgimento do género, a par das obras de Matilde Rosa Araújo, foi editada na década de 1960 e constitui um dos seus maiores êxitos editoriais.
Entre outros livros, Papiniano Carlos escreveu Mãe Terra (1948), As Florestas e os Ventos, A Rosa Nocturna (1961), A Ave sobre a Cidade (1973),O Rio na Treva (1975).
Na literatura infantil assinou ainda O Grande Lagarto da Pedra Azul e A Viagem de Alexandra.
Em 1998, publicou A Memória com Passaporte: Um tal Perafita na ‘Casa del Campo’ - Relato de um prisioneiro na PIDE do Porto em 1937.
Papiniano Carlos está representado na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Nueva Poesia Portuguesa e em La Poésie Ibérique de Combat, entre outras recolhas.
Luís Cília e Fernando Lopes-Graça compuseram canções sobre poemas do escritor.
O corpo de Papiniano Carlos encontra-se em câmara-ardente no Cemitério de Pedrouços (Maia), onde será enterrado quinta-feira, às 15h.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

a fala poética de Francisco Viana

Avante!


N.º 2004 
26.Abril.2012

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  • Domingos Lobo 



Ao ler os poemas de Francisco Viana recordo-me de um verso de Raul de Carvalho, referindo-se a Álvaro de Campos – tudo aquilo era demasiado meu para ser dele
A duas vertentes da fala poética de Francisco Viana
Terra, o amor e o canto num tempoainda acorrentado

A poesia comprometida, herança nossa de um certo realismo francês – engajamento reeditado pelo Sartre, o qual foi, de certa forma, responsável (graças ao Maio/68) pelo enquadramento ideológico da geração neo-realista de 1960, a que foi à guerra e no-la contou, estupefacta, em prosa e verso –, ainda é possível hoje, em Portugal?


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 Recentemente, a morte roubou-nos Francisco Viana.


O Avante! relembra, hoje, o camarada, o amigo, o poeta.
Francisco Viana aderiu ao PCP em meados da década de 40, passando desde logo a desenvolver intensa actividade partidária, designadamente em organizações unitárias antifascistas: primeiro no MUNAF, depois no MUD e, mais tarde, na CDE e no apoio às famílias dos presos políticos.

Ao longo de décadas, a sua casa foi ponto de apoio de funcionários clandestinos do Partido.

Em 1962, na sequência do histórico 1.º de Maio, foi preso pela PIDE.

Após o 25 de Abril, e até que a saúde lho permitiu, prosseguiu a sua actividade partidária, com a mesma entrega de sempre.

Publicou dois livros de poemas: «Naipe de Besoiros» (1965) e «Chão Nosso» (1966), que o afirmaram como um grande poeta.

Depois do 25 de Abril escreveu, para o Trovante, os excelentes poemas que Domingos Lobo trata no texto que se segue.

Foi, ainda, autor dos poemas para um espectáculo do «Fado de Abril», no qual se contava a história da luta do povo daquela «aldeia vermelha», desde o início do século até à construção da Reforma Agrária.

Esta democracia atraiçoa os ideais da Revolução, escreveu Engelmayer, numa análise à poesia de José Afonso, referindo-se à democracia burguesa saída, a partir de vários golpes contra-revolucionários e de uma fortíssima ingerência internacional, das primeiras eleições pós Abril de 1974. Hoje, com o neoliberalismo instalado, ufano e convencido, 38 anos após essa manhã de esperança e júbilo, a frase de Engelmayer ganha uma evidência que, então, em 1975, ainda não adivinhávamos, em toda a sua perversa e trágica dimensão.


Eduardo Pitta, em texto crítico publicado na revista Ler, corrobora esta afirmação, embora por ínvios caminhos, ao dizer-nos que as coordenadas da actual lírica portuguesa vagueiam longe das preocupações sociais, que há outras urgências ideológicas e estéticas (que acompanha a crescente e desumana globalização neoliberal) e que os cultores da poesia que reflecte o pulsar do seu tempo, de comunhão com a vida, a poesia que se inquieta e indigna, estarão, talvez irremediavelmente, condenados ao ostracismo. Aconteceu com Ary dos Santos porque, segundo Pitta, as irreverências, em país manso, pagam-se caras e só não acontece, por enquanto, com Manuel Alegre graças aos deuses do poder que lhe vão concedendo protecção e algum protagonismo mediático. Portanto, a geração que resistiu ao fascismo, que viveu clandestina no seu próprio país, que sofreu as torturas, a fome e as prisões do regime, que andou pelas guerras coloniais e pelos maios parisienses e nesse atoleiro ainda lhe sobejou esforço e arte para construir uma poética que expressava os medos e as inquietações do seu tempo, que contribuiu, com a palavra certeira e revolta, para o zarpar da pata fascista, permitindo, generosamente, que a libertinagem pós-moderna se instalasse dominadora, discricionária e exultante, que se cuide e male a trouxa. Os cânones da actual vaga, ungidos por este nosso desgraçado tempo e pelos pressurosos media de serviço, são arrogantes e totalitários e quem não alinhar está fora da borda sem remisso nem cântico final.

Longe parecem ir os tempos em que José Gomes Ferreira afirmava, exaltante e certeiro, que os poetas só têm uma missão: cantarem o Presente. Amarem o Presente. Insultarem o Presente. Viverem as paixões, as lutas, os amores, a porcaria, as molezas, as incoerências, o nada e o futuro do Presente.* *

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Um poeta maior



Vem isto a propósito da poesia de um poeta maior, poeta integrante de uma geração que conseguiu transpor os limites formais de um academismo redutor e transportar a poesia para o convívio largo das vastas plateias populares sem, contudo, ceder ao fácil, ao óbvio, mas antes construindo uma poesia metaforicamente exigente, remoçada nas suas cambiantes polifónicas, nos modos de expressar o encantamento, o sonho e o combate, trazendo, sem complexos, a poesia de extracção erudita para as ruas da cidade e dando-a para ser musicada e cantada para que, dessa forma e seguindo os modelos dos antigos jograis, o povo dela mais facilmente se pudesse apossar. Falo, naturalmente, de um poeta que há pouco, e a roçar os 90 anos de vida, nos deixou: Francisco Viana. Muitos o cantaram, muitos ainda hoje o cantam e cantarão no futuro – quantos, desses, no entanto, saberão o seu nome?


Francisco Viana viveu como escreveu: sem alardes, sem trombetas, sem exibição mediática – embora grande parte do seu trabalho se destinasse ao palco e às cantigas. Esse recolhimento, essa postura de um continuado e profícuo trabalho, não o impediu de criar uma poética que, embora enquadrando-se, ideologicamente, nos referentes de uma poesia de resistência e de combate, também se sentiu atraída pelo discurso lírico, um lirismo solar, liberto de artificialismos, seduzido pelo jogo revelador das palavras, em que a amada, longe do serôdio romantismo que por aí ainda vegeta, torna livre e vivo o que ama: De que noite demorada/ou de que breve manhã/vieste tu, feiticeira/de nuvens deslumbrada (...) De que fontes de que águas/de que chão de que horizontes/de que neves de que fráguas/de que sedes de que montes/de que norte de que lida/de que deserto de mortes/vieste tu feiticeira/inundar-me de vida. Trata-se de um belíssimo poema no qual se expõe vagos traços de angústia, um tempo, uma monódia exacta que marca esse território dos afectos, da interioridade e dos clamores, da entrega às seduções do verbo (de que fogo renascido/ou de que lume apagado), de um lirismo que se insinua ao rés do texto, no seu mais laudo sentido, que diz a paixão ligando-a à vida, ao seu mais alto estágio, ao mistério de ser: vieste tu, feiticeira/segredar-me ao ouvido. A palavra em Francisco Viana não é um mero artifício, antes se elabora a partir de uma verdade contida, sóbria mas sensitiva, de um lirismo que se oculta e ao mesmo tempo cresce no poema, o ganha por dentro, revelando um tempo dúctil e desdramatizado, uma poesia que transporta um rumor incomum, que se insinua devagar até à sedução, ao apego das palavras certeiras: De que sonho feito mar/ou de que mal não sonhado/vieste tu, feiticeira/aninhar-te ao meu lado.


A poesia de Francisco Viana, mesmo a que teve como objecto primeiro as cantigas, sinaliza alguns dos códigos geracionais da nossa arte poética, num concerto que passa por alguma vertente surrializante, que José Afonso também experimentou, vem do nosso neo-realismo e estua em delta largo nos poetas revelados nos anos 70/80 do século XX: José Jorge Letria, Hugo Santos, António Cabral, Fernando Grade, José Antunes Ribeiro. O certo é que a poesia de Francisco Viana, embora andando em voo rasante e salutar por diversas correntes literárias, sendo igualmente uma poesia de denúncia e em sintonia com o seu/nosso tempo, não expressa as frustrações de impotência da arte perante as injustiças do mundo, não se demite, não alinha o verbo pelas diversas capelinhas do pronto-a-usar de eco garantido nas gazetas da opinião em moda: é uma poética que se assume na análise, na forma (feita de várias e consabidas influências, porque o autor não está só nesse combate nem descobriu a pólvora), sagaz e inesperada quando investe sobre tudo quanto magoa o poeta e contribui para tornar abjecta a condição humana, sobretudo quando as palavras se erguem para dizer da terra o trabalho suado, o esforço e a conquista do pão de cada dia: Chãonosso,/labotado/pão-a-pão//Dia-em-dia/te daremos/a vontade/do nosso corpo ainda acorrentado. Alguns dirão deste poema, e de outros afins, que estão fora de tempo, que fere as harmonias, os consensos, a paz podre deste reino de lacraus, mas nós sabemos dos caminhos ainda a percorrer, sabemos, como o sabia Francisco Viana muito para além de 1976, que neste Chão Nosso, vivemos ainda acorrentados sabendo, contudo, que um dia nos libertaremos/das ofensas que não perdoamos. Que este espaço que nos é comum, chão nosso/desvendado,/sol-a-sol/pelo fogo do arado, um dia pertencerá ao povo humilhado, explorado e ofendido; que o tempo da barbárie cairá de podre, perecerá como pereceram os tiranos e perecerão os tiranetes actuais e de ti chão nosso/se levantará liberto/nas nossas mãos obreiras/nosso pão de cada dia. Para nos dizer isto, a extensa metáfora deste nosso tempo e do tempo que virá, não hesita o autor em utilizar palavras hoje tidas por incomuns face à deriva mercantilista e usurária, palavras que estão aí, vivas e urgentes a ferir, no clamor alto das ruas, o coração lorpa dos cínicos instalados:batalhar, semeado, razão, arado, cravos, terra, pão (1) palavras que se repetem até nos doerem, até impressivamente nos tocarem no mais fundo da nossa memória colectiva. As palavras, mesmo quando o neoliberalismo lhes tenta expurgar o sentido, ainda retêm no seu claro chão, peso, medida, espessura – o seu significado ainda faz eco por muito que as queiram, atadas ao verniz do esbulho, tornar inócuas.



Uma poética feliz



A poesia de Francisco Viana é igualmente feita de memórias: dos amigos, da família, das guerras, da cupidez – e de afectos, muitos, das solidariedades, das lutas, dos amores. E da festa popular, do baile e das modinhas, dos imaginários mais fundos e perenes da nossa tradição discursiva, das lendas e dos contos de fada que viajaram séculos de sombras até à fonte límpida deste canto: Sete ondas se noivaram/ao luar de sete praias/Sete punhais se afiaram/menina das sete saias//Sete estrelas se apagaram/ sete-que-pena choraias/Sete segredos contaram/Menina das sete saias. A fala de antanho e, no entanto, próxima, as modas populares, o baile e a festa que as palavras urdem em sua desmesura intemporal: Sete faunos contrataram/sete corvos e zagaias(...)Sete princesas toparam/Com mais sete lindas aias(...) Sete vezes se encantaram/no bosque das sete faias/Sete sonhos desfolharam.


Ao ler os poemas de Francisco Viana recordo-me de um verso de Raul de Carvalho, referindo-se a Álvaro de Campos – tudo aquilo era demasiado meu para ser dele. E isto porque a poesia de Francisco Viana nos está próxima, é de geração pelo que nela perpassa de generoso e solidário. Estivemos em semelhantes barricadas, bebemos do mesmo vinho, sofremos dores próximas, desapegos, frustrações, alegrias.


A poética de Francisco Viana, a que anda espalhada por dois livros e numerosas cantigas, é uma poética feliz, no sentido que aponta para a felicidade, para a utopia de manter, apesar dos pesares, vivos os signos da esperança. Uma poesia assim, a um tempo lírica e sagaz, sensível e arguta, demolidora mas também a fazer-se ao rés dos sentidos, das emoções possíveis, no cerne das palavras – uma poesia que anuncia valores que não estão de todo em moda, que não dá dividendos imediatos nem mobiliza os mentores da crítica instalada –, poesia contida e segura na mestria de manipular o verbo, pairando num jogo sedutor de revelações e ocultações, ou seja, uma poesia só possível de acontecer quando se ama o Presente e se sabe Cantá-lo. Deixando testemunhos do nosso tempo, para os dias que virão: Chão nosso/da nossa batalha/Glória, glória/a quem o trabalha.


(1) Aquilo a que muito intelectualzito da nossa praça chama, por vezes, «demagogia» e «panfletarismo» – em convergência, aliás, com amplos sectores reaccionários – não é senão o reflexo artístico (um dos possíveis reflexos artísticos e nunca o único) – dos interesses da classe operária e dos seus aliados, formulados numa linguagem e num contexto que, sem dúvida, lhe permite reforçar a sua dimensão de instrumento ideológico. José Barata Moura


In A Canção Política em Portugal, de José Jorge Letria – Ed. Ulmeiro

Bibliografia:

Álbuns de Trovante e Luís Represas
A Canção Política em Portugal, de José Jorge Letria – Ed. Ulmeiro
Zeca Afonso – As Voltas de Um Andarilho, de Viriato Teles – Ed. Ulmeiro
Comenda de Fogo, de Eduardo Pitta, Ed. Círculo de Leitores
Raízes Intemporais, de Ellys – Ed. Fonte da Palavra

Celebrações

Celebrou Dona Ema seu aniversário natalício.

Santo & Santos, banqueiros, o trigésimo quinto ano 
[do ofício.
Encerrou-se o emprego para celebrar a data do Poder.

Carlos e Branca celebraram seu nó doirado

ainda firme, já um tanto empoeirado.

Clandestinamente, estralejou o foguete

a celebrar o dia de que se querem esquecer:

(a História tem folhas asas

que às vezes não podem poisar.)


Num âmbito vigente de agasalho

celebrou-se o Contrato Colectivo do Trabalho:

quarenta e cinco páginas brancas,

oito capítulos novos,

noventa cláusulas gordas

– e uns salários negros, velhos, magros...

Francisco Viana