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domingo, 17 de setembro de 2023

Francisco Louçã - - O artificial torna-nos menos inteligentes

 SEMANÁRIO Expresso #2655 - 15/9/23  Estado da Noção  -  

* FRANCISCO LOUÇÃ

A imersão na colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é uma ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas

Imagine que no Natal venha a estar disponível uma aplicação que lhe permite fazer a sua própria música a partir de uma mistura de alguns acordes de Sérgio Godinho e José Afonso, poemas da Garota Não e de Fausto Bordalo Dias e uns arranjos de José Mário Branco. Tudo possível ao carregar simplesmente num botão. Haverá direitos de autor que foram extorquidos? Nada daquilo será de sua lavra, mas boa sorte para quem tentar disputar em tribunal a precedência artística, será dificilmente identificável a inspiração de cada uma das componentes da mistura — e a aplicação pode fazer duas diferentes com os mesmos ingredientes em segundos. A indústria musical pode transmutar-se no futuro imediato e a produção artística pode esgotar-se nesse processo. Esta possibilidade suscita várias questões difíceis.

PRODUÇÃO E MEIOS DE PRODUÇÃO

A primeira questão é que o meio de produção é novo. A música que sairá dessa aplicação será, ainda assim, um produto cultural, mas é uma nova forma de cultura, que eleva o pastiche, além do roubo da propriedade intelectual, a um novo patamar. A arte, neste caso, será só o simulacro da arte. Então, produzir-se-á mais não se produzindo nada e a cultura será uma forma de incultura e a inspiração uma artimanha. Para combater este risco, diversos escritores processaram as empresas que oferecem aplicações de inteligência artificial — e há hoje uma corrida nesse mercado — por terem treinado os seus algoritmos com textos seus sem autorização. Piratearam para ensinar um programa a piratear.

As implicações deste sistema são gerais. Antes mesmo da aplicação que estou a imaginar que finja que somos bons músicos, já há uma que permite fingir que se é um escritor, como o ChatGPT. Há já literatura escrita deste modo nas livrarias. E há um pânico nas escolas entre quem se tinha empenhado em estimular a criatividade, pedindo aos alunos que escrevessem ensaios, investigassem e fundamentassem uma opinião, em vez do exame de cruzes. Tudo isso acabou, passou a ser indistinguível um trabalho sério e um ficheiro cuspido por um algoritmo. O sistema de ensino readaptar-se-á recuando ao tempo da chamada oral.

PRODUÇÃO E REGULAÇÃO

A segunda questão é o próprio modo de produção. A sociedade moderna regula a forma de construir um automóvel ou outra máquina: há materiais aceitáveis e outros recusados, os processos são patenteados e verificáveis. Em contrapartida, produzem-se agora algoritmos inverificáveis, o meio de produção cultural do século XXI. Aplicados à criação de artefactos, sejam textos, ou músicas, ou jogos, o seu modo de tomar decisões não é escrutinável: é como se fôssemos proi­bidos de saber como funciona a caixa de velocidades do automóvel.

O que tem sido mais discutido é como este poder algorítmico gera comunidades autocentradas e recompensa a escalada da agressividade emocional, de que os discursos de ódio são felizes utilizadores. De facto, a hipercomunicação impede os modos conhecidos de intermediação, supera em rapidez qualquer tentativa de confirmação ou desmentido e é direcionável por uma caixa negra que, ao contrário dos outros meios de produção que existem na sociedade moderna, é extralegal, e, portanto, está acima do alcance da regulação. Mas há outra das suas facetas que começa a merecer atenção: a ambição de nos absorver num mundo virtual que ocupe a nossa vida desde crianças (no Reino Unido, um quarto das crianças até aos quatro anos tem o seu aparelho para ver streaming). O projeto Metaverso esmoreceu, mas foi só o primeiro lance deste jogo.

As aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural estão de facto a mudar o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade de expressão

E, na verdade, a imersão na colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é uma ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas e impõe a necessidade de uma sociabilidade reconfortante pela trivialização da comunicação permanente. Na base dessa transição está a colonização da nossa capacidade de leitura e de concentração. A University College de Londres concluiu agora um estudo de cinco anos sobre os hábitos de leitura a partir do registo das pesquisas feitas por milhões de utilizadores em duas grandes bibliotecas, que oferecem acesso a jornais, textos online e outros recursos digitais. A conclusão é esmagadora: os leitores já não leem, saltitam, ou seja, são conduzidos pelo algoritmo. Usam uma página ou duas de uma fonte, seguem para outro texto, e isto “são sinais de uma nova forma de leitura, em que os utilizadores buscam horizontalmente através de títulos e procuram resultados imediatos. É como se estivessem online para evitar ler no sentido tradicional”, dizem os autores do estudo.

Por esta razão, a Suécia vai deixar de usar manuais escolares online, pois as crianças precisam de aprender a ler um livro. O diretor de Educação da OCDE acrescenta que “quanto maior e mais frequente for a utilização da tecnologia digital na sala de aula, pior será o desempenho dos alunos [até] no teste de leitura digital”. Assim, o meio de produção condiciona a nossa forma de aprender e de pensar, não só na formatação da linguagem como também da nossa memória e imaginação. As aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural, enganando os nossos amigos, quanto às nossas capacidades musicais, ou os professores, quanto ao estudo, estão de facto a mudar o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade de expressão. A inteligência artificial está a mudar a humanidade, tornando-a mais estúpida.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Francisco Louçã - Casos e casinhos, ou como ser governado por uma casta

Estado da Noção

* Francisco Louçã,

Deixou de ser preciso demonstrar como se gera esta bolha de favorecimento, os factos falam por si,mesmo que seja notório que o Governo tem um medo instintivo desta evidência e prefira a vaga de demissões

Édemasiado fácil, embora verdadeiro, ver nesta vertigem de minirremodelações governamentais a prova do pudim da maioria absoluta e da impunidade dos governantes na escolha de gente que lhes chega medalhada pelo partido (Miguel Alves) ou pelo trânsito meteórico entre empresas (Alexandra Reis). Deixou de ser preciso demonstrar como se gera esta bolha de favorecimento, os factos falam por si, mesmo que seja notório que o Governo tem um medo instintivo desta evidência e prefira a vaga de demissões a uma polémica impopular. A declaração do primeiro-ministro sobre os “casos e casinhos”, essas maléficas inventonas das oposições, é deste modo engolida com fel em cada um destes episódios, que chegam a ser desconcertantes de tanta prosápia e cumplicidade. Deixando o nevoeiro sempre capitoso destes casos, proponho-vos a tese de que isto não é o resultado de erros ocasionais, é antes a prova da natureza do nosso regime social, o resultado de uma construção meticulosa de redes de poder, ou de como uma casta se incrustou no uso do Estado. Essa casta é o passado de Portugal e quer ser o nosso futuro.

UM PASSADO QUE NOS MORDE

Malgrado a polémica historiográfica, vou tomar como aceitável a tese de que a emergência da burguesia moderna se fez em Portugal, ao longo do século XIX, ancorada numa aliança entre o capital comercial e a propriedade fundiária, sob a tutela do Estado. Daí terá resultado um conservadorismo arreigado, expresso, nomeadamente, na frágil industrialização e na fantasia imperial, vista como uma protegida reserva de acumulação de capital. Ao chegar à segunda metade do século XX, este sistema radicalizou-se na Guerra Colonial, mas, entretanto, ia mudando por dentro, seja pela consolidação da fusão entre a banca e o imobiliário, com a urbanização e a primeira turistificação, seja pelo impulso europeu, sobretudo na finança. Como este processo foi brevemente interrompido pelo 25 de Abril e depois recomposto com uma nova concentração de capital, é útil estudar como têm sido produzidos os governantes.

Com dois colegas, João Teixeira Lopes e Jorge Costa, publicámos, em 2014, um livro, “Os Burgueses”, que estudava esses processos. Um dos capítulos dedica-se a uma investigação detalhada do perfil de todos os ministros e secretários de Estado de todos os Governos constitucionais até ao ano anterior, 776 pessoas (mas de 78 não conseguimos dados). Queríamos perceber como a hegemonia da burguesia sobre a economia e a reprodução social seleciona os governantes. E, para isso, observámos a sua trajetória pessoal, tendo registado que, se bem que uma parte deles tivesse chegado ao Governo vinda do Parlamento ou de funções públicas e sem ligação empresarial anterior, o facto mais notável era a passagem posterior para as chefias de empresas. Assim, se só 89 chegaram ao Governo vindos de administrações, quase metade dos governantes emigrou para o topo de empresas da finança (248) e imobiliário (95). Naturalmente, trata-se de cargos estratégicos: 170 desses governantes foram para grandes grupos económicos, 107 para os que gerem parcerias público-privado. Nestes casos, a casta foi formada pela cooptação económica que consolidou um novo estatuto social. O seu circuito fundamental tem sido partido-Governo-empresas.

OS OUTROS CAMINHOS PARA ROMA

Chegar ao topo destas empresas, seja como facilitador com o partido, seja para abrir uma nova carreira, não é de somenos. Quando, há anos, propus no Parlamento uma lei que determinava que os pagamentos aos administradores de empresas cotadas fossem publicados no relatório anual, e era difícil recusar que esta informação era um direito dos acionistas e do público, o presidente de um grande banco, cuja administração se fazia pagar um prémio de 10% dos resultados líquidos, veio indignar-se e garantir que, se a lei fosse aprovada, haveria uma revolta social. Para os beneficiados, com ou sem revolta, a promoção vale a pena.

No entanto, a formação de ligações de casta também segue outros caminhos. Há a corrupção e, se alguns casos têm sido investigados, ainda teremos de esperar pelo dia em que um qualquer Rui Mateus conte as ligações angolanas de financiamentos de alguns partidos e outras tropelias. O processo sobre os pagamentos do BES a Manuel Pinho arrasta-se em tribunal, bem como outros. Há ainda os vínculos do finan­ciamento declarado: em 2021, o IL recebeu dinheiro do CEO da EDP, que os Champalimauds e Mellos pagaram ao Chega e que o PS continua a receber donativos da gente fiel da Mota Engil.

As redes de compromisso são as mesmas que levaram tantos ex-governantes a ocupar posição nas empresas das PPP. Por isso a defesa extravagante dos vistos gold, dos benefícios a não-residentes, de que a EDP não pague imposto pela venda de barragens, tudo merece ser visto à luz da casta que ocupa e ocupará estes lugares.

Alexandra Reis não inventou nada. Reclamou para si a regra que protege os gestores, se forem despedidos recebem tudo (há mesmo quem chame a isto meritocracia?). Passou da TAP para a NAV e desta para o Governo, tendo sido escolhida pela experiência brevíssima nestas empresas, aliás mal sucedida numa delas. Disso benefi­ciou, achando que começaria uma carreira política sem que alguém questionasse o privilégio daquele pagamento. Nisso cometeu o erro de exibir a arrogância da casta. Mas a regra não mudou nem mudará, pois não? Pois esperemos pelo próximo casinho.


30.12.2022

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-30-Casos-e-casinhos-ou-como-ser-governado-por-uma-casta-7abd5012


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Francisco Louçã - Se até o Quinto Império não tinha departamento de proteção civil

* Francisco Louçã

Vive Lisboa em pânico, como se os marcianos tivessem desembarcado, mas é a repetição de cheias como em dezenas de anos. Faltou o milagre que, afinal, era só um projeto orçamentado e calendarizado e, claro, nunca concluído. Triste sina, esta de ter autarcas que sabem que podem enganar a sua cidade

13 DEZEMBRO 2022 

Não passa um carro, a cidade entrou em pânico, as escolas meteram água e as crianças e adultos fecharam-se em casa. As autoridades, mais assustadas do que o povo que já viu muito disto, bombardeiam os telemóveis com mensagens apocalípticas, esbracejando uma diligência que faltou quando foi mais necessária e cuja exibição pretende ocultar anos de promessas calculistas e indiferença cínica sobre obras urgentes nunca concluídas ou sequer começadas.

Pela manhã pouco chove, depois das litradas da noite, mas sentimo-nos como se tivesse passado o maremoto de 1755. As televisões emitem em modo de catástrofe, como se Orson Welles tivesse voltado a anunciar a chegada dos marcianos e vamos espreitar a esquina para vermos os disparos dos raios da morte dos sanguinários ocupantes saídos da sua nave reluzente. E, apesar do espetáculo do medo, isto é mesmo uma cheia, pequenina aqui, enorme ali. As águas procuram a sua história e marcham pelos leitos de ribeiras entretanto sepultados em alcatrão, pelo que, sem surpresa, inundam caves e túneis. Como sempre fizeram.

Triste sina esta de viver em Lisboa, a mítica cidade fundada por Ulisses e por onde Ulisses nunca passou, como lembrou com algum sarcasmo Eduardo Lourenço, e onde os autarcas, ministros e demais entidades se sucederam ao longo de décadas anunciando tranquilizantes prazos e engenharias que sabiam inutilmente destinadas a uma gaveta.

Se há um risco de calamidade, aliás comprovada por um longo cadastro de repetições, a melhor solução continua a ser formar uma comissão ou, se se chegar ao ponto da cabeça perdida, prometer uma obra, e assim procederam uns e outros ao longo do tempos. Que usem sempre o mesmo subterfúgio e com os mesmos resultados, já diz tudo sobre a experiência sobrevivente destes autarcas e de como consideram o seu povo, que esperam que seja desmemoriado e aceite o próximo enlevo eleitoral como se não houvesse ontem.

Perante a mesquinhez destas águas, ouve-se a tristeza, fado repetido. Afinal, tudo corre mal: há inundação mas, pior, Portugal perdeu com Marrocos. Ora, está tudo relacionado, como não podia deixar de ser, pelo menos na fantasmagoria: num caso e noutro volta a agitar-se o espectro de Alcácer Quibir, coisa no primeiro caso excessivamente dramática para um só jogo, no segundo deslocado do campo de batalha, mas nem menos por isso revelador de como se enunciam as identidades míticas (e, neste caso, místicas).

A regra é esta: sempre que há fracasso, fala-se da grandeza perdida e da saudade do que não existiu, a culpa é de outro ou, pela certa, das conjugações cósmicas que nos atraiçoam. Mouros e chuvas têm o mesmo lugar nesse pensamento mágico, que é o que resta quando não há mais nada a dizer.

O disfarce que permite estes estratagemas discursivos é somente uma recapitulação do passado. Quando as autoridades não sabem o que fazer, repetem o que sempre fizeram mal; quando não há explicações, prometem o que sempre prometeram. Nada de novo neste sebastianismo serôdio: dizia Lourenço que uma “hiperidentidade” nacional foi constitutiva da projeção fantasmática de um povo que foi chamado de predestinado aos grandes feitos do Império, mas a derrota do rei-menino em Marrocos rompeu esse ciclo desde o seu início e criou desde então uma “não-história”, uma falsificação de si própria disfarçada na crueza da colonização, do tráfico negreiro, da escravatura, conduzindo ao “póstumo” fracasso final. Não continuará a ser assim?

A assombração insepulta desse Quinto Império transmutou-se na nossa contemporaneidade num discurso delirante sobre a carruagem da frente, sobre a glória europeia, sobre a voz forte no concerto das nações, sobre os portugueses “de sucesso”, de banqueiros a governantes, se bem que nem todos conduzindo o seu mister com o maior prestígio. Quem diria então que essa modernidade avançada, tecnologicamente segura, engenhosa e inventiva, desabaria perante uma chuvada, ainda por cima previsível, anunciada, teimosamente repetida e de resultados antecipáveis.

O ciclo do sebastianismo foi “o máximo de existência irrealista que nos foi dado viver; de um máximo de coincidência com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real”, escrevia Lourenço no “Labirinto da Saudade”. Numa palavra, resumia, estamos sempre à espera do “milagre”. Fraca consolação será agora saber que também no caso deste dia cinzento, o milagre era um projeto aprovado, orçamentado e calendarizado, que ficou enigmaticamente para as calendas, como parece ser uma regra não escrita da gestão das coisas sérias.

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-13-Se-ate-o-Quinto-Imperio-nao-tinha-departamento-de-protecao-civil-213bc159


quarta-feira, 3 de março de 2021

Francisco Louçã - Épater le bourgeois, ou o grito pelo sangue

OPINIÃO

* Francisco Louçã

A credibilidade mora no sentido, não tanto no simples gesto. Reduzido a uma estratégia de entretenimento, o gesto esvai-se na banalidade. É o caso da polémica sobre se “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos” na revolução do 25 de Abril. Vagamente inconsequente, não é?

Aexpressão épater le bourgeois, ou surpreender o burguês, terá sido utilizada por Charles Baudelaire, mas diversas fontes relacionam-na, de modo mais amplo, com uma atitude geracional, a de poetas malditos do final do século XIX, apelidados com ligeireza de decadentistas, como Arthur Rimbaud, ou mesmo Oscar Wilde. Precursores do dada ou do surrealismo, dizem-nos.

Se bem que a origem exata da frase seja obscura e, portanto, incerta, pode ter sido usada por Baudelaire para descrever a estratégia comercial dos artistas plásticos e das suas galerias, que teriam que exibir objetos surpreendentes para chamar a atenção dos eventuais compradores. Não basta mostrar um urinol, teria ele dito, é preciso ser ainda mais provocador.

Para combater o tédio, privilégio do dinheiro, a arte deveria chocar os aperaltados clientes das galerias. Devia fazer-se ouvir, mesmo que fosse, e até seria melhor se fosse pela rejeição pela sociedade bem pensante (desde que um generoso investidor apreciasse ser a exceção).

A técnica de chamar a atenção pelo insólito não foi inventada por estes poetas nem pelos pintores que descrevem. É mesmo uma constante universal. Desde que existe linguagem e comunicação que as interjeições, os gritos, as frases retumbantes, os grandes efeitos são usados em abundância. Por isso mesmo, tais técnicas de épater le bourgeois podem ter muitas declinações.

Num discurso de um célebre parlamentar português e reputado orador de há um século, ao lado de uma frase de efeito esperado surge a anotação “aqui, mais forte”. Um político e militar que tomou o poder na China dizia, prosaicamente, que é preferível que o inimigo nos insulte do que nos ignore, tudo depende da atenção. Nestes casos, a atenção é suscitada pelo volume da fala ou pela ameaça; noutros, será simplesmente pelo inusitado.

O problema é que mesmo épater le bourgeois exige alguma dimensão. A credibilidade mora no sentido, não tanto no simples gesto. Reduzido a uma estratégia de entretenimento, o gesto esvai-se na banalidade. É o caso da polémica sobre se “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos” na revolução do 25 de Abril. Vagamente inconsequente, não é? Pedir mortes que não houve, naturalmente desde que não seja a minha, cruzes canhoto, e imaginar um passado glorioso com esse sangue que faltou, é um heroísmo um tudo nada bacoco. Na verdade, trata-se unicamente da sequência da proposta sobre a “demolição” do Padrão dos Descobrimentos, que parece ter sido logo seguida de uma explicação pacificadora, tratar-se-ia de uma mera metáfora, seria então o apelo a uma destruição assim a modos que fictícia, tudo fica na mesma.

O curioso nestas frases é precisamente o efeito da sequência, dado que, se não têm valor de proposta nem sequer de política, são somente uma representação do grito, uma chamada de atenção. Elas dão um título de jornal e isso é tudo o que é preciso. O mesmo se pode dizer das descobertas espantosas do comentador que sentencia que os pobres têm uma estrutura cerebral deficiente e distinta do comum dos mortais, coitados. Ou da forma como Ventura faz comunicação, tudo são gestos tonitruantes. Ou, para não o esquecer, da proposta de ilegalização do Chega, ou ainda de tantas outras afirmações e polémicas cuja utilidade é esgotarem-se de imediato.

A estratégia da atenção faz parte de toda a política, ou até da vida, concedo. Comunicação é atenção, um discurso do Presidente ou do ministro, uma proposta parlamentar, um comentário televisivo, tudo busca atenção. No entanto, há uma diferença entre a fala e a simulação. A fala é argumentativa e, por isso, sujeita à crítica; a simulação é nada mais do que um pretexto, que usa a encenação contra o discurso. Uma tem consequência e vale por ela, a outra é inconsequente e afirma-se pela irrelevância.

Percebo que em partidos políticos, ou no espaço público, esse seja o recurso disponível para quem luta por um lugar: a afirmação de um particularismo, mesmo se for, sobretudo se for uma posição chocante, é porventura um caminho para preservar a posição na lista eleitoral seguinte, ou na notícia do dia. Há quem se torne incontornável por ser campeão da impertinência. De facto, nesse jardim das vaidades é melhor investimento ser flamingo do que ser pombo. Infelizmente, isso nem chega para épater le bourgeois, que prosseguirá seraficamente o seu empreendimento.

2 MARÇO 2021 11:37

https://expresso.pt/opiniao/2021-03-02-Epater-le-bourgeois-ou-o-grito-pelo-sangue

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Francisco Louçã - Le Carré, o maior escritor britânico do pós-guerra

* Francisco Louçã 

Em outubro de 2019, o autor deixou um recado: os seus velhos espiões cansados são, como nós, testemunhas do desencantamento do nosso tempo

John le Carré sempre recusou que os seus livros fossem candidatos a prémios, e quando o seu nome apareceu, em 2011, na lista do Booker exigiu que fosse retirado. Hesitava em considerar-se um “autor”, e essa estranha modéstia favoreceu que a sua obra fosse acantonada num género entendido como secundário, o romance de espionagem. No entanto, nada de mais injusto. Le Carré foi o maior escritor britânico do pós-guerra e criou uma literatura sem par, inventou um estilo e, em contraste com Fleming e o seu 007, um dandy que brilha pela tecnologia e por um glamour passadista, criou personagens e enredos extraordinários, contraditórios e vivos. Depois da Guerra Fria, o tema dos seus primeiros grandes livros, Le Carré continuou a pintar um meticuloso inventário da viragem do século e nenhum outro autor se lhe compara nesse monumento.

UM VELHO ESPIÃO CANSADO

Como os obituários recordaram, Le Carré teve uma primeira vida como espião. Por mais de uma década, sob o disfarce primeiro de estudante e depois de diplomata, fez parte do MI5 e do MI6. O princípio não foi heroico: recrutado em Berna em 1948-1949, conta que um casal o abordou numa igreja, convencendo-o de que a pátria precisava dos seus serviços, voltou a Oxford encarregue de espiar esquerdistas na faculdade. Seguiu depois carreira na Alemanha, responsável por entrevistar desertores soviéticos de segunda linha. E começou a escrever os seus primeiros romances, até que o serviço o aconselhou a abandonar funções em 1963, temendo inconfidências ou a liberdade da pena, tanto mais que a sua identidade fora revelada pela mais bem sucedida toupeira dos serviços russos, Kim Philby. Mikhail Lyubimov, que dirigiu a espionagem russa em Londres de 1960 a 1964 e depois se ocupou em Moscovo do departamento britânico ao longo da década seguinte, confirmou que terá sido Philby a revelar a função de David Cornwell, aliás, Le Carré.

O culminar da sua obra é a figura de Geor­ge Smiley. No primeiro livro em que surge, “Chamada para a Morte”, de 1961, é apresentado pela sua mulher: “Quando Lady Ann Sercombe casou com George Smiley, no fim da guerra, descreveu-o às suas amigas de Mayfair, muito espantadas pela notícia, como um personagem de uma banalidade surpreendente.” Ele já era o “velho espião cansado”, um “solteirão falhado de meia idade” que preferia ter estudado obscuros escritores alemães do século XVII, mas que fora chamado para uma carreira nos serviços de informação. Smiley é o contraponto do misterioso e implacável Karla, que dirige os serviços de Moscovo, com quem joga um xadrez fascinante até ao fim.

Pergunta Borges, em ‘Notas sobre (para) Bernard Shaw’, incluído em “Outras Inquirições”: “Um autor pode criar personagens superiores a ele? Eu responderei que não, e nesta resposta irei abranger o intelectual e o moral. Penso que de nós não sairão criaturas mais lúcidas ou mais nobres do que os nossos melhores momentos.” Pois Le Carré prova o contrário. Smiley, que foi o seu “pai de substituição”, ou o seu “mentor secreto”, é mais verdadeiro para si próprio do que para as conveniências do seu criador. É um poderoso retrato de uma época, de uma atitude, é uma história: “Eles (os personagens) foram os veteranos de um conformismo burguês, encontram penosamente o seu lugar e respeitam a estabilidade das instituições burguesas. Parece-me que eram todos uns românticos que sofriam por serem testemunhas da sua morte espiritual na sociedade que defendiam”, escreve Le Carré. Essa decadência é penosa, e quando Smiley regressa, 56 anos depois da sua entrada em cena, foi para invetivar Trump e o ‘Brexit’ em “Um Legado de Espiões” (2017), uma vida de desilusão.

O MUNDO COMO ELE É

O primeiro sucesso de Le Carré foi “O Espião que Veio do Frio” (1963), mas foi depois “A Toupeira” (1974), que iniciou a trilogia de Karla (1977 e 1979), que o estabeleceu como o mestre do thriller de espionagem. Dez anos depois, a queda do Muro de Berlim deslocou a geopolítica da Guerra Fria, mas o autor recriou-se como o escritor das sombras, da duplicidade e da manipulação em que assenta o domínio. Percorreu o Ruanda, a Chechénia, a Turquia, o Panamá, voltou à Rússia e Alemanha, foi à Palestina, ao Caribe, ao Líbano, veio a Lisboa e escreveu. As suas duas dúzias de livros constituem um dos melhores retratos, se não o melhor, destas adaptações do poder como crime ao longo do fim do século.

Tratam do conflito israelo-palestino (“A Rapariga do Tambor”, 1983), dos traficantes de armas (1993, “O Gerente da Noite”), da mentira (“O Alfaiate do Panamá”, 1996), das manigâncias da lavagem de dinheiro (“Single & Single”, 1999), da exploração de África (“O Fiel Jardineiro”, 2001, “O Canto da Missão”, 2006), do papel de Tony Blair na invasão do Iraque (“Amigos até ao Fim”, 2003), das técnicas de sequestro e das prisões clandestinas da CIA (“Um Homem Muito Procurado”, 2008, que o “New York Times” considerou “a sua novela mais poderosa”) e, de novo, uma feroz denúncia do terror a pretexto da guerra ao terror (“Uma Verdade Incómoda”, 2013). Foi autobiográfico em “Um Espião Perfeito” (1986), polemizou acidamente com Salman Rushdie no confronto épico entre dois egos (1997) e, em outubro de 2019, com o “Agente em Campo”, deixou o seu testamento. Um livro melancólico, mais uma vez sobre um fracasso. Foi esse o recado de Le Carré: os seus velhos espiões cansados são, como nós, testemunhas do desencantamento do nosso tempo.

18.12.2020

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

FRANCISCO LOUÇÃ - Autobiografia, de José por José


* FRANCISCO LOUÇà 

José Luís Peixoto publicou a sua “Autobiografia”, um romance sobre a relação verdadeira e a ficcionada entre o autor e outro José, Saramago. É uma narrativa da admiração, do afeto e até da descoberta, em que não sabemos, nem na verdade interessa saber o que é factual, ou inspirado em factos reais, ou a imaginação do autor sobre a sua admiração por um escritor consagrado e já no auge da sua carreira. Saramago poderia ser o que Peixoto quereria da vida. Mas essa não é a história desta autobiografia. O que ali se lê é outra coisa: é o esforço e o ofício do escritor, no seu quotidiano pesado, algumas vezes exasperado, outras desesperado, raramente tranquilo.

É ao voltar a uma escrita mais próxima da sua realidade vivida e mais longe de alguma imaginação ficcional que o escritor se torna mais ousado na exploração da linguagem e dos seus personagens. Gosto mais deste Peixoto. Contando de si próprio, é mais livre

Tanta curiosidade, José olha intensamente para o outro José, consegue um pretexto para falar com ele pela primeira vez, ainda não é íntimo, nem próximo, nem sequer é lido, também ainda publicou tão pouco, mas em todo o caso escreveu um dos seus melhores livros, “Morreste-me”, e porque é que o escritor famoso havia de ter lido uma pequena edição de autor, chega a tempo ao encontro, quer uma entrevista, não sabe se deve gravar ou tomar notas, entorna a bebida na mesa, está nervoso, quer saber mas não lhe saem as perguntas. E depois lê. Talvez o escritor pudesse conhecer o outro escritor só pela escrita, isso podia bastar, afinal é assim para todos nós. Mas José quer conhecer José, quer ver como se move, ouve a voz de Pilar, entrevê os seus amigos, as suas coisas, os seus lugares. Há mais mundo para além da mão que escreve. O roteiro dessa ronda chama-se “autobiografia”, como se o eu fosse aqui uma entidade difusa, quem é quem? E há um amor cabo-verdiano, e há uma criança, e um bairro de imigrantes, e a encomenda de uma biografia.

Em tudo isso há muito do que quem lê José Luis Peixoto já conhece, mas há também uma chispa diferente. É interessante, é ao voltar a uma escrita mais próxima da sua realidade vivida e mais longe de alguma imaginação ficcional que o escritor se torna mais ousado na exploração da linguagem e dos seus personagens. Gosto mais deste Peixoto. Contando de si próprio, é mais livre. Talvez a literatura seja mesmo isto.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Francisco Louçã - Leonor vai formosa e não segura

* Francisco Louçã

OPINIÃO

Leonor, cavaleira da mais insigne ordem de cavalaria, que não leu Camões nem se enfadará com a mitologia do Tosão de Ouro, sabe pelo menos que as monarquias são um conto de fadas para as revistas cor-de-rosa.

3 de Fevereiro de 2018, 7:57 

Leonor decerto não conhece Luís de Camões, nem nunca lhe sopraram carinhosamente aqueles versos, “Descalça vai para a fonte/Leonor, pela verdura;/vai formosa e não segura”. No Centro Privado de Enseñanza de Santa Maria de los Rosales, Leonor não cuida de trovas portuguesas. Também o que lhe interessaria esta homónima tão antiga, que “Leva na cabeça o pote,/o testo nas mãos de prata,/cinta de fina escarlata,/sainho de chamalote;/traz a vasquinha de cote”, e ainda por cima “vai formosa e não segura”? Leonor vai segura e mesmo certa, sem lho terem citando, ou porventura tendo ouvido demais, de que “chove nela graça tanta/que dá graça à formosura”. Mas Camões não entra naquele colégio, onde estuda a única pretendente a um trono europeu que frequenta o ensino privado.

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Leonor também não se lembrará do Duque de Borgonha, Filipe III, que levava o curioso cognome de O Bom, sabe-se lá por que artes. Já passou tempo demais, quase 600 anos, pois foi nos idos de 1429 que sua Alteza criou a Ordem do Tosão de Ouro, “uma das ordens de cavalaria mais prestigiosas e antigas da Europa”, apressa-se a explicar a Wikipedia, que sabe tudo.

Leonor talvez não tenha ouvido a história graciosa da Argo, essa nave que atravessa a mitologia, comandada por Jasão, acompanhado dos filhos dos melhores da Antiguidade, lá estava Hércules, filho de Zeus, Teseu, o maior herói grego, Orfeu e tantos outros, corajosos Argonautas navegando pelos mares em nome de uma vingança dinástica e para encontrarem o Tosão de Ouro, esse que deu nome à ordem de cavalaria. Newton, dado a cosmologias, calculou pela posição dos astros que a busca tivesse ocorrido no ano 939 antes da nossa era, portanto há 2957 anos. Como é que Leonor haveria de saber da aventura?

Leonor também não deve ter visto a lista dos cavaleiros da Ordem do Tosão de Ouro, apreciaria ela cruzar-se com Sarkozy, tacões altos no Salão Real, o rei da Arábia Saudita, a única família que dá nome ao seu país, o czar da Bulgária, o rei da Tailândia, o Grão-Duque do Luxemburgo, tudo boa gente, e, mais mundanamente, o chefe da NATO e um banqueiro, garbosos cavaleiros do Tosão? Mas Leonor saberá, e certamente apreciará, que desde o tempo da sua mãe até as mulheres passaram a poder receber a insígnia, e ela é uma das primeiras a pregá-la ao peito (um íman escondido garantia não haver riscos com o alfinete, esclarecem as revistas).

Saberá Leonor que a Ordem do Tosão de Ouro tem os seus dissidentes, que a Casa de Bourbon, que veio de terras francesas, e que em Espanha se ajustou a Bórbon, tem uma ramo austríaco, e quem sabe se algum mais por aí, que, sabedor da importância das insígnias, reclama um Tosão próprio, o mais verdadeiro, o que a deixa a ela como a pretendente de linhagem pura ou como uma usurpadora, vá-se lá saber?

Lembrar-se-á em todo o caso Leonor, princesa das Astúrias, de lhe ter sido concedida essa graça aos 10 anos. Mas teve de ter paciência. A insígnia, a condecoração mais distinta de Espanha, só lhe foi entregue agora aos 12, pelo pai, o rei, não podia ser cavaleira enquanto ainda fosse uma criança. A aplaudi-la, estavam na cerimónia vinte jovens da sua idade, dos 11 aos 14, todas vencedoras de um concurso de redacção em que tinham que desenvolver o tema fascinante, “O que é um Rei para ti?”. Diz uma revista que estas vencedoras da pena “trouxeram a sua frescura à solenidade da cerimónia”, ficam tão bem ao lado dos hussardos que ocupam os cantos do salão, de espada em riste.

Leonor, cavaleira da mais insigne ordem de cavalaria, que não leu Camões nem se enfadará com a mitologia do Tosão de Ouro, sabe pelo menos que as monarquias são um conto de fadas para as revistas cor-de-rosa.

https://www.publico.pt/2018/02/03/opiniao/opiniao/leonor-vai-formosa-e-nao-segura-1801812?

terça-feira, 18 de julho de 2017

Corto Maltese, 50 anos depois

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Francisco Louçã

18 de Julho de 2017, 08:24

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Corto Maltese, 50 anos depois

P
arece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.

Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.
O maravilhamento de algumas figuras cimeiras da literatura com a banda desenhada, mesmo que a vissem como género menor, também não é de hoje e não se inventou certamente com Pratt. Steinbeck, que não era modesto, adivinhava provocatoriamente um Nobel para Al Capp, pela força do seu Li’l Abner, a representação encantatória do mundo rural norte-americano (e de uma simplicidade desarmante que levava a água ao seu moinho). Umberto Eco dedicou-se aos Peanuts e a Charlie Brown num livro, “Apocalípticos e Integrados” (edição portuguesa na Relógio d’Água), em que descreve os enquadramentos de cinema na tira do desenho.
Pode-se perguntar então de onde vem o ciúme ou a curiosidade que escritores de mérito têm da banda desenhada. No caso do sucesso de Pratt, percebe-se de onde vem essa sensação: é que Corto Maltese é mesmo um romance em forma de apresentação gráfica. Aliás, Pratt explora decididamente esse vínculo e pisca o olho à literatura clássica: Pandora lê Melville, Slutter lê Rilke e Shelley, Corto cita Conrad e a “Utopia” de More e, ao atravessar as mitologias (célticas, etiópicas, caribenhas, argentinas, venezianas, o vodoo ou o que lhe apetece), ao escolher com que se cruza (Butch Cassidy, o Barão Vermelho, Tiro Fixo, mas também Hemingway, Hesse, Joyce), vive aventuras que transcendem os limites do tempo. Nenhum romance pode pedir mais, se os traços são marcados, se as personagens vivem a sua vida, se nos surpreende, então é a melhor literatura. É certo que, sendo desenho, deciframos melhor nessas páginas alguma coisa do autor (Eco conta que a sua filha pequena, apresentada a Pratt, disse que ele era Corto), e portanto a mentira da literatura é vivida à nossa vista.
Mas Pratt morreu há vinte anos. Corto, que é mais teimoso, continua agora com o desenho dos espanhóis Juan Diaz Canales (Blacksad) e Rubén Pellejero, em “Sob o Sol da Meia Noite”, já editado em Portugal (Arte de Autor, 2017), anunciando-se um segundo livro desta dupla, “Equatoria”. Discutir-se-á se outro escritor pode continuar “Os Maias” ou “A Guerra e Paz” e dir-se-á que não pode. Mas, neste atrevimento, Corto cruza-se com Jack London, encontra rebeldes irlandeses, sonha com Rasputine, destrói uma rede de tráfico de mulheres, percorre o Yucon – e nós imaginamos o resto e aceitamos a aventura.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/18/corto-maltese-50-anos-depois/

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Francisco Louçã - O pensamento mágico

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7 de Abril de 2017, 10:46

Por

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O pensamento mágico

P
aulo Portas terá dito recentemente a uma ilustre plateia: “Quanto mais vejo referendos, primárias e directas e as suas consequências, mais admiro o método cardinalício: um colégio de 120 pessoas, todos nomeados e nenhum eleito, mas com a ajuda do Espírito Santo, foram capazes de eleger papas como Wojtyla e Francisco quando foi necessário mudar o mundo”. Escândalo? Manifesto anti-democrático? Teocracia reinventada? Voltamos à Idade Média? Calma, parem as sirenes, era uma piada.
Nada indica que a direita, pese embora as disfarçadas inclinações monárquicas e teocráticas que povoam o CDS, se oriente para um modelo constitucional em que se atribua ao Divino Espírito Santo, na sua infinita misericórdia, a escolha do Presidente, governo e juntas de freguesia. Era mesmo uma piada.
Mas temos um problema a bordo. É que os métodos que foram inventados com a missão solene de refrescar a democracia cerimonial, a que se baseia na distante convocação dos eleitores de quatro em quatro anos, cansada que ela vai, não resultaram e até, todos eles, agravaram o problema. Círculos uninominais? Aumentam o risco de corrupção. Primárias? Um bom truque para um partido tentar recrutar apoios fingindo que escuta a sociedade. Referendos? O poder europeu impediu referendos prometidos e chora os que não conseguiu evitar. Participação na internet? As caixas de comentários são geralmente lixeiras e o frenesim vingativo de alguns maníacos não é prova de vigor comunicacional. Sondagens? Já vimos como são manipuladas.
Na verdade, ainda temos um problema mais grave: é que a democracia foi sempre vista com desconfiança pela burguesia – já passavam cento e cinquenta anos desde o seu triunfo e ainda se recusava o sufrágio universal, que só se generaliza no final do século XX (e ainda não chegou a todo o mundo).
Este preconceito social tem antecedentes. Heródoto, nas suas “Histórias”, condenava a democracia e as suas palavras retinem ainda hoje: “quando nos exorta a colocarmos o poder supremo nas mãos do povo, afasta-se do bom caminho. Nada mais insensato e insolente do que uma multidão inconsequente. Procurando evitar-se a insolência de um tirano, cai-se sob a tirania do povo sem freios. Haverá coisa mais insuportável? Quando o soberano toma uma medida, sabe bem por que a toma; o povo, ao contrário, não usa a inteligência nem a razão”. E concluía modestamente: “quanto a nós, escolhamos homens virtuosos e coloquemos o poder em suas mãos. Acho que podemos incluir-nos nesse número, e, de acordo com a lógica, os homens sensatos e esclarecidos só podem dar excelentes conselhos”.
Velharias? Não tanto. James Buchanan, prémio Nobel da Economia, explicava numa reunião da Sociedade de Monte Peregrino, o Olimpo dos nossos neoliberais, que “a manutenção da sociedade livre pode bem depender de serem retiradas certas decisões da determinação por voto maioritário”, e o governador do Banco da Alemanha, Hans Tietmeyer, acrescentaria que preferia o “plebiscito dos mercados” ao das urnas.
É por isto que as evocações de um pensamento mágico sobre a condução da sociedade devem merecer atenção. Não por causa do divino espírito santo, coitado, mas por causa de Heródoto: a substituição da democracia pela tirania (dos tecnocratas, do BCE, da Comissão Europeia acima dos eleitos, ou de outra qualquer forma moderna) é a forma de governar que nos foi imposta. O poder que pode evoca então um destino mítico para substituir a capacidade de escolha legítima pelos homens e mulheres: deve haver austeridade por ser a exigência de “reformas estruturais”; deve ser entregue o Novo Banco por ser a lógica dos mercados; devem ser cortados os salários por que a agências de notação assim o preferem. Perante qualquer dificuldade de monta, a justificação é sempre mágica, o que constitui o mais radical afastamento da ideia democrática.
A triste lógica do “mal menor”, na sua fatal desistência da inteligência, arrasta a Europa para a substituição dos contratos sociais de inclusão e de bem-estar pela ordem da exclusão e mal-estar. O centro, tão radical nessa desistência, reconhece que a legitimidade democrática é um perigo para a governação neoliberal e, por isso, deve ser substituída pela autoridade mágica, que se conforta com o poder político autoritário. Que ninguém se espante então com Trump, ou com Orban, ou com Dijsselbloem, ou com o que vem a seguir.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/04/07/o-pensamento-magico/

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Salvé, Fernando Assis Pacheco

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31 de Janeiro de 2017, 16:02

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Salvé, Fernando Assis Pacheco

O
livro “Tenho Cinco Minutos pra Contar uma História” é uma memória daquele jornalista, ou poeta, ou prosador, que faria 80 anos e que anda a gozar com toda a gente. É por gozo que nos manda estas crónicas repescadas em papéis, que as gravações são escassas, e que deram em voz de rádio entre 1977 e 1978, na RDP.

O homem, “coimbrinha de nascimento e alfacinha pelo local de trabalho”, ficou famoso pela participação num concurso de TV, a Cornélia, com um empreendimento familiar que fizera dele um pop star. “Aqui há quatro meses as mães aproximavam-se de mim e diziam aos meninos pequenos: ‘Vá, dá lá um beijinho ao senhor da Cornélia!’,”explica-nos ele, envergonhado por, depois de tanto beijo, ainda ter sido transformado em cromo da caderneta do concurso. O certo é que ficou famoso, mas o merecimento era maior do que a pilhéria de umas noites de TV.
Assis Pacheco vem de uma história de galeguices, de um avô que atravessou para Portugal para vender panos pelas feiras e que era pesado com o cajado nos lombos de quem lhe agourasse. Por cá instalados, os Pachecos arribaram a Coimbra e o Fernando à universidade. Fez tropa e rimas e deu em jornalista.
Como Dinis Machado, um escritor de que tanto gostava, ele dava em flanar. “Fica-se por aí, homem de poucas falas, desconfiado talvez de que a glória (ah, a glória…) não passa de um engodo das Parcas, as cabras das Parcas, dissimulando a tesoura na dobra véstia. Do que ele parece que gosta é de flanar, mais flanar do que falar, de flanar claro, diria eu.” Só que Assis Pacheco era mesmo de flanar, de falar e sobretudo de escrever.
As crónicas são o registo em papel daquelas falas. Nelas nos conta como viajou a cobrir jogos de futebol na Alemanha, ou a acompanhar um escritor, José, não se deite a adivinhar, era o Cardoso Pires, desembarcando ambos na Dinamarca para receberem toda a hospitalidade, incluindo “saborear um amável peixe de coloração encarnada, em português ‘rodovalho’, cozido na altura, como deve ser, cercado de batatas novas e, ó José, que bem me lembro, suicidado num molho branco e doce, com leite, açúcar, etc., que ia agonizando toda a história da Literatura Portuguesa dos últimos 40 anos.” O viajante gosta de Cesário Verde, vendedor de ferragens, dono de poesia ao balcão, que morreu tísico aos trinta e muito pouco, lembra o Joaquim Agostinho e antes dele o Alves Barbosa e os ciclistas perdidos por esse mundo, regista as conversas entre passageiros de eléctrico, manda recado ao Arnaut que entrou para o governo, para os assuntos sociais, é um rapaz da minha geração lá de Coimbra e dará conta do recado, conta matreiro como chegou à Conservatória para o casamento, na bicicleta do cabo enfermeiro Barra e com um grãozito na asa, para ser solenemente admoestado pelo chefe de balcão – este Assis Pacheco é uma torrente, qual flanar.
É saboroso: e não é que o oficial da censura continuou a insistir com o jornal, pela tarde de 25 de abril, que as provas estavam atrasadas, até o telefone ficar a tocar sozinho? É pícaro: revela a “sociedade aldrabófona nacional”, como aquele homem que lhe pediu duas vezes um contributo para o funeral da mesma esposa estimada com poucos anos de intervalo. É jornalista: “Sento-me na bancada, acendo um cigarro e vejo calmamente os 90 minutos de chuto na bola, divertindo-me imenso com a paranóia ambiente. No meu tempo dizíamos ‘fora o árbitro’ e a boca escaldava com tanta enormidade; hoje um estudioso poderia aproveitar os sábados e domingos para se por à la page com o calão mais recente e sofisticado, e sobrar-lhe-ia tempo para admirar como o português, esse brando de costumes, enriquece a língua por dá cá aquela finta.” Este Assis Pacheco era tudo.
Salvé, Fernando.

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

“Os Últimos Dias da Humanidade”, uma peça de Karl Kraus

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20 de Janeiro de 2017, 16:01

Por


Depois da paz, só guerra

O
Teatro Nacional S. João desceu a Lisboa, ao D. Maria II, para uma curta temporada de “Os Últimos Dias da Humanidade”, uma peça de Karl Kraus encenada por Nuno Carinhas e Nuno M. Cardoso. Kraus, checo (1874-1936), escreveu esta diatribe contra a Primeira Guerra, enquanto os delírios patrióticos santificavam a mortandade. “Os diálogos mais inverosímeis aqui travados foram pronunciados nesta exacta forma; as mais cruéis fantasias são citações”, explica. Metade do texto são citações de tudo, do Estado-Maior, de ministros, da imprensa, da voz popular. A montagem febril mostra-se então como é: uma leitura do horror, em que todos os personagens são irrealmente leves, só têm um leve traço de carácter (o “optimista”, o “eterno descontente”), habituados que estão à fome, à mentira, à manipulação, aos sonhos de purificação e império , portanto, ao deserto das emoções. “Cada som é incomparavelmente autêntico, mas no conjunto deixam-nos perplexos, como os oráculos”, escreveu Walter Benjamim sobre este teatro.

São então sons; fora dos cânones teatrais dessa era, o que aqui temos é uma leitura (Brecht terá sido então dos poucos a perceber o que era esta representação). Ora, para Kraus, como a “indústria da cultura”, a imprensa, era a responsável pela excitação do militarismo e pelo conformismo do ódio, responde-lhe colocando em cena “máscaras do Carnaval trágico”, pois o teatro quer “ensinar a ver abismos ali onde estão lugares-comuns – esta seria a obrigação pedagógica de uma nação que cresceu em pecado; seria a salvação dos bens da vida perante os bandos do jornalismo e as grilhetas da política”. As máscaras falam, nós ouvimos, é a política da guerra.
Com a imensidão da tragédia, o tempo parou e restam os sons. Não sabemos o que vem depois mas, diz-nos Kraus, é só mais guerra, a paz é impossível. Em 1933, ano de Hitler, escrevia “Não me perguntem em que andei ocupado./Mantenho a mudez;/e não digo os porquês./Reina o silêncio num mundo destroçado./Faltou ao verbo alento;/a fala é já sem tento./E sonha-se com um sol que ria sem cessar./Tudo fica para trás;/depois – tanto faz./A palavra morreu, com esse mundo a acordar.” A palavra morreu no meio de tantas palavras, reina o silêncio, é a guerra.
“A Noite da Iguana”, de Tennessee Williams, norte-americano (1911-1983), é encenada por Jorge Silva Melo com os Artistas Unidos (o Teatro do Bolhão representou esta peça há meia dúzia de anos) e, após o S. Luís, vai para o Porto e outras cidades. Duas décadas depois de Kraus e é a guerra seguinte, mas lá longe, os nazis que veraneiam no hotel Costa Verde, no México, festejam os bombardeamentos sobre Londres. Só que, ao contrário dos “Últimos Dias”, esta é uma história de pessoas e não de leituras. Destroçadas, febris, são misteriosas porque imprevisíveis. Só grandes actores podem fazer estes sofridos corpos que se procuram no devaneio do rum, no deus perdido, nos encontros fúteis ou no sexo distraído. N’”A Noite”, correm em frente para ficarem na sua colina, de onde olham para o mar, não sabem para onde vão e se vão. O tempo também aqui parou, mas é porque os personagens mergulham em si mesmos.
O conto foi escrito num “período desesperado da minha vida”, contava Williams, depois de ter feito o percurso da Cidade do México até este hotel, em 1940, tinha 29 anos. Ele é como Shannon, o ex-reverendo alcoólico, dilacerado, que se quer deitar na rede do cenário e falar com Fred, que já morreu. Não se sabe o que fará agora, mas não fará nada. Está cansado.
As duas peças falam-nos portanto de guerras diferentes, mas sempre do perigo do silêncio. Entre sons e emoções, esse silêncio é a guerra que continua, é o sofrimento de dentro de nós. Entretanto, Trump tomou posse. Perguntaria Kraus: “A palavra morreu, com esse mundo a acordar”?

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/01/20/depois-da-paz-so-guerra/

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

“Cinco Esquinas”, de Mario Vargas Llosa




“Cinco Esquinas”, de Mario Vargas Llosa

L
eio tudo o que Vargas Llosa escreve. Tudo e não deixo passar muito tempo; leitor fiel, espero sempre o próximo livro. Desta vez, foi uma desilusão. Cá fico à espera do próximo e passo a explicar.
Recentemente, discutindo o lugar de vultos de direita na cultura moderna (o tema era Céline, o que é certamente um caso extremo de um grande escritor que era não só anti-semita como pró-petainista e pró-nazi, mas poderiam ter sido discutidos os exemplos de Ezra Pound, ou os casos diferentes de Fernando Pessoa ou de Almada Negreiros) apresentei também o caso de Vargas Llosa, certamente diverso dos anteriores, até porque o seu tempo é outro. A questão é relevante porque ele a tornou relevante: ele foi esquerdista e pró-castrista (visitou Portugal na leva de entusiasmo que trouxe Sartre e Beauvoir, entre tantos outros, logo depois do 25 de Abril), depois reaccionário e liberal, para agora se distanciar um pouco do seu activismo político, que o levou mesmo a uma falhadíssima candidatura à presidência do seu país – e foi sempre um grande escritor.
Será então que a sua visão do mundo, que tanto mudou, influenciou ou moldou a escolha dos seus temas, ou a sua escrita? A resposta só pode ser afirmativa. E, no entanto, os livros são de tal grandeza que ganham vida, os personagens são figuras verdadeiras na sua história, a escrita é sem concessões a facilidades. É isso a marca da literatura gigante.
“A Guerra do Fim do Mundo”, um dos meus preferidos, é um monumento. Como os seus leitores sabem, é a história da revolta de Canudos, que foi contada por Euclides da Cunha, mas em Vargas Llosa foi romanceada num épico deslumbrante sobre a realidade da vida dos camponeses no sertão, sobre o milenarismo e a utopia religiosa que procurava uma libertação espiritual e da vida dos escravos e sofridos da terra, nos últimos dias do século XIX. É um dos poucos exemplos da grande literatura que demostra que só um drama é capaz de narrar uma revolução popular e que nos sabem fazem sentir esse tempo de grande tragédia.
Vargas Llosa tratou de novo a utopia no livro que se seguiu à “Guerra”, “A História de Mayta”, mas também mais tarde, n’“O Sonho do Celta”, talvez em ambos os casos com menos esplendor. Quando aqui chegou, já vinha de créditos firmados: livros anteriores, como a “Casa Verde” ou “Conversa na Catedral”, já tinham demonstrado o talento enorme do escritor.
cinco
E, se há um discurso político nos seus livros, é uma pulsão popular e contra tiranias: na “Festa do Bode” procura um ajuste de contas histórico com um ditador, com a memória do regime sinistro de Trujillo na República Dominicana – e o fim do ditador. O seu último livro, “Cinco Esquinas”, é um outro ajuste de contas, desta vez com o ex-presidente do seu país, Fujimori, que governou num período de repressão e guerrilha, e que veio a ser condenado muito mais tarde por corrupção. A história é vivida em dois universos: o de duas famílias da burguesia peruana e o de um pasquim infame, um jornal manipulador que vai acabar por constituir uma ameaça contra o poder do tirano, apressando a decadência do regime e do seu executante, o “doutor”, o chefe do serviço secreto. A história amorosa entre as distintas e ociosas senhoras pode surpreender a leitora e o leitor habitual de Vargas Llosa, porque encontrarão um erotismo e suave atrevimento que é novidade no autor. Mas a trama é ingénua, com a transfiguração de uma jornalista do pasquim na coveira do regime, passando de um jornalismo de sarjeta para uma grande causa vingadora. Falta nisto tudo alguma da força sincera e arrebatadora dos anteriores livros de Vargas Llosa, por isso adivinho que os leitores ficarão decepcionados quando fecharem a última página. Assim aconteceu comigo, confesso.
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/08/17/cinco-esquinas-de-mario-vargas-llosa/