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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

João Rodrigues - As aparências enganam, isto não é um diário



Coimbra, sexta-feira, 5 de fevereiro de 2026 

Pus-me a caminho de Braga ao fim de almoço. Chovia, claro. Cheguei duas horas antes da hora. Braga é mais perto do que Lisboa e, no entanto, parece mais longe. Da distância à sua perceção, somos todos feitos de hábitos: afinal de contas, vivi uma dúzia de anos em Lisboa e vivo agora entre Vila Franca de Xira e Coimbra, as minhas duas cidades, Carina e Pedro. 

Planeei para ter tempo de ir rever a Sé, aproveitando uma aberta. Fui bem recebido na Almedina, a que fica no centro de Braga, ao pé da porta aberta da liberdade, monumento inaugurado a 25 de abril de 2024. 

A simpática responsável de uma livraria inaugurada há meses fez questão de me fazer uma visita, explicando a traça modernista muito bem restaurada da livraria, das estantes à escada. Tinha sido ali a livraria Vítor, de Vítor de Sá, antifascista bracarense e historiador (um dos principais prémios de História tem o seu nome). Ali estavam fotos da grande montra da livraria com buracos feitos por tiros da reação no PREC. Informou-me que as fotos tinham sido descobertas por acaso nas obras. 

Entretanto, um cidadão montanhista de oitenta anos, que tinha subido o Monte Branco há três anos, disse-me simpaticamente que lia todos os dias o blogue. Antes da sessão começar, ainda fui brevemente entrevistado por uma jornalista do Correio do Minho, perguntas diretas, como se quer: sim, o fascismo nasce do extremar do capitalismo, como titulou no dia seguinte.

Pequena digressão. Apresentar livros é uma das minhas atividades intelectuais favoritas. Tenho tido a sorte de praticamente só apresentar livros com os quais aprendi e com os quais ganhei tempo, de José Reis a António Avelãs Nunes, só para referir dois distintos intelectuais antifascistas, professores jubilados da cada vez mais neoliberal Universidade de Coimbra, com quem tenho aprendido. Há quem resista, claro. Eles resistem. 

Quem me lê sabe que tento ser mordaz na crítica, mas que também ensaio o elogio rasgado. Caldear é uma questão de justeza e uma forma de evitar o ressentimento que mata todo o conhecimento. Estou reconhecido e obviamente gosto de ser reconhecido, reciprocidade generalizada. Quem não? 

Nour Ribeiro dos comunistas de Braga, que também dinamiza sessões de apresentação de livros “insubmissos” e que me convidou, introduziu e moderou a sessão. Bruno Madeira, historiador e professor da Universidade do Minho, fez a apresentação propriamente dita. Cada um no seu estilo, mais breve um, com mais tempo o outro, tinham ambos excelentes intervenções escritas, que muito valorizaram o livro de ensaios de economia política do antifascismo. Fiquei meio sem jeito, ainda para mais são mais jovens, há mesmo progresso. 

Para disfarçar, lancei-me então ao ataque em pelo menos três frentes: ficheiros Epstein, inépcia governamental mais ou menos deliberada na catástrofe em curso e crítica do liberalismo até dizer chega. Procurei as ligações fascizantes no estado a que isto chegou em múltiplas escalas, tentando vislumbrar a alternativa antifascista, a que começa pela ação coletiva nos locais de trabalho e continua na reconstrução da economia mista, base material da soberania democrática. Houve boas intervenções da plateia e muita simpatia combativa, estava cheia a livraria. Autografei uns livros, com gosto. 

Já depois da sessão, à saída, uma estudante militante, que tinha estado a assistir e que está a fazer uma tese de mestrado em história sobre democratas bracarenses, informou-me: Vítor de Sá andava pela cidade com um carrinho de madeira a vender livros clandestinos. Recomendaram-me um ensaio dele sobre o fascismo no quotidiano. Estamos sempre a aprender.

“Nem os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”, escreveu Walter Benjamin em 1940. Eles ainda não venceram a guerra, embora tenham ganhado tantas batalhas. Chovia no regresso a Coimbra. Estava satisfeito por não ter faltado ao encontro, e só os encontros constantes nos podem valer, embora quem viaja por gosto também tenha o direito de se sentir cansado. 

Postado por João Rodrigues às 10.2.26

domingo, 28 de setembro de 2025

Antonio Gnoli - Retrato de Claudia Cardinale

 



Domingo, 31 de agosto de 2014

No dia 21 de julho, La Repubblica publicou um grande retrato de Riccardo Mannelli e uma entrevista com Claudia Cardinale de Antonio Gnoli.

Claudia Cardinale: "Nunca quis ser diva, descobri tarde que sou bonita."

Sua infância em Túnis, o primeiro diretor que se encantou com ela, sua estreia com Monicelli. E depois Visconti, Fellini, Germi. Memórias de uma atriz que escolheu se defender do sucesso: "Tive sorte, guiei bem meu destino seguindo apenas uma regra: viver como se fosse o primeiro dia, não o último."


As faculdades menos óbvias de uma grande atriz são a timidez, a solidão, um corpo que muda impiedosamente, mas que continua a conservar um senso de mistério. Ao assistir a uma grande atriz, nos sentimos solidários com a imagem que ela transmitiu em seus muitos filmes. Alguns nós amamos. Outros nós esquecemos. Mas é como se através deles descobríssemos não apenas sua metamorfose, mas também uma parte de nossa história, nossos gostos, nossos desejos mais ou menos remotos. É cinema. Com seu poder imaginativo. E a comunhão latente que sentimos nos enche de espanto.

"Nunca me considerei uma grande atriz. Sinto-me desconfortável diante da imagem de alguém que me faz falar alto. Nunca pensei em me tornar como Greta Garbo ou Marlene Dietrich. Acho...

que atuar ainda é a mais humilde e gratificante das profissões. Fiz 141 filmes. Cada vez era como descer para dentro de mim mesma, para a escuridão daquele pequeno mundo interior que, quando revelado, equivale a um nascimento. Quantas vezes nasci na minha vida?" Enquanto Claudia Cardinale acende seu primeiro cigarro, ela deixa a pergunta cair como uma carta de tarô jogada na mesa: "Não sou supersticiosa, gosto de brincar com os signos do zodíaco, sou de Áries, afinal, mas no fundo acho que o destino está apenas em nossas mãos. " 

Ela já sentiu que estava perdendo o controle?
"Quando você está em uma crise, pode sentir que está perdendo o controle sobre as coisas. É desconcertante aprender nesses momentos o quão fraca ou frágil você pode ser. Mas, afinal, fui uma mulher de sorte que guiou bem seu destino. E acho que não vale a pena se atormentar com perguntas que não têm saída. Sempre me impus uma regra básica: Claudia, viva não como se fosse o último dia da sua vida, mas o primeiro.

Toda vez, a primeira vez?
"Para quem faz cinema, muitas vezes é assim. Se eu não tivesse essa paixão, essa necessidade de me surpreender com o que faço, dificilmente teria durado muito. E isso parece ainda mais surpreendente quanto mais penso no meu começo, que foi completamente por acaso."

Você não era uma dessas garotas determinadas a trilhar seu caminho?
"Eu tinha 16 anos, morava em Túnis, onde nasci. Dois diretores me viram em frente à escola. Eles estavam procurando uma adolescente para um pequeno papel. Convenceram meu pai, apesar da minha resistência. E assim estreei no papel de uma árabe completamente velada."

Você gostou?
"Não sei. Senti uma sensação de intolerância. Então, na última cena, uma rajada de vento rasgou meu véu. Um close incrível foi criado, encantando o diretor. Ele me ofereceu um novo papel em um filme estrelado por Omar Sharif.

E ela aceitou?
"Relutantemente. Por um lado, era um mundo que me intrigava, por outro, me entediava. Eu pensava no set como uma gaiola."

Como era Sharif?
"Bonito, com olhos doces e irônicos. Mais tarde, nos tornamos amigos. Ele tinha uma mania de jogo. Se eu ligasse para ele, ele frequentemente estava sentado em uma mesa de cassino tentando a sorte."

Falando em beleza, ela tinha consciência da sua?
"Nem um pouco. Eu me achava feia. Então, aconteceu de eu ganhar um concurso de beleza e o prêmio era uma viagem a Veneza. Fui convidada para o festival de cinema, onde uma das seções era dedicada ao cinema tunisiano. Inesperadamente, começou o cerco de fotógrafos e produtores.Todos queriam que eu fizesse filmes. Não resisti e voltei para Túnis no primeiro avião. Eu tinha 18 anos.

Ele descobriu o pior lado do cinema.
"Como em todas as coisas, há um lado menos agradável. Muitas pessoas, que tinham começado a cercar minha família, tentaram convencer meu pai de que o cinema era um ótimo caminho a seguir. E, finalmente, meu pai me mostrou as muitas cartas e telegramas sobre mim. Ele timidamente disse: talvez valesse a pena tentar. Foi assim que vim para Roma e entrei no centro de cinema experimental."

Onde ele morava em Roma?
"Com uma tia que morava fora da cidade. Peguei o ônibus para casa. Eles me alertaram sobre o risco da 'mão morta'. Perguntei: 'O que é essa 'mão morta'?' E minha tia riu: 'Você vai entender imediatamente quando sentir alguém apalpando furtivamente seu traseiro.'

E aconteceu?
"Infelizmente, sim. Virei-me com raiva para um homem que fugiu."

De que anos estamos falando?
"Era 1956. Depois da experiência no 'Centro', voltei para Túnis, determinado a deixar tudo para trás novamente. Resumindo, levei um tempo para me convencer de que este seria o meu mundo."

Seu primeiro filme de verdade, ou melhor, um grande filme, foi um papel em I Soliti Ignoti. O que você lembra dessa estreia?
"Era 1958, e aquele foi o início da comédia italiana. No filme, eu estava flertando com Renato Salvadori, que fingia ser meu irmão: 'Sou Michele, esqueci minhas chaves'. E eu, virtuosamente, bati a porta na cara dele. Fiz isso com tanta violência que Renato machucou o olho. Monicelli, depois da cena, gritou para mim: 'Claudia, no cinema, você finge. Lembre-se, nada é real, embora tudo seja real!'"

Que lembranças você tem de Monicelli?
"Um homem aparentemente rude. Penso nele com infinita gratidão. Alguns anos antes de morrer, nos encontramos em Paris para uma homenagem que o cinema francês lhe prestou. Ele subiu no palco, eu estava na primeira fila. E quando ele me viu, disse: "Olha aquela garota, a Claudia, ela começou comigo." Foi comovente. Apesar das diferenças, ele me lembrou, em alguns aspectos, o Pietro Germi."

Outro diretor incomum.
"Muito talentoso e subestimado. Ele era fechado, introvertido como eu. Bastava olhar nos olhos um do outro para nos entendermos."

Você não dá a impressão de ser introvertido.
"Não gosto de multidões. Gosto de ficar sozinho. "

O sucesso não te envolve?
"Faço de tudo para não me deixar abater por ele."

O auge foi alcançado em 1963, quando você filmou "O Leopardo" e "8 1/2" ao mesmo tempo.
"Tive que me dividir entre dois 'monstros' governados por impulsos opostos. Com Luchino era como estar no teatro. Com Federico, o set era uma espécie de happening.Tudo aconteceu sob o signo da improvisação."

Com quem você se deu melhor?
Visconti era obcecado por detalhes. Tudo tinha que ser perfeito. Fellini não tinha roteiro. Ele frequentemente improvisava. Luchino e eu nos tornamos amigos. Assistimos ao Festival de Música de Sanremo, fomos ao teatro. Eu me senti adotada. Fizemos nossa última viagem a Londres juntos, para um show da Marlene Dietrich. Descobri que eles eram amigos. E foi uma surpresa. Quando se encontraram para jantar, ela caiu no choro."

E ele?
"Ele gostava de confortá-la. Ele sabia como sentir o lado oculto das pessoas. O que era útil na preparação de um filme. Lembro-me de quando Burt Lancaster chegou ao set de O Leopardo, Alain Delon olhou para ele e disse: 'O quê, eles escolheram um caubói para interpretar o príncipe?' E, em vez disso, ele foi extraordinário. Pobre Alain."

Vocês eram amigos?
"Ainda somos. Profundamente. Ele teve alguns problemas com um filho e com a parceira que o deixou. Mas conversamos com frequência."

Falando em filhos, ela disse que, ao retornar a Túnis, descobriu que estava grávida.
"Não quero falar sobre isso."

Não é crime.
"É um assunto privado. Enfim, se decidi fazer filmes, foi para aquela criança, para me sentir independente."

Não deve ter sido fácil.
"Não foi. O agravante foi que Franco Cristaldi, meu produtor, me aconselhou, por questões de carreira, a manter segredo. Para evitar escândalos."

E ela concordou?
"Por um tempo, sim. No fim, decidi contar a eles. No fundo, eu me sentia uma mulher livre. Posso acender um cigarro?" De nada.
"Aprendi a fumar depois que Visconti me obrigou em Vaghe stelle dell'orsa."

Depois do sucesso com Visconti, ela atuou em Hollywood.
"Meu primeiro filme americano, dirigido por Henry Hathaway, foi com John Wayne e Rita Hayworth. Uma noite, Rita entrou no meu camarim e disse algo que me fez chorar: Eu também já fui bonita como você. Ela disse isso com infinita dor em suas palavras. Ela estava claramente chateada. Havia uma sensação insuperável de decadência nela, mas para mim ela continuava sendo Gilda."

O que é beleza para uma mulher bonita?
"Não é um objetivo, mas uma ferramenta. Pasolini escreveu um dos primeiros artigos sobre mim. Ele disse que minha beleza estava contida no meu olhar."

Você o conheceu?
"Que bom. Porque nessa época comecei a namorar Alberto Moravia."

Eu sei que ele dedicou um livro a você.
"Um livro que nasceu depois de uma longa entrevista."

O que o grande escritor fez você sentir?
"Eu não o conhecia. Fui à casa dele pela primeira vez para aquela famosa entrevista. Encontrei-o sentado à máquina de escrever.Um pouco rígido. Fiquei envergonhado."

Por quê?
"Ele me disse que se interessava pelo corpo de uma atriz. As sensações que esse corpo proporcionava. Ele me fez perguntas desconcertantemente simples. Qual é a primeira coisa que ele faz ao acordar de manhã? Quando está no banheiro, na banheira, em que pensa? E assim por diante."

O que a impressionou naquele encontro?
"A total falta de pretensão intelectual. Eu não estava me exibindo, e ele também não."

Você já se sentiu uma diva?
"Nunca. Eu sempre disse: me julguem pelos filmes que fiz, não pela minha vida privada. O estrelato confunde os dois níveis."

Mas sua vida privada se entrelaçou com seu trabalho.
"Sobre o que você pensa?"

Gostaria de retornar por um momento a Cristaldi. Tem-se a sensação de que a presença dele a afetou.
"Certas imposições, certas durezas, me amarguraram. Nosso relacionamento nunca foi verdadeiramente único."

Você frequentemente compartilhou sua vida com homens particularmente durões.
"Gosto deles fortes, mas justos. Como Pasquale Squitieri."

Qual o papel que ele desempenhou?
"Ele era o homem da minha vida."

Por quê?
"Faz um tempo que não estamos juntos. Mas ainda conversamos com frequência. Entre outras coisas, temos uma filha juntos."

Doeu quando terminou?
"Não, tive o mesmo problema quando decidi me mudar para Paris. Agora moro lá. Sozinha. Silenciosa. Numa linda casa às margens do Sena."

Sinto uma leve melancolia.
"É a tristeza de tudo que nunca mais volta. Como você era e como seus amigos eram. Revi O Leopardo há algum tempo, na versão restaurada por Martin Scorsese. Foi uma noite estranha. Eu tinha Delon ao meu lado, e ele segurou minha mão durante todo o filme. Parecia estar tentando arrancá-la. Então eu o ouvi chorar. E perguntei a ele o que estava acontecendo, Alain. Somos os únicos que restam vivos, ele disse. Essa é a grande tristeza. Steve McQueen, que recebi em Roma; Cary Grant, com quem fui a um show dos Beatles em Los Angeles; Marcello e Vittorio, com quem fiz minha estreia. Pessoas que eu amava, ou talvez odiava, e que não estão mais entre nós. O que resta?" O que resta?
"Algumas lembranças e um pouco de fé. "

Quanto?
"O suficiente para entrar em uma igreja. O importante é que ela esteja vazia. Me incomoda ser reconhecido."

O sucesso pesa sobre você?
"Eu não acreditava no sucesso. Parecia absurdo. Então aconteceu."

Moravia perguntou a ela sobre seu corpo. Como você se sente em relação a ele hoje?
"Não gosto de atrizes que fazem cirurgia plástica. Você se olha no espelho e não sabe mais quem é. Não dá para parar o tempo. Não dou muita importância a isso."O que transparece através da tela é, acima de tudo, a capacidade de comunicar emoções."

A tela não mente?
"Ou mente demais. Às vezes, faz você sonhar."

Você sonha?
"Sim, eu vou para a cama tarde. Fecho os olhos e anseio por ver os rostos dos meus entes queridos. "

Sonhos são involuntários.
"Eu costumo esquecê-los. Quando criança, sonhava com frequência que me jogava de uma janela. Sempre penso nisso quando olho da sacada da minha casa em Paris. Penso naquele sonho e na minha África."

Quais são seus sentimentos?
"Sinto vontade de chorar quando penso no que está acontecendo naquele continente. Estou envolvida com várias organizações humanitárias. Há mulheres para defender, crianças para proteger, natureza para preservar, doenças para erradicar. As pessoas quase nunca têm a chance de falar. Ou são tratadas apenas com demagogismo. Gostaria que pudéssemos recomeçar daqui."

Postado por Fany / Raffaella Spinazzi 

(Tradução automática, sem revisão do texto)

 https://fany-blog.blogspot.com/2014/08/ritratto-di-claudia-cardinale.html

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Manuel Durand Clemente - “O 25 de Abril que Novembro traiu"

       


Associação Conquistas da Revolução - ACR

VOZ DO OPERÁRIO, 5 de Abril de 2025


* Manuel Durand Clemente

APRESENTAÇÃO 

1.Os fantasmas de todas as revoluções derrotadas, ou desvirtuadas, ao longo da história, renascem sempre em novas experiências, assim como os tempos presentes foram engendrados pelas contradições do passado. Parafraseando Eduardo Galeano: “a História é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi anuncia o que será. A memória é subversiva por ser diferente, e também projecto de futuro”. Neste livro deixo-lhes a memória subversiva de experiências vividas, que não são opinião nem interpretação; são informações para aclarar alguns factos. Conspirei e actuei com muito empenho, vários anos antes da Revolução de Abril, com civis e militares antifascistas e anticolonialistas; faço parte dessa geração intrépida que derrubou uma ditadura a cair de podre. Lembro-me, que no dia da vitória da nossa Revolução, os portugueses regozijaram-se e viveram uma euforia emancipatória de intensa participação colectiva, reivindicaram o direito à palavra e ocuparam as ruas como espaço de libertação. Mas, à medida que as promessas de justiça social se concretizavam, surgiram os golpes e os contragolpes reacionários para as asfixiar… Em certo sentido a direita tinha razão, quando se identificava com a tranquilidade e com a ordem. Porque a ordem é a duradoura humilhação da classe trabalhadora, mas sempre é uma ordem – a tranquilidade de que a injustiça continua injusta, e a pobreza aumenta. A nossa Revolução viveu tempos duros e difíceis, de contradições e sacrifícios. Os próprios portugueses confirmaram que o socialismo se construía com o esforço de todos, e que a revolução não era nenhum passeio… As sucessivas mudanças de governos culminaram na fúria das agressões contra o Primeiro-ministro Vasco Gonçalves e seus apoiantes, por serem a expressão não mascarada da luta de classes: o perigo real. E esta revolução acossada, que suportou traições sem limites, não caiu em ditadura por ter sido defendida pelo povo. As bandeiras da revolução social, que os coveiros da Revolução de Abril enterraram em Novembro, defendiam as nacionalizações das empresas estratégicas e a expropriação dos grandes agrários que teimavam em boicotar o desenvolvimento económico do país (um dos três “Ds” inscritos no Programa do Movimento das Forças Armadas).

2 Cinquenta anos passados recordo neste livro o descontrole e precipitação com que as autoridades militares analisaram os acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. Pelo carácter irreversível de afirmações e posições políticas assumidas por altos responsáveis, que não garantiram um julgamento justo aos “supostos implicados no designado golpe comunista”. Os militares e civis, presos e exilados após o 25 de Novembro, sofreram as vicissitudes de um ambíguo processo revolucionário. Humilhados e ultrajados, foram vilmente condenados à priori, por um sistema militar “novembrista” que subverteu os direitos universais. E para que conste, na memória futura, as averiguações não apuraram a Verdade que interessava ao país e à revolução dos trabalhadores, mas às forças mais reacionárias da sociedade portuguesa. “Só a verdade é revolucionária!”, escreveu António Gramsci. E George Orwell também disse algo semelhante, ao afirmar que "numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um acto revolucionário!" Por isso, escrevi estas crónicas para responder a muitas questões e inquietações que me zumbem na cabeça, e o que escrevi desfruta de um sentimento coletivo sempre que coincide com experiências comuns. Sei que pode parecer sacrilégio que algumas crónicas falem de determinados acontecimentos ao estilo de um romance de pirataria, mas confesso que me repugna ler obras de certos sociólogos, politólogos, ou historiadores, que escrevem em código. No meu caso, escrevi para divulgar experiências vividas e ideias alheias, que talvez ajudem, na justa medida, a clarificar as dúvidas que perseguem há cinquenta anos alguns dos ditos “vencidos” da Revolução. Porque nos mentem sobre o passado, como nos mentem sobre o presente, para mascararem a realidade. Para nos incutirem uma memória hegemónica, fabricada, alienada, dissecada e estéril. De maneira a resignarmo-nos e a perdermos a esperança na Humanidade. Há uma tendência para pensarmos que o presente é imutável, e esquecemo-nos de quantas vezes, ao longo da História, fomos surpreendidos pelo colapso de instituições, por mudanças extraordinárias nas mentalidades, por explosões inesperadas de rebelião popular e pelo colapso de regimes políticos que pareciam invencíveis.

3 Por isso, as coisas más que hoje acontecem não são mais do que repetições de coisas que sempre aconteceram, como as guerras, o racismo, o fanatismo religioso e nacionalista, os maus-tratos infligidos às mulheres, a desigualdade social, a fome, etc. etc. O bom, por outro lado, é o inesperado. Inesperado e explicável através de certas verdades, que de vez em quando explodem e que tendemos a esquecer. Mas convém não esquecer que a Revolução de Abril foi o culminar de lutas de muitas gerações por uma sociedade mais justa, para conquistarmos a liberdade e o direito de votarmos livremente. Hoje, muitas pessoas protestam contra um sistema capitalista que favorece “os donos do capital”, mas falham o alvo sempre que culpam os imigrantes, os ciganos, os negros ou as comunidades mais desfavorecidas. Por isso, precisamos urgentemente de criar um sistema mais justo e igualitário que combata os discursos populistas da extrema direita. O que ainda me encoraja é justamente essa possibilidade de mudança, apesar do racismo, da xenofobia, da discriminação sexual, da pobreza, das crises económicas que envenenam a nossa sociedade, e das guerras. As guerras invocam sempre motivos nobres, quer seja em nome da Paz, de Deus, da civilização, do progresso ou da democracia, e se por via das dúvidas nenhuma dessas mentiras for suficiente, os meios de comunicação social estão dispostos a inventar novos inimigos imaginários “para justificarem a conversão do mundo num grande manicómio e num imenso matadouro”, como afirmou Eduardo Galeano. Tudo isto porque as armas exigem guerras e as guerras exigem armas, e os países que dominam as Nações Unidas, com poder de veto, são os principais produtores de armas. Nunca escondi as minhas opiniões políticas: o meu ódio à guerra e ao militarismo, a minha fúria perante a desigualdade social, a minha crença no socialismo, como distribuição justa e racional da riqueza. Sabemos que a dinâmica interna do capitalismo continuará a gerar crises económicas, a destruir o meio ambiente, a aumentar a pobreza, e que com a Inteligência Artificial, os novos “donos do capital” podem substituir a verdade dos factos por falsidades, e comprometer o futuro da Democracia. Mas se apenas virmos o pior perdemos a perspetiva histórica, e podemos reduzir o mundo às notícias deprimentes dos telejornais diários.

4 Creio que o que temos de ver, para não perdermos a esperança, são as mudanças operadas ao longo do tempo. De maneira a combatermos o pessimismo como profecia auto-realizável, que mutila a nossa vontade de agir para transformar o mundo em que vivemos. No fundo, os seres humanos desejam e querem as mesmas coisas: anseiam por paz e condições de vida justas, por amizade e afecto, para além de todas as diferenças culturais. Por isso, não podemos ver apenas o pior sob pena de destruirmos a nossa capacidade de intervir no processo de mudança. O que realmente importa é continuarmos a combater a indiferença e o conformismo, a defender a verdade histórica, a questionar o discurso hegemónico que nos conduz a receptores passivos e impotentes, e a não perdermos a esperança no futuro da Democracia. Temos de acreditar que “Nada é impossível de mudar”, como escreveu Bertolt Brecht:

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

GRATO a todos.

M Duran Clemente

Lisboa, 5 de Abril de 2025       

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      ~[*] Capitão de Abril, actualmente Coronel reformado, nasceu em Almada a 28 de Junho de 1942. Foi aluno do Instituto dos Pupilos do Exército e licenciou-se em Administração na Academia Militar. Iniciou a contestação ao regime ditatorial em 1969, no MDP/CDE. Foi um dos capitães da génese clandestina do Movimento do MFA, e na Guiné, eleito para a primeira Comissão do Movimento de Capitães (1973). Durante o Processo Revolucionário foi membro da 5ª Divisão/EMGFA, onde coordenou o CEIP, estrutura de informação pública (rádio, televisão e “O Boletim do MFA”). Foi secretário-geral da Assembleia do MFA e seu porta-voz de 11 de Março a Setembro de 1975. Após o 25 de Novembro de 1975 exilou-se em Cuba e Angola. Foi co-fundador da Associação de Amizade Portugal / Guiné-Bissau, da Associação 25 de Abril, do Movimento Cívico “Não Apaguem a Memória” e da Associação Conquistas da Revolução. Foi Presidente da Assembleia de Freguesia de Santa Catarina (Lisboa) na coligação PS/PCP (1999-2011), candidato à Assembleia da República pela CDU círculo de Setúbal (1999), vereador (substituto) à Câmara Municipal de Lisboa na coligação PS/PCP (2001-2005) e assessor da Câmara Municipal do Seixal (1991-2015). Também desempenhou cargos de administração em entidades municipais do mesmo concelho. É autor de vários livros e obras colectivas, publicou diversos artigos e proferiu inúmeras comunicações sobre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, em Portugal e no estrangeiro. Entre as várias homenagens e condecorações destaca-se o reconhecimento da Voz do Operário “pelo importante papel no desenvolvimento da Revolução do 25 de Abril, bem como a luta em defesa dos trabalhadores e do povo, pela Dignidade, Liberdade e Democracia” (2014), as insígnias de Cavaleiro da “Ordem de Avis” (1971) e de Grande-Oficial da “Ordem da Liberdade” (2021).   O texto acima é a apresentação do seu livro "O 25 de Abril que Novembro traiu", na Voz do Operário, em Lisboa.

https://resistir.info/portugal/d_clemente_05abr25.html

domingo, 20 de outubro de 2024

Carlos Coutinho - [Lobisomens]

* Carlos Coutinho

  NUNCA fui muito de acreditar em lendas estapafúrdias nem de ter medo de sombras ou de pios de coruja. Vendo um filme na televisão, lembrei-me agora de uma certa noite de sábado, na barbearia do Sr. Manuel Sacristão. Teria eu uns seis anitos, quando lá fui cortar o cabelo, à luz mortiça do candeeiro a petróleo que iluminava os rostos impacientes de meia dúzia de clientes à espera de vez.

Era inverno, o chão da rua tinha uma camada de neve quase de palmo que, depois, no caminho de regresso a casa, eu ia marcando com sulcos arrastados das minhas chancas de solas de pau. Quando cheguei ao Largo do Terreiro, comecei a notar que havia duas filas, paralelas e muito encostadas uma à outra, de outros sulcos, estes em forma de coração e com uma largura de quatro ou cinco centímetros. Podiam ser de cão grande, mas, como eu vinha com os ouvidos cheios de histórias assustadoras de lobos e lobisomens, foram marcas lupinas o que me pareceu ver pela rua acima, na direção da minha casa e do cemitério, lá muito para o alto.

Parei debaixo de um luar pálido e de mau augúrio, achei desmesurada a lua cheia e decidi seguir para o Largo do Cimo da Rua por um caminho alternativo que passa pelo Tapado, onde começa o urtigoso Quelho que desce para o Largo do Itreido. Estaquei ao lado da fonte de pedra para avaliar a situação posta pela fantástica corrida de um peludo lobisomem que passou à minha frente sem para mim olhar. Veio da Carreira Velha e embicou de cabeça oblíqua pela rota do cemitério.

Hoje sei que foi uma alucinação, consequência das histórias ouvidas na barbearia, provavelmente exploradas para me assustarem. Mas eu levei a coisa a sério e, quando me dispunha a voltar para a barbearia, apareceu esbaforido o meu tio Alberto que tinha ficado encarregado de me ir buscar e já não me encontrou. Justificou a sua demora não me lembro como e, quase a chegar a minha casa, disse:

– Estás mais suado que o meu peito numa tarde de verão. Tens febre?

– Não. Tenho fome. Vossemecê atrasou-se muito.

Fez-se um breve silêncio e eu perguntei:

– Alguma vez viu um lobisomem, tio?

– Eu? Nunca! E tu?

– Também não, mas na barbearia só se falava nisso.

Se eu não fosse sobrinho de um irmão da minha mãe, talvez confessasse que havia acreditado em certos pormenores inquietantes daquelas arrastadas conversas mal-intencionadas, mas a verdade é que desatámos ambos a rir, já no quinteiro que havia à frente da minha antiga casa.

Passados estes anos todos e puxado pela televisão para as crenças de antanho, fui à Internet procurar o que haveria sobre o assunto e, então, fiquei a saber que, na lúgubre barbearia que ficava por cima da loja de uma vaca leiteira e ao lado da sapataria do Sr. Lucindo, nada tinha sido inventado e que lobisomem ou licantropo (do grego λυκάνθρωπος: λύκος, lýkos, ‘lobo’ e άνθρωπος, ánthrōpos, ‘humano’) é uma pessoa capaz de se transformar num faminto lobo ou em algo semelhante a um lobo, quase sempre em inquietantes noites de lua cheia.

Tal lenda aparece nas obras de vários autores que contam a história do pugilista arcádio Damarco da Parrásia, herói olímpico, que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias.

Também Heródoto, nas suas “Histórias”, escreveu que, de acordo com o que os citas acreditavam, os gregos estabelecidos na Cítia lhe contaram serem os Neuri, uma tribo do Nordeste, que eram todos transformados em lobos, uma vez por ano, durante vários dias, voltando seguidamente à forma humana. O historiador teve o cuidado de acrescentar que não estava convencido da veracidade dessa história, mas os moradores locais juravam que ela era verdadeira. Esta lenda também foi narrada por Pomponius Mela.

No século II a.n.e. o geógrafo grego Pausânias contou a história do rei Licaão da Arcádia, que foi transformado em lobo porque sacrificou uma criança no altar de Zeus Liceu. Na versão escrita em latim por Ovídio nas suas “Metamorfoses”, quando Zeus visitou Lacaão, disfarçado de homem comum, o visitado quis testar se ele era realmente um deus. Para tanto, matou um refém molossiano e entregou as entranhas da vítima a Zeus. Enojado, este transformou Licaão em lobo. No entanto, noutros relatos da lenda, como o da Bblioteca de Apolodoro, Zeus atacou-o, bem como aos filhos, com raios e coriscos, como como punição divina.

Esta história também é contada por Plínio, o Velho, que chama a Licaão a Demaenetus, citando Agripas. Segundo Pausânias, este não foi um acontecimento único, já muitos homens foram transformados em lobos durante os sacrifícios a Zeus Liceu. Se eles se abstivessem de comer carne de gente enquanto eram lobos, seriam restaurados com a forma humana nove anos depois, mas, se não se abstivessem, permaneceriam lobos para sempre.

Os primeiros autores cristãos também mencionaram lobisomens. Na obra “Cidade de Deus”, o bispo Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) faz um relato semelhante ao encontrado em Plínio, o Velho. Agostinho explica que "é geralmente aceite que, por certos feitiços de bruxa, os homens podem ser transformados em lobos.”

Esta metamorfose fisionómica também foi mencionada no “Capitulatum Episcopi”, atribuído, desde a sua reunião no século IV, ao Concílio da Ancira e tornou-se texto doutrinário da Igreja em relação à magia, bruxas e transformações como as dos lobisomens. Nele está escrito que “quem acredita que qualquer coisa pode ser transformada noutra espécie ou semelhança, exceto pelo próprio Deus é sem dúvida um infiel.”

Há também evidências de uma crença generalizada em lobisomens na Europa medieval. Os lobisomens foram mencionados em códigos de então, como o do Rei Canuto II da Dinamarca, cujas “Ordenações Eclesiásticas” nos informam de que esses códigos visam garantir que “o lobisomem loucamente audacioso não devaste muito, nem morda muitos dos membros do rebanho espiritual.”

Liuprando de Cremona, por sua vez, fala de um boato segundo o qual Bajan, filho de Simeão I da Bulgária, poderia usar magia para se transformar em lobo.

As obras de Agostinho de Hipona tiveram grande influência no desenvolvimento do cristianismo ocidental e foram amplamente lidas pelos clérigos do período medieval que ocasionalmente peroravam sobre lobisomens em suas obras. Exemplos famosos incluem “Werewolves of Ossory”, de Geraldo de Gales, na sua “Topographica Hibernica”, assim como em “Otia Imperiala”, de Gervase de Tilbury, ambos escritos para o público real.

Gervase revela que a crença em tais transformações (ele também menciona mulheres que se transformam em gatos e em cobras) foi difundida por toda a Europa. Usa a frase “que ita dinoscuntur”, ao discutir essas metamorfoses, que significa “é conhecido”". Escreveu na Alemanha e também diz que a transformação de homens em lobos não pode ser facilmente descartada, pois “na Inglaterra, muitas vezes vimos homens transformarem-se em lobos (“Vidimus enim frequenter in Anglia per lunationes homines in lupos mutari”).

As tradições pagãs germânicas associadas a homens-lobos persistiram por mais tempo na Era Viking escandinava. Harald I da Noruega tinha um corpo de Úfhednar, os “homens revestidos de lobo”, que são mencionados em “Vatnsdœla, Haraldskvæði! e na “Saga dos Volsungos”, parecendo-se com algumas lendas de lobisomens.

Os Úlfhednar eram lutadores semelhantes aos berserkers, embora se vestissem com peles de lobo, em vez de peles de urso, e tivessem a reputação de absorver os espíritos desses animais para aumentarem a eficácia na batalha. Úlfhednar e os berserkers estão intimamente associados ao deus nórdico Odin que deu excelente substância a Wagner para as suas óperas.

As crenças escandinavas deste período podem ter-se espalhado pela Rússia de Kiev, dando origem aos contos eslavos de lobisomens. Um príncipe bielorrusso do século XI, Vseslav de Polotsk, foi descrito como um lobisomem, capaz de se deslocar em velocidades sobre-humanas, conforme se pode ler no “Conto da Campanha de Igor”:

“Vseslav, o príncipe, julgou os homens; como príncipe, ele governou cidades; mas à noite ele rondava disfarçado de lobo. De Kiev, rondando, ele alcançou, antes da tripulação dos galos,Tmutorokan. O caminho do Grande Sol, como um lobo rondando, ele cruzou. Para ele, em Polotsk, os sinos tocavam cedo para as matinas em Santa Sofia; mas ele ouviu o toque em Kiev.”

“Ser um lobisomem” era uma acusação comum em julgamentos de bruxas ao longo da história, e apareceu até nos julgamentos de bruxas de Valais, um dos primeiros casos desse tipo, no século XV.

Na “Historia de Gentibus Septentrionalibus”, Olaus Magnus descreve uma assembleia anual de lobisomens perto da fronteira Lituânia-Curlândia. Os participantes, incluindo a nobreza lituana e lobisomens das áreas vizinhas, reniam-se para testarem a sua força, tentando saltar sobre as ruínas de uma muralha de castelo. Aqueles que conseguiam eram considerados fortes, enquanto os participantes mais fracos eram punidos com chicotadas.

Também houve numerosos relatos de ataques de lobisomens – e consequentes julgamentos judiciais – na França do século XVI. Nalguns casos havia provas claras contra os acusados de homicídio e canibalismo, mas nenhuma associação com lobos. Noutros, as pessoas ficaram aterrorizadas com essas criaturas, como no caso de Gilles Garnier em Dole, em 1573, que foi condenado por ser lobisomem.

Um pico de atenção para com à licantropia ocorreu no final do século XVI, como parte da caça às bruxas na Europa. Vários tratados sobre lobisomens foram escritos na França entre 1595 e 1615. Lobisomens foram avistados em 1598 em Anjou e um lobisomem adolescente foi condenado a prisão perpétua em Bordéus em 1603. Henry Boguet escreveu um longo capítulo sobre lobisomens em 1602. No Vaud, lobisomens foram condenados em 1602 e 1624. Um tratado escrito por um pastor de Vaud em 1653 afirma-se, no entanto, que a licantropia é puramente uma ilusão.

Depois disso, o único registo adicional do Vaud data de 1670: é o de um menino que alegou ter, tanto ele como a mãe, a capacidade de se transformarem em lobos, o que não foi levado a sério. No início do século XVII, a bruxaria foi perseguida por Jaime I da Inglaterra, que considerava os “warwoolfes” vítimas de um delírio induzido por “uma superabundância natural de melancolia”.

Depois de 1650, a crença na licantropia desapareceu em grande parte da Europa de língua francesa, como consta da “Enciclopédia", de Diderot, onde os relatos de licantropia não são mais que um “transtorno do cérebro".

A parte da Europa que mostrou interesse mais vigoroso pelos lobisomens depois de 1650 foi o Sacro Império Romano-Germânico. Pelo menos nove obras sobre licantropia foram impressas na Alemanha entre 1649 e 1679. Nos Alpes austríacos e bávaros, a crença em lobisomens persistiu até o século XVIII. Também na nossa vizinha Galiza, em 1853, Manuel Blanco Romasanta foi julgado e condenado como autor de uma série de assassinatos, mas afirmou estar inocente devido à sua condição de “lobishome”.

Isto é corroborado pelo facto de em áreas desprovidas de lobos ocorrerem normalmente diferentes tipos de predadores mitificados: homens-hiena na África, homens-tigre na Índia, bem como homens-puma (‘runa uturuncu’ e homens-jaguar (‘yaguaraté-abá’ ou ‘tigre-capiango’) na América do Sul.

O vampiro também tinha relação com o lobisomem nos países do Leste europeu, particularmente na Bulgária, Sérvia e Eslovênia. Na Sérvia, o lobisomem e o vampiro são conhecidos como vulkodlak. Daí nasceu o famoso Drácula romeno.

Na sua obra, Gerard registrou os relatos das diversas etnias que fazem parte da Transilvânia (alemães, ciganos, húngaros, romenos, entre outros) sobre diversos aspetos da vida na região, bem como as superstições sobre o mau-olhado, espíritos, bruxas, vampiros (dos tipos strigoi, moroi e nosferatu) e lobisomens (representados pelos prikolitch e pelo vârcolacve):

“O primo-irmão do vampiro, o werwolf dos alemães, é encontrado aqui sob o nome de Prikolitsch. Às vezes é um cão e não um lobo, cuja forma um homem assumiu, ou foi obrigado a assumir, como penitência pelos seus pecados.

Numa aldeia ainda se conta — e acredita-se – a história de um homem que, num domingo, voltando para casa com a esposa, sentiu de repente que havia chegado o momento da sua transformação. Entregou-lhe as rédeas da carruagem em que seguiam e correu para o meio dos arbustos, onde, murmurando uma fórmula mística, deu três cambalhotas sobre uma vala.

"Logo depois, a mulher, que esperava em vão pelo marido, foi atacada por um cachorro furioso, que saiu latindo do mato e conseguiu mordê-la com força e rasgar-lhe o vestido. Quando, uma ou duas horas depois, a mulher chegou a casa depois de dar o marido como perdido, ficou surpresa ao vê-lo a vir sorrindo ao seu encontro; mas quando entre os dentes dele ela avistou os pedaços de seu vestido mordidos pelo cachorro, o horror dessa descoberta a fez desmaiar."

Há referências muito antigas ao lobisomem em Portugal. Aparece no “Rifão” de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):

"Sois danado lobisomem,

Primo d’Isac nafú;

Sois por quem disse Jesus

Preza-me ter feito homem."

(Garcia de Resende, in “Excertos”)

É também mencionado no “Vocabulário Português e Latino”, de Rafael Bluteau, e num soneto de Bocage:

"Profanador do Aónio santuário,

Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,

Até findar no Inferno o teu fadário!"

(Bocage, in “Obras Escolhidas”.

No século XIX, Alexandre Herculano escreveu sobre o lobisomem da região da Beira-Baixa:

“Os lubis-homens são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem cinco voltas, espojando-se no chão em lugar onde se espojasse algum animal, e em virtude disso transformarem-se na figura do animal pré-espojado. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para se lhas apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência. (in “Opúsculos”).

Nos seus estudos sobre mitologia popular, o escritor e etnógrafo Alexandre Parafita reconhece que, embora a designação sugira tratar-se de um ser híbrido de homem e lobo, muitas das crenças sobre esta criatura identificam-na na figura tanto de lobo, como cavalo, burro ou bode, consistindo o seu fadário em ir despir-se à meia-noite numa encruzilhada, espojando-se no chão, onde um animal já antes fizera o mesmo, após o que se transforma nesse animal para ir “correr fado”.

Camilo escreve nos “Mistérios de Lisboa”:

“A porta em que bateu o padre Diniz comunicava para a sala em que estavam duas criadas da duquesa, cabeceando com sono, depois que se fartaram de anotar as excentricidades de sua ama, que, a acreditá-las, há cinco anos que cumpria fado, espécie de Loba-mulher, ou Lobis-homem fêmea, se os há, como nós sinceramente acreditamos.”

Pronto, por hoje basta. Já estou a ficar com fome, como quando saí da barbearia do Sr. Manuel Sacristão, naquela noite enluarada de lobisomens.


2024 10 20

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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Carlos Coutinho - Chamava-se Carlos ...

* Carlos Coutinho

 CHAMAVA-SE Carlos e era tão meu padrinho de batismo como do meu pai. Está sepultado na minha aldeia, a dois metros do seu afilhado mais velho, e, hoje, olhando para as duas sepulturas de mármores afeiçoados, lembrei-me de que ele não dera ao meu pai o nome que me deu a mim. Sei, aliás, que nenhum outro Olímpio houve em Fornelos, nem antes nem depois dele, além de que o meu velho era tão Coutinho como eu.

O meu padrinho Carlinhos, mais exatamente o Sr. Carlos Pereira de Sá, provinha de um ramo desastrado dos Sás, aquele antiquíssimo clã que, por alturas do terramoto de 1755, entrou em desavença com o Marquês de Pombal, alegadamente porque se recusava a sair do aristocrático analfabetismo que dava altivez a certa fidalguia. Condes, duques e viscondes bacocos furtavam-se a aprender e a ensinar no Colégio dos Nobres, em Lisboa. A solução foi os Sás virem de trouxa às costas cá para cima e montar arraiais nas faldas vinhateiras do Marão. 

Não imagino o que possa ser apurado pelos historiadores e, para já, dou como plausível este comportamento.

Quanto ao Sr. Carlinhos, marido da primeira professora que houve na povoação, tenho a certeza de que já era, ainda antes da vitória da República, o cacique da Monarquia na confluência do Corgo com o Douro. Nessa qualidade, quando o administrador monárquico teve de se pirar de Vila Real, o meu padrinho combinou com o meu pai a garantia de um esconderijo à prova de republicanos e maçons, cavando na casa dos arrumos da nossa vinha de Cortiçadas um buraco onde o grande chefe se deitava, rezando pelo rei e enrolando-se numa grossa manta, para, a seguir, se deixar cobrir por um grande monte de lenha criteriosamente escolhida. 

Assim sobreviveu, durante um mês o tal figurão e o meu padrinho, que morreu um dia depois de eu fazer 5 anos, pagou uma fortuna a dois médicos que se postaram à sua cabeceira, amparando-lhe os últimos achaques muito gemidos, enquanto o Bijú, um cãozito branco de olhos ramelosos, se aninhava na mesma cama, entre as penas do dono.

Foi numa tarde nevoenta que o Biju soltou um latido visceral e saltou para o chão, ficando de pé no chão do quarto quase às escuras. 

O último suspiro do meu padrinho não foi ouvido por ninguém e o seu funeral passou dois dias depois por baixo das minhas janelas, com o Biju gemebundo e colado à urna transportada a pulso por seis homens de opa branca. Resultaram infrutíferas todas as tentativas de o afastar e, finalmente levaram-no à força para o armazém do Casal, onde o prenderam com uma corda grossa à tranqueta do tonel. 

Passaram dias e dias e o Biju não aparecia nem no seu bairro, o do Itreido, nem em lado algum. Quando alguém foi ao armazém tentar perceber o que tinha acontecido, saltou-lhe aos olhos a ponta esfiapada da corda de sisal roída e, quando o coveiro foi ao cemitério preparar outra cova para mais um enterramento, estavam encrespados os pelos do Biju e vidrado o seu olhar. Tinha também ele morrido, sobre a cova fresca onde lhe esconderam o dono.

Outras histórias me emergiram da memória e só não chorei porque na sepultura vizinha estão o meu pai, a minha mãe e a minha madrinha, cada um com as suas razões e a suscitar-me uma certa aflição naqueles momentos.

2024 06 03
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domingo, 31 de dezembro de 2023

Nuno Ramos de Almeida - Um dia escreverei um texto novo para 2024, mas não será hoje

 OPINIÃO - 

* Nuno Ramos de Almeida´

(Diário de Notícias 31 Dezembro 2023)

  •  

Gosto de reescrever textos, para além de roubar tempo ao trabalho, é uma espécie de mantra em que se pode convocar o passado e evocar gente que amamos, mas que não está presente entre nós. As palavras são uma forma de encantamento que trazem à vida quem determinou o nosso caminho e reafirmam as nossas fidelidades.

Persistimos em pensar que não nos esgotamos na morte e que os que ficam são uma espécie de continuidade sem nós, como os nossos persistem, no tempo, nos nossos atos.

É óbvio que o que pensamos tem muito a ver connosco e a nossa circunstância e que não somos nada, sem sermos em relação aos outros em que nos inserirmos. Mas vamos à história recontada.

Numa altura em que se branqueiam os negros tempos quando não tínhamos liberdade e transformam os amigos dos ditadores de turno em heróis da liberdade, a memória torna-se uma arma no presente. A única vantagem de ter vivido tempos é que eu sei o que é a ditadura, a revolução que faz meio século e a liberdade, simplesmente porque vivi. Aqui fica um conto sobre esse fio de tempo, como agora se diz.

Aproximava-se o Natal. Em casa cheirava a frio e a madeira nova. O móvel parecia-me estranho. Era encerado. Uma espécie de cómoda oca. Seria um bar daqueles kitsch? Já não me recordo. Tinha umas chaves. Lá dentro estavam prendas. Apenas uma era minha. Na nossa casa estavam brinquedos dados por camaradas na legalidade para as casas clandestinas onde viviam crianças. Era membro de uma comunidade, embora não nos conhecêssemos: as crianças das casas clandestinas. Hoje parece-me uma quebra das regras de segurança, a distribuição de prendas. E não percebo como chegaram os brinquedos a cada um de nós. Mas, na altura, isso fazia-me sentir que não estávamos sozinhos.

Tinha a nítida sensação de pertencer a um grupo unido por regras de fraternidade. Nesse coletivo estavam pessoas de muitas raças e países. Anos antes, andava na escola francesa em Argel. Estudávamos lá argelinos e filhos dos refugiados políticos. A guerra da independência tinha sido há poucos anos. O sangue tinha corrido pelas ruas. Milhões haviam morrido nos bombardeamentos dos franceses. A tortura durante a guerra tinha atingido níveis nunca vistos. A FLN (Frente de Libertação Nacional Argelina) tinha pedido aos militantes que tentassem aguentar sem falar três dias - apenas três dias, para permitir mudar os contactos e resistir à repressão. Depois da independência, a cidade viveu um sonho estranho. Lembro-me dos aromas das especiarias e do ruído das manifestações. Também me ficou a recordação do fedor a excrementos nos elevadores dos prédios abandonados pelos franceses e ocupados por argelinos que nunca tinham vivido em prédios europeus. Mais tarde, o meu pai e a minha mãe contaram-me que uma noite tinham conhecido aquele que mais tarde seria lembrado com o nome de Che. Já adolescente, interroguei o meu pai para saber como ele era. Será que se vê o heroísmo nos heróis? O meu pai insistiu que ele era sobretudo calado e tímido.

Eu frequentava uma escola de que só me lembro pelo cheiro a medo. Nos intervalos brincávamos às guerras. Os professores franceses que ainda restavam, quando nos apanhavam, batiam-nos e ameaçavam-nos com cães. Os meus pais descobriram que éramos espancados e confrontaram os professores, que negaram terminantemente as agressões. Um dia, alguns de nós montámos uma emboscada para apedrejar um dos agressores no meio da confusão do pátio. Lembro-me que algumas das nossas pedras lhe acertaram em cheio. Quando nos bateram a seguir, quase não doeu. Anos mais tarde, em França, numa casa de apoio de camaradas do PCF (Partido Comunista Francês) em Paris, o meu pai comunicou-me que íamos entrar em Portugal. Por causa dos "maus", a PIDE, tinha de escolher um nome. Um nome diferente do meu? Sim. Escolhi Sérgio. Passámos a fronteira por um sítio que os meus pais me explicaram ser um grande jardim. Era, de facto, grande. Caminhei até cair. O meu pai levou-me o resto do caminho às costas. Acordei no dia seguinte a vomitar, numa pensão em Chaves, com um daqueles lavatórios de ferro. Chegámos a Lisboa e arranjámos uma casa clandestina. A minha mãe mobilou-a com todos os cuidados conspiratórios: a maior parte da mobília na área social, para passarmos por uma família normal. Gastou menos que o previsto, estava feliz. Mas, mais tarde, o camarada responsável pelas casas criticou-a por ter gasto dinheiro num esquentador. A minha mãe nunca conseguiu esquecer o facto. Quando, anos depois, voltámos para a legalidade e apoiávamos o aparelho clandestino, pediram uma lista de coisas à minha mãe. Leu-a e respondeu, dura: "Diz ao fulano (o camarada com quem ela tinha discutido) que compro tudo menos o esquentador."

https://www.dn.pt/opiniao/um-dia-escreverei-um-texto-novo-para-2024-mas-nao-sera-hoje-17583454.html 


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Maria Jorgete Teixeira - O Natal da minha infância cheirava a fumo e a frio.


* Maria Jorgete Teixeira 

Na aldeia, nas faldas do Marão, o dia 24 de Dezembro amanhecia com uma auréola especial. Logo cedinho, havia uma azáfama diferente.

Raramente estava sol e o cinzento frio da serra descia e inundava tudo com uma luz fantasmagórica. O fumo subia das chaminés, das casas que as tinham, ou então evolava-se da ardósia que cobria os telhados de xisto. Não parava de fumegar até à altura do apagar de todas as lareiras. No universo feminino das cozinhas, as iguarias eram preparadas pelas mães e avós.  A abóbora cozida escorria em pequenos sacos pendurados à entrada da porta das cozinhas, para mais tarde ser frita no azeite, transformando-se nos pequenos bolos de “calondro”. As rabanadas eram feitas com fatias de um pão de massa fina, os cacetes, encomendados na Vila para aquela ocasião, passadas por ovo e por leite, fritas e envoltas por fim, em calda de açúcar. A aletria também não faltava, cozida e disposta em pratinhos, depois enfeitados com desenhos de canela. Na noite de consoada o bacalhau era o rei. E não eram muitas as postas que se coziam na altura, umas lascas para as crianças, meia posta para os adultos e isto nas casas mais abastadas. Nas outras, era apenas um “cheirinho” para dar o gosto às batatas e à couve tronchuda. Essas eram com fartura, cultivadas no campo e escolhidas entre as melhores, assim como as batatas da terra fria, saborosas mesmo que só comidas sem acompanhamento. A ceia era servida cedo e o serão passado a conversar e a jogar o “par ou ímpar” ou o “rapa, tira deixa e põe” que era jogado com um pequeno pião que tinha escritas as três palavras que ditavam a sorte de quem o lançava. A minha avó materna sentava-se no escano e ia espevitando o lume e, de vez em quando, entrava na brincadeira. Acho que era a altura em que a sentíamos mais perto de nós e o seu semblante, sempre um pouco severo, mais se adoçava.

Íamos para a cama cedo e, antes de nos deitarmos, os sapatos eram deixados todos enfileirados na base da chaminé. Nessa noite nem dormíamos descansados e só no dia seguinte saberíamos o que o Pai Natal lá tinha deixado.

De entre os símbolos do Natal o presépio era o mais importante. A sua feitura estava a cargo dos irmãos mais velhos que colhiam o musgo nos soutos e nos pinhais para atapetar o chão onde eram plantados os montes e os vales, os rios e os lagos de um universo em miniatura: a cabana do menino, coberta de colmo, ao centro, os pastores e seus rebanhos, as mulheres com galinhas à cabeça ou cestos de ovos, os velhos com as suas bengalas e claro: os três reis do Oriente guiados pela estrela. A narrativa era contada aos mais novos à medida que o presépio ia tomando forma, qual “História Antiga” de Torga. (...)

A maior parte das crianças da aldeia não sabia o que era ter prendas no Natal. Os tempos eram difíceis e arranjar dinheiro para fazer uma ceia mais aprimorada já era muito bom. Os mimos recebidos resumiam-se a uns confeitos ou rebuçados que eram dados aos montinhos, embrulhados em papel.
Na minha casa sempre tivemos presentes.(...)

Hoje, os natais não têm, para mim, a magia desse tempo, mas procuro guardar um pouco da luz e interioridade de antigamente para passar às gerações vindouras, pois se é certo que não se pode parar o progresso, também é certo que o que somos em adultos é consequência da teia de afectos que nos forma, alimenta e resguarda, quando somos meninos.

2022 12 25

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Maria Amélia Marques Martins - O Natal da minha infância

*  Maria Amélia Marques Martins

O Natal da minha infância tinha uma festa na sala grande e na mesa grande

Outros móveis a fazer de mesa, onde se colocavam coisas em cima, já estavam cheios com os pratos da aletria e mexidos que a minha mãe fazia na véspera. 

Também uma ou duas garrafas de vinho do Porto, apareciam uns dias antes aprumadinhas no armário a aguardar o dia da consoada, que se previa cada ano um pouco melhor que o anterior, embora acabasse sempre mais ou menos igual. 

E já não era mau quando tudo continuava a correr segundo os costumes, sem que nenhum mal acontecesse, nenhuma fábrica da zona fechasse, atirando para o desemprego os operários clientes do meu pai, nenhuma "sêba" nos morresse de doença, nenhum temporal prejudicasse as culturas da minha mãe.

E aquela pergunta que sempre se fazia aos casais:

onde vais na consoada?

aos meus pais não se fazia essa pergunta, ou se alguém a fazia, a resposta era sempre a mesma porque, não íamos a lado nenhum, nem pais nem sogros, nem avós, era ali mesmo, nós e os nossos pais, na sala grande e na mesa grande....

E chegando o dia vinte e quatro, antes da noite, já a minha mãe tinha o forno aceso, o pão de mistura cozido, o alguidar torto das sopas, a aguardar na masseira, a hora certa de meter no forno a alourar...

Entretanto já os olhos das couves galegas com bacalhau e batatas coziam ao fogo da lareira na panela grande, como tudo naquele dia...

dia grande de consoada, numa família grande.

Depois da ceia e no rescaldo da lareira assávamos as pinhas enquanto o serão continuava quente e solidário a partir pinhões a martelo que repartíamos ou jogávamos o jogo do "rapa"....

"rapa, tira, deixa, põe...."

E nós à lareira com as pernas e as caras quentes e vermelhas do calor do fogo, sentindo o fumo de cheiro a pinha, e o sono a chegar depois dos doces, alternados com nozes e figos, um bagacito ou um "porto" medido com regra e um recolher lento ,reconfortante, sonolento...

No outro dia, o Natal, o despertar cedo, a correria em busca do pequeno brinde dentro do sapato que permanecia em cima do fogão desde a véspera...

A prenda no sapatinho...

A missa às oito, o beija pés do menino, as coisas certas da fé, inquestionáveis.... 

A tradição era o que era,..

era mais ou menos assim, na minha casa, na minha infância...

2018 12 16

domingo, 11 de dezembro de 2022

João Castro - [Elogio da leitura]

* João Castro

 
As minhas origens não são humildes, são humilíssimas. Na sala da casa dos meus pais existe, desde que me lembro, um velho móvel de contraplacado de quinta categoria, dobrado com o peso dos livros. Centenas de livros. Recordo a pesada enciclopédia, ilustrada a preto e branco, que eu, miúdo, folheava sentado no chão da sala. Os livros do Saramago. Religiosamente o senhor do Círculo de Leitores visitava-nos, não me lembro se mensal ou bimensalmente. Com excepção de um ou outro efémero período de alívio, o dinheiro escasseava. Havia sempre, no entanto, que chegasse para encomendar um livro, às vezes dois. Ler é essencial, dizia-se lá em casa. Dizia-se e praticava-se. Nunca o fiz por obrigação. Tomei-lhe o gosto e li. Li muito. Li sempre. Sei que sou o que sou muito porque na sala dos meus pais há um móvel de contraplacado de quinta categoria dobrado pelo peso dos livros. Centenas de livros. Livros que mês após mês, ano após ano, década após década, zelosamente se acumularam, porque ler é essencial, não te esqueças filho. Da ruralidade salazarista pobre, de casebres, da guerra colonial injusta onde perante a fúria muda de um jovem cabo os pides torturavam os enviados cubanos, para a azáfama suburbana do Portugal moderno da CEE, da UE, depois do Euro, trouxeram este ensinamento, também legado pelo meu avô materno, comunista. Ler é essencial, atenção, lê.

Não ler é ter os olhos fechados. De olhos cerrados também se sente dor, também se adivinha o desdém dos outros, também se tem fome, mas não se percebe porquê, nem quem, nem como. É possível ler muito e não entender nada do mundo, mas não é possível entender o mundo, na sua complexidade dialética, sem ler muito.

O livro é um privilégio, mas é também uma arma. Não venham, portanto, apoucar snobemente o povo na sua ignorância iletrada, mas muito menos se ponham a neorrealisticamente fetichizar o pimba e o anti-intelectualismo que o mantêm atomizado, entorpecido, indefeso. 
Ler é essencial, atenção, lê.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Carlos Coutinho - Não se pode travar a memória

* Carlos Coutinho
 
   JULGO que toda a gente possui nos subterrâneos da consciência casos insolúveis que, de vez em quando, vêm cá cima fazer doer. Eu, pelo menos, tenho alguns. O mais próximo é o ultimo olhar do meu infinitamente afetuoso Pinguço, quando o entreguei ao veterinário para o ajudar a morrer adormecido e sereno. 

   Já lá vão 5 anos, mas ainda sinto uma enorme compressão no peito sempre que me lembro daqueles dois pontos escuros, aguados, muito abertos para mim, a brilharem tristíssimos, talvez com pena do seu dono que lhe murmurou um adeus muito dorido.            

   Tirei-o do sofrimento incurável em que ele entrara, mas ainda pago um alto preço emocional por essa decisão apenas racional.

   Outro caso é o daquele frio que sinto nos lábios sempre que recordo o beijo que depus na testa marmórea de um tio meu muito querido que tantas vezes me havia pegado ao colo quando eu era menino. Foi na capela funerária de Vila Real. Viajei a noite quase toda para lá chegar. 

   O meu tio Alberto havia sido atropelado na estrada da Cumieira por uma condutora inexperiente. Estava agora à sua volta a nossa família inteira, mas não consigo ver o rosto nem ouvir os murmúrios de qualquer dos nossos parentes ali reunidos pela primeira vez, só que pelas piores razões. Apenas percebo a inumanidade do frio que tocou para sempre os meus lábios.

   Há mais casos assim dolentes e inapagáveis na minha memória, mas um sufocante pudor impede-me agora de os trazer a este apontamento. E, tenho de me refugiar no passado que me moldou e fez a todos nascer e sermos o que somos.

   Há 66 anos, por exemplo, embarquei com mais 15 militares em rendição individual no "Infante D. Henrique”, um paquete de luxo com 300 metros de comprimento e piscina a bordo que me levou a Moçambique. 

   Lisboa estava tão cabisbaixa naquele dezembro gélido que só vejo xailes, samarras de gola peluda, sobretudos grossos e capotes, gente a tiritar em Alcântara com aquele chiasco de cortar orelhas. Também oiço os gritos das gaivotas misturado com os acenos inaudíveis de centenas de pessoas no cais que se acotovelavam nas despedidas desfraldando lenços para quem se apinhava no convés do navio.

   E agora vejo que, afinal, nada disto é compatível ou sequer associável àquele 24 de Julho de 1833 que deu o nome a uma avenida de Lisboa e foi épico quando o Duque da Terceira retomou a capital atravessando o Tejo depois de derrotar os miguelistas na Batalha da Cova da Piedade, em Almada.

   Também acontece que o dia 24 de Julho de 1414 é tido geralmente como a data provável da realização do Conselho Régio de D. João I, em Torres Vedras, para deliberar sobre a expedição destinada à conquista de Ceuta, marcando o início da expansão marítima portuguesa.

   Por outro lado, recordo que em 1810, depois da chegada a Almeida do exército napoleónico comandado por Massena, aconteceu o chamado Combate de Coa, junto a uma ponte que ainda lá estará muito envergonhada e também, 119 anos depois, entrou em vigor um pacto internacional que, como se sabe, nunca foi cumprido, o Pacto Kellog-Briand, em que se renunciava à guerra como um instrumento de política externa, assinado pela primeira vez em Paris, em 27 de agosto de 1928, pela maioria das principais potências mundiais.

   Em 1943, dois meses antes de eu nascer, exatamente a meio da II Guerra Mundial, começou também neste dia a “Operação Gomorra” em que aviões britânicos e canadianos bombardearam Hamburgo de noite e foram diurnamente seguidos pela aviação norte-americana na destruição da cidade. 

   Quando esta operação genocida foi dada por concluída, já em novembro, tinha consumido 9 mil toneladas de explosivos que mataram mais de 50 mil pessoas em casa e destruíram 280 mil edifícios. 

  Dois anos depois, por retaliação assumida como tal por Churchill, os mesmos fizeram o que alguém ainda considera como “holocausto de Dresden”. Aqui foram despejados, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, com Hitler já derrotado e humilhado em todos os teatros de guerra, 3 900 toneladas de novos explosivos que mataram 25 mil pessoas, quase todas civis e de todas as condições sociais, idades e géneros, além de arrasarem completamente uma das cidades mais ricas da Alemanha em património histórico e cultural.  

   Espero que russos e ucranianos não sigam agora este exemplo tão democrático e ocidental, também seguido pelos mesmos de sempre na Coreia, no Vietname, no Iraque, na Síria, etc. E, se o fizerem, ao menos que imitem igualmente a RDA que reconstruiu Dresden fielmente, milímetro a milímetro, em poucos anos, sem dispor de qualquer Plano Marshall. 

   Mas, quem talvez contasse tudo isto muito melhor que eu seria Alexandre Dumas, o de “Os Três Mosqueteiros” e de “O Conde de Monte Cristo” que, se ainda fosse vivo, hoje faria 200 anos.

P. S. Há apenas um problema indisfarçável, mas perdoável, julgo eu: é que estamos hoje no dia 30 de Junho, uma data sem memórias que valha a pena recordar e eu senti que é urgente, mesmo muito urgente, esconjurar o perigo que a Ucrânia está a correr. À falta de melhor recurso, antecipei para hoje o dia 24 do mês que amanhã começa. Estou perdoado?

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Elias Quadros - MENINA DOS OLHOS TRISTES



* Elias Quadros

Foto: Google

— Em nome de Sua Excelência o General Comandante-Chefe das Foças Armadas em Angola, os meus sentidos pêsames! Um bravo que, no campo da honra, tombou ao serviço da Pátria!...

Estas dolorosas missões de condolências às famílias -- impostas ao oficial mais 'moderno' – eram limitadas, porém, a funerais de militares da Província, pois os caixões dos outros eram simplesmente armazenados no Cemitério da Estrada de Catete, aguardando embarque para a Metrópole...

«Menina dos olhos tristes / O que tanto a faz chorar? / O soldadinho não volta / Do outro lado do mar»…

A vida não lhe corria de feição desde que – naquela manhã de 4 de agosto de 1970 – chegara à cidade a que Paulo Dias de Novais dera, em 1575, o nome de São Paulo da Assunção de Luanda. Terra aquela já calcorreada pelos portugueses desde que – 90 anos antes – Diogo Cão por ali andara, a plantar padrões das quinas de Portugal. 

Diretamente do Vera Cruz, um jeep levou-o para o Grafanil. Mas ele – com os distúrbios com que, toda a noite, os presos de Elvas viraram do avesso o quartel – mal pregara olho quando um furriel, muito aflito, o despertou para o acompanhar ao Quartel-General do Exército. 

De facto, desde matinas que o procuravam para entrar de 'oficial-de-dia'. Ora – como lhe haviam dito que a sua especialidade não fazia serviços – ele nem sequer camuflado levara. Porém, logo ali o 'desenrascaram' e o capitão, que ia render, foi tão camarada que nem chegou a 'participar' dele. Pior foi quando lhe passou o serviço – em não mais de cinco minutos – chamando a atenção para os espaços que deviam ser neutralizados pelo fogo, caso viesse o edifício a ser atacado. Mas que não se preocupasse que tudo estava bem claro nas NEPs-Normas de Execução Permanente que lhe entregava. Brochadas como grossas listas telefónicas, sobrepostas bem perfariam um metro de altura. 

Desistiu às tantas de tão cativante leitura que, a bom ritmo, daria para meses. Durante o dia não se registaram ocorrências de monta. Mas, pelas quatro da madrugada, uma mensagem solicitava o envio de quatro caixões que deveriam seguir, por via aérea, para o Leste. Foi o 'oficial de prevenção' que lhe valeu em tal circunstância e a macabra encomenda lá seguiu conforme as NEPs.

De manhã – rendido no posto que tanta angústia lhe causara – recebeu 'guia-de-marcha' para o Comando-Chefe, na Fortaleza de São Miguel. Na secretaria, disseram-lhe que fosse almoçar pois o Coronel Chefe da 5.ª Secção só o receberia da parte da tarde. Porém, mal saído para a parada – dependurado de um 'português suave' – bate pala a um militar com uns vermelhos nos ombros que ele tomou por 'cabo readmitido'. 

Realmente – por não ir à bola com a tropa e, por motivo de altura andar sempre na cauda do pelotão – ele nunca aprendera a acertar passo nas formaturas nem a identificar os postos militares. Assim, não é que o raio do brigadeiro o queria logo mandar prender por desrespeito! Valeu-lhe ter surgido Costa Gomes que interrompeu a cena, pedindo ao tal oficial general que o acompanhasse ao almoço. E ordenou ali mesmo ao alferes que se apresentasse de tarde no seu gabinete. 

Agora, sozinho, em mesa do mesmo restaurante – de toalha branca reservado aos 'senhores oficiais e famílias' e onde a refeição custava 40 paus – dizia mal da vida desde que às pressas arrancara da Figueira da Foz, na véspera de São Tomé. 

Naquela mesma tarde – pago de T/V e abonado de R/R para 𝓧 dias (T/V, 'todos os vencimentos'; R/R, 'ração de reserva') – recebeu no Comando-Chefe a missão de ir aos Dembos proclamar, a todo um batalhão, a importância económica e social das vias de comunicação que o destacamento de engenharia – a que o batalhão de caçadores dava proteção –  rompia por aquelas inóspitas matas.

Matas que, durante séculos, se rebelaram sempre hostis ao Império.B

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?



17.4.19

«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.

Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de
Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.

A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

Gravura - Uma ilustração da Catedral de Notre Dame, no século XIX - litogravura de Nicolas Chapuy
Cartoon -  "Sadness", por Antonio Rodriguez