Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 6 de maio de 2023
Carlos Coutinho - Bruxas ou açorda
quinta-feira, 18 de março de 2021
Para falar de sidónio muralha: o poeta e baptista bastos
SIDÓNIO MURALHA (1920-1982)
* Ordem do Dia
* Pequenos deuses caseiros
* Soneto imperfeito da caminhada perfeita
* Para vós o meu canto
* Roteiro
* Poema de Abril
* A Paz
**Para falar de Sidónio Muralha, por Baptista Bastos (o artigo transcreve o poema "Natal")
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Ordem do Dia
Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poemas na terra
com as vossas ferramentas!
Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?
Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.
Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!
- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.
In "Companheira dos Homens"
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PEQUENOS DEUSES CASEIROS
Pequenos deuses caseiros que brincais aos temporais,
passam-se os dias, as semanas, os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros, cantai cantigas macias,
tomai vossa morfina, perdulai vossos dinheiros,
derramai a vossa raiva, gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos, elegei vossos senhores,
espancai vossos criados, violai vossas criadas,
e bebei, bebei o vinho dos traidores
servido em taças roubadas.
Dormi em colchões de penas, dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem, e alteai vossas janelas,
e trancai vossas portas, pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
Que é sempre um dia a menos este dia que passa,
e cada dia a mais aumenta o preço da traição,
e cada dia a mais aumenta o preço da desgraça,
e a nossa moeda não é piedade nem perdão
porque foi temperada com todas as lágrimas da raça.
Não, pequenos deuses caseiros, não!
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Soneto imperfeito da caminhada perfeita
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
"A Argamassa dos Poemas"
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PARA VÓS O MEU CANTO...
Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito de um rio;
- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;
- para vós os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...
Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.
E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia do Juízo...
Que o Dia do Juízo
não é no Céu... é na Terra!
(«Passagem de Nível» - 1942)
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Roteiro
.
Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.
.
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
.
Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.
.
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.
.
"Poemas" Editorial Inova, Porto
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POEMA DE ABRIL
A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.
Foi este o prodígio
de um dia de Abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.
Ficou a herança
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.
Minha pátria linda
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.
Para falar de Sidónio Muralha
16 Dezembro 2011, 12:03 por Baptista Bastos
Durante o Natal, os jornais de então publicavam festas e festarolas promovidas por empresas e companhias. O grande formato do "Diário de Notícias" e de "O Século", em Lisboa, e de "O Primeiro de Janeiro", "O Comércio do Porto" e "Jornal de Notícias" permitia a inclusão de imensas fotos com textos apropriados. A maioria dessas notícias era paga pelas empresas, mas havia outras que funcionavam como compensação a favores e a jogos de interesses entre as administrações daqueles jornais e as das empresas. Muitas vezes, eram jornalistas destacados para esses serviços. Não havia recalcitrantes: as coisas eram assim mesmo, e nem passa pela cabeça dos jovens profissionais os vexames por que passavam os velhos jornalistas encarregados daquelas e de outras tarefas semelhantes.
As lutas surdas, as resistências morais fazem parte de um honroso historial, que permanece oculto, dissimulado ou esquecido das gerações mais novas. Eu sei que, como em todos os sectores da sociedade portuguesa, os fenómenos de regressão estão a caminho e chegam a ultrapassar, em indignidade, o que, outrora, os patrões obrigavam os jornalistas a fazer. A obrigatoriedade não estava à vista, bem entendido: era a ordem rotineira das coisas que determinava a infâmia. A resistência, porém, existia; e, não raro, os conflitos de consciência ética atingiam fases extremamente conflituosas. . Conheci profissionais de Imprensa altamente qualificados porém esmagados pelas circunstâncias políticas sob as quais viviam e exerciam as suas funções. O fascismo não só prendeu, assassinou, homiziou, atirou para o degredo e para a morte centenas, certamente milhares de portugueses - o fascismo liquidou a capacidade de realização profissional e criadora de jornalistas, professores, cientistas, escritores, artistas, cineastas. A Universidade foi varrida por uma onda de violência e discriminação, quando dezenas de professores (do melhor de que Portugal dispunha) assinaram um documento de crítica ao "Estado Novo." Um desses professores, Mário Silva, de Coimbra (pai do pintor do mesmo nome), foi obrigado, para ganhar a vida, a vender enciclopédias de porta a porta. Mas as histórias de dificuldades a que o fascismo coagiu portugueses de diferentes orientações, mas todos amantes da liberdade e da democracia, são inúmeras e, por igual, indignificantes e pavorosas. Os instrumentos de coacção, repressão e constrangimento de que Salazar se serviu, para dominar um povo, foram, de facto, eficazes; mas não conseguiram liquidar a ânsia de liberdade e a coragem inaudita de quem se lhe opôs. A Imprensa censurada e vigiada, a literatura e a cultura em geral amordaçadas, perseguidas e manietadas existiram num quase milagre de persistência e de honra. Lembrei-me, agora, nesta quadra de um belíssimo poema de resistência, composto por Sidónio Muralha (1920-1986), um dos grandes nomes do neorealismo, cuja vida é um percurso fascinante e uma procura tenaz da liberdade e do sonho. O poema foi um grito de protesto a andou, de mão em mão, foi lido em associações e clubes de bairro, e estava naturalmente envolvido na luta mais geral em que os melhores de nós se comprometeram. Ei-lo: Hoje é dia de Natal E o jornal fala dos pobres Em letras grandes e pretas Traz versos, historietas, E traz retratos também Dos bodos, bodos e bodos Em casas de gente bem. Hoje é dia de Natal Mas quando será de todos? É uma poesia de combate, instrumental e destinada a obter efeitos imediatos. Era a voz indomável de um poeta hoje lamentavelmente esquecido, cuja vida foi uma entrega absoluta aos outros e à batalha contra o fascismo. Sidónio Muralha, filho do jornalista socialista Pedro Muralha, e irmão do actor Fernando Muralha, foi uma das figuras mais decentes e íntegras que conheci. Depois de Abril, conversei-o várias vezes e entrevistei-o para o semanário "o ponto", de que fui fundador. Muralha tinha publicado vários livros de literatura infantil, tivera de fugir de Portugal, com o seu amigo de sempre, o escritor Alexandre Cabral, instalara-se no Congo Belga até que se fixara no Brasil, onde casara com uma senhora que se lhe devotara. . Estas memórias afectuosas apenas desejam homenagear, em Sidónio Muralha, todos aqueles que enfrentaram, com a valentia das convicções, na luta directa, na militância partidária, ou através das palavras, a brutalidade de um tempo que alguns desejam fazer esquecer.
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/para_falar_de_sidoacutenio_muralha.html
domingo, 28 de junho de 2020
Sidónio Muralha - Soneto Imperfeito da Caminhada Perfeita
* Sidónio Muralha
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar,
ninguém teme as mordaças e as algemas.
- O braço que bate há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Sidónio Muralha - Raízes
* Sidónio Muralha
'São canta Amália Rodrigues'
Velhas pedras que pisei
saiam da vossa mudez
venham dizer o que sei
venham falar português
sejam duras como a lei
e puras como a nudez.
Minha lágrima salgada
caíu no lenço da vida
foi lembrança naufragada
e para sempre perdida
foi vaga despedaçada
contra o cais da despedida.
Visitei tantos países
conheci tanto luar
nos olhos dos infelizes
e porque me hei-de gastar?
vou ao fundo das raízes
e hei-de gastar-me a cantar.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
Sidónio Muralha - Amantes separados
* Sidónio Muralha
Como num búzio
O mar repete essa balada
Numa canção
Feita de sonho e ansiedade
Meu coração
Repete a história apaixonada
Duma presença que se fez
Longe, saudade
A vida quis que fosse assim
Nosso destino
No grande amor que quis
Vencer os vendavais
A vida quis que fosse assim
Nosso destino
Onda quebrada contra a praia
E nada mais
E a vida passa
Como os versos que escrevemos
E as promessas que fizemos
No dia da despedida
E a vida passa
Passam os dias rasgados
Tudo passa e passa a vida
Dos amantes separados
sábado, 18 de agosto de 2018
Sidónio Muralha - Para vós o meu canto...
Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais um leito dum rio;
- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim e confio;
- para vós os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios para cantar...
Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
a crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.
E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...
Que o Dia do Juízo
não é no céu... é na Terra!
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Sidónio Muralha – “Três poemas
17.01.2012
Companheira dos homens
I
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova dos dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
II
O medo faz calar as aves nas florestas densas
mas as canções dos homens faze-as mais largas, mais intensas,
mais impetuosas, mais rudes, canções que ferem e espantam
pois com o medo as aves calam-se e os homens gritam e cantam.
E a canção é um homem que percorre o Mundo lés a lés
gesticulando com os seus próprios braços, andando com os seus próprios pés,
grito que vai de continente em continente implacável e forte
e que passa as fronteiras sem precisar de passaporte.
Canções robustas e lavadas que se levantam cedo
e bebem a madrugada e têm o fôlego dos atletas,
porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo,
o medo, como uma faca, rasga os corações dos poetas.
III
E os poetas dão-se as mãos como se encontram as poesias
e se encontram as exigências de duas refeições todos os dias.
Que todos temos os mesmos problemas, as mesma fúrias e dores,
e todos pagamos o mesmo juro nas casas de penhores,
e todos falamos a mesma língua terrena, viva, saborosa e agreste
e deixamos aos anjos a linguagem celeste,
e todos transportamos tijolos para a casa começada
e lhe rasgamos as janelas e a desejamos arejada,
e todos temos um estômago e temos um coração
que bate compassadamente a mesma inquietação.
Inquietação presente nas coisas, nos gestos e no ar,
inquietação que remexe ou que paira, ameaçadora e tamanha,
como um polvo que se revolve no fundo do mar
ou um grão de dinamite incrustado na montanha.
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Sidónio Muralha - Para vós o meu canto...
domingo, 28 de dezembro de 2014
sidónio muralha - natal
terça-feira, 18 de março de 2014
Sidónio Muralha - a menina fútil
A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental...
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal...
- Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental...
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela...
- Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela...
... e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela...
Promessas... porque o resto era pecado
e pecar não é com ela...
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela...)
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental...
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
- e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais pôe avental...
(«Passagem de Nível» - 1942)
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Modus vivendi
"Werde der du bist."
Goethe
11 de novembro de 2009
Bored
out of my mind. Holding the log
while he sawed it. Holding
the string while he measured, boards,
distances between things, or pounded
stakes into the ground for rows and rows
of lettuces and beets, which I then (bored)
weeded. Or sat in the back
of the car, or sat still in boats,
sat, sat, while at the prow, stern, wheel
he drove, steered, paddled. It
wasn't even boredom, it was looking,
looking hard and up close at the small
details. Myopia. The worn gunwales,
the intricate twill of the seat
cover. The acid crumbs of loam, the granular
pink rock, its igneous veins, the sea-fans
of dry moss, the blackish and then the graying
bristles on the back of his neck.
Sometimes he would whistle, sometimes
I would. The boring rhythm of doing
things over and over, carrying
the wood, drying
the dishes. Such minutiae. It's what
the animals spend most of their time at,
ferrying the sand, grain by grain, from their tunnels,
shuffling the leaves in their burrows. He pointed
such things out, and I would look
at the whorled texture of his square finger, earth under
the nail. Why do I remember it as sunnier
all the time then, although it more often
rained, and more birdsong?
I could hardly wait to get
the hell out of there to
anywhere else. Perhaps though
boredom is happier. It is for dogs or
groundhogs. Now I wouldn't be bored.
Now I would know too much.
Now I would know.
.
Margaret Atwood
.
Boo, Forever
on the bottom of a
top,
I'm haunted by all
the space that I
will live without
you.
.
Richard Brautigan
.
10 de novembro de 2009
O Jardineiro Míope
.
O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista às flores
a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
"Que bem cantam as minhas papoulas!"
Um dia a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.
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Sidónio Muralha
.
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