sexta-feira, 12 de abril de 2024

Tiago Franco - Este é melhor não, que é coisa para queimares o arroz que está ao lume



* Tiago Franco

 

ESTE É MELHOR NÃO, QUE É COISA PARA QUEIMARES O ARROZ QUE ESTÁ AO LUME |

Quem me conhece razoavelmente bem sabe que o meu sonho, desde há muito, muito tempo, é dar a volta ao mundo. Desde que me lembro que é assim. Há duas razões mais ou menos simples para isso. A primeira é por gostas de estar em sítios onde aconteceu algo que apenas vi num livro de história. Era a minha disciplina favorita na escola e julgo que se tivesse crescido num país de primeiro mundo, com empregos e salários decentes, provavelmente teria ido por aí. A outra é que eu gosto genuinamente de ver as diferencas culturais entre os povos, até para perceber melhor o meu próprio contexto cultural. No fundo, um acumular de padrões para não ficar fechado e bloqueado num continente que cada vez mais levanta muros em vez de os destruir.

Raramente volto como fui e procuro, sempre que posso, o mais diferente possível daquela que é a minha história. Nesta fase da vida já não tenho paciência para Venezas, Paris e Londres. Quero Kigalis, Vientianes e Managuas. Poucas vezes viajei sozinho porque detesto a solidão e quando o fiz, nunca foi algo que quisesse guardar como memória. A vida, na forma como a imagino, é para ser vivida com afecto, sorrisos e companhia.

Quando não estou a viajar estou a pensar no próximo destino. Não o consigo evitar. Podemos estar entre guerras, pandemias ou crises financeiras. Pode até o meu emprego estar na linha como está, permanentemente, desde que decidi trabalhar por contratos temporários (ou seja, quase toda a minha vida profissional). Mas todo o santo dia eu abro o Google Maps (até porque faz parte do meu trabalho) para procurar caminhos novos.

Ora, tenho a sorte de ter por perto quem me vá aturando nestes sonhos e repita, com alguma frequência, "ok Tiago, qual foi a ideia desta vez?". Eu sonho acordado.

Sou um péssimo companheiro de deslocacão (porque odeio voar) mas acho que compenso quando metemos os pés no chão e as mochilas nas costas. Ir de A para B de carro, comboio ou barco é, de longe, o mundo ideal.

Esperei 11 anos para regressar ao Sudoeste Asiático. Tempo a mais para uma vida que é sempre curta. Parti de um sítio frio, de céu cinzento, onde estava a pressão laboral e a corrida contra o tempo para agradar a mercados capitalistas. Onde todos trabalhamos a troco de salários altos que são absolutamente devorados pelos juros dos créditos à habitacão ou a elevadíssima carga fiscal. Deixei para trás, por uns dias, a sociedade que produz e que se esfola diariamente para conseguir pagar as contas, ditadas por um banco em Frankfurt ou uma guerra que alguém escolheu alimentar em meu nome.

Do outro lado estava um mundo relativamente diferente, com mais sorrisos, com outros problemas certamente mas também com outras solucões. De alguma maneira a vida parece mais fácil debaixo de sol, com sumos de fruta fresca a toda a hora, mar quente, budistas e uma gastronomia que não aborrece nem envergonha. Dizia-me um dos companheiros que por lá já se sentia em casa: "já reparaste que eles estão sempre a sorrir?"

Mesmo com história dramáticas e traumas recentes (por exemplo o genocídio no Cambodia que arrasou com 25% da populacão), aquele pessoal consegue, aparentemente, ter a alegria e a forca de focar nas coisas básicas e importantes da vida. E não pensemos que estamos a falar dos pobrezinhos e coitados. O sudoeste asiático já não é apenas o sítio onde as multinacionais vão coser roupa. Não vi mais gente a dormir nas ruas de Banguecoque do que, por exemplo, no centro de Lisboa, Paris ou Roma.

É dificil explicar a sensacão de viver no aparente caos destas cidades super povoadas. Eu não me importo com a confusão, a enxurrada de gente ou o barulho. Sinto-me acompanhado em ambientes desses. Mas há algo de especial em estar o dia todo na agitacão para, de seguida, dar de caras com uma praia deserta, daquelas que vemos nos postais. Ou entrar numa rua escura ao calhas e uma senhora abrir a cozinha para nos fazer o último pad thai da noite. O que estou a tentar dizer é que, parece-me, por aqui cada dia conta e é vivido de forma intensa. Ainda assim, sem grande pressão ou horários definidos. Tudo se arranja, tudo se desenrasca, há sempre alguém que conhece alguém.

Regresso de um mundo onde tudo vibrava, tinha cor e cheiros para o meu espaco. O tal ocidente civilizado, velho continente que ensina os demais a viver. E o que vejo? Em Portugal voltam-se a discutir temas de 1950, desenterrados por um livro apresentado por Passos Coelho e escrito, entre outros, por fachos como o Jaime Nogueira Pinto. Um idiota daquele partido que teve 100 000 votos sem querer, afirma que as neves do Kilimanjaro ainda lá estão, portanto, isto do aquecimento do planeta é uma tanga.

Parece que ficamos mais estúpidos quanto mais informacão nos disponibilizam. Eu estive no cume do Kilimanjaro em 2008. Os glaciares já eram muito menores nessa altura do que em décadas anteriores. É só ver as imagens aéreas para perceber. Os lagos reduziram o seu tamanho, os glaciares também mas...o facto de existirem, ainda que menores, não quer dizer nada. É tudo uma conspiracão.

Na televisão vejo velhos que, na sua juventude fugiram à guerra colonial, dizerem que o apoio à Ucrânia não pode parar e que é tempo de enviar soldados. Isto porque, claro, já não são as costas deles que lá vão bater. Já para não falar do genocídio em Gaza que nem nos rodapés aparece. Será também estudado daqui a 20 anos.

No meu bairro, em Gotemburgo, há casas a serem vendidas em hasta pública por execucão bancária. Algo que eu nunca tinha visto em 20 anos. Famílias que, por causa das taxas do BCE e a eterna desculpa da Ucrânia, passaram a pagar 3, 4 ou 5000 euros pelas prestacões ao banco e simplesmente...estouraram. Eu já nem consigo perceber como é que se sobrevive em Portugal quando nos países ricos comecam a ficar depenados.

E depois...tudo em nome de quê? Chegamos a meio da nossa vida, eu pelo menos espero ter chegado, a trabalhar dia e noite para pagar contas, sustentar guerras, patrocinar a corrupcão e sermos governados por entidades como o BCE.

Eu, que sou um ferrenho apoiante do estado social e da solidariedade, trabalhei 20 anos para entregar mais de 50% do meu rendimento em impostos e, mesmo assim, ser extorquido mensalmente pela banca, sem que os governos eleitos facam absolutamnete nada. A Europa transformou-se numa zona muito pouco recomendável onde, sem darmos por isso, ficámos acorrentados a um jogo cujas regras mudaram no espaco de 4 anos (desde 2020) e que foram decididas, a meias, entre a banca e a comissão europeia. Nada ou ninguém que eu me lembre de ter eleito para falar ou decidir em meu nome.

A desilusão é tal que, aos poucos, vou desligando as notícias, perco a vontade de escrever, simplesmente não quero saber. Não importa, não interessa. Isto já não é a vida que vinha no guião do "vai estudar e esforca-te para seres o melhor possível no teu local de trabalho". Isto é apenas uma merda.

A vida devia ter menos Ursulas, Putins, Zelenskis e Venturas e mais momentos em família, fotos para a posteridade, recordacões que nos fazem pensar que valeu a pena passar pelo planeta.

Digo isto várias vezes aos meus filhos e é algo em que acredito profundamente. Depois da educacão que será a ferramenta deles para enfrentarem o futuro, tudo o que lhes quero dar são momentos. Experiências, paisagens, um pouco de mundo. Algo que lhes fique na memória e que lhes permita ter um conceito de "bairro" mais alargado quando comecarem, sozinhos, a definir o seu. É esse, para mim, o verdadeiro sentido da vida. É conhecer em vez de acumular. É ir em vez de esperar. É, no fundo, perceber onde estamos e o que fazemos aqui, como dizia o poeta em tempos de má memória.

Em resumo, eu quero que a Ucrânia se foda, que a Rússia se foda, que a Ursula se foda, que a Lagarde se foda, que o Trump se foda, que os fachos se fodam, que os idiotas que apoiam o genocídio em Gaza se fodam ou que os burros que acham que uma Europa com muros é a solucão, se fodam.

No fundo era só isto, mas o poder de síntese nunca fo o meu forte.

 

2024  04 12

https://www.facebook.com/tiago.franco.735/posts/pfbid0fAGDw5Q36uCEkCFjHiQYQzDD4jb66P9HpeCRYaaUgwZjGpUEZqxU9v4LrNDfTfe5l



Sem comentários: