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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Lídia Jorge, Marcelo de Sousa e o Prémio Fernando Pessoa

 * Christiana Martins, Jornalista~

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”

Pouco a pouco, o Presidente da República vai-se despedindo dos portugueses. No final desta tarde, apesar da chuva e do tempo cinzento, no átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, a audiência, repleta de figuras da política, da economia e das letras, marcou presença para o ouvir. E a vencedora do Prémio Pessoa de 2025 não o poupou à emoção

10 fevereiro 2026   

O átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos encheu-se esta terça-feira para ouvir a escritora agraciada com o Prémio Pessoa 2025 e para, mais uma vez, abraçar, cumprimentar o ainda chefe de Estado. Desde a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, a Leonor Beleza, Guilherme D'Oliveira Martins, Pedro Abrunhosa e à reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil, bem como vários banqueiros, empresários e premiados das edições anteriores.

“Querida premiada”, foi como Marcelo Rebelo de Sousa se dirigiu a Lídia Jorge. E, depois de recordar Francisco Pinto Balsemão e "o seu contributo para a projeção da língua portuguesa no mundo", o Presidente da República falou de literatura com o à vontade de quem navega na Cultura como quem nada no mar de Cascais.

Fez uma digressão diacrónica e detalhada sobre a obra da autora, sublinhando a presença do Algarve, de África, o papel da mulher e dos feminismos e “o registo que se aproxima da auto-ficção de ‘Misericórdia’” e a atenção à população mais velha. Nem a coluna de Lídia Jorge no jornal “El País” foi esquecida.

Por fim, falou do controverso discurso do 10 de Junho do ano passado. "Um escritor é um estilo e uma linguagem e todos conhecemos o estilo e a linguagem da nossa homenageada", disse o Presidente, para acrescentar, “mas é justo dizer que este discurso alargou a nossa percepção quanto à sua figura e o seu empenhamento”.

“O lugar do escritor enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz ‘preocupem-se’”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa sobre a comunicação da escritora. “Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros”, concluiu. Sem deixar de lembrar que os portugueses têm sabido recusar “divisionismos”, numa achega subtil e indireta à última eleição Presidencial.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Depois de longos aplausos, Lídia Jorge respondeu ao discurso do chefe de Estado. “Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo.” Foi assim, com a delicadeza do agradecimento, que Lídia Jorge deu a Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República que se despede do cargo, um estatuto nobre, para lá da emoção a ele continuadamente associada.

Pinto Balsemão evocado
A edição de 2025 também ficou marcada por ter sido este o primeiro Prémio Pessoa a ter sido decidido sem a presença ou a orientação do seu criador, Francisco Pinto Balsemão, falecido no ano passado. Por isso mesmo, a cerimónia começou por render uma homenagem ao fundador do grupo Impresa. Mas, mesmo após o seu desaparecimento, a iniciativa da Caixa Geral de Depósitos e da Impresa resistiu.

As primeiras palavras da escritora foram para o chefe de Estado: “Se o admirava à distância, os últimos anos fizeram com que o pudesse admirar na proximidade.” Mas a resistência do Prémio Pessoa foi também assinalada pela escritora. E, por isso, a Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo a que pertence o Expresso, desejou: “O seu pai entregou este prémio a 37 premiados. Desejo que o entregue a 77. Seria sinal de que o futuro, para além das coisas boas que irá criar, manterá algumas das que são louváveis do presente.”

A Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, Lídia Jorge reconheceu, mais do que um gestor, um leitor. “A primeira vez que nos encontrámos foi na feira do Livro de Lisboa. Alguém me disse ‘Vem aí o Presidente da Caixa Geral dos Depósitos’ e as pessoas na minha pequena fila desviaram-se. Eu olhei e só vi um homem. Um homem que falava de livros. É assim que o vejo.”

E, antes de encerrar o capítulo dos agradecimentos, na presença de vários premiados em edições anteriores, Lídia Jorge permitiu-se um espaço a ela mesma, ao recordar o instante em que foi informada de que tinha conquistado a última edição do Prémio Pessoa. “Num primeiro momento, a pessoa pergunta 'Porquê eu?'. Num segundo momento, já formula a questão de modo diferente 'Porque não eu?'. É neste segundo momento, que já implica uma certa acomodação, que me encontro.”

Em tom de improviso, dirigiu-se à ministra da Cultura, dizendo que devia ser mesmo apenas ministra da Cultura, desejo que mereceu o aplauso dos presentes.

A força da poesia
Voltando ao discurso da escritora, ficou evidente que a relação entre Lídia Jorge, também conselheira de Estado, e Marcelo Rebelo de Sousa recebeu um impulso fundamental quando, também no ano passado, o Presidente a escolheu para proferir o discurso do 10 de Junho. Um discurso polémico, que tanto feriu como agradou, que tanto incomodou como incentivou, com frases marcantes, como a que vaticina que “por aqui ninguém tem sangue puro” e que “a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma”. Houve quem a aplaudisse, houve que a quisesse calar definitivamente.

Ditos os obrigadas, Lídia Jorge falou de si, da literatura, e do futuro. Começou por falar do sentimento de intimidação em receber um prémio com o nome de Fernando Pessoa. E disse que, para conseguir aceitar, prefere pensar na presença de um anjo benfazejo e bem humorado, um trocista. “O anjo do bom humor encontra-se pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.”

A sétima mulher e a primeira romancista premiada contou a sua relação com “o maior poeta do Século XX”. Lembrou-se da infância, de quando tinha apenas 13 anos e começou a lê-lo, antes de Pessoa ser para ela um mito.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Recordou também Eduardo Lourenço, “gémeo fraterno de Pessoa”, que no poeta reconhecia “o cosmopolitismo, a dinâmica técnica e subjectividade caótica" e ”a verdadeira lava ardente criadora".

É quando a escritora toca no presente, que diz ser um tempo “descomposto, à beira do estado de alucinação global”. Um tempo em que a poesia, que “corresponde à articulação mais sofisticada das línguas”, “serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso”. Uma poesia humana, para lá dos artefactos e artifícios da inteligência artificial, que tem de funcionar como “um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos”.

Não sendo poeta, Lídia Jorge exaltou a poesia. “A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse.”

Para lamentar - “Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado” - e alertar: “Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios.”

Ao despedir-se, a escritora preferiu apostar no otimismo. “A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim, enquanto formos donos dela.” A audiência gostou e a ela se associou, num aplauso reconhecido.

domingo, 6 de junho de 2021

João Pedro Marques - “Os escravos ainda têm de agradecer a alguns brancos”

 

DIA DE PORTUGAL

* João Pedro Marques 

João Pedro Marques, historiador, acredita que Portugal não é um país racista

TEXTO CHRISTIANA MARTINS E HENRIQUE MONTEIRO

Polémico, não receia confrontar os afrodescendentes ao dizer que foram os brancos que defenderam o fim generalizado da escravatura no mundo ocidental.

Que alternativa havia no século XVI ao modelo de colonização português?

A escravidão não desapareceu da Europa com a queda do Império Romano. Os escravos vinham trazidos pelos mongóis. Eram brancos. No século XIII, com as Cruzadas, os ocidentais conheceram a produção açucareira na Terra Santa e associaram-na à exploração intensiva da mão de obra. Esse modelo foi passando para o Ocidente: Chipre, Creta, Sicília, sul de Espanha e Portugal, que já tinha escravos mouros. E há uma coincidência infeliz para os africanos: o momento em que Portugal avança na costa africana e contacta com as populações subsarianas, é o mesmo em que se interrompe o fornecimento de escravos do Oriente e a necessidade de mão de obra é respondida pela disponibilidade que encontram em África, onde há muito havia escravatura interna.

A escravatura anterior à expansão normaliza o tráfico negreiro?

Sim, há jurisprudência e pensamento filosófico sobre a relação entre escravos e senhores, a posse da pessoa e da sua prole: escravo é alguém que não tem posse sobre si próprio.

Este pedido de desculpas é uma alavanca política

Porque Portugal beneficiou da ideia de um colonialismo “português suave”?

Em Angola, os portugueses estabeleceram-se com relações de proximidade, houve uma africanização. No século XV havia quem, para fugir à justiça real, saísse dos navios para a costa de África, eram os “lançados”, que viviam nas comunidades locais, casavam com mulheres poderosas e serviam de intermediários com os portugueses que iam comprar escravos. Depois, Gilberto Freyre desenvolve a ideia da propensão dos portugueses de se ligarem aos locais. É muito diferente da relação com os alemães ou os belgas, que chegam tardiamente, no final do século XIX, e trazem uma ideia de extermínio.

A abordagem distinta não ilude a presença de violência?

Claro que não. O racismo na segunda metade do século XIX é uma teoria e uma convicção em crescimento; as pessoas acreditam que o negro é um ser inferior, alguém que só a pancada será possível civilizar e fazer trabalhar. À época colocou-se um problema moral, filosófico e jurídico. Perguntava-se quem eram aquelas pessoas e supunha-se que eram condenados, pois os potentados negros vendiam-nos como adúlteros e ladrões, mas não havia meio de os brancos saberem.

A elite portuguesa preocupava-se em promover a libertação?

Pouco, porque Portugal começou tarde e foi perro no caminho abolicionista. Quando Sá da Bandeira consegue passar mais leis tendentes à libertação da escravidão, já havia um refluxo da maré. Nos meados do séc. XIX começou a fixar-se a convicção de que o negro era mandrião. Já não era possível manter a escravidão por razões morais, mas defendia-se uma tutela paternal que obrigasse os vadios, como eram chamados, a trabalhar. Quando Portugal aboliu a escravatura, parte da elite tinha a convicção de que teria de ser substituída pelo trabalho forçado, o que acontece em 1870.

O abolicionismo em Portugal vem acompanhado pelo racismo?

Não, o abolicionismo do fim do século XVIII não tem uma visão racista, mas no século XIX, com a desilusão e o desenvolvimento das teorias racistas, uma coisa engrena na outra.

Nas colónias portuguesas houve um sentimento abolicionista?

Não. Luanda, um grande porto exportador de escravos durante séculos, não teve nenhuma revolta escrava. Os escravos reagiam de várias formas à condição horrível em que viviam. Se pudessem, fugiam e formavam quilombos. Às vezes revoltavam-se, mas não eram contra a escravidão, apenas contra a sua própria escravidão. Muitas vezes negociavam escravos para obter armas e pólvora. Em África não há vestígios de líderes ou pensadores abolicionistas naquela época. É uma ideia ocidental.

Esta narrativa é rejeitada pelos afrodescendentes.

A história está a ser falsificada. Essa narrativa visa dar às comunidades negras elementos de identificação e orgulho. Mas não é história: é ideologia.

Criou-se uma situação em que o negro não pode ser criticado porque é racismo

A singularidade ocidental está em ter acabado com a escravatura e condenar o racismo como algo desumano?

Sim. O que é específico deste sistema foi ter colocado um fim à escravatura. Não é simpático dizer que os escravos ainda têm de agradecer a alguns brancos.

Então não coloca a questão do pedido de desculpas histórico?

Não faz sentido. Em primeiro lugar porque era aceite pelas duas partes, a que vendia e a que comprava. E porque só foi considerado um crime a partir do século XVIII. Temos de ir devagar. Por isso, só entidades sem responsabilidade direta o podem fazer, como o Papa.

A culpa não é uma herança?

Este pedido de desculpas é uma alavanca política para se pedir o ressarcimento material. É preciso dizer-lhes que não são vítimas nem herdeiros da escravatura: esses estão no Brasil. Os que estão cá descendem no máximo de quem vendeu os escravos. Criou-se uma situação em que o negro não pode ser criticado porque é racismo.


https://expresso.pt/sociedade/2021-06-06-10-de-junho.-Os-escravos-ainda-tem-de-agradecer-a-alguns-brancos-diz-Joao-Pedro-Marques-3ac5966d



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Christiana Martins - Brasil: esta cova é a parte que te cabe deste latifúndio


Opinião
 Christiana Martins

Brasil: esta cova é a parte que te cabe deste latifúndio

Acabou. Não vai começar nada, não dá tempo, aquele chavão de “brasileiro, profissão esperança” é coisa do passado. Acabou mesmo. Não me venham falar do amor, do sorriso e da flor. O barquinho já não está no mar. Afundou. E eu cansei. Não há mais essa conversa do país do futuro, dos jovens, nem da alegria, nem do futebol ou do samba. Esqueçam isso, tirem a maquilhagem. Dispam a fantasia. O Carnaval acabou.

Que conversa é essa? Temos de nos confrontar: 46 milhões de brasileiros vestiram-se com a bandeira nacional, apropriando-se do símbolo identitário do país, e votaram num candidato antidemocrático, racista, misógino, violento. Têm todo o direito de o fazer e exerceram este direito em plenitude, não se coibiram. Não lhes vou dar os parabéns, não me peçam. Mas também não lhes recuso o direito a expressar livremente a sua vontade. O que é preciso é arrancar a máscara, olhar com olhos de ver as consequências desta decisão. E este Brasil é feio de se ver.

Sinais: um compositor e professor de capoeira de 63 anos terá sido morto num bar em Salvador, estado da Bahia, depois de ter dito que votara no PT. Um dos responsáveis por partir ao meio uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em março deste ano, foi o eleito com o maior número de votos para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

É preciso sublinhar que os eleitores brasileiros não são inimputáveis, não são crianças, não são diminuídos mentais. Quem votou fez o que quis. Como quis. Não é porque o sotaque é mais doce, o sorriso mais aberto, o balanço do corpo mais fluido que eles não são seres racionais. São. Foram. E porque são adultos, têm de ser responsabilizados. Eu aceito o resultados, eles terão de prestar contas. E nós teremos de aprender a cobrar a dura fatura que já se antevê. Estamos todos avisados.

Os eleitores de Jair Bolsonaro não são analfabetos, iliterados, nem têm défice cognitivo. A “Folha de São Paulo” já analisou os resultados e constatou que “nos 25% dos municípios com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais alto, Bolsonaro teve média de 58% dos votos”. Sabem ler e souberam escrever, embora nem fosse necessário, bastava digitar alguns botões.

Não repitam, portanto, a ideia de que estes votantes são apenas pessoas de bem que querem a ordem e o progresso do país e que, se não for o capitão reformado, o caos será o destino do Brasil. Essas pessoas não foram ao engano, não podem invocar a banalidade do mal. Sérgio Rodrigues, escritor premiado em Portugal com “O drible” - um romance sobre o desporto-pátrio -, deixou o alerta na nova praça pública que são as redes sociais, dias antes da votação: “A vitória de Bolsonaro só se torna um evento provável porque pessoas bem intencionadas, pacíficas, civilizadas, muito distantes do estereótipo boçal de seus apoiadores iniciais, estão aderindo a ele. É o que chamo, citando a filósofa Hannah Arendt, BANALIDADE do mal. A banalidade do mal à brasileira”.

O escritor, profundo conhecedor da língua portuguesa, já entrevistado para o Expresso, continua a fundamentar o seu raciocínio: “Guardadas as devidas proporções, num processo semelhante ao que tornou a monstruosidade nazista viável porque implementada por gente comum, não monstruosa, estamos vendo que os fartos sinais de covardia, despreparo, ignorância, fanfarronice, falta de ética, de humanidade e de programa emitidos pelo candidato do PSL, em vez de desmoralizá-lo, são vistos como qualidades por pessoas que julgávamos insuspeitas. Sinais trocados: toda a crise política é também uma crise cognitiva. Por que ocorre essa distorção? Porque do outro lado temos um partido autocentrado e arrogante que nunca reconheceu seus graves erros. O PT subestima grosseiramente a potência do antipetismo. Talvez tente corrigir isso no segundo turno, quem sabe dá tempo. O problema é que pode não haver segundo turno.” Vai haver segundo turno, sim. Mas para quê?

Alguém consegue acreditar que em três semanas o PT consiga alterar o seu código genético, que as forças vivas do Brasil se unam, ganhem juízo e carisma e falem às pessoas de forma a serem audíveis? Mas mais, estarão as pessoas disponíveis para os ouvir? Haverá uma evolução civilizacional e um reforço da crença nas instituições suficiente para reverter a situação? Os quase 30 milhões de pessoas que desobedeceram à lei e se recusaram a votar far-se-ão ao caminho? Quem votou num sentido vai alterar a sua opção? Não vamos mais embalar as nossas expectativas com o balançar da rede, pendurada na esperança. É preciso cair na real, tombar na realidade, estatelar-se nela.

Não valeu de nada recusar-lhe o nome. Chamá-lo inominável, coiso. Ele tem nome: Jair Bolsonaro. Ele tem filhos, eleitos, com recordes de votação, Eduardo foi o deputado federal mais votado da história, Flávio fez-se senador. O Rio de Janeiro, a cidade que apesar de todos os problemas crónicos insiste em autodenominar-se maravilhosa, poderá ser governada por alguém a quem os cariocas nem sabem nomear.

Wilson Witzel, ex-juiz federal, que surfou a onda da Lava Jato e defende que a polícia possa “abater bandidos armados”, poderá ser o novo responsável pelo estado do Rio de Janeiro. Um apoiante declarado dos Bolsonaros. Janaína Paschoal, que tem imagens vexatórias na internet e autora do impeachment de Dilma Rousseff, foi eleita a deputada federal com a maior votação já conquistada por um qualquer deputado (quase dois milhões) na história do país. E o congresso brasileiro nunca foi tão conservador, constituído por políticos que não precisam de um segundo turno - já lá estão garantidos.

E os que ainda não saíram - o congresso-Temer - terão até janeiro para votarem uma “agenda de retrocessos”, como classifica o jornal digital “The Intercept”. A reforma da Segurança Social, a privatização das distribuidoras de energia elétrica, a aprovação do uso de agrotóxicos antes da conclusão de estudos de instituições ambientais e da saúde, a demarcação das terras indígenas, o leilão de blocos de exploração petrolífera, o aumento da permissão de capital estrangeiro na indústria da aviação são exemplos citados. Dá tempo.

O que aconteceu foi fruto do ódio ao PT? Foi. Foi um sonho de que o candidato mais violento pode acabar com a violência urbana? Foi. Foi a negação das evidências dos processos sobre o próprio Bolsonaro e o desejo de que a corrupção acabe? Foi. Foi a influência de um deus evangélico e mandante nas decisões individuais? Foi. Mas há que dizer mais, foram também os ecos da casa grande e senzala, transferida para o quarto sem janela das empregadas domésticas e das babás nos edifícios das grandes cidades brasileiras. Aquelas que limpam as sujeiras e criam os filhos de algumas mulheres brasileiras, enquanto estas recorrem a outras mulheres dos subúrbios para fazer a manicure ou tirar os pelos do corpo.

O que espanta é que houve mulheres - aquelas que ele diz que podem trabalhar o mesmo que os homens e ganhar menos do que eles, aquelas que, horror, engravidam e por isso perdem valor de mercado, aquelas que são resultado de uma fraquejada dos espermatozoides e aquelas que se só merecem ser violadas se forem bonitas - que votaram nele. Gritaram o nome dele nas ruas. Houve pobres e minorias étnicas que votaram nele. Porque 46 milhões de eleitores é muita gente. Não é só a classe média, educada em colégios e que nasce em hospitais privados e quer manter exclusivos os seus privilégios históricos. E esta é a mais triste parte desta realidade brasileira, a enorme fatia da população que, sem conhecer mas aplicando na prática o mito do senhor e do escravo, prova que só ganha identidade própria na existência de um patrão.

O sul branco não negou a sua raça. O sudeste apoiado no subemprego não negou a sua opção económica. O norte, esquecido, surpreendeu. E o nordeste redimiu-se. Mas já está a apanhar, para ver se aprende, para ver se se encolhe, se cala. As ameaças são explícitas: “Nordestino vota no PT mas vem para o sul procurar emprego”. Xingamentos e pedidos para separar o nordeste do resto do país não se fizeram esperar.
No Brasil, a minha terra - será sempre minha e não permita deus que eu morra sem que eu volte para lá, para ver as palmeiras onde canta o sabiá - diz-se que quando cheira mal, “cheira a pobre”. E a favela não é, como pensam alguns europeus, entre os quais alguns portugueses, a vista mais privilegiada da cidade, é zona de guerra, tiroteio, tráfico e falta de propriedade. Há, por isso, que acabar com os eufemismos, com as tinturas turísticas, com as canções de ninar. A mulata não é a maior invenção do português, é uma mulher, espécie humana, a maioria da população brasileira. A maior parte delas é pobre, mãe de família, sustento dos filhos. E era bom que se assumisse como tal e que nós a víssemos nesta sua integridade.

Descobriram agora que o país está dividido? Há muitas décadas que o Brasil está rachado. Que o morro e os asfalto se repelem. E por isso, quando as quotas começaram a sentar o filho da empregada na universidade, lado a lado com o filho da patroa, quando a manicure apanhou um avião para visitar a Disney, a campainha soou. E nada melhor do que um supercapitão para repor a ordem.

Nesta história, nada cómica, quem fica com as mãos sujas é a justiça. Interventiva no processo eleitoral, seletiva nos comentários, partidária na atuação, perdeu o rumo de um processo essencial de combate à corrupção endémica que assola o país, transformando-se em agente político. De tal forma que, no discurso de vitória, Bolsonaro invocou o Moro nome. E não foi em vão.
O silêncio de muitos amigos, calados pelo choque e pelo medo, foi mais ruidoso do que a festa dos apoiantes de Bolsonaro. Tenho amigos com medo, posso vos garantir. Com receio de se expressarem. E ainda nem começou. Uma amiga, mestiça, vestida com uma tshirt da vereadora assassinada Marielle Franco, foi acossada na fila da votação este domingo. E a ameaça não foi singela: “Quando o Bolsonaro ganhar, vocês vão ver! Isso vai acabar, senão vai haver porrada!”.

É verdade que a mensagem de reivindicação de um espaço social ativo e sonoro “deixou semente”, como disseram outros amigos, e que outras mulheres negras, pobres e algumas homossexuais conseguiram eleger-se. Mas serão suficientes? É justo pedir-lhes tanto?

“Tudo isso é paz, tudo isso traz uma calma de verão e então o barquinho vai, a tardinha cai, o barquinho vai”. Meus amigos, acordem, o barquinho afundou, João Gilberto perdeu o tino e a autonomia. A música agora é outra, é do velho Chico: “Esta cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida. É de bom tamanho, nem largo, nem fundo. É a parte que te cabe deste latifúndio.” Lamento, Brasil.

https://leitor.expresso.pt/diario/08-10-2018/html/caderno-1/temas-principais/brasil-esta-cova-e-a-parte-que-te-cabe-deste-latifundio