Mostrar mensagens com a etiqueta Altamiro Borges. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Altamiro Borges. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Limpeza étnica na Europa fascista




3 DE JULHO DE 2008 - 18h45


por Altamiro Borges*

O Parlamento do Mercosul, reunido na cidade argentina de San Miguel de Tucumán, aprovou ontem uma dura resolução de repúdio às novas regras migratórias em vigor na União Européia, a fascista “Diretiva de Retorno”. Segundo relatos de bastidores, o documento foi articulado pelo ministro de Relações Exteriores do Brasil, o embaixador Celso Amorin, foi consensual entre os países membros do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e teve o entusiástico apoio dos governos da Venezuela e Bolívia, ainda em fase de adesão formal ao bloco regional.


“O Parlamento do Mercosul declara seu repúdio à denominada Diretiva de Retorno, que constitui uma violação aos direitos humanos básicos, em particular ao direito de livre circulação... Declara a sua esperança na capacidade do Parlamento Europeu rever, com base nos valores civilizatórios da Europa, essa decisão equivocada e estéril, que mancha a imagem da União Européia”, afirma a incisiva resolução, que será encaminhada a todas as instâncias internacionais. Alguns governos latino-americanos também não descartam a possibilidade de adotar duras medidas de represália, no espírito do direito à reciprocidade, como forma de pressão sobre as nações européias.

Oito milhões de “criminosos”

A Diretiva de Retorno, aprovada pelo parlamento europeu em 18 de junho, representa uma brutal regressão na política migratória e reflete a atual onda direitista no velho continente, com a vitória de vários governantes xenófobos. Ela relembra a fúria racista do período nazi-fascista. Fixa que, a partir de 2010, o estrangeiro em situação irregular em qualquer país da União Européia terá de sete a 30 dias para voltar ao seu país de origem, independentemente do tempo de residência na Europa e mesmo de sua situação familiar. Caso não deixe o país, ele ficará sujeito à detenção por seis meses, prorrogáveis por mais 12 meses. Os filhos nascidos na Europa também poderão ser separados dos pais imigrantes e os deportados não poderão retornar à Europa durante cinco anos.

Segundo estimativas, atualmente há oito milhões de imigrantes ilegais no continente – entre eles, cerca de 800 mil brasileiros. A partir da vigência desta lei, já batizada de Diretiva da Vergonha, todos passarão a viver como criminosos, perseguidos pela polícia migratória e discriminados por europeus envenenados pelas manipulações racistas difundidas na mídia hegemônica. O clima de terror já impera. Na Itália, o magnata da mídia Silvio Berlusconi, durante a sua campanha para o terceiro governo, pregou abertamente a “tolerância zero contra o rom [ciganos], os clandestinos e os criminosos”. Eleito, já ordenou a destruição de acampamentos e a prisão sumária de ciganos.

Arsenal de desgraças do colonizador

Na França, liderada por outro fascista, Nicolas Sarkozy, foram fixadas cotas anuais de expulsão de estrangeiros. Também foi autorizado o interrogatório de “suspeitos” durante seis dias, sem a presença de advogados, e as normas de controle dos aeroportos agora serão secretas. O governo francês ainda decretou que os patrões deverão denunciar funcionários sem documentos sob pena de multa de 15 mil euros e cinco anos de prisão. Na Espanha, o social-democrata Luis Zapatero se vangloriou de ter expulsado 330 mil imigrantes – 50% mais do que nos últimos quatro anos de José Aznar. Outros países autorizaram a polícia a deter os imigrantes por 42 dias sem acusação formal e os serviços secretos já vasculham, sem sentença judicial, os correios eletrônicos.

Na opinião do jornalista Luis Eça, a escalada xenófoba na Europa, que explica a recente vitória de governantes fascistas, teria vários motivos. “A aversão da população européia aos imigrantes se explica, em parte, pelo racismo – nem sempre expresso, mas, em geral, latente –, herdado dos tempos coloniais, quando os africanos eram acoimados de selvagens e os asiáticos de bárbaros que deveriam ser ‘civilizados’. Outra razão, talvez mais importante, é o temor de que os intrusos venham a tomar postos de trabalho da população local”. Os imigrantes seriam as vítimas destas injustiças. “Após séculos, primeiro escravizando e depois explorando impiedosamente a África, a América Latina e parte da Ásia, a Europa parece não ter esgotado o seu arsenal de desgraças”.

Novos escravos da Europa

No seu calvário, o imigrante sofre ao tentar ingressar no “primeiro mundo”, ao ser violentamente explorado e, agora, ao ser perseguido e expulso. Ele trabalha nas áreas mais penosas e insalubres, numa jornada média de 60 horas semanais, com salários baixos e sem qualquer direito. Temendo ser denunciado à polícia, ele se submete às horas não pagas, à truculência patronal, às demissões arbitrárias, à ausência de indenizações e ao trabalho noturno e no final de semana. Os imigrantes ilegais, mas também os legais, são utilizados pela burguesia para instigar a concorrência entre os trabalhadores, o que estimula a divisão na própria classe e os piores instintos xenófobos.

Reportagem contundente do jornal O Estado de S.Paulo, intitulada “Novos escravos da Europa”, revelou o drama de dois africanos, Adam Mohamed e John Kawala, que venderam suas lojas de artesanato em Gana “para reunir dinheiro e pagar todas as propinas necessárias para cruzar várias fronteiras e chegar a Europa. Em três semanas, passaram por Gana, Togo, Benin, Níger, Líbia e finalmente cruzaram o mar Mediterrâneo até o sul da Itália. Gastaram 4 mil cada um na viagem. Tudo isso para, três meses depois, viverem na condição parecida com a da escravidão na Europa. ‘Se eu soubesse que viria ao inferno, não teria iniciado a viagem’, afirma Kawala, 35 anos”.

Violação dos direitos humanos

O artigo mostra que esta é a sina da maioria dos 500 mil africanos, latino-americanos e asiáticos que ingressa no bloco todos os anos. O grosso trabalha ilegalmente, sendo responsável por quase 12% do PIB europeu. Muitos vivem “em condições de indigência. Eles sofrem diariamente com violência, vivem em edifícios abandonados, sem eletricidade ou água, e infestados de ratos. Pior: não podem voltar diante das dívidas que acumularam com seus patrões. Conhecida por criticar as condições de trabalho na produção da cana-de-açúcar no Brasil ou de têxteis na China, a Europa está sendo obrigada agora a admitir a existência dessas violações em seu próprio território”.

No trabalho nos campos da Itália, França ou Espanha, “quem ousa fugir é até perseguido pelos capatazes das fazendas. Há dois anos, a região [da Calábria] ainda foi tomada por um escândalo envolvendo a morte de poloneses que também trabalhavam no campo. Investigações feitas pela Justiça mostraram que algumas das mulheres encontradas mortas poderiam ter sido estupradas e aquela foi a primeira vez que os italianos passaram a saber a real situação dos imigrantes... Hoje, os que morrem não têm muitas vezes nem como ter seu corpo transportado para seus países”.

Resposta deve ser dura

Além de comer o pão que o diabo amassou, em condições desumanas de trabalho, o imigrante será agora mais perseguido e humilhado. Para Emir Sader, “a mensagem européia é clara. Diz um colunista espanhol: ‘Imigrante, não, muito obrigado. Petróleo, passe, por favor’. Em outras palavras, livre comércio, mas, numa sociedade que considera o ser humano mercadoria, estes são excluídos da lei geral. As mercadorias podem circular livremente, os seres humanos, não... Não é necessário recordar que sempre aceitamos imigrantes europeus, sem nenhuma política de cotas”.

Para o renomado sociólogo, é urgente repudiar esta barbárie fascista. “Uma vez García Márquez anunciou que não permitiria mais a venda dos seus livros na Espanha se passasse a ser solicitado visto aos colombianos. Agora, Hugo Chávez anuncia que deixará de vender petróleo aos países que aplicarem a Diretiva da Vergonha”. A resposta dos governos e dos povos latino-americanos, africanos e asiáticos deve ser dura. Nos séculos 19 e 20, os países do Sul “receberam milhões de italianos, portugueses, franceses, alemães, espanhóis e ingleses, que para cá vieram em busca de melhores oportunidades que seus países não ofereciam. Mas, na Europa de Berlusconi, Sarkozy, Merkel e Brown, gratidão não é um argumento levado em conta”, ironiza Luis Eça.




*Altamiro Borges, Miro é jornalista, Secretário de Comunicação do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição)



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
.
.in Vermelho
.
.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Farc: terroristas ou insurgentes?



por Altamiro Borges*


A revista Fórum de janeiro acertou em cheio na sua reportagem de capa. A edição especial sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) saiu no momento de uma brutal ofensiva da mídia contra a negociação humanitária liderada pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que resultou na libertação de duas reféns (Clara Roja e Consuelo González) do cativeiro do mais antigo e organizado agrupamento guerrilheiro do continente. Enquanto a mídia venal acusava as Farc de terrorista, narcotraficante e outros impropérios, a Fórum revelou os reais motivos da sua fundação em maio de 1964, seu projeto político de matriz socialista e seu cotidiano nas selvas.


Mesmo discordando dos métodos usados, a revista praticou o bom jornalismo, informando e não manipulando os seus leitores. “Antes de entrar na trilha, uma rápida olhada para trás me faz ver um acampamento distinto daquele que conheci dias antes. Talvez não uma casa, como me havia sugerido [a guerrilheira] Adriana. Mas um espaço de convivência política e militar que insiste na idéia de transformar o continente”, conclui a reportagem o jornalista Jacques Gomes, que passou três dias numa área sob o comando das Farc, que controlam quase 40% do território nacional.


Os verdadeiros terroristas


A tentativa de qualificar as Farc como grupo terrorista, negando a sua história e a sua proposta de libertação nacional, serve a distintos interesses. Da parte do “império do mal”, encaixa-se no seu intento de domínio da região, considerada um “quintal dos EUA”. O presidente-terrorista George W. Bush mantém atualmente cerca de 800 “consultores militares” manietando as forças armadas do país vizinho. Através do belicista “Plano Colômbia”, o governo estadunidense injeta bilhões de dólares na indústria de armamentos e põe em risco a segurança militar de todo o continente. Qualquer êxito de uma “paz negociada”, que restabeleça os canais democráticos no país, poderia confirmar a tendência progressista na região, prejudicando as ambições imperialistas dos EUA.


Já da parte do governo Álvaro Uribe, a “paz negociada” poderia representar a débâcle das forças oligárquicas que controlam o país há décadas. O atual presidente só sobrevive graças à violência. Ele é um homem da guerra, com todas suas marcas fascistas. Tanto que o seu governo é ocupado por chefes dos grupos paramilitares de direita e por latifundiários e industriais – inclusive o dono da Coca-Cola –, que saqueiam o país e bancam o genocídio. A “paz negociada” também ajudaria a implodir os vínculos de Uribe com as poderosas máfias da cocaína que disputam o controle do território. Dois livros recentes – “Amando Pablo, odiando Escobar”, escrito por Virgínia Vallejo, ex-amante do maior chefão das drogas, e “Biografia não autorizada”, do jornalista da Newsweek Joseph Contreras – comprovam fartamente as ligações do atual presidente com o narcotráfico.


Paz negociada e não rendição


A libertação de duas importantes reféns, intermediada pelo presidente Hugo Chávez, demonstra que as Farc estão interessadas em solucionar um conflito que dura quatro décadas e que resultou na morte de 70 mil pessoas e no deslocamento de suas casas de 5 milhões de colombianos. Mas, para isso, é preciso derrotar os senhores da guerra – Bush, Uribe e seus porta-vozes da mídia. A paz terá que ser negociada e não imposta através da rendição. Nos anos 80, as Farc aceitaram um cessar-fogo e criaram um braço político institucional, a União Patriótica. Mas dois candidatos presidenciais da UP, assim como seu senador eleito, foram barbaramente assassinados. Enquanto não se firmar a “paz negociada”, as Farc não abandonaram seus questionáveis métodos de luta.





*Altamiro Borges, Miro é jornalista, Secretário de Comunicação do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro "As encruzilhadas do sindicalismo" (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição)



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
in Vermelho
29 DE JANEIRO DE 2008 - 11h52