D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo
* Jaime Nogueira Pinto
A proposta
de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é
ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e
reformista
14 mai. 2026,
A Esquerda
rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro
político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial
inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1
da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se
antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a
proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto. Mais para o
centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se,
implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda:
afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.
Independentemente
da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de
resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a
oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra
um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a
Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra
Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a
Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.
Nada mais
falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias
político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos
político-partidários na Europa e na América.
Para os
conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia
Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real
arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição
inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da
Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da
monarquia limitada.
A Questão
Social – Marx, Bismarck, Leão XIII
Na primeira
metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada
acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a
chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de
Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de
famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado
urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels,
no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas
soluções.
Com o Manifesto
e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina
socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina
materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção
primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de
Ludwig Feuerbach.
A ideia
primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que
podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A
segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da
política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a
Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o
Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis,
num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da
História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado
sairia vencedor da luta.
As ideias
socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas
Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de
Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a
social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava
a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era
elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do
sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre
as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.
Mas ao mesmo
tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo
cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de
justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo
capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de
devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias
materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que
depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio
sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun,
Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.
Também, na área
nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e
industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes
socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de
segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883),
a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e
invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e
agrícolas.
E em 1891, Leão
XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da
Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do
socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos
aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da
intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do
socialismo.
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São exemplos de
pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de
Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé,
com os papas sociais.
A direita
revolucionária
Outra linha de
reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de
base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo
ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas
intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas
autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de
esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito,
ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se
tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola
nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também
bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.
Haveria muito
mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e
intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das
primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927,
inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao
contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda
não tem o monopólio da preocupação e da acção social.
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A idade da
reforma
Em resumo, a
proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é
necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos
afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso
português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na
Europa.
Deixar à
Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que
notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado
e manipulado discurso dominante.
Afinal, é hoje
com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do
Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de
minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm
vindo a crescer e a ganhar eleições.
Marta Pinho Alves - Cinema de Abril
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção
Portugal. Abl. Cinema.
A Revolução de 1974 que terminou com os 48 anos de ditadura fascista a que Portugal fora submetido abriu caminho à criação cultural que tanto tempo havia estado amordaçada ou confinada a fronteiras rígidas. No caso do cinema, a história é bastante particular e complexa, mas tentaremos sintetizar. Portugal começa o seu labor cinematográfico no final do século XIX, alinhado com o que acontece na Europa e nos EUA. Quando se inicia o cinema sonoro no nosso país, este surge já enfileirado com o Estado fascista recém-criado e como instrumento de propaganda. É o tempo das “comédias à portuguesa” ou “comédias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cottinelli Telmo, 1933) ou Pátio das Cantigas (Francisco Ribeiro, 1942), e dos filmes dedicados à história e literatura nacionais eleitas por António Ferro, tais como Amor de Perdição (António Lopes Ribeiro, 1943) ou Camões (António Leitão de Barros, 1946). Esgotadas estas fórmulas junto do público, facto que culminou em 1955, no chamado ano zero do cinema português, com a não produção de nenhuma longa-metragem comercial, fruto de iniciativas estatais que pretendiam reabilitar o interesse do público pelo cinema feito em Portugal e formar profissionais, em particular para a televisão, cujo aparecimento em Portugal, apesar de adiado, era cada vez mais inevitável, o cinema português é alvo de uma mudança significativa. Expressar essas mudanças e a recepção desse cinema numa só frase é impossível, mas talvez se possa tentar referindo a corrente do Novo Cinema Português, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Belarmino (Fernando Lopes, 1964), filmes que abandonam o registo épico dos filmes histórico-literários ou fantasiado da “comédia à portuguesa”, para mostrarem um país real, os seus verdadeiros cidadãos e os seus desafios, angústias e imposta imobilidade.
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção como praticamente todas as dimensões da sociedade. É preciso dizer agora abertamente o que antes não era possível, é preciso demonstrar o que antes era apenas sugerido, é preciso gritar a raiva do passado e a promessa do futuro. “Cinema de Abril” é a designação encontrada para o período, curto, em que o cinema se organizou, saiu à rua, mobilizou todos com uma câmara na mão. Nesta época, organizou-se um sindicato de cinema, cooperativas, reivindicou-se mais dinheiro para a produção, o PCP criou no seio do seu Sector Intelectual uma Célula de Cinema, dedicada a produzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o esclarecimento e a politização das massas. Ler e escrever imagens podia e devia ser direito de todos, não apenas dos já entendidos e iniciados como autores1. Vale muito a pena regressar ao cinema produzido nesse período e perceber como foi relatar, no momento em que acontecia, aquele momento histórico e a sua potência.
Para finalizar, uma nota de actualidade. O que permanece do cinema de Abril no cinema português? Quando evocámos os filmes da época é de passado que falamos ou também é do que somos hoje? Qual o legado para os filmes que fazemos no Portugal de 2026? Qual a marca deixada nos seus autores? É possível não falarmos de Abril e continuarmos a evocar as conquistas de Abril? Há uma especificidade naquilo que frequentemente designamos como o cinema autoral português – para o distinguir da corrente que afirma que o “cinema deve ir para o mercado”, estar alinhado com as indústrias culturais –, que o aproxima da intenção da cinematografia iniciada em Abril de 1974?
Marta Pinho Alves - “Estado Velho”
Robin Philpot - Einstein opôs-se à colonização sionista na Palestina e previu a catástrofe atual
– As suas opiniões sobre Israel e o sionismo foram ocultadas e distorcidas durante décadas
Robin Philpot [*]

Algumas semanas antes da criação do Estado de Israel, Shepard Rifkin, um representante sediado em Nova Iorque do Grupo Stern, uma organização paramilitar sionista fundada na Palestina Mandatória, solicitou que representantes do grupo se reunissem com Albert Einstein nos Estados Unidos, "a maior figura judaica da época", segundo o jornalista I.F. Stone. A resposta de Einstein foi inequívoca:
Quando uma catástrofe real e definitiva nos atingir na Palestina, os primeiros responsáveis por ela serão os britânicos e os segundos responsáveis serão as organizações terroristas criadas a partir das nossas próprias fileiras. Não estou disposto a ver ninguém associado a essas pessoas iludidas e criminosas.
Einstein disse que a sua "vida estava dividida entre equações e política". No entanto, entre os seus biógrafos — existem centenas deles — e nos meios de comunicação social dominantes, os seus extensos escritos políticos sobre Israel e o sionismo foram, na melhor das hipóteses, varridos para debaixo do tapete ou, na pior das hipóteses, completamente distorcidos, identificando-o como um apoiante do Estado de Israel.
Isto é, até que o falecido Fred Jerome os procurou, encontrou, mandou traduzir (na sua maioria do alemão) e os publicou no livro, Einstein on Israel and Zionism. Infelizmente, a primeira edição deste texto, publicada por uma editora de Nova Iorque, teve uma tiragem muito pequena, nunca foi promovida nem transformada em e-book, e esgotou num instante. É por isso que a Baraka Books publicou uma nova edição com o consentimento de Jocelyn Jerome, viúva do autor.
Foi na Alemanha da década de 1920, uma época de antissemitismo desenfreado em que a teoria da relatividade era atacada como "ciência judaica", que Einstein se sentiu atraído pelo movimento sionista. Só em 1914, quando chegou à Alemanha, é que "descobriu pela primeira vez que era judeu", uma descoberta que atribuiu mais aos "gentios do que aos judeus". Antes disso, ele via-se como um membro da espécie humana.
Ele autodenominava-se um “sionista cultural”, mas já em 1921 Kurt Blumenfeld, um ativista sionista enviado para recrutar Einstein, advertiu Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, sobre o grande cientista:
Einstein, como sabe, não é sionista, e peço-lhe que não tente torná-lo sionista nem que tente ligá-lo à nossa organização. … Einstein, que se inclina para o socialismo, sente-se muito envolvido com a causa do trabalho judaico e dos trabalhadores judeus… Ouvi dizer… que espera que Einstein faça discursos. Por favor, tenha muito cuidado com isso. Einstein… diz frequentemente coisas por ingenuidade que não são bem-vindas por nós.
Para além da suposta "ingenuidade" de Einstein, Blumenfeld não poderia ter dito melhor. Einstein viria a ser um obstáculo constante ao projeto sionista de colonização da Palestina e à criação do Estado de Israel até à sua morte, em 1955.
Eis alguns exemplos das posições que assumiu.
As suas trocas de correspondência com Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, ilustram o quão importante Einstein era para os sionistas, mas, mais importante ainda, como as suas opiniões divergiam das deles. Numa carta a Weizmann, datada de 25 de novembro de 1929, escreveu:
Se não formos capazes de encontrar um caminho para uma cooperação honesta e pactos honestos com os árabes, então não aprendemos nada durante os nossos dois mil anos de sofrimento e merecemos o destino que nos sobrevirá.
A ideia do "destino que nos sobrevirá" surge frequentemente. Em 1929, ele parece já ter previsto que o Estado-nação que os sionistas sonhavam criar sem "cooperação honesta e pactos honestos" com os seus vizinhos palestinos se tornaria o que é hoje, nomeadamente o lugar mais perigoso do mundo para os judeus viverem.
Algumas semanas depois, a 14 de dezembro de 1929, escreveu a Selig Brodetsky, da Organização Sionista em Londres: "Estou feliz por não termos poder. Se a teimosia nacional se revelar suficientemente forte, então vamos dar com as cabeças na parede, como merecemos."
Além disso, Leon Simon, um dos seus primeiros editores e tradutores, escreveu:
No nacionalismo do Professor Einstein não há espaço para qualquer tipo de agressividade ou chauvinismo. Para ele, o domínio dos judeus sobre os árabes na Palestina, ou a perpetuação de um estado de hostilidade mútua entre os dois povos, significaria o fracasso do sionismo.
Ao contrário da grande maioria dos sionistas, o apoio de Einstein a uma possível "pátria judaica" — não um Estado — não se limitava à Palestina. Não havia nada de religioso no seu compromisso. Alguns sionistas defendiam a criação de tal pátria na China, no Peru ou em Birobidzhan, na União Soviética, mas em total acordo com as autoridades estatais e as populações em cada caso.
Einstein apoiou estas medidas. Por exemplo, sobre a pátria judaica de Birobidzhan na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, escreveu:
Não devemos esquecer que, naqueles anos de perseguição atroz do povo judeu, a Rússia Soviética foi a única grande nação que salvou centenas de milhares de vidas judaicas. A iniciativa de instalar 30 000 órfãos de guerra judeus em Birobidzhan e garantir-lhes, desta forma, um futuro satisfatório e feliz é uma nova prova da atitude humana da Rússia para com o nosso povo judeu. Ao ajudar esta causa, contribuiremos de forma muito eficaz para a salvação dos remanescentes do judaísmo europeu.
Nos anos cruciais entre o fim da guerra e a sua morte em 1955, Einstein foi franco quanto ao projeto do Estado judeu. Convidado a testemunhar perante a Comissão Anglo-Americana de Inquérito sobre a Palestina em Washington, DC, em janeiro de 1946, Einstein respondeu inequivocamente quando questionado sobre a possibilidade de um Estado de Israel versus uma pátria cultural: "Nunca fui a favor de um Estado".
Em março de 1947, I.Z. David, membro do grupo terrorista Irgun liderado por Menachem Begin, enviou-lhe um questionário ao qual ele respondeu de forma incisiva e clara:
Pergunta: Qual é a sua opinião sobre a criação de uma Palestina Nacional Judaica livre?
Einstein: Pátria Nacional Judaica? Sim. Palestina Nacional Judaica? Não. Sou a favor de uma Palestina livre e binacional numa data posterior, após acordo com os árabes.
Pergunta: Opinião sobre a partilha da Palestina e as propostas de Chaim Weizmann relativas à partição?
Einstein: Sou contra a partição.
Quanto à questão da aliança entre o imperialismo britânico e o americano, Einstein não nutria ilusões:
Parece-me que os nossos queridos americanos estão agora a moldar a sua política externa ao modelo dos alemães, uma vez que parecem ter herdado a presunção e a arrogância destes últimos. Aparentemente, também querem assumir o papel que a Inglaterra desempenhou até agora. Recusam-se a aprender uns com os outros; e aprendem pouco mesmo com a sua própria experiência amarga. O que foi incutido nas mentes desde a juventude está mais firmemente enraizado do que a experiência e o raciocínio. Os ingleses são mais um bom exemplo disso. Os seus métodos antiquados de reprimir as massas, recorrendo a elementos locais sem escrúpulos da classe económica alta, irão em breve custar-lhes todo o seu império, mas são incapazes de se convencerem a mudar os seus métodos; independentemente de serem os conservadores ou os socialistas. Com os alemães, foi exatamente o mesmo. Tudo isto seria bom e belo, se não fosse o facto de ser tão triste para os elementos melhores e para os oprimidos.
Quanto aos antepassados políticos do atual governo de Netanyahu, Einstein atacou-os a eles e aos seus partidos políticos, particularmente no New York Times. Quando Menachem Begin veio a Nova Iorque no final de 1948, Einstein, Hannah Arendt e outras figuras intelectuais judaicas nos Estados Unidos publicaram uma carta a denunciar a sua visita e a organização que ele liderava, chamando-a de "um partido político muito próximo, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, dos partidos nazis e fascistas". Um exemplo que citaram foi o massacre de 240 homens, mulheres e crianças na aldeia palestina de Deir Yassin.
Einstein repetiu esta acusação até à sua morte em 1955: "Estas pessoas são nazis nos seus pensamentos e ações." Qualquer pessoa que diga isto hoje nos meios de comunicação social tradicionais é imediatamente rotulada de antissemita e colocada na lista negra.
É de conhecimento geral que, quando Chaim Weizmann morreu em 1952, o primeiro-ministro de Israel ofereceu a presidência de Israel a Albert Einstein. Menos conhecida, no entanto, é a razão que Einstein deu para esta recusa: “Eu teria de dizer ao povo israelense coisas que eles não gostariam de ouvir”. Ainda menos conhecida é a declaração de Ben Gurion: “Diga-me o que fazer se ele disser sim! Tive de lhe oferecer o cargo porque era impossível não o fazer, mas se ele aceitar, vamos ter problemas".
Centenas, senão milhares, de pessoas estão a ser acusadas de antissemitismo ou despedidas dos seus empregos por se atreverem a criticar o Estado de Israel, chamá-lo de Estado de apartheid e denunciar o genocídio dos palestinos. Que fiquem tranquilos: estão em boa companhia, porque se Einstein estivesse vivo hoje estaria na linha da frente a manifestar-se com eles.
13/Maio/2026
Ver também:
[*] Editor da Baraka Books. Todas as citações são da nova edição enriquecida de Einstein on Israel and Zionism (Setembro/2024) de Fred Jerome.
O original encontra-se em www.defenddemocracy.press/einstein-opposed-zionist-colonization-in-palestine-and-predicted-the-current-catastrophe/
José Duarte - Restaurar o serviço militar obrigatório?
Pacheco Pereira parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para Berlim? Para Lisboa? Restaurar o SMO em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas.
* José Duarte
• Maio 12, 2026
ilustração: Mantraste
Assistimos há dias à publicação de um artigo de opinião um quanto triste no Público, da autoria do historiador Pacheco Pereira, em que ele defende a importância de restaurar o serviço militar obrigatório em Portugal face à crescente agressão da Rússia na frente ucraniana.
Pacheco Pereira começa por argumentar que, nas circunstâncias presentes em território europeu, a invasão da Ucrânia coloca às democracias europeias uma discussão importante sobre militarização. Porém, o nosso historiador parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para a Berlim? Para Lisboa? Será a Rússia uma ameaça às democracias europeias?
O serviço militar obrigatório em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas. Será importante mencionar que a expansão da guerra para o resto da Europa é um cenário altamente improvável. Mesmo que fosse provável, números publicados indicam que os países da UE possuem meios armados suficientes, tanto em número de efetivos como em gastos militares, para fazer frente ao exército russo. Não há um cenário de vitória para a Rússia numa guerra contra os países europeus. E ninguém sabe porque quereria a Rússia invadir o resto da Europa. Pacheco Pereira também parece ter uma preocupação um quanto cínica no que toca à democracia na Europa. Para ele, o desinvestimento na saúde e na educação, a pior crise da habitação na UE, o ataque aos direitos laborais e a omissão dos financiadores dos partidos parece que são algo com que a “nossa democracia” consegue conviver: não parecem preencher requisitos de “maior ataque à democracia”.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Fernando Martins - Ainda a propósito da morte de Carlos Brito
O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega
terça-feira, 12 de maio de 2026
Natasha Smirnoff - A MORTE DE CARLOS BRITO E O QUE REALMENTE INCOMODA NO PCP
César Alves - Conduzir à Esquerda — Notas Sobre o Fim do Comum
Sófia Puschinka - Na morte de Carlos Brito
domingo, 10 de maio de 2026
Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária
* Porfírio Silva
Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários.
Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.
No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários.
A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya.
Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México.
No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...
Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.
Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.
Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.
Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia.
Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.
O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid.
Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.
No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas.
A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.
Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.
Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026
https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html
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A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC
- A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
- Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
- Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
- Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local (AI Overview)
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