* Eugénia Galvão Teles
Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social
19 março 2026
Conforme o esperado, a polícia da
moda analisou minuciosamente o vestido que Margarida Maldonado Freitas usou na
posse do marido como Presidente da República. O jornalismo de investigação não
descansou enquanto não deu com a origem daquele bocado de tecido azul da
Valentino e apresentou a conta à população. Uma etiqueta com demasiados zeros
transformou a farmacêutica das Caldas numa nova Maria Antonieta, insensível à
pobreza dos seus súbditos. Como se não bastasse ser demasiado caro, apareceu
ainda o demasiado estrangeiro. Com tantos costureiros nacionais, a mulher foi
escolher um italiano e ainda lhe pregou uns corações de Viana, na esperança de
nacionalizar à pressa a farpela.
Para brincar aos polícias da moda
a sério, dava jeito saber alguma coisa sobre a história da roupa feminina —
além da cor do ano, das bainhas que sobem e descem, da meia dúzia de marcas que
aparecem nas revistas e do reflexo pavloviano quando um vestido é mais caro.
Já não peço que saibam que Chanel,
em 1955, criou uma carteira com alça a tiracolo para deixar as mulheres com as
mãos livres; que Yves Saint Laurent se ofereceu para vestir a mulher emancipada
dos anos 70, caso ela não desse com o príncipe encantado; que o luxo online
trocou a lady who lunches por uma compradora com vida profissional e pouco
tempo para correr lojas à procura do traje mais adequado à ocasião.
Mas há mínimos. Não dá para não
saberem que o mercado de luxo foi dos primeiros a apostarem numa cliente com
cartão de crédito próprio. Não que o mercado se tenha tornado feminista. Fez
apenas o que o capitalismo sabe fazer e reconheceu os frutos económicos da
emancipação feminina. Margarida Maldonado Freitas é um bom exemplo dessa
mudança. Já nasceu no mundo das que estudaram, trabalharam, ganharam o seu
dinheiro e não pedem licença para existir ao lado de um homem com poder.
É verdade que a mulher a subir a
calçada não é só a Margarida que pode comprar o que quer. Mesmo num país sem
primeira-dama, está ao lado do Presidente. À mulher de César não basta ser;
também tem de parecer.
Só que a António José Seguro
ninguém cobrou os fatos Canali, que não são propriamente baratos. Felicitou-se
a sua entrada bem-sucedida no clube dos homens políticos que se vestem como
deve ser e procuram uma boa relação qualidade-preço. Já a indumentária da sua
mulher, mesmo em saldo, só pode ser um brioche atirado ao povo pela calçada de
Belém. O luxo masculino continua a ser competência. No feminino, é falha moral.
Também convém manusear com cuidado
toda essa sensibilidade social. Da sobriedade republicana passa-se, amiúde
demasiado depressa, para o Portugal dos pobrezinhos e dos pequeninos. Na
investigação jornalística feita ao vestido, achou-se natural ir bater à porta
da costureira da mulher do Presidente. Sendo das Caldas, logo havia de se
vestir por lá, com a mediação social adequada ao código postal. O que incomoda
não é só o preço do vestido. É a quebra de uma certa geografia de classe.
Quando me casei, cheguei à modista
com uma página arrancada da “¡Hola!” e um modelo da Valentino para evitar
acabar igual à princesa Diana, que ainda era a referência obrigatória em
matéria de vestidos de noiva. É bem possível que a Margarida Maldonado tenha
feito o mesmo. Nenhuma de nós tinha dinheiro para comprar o figurino da
revista. Mas ambas sabíamos que ninguém reinterpretava a elegância clássica
tirando-lhe o mofo como o Valentino. Trinta anos depois, faz sentido que passe
do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma
história de emancipação feminina e mobilidade social.
O que se quer de um Presidente de
todos os portugueses não é que ele e a mulher se vistam de pedagogia social
ambulante. É que façam tudo para que essa história não pare neles. Qualquer que
seja o vestido dela e o fato dele.



