sexta-feira, 15 de maio de 2026

Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]

* Carlos Coutinho

O horror bíblico, superior ao próprio inferno, por ser verdadeiro e ter datas, pode exprimir-se em muitas línguas e, sendo referido a factos diferentes no tempo e no modo, não deixa de ser a moeda de duas faces que de um lado tem o holocausto e do outro a Nakba, o custo real da existência humana, quando o seu ADN é o expoente máximo da crueldade politizada, ora por Deus, ora pelo Diabo.

   Hoje, o dia que recebe uma das datas mais hediondas do calendário judaico-árabe, celebra-se a criação do Estado de Israel, acaso histórico ocorrido a 14 de Maio de 1948, mais de metade do mundo sabe o que foi o Holocausto, aquela multitudinária matança físico-química e pós-pogromes que o justificou, mas, em contrapartida, muitos menos são os terráqueos com uma noção, mesmo que só aproximada, do que foi a Nabka, apesar dos seus trágicos prolongamentos na Palestina ocupada e nos territórios adjacentes.

   Se é certo que a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU estabeleceu no dia 29 de novembro de 1947 a divisão da Palestina histórica em doois estados, um hebraico e outro, a verdade é que a proclamação do Estado de Israel foi feita de forma unilateral pelos dirigentes sionistas, à revelia das Nações Unidas, acompanhada por uma orgia de violência que nem Hitler desdenharia e que Netanyahu gostosamente prolonga, com Trump a assobiar para o lado e a arquitetar negócios próprios e milionários para o teatro do morticínio, sem câmaras de gás nem fornos crematórios, mas com palacetes de luxo à beira-praia.

   Os 78 anos decorridos desde maio de 1948 têm sido uma permanente nabka. A ocupação de territórios internacionalmente reconhecidos como palestinianos e a violência sistemática e brutal praticada por Israel são agora a continuação de um genocídio que não terminou, apesar do “cessar-fogo”   e do “plano de paz” anunciados por Trump.

   Hoje, os dirigentes israelitas proclamam abertamente o objetivo de expandir o Estado sionista e não apenas com a ocupação de todo o território histórico da Palestina, do rio até ao mar, o tal “Grande  Israel” que é muitas vezes descrito como indo do Nilo ao Eufrates.

   No terreno prossegue a ocupação de vastas zonas da Palestina e da Síria, a tentativa de ocupação o sul do Líbano, além de repetidas agressões ao Irão, em conjunto com os EUA.

   O historiador israelita Ilan Pappe, que só pode ser tomado como insuspeito, escreve que, ao longo de poucos meses, “mais de metade da população nativa da Palestina, cerca de 800 000 pessoas, foi expulsa de suas casas”, uma ação planeada, o Plano Dalet, e que “as ordens dadas incluíam uma descrição pormenorizada dos métodos a serem empregues para expulsar a população pela força: intimidação em larga escala; sitiar e bombardear aldeias e centros populacionais; atear fogo a casas, propriedades e bens; expulsões; demolições e, finalmente, colocar explosivos entre os destroços para impedir o regresso dos habitantes”. Houve “dezenas de massacres” e até o “o envenenamento de fontes de Acre com tifo

2026 05 13

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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo

* Jaime Nogueira Pinto

A proposta de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e reformista

14 mai. 2026, 

A Esquerda rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1 da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto.  Mais para o centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se, implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda: afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.

Independentemente da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.

Nada mais falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos político-partidários na Europa e na América.

Para os conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da monarquia limitada.

A Questão Social – Marx, Bismarck, Leão XIII

Na primeira metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas soluções.

Com o Manifesto e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de Ludwig Feuerbach.

A ideia primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis, num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado sairia vencedor da luta.

As ideias socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.

Mas ao mesmo tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun, Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.

Também, na área nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883), a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e agrícolas.

E em 1891, Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do socialismo.

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São exemplos de pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé, com os papas sociais.

A direita revolucionária

Outra linha de reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito, ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.

Haveria muito mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927, inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda não tem o monopólio da preocupação e da acção social.

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A idade da reforma

Em resumo, a proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na Europa.

Deixar à Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado e manipulado discurso dominante.

Afinal, é hoje com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm vindo a crescer e a ganhar eleições.

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Marta Pinho Alves - Cinema de Abril


Marta Pinho Alves

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção

Por­tugal. Abl. Ci­nema.

A Re­vo­lução de 1974 que ter­minou com os 48 anos de di­ta­dura fas­cista a que Por­tugal fora sub­me­tido abriu ca­minho à cri­ação cul­tural que tanto tempo havia es­tado amor­da­çada ou con­fi­nada a fron­teiras rí­gidas. No caso do ci­nema, a his­tória é bas­tante par­ti­cular e com­plexa, mas ten­ta­remos sin­te­tizar. Por­tugal co­meça o seu labor ci­ne­ma­to­grá­fico no final do sé­culo XIX, ali­nhado com o que acon­tece na Eu­ropa e nos EUA. Quando se inicia o ci­nema so­noro no nosso país, este surge já en­fi­lei­rado com o Es­tado fas­cista recém-criado e como ins­tru­mento de pro­pa­ganda. É o tempo das “co­mé­dias à por­tu­guesa” ou “co­mé­dias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cot­ti­nelli Telmo, 1933) ou Pátio das Can­tigas (Fran­cisco Ri­beiro, 1942), e dos filmes de­di­cados à his­tória e li­te­ra­tura na­ci­o­nais eleitas por An­tónio Ferro, tais como Amor de Per­dição (An­tónio Lopes Ri­beiro, 1943) ou Ca­mões (An­tónio Leitão de Barros, 1946). Es­go­tadas estas fór­mulas junto do pú­blico, facto que cul­minou em 1955, no cha­mado ano zero do ci­nema por­tu­guês, com a não pro­dução de ne­nhuma longa-me­tragem co­mer­cial, fruto de ini­ci­a­tivas es­ta­tais que pre­ten­diam re­a­bi­litar o in­te­resse do pú­blico pelo ci­nema feito em Por­tugal e formar pro­fis­si­o­nais, em par­ti­cular para a te­le­visão, cujo apa­re­ci­mento em Por­tugal, apesar de adiado, era cada vez mais ine­vi­tável, o ci­nema por­tu­guês é alvo de uma mu­dança sig­ni­fi­ca­tiva. Ex­pressar essas mu­danças e a re­cepção desse ci­nema numa só frase é im­pos­sível, mas talvez se possa tentar re­fe­rindo a cor­rente do Novo Ci­nema Por­tu­guês, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Be­lar­mino (Fer­nando Lopes, 1964), filmes que aban­donam o re­gisto épico dos filmes his­tó­rico-li­te­rá­rios ou fan­ta­siado da “co­média à por­tu­guesa”, para mos­trarem um país real, os seus ver­da­deiros ci­da­dãos e os seus de­sa­fios, an­gús­tias e im­posta imo­bi­li­dade.

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção como pra­ti­ca­mente todas as di­men­sões da so­ci­e­dade. É pre­ciso dizer agora aber­ta­mente o que antes não era pos­sível, é pre­ciso de­mons­trar o que antes era apenas su­ge­rido, é pre­ciso gritar a raiva do pas­sado e a pro­messa do fu­turo. “Ci­nema de Abril” é a de­sig­nação en­con­trada para o pe­ríodo, curto, em que o ci­nema se or­ga­nizou, saiu à rua, mo­bi­lizou todos com uma câ­mara na mão. Nesta época, or­ga­nizou-se um sin­di­cato de ci­nema, co­o­pe­ra­tivas, rei­vin­dicou-se mais di­nheiro para a pro­dução, o PCP criou no seio do seu Sector In­te­lec­tual uma Cé­lula de Ci­nema, de­di­cada a pro­duzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o es­cla­re­ci­mento e a po­li­ti­zação das massas. Ler e es­crever ima­gens podia e devia ser di­reito de todos, não apenas dos já en­ten­didos e ini­ci­ados como au­tores1. Vale muito a pena re­gressar ao ci­nema pro­du­zido nesse pe­ríodo e per­ceber como foi re­latar, no mo­mento em que acon­tecia, aquele mo­mento his­tó­rico e a sua po­tência.

Para fi­na­lizar, uma nota de ac­tu­a­li­dade. O que per­ma­nece do ci­nema de Abril no ci­nema por­tu­guês? Quando evo­cámos os filmes da época é de pas­sado que fa­lamos ou também é do que somos hoje? Qual o le­gado para os filmes que fa­zemos no Por­tugal de 2026? Qual a marca dei­xada nos seus au­tores? É pos­sível não fa­larmos de Abril e con­ti­nu­armos a evocar as con­quistas de Abril? Há uma es­pe­ci­fi­ci­dade na­quilo que fre­quen­te­mente de­sig­namos como o ci­nema au­toral por­tu­guês – para o dis­tin­guir da cor­rente que afirma que o “ci­nema deve ir para o mer­cado”, estar ali­nhado com as in­dús­trias cul­tu­rais –, que o apro­xima da in­tenção da ci­ne­ma­to­grafia ini­ciada em Abril de 1974?

Ten­ta­remos, em pró­ximos textos, apro­xi­marmo-nos de uma res­posta quase im­pos­sível à per­gunta: o que é o ci­nema por­tu­guês (con­tem­po­râneo)?

1Sobre este tó­pico, ver o tra­balho vasto e di­verso dos in­ves­ti­ga­dores José Fi­lipe Costa e Paulo Cunha


https://www.avante.pt/pt/2733//183358

Marta Pinho Alves - “Estado Velho”




* Marta Pinho Alves

O filme re­alça a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade do fas­cismo por­tu­guês

Fa­lamos neste texto do mais re­cente filme de João Bo­telho, in­ti­tu­lado O Velho Sa­lazar. O ci­ne­asta tem mos­trado nos úl­timos anos uma abun­dante pro­dução ci­ne­ma­to­grá­fica. Quase em si­mul­tâneo a esta obra es­treou outra ainda não su­fi­ci­en­te­mente co­nhe­cida e di­fun­dida, As Me­ninas Exem­plares, uma adap­tação muito livre do livro ho­mó­nimo de Con­dessa de Ségur, com uma ima­gé­tica for­te­mente ins­pi­rada no tra­balho da ar­tista plás­tica Paula Rego. No mo­mento ac­tual, entre as es­treias dos dois antes men­ci­o­nados, filmou já outro filme (em fase de pós-pro­dução), O Rei Lear, de Wil­liam Sha­kes­peare, ba­seado na tra­dução para por­tu­guês de Álvaro Cu­nhal, e en­contra-se a pre­parar o do­cu­men­tário Dan­cing Pe­ople Are Never Wrong.

Neste afã cri­ador, surge então um filme que se de­dica, mais do que à fi­gura do di­tador por­tu­guês, a pensar o que foi o Es­tado fas­cista que vi­gorou du­rante 48 anos e qual o seu le­gado. Longe de poder ser en­ten­dido como um bi­opic, ati­tude ci­ne­má­tica que o re­a­li­zador de­clara des­prezar, O Velho Sa­lazar é um exer­cício de ca­ri­ca­tura e des­cons­trução de um con­junto de nar­ra­tivas que não só per­duram e pa­recem re­cru­descer no mo­mento pre­sente face a dis­cursos nos­tál­gicos e de de­tur­pação do real. Bo­telho es­cla­rece que há uma pre­pa­ração do­cu­mental para as in­for­ma­ções que nos apre­senta no filme, todas estas fac­tuais e de­mons­tradas, mas que não obe­dece à mesma pre­o­cu­pação quando in­tervêm as falas de Sa­lazar. Essa per­so­nagem, que é apenas vista através de al­gumas fo­to­gra­fias co­nhe­cidas, não é cor­po­ri­zada em ne­nhum actor, ex­pressa-se oral­mente através de mo­nó­logos cri­ados por fer­ra­mentas de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, pre­ten­dendo assim in­va­lidar a sua ex­pressão, não fazer eco da mesma, mas antes evi­den­ciar os pa­ra­doxos entre o que afir­mava e a sua acção, assim como o seu alhe­a­mento face à re­a­li­dade e a sua na­tu­reza ca­duca e amoral (apesar da cons­tante evo­cação de uma mo­ra­li­dade vi­gente, en­ten­dida como ori­en­ta­dora da con­duta do­mi­nante).

Não obs­tante o nome do di­tador que compõe o tí­tulo e as per­so­na­gens que surgem no filme lhe es­tarem as­so­ci­adas quer na es­fera ín­tima (a go­ver­nanta?, a jovem amante fran­cesa, o ca­lista, o en­fer­meiro), quer na es­fera po­lí­tica (a go­ver­nanta?, o car­deal, o mi­nistro da pro­pa­ganda), não é sobre a pessoa que se quer falar, mas sobre um re­gime per­so­ni­fi­cado na­quela fi­gura. A forma como se ad­jec­tiva o su­posto pro­ta­go­nista – velho –

as­si­nala fun­da­men­tal­mente a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade de um sis­tema po­lí­tico mar­cado pelo mal, pela pro­funda vi­o­lência e re­ti­rada de dig­ni­dade ao povo tra­ba­lhador, e pelo apro­fun­da­mento das de­si­gual­dades entre classes, no que diz res­peito aos di­reitos mais ele­men­tares e à li­ber­dade, im­postos não apenas aos por­tu­gueses, mas também a todas as na­ções co­lo­ni­zadas, em nome de uma moral pe­dante e im­pi­e­dosa e de uma au­to­ri­dade pe­na­li­zante e pa­ra­li­sa­dora. De “Novo”, o Es­tado por­tu­guês de então tinha apenas a sua de­sig­nação, com pro­pó­sitos pro­pa­gan­dís­ticos. “Velho”, como aqui se de­signa o di­tador, é a me­lhor forma de com­pre­ender este re­gime e de o res­sig­ni­ficar.

Tratar um tema como este com re­curso ao humor, ao exa­gero, à am­pli­fi­cação e à ca­ri­ca­tura, é talvez es­tra­tégia que possa deixar al­guns des­con­for­tá­veis. Con­tudo, ne­nhuma das per­so­na­gens te­ne­brosas que des­filam no ecrã são hu­ma­ni­zadas ou re­a­bi­li­tadas, antes são ex­postas ao ri­dí­culo, ob­ser­vadas à lupa nos seus des­vios, ex­cen­tri­ci­dades e ali­e­nação.

A sá­tira tem sido um bom ins­tru­mento de aná­lise de si­tu­a­ções que dei­xaram marcas pro­fundas nas suas ví­timas e com as quais é di­fícil lidar. Du­rante o breve pe­ríodo do Ci­nema de Abril de que fa­lámos em texto an­te­rior, a Cé­lula de Ci­nema do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês pro­duziu, em 1977, uma curta-me­tragem as­si­na­lável in­ti­tu­lada As Des­ven­turas do Drá­cula Von Bar­reto nas Terras da Re­forma Agrária, que tra­tava de forma jo­cosa, em­bora com um claro po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, o tema re­fe­rido no tí­tulo.

João Bo­telho cita o di­tador no início do filme quando este afirma «Hão-de dizer muito mal de mim». O ci­ne­asta con­firma a in­tenção do seu filme, afir­mando «Assim será».

https://www.avante.pt/pt/2737/argumentos/183651/%E2%80%9CEstado-Velho%E2%80%9D.htm

Robin Philpot - Einstein opôs-se à colonização sionista na Palestina e previu a catástrofe atual



– As suas opiniões sobre Israel e o sionismo foram ocultadas e distorcidas durante décadas

Robin Philpot [*]

Capa de 'Einstein', de Fred Jerome.

Algumas semanas antes da criação do Estado de Israel, Shepard Rifkin, um representante sediado em Nova Iorque do Grupo Stern, uma organização paramilitar sionista fundada na Palestina Mandatória, solicitou que representantes do grupo se reunissem com Albert Einstein nos Estados Unidos, "a maior figura judaica da época", segundo o jornalista I.F. Stone. A resposta de Einstein foi inequívoca:

Quando uma catástrofe real e definitiva nos atingir na Palestina, os primeiros responsáveis por ela serão os britânicos e os segundos responsáveis serão as organizações terroristas criadas a partir das nossas próprias fileiras. Não estou disposto a ver ninguém associado a essas pessoas iludidas e criminosas.

Einstein disse que a sua "vida estava dividida entre equações e política". No entanto, entre os seus biógrafos — existem centenas deles — e nos meios de comunicação social dominantes, os seus extensos escritos políticos sobre Israel e o sionismo foram, na melhor das hipóteses, varridos para debaixo do tapete ou, na pior das hipóteses, completamente distorcidos, identificando-o como um apoiante do Estado de Israel.

Isto é, até que o falecido Fred Jerome os procurou, encontrou, mandou traduzir (na sua maioria do alemão) e os publicou no livro, Einstein on Israel and Zionism. Infelizmente, a primeira edição deste texto, publicada por uma editora de Nova Iorque, teve uma tiragem muito pequena, nunca foi promovida nem transformada em e-book, e esgotou num instante. É por isso que a Baraka Books publicou uma nova edição com o consentimento de Jocelyn Jerome, viúva do autor.

Foi na Alemanha da década de 1920, uma época de antissemitismo desenfreado em que a teoria da relatividade era atacada como "ciência judaica", que Einstein se sentiu atraído pelo movimento sionista. Só em 1914, quando chegou à Alemanha, é que "descobriu pela primeira vez que era judeu", uma descoberta que atribuiu mais aos "gentios do que aos judeus". Antes disso, ele via-se como um membro da espécie humana.

Ele autodenominava-se um “sionista cultural”, mas já em 1921 Kurt Blumenfeld, um ativista sionista enviado para recrutar Einstein, advertiu Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, sobre o grande cientista:

Einstein, como sabe, não é sionista, e peço-lhe que não tente torná-lo sionista nem que tente ligá-lo à nossa organização. … Einstein, que se inclina para o socialismo, sente-se muito envolvido com a causa do trabalho judaico e dos trabalhadores judeus… Ouvi dizer… que espera que Einstein faça discursos. Por favor, tenha muito cuidado com isso. Einstein… diz frequentemente coisas por ingenuidade que não são bem-vindas por nós.

Para além da suposta "ingenuidade" de Einstein, Blumenfeld não poderia ter dito melhor. Einstein viria a ser um obstáculo constante ao projeto sionista de colonização da Palestina e à criação do Estado de Israel até à sua morte, em 1955.

Eis alguns exemplos das posições que assumiu.

As suas trocas de correspondência com Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, ilustram o quão importante Einstein era para os sionistas, mas, mais importante ainda, como as suas opiniões divergiam das deles. Numa carta a Weizmann, datada de 25 de novembro de 1929, escreveu:

Se não formos capazes de encontrar um caminho para uma cooperação honesta e pactos honestos com os árabes, então não aprendemos nada durante os nossos dois mil anos de sofrimento e merecemos o destino que nos sobrevirá.

A ideia do "destino que nos sobrevirá" surge frequentemente. Em 1929, ele parece já ter previsto que o Estado-nação que os sionistas sonhavam criar sem "cooperação honesta e pactos honestos" com os seus vizinhos palestinos se tornaria o que é hoje, nomeadamente o lugar mais perigoso do mundo para os judeus viverem.

Algumas semanas depois, a 14 de dezembro de 1929, escreveu a Selig Brodetsky, da Organização Sionista em Londres: "Estou feliz por não termos poder. Se a teimosia nacional se revelar suficientemente forte, então vamos dar com as cabeças na parede, como merecemos."

Além disso, Leon Simon, um dos seus primeiros editores e tradutores, escreveu:

No nacionalismo do Professor Einstein não há espaço para qualquer tipo de agressividade ou chauvinismo. Para ele, o domínio dos judeus sobre os árabes na Palestina, ou a perpetuação de um estado de hostilidade mútua entre os dois povos, significaria o fracasso do sionismo.

Ao contrário da grande maioria dos sionistas, o apoio de Einstein a uma possível "pátria judaica" — não um Estado — não se limitava à Palestina. Não havia nada de religioso no seu compromisso. Alguns sionistas defendiam a criação de tal pátria na China, no Peru ou em Birobidzhan, na União Soviética, mas em total acordo com as autoridades estatais e as populações em cada caso.

Einstein apoiou estas medidas. Por exemplo, sobre a pátria judaica de Birobidzhan na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, escreveu:

Não devemos esquecer que, naqueles anos de perseguição atroz do povo judeu, a Rússia Soviética foi a única grande nação que salvou centenas de milhares de vidas judaicas. A iniciativa de instalar 30 000 órfãos de guerra judeus em Birobidzhan e garantir-lhes, desta forma, um futuro satisfatório e feliz é uma nova prova da atitude humana da Rússia para com o nosso povo judeu. Ao ajudar esta causa, contribuiremos de forma muito eficaz para a salvação dos remanescentes do judaísmo europeu.

Nos anos cruciais entre o fim da guerra e a sua morte em 1955, Einstein foi franco quanto ao projeto do Estado judeu. Convidado a testemunhar perante a Comissão Anglo-Americana de Inquérito sobre a Palestina em Washington, DC, em janeiro de 1946, Einstein respondeu inequivocamente quando questionado sobre a possibilidade de um Estado de Israel versus uma pátria cultural: "Nunca fui a favor de um Estado".

Em março de 1947, I.Z. David, membro do grupo terrorista Irgun liderado por Menachem Begin, enviou-lhe um questionário ao qual ele respondeu de forma incisiva e clara:

Pergunta: Qual é a sua opinião sobre a criação de uma Palestina Nacional Judaica livre?
Einstein: Pátria Nacional Judaica? Sim. Palestina Nacional Judaica? Não. Sou a favor de uma Palestina livre e binacional numa data posterior, após acordo com os árabes.
Pergunta: Opinião sobre a partilha da Palestina e as propostas de Chaim Weizmann relativas à partição?
Einstein: Sou contra a partição.

Quanto à questão da aliança entre o imperialismo britânico e o americano, Einstein não nutria ilusões:

Parece-me que os nossos queridos americanos estão agora a moldar a sua política externa ao modelo dos alemães, uma vez que parecem ter herdado a presunção e a arrogância destes últimos. Aparentemente, também querem assumir o papel que a Inglaterra desempenhou até agora. Recusam-se a aprender uns com os outros; e aprendem pouco mesmo com a sua própria experiência amarga. O que foi incutido nas mentes desde a juventude está mais firmemente enraizado do que a experiência e o raciocínio. Os ingleses são mais um bom exemplo disso. Os seus métodos antiquados de reprimir as massas, recorrendo a elementos locais sem escrúpulos da classe económica alta, irão em breve custar-lhes todo o seu império, mas são incapazes de se convencerem a mudar os seus métodos; independentemente de serem os conservadores ou os socialistas. Com os alemães, foi exatamente o mesmo. Tudo isto seria bom e belo, se não fosse o facto de ser tão triste para os elementos melhores e para os oprimidos.

Quanto aos antepassados políticos do atual governo de Netanyahu, Einstein atacou-os a eles e aos seus partidos políticos, particularmente no New York Times. Quando Menachem Begin veio a Nova Iorque no final de 1948, Einstein, Hannah Arendt e outras figuras intelectuais judaicas nos Estados Unidos publicaram uma carta a denunciar a sua visita e a organização que ele liderava, chamando-a de "um partido político muito próximo, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, dos partidos nazis e fascistas". Um exemplo que citaram foi o massacre de 240 homens, mulheres e crianças na aldeia palestina de Deir Yassin.

Einstein repetiu esta acusação até à sua morte em 1955:   "Estas pessoas são nazis nos seus pensamentos e ações." Qualquer pessoa que diga isto hoje nos meios de comunicação social tradicionais é imediatamente rotulada de antissemita e colocada na lista negra.

É de conhecimento geral que, quando Chaim Weizmann morreu em 1952, o primeiro-ministro de Israel ofereceu a presidência de Israel a Albert Einstein. Menos conhecida, no entanto, é a razão que Einstein deu para esta recusa:   “Eu teria de dizer ao povo israelense coisas que eles não gostariam de ouvir”. Ainda menos conhecida é a declaração de Ben Gurion:   “Diga-me o que fazer se ele disser sim! Tive de lhe oferecer o cargo porque era impossível não o fazer, mas se ele aceitar, vamos ter problemas".

Centenas, senão milhares, de pessoas estão a ser acusadas de antissemitismo ou despedidas dos seus empregos por se atreverem a criticar o Estado de Israel, chamá-lo de Estado de apartheid e denunciar o genocídio dos palestinos. Que fiquem tranquilos:   estão em boa companhia, porque se Einstein estivesse vivo hoje estaria na linha da frente a manifestar-se com eles.

13/Maio/2026

Ver também:
  • Porquê o Socialismo?, de Albert Einstein.
  • [*] Editor da Baraka Books. Todas as citações são da nova edição enriquecida de Einstein on Israel and Zionism (Setembro/2024) de Fred Jerome.

    O original encontra-se em www.defenddemocracy.press/einstein-opposed-zionist-colonization-in-palestine-and-predicted-the-current-catastrophe/

    José Duarte - Restaurar o serviço militar obrigatório?


    Jovem de 18 anos responde a Pacheco Pereira

    Pacheco Pereira parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para Berlim? Para Lisboa? Restaurar o SMO em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas.

    * José Duarte

    Maio 12, 2026

    ilustração: Mantraste

    Assistimos há dias à publicação de um artigo de opinião um quanto triste no Público, da autoria do historiador Pacheco Pereira, em que ele defende a importância de restaurar o serviço militar obrigatório em Portugal face à crescente agressão da Rússia na frente ucraniana. 

    Pacheco Pereira começa por argumentar que, nas circunstâncias presentes em território europeu, a invasão da Ucrânia coloca às democracias europeias uma discussão importante sobre militarização. Porém, o nosso historiador parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para a Berlim? Para Lisboa? Será a Rússia uma ameaça às democracias europeias? 

    O serviço militar obrigatório em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas. Será importante mencionar que a expansão da guerra para o resto da Europa é um cenário altamente improvável. Mesmo que fosse provável, números publicados indicam que os países da UE possuem meios armados suficientes, tanto em número de efetivos como em gastos militares, para fazer frente ao exército russo. Não há um cenário de vitória para a Rússia numa guerra contra os países europeus. E ninguém sabe porque quereria a Rússia invadir o resto da Europa. Pacheco Pereira também parece ter uma preocupação um quanto cínica no que toca à democracia na Europa. Para ele, o desinvestimento na saúde e na educação, a pior crise da habitação na UE, o ataque aos direitos laborais e a omissão dos financiadores dos partidos parece que são algo com que a “nossa democracia” consegue conviver: não parecem preencher requisitos de “maior ataque à democracia”. 

    https://jornalmaio.org/restaurar-o-servico-militar-obrigatorio/
    ***

    quarta-feira, 13 de maio de 2026

    Fernando Martins - Ainda a propósito da morte de Carlos Brito


     ª  Fernando Martins~

    CARLOS BRITO E O COMUNICADO

    Carlos Brito foi um combatente antifascista e comunista durante uma parte da sua vida, como tantos outros e outras. Depois, abjurou (sem o "eppur si muove") e tornou-se social-democrata. Traiu o seu ideário original e os camaradas que nele confiavam. Nada mais natural que o PCP louve a parte inicial do seu percurso existencial, prestando-lhe assim a merecida homenagem, e omita o resto, por respeito para com o decesso e a dor dos próximos. O resto (que incluiria hipócritas "sentidas condolências") é o habitual aproveitamento político dos anticomunistas. O combate político e a luta de classes não são disputas futebolísticas em que os adversários se podem abraçar findo o jogo. Porque o que está em jogo não é uma tabela de classificações, mas sim o futuro da humanidade, que não se compraz com rodriguinhos aristocrático-burgueses

    2026 05 11
    ~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

    A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

    A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

    Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

    Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

    Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

    O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

    Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

    Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

    Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

    Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

    E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

    Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

    Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

    Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

    Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

    Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas 
    o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. 
    Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

    No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um 
    partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

    2026 05 12

     ~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

    Ainda a propósito de C. Brito e de um comentário a post anterior

    O Dicionário da Língua Portuguesa 2006, da Porto Editora, define assim o substantivo feminino “traição”: «1 crime de quem deserta para o inimigo ou passa informações para outro país; 2 infidelidade conjugal; 3 deslealdade para com um amigo ou pessoa com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso […].»

    Descontada a infidelidade conjugal e o passar de informações para outro país, que não vêm ao caso, o Carlos Brito cometeu (1) deserção para o inimigo e (3) deslealdade para com os seus camaradas, obviamente enquadráveis na designação de “amigos ou pessoas com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso”. 

    Quanto ao “laço de solidariedade”, os homens e mulheres que aderem livremente a um projecto político de construção de uma sociedade nova, sem classes, solidária, fraterna e igualitária estão unidos pelo mesmo objectivo ou compromisso, e só em conjunto, só unidos, só solidariamente (“solidário” tem que ver com “sólido”) podem aspirar à sua consecução.


    É mais do que evidente que a definição de “traição” não se circunscreve ao âmbito das seitas e irmandades. Para nos cingirmos ao domínio político e ao rigor com que a traição era tratada noutra época, porque estavam em causa a segurança da organização e a vida de muitos camaradas (para além do futuro do país e do mundo), quando ocorria uma traição por parte de resistentes, durante a ocupação nazi da França, no início dos anos 40 do séc. XX, o traidor era, muitas vezes, executado.

    Claro que o contexto da guerra e da ocupação não é comparável àquele em que vivemos, mas traição é traição em qualquer contexto.

    A deserção para o inimigo não é menos óbvia. Para quem não conhece os princípios marxistas ou não tem consciência de classe ou se compraz em raciocínios de cariz liberal ou neoliberal dominantes no Estado burguês, este vocabulário parecerá naturalmente excessivo, agressivo ou mesmo indutor do ódio. Mas não. Não se trata disso. Trata-se, sim, da consciência de que os interesses da classe dominante são antagónicos dos interesses da classe trabalhadora e de que a história da humanidade é a história da luta de classes, como soube ver o autor dos princípios que refiro mais atrás, autor esse que, aliás, também deu uma nova dimensão à filosofia: até então, a filosofia limitava-se a explicar o mundo; o marxismo visa transformá-lo. O afastamento de CB dos princípios e da acção do seu Partido de origem e a sua aproximação aos partidos da classe dominante configuram claramente uma traição, por muito que ele tenha dito que continuava a ser comunista.

    Coisas difíceis de entender por quem vê a acção política como um torneio entre equipas vermelhas, azuis, verdes, torneio esse que se disputa durante uma época e que recomeça daí a meses, com ou sem mudança de treinador e de jogadores, em função dos resultados obtidos e do capital disponível nos cofres da equipa. Ora, para os comunistas, a acção política não é um torneio; é um objectivo de vida, é a acção continuada pela concretização do projecto de transformação político-social, e este objectivo, esta busca persistente do bem comum e não da satisfação pessoal não se compadece com o divisionismo nem com alianças espúrias com o inimigo de classe, seja qual for a designação oficial da organização em causa, excepção feita de acordos pontuais, visando afastar do poder as facções mais aguerridas da classe dominante.

    Para concluir:
    1. Liberdade de pensamento é coisa de que os comunistas não têm falta. Acontece é que os comunistas são capazes de aceitar nem sempre terem razão naquilo que pensam, o que os leva a deixar o seu pensamento em surdina, quando isso acontece, e a junta
    r-se à maioria, que pode ter uma opinião diferente.
    2. “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, mas, pelos vistos, há machados que cortam a fidelidade a princípios e a compromissos assumidos

    2026 05 13
    https://www.facebook.com/profile.php?id=100010077603623

    O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega



    * WHISTLEBLOWER.Pt
     ·
    O cartaz não mente. 

    Está ali, preto no branco: a ausência dos comunistas na receção a um representante do parlamento ucraniano e a citação de Paula Santos a lamentar o fim da União Soviética. 

    Para quem desfila no 25 de Abril sob as bandeiras da Liberdade e da Democracia, a contradição é tão estrondosa que só uma cegueira ideológica profunda a pode disfarçar. 

    Mas essa cegueira não é uma falha acidental. É o requisito fundamental para manter de pé uma narrativa que a realidade já desmontou há muito.

    O verdadeiro hino à hipocrisia não está apenas no gesto de se ausentarem. 

    Está no sistema de pensamento que torna esse gesto possível. 

    Está na resposta às três perguntas que nenhum comunista consegue responder sem recorrer a ginásticas mentais que insultam a inteligência de quem trabalha.

    1. "Fascismo? Em Portugal??"
    A pergunta é retórica porque a resposta é óbvia para qualquer pessoa que não tenha a vista queimada pela ideologia. 

    Não, não vivemos numa ditadura fascista. Nem no tempo de Salazar. Era um Regime autoritário, nao fascista.

    Mas a narrativa precisa do fantasma do "fascismo" para sobreviver. 

    Precisam de chamar fascismo ao liberalismo, ao centro-direita, à troika, ao patrão da fábrica, ao senhorio. Porquê? 

    Porque sem um inimigo absoluto e desumanizado, a lógica binária do "nós contra eles" desmorona-se. 
    Se admitissem que Portugal é uma democracia imperfeita mas real, teriam de admitir que os seus métodos e os seus dogmas são uma resposta para um problema que já não existe nos termos que eles colocam. 

    A inflação retórica do termo "fascismo" é o primeiro sintoma da cegueira: para verem o mundo a preto e branco, têm de chamar preto a todos os tons de cinzento.

    2. A maioria dos comunistas trabalha para capitalistas.
    Esta é a verdade que devia fazer tremer a cátedra de qualquer teórico de gabinete. 

    O militante do PCP, a base que enche os comícios, acorda todos os dias e vende a sua força de trabalho a um capitalista. 

    Recebe um salário, paga impostos, desconta para a Segurança Social num sistema que o partido quer derrubar. 

    A resposta clássica – "é a condição de explorado" – é tecnicamente verdadeira, mas moral e existencialmente vazia. 

    O que esta esquizofrenia quotidiana prova não é a exploração do trabalhador (essa é real e combatível), mas a impossibilidade prática do mundo que defendem. 

    Vives no capitalismo, sobrevives graças a ele, e ainda assim passas a vida a desejá-lo morto, sem nunca apresentares uma alternativa funcional. 

    Não é hipocrisia da pessoa; é a hipocrisia estrutural de uma ideologia que só sobrevive no mundo das ideias, nunca no mundo real do trabalho que diz defender.

    3. A pergunta que nenhum congresso responde: os pés que fogem
    E aqui chegamos ao ponto onde a cegueira se torna obscenidade moral. 

    "Se o imperialismo é tão mau como dizem, porque foge o povo, quando pode, para países capitalistas?".
    A pergunta não é só justa; é um tiro de misericórdia. 

    Os fluxos migratórios do último século são o referendo silencioso e implacável sobre os dois sistemas. 

    Milhões de pessoas arriscaram a vida em botes, arames farpados e desertos não para chegar a uma Cuba, a uma Coreia do Norte ou ao que resta da Venezuela herdeira do "socialismo do século XXI". Fogem para a "Europa imperialista", para os "Estados Unidos opressores", para o "capitalismo selvagem". 

    Fogem porque, mesmo na sua exploração, o capitalismo democrático ofereceu historicamente mais pão, mais liberdade e mais futuro do que qualquer paraíso socialista real.

    A resposta do PCP a este facto é o cúmulo da ginástica mental: a culpa é do colonialismo, do imperialismo, da NATO. 

    Mas isso é responder a uma pergunta com um lamento, não com uma análise. 

    Se o teu sistema é tão superior, porque é que ninguém foge para ele? 

    Porque é que os cubanos não fogem em massa para a China e os chineses não arriscam a vida para entrar na Rússia? 

    A verdade é dura: o socialismo real falhou tão redondamente em criar prosperidade e liberdade que os seus próprios povos, quando puderam, votaram com os pés... em direção ao "inimigo" fascista...

    A anatomia da cegueira

    A cegueira ideológica não é não ver a realidade. 

    É olhar para ela e recusar-se a aceitar o que os factos gritam. 

    É precisar de manter viva a chama de uma "União Soviética" que Paula Santos lamenta como um "avanço extraordinário para o povo", ignorando deliberadamente o Gulag, a fome, a repressão, o atraso económico. 

    É olhar para um parlamento ucraniano eleito e ver um "bando de neonazis", mas olhar para Moscovo e não ver o poder vertical de Vladimir Putin. É clamar por Liberdade no 25 de Abril e ausentar-se da solidariedade a um povo invadido.

    O hino à hipocrisia está completo quando, no mesmo fôlego, se celebra a Revolução dos Cravos – que derrubou uma ditadura e exigiu eleições livres – e se nega a um povo soberano o direito de escolher as suas alianças. 

    A falta de vergonha está em instrumentalizar o nome da Liberdade para atacar os que resistem a tanques, enquanto se desce a avenida de braço dado com a memória do império que esmagou tanques na Hungria, em Praga, em Cabul.

    Ser "Fascista" é ver isto sem filtros. É aceitar que, por trás da liturgia, do cartaz e da frase feita, há uma corrente de pensamento que trocou a análise da realidade pela repetição de mantras. 

    E que insulta todos os que, cá dentro ou lá fora, lutam por uma democracia sem adjetivos.
    2026 05 09
     

    Verdade e factos
    https://www.facebook.com/groups/944995956870607?

    terça-feira, 12 de maio de 2026

    Natasha Smirnoff - A MORTE DE CARLOS BRITO E O QUE REALMENTE INCOMODA NO PCP

    * Natasha Smirnoff

    A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

    A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

    Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

    Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

    Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

    O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

    Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

    Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

    Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

    Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

    E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

    Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

    Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

    Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

    Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

    Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

    No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

    2026 05 12 

    https://www.facebook.com/profile.php?id=100085002202928

    César Alves - Conduzir à Esquerda — Notas Sobre o Fim do Comum

     

    * César Alves 


    Há um problema que me persegue no dia-a-dia, sobretudo quando saio de casa e tenho de frequentar locais públicos, ou locais que implicam a interacção com outras pessoas.

    Este problema manifesta-se de várias formas: ou estou na estrada e alguém decide fazer uma rotunda completamente pela direita; ou estou num transporte público a ouvir, sem ter pedido, a sucessão de sons irritantes do telemóvel da pessoa ao lado, presa no scroll infinito num TikTok desta vida; ou então, fruto da destruição de todos os microfones de telemóveis, tenho de ouvir os dois lados de uma vídeochamada, como se ouvir um deles não fosse já castigo suficiente.

    Lembrei-me destes e de outros exemplos ao ouvir Steven Pinker, no podcast 45 Graus, falar sobre a destruição do chão comum, a propósito do seu novo livro “Quando Todos Sabem Que Todos Sabem…”. Tendo por base o episódio do podcast apenas, os exemplos são claros o suficiente para merecerem uma reflexão.

    Pinker argumenta, num racional bastante defensável, que se a grande maioria das pessoas começar a conduzir à esquerda, a nossa melhor decisão será fazê-lo também. Um argumento de coordenação, logicamente correcto, e aparentemente irrefutável, se pensarmos individualmente.

    No entanto, se aplicarmos este racional a outros âmbitos, facilmente começamos a desvendar um problema que, em último caso, poderá colocar um fim à Humanidade conforme a conhecemos. E isto leva-me, sobretudo, às redes sociais.

    Também nas palavras de Pinker, antigamente as televisões e os jornais eram um meio de propagação de informação que, sendo de massas, criavam um chão comum. As pessoas viam, genericamente, as mesmas coisas, o que criava uma teia que sustentava a sociedade. Não apenas no sentido informativo, mas também de entretenimento. Viam as mesmas séries, os mesmos filmes, e havia um corpo comum de cultura que era massificado e, por isso, importante para o diálogo entre a espécie.

    O advento das redes sociais veio trazer montras individuais construídas via algoritmos que são, eles próprios, controlados por empresas tecnológicas que têm na mão o poder político. E isto cria um problema para a Humanidade: a destruição do chão comum que nos abrange a todos.

    Findo o chão comum, o que resta? Um conjunto de indivíduos atomizados, o fim da verdade como conceito genérico e um mundo fragmentado em pequenas ilusões individuais, enfraquecendo a teia que une os humanos, salvo quando é assegurada por um ponto de contacto entre dois algoritmos individuais.

    Este é o sistema para o qual a Humanidade caminhou. Um sistema assente numa ideia de capitalismo metabólico, fase presente e quiçá última, em que a própria crítica ao sistema (como esta que o leitor acede de momento) é feita dentro do sistema, utilizando as ferramentas do sistema — a internet, as redes, dependendo delas para chegar ao máximo número de pessoas —, entregue acriticamente apenas àqueles que já estão, à priori, interessados no assunto, quer a favor, quer visceralmente contra.

    E visceralmente é a palavra certa. Porque nós, humanos, não estamos preparados para este estado de coisas. Continuamos a ver a informação que nos é individualmente servida como a verdade absoluta e inquestionável, e respondemos de uma forma tribal. A partir do momento em que estamos tribalizados, deixamos de orientar a crítica para cima, e passamos a orientá-la para o lado, para os pares. A teia destruída, por fim.

    E quando a teia se destrói, perdemos o chão comum. Se a verdade individualizada que nos chega é para nós inquestionável enquanto verdade absoluta mas chega apenas a nós, o outro, aquele a quem a teia me ligava, passa a ser o inimigo. Vitória do sistema.

    Um sistema que é uma ditadura encapotada. Há 8 anos, num evento inserido nas comemorações do dia mundial do livro e do 25 de Abril, questionaram-me se ainda vivíamos numa ditadura. Disse que sim. Mas pior, porque mais difícil de identificar. Um levantamento popular para a derrubar é impossível, pois a destruição do chão comum implica a mudança do inimigo de cima para o lado. Desse sistema para o nosso concidadão.

    E termino este texto como saí do podcast: pessimista. A destruição do chão comum poderá levar ao fim da Humanidade como a conhecemos. E talvez como diz Pinker, a nossa melhor opção seja mesmo aceitar conduzir também à esquerda.

     11/05/2026 

    https://aventar.eu/2026/05/11/conduzir-a-esquerda-notas-sobre-o-fim-do-comum/

    Sófia Puschinka - Na morte de Carlos Brito

     * Sófia Puschinka :

    Claro que o frustrado do Daniel tinha que escrever algo hehehehe

    Não conhece mesmo o PCP esse pobre homem.

    Bem… Eu pessoalmente nem entendo o sentido que ele dá à “traição” como se fosse algo bom ou desculpável.

    Eu que nunca vivi em ditadura e que não sou “o PCP “ não desculpo traições, na minha vida, no quotidiano… E se até posso ignorar as traições de quem não me diz nada, até porque geralmente conto com elas à priori, jamais desculpo a traição de pessoas em quem confio e que para mim são importantes, seja um amigo, amiga ou familiar. É fim de linha, jamais volta a ser o que era, não me vingo, não refilo, não vou tirar satisfações, faço um risco, como se a pessoa já não existisse mais, desprezo completo. Ate porque, neste monte de imperfeição que eu sou, jamais trai alguém que me era querido e exijo o mesmo nível de lealdade aos meus amigos como a que tenho com eles, é carácter. É decência.

    Mas adiante…. Ora para quem conhece a História do PCP sabe, ou deveria saber que o PCP não sobrevive há mais de um século com traidores e sim com pessoas leais, sabe ou deveria saber que durante a ditadura a traição colocava em causa a vida de muitos camaradas. Já não vivemos em ditadura é facto, mas o carácter dos comunistas continua igual, apesar de vivermos em democracia os comunistas continuam a resistir contra tudo e todos porque, 52 anos após o 25 de abril, continuam a ser alvo de discriminação, ódio, inveja e mais um par de botas…

    É por isso que por muito que tentem deitar abaixo ou acabar com o PCP não conseguem.

    O PCP é constituído por gente de carácter, os comunistas não são perfeitos mas, procuram e tentam ser o mais perfeitos possível em tudo o que fazem, colocam alma, amor, dádiva em tudo. São leais aos seus camaradas, dão a vida por eles.

    Ora sempre que alguém deixa o PCP, sobretudo pessoas que tiveram relevo , fosse por terem funções de direção, por terem lutado contra a ditadura de forma heróica ou simplesmente porque eram camaradas, o que os comunistas sentem logo é uma facada no peito, uma dor lacerante, sentem-na calados, porque numa coisa o Daniel tem razão, no PCP há emoções fortes, profundas, como não haverá em nenhum outro partido, por questões óbvias, os comunistas são rijos, resistem a tudo de cabeça erguida e sem vergarem mas sabem que nunca estão sós, que há milhares de outros que os resgatam e dão a vida por eles se tal for necessário, no PCP há fraternidade, há abraços como não existem em mais nenhum partido, há amizade pura e sem interesse, há respeito e integração. Nenhum comunista o é por interesse pessoal ou ambição, os comunistas não ganham nada nem com a política nem com o Partido, muito pelo contrário, os comunistas pagam para serem comunistas, trabalham de borla, doam, e fazem-no felizes.

    Mas ninguém se questiona quando lêem estes disparates como os que escreveu o Daniel e outros, que acusam o PCP de falta de democracia entre outros disparates, porque raio os comunistas são leais toda uma vida, trabalham de borla e com vontade, doam, levam porrada de todo o lado e resistem? 😄

    Porque aquilo que existe no PCP é muito superior a tudo aquilo que os comuns mortais possam imaginar, alguns até percebem isso e é por isso que têm tanto ressabiamento.

    O que se vive ali é pureza, altruísmo, amor, amizade, vida, resistência, luta, tudo no estado mais puro e honesto, para o bem e para o mal, algo que a maioria nem faz ideia o que é, são incapazes de serem fiéis até a eles próprios.

    O que o PCP faz quando um dos seus abandona o barco é calar-se e sofrer a dor porque deixam dor, porque só não há dor quando as pessoas não são importantes e no PCP todos são importantes, todos, desde a base à direção. Nos outros partidos é normal que não sintam nada, mais um menos um aquilo é o normal, tenho dúvidas que nos outros partidos alguém confie a própria vida nos outros 😂, no PCP garanto que confiam, é gente credível e de confiança.

    No caso específico de Carlos Brito, ele rompeu com as regras que ele próprio ajudou a criar, esquecendo-se que no PCP não há individualidades, não há orgulho, não ha egos, há um colectivo e decide a maioria. Desrespeitou as regras e foi suspenso como acontece noutros partidos, ficou melindrado, provavelmente foi influenciado, quando estamos sensíveis ou melindrados nem sempre devemos ouvir conselhos, mas não sei se terá sido assim, o que sei é que decidiu afastar-se, acabou por declarar que já não era leninista ou seja deixou de ser comunista, de esquerda sim mas não comunista. Qual é a dúvida? Se deixou dor ao PCP? Claro. Se o PCP reconhece o seu passado? Obviamente

    Se o PCP tinha de homenagear? Não, até porque ao fazê-lo estava a chamar a si (PCP) a individualidade “Carlos Brito” e Carlos Brito já não era do PCP há mais de 20 anos.

    O PCP não se aproveita de ninguém em vida muito menos na morte.

    https://www.facebook.com/jose.russell

    domingo, 10 de maio de 2026

    Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária


    * Porfírio Silva 

    Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

    Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

    No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

    A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

    A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

    Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

    No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

    Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

    Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

    Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

    Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

    Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

    O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

    Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

    No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

    A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

    Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.

    Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026

    https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html

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    A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC

    • A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
    • Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
    • Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
    • Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local  (AI Overview)