sexta-feira, 12 de julho de 2024

Tiago Franco - Morrer em Kiev ou desaparecer em Gaza


* Tiago Franco 

Não sei se sabem onde fica Khan Yunis e por isso recorro ao amigo Google para ilustrar. Como podem verificar, fica ali naquela zona sul de Gaza para onde a populacão foi aconselhada a procurar "refúgio", durante o período em que o exército israelita tratava da saúde ao Hamas.

Há pouco dias uma escola em Khan Yunis foi atingida por um míssil, enquanto uns miúdos jogavam à bola e outros ocupantes (a escola estava transformada em abrigo) assistiam. Morreram 31 pessoas, entre mulheres e criancas, e outros 50 ficaram feridos.

Não houve discussão sobre o autor do ataque, dúvidas ou sequer desculpas de última hora. Israel disse, apenas, que usou um míssil de alta precisão para matar um importante alvo do Hamas. Matou 31 e feriu mais de 50, para acertar em 1. Agora imaginem se não fosse de alta precisão.

Aqui do nosso lado, no famoso Ocidente, tudo bem. Pouca discussão, nenhuma condenacão e obviamente sem solidariedade que se apalpe. Como nos diz Helena Ferro Gouveia, a culpa das mortes em Gaza é exclusivamente do Hamas. E aqui entre nós, mesmo que não fosse, quem é que quer saber de árabes que andam a morrer há décadas? Aquilo é gente que só está bem a rebentar, como nos diria um gato que já foi fedorento. 

É aliás caricato culpar o Hamas pelo genocídio em curso na faixa de Gaza. Foi o Hamas que construiu muros, meteu palestinianos numa prisão a céu aberto e os humilhou, durante décadas, em gaiolas e revistas, só para poderem ir trabalhar. Andamos, aqui no Oeste (selvagem), a desculpar as atrocidades contra palestinianos que se arrastam desde o século passado. Quando a resposta dos povos ocupados aparece em formato de guerrilha (não podem ter outro dada a desproporcão de meios), passamos a culpá-los por não aceitarem apenas morrer em silêncio.

Não vos dá, por um segundo que seja, vergonha de serem representados por uma retórica hipócrita e desonesta?

Em Kiev um hospital foi atacado por um míssil. Morreram duas pessoas (adultos) e ficaram outros 16 feridos (7 criancas). Ao contrário da nossa Helena, eu acho aborrecido morrer e não faco esse aborrecimento depender da zona geográfica em que acontece a morte. E também não separo mortes por credos, etnias, cor da pele ou quantidade de cachos no cabelo. Lamento a morte de um homem num hospital de Kiev, de um miudo em Gaza, de um soldado das IDF ou de um russo no Donbass. São os pobres que dão o corpo, militar ou civil, para enriquecerem as elites, os senhores da guerra e os interesses corporativos das nacões. 

Depois do missil ter aterrado no hospital, seguiram-se dias de absoluta condenacão e discussões nas mais altas instâncias (NU, por exemplo). Os representantes ucranianos mostraram a rota do missil para provar que era russo e os russos, por seu lado, rejeitaram as acusacões, dizendo que se tivesse sido um missil deles, o hospital tinha ficado todo no chão. O alvo, segundo os russos, era uma fábrica de armamento ali ao lado e o que atingiu o hospital foi um da defesa anti-aérea. 

Não faço ideia quem diz a verdade e sei ainda menos se existe verdade sequer. Morreram pessoas e é esse o problema. É essa a consequência de quando queremos perpetuar uma guerra. Pessoas morrem.

Eu entendo pouco de mísseis e, como tal, fui ouvir quem sabe da coisa. Dizem os entendidos que o KH-101 (o tal míssil que afirmam ter caído no hospital) é uma coisa com quase 8 metros, tem umas asas e quando bate não pede licenca. Em princípio não deveria ser muito difícil apresentar destrocos de um projétil com 8 metros mas, segundo o que vou lendo, ainda não apareceu.

Ainda assim, esta discussão é, na minha opinião, estéril. Já passámos por isto na central de Zaporizjzja, em Mariupol, no Nordstream 2 e até no avião da Malasia Airlines. A primeira vítima de uma guerra é a verdade e eu não espero que de um lado venham as virtudes e, do outro, os defeitos. É uma guerra e, no seu curso, não existem bons e maus. Quem vê isso (ainda) assim, como diria Miguel Tiago, andou a aprender história no Rambo III.

O que realmente me importa discutir aqui são os valores do Ocidente e como a UE, que nos representa, se mete nisto. Se morrem 2 pessoas num hospital de Kiev, o discurso inflama-se e até a Nato comeca a apertar com os chineses. Já se um hospital é arrasado em Gaza ou se uns putos, perto de Rafah, levam com um  missil enquanto jogam à bola...são os danos colaterais. Lembrem-se que "nós" cantámos vitória quando Israel matou 300 pessoas para libertar 4.

Eu não entendo, mas não entendo mesmo, como é que vidas podem ter valores tão diferentes e solidariedade com povos invadidos pode ser tão distante.

Na Ucrânia enfrentam-se dois exércitos, um deles patrocinado por todos nós. Mesmo todos nós, querendo ou não. Em Gaza enfrentam-se um exército e um bando de gajos com rockets e motas famel. No primeiro caso o mundo pára e faz tudo para segurar o invasor. No segundo, bom, o invasor só se está a defender contra um exército que não existe e um povo que eles próprios prenderam.

Em Kiev morrem pessoas, gente que existe e com quem todos nos preocupamos. Em Gaza desaparecem seres humanos sem nome que, quanto muito, vão ser relembrados em forma de número, no gráfico das mortes.

Se isto não é a mais simples, básica e cristalina, definicão de racismo, então não sei o que será.

2024 07 12

https://www.facebook.com/tiago.franco.735

quinta-feira, 11 de julho de 2024

META vai limitar a utilização da palavra «sionismo» para esconder os crimes

 


11 DE JULHO DE 2024

A empresa de Zuckerberg não vai limitar, no entanto, a palavra «sionismo» se esta for elogiosa e faz uma premeditada confusão conceptual dizendo que esta está a ser usada para discriminar judeus e israelitas. Além do símbolo azul, a META adopta o lápis azul. 

A partir de terça-feira, a META passou a limitar nas suas plataformas a palavra utilizada para caracterizar a doutrina racista e de limpeza étnica, o sionismo. A suposta justificação da empresa prende-se com o facto da palavra em questão perpetuar «estereótipos anti-semitas».

Segundo o comunicado do grupo de Mark Zuckerberg, a questão foi analisada no seu «Fórum Político», depois terem sido ouvidas «opiniões» e terem sido analisadas investigações «de diferentes perspectivas». Face a tal, diz o comunicado: «iremos agora remover o discurso que utiliza o termo “sionistas” em várias áreas onde o nosso processo mostrou que o discurso tende a ser utilizado para se referir a judeus e israelitas com comparações desumanizantes».

A empresa diz que a questão que surgiu durante o Fórum Político foi «como tratar as comparações entre termos de substituição para nacionalidade (incluindo sionistas) e criminosos (por exemplo, "os sionistas são criminosos de guerra")». Deste modo, consegue-se apreender que o foco da META é apagar os crimes promovidos pela Governo israelita movido pela doutrina sionista e branquea-los. 

A justificação da dona do Facebook e Instagram visa, premeditadamente, criar uma confusão conceptual, já que é dito que «sionismo» é um ataque a outras pessoas «com base nas suas características protegidas, como a sua nacionalidade, raça ou religião».

De acordo com a mesma, foram supostamente consultadas «145 partes interessadas em representação da sociedade civil e do meio académico do Médio Oriente e de África, de Israel, da América do Norte, da Europa, da América Latina e da Ásia», sendo que os nomes não são revelados. As tais partes interessadas incluíram, alegadamente, «cientistas políticos, historiadores, juristas, grupos de direitos digitais e civis, defensores da liberdade de expressão e peritos em direitos humanos».

«Reconhecemos que não há nada que se aproxime de um consenso global sobre o que as pessoas querem dizer quando utilizam o termo "sionista". No entanto, com base na nossa pesquisa, envolvimento e investigação na plataforma sobre a sua utilização como termo de substituição para o povo judeu e israelita em relação a determinados tipos de ataques odiosos, iremos agora remover conteúdos que visem os "sionistas" com comparações desumanas», reitera a empresa.

Esta posição da META é um claro posicionamento num contexto de perpetuação do massacre que ocorre na Palestina. Importa relembrar que vários activistas pró-Palestina têm acusado a plataforma de censura por via do denominado «shadow ban», uma forma de limitar parcialmente um usuário ou o conteúdo de um usuário de forma a que não seja aparente a quem faz publicações. Face às acusações, a META em comunicado reconheceu que existiu limitações, mas que tal foi resultado de um «bug», ou seja, um erro involuntário e não premeditado das plataformas.  

https://www.abrilabril.pt/internacional/meta-vai-limitar-utilizacao-da-palavra-sionismo-para-esconder-os-crimes 

José Goulão - Aquilo era o retrato do inferno

(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)

Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

As palavras que encimam este texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a direita».

Aquilo era o retrato do inferno, não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

Achei prudente aguardar algum tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres; esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para se deixarem torturar por eles.

E estiveram uns para os outros, candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes, avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.

Eles são os nossos chefes

Aquilo, o debate, era sem qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos, talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se. Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos, põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta. 

Ainda há quem entenda estas considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real, absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos involuntários de si próprios. 

Joseph Biden e Donald Trump são os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos, que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários «legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato do Inferno.

Veja as diferenças

Há quem pretenda estabelecer distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade, agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.

Diferentes e iguais, Biden e Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica, exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir. 

Nos Estados Unidos, os aparelhos encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas, conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.

Mecanismos de poder todos diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial – quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o mercado.

Analistas de «esquerda», muito úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao presidente e incumbente democrata.

Pela «seriedade» de Joseph Biden falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta, manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.

Biden foi fervoroso adepto dos golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia, patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama, na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».

A elite de «referência» do garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu», eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO. Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e gabinetes de Washington.

Não esqueçamos, além disso, que o Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico «socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias – em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».

Joseph Biden, um demente político ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.

Donald Trump traduz melhor que ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky, prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver com a provecta idade.

Biden e Trump são como a água e o azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm, preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância. 

Porém, são gémeos na política, igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e «democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente «escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos, antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas à Barbie.

É assim a política que orienta a prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.

E a guerra, as guerras que estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional assente no direito internacional existente e na cooperação entre países soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de gentalha que os incomoda.

O debate patético, incongruente, surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que infernizam a vida de cada um.

Aquele debate entre a fina-flor demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela, segundo se diz – foi um retrato do inferno.

Desejamos, e para isso temos uma tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Carlos Matos Gomes - Em que caixa está a extrema direita?


* Carlos Matos Gomes

Na cozinha da casa dos meus pais existiam umas caixas de lata com rótulos Arroz, Massa, Açúcar, Café… O que se encontrava no interior nunca correspondia ao rótulo. A lata que anunciava café de umas vezes tinha biscoitos, de outras nozes, a do açúcar podia ter massa ou farinha, havia uma que habitualmente servia de mealheiro e guardava moedas. Habituei-me a não confiar nos rótulos. Também passei mais de dois terços da minha vida a comer em refeitórios de instituições. Sou um consumidor de rancho geral, não espero maravilhas gastronómicas, mas procuro saber o que os cozinheiros lá colocam para evitar diarreias.

Com estas habilitações, fruto das circunstâncias, tendo a apreciar a “nobre arte da política” como um cozinhado de rancho geral elaborado com os produtos das latas que se encontram na dispensa. Hoje a política é um rancho geral produzido com uma receita de politicamente correto. As recentes eleições em Inglaterra e em França e as sondagens sobre as intenções de voto na Alemanha fornecem pistas para os clientes-consumidores que nós somos entenderem o que lhes estão a colocar no prato. O que devemos comer e o que devem rejeitar para não ficarmos doentes. Pelo menos isso: haja saúde!

Na Europa estão em hasta pública dois produtos políticos. O dos situacionistas e o dos anti situacionistas. As grandes máquinas promocionais, aquelas que nos convencem que uma bebida xaropada, escura como um esgoto, que desentope canos e desoxida moedas é a melhor bebida do mundo, impuseram o bom e o mau para a nossa saúde. As fontes produtoras de opinião etiquetaram os primeiros de moderados e os segundos de radicais. Mas a caixa com o rótulo moderados contem mesmo moderados? E a do rótulo: radicais, extremistas e outros que tais, conterá de facto ingredientes alternativos? A França é um bom tubo de ensaio para análise, mas os reagentes são os mesmos do Reino Unido e da Alemanha.

Qual é o produto político que os situacionistas propõem em França e cuja vitória saúdam como se os sans culottes tivessem tomado de novo a Bastilha (uma história muito adulterada)?

O situacionismo em França tem como ponto de partida o fim do mandato de Jacques Chirac e com ele o conceito gaulista de uma política autónoma da França e da Europa, de uma Europa com um núcleo formado pelo antigo império de Carlos Magno, a França, a Alemanha e o Norte de Itália (a lotaríngia). Chirac foi substituído por Sarkozy e este por Hollande e este por Macron. Este trio de PP ( petits presidents) corresponde em Portugal a Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas, em Espanha a Aznar e a Zapatero, em Inglaterra a Blair, Gordon Brown, Cameron, Theresa May, Boris Johnson.

Em termos de latas de cozinha temos uma prateleira de produtos que metidos em panela e deixando a cozer em lume brando produz uma papa que é o neoliberalismo. Uma ranchada que ilude a fome a curto prazo, mas mata a médio, porque lhe foram retirados, em nome do lucro, os elementos essenciais de vitaminas e proteínas.

Com que produtos se cozinha o “Ensemble” de Macron que ficou em segundo lugar nas eleições francesas e que tem sido celebrado pela caldeirada reunida sob o ressuscitado lema de “Nova Frente Popular”, que nem é nova, nem é uma frente, menos ainda é popular como a salvação da democracia tricolor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Uff! Titulou o progressista moderado Liberation. Mas uff a propósito de quê? Os franceses vão ressuscitar o sistema europeu Galileo de geolocalização para substituir o GPS americano? Vão impor uma administração europeia para o BCE, que faça do euro uma moeda de troca universal e ao serviço de uma política europeia?

E o que se encontra na caixa da Nova Frente Popular? O sereno desespero dos coletes amarelos que colocaram a França a ferro e fogo para depois permanecer tudo na mesma? Com a atual política da França (e da Europa) de crispação contra meio mundo: Rússia, China, Índia, África e até a América latina a quem vai a França da Nova Frente Popular vender produtos de luxo? Se a NFP mantiver a politica de Macron, dita moderada, de guerra aos BRICS, passará a submissa sem nunca ter sido insubmissa. Mélenchon e os seus aliados ficam com as malas, os perfume, os vinhos à porta dos clientes. Mas se quiser ser a França Insubmissa, os Estados Unidos tiram-lhe o tapete, passam-lhes uma rasteira, como fizeram no negócio dos submarinos para a Austrália (que vai entrar para a NATO, com a Nova Zelândia e com o apoio da França!) A NFP de Jean-Luc Mélenchon tem boas hipóteses de ficar isolada entre Putin, Xi Jiping e Trump. Deve ter sido essa possibilidade de quadratura do circulo, de comer o bolo e ficar com o bolo, que celebraram ontem! Dentro de dias saberemos novas dos extremistas moderados que salvaram a República!

Um dos maiores sucessos da propaganda política é ter conseguido “vender” o neoliberalismo como um produto saudável, moderado, equilibrado depois da sua apresentação pública como religião de salvação no golpe de Pinochet no Chile em 1973. O “Ensemble” de Macron é uma mixórdia neoliberal metida numa embalagem que tem sido impingida como sendo genuinamente democrata e que, como os meios de propaganda nos matraquearam ontem, contribuiu para a derrota do que os taxionomistas políticos classificaram como extrema-direita, que passou de Frente Nacional a União (Rassemblement) Nacional e da direção de Marine Le Pen para um seu meio genro (casado com uma sobrinha), Jordan Bardela.

A lata dos produtos que compõem o “Ensemble” são conhecidos desde que a escola de economistas de Chicago patrocinada por Milton Friedman os utilizou para cozinhar a ditadura de Pinochet, no Chile: um deus — o mercado; um princípio - homem é o lobo do homem — sobrevivem os mais aptos, sucesso é estar acima dos outros. Um programa de vida: que cada ser humano viva e morra segundo as suas possibilidades. Obediência aos Trés Mandamentos de Margareth Tatcher: não há sociedade, há indivíduos; não há cidadãos, há consumidores, não há eleitos, há predadores de votos. Um sacrário: a Reserva Federal dos Estados Unidos.

O situacionismo assenta em duas bases, no neoliberalismo económico e social e no alinhamento estratégico pelos Estados Unidos.

As eleições no Reino Unido e em França revelam o beco sem saída do situacionismo e a alienação que os meios de comunicação conseguiram ao colocar as massas de futuros desempregados, de futuros SDF, os sem abrigo na sigla francesa e em homenagem aos franceses tão aparentemente felizes por manterem Macron no Eliseu, Mélenchon na animação popular e Marine Le Pen a esperar por ele para as próximas eleições presidenciais, onde lhe perguntará o que o distingue de Macron quanto ao euro, quanto à relação com o BCE, quanto à relação com os Estados Unidos, a Rússia, a China e a África, o que o distingue de Macron quanto à caótica política ambiental, quanto às fontes de abastecimento de energia, quanto à política aeroespacial da Europa, quanto às guerras com que os Estados Unidos cercaram a Europa desde os anos 80 do século passado — Irão, Iraque, Afeganistão, Jugoslávia, Síria, Palestina, Líbano, Líbia, produtoras das vagas de migrantes.

As eleições na Alemanha produzirão com elevada probabilidade o mesmo tipo de vitória dos situacionistas com mais ou menos sociais democratas ou conservadores no grande bolo. O situacionismo europeu, o grande grupo dos democratas moderados, que inclui conservadores e sociais democratas, constitui a religião oficial na Europa. O situacionismo teve a arte e os meios financeiros para vender o seu extremismo (são os defensores de que eles representam o Fim da História) como um produto de moderação e que todos os que lhes expõem os punhais que trazem escondido são extremistas. Extremistas são os outros.

O extremismo que se esconde na lata com o rótulo de moderados, juntos, unidos, conservadores, nas também democratas cristãos, trabalhistas e socialistas está no poder. É o poder e há largos anos! Em Inglaterra Boris Johnson não era mais nem menos moderado, ou extremista que Toni Blair! Ursula Von Der Leyen não é mais ou menos extremista ou, à francesa va-t-en guerre contra a Rússia e a China, que Macron desde que Putin o colocou na ponta da quilométrica mesa do Kremlin. A warmonger Kellie Kallas a estoniana que vai entrar de representante da política externa da União Europeia é mais moderada ou extremista que Marine Le Pen? Em quê? E a madame Lagarde do BCE é uma moderada que ajuda pobres e remediados a pagar os juros exorbitantes aos bancos para terem um teto? E o trabalhista Keir Starmer recém eleito primeiro ministro do Reino Unido tem uma politica mais moderada para deportar migrantes para o Uganda ou os deixar afogar no Canal da Mancha dos seus moderados antecessores conservadores? E o que distingue as políticas migratórias do Reino Unido, dos Países Baixos, da Alemanha (que é a maior financiadora dos campos de concentração de migrantes na Turquia) das de Marine Le Pen, ou da primeira ministra italiana?

Falecido em 2019, após uma vida bem gozada, Jacques Chirac foi o último gaulista no poder. Com a sua morte morreu qualquer laivo de desalinhamento da Europa e da França com a política de domínio económico, financeiro e militar por parte dos Estados Unidos. Sendo assim, o que estão a celebrar os situacionistas europeus e os franceses em particular e, mais aberrante ainda, os que se afirmam gaulistas? O que defendem aqueles que o pensamento dominante classifica como extremistas e colocou numa lata com um autocolante: Perigo!

Se o perigo para a Europa é, em primeiro lugar, o do alastramento e subida de patamar das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente. Se, em segundo lugar o perigo é a da conjugação de inflação e depressão económica na Europa (a França dos moderados vitoriosos já está na categoria penalizadora de défice excessivo); e se, em terceiro lugar, o perigo para a Europa é o da irrelevância política e económica, transformada como está um mero apêndice dos Estados Unidos foram os extremistas que trouxeram a Europa até aqui. E estão a celebrar a vitória. Celebram o quê?

 2024 07 08

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sábado, 6 de julho de 2024

A perspetiva de um comunista sobre as eleições gerais na Grã-Bretanha

Uma viagem através do projecto Corbyn até ás fileiras da classe trabalhadora revolucionária

Sexta-feira, 5 de julho de 2024

A perspetiva de um comunista sobre as eleições gerais na Grã-Bretanha

Muita coisa mudou desde as eleições gerais de 2019 e, do ponto de vista da classe trabalhadora britânica, nada disso foi positivo. Da perspetiva pessoal deste escritor, o facto de eu ser agora um comunista comprometido foi transformador.

É importante explicar um pouco do meu percurso até este momento, porque tem relevância para a minha compreensão das eleições de 2024. Dá algum contexto à minha compreensão da natureza e composição do nosso mundo, e como isso influencia a minha abordagem ao espetáculo e farsa a que chamamos democracia. Mais importante ainda, espero que tenha repercussões para si, o leitor ...

Os meus pais eram comunistas e, por isso, toda a minha infância foi marcada pela linguagem do socialismo e pela busca da justiça, da liberdade e da derrota do capitalismo. Uma criança que cresce num lar assim, não pode deixar de ser imbuída de uma compreensão da verdadeira natureza das coisas: a forma como o mundo funciona verdadeiramente, o poder e as forças destrutivas do imperialismo, as insidiosas mentiras dos meios de comunicação social, o papel da polícia, não como protetora da paz, mas como executora do poder do Estado, as contínuas batalhas contra a injustiça e a luta pelo direito das pessoas a viverem em segurança, sem o stress constante da privação de alimentos, abrigo ou acesso a cuidados de saúde.

Quando era jovem adulto, deixei a minha casa em busca das minhas próprias paixões e, durante os 25 anos seguintes, concentrei-me na construção de uma carreira empresarial de sucesso. Nunca perdi a noção da verdadeira natureza do mundo capitalista e as minhas decisões na vida e no trabalho foram sempre orientadas por valores socialistas. Mantive-me politicamente consciente, mas não ativo.

Para ser justo, embora acreditasse nos princípios socialistas, depois de ver os meus pais dedicarem a maior parte do seu tempo e das suas vidas à sua prossecução, obtendo o que pareciam ser ganhos infinitesimais contra um poder e uma oposição aparentemente esmagadores, imaginei que o socialismo não passava de uma quimera, e nunca na minha vida.

Então, um dia, em 2015, estava a ler as notícias e ouvi dizer que, contra todas as probabilidades, um deputado de esquerda chamado Jeremy Corbyn tinha conseguido entrar na votação para ser líder do Partido Trabalhista. Ele estava a fazer uma série de roadshows pelo país para espalhar a sua mensagem e, intrigado, fui ouvir o que ele tinha para dizer.

O meu interesse foi despertado. Ele proferia palavras como socialismo, falava da renacionalização dos nossos activos e da igualdade para os trabalhadores: uma linguagem que eu não ouvia há muitos anos na Grã-Bretanha e muito menos nos principais círculos políticos. Nunca tinha sido apoiante do Partido Trabalhista, orgulhosamente nunca votei nele, mas um desejo latente tinha sido despertado e vi Jeremy Corbyn como uma enorme oportunidade estratégica.

Ele estava a atrair um verdadeiro número de seguidores ao utilizar a linguagem em que eu acreditava - justiça, igualdade e socialismo. Isso significava que não era só eu que queria essas coisas, havia centenas de milhares, talvez até milhões de pessoas que eram atraídas por essa retórica e possibilidade.

Eu sabia o suficiente para saber que o socialismo não poderia ser alcançado através do processo parlamentar; compreendia que o establishment nunca permitiria que isso acontecesse. Mas perguntava-me se este inesperado episódio de um candidato de esquerda a liderar um grande partido político poderia ser usado como um meio para atingir um fim - uma forma de abrir os olhos da classe trabalhadora britânica para a mentira de que tinham qualquer poder ou controlo sobre as suas vidas ou sobre a sociedade em geral.

Certamente, o que estava para vir ilustraria claramente que a democracia parlamentar era uma fachada; ajudá-los-ia a ver que o fim da sua exploração e o caminho para o socialismo nunca seriam alcançados através do voto.

Então, fiz algo que nunca imaginei fazer: Filiei-me no Partido Trabalhista e envolvi-me na política partidária. Na minha primeira reunião, tornei-me secretário da secção do meu círculo eleitoral (CLP) e, durante os quatro anos seguintes, trabalhei com algumas boas pessoas, contra todas as probabilidades, em busca de uma vitória do Partido Trabalhista.

Digo contra todas as probabilidades porque, desde o início, era perfeitamente claro que Corbyn nunca seria eleito. Mas que grande oportunidade para provar isso aos trabalhadores - particularmente aos trabalhadores mais avançados que foram motivados pelo seu estilo de política "mais gentil" e pela sua retórica socialista.

As lições da história

Governar não é apenas ser eleito, é preciso a cooperação da máquina estatal e corporativa: o serviço civil, a liderança militar, os governadores do Banco de Inglaterra, as empresas e as instituições de comércio internacional, as agências de notação, as organizações de tratados, os poderosos actores económicos chamados monopólios e, em última análise, os nossos mestres imperiais americanos. O Parlamento não tem autoridade soberana real; está cercado e escravizado por aqueles que detêm e exercem o poder real.

Os partidos eleitos e os líderes políticos cujos mandatos são contrários aos ditames do establishment descobrem, a seu custo, que tomar posse não é o mesmo que tomar o poder. Isto não é novidade. Em 1975, Gough Whitlam, então democraticamente eleito primeiro-ministro do Partido Trabalhista da Austrália, foi demitido pelo governador-geral pelos seus planos de introduzir uma política externa independente dos Estados Unidos, e a CIA não estava a ter nada disso!

O partido Syriza da Grécia foi sumariamente derrotado quando tentou resistir ao poder do capital financeiro, recusando-se a pagar a dívida do país. Jeremy Corbyn e Liz Truss foram ambos derrotados politicamente e desacreditados pessoalmente por forças imperialistas determinadas a seguir um caminho diferente.

A lição mais fundamental informada pela economia simples é que não existe uma fórmula para manter o capitalismo lucrativo e, ao mesmo tempo, transferir qualquer parte significativa da riqueza e do poder para os trabalhadores e os pobres. Não há nem nunca poderá haver "trickle down" no capitalismo e, por isso, esperar que um partido parlamentar, o Partido Trabalhista ou qualquer outro, independentemente da liderança, dê prioridade aos interesses dos trabalhadores é uma ilusão.

Quando, em 2019, o fim finalmente chegou com a derrota eleitoral de Corbyn contra Boris Johnson, deixei o Partido Trabalhista e me juntei ao CPGB-ML, antecipando uma onda de trabalhadores avançados a reboque em direção a um caminho iluminado. Afinal de contas, era agora flagrantemente óbvio para aqueles que alimentavam tais ilusões que a mudança necessária através da social-democracia não era possível.

A social-democracia nunca teve nada a ver com o socialismo - uma ordem de mudança de magnitude completamente diferente. Chegou o momento de lutar pelo verdadeiro socialismo, a via revolucionária.

Estratégia e táctica em tempo de eleições

Aqui estamos nós em 2024, em vésperas de novas eleições gerais, e eu abordo este evento do ponto de vista de um comunista activo em busca de mais do que uma mudança de partido político, mas de uma mudança completa de sistema.

Numa altura em que a redistribuição radical do poder político e económico é a única solução para a crise do capitalismo, a escolha oferecida ao povo britânico continua a ser um duopólio bipartidário que não oferece outra alternativa senão a continuação das mentiras, da exploração e da condução à guerra na cauda de um império americano em implosão.

Quando grande parte do eleitorado acredita que nenhum dos partidos políticos representa os seus interesses e sabe que os meios de comunicação os manipulam com mentiras, a nossa chamada "ordem democrática baseada em regras" está a sofrer a pior crise de legitimidade da história.

No entanto, enquanto somos arrastados para a guerra e para crises económicas e sociais, estão a acontecer saltos importantes noutras partes do mundo. O desafio ao poderio militar ocidental e ao domínio neocolonial está a ocorrer em todos os continentes e a instilar um sentimento crescente de esperança, otimismo e espírito de luta entre as pessoas do Ocidente, em especial os jovens.

O imperialismo norte-americano e os seus vassalos ocidentais, os velhos imperialistas, incluindo a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha, estão a perder o seu factor de intimidação a nível interno e internacional. Os povos de todo o mundo estão a recuar e a desafiar o status quo, e nós, comunistas britânicos, deveríamos estar na vanguarda das expressões de frustração e irritação dos trabalhadores, articulando e aperfeiçoando as suas ideias e construindo uma frente unida na sua prossecução.

Nunca na minha vida a oportunidade e a possibilidade de mudança socialista foram tão tangíveis. As peças de dominó da fortaleza capitalista estão a começar a cair e este é o momento para todos os comunistas rejeitarem liminarmente o status quo e iluminarem o caminho para o socialismo.

Foi então com profunda decepção que li o anúncio feito por Robert Griffiths, secretário-geral do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPB) de que: "O Partido Comunista vai disputar o seu maior número de lugares em Westminster desde há 40 anos, com um grito de guerra: "Fora Conservadores - uni-vos pelos direitos dos trabalhadores, pela propriedade pública e pela paz!""

Tories fora? E que tal "Não votem nesse outro partido imperialista, viscoso e conivente de pretendentes, o Partido Trabalhista! O Partido Trabalhista não é o "menor de dois males". Já passámos da fase de acreditar nessa dicotomia sem sentido.

Sir Keir Starmer tem sido exemplar em expor a verdadeira natureza do Labour como um partido anti-trabalhador nas suas declarações sobre "proteger as nossas fronteiras", sobre "segurança nacional", no seu apoio à Nato na Ucrânia e ao genocídio na Palestina, e nas suas próprias garantias e nas do seu chanceler-sombra de que pretendem ser "simpáticos para as empresas".

Os trabalhistas são a mais desprezível das criaturas: um lobo em pele de cordeiro - ou seja, os Tories disfarçados. Como diz o ditado: "Trabalhistas, conservadores, a mesma história de sempre".

Tudo indica que os trabalhistas vão obter uma vitória esmagadora e é evidente que o partido tem o apoio do establishment, com os meios de comunicação social ocidentais a darem incessantemente a volta às notícias em sua direção. Mas porquê os trabalhistas e porquê agora?

Trata-se de uma táctica frequentemente utilizada quando as condições económicas e/ou sociais exigem que se sufoque a hostilidade crescente entre as massas. O pretenso "partido da classe trabalhadora" é apresentado como o campeão da esperança para acalmar a indignação e a insatisfação crescentes de um número cada vez maior de pessoas.

Ainda mais terrível é o facto de a história ter demonstrado que um governo trabalhista, com a fachada de ser o partido dos trabalhadores e com o apoio dos lacaios dos líderes sindicais, pode fazer passar condições ainda mais coercivas e exploradoras do que o seu homólogo conservador alguma vez poderia imaginar. É este o verdadeiro objetivo do Partido Trabalhista. (Leitura recomendada: Britain's Perfidious Labour Party, disponível na nossa livraria).

Estará o PCB a abordar esta pantomima farsesca de pompa, as eleições gerais, a partir de uma posição dialéctica? Para aqueles de nós que perseguem o socialismo, a nossa política deve certamente ser a de agitar e minar o poder do Estado e emascular as intenções estratégicas da burguesia em todas as oportunidades. No entanto, o CPB está a apoiar uma vitória esmagadora dos trabalhistas como a melhor maneira de "tirar os conservadores".

E está a fazê-lo mesmo quando a crise palestiniana está a levar vagas de candidatos independentes a apresentarem-se, algo que a Grã-Bretanha não via há décadas, se é que alguma vez viu. Esses candidatos podem causar danos a uma crise cada vez mais profunda do capitalismo, criando e aprofundando a instabilidade no sistema político britânico. Podem ser incómodos e perturbadores a nível individual a partir do Parlamento e, se um número suficiente de candidatos obtiver votos suficientes, podem interferir com a previsão de derrocada dos trabalhistas, mesmo sem serem eles próprios eleitos.

A nossa tarefa imediata deve ser a de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para perturbar o funcionamento rotineiro do imperialismo britânico. Perseguir um parlamento suspenso, que forçaria os trabalhistas a ter que fazer um acordo, é uma táctica que poderia ajudar a frustrar as maquinações imperiais.

Como o projeto Corbyn nos ensinou, os problemas da classe trabalhadora britânica não podem ser resolvidos através da participação no circo parlamentar. Temos de agravar a crise política da classe dominante, interrompendo a sua intenção de dar uma vitória aos trabalhistas e, ao mesmo tempo, construir as nossas próprias forças.

UM CAMINHO BRITÂNICO PARA O SOCIALISMO EM 2024

No sistema de produção com fins lucrativos chamado capitalismo (também conhecido como "escravatura assalariada"), gerido pela classe dominante capitalista através da charada da democracia parlamentar, a riqueza concentra-se cada vez mais em cada vez menos mãos. Vivemos numa época em que os extremos entre os ridiculamente ricos e o resto dos pobres são mais amplos do que nunca.

As injustiças da nossa sociedade - salários que não cobrem o nível de vida básico, um serviço de saúde falido, facturas de energia exorbitantes, o custo dos cuidados infantis... tudo isto resulta da forma como os meios de produção são utilizados para gerar cada vez mais lucros para alguns. Só mudando a base económica da nossa sociedade de uma produção capitalista orientada para o lucro para uma abordagem socialista de produção planeada - planeada para satisfazer as necessidades de todas as pessoas - poderemos finalmente viver em paz e em segurança. É a única forma de resolver os nossos problemas.

Sabemos que uma mudança de sistema nunca poderá ser conseguida através de uma via parlamentar. Já vivemos essa experiência demasiadas vezes para acreditarmos nela. Sabemos que, independentemente de qual dos dois grandes partidos esteja no poder, as nossas necessidades básicas continuarão a não ser satisfeitas.

Este sistema chamado capitalismo representa muito dinheiro, muito poder, muita exploração: a sua crise é generalizada e vai agravar-se. Nas palavras do grande Karl Marx: "O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, só vive sugando o trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho suga."

Só o socialismo, um sistema produtivo planeado, baseado na satisfação das necessidades da massa do povo, pode funcionar a nosso favor. E como comunista convicto, tal como os meus pais antes de mim, lutarei por um sistema desse género.

Publicada por el comunista à(s) 11:47 

https://achispavermelha.blogspot.com/2024/07/a-perspetiva-de-um-comunista-sobre-as.html

Ali Rebas - O direito de se defender” ou como fazer com que o genocídio seja aceite

 * Ali Rebas

6 DE JULHO DE 2024

Se a impunidade de que Israel beneficia, nomeadamente em desafio às decisões das instituições do direito internacional, é hoje flagrante, a destruição de Gaza foi implementada pela primeira vez em nome do “direito de se defender”. Esta fórmula também surge frequentemente na boca de muitos líderes ocidentais para dar a Tel Aviv um cheque em branco nas operações que realiza contra os palestinianos. Uma lógica colonial e exterminadora que vem de longa data.

 

“Sem luz, sem água, sem gás, sem comida, está tudo fechado (…) Lutamos contra os animais humanos, agimos em conformidade. » *

 

 "É uma nação inteira que é responsável. Esta retórica sobre civis que não estão conscientes, que não estão envolvidos, é absolutamente falsa. Eles poderiam ter-se levantado, poderiam ter lutado contra este regime maligno que assumiu o controlo de Gaza num golpe de Estado. Mas estamos em guerra, estamos a defender as nossas casas. Esta é a verdade, e quando uma nação protege a sua pátria, ela luta para que lhe quebremos a espinha dorsal.

Um discurso civilizador e erradicador, blindado na sua inocência democrática, foi utilizado para justificar a destruição de Gaza. É principalmente com base neste “direito de defender-se” que o Ocidente mobiliza em cada uma das suas ações genocidas. Hoje o Estado de Israel serve de paradigma nesta área. É importante compreender a função desse discurso e seus modos de operar. A violência ilimitada apresenta-se como contra-violência: este diagrama define uma disposição e uma certa lógica que consegue alistar ou enfeitiçar, desarmar e até paralisar uma parte daqueles que perceberam a mentira e afirmaram resistir-lhe.

COLOQUE UMA IMAGINAÇÃO

De certa forma, nada de novo sob o sol sujo do pôr do sol3. Para além do próprio extermínio, todos os estereótipos, os eufemismos, os processos de legitimação utilizados para fazer aceitar o genocídio em Gaza são antigos. A erradicação dos nativos americanos foi justificada depois de retratá-los como hordas selvagens, estupradoras e assassinas, atacando periodicamente comunidades pioneiras anglo-saxônicas inocentes. Assim foi construída a maior democracia do mundo, principal suporte e condição de existência da “única democracia do Médio Oriente” e do genocídio em curso. Mais tarde, nos Estados Unidos, pessoas negras linchadas e enforcadas foram frequentemente acusadas de violação (de pessoas brancas, obviamente), como no caso de Thomas Shipp e Abram Smith, que inspiraram a famosa canção de Billie Holliday,  “Strange Fruit”.  Os fatos e sua veracidade pouco importavam. Nada precisava ser provado ou apoiado. Tudo o que importava era o horror da acusação, o lugar e a força daqueles que a lançaram, o lugar e a fraqueza daqueles que ela designou e o terreno seguro em que foi implantada, apesar da sua forma vaga, até claramente enganosa e rapidamente negada. Tratava-se sobretudo de despertar uma imaginação já enraizada, de despertar certezas que os civilizados já tinham sobre os subumanos e de confirmá-las, para que todo o resto pudesse ser esquecido, para que nos sentíssemos autorizados a libertar o. última crueldade em sã consciência4.

A revolta dos Hereros  contra a ocupação alemã, a dos Argelinos em 8 de Maio de 1945 ou a dos Malgaxes em 1947 contra os Franceses, dão exemplos de acontecimentos que têm vários pontos em comum com o 7 de Outubro. Em cada caso, a insurreição deixou mais de uma centena de mortos, por vezes várias centenas, entre os colonos que exterminaram dezenas de milhares de pessoas colonizadas – obviamente garantindo que estavam apenas a defender-se.

É surpreendente ver quão pouco variou o estilo de acusações e inversões de vitimização que a ordem colonial emprega contra aqueles que massacra. Em relação ao 7 de Outubro, os israelitas e os seus poderosos representantes políticos e mediáticos falaram de um “pogrom” ou mesmo de um “Holocausto à bala”.5 — uma frase normalmente usada para se referir ao massacre de mais de um milhão de judeus da Europa Oriental por esquadrões móveis nazistas. Até mesmo jornais como  o Médiapart  seguiram a propaganda israelita neste ponto, retomando alguns dos seus termos, como o  “maior massacre de judeus desde a Shoah”6.

O colonialismo francês não hesitou em atribuir as revoltas de Sétif, Guelma e Kherrata ao ódio racial ou aos “agentes provocadores”. Nos dias que se seguiram à revolta, o comunicado de imprensa do governador da Argélia chegou a mencionar  “elementos e métodos de inspiração hitleriana”.7.  Esta expressão foi usada muitas vezes na época, inclusive pelo  L'Humanité.  Assim que a Alemanha nazi capitulou, o Ocidente vitorioso usou esta figura do Mal absoluto para insultar a revolta daqueles que esmagou e justificar o seu extermínio. Não há muito a acrescentar, a não ser repetir, adaptando, uma famosa frase de Michel Audiard: os colonos ousam tudo, é mesmo assim que os reconhecemos.

SALVANDO A GRANDE NARRATIVA OCIDENTAL

O genocídio em curso em Gaza funciona para o Ocidente tanto como um lembrete como como uma grande experiência. Serve para definir as condições sob as quais o racismo mais desinibido e mais assumido ainda pode ser desencadeado livremente,  beneficiar de amplo apoio  e não apenas de indiferença cúmplice, mesmo nas suas fases de erradicação. Mas também permite organizar esse desencadeamento, ajustar os seus limites e modalidades, explorar as possibilidades e oportunidades que oferece,  a  nível tecnológico, militar e governamental. Contribui para definir os eixos e a intensidade ao longo dos quais um colonialismo anacrónico ainda pode impor-se direta, explicitamente, sem disfarce, naquelas que até recentemente ainda eram chamadas de “sociedades abertas”. Mostra como um extermínio constantemente filmado, transmitido, retransmitido e “compartilhado” durante meses nas redes sociais pode ser amplamente aceito; e até que ponto a oposição pode ser controlada, reprimida, marginalizada, reduzida ao espanto ou a protestos impotentes.

Israel não é apenas o baluarte da Europa, o seu escudo simbólico, o emblema da sua inocência invencível. É também a sua grande janela Overton8. Ou melhor, Israel é o meio para abrir e pôr em movimento todas as janelas de Overton. Desde a queda do nazismo e o fim dos impérios coloniais, a sua função tem sido salvar a grande narrativa ocidental. Permite ao Ocidente continuar a perceber-se através das ideias de democracia, civilização, progresso, inocência, ao mesmo tempo que salva parte da herança racista que sustenta o mundo compartimentado que ele encarna. Perpetua esta ficção de sobrevivência que assombra toda a história do Ocidente moderno. A da certeza de ser o último refúgio civilizado, legítimo para acabar com aqueles que esmaga e coloniza sob pena de ser submerso por marés subumanas. A culpa é referida ao passado (nazismo) ou ao exterior (muçulmanos, russos, chineses, os vilões dos filmes de Hollywood, todos potenciais novos nazis).

A conquista da modernidade nunca deixou de invocar o “direito à defesa” para legitimar as suas devastações. O extermínio marca a história das sucessivas ordens coloniais. Foi desencadeada durante séculos sem colocar muitos problemas filosóficos, legais ou morais à consciência ocidental. E então houve uma anomalia durante a Segunda Guerra Mundial. Um acontecimento que aparece a esta consciência como um erro terrível da pessoa. Um grande erro – um erro policial.

Os nazis tiveram a singular loucura de importar processos coloniais e o imperialismo para a Europa, com o horizonte de extermínio que implicavam quando se tratava de “defender-se”. Hoje em dia, tal afirmação parece provocativa. Contudo, foi formulada por Aimé Césaire, no rescaldo da guerra, poeta hoje sepultado no Panteão, repleto de homenagens, monumentos, nomes de ruas e edifícios; nem sequer a impediu de permanecer prefeita e deputada, na Martinica, é verdade, por mais de meio século:

Sim, valeria a pena estudar, clinicamente, em detalhe, as abordagens de Hitler e do hitlerismo e revelar ao muito distinto, muito humanista, muito cristão burguês do século XX  que ele carrega dentro de si um Hitler que se ignora, que Hitler  habita nele,  que Hitler é o seu  demônio,  que se ele o repreende é por falta de lógica, e que no fundo, o que ele não perdoa Hitler, não é o  crime  em si, o  crime contra o homem,  é não  a humilhação do homem em si,  é o crime contra o homem branco, é a humilhação do homem branco, e de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas aos quais até agora apenas os árabes da Argélia, os coolies da Índia e os negros da África [...].9

Estas palavras ainda soam verdadeiras hoje para a maioria dos que ouviram falar de Hitler, excepto estranhamente nas nações que participaram no Judeocídio. É provavelmente por isso que estes últimos persistem em tratar outras populações, que não participaram direta ou indiretamente, como anti-semitas incuráveis.

A partir de agora, o colonialismo e o racismo pretendem defender os judeus, falaciosamente assimilados ao sionismo que vem a monopolizar a herança de vítima do crime absoluto. Assim se realiza a síntese, muito coerente com uma certa disposição cristã, entre a culpa e a expiação, por um lado, e a manutenção da inocência intacta, por outro. Queremos, diz a voz vinda desta liga, expiar em pensamento os crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial, mas são os outros que devem pagar em termos concretos. A culpa e a expiação, tal como as indústrias poluentes, podem ser convenientemente  realocadas.  Esta realocação do Holocausto foi chamada de Estado de Israel.

Uma das grandes fábulas que acompanharam esta série de deslocamentos e mentiras históricas é resumida na fórmula “civilização judaico-cristã”. Se chegou a este ponto nos últimos tempos é porque cumpriu diversas funções decisivas, além de dar aos europeus a impressão de se exonerarem de um passado muito condenável. De forma artificial e desafiando séculos de história comum, permite que o Islão e os muçulmanos se instalem numa alteridade hostil e irredutível, onde acabam por encarnar a grande figura da ameaça face à muito nova e muito estranha aliança . Esta expressão marca também a integração dos judeus no Ocidente, mas apenas na condição, na maioria das vezes, de os assimilar ao Estado que afirma representá-los.10. Ao reprimir as exclusões e perseguições a que os judeus foram sujeitos durante séculos, ao obscurecer a lógica de que procediam, ao fazer-nos esquecer as formas que poderiam assumir e os pretextos que invocavam, a “civilização judaico-cristã” fornece também a narrativa que permite que esta exclusão se repita em sã consciência e de forma inadequada, contra os novos alvos. Como resume o poeta e romancista israelense Yitzhak Laor em  The New European Philosemitism:

Esta identificação com “nós” funciona ainda melhor com a cultura do Holocausto, ao oferecer ao novo europeu, no contexto do “fim da História”, uma versão melhor da sua própria identidade face ao passado colonial e ao presente. pós-colonial”. Preocupado com a massa de imigrantes muçulmanos legais e ilegais, este europeu adoptou o novo judeu como um Outro moderno e tranquilizador, amigo do progresso, sem barba, sem babados, com uma mulher que não usa roupas tradicionais e que não esconde o cabelo dele – felizmente, esses novos judeus não têm nada a ver com os avós.11

Poderíamos dizer que fórmulas como “civilização judaico-cristã” ou “direito de se defender” são apenas técnicas publicitárias imaginárias, ideológicas ou grosseiras... Futilidades dos manuais de propaganda, descobertas de  think tanks neoconservadores  , psicologia americana, eficaz apenas porque eles são servidos pelos sistemas certos, pelas redes de poder certas e por uma relação militar com a informação. Acrescentaremos que o direito, tal como a legitimidade, só chega depois do facto, que é apenas um resultado ou um reflexo das relações de poder. Que a História é obviamente escrita pelos e para os vencedores, uma vez vencidos - é mesmo assim que os reconhecemos e que aprendemos a pensar contra a História, que é sempre  a sua  história. Que a verdadeira guerra e as verdadeiras questões residem noutro lado, nos interesses militares, geopolíticos, económicos... Tudo isto é parcialmente verdade, mas também redutor. Nada mais militar, geopolítico, material e concreto hoje do que a guerra de informação, que esconde e recodifica uma guerra de percepções e histórias. Isto, por sua vez, condiciona e modifica o equilíbrio de poder mais concreto e massivo.

TODOS OS GENOCIDÁRIOS TÊM SEU “7 DE OUTUBRO”

Como escreve o filólogo alemão Viktor Klemperer em  LTI, The Language of the Third Reich:

E tudo o que empreendemos nesta guerra imposta, nesta guerra judaica, desde o primeiro minuto, é sempre uma medida de reacção. “Imposta” tem sido  o epíteto constante da guerra desde 1º de setembro de 1939 e, em última análise, este 1º de setembro não traz absolutamente  nada de novo além de uma continuação dos ataques judaicos contra a Alemanha de Hitler, e nós, somos nazistas pacíficos, não vamos fazer outra coisa. do que antes, defendemo-nos: desde esta manhã “estamos a responder ao fogo inimigo”, diz o primeiro boletim de guerra. Mas no fundo esta sede de assassinato dos judeus não nasceu de reflexões ou interesses, nem mesmo de uma sede de poder, mas de um instinto, de um “ódio insondável” da raça judaica para com a raça germano-nórdica. O “ódio insondável” aos judeus é um clichê que esteve presente ao longo destes doze anos. Contra o ódio fundamental, não há outra garantia senão a supressão de quem odeia: assim, passamos logicamente da estabilização do anti-semitismo racial para a necessidade do extermínio dos judeus.12

Aqueles que hoje continuam a evocar o extermínio dos judeus da Europa para alistar a sua memória a favor do sionismo, retomando inescrupulosamente, contra outros alvos, a maior parte dos tropos que foram usados ​​para justificá-lo, estão a fingir ignorar que foi só foi possível graças a um longo processo ideológico, jurídico, societal, linguístico e policial, que hoje é lembrado. Esquecem também que os anti-semitas e os nazis também nunca deixaram de invocar a natureza defensiva da sua guerra - ou melhor, da guerra que lhes foi, disseram, imposta.

Nem sempre o exterminador começa declarando que vai exterminar. Muitas vezes acontece que ele diga que a outra pessoa à sua frente quer exterminá-lo, e que não tem escolha, que está em jogo a “própria existência” da entidade genocida, como repete Benjamin Netanyahu desde outubro de 2023. o extermínio planejado, temido, fantasiado sempre encobre e justifica o extermínio real. E mesmo que isso signifique recordar um facto triste, que parece constantemente evitado: hoje, são os palestinianos que estão a ser exterminados.

Até os nazistas repetiam: o Reich tem o direito de se defender. E tal como os israelitas hoje, alternaram entre este discurso defensivo e outro que assumia a necessidade de lhe pôr fim, de livrar o mundo destes  “animais humanos”  que os ameaçam. Não há contradição entre os dois, sempre funcionou em conjunto. Em 1943, a assessoria de imprensa do Reich denunciou o “plano de extermínio dos judeus” dos povos da Europa. Goebbels escreveu:  “Se as Potências do Eixo perdessem a luta, não haveria mais barragens que pudessem salvar a Europa da onda judaico-bolchevique. »13

A invocação continuada do 7 de Outubro e o ataque ao Hamas por parte dos israelitas e dos seus aliados, longe de atenuar ou qualificar o carácter genocida da destruição de Gaza, confirma-o e complementa-o em grande parte. Não há genocídio que não seja assim justificado e apresentado como uma necessidade. Todos os genocidas têm o seu “7 de Outubro”, que sacrificaram para usá-lo, muitas vezes  a posteriori,  como um cheque em branco, uma autorização para exterminar – até mesmo um dever de exterminar para não ser por sua vez. Nos Estados Unidos, a derrota esmagadora infligida aos brancos em Little Big Horn pelas tribos do oeste americano ainda representa um trauma. Este acontecimento teve um impacto muito maior sobre os americanos do que o quase completo extermínio dos nativos, que ajudou a justificar e a transformar numa  guerra defensiva na consciência ianque . O tenente-coronel Custer, grande figura das “Guerras Indígenas” morto durante esta batalha, é a personalidade sobre quem mais livros foram publicados nos Estados Unidos, logo depois de Abraham Lincoln. Como escreve Gershon Legman, citado por Fanon em  Black Skin, White Masks:

Os americanos são o único povo moderno, com excepção dos bôeres, que, até onde há memória, exterminaram completamente a população indígena do solo onde se estabeleceram. Somente a América poderia, portanto, ter uma má consciência nacional para acalmar, forjando o mito do “Bad Injun”14, para então poder reintroduzir a figura histórica do honorável Redskin defendendo sem sucesso seu solo contra invasores armados com bíblias e rifles. O castigo que merecemos só pode ser evitado negando a responsabilidade pelo mal, colocando a culpa na vítima; provando - pelo menos aos nossos próprios olhos - que ao desferir o primeiro e único golpe estamos simplesmente agindo em legítima defesa...

Até os nazistas tiveram os massacres de Katyń, sobre os quais Goebbels escreveu logo após sua descoberta, no meio da “solução final”:

Perto de Smolensk, foram encontradas valas comuns polonesas. Os bolcheviques simplesmente atiraram e empilharam ali cerca de 10.000 prisioneiros polacos [...] Convido jornalistas neutros de Berlim a visitarem as valas comuns polacas. […] No local, eles terão que se convencer com os próprios olhos do que os espera se realmente acontecer o que tanto desejam, ou seja, que os alemães sejam derrotados pelos bolcheviques.

Este é um convite de jornalistas que devem ter estado imbuídos das mesmas intenções do governo israelita nos dias que se seguiram ao 7 de Outubro, e que deu origem a tantas mentiras espalhadas pelo mundo.15.

Segundo o historiador Peter Longerich, Katyń tornou-se o slogan que cobre  "a pior campanha anti-semita que o regime já viu".  Para os nazistas, este massacre foi um "massacre judeu", sendo as distinções entre "judeu" e "bolchevique" na época tão incertas quanto a distinção que os israelenses e seus aliados fazem hoje entre "Hamas", "palestinos", "árabes". ”, “Estado Islâmico” e “terrorista”… Longerich insiste neste ponto importante: a ideia da necessidade  “da aniquilação dos judeus para não serem aniquilados por eles […] constituiu o cerne da propaganda sobre Katyn »16.

REVERSÃO DE VÍTIMAS

Os genocidas sempre acusaram aqueles que massacraram de pretenderem fazer a mesma coisa. Por mais vis e ultrajantes que pareçam, estes tipos de projecções e vitimizações paranóicas não devem apenas ser rejeitados e desprezados como loucura, propaganda grosseira ou mentiras sem sentido. Quando ressoam, dentro de uma época, com outros dispositivos e outras forças históricas, materiais e ideológicas, tornam-se características essenciais da lógica genocida, participam nela como operadores eficazes.

Contudo, os israelitas e os seus apoiantes ocidentais são especialistas em inversão de vítimas. Eles acusam os seus inimigos de quererem “varrer Israel do mapa”, nomeando precisamente o que fizeram, literal e figurativamente, pela Palestina.17. Eles constantemente agitam a ideia de que os árabes querem jogá-los ao mar, enquanto o contrário aconteceu literalmente em Jaffa em 1948.18. Yitzhak Rabin também disse que seu maior sonho era ver Gaza engolida pelo mar...

Hoje, a propaganda sionista predominante invoca a detenção de 200 israelitas pelo Hamas para justificar a engenharia de horror que metodicamente implanta em Gaza.19. Há mais de 9.000 prisioneiros palestinianos detidos por Israel, dos quais mais de 3.400 estão sujeitos a  “detenção administrativa” , uma medida que permite ao tribunal israelita encarcerá-los sem qualquer acusação ou julgamento, por um período de seis meses renovável indefinidamente. . Tudo isto permitiria um novo olhar sobre a famosa questão dos reféns... Em 2011, mais de 1.000 prisioneiros palestinianos, cujos nomes ninguém em França sabia, foram libertados em troca de um único soldado israelita, cujos nomes todos sabiam que o seu nome era Gilad Shalit.  Salah Hammouri , um advogado franco-palestiniano detido várias vezes sob detenção administrativa (incluindo uma última vez em 2022), nunca beneficiou de tal visibilidade em França. Desde 1967, um em cada cinco palestinianos passou pelas prisões dos ocupantes. Faça as contas.

Inversion encore l’histoire des « boucliers humains ». Cette accusation régulièrement portée contre la résistance armée palestinienne ne sert pas seulement à justifier les massacres des civils. Elle élude le fait que l’État d’Israël n’a jamais été autre chose qu’un immense bouclier humain. Le fondateur du sionisme l’assumait nettement : « Pour l’Europe, nous constituerions là-bas un morceau du rempart contre l’Asie, nous serions la sentinelle avancée de la civilisation contre la barbarie. »20 Par ailleurs, comme l’explique l’historien Amnon Raz Krakotzkin, le sionisme fut guidé, presque dès ses débuts, par un « principe directeur selon lequel le peuplement de la Palestine est plus important que le sauvetage des juifs »21. Dans cette perspective, « sauver des juifs n’a d’intérêt que si cela sert à peupler la Palestine. De même les manifestations dans la colonie juive de Palestine à l’époque ne réclamaient pas le sauvetage des juifs, mais la libre émigration en Palestine et la création d’un État hébreu »22.

À la fin des années 1930, alors qu’aux lois raciales, aux expropriations et à la ségrégation que subissaient les juifs d’Allemagne commençaient à s’ajouter des persécutions plus féroces, David Ben Gourion affirmait publiquement :

Si je savais qu’on pouvait sauver tous les enfants [juifs] d’Allemagne en les envoyant en Angleterre mais seulement la moitié d’entre eux en les envoyant en Palestine, je choisirais cette dernière option parce qu’il ne s’agit pas seulement de prendre en compte le nombre d’enfants mais de tenir également compte de l’histoire du peuple juif.23

Dès avant la création de l’État d’Israël et de manière déclarée, les sionistes n’envisageaient les populations juives, en Palestine comme ailleurs, que comme un matériel humain ou des boucliers humains.

Dernière inversion qui résulte des autres et les englobe : à l’idée d’une Palestine libre, les sionistes opposent le danger d’un possible massacre ou d’une expulsion des Juifs israéliens, pour faire oublier le génocide en cours, les massacres et les expulsions réels qu’Israël a perpétrés depuis des décennies et sur lesquels s’est fondée toute son existence.

ISRAËL COMME PARADIGME

L’État d’Israël inspire les méthodes les plus efficaces sur les plans militaires, policiers, discursifs, idéologiques ou architecturaux pour désarmer les résistances, pour faire en sorte que toute opposition soit rendue marginale ou défensive, qu’elle voit ses alliances entravées, son langage réduit, ses cadres prescrits, ses actions prohibées, ses prises de positions intimidées ou réprimées par l’anti-terrorisme — même les plus modérées, même celles qui viennent de secrétaires syndicaux ou de députées de la France insoumise.

Tudo isto não leva a ver Israel como uma espécie de defensor do racismo e do colonialismo – ou mesmo do racismo e do colonialismo ocidentais. Durante muito tempo não acreditámos mais no campo do Bem ou em figuras do Mal absoluto, exceto como instrumentos de propaganda e ficções governamentais. O próprio Estado de Israel depende, entre outras coisas, de um mito desastroso do Mal absoluto, que é precisamente uma questão de desfazer. Mas o Ocidente certamente não esperou que o sionismo escravizasse, expulsasse, colonizasse, exterminasse. A história da Argélia Francesa é suficiente para provar isso. Além disso, esta sequência é uma das principais razões para o apoio particular da França a Israel (que só é rivalizado pela Alemanha no que diz respeito à sufocação de vozes dissidentes), muito mais do que as lágrimas hipocritamente derramadas pela deportação de judeus - muitas vezes pelo retorno anti-. Semitas.

Se dizemos que o Estado de Israel deve ser considerado um paradigma, é porque se tornou um dos meios mais seguros de legitimar, normalizar ou glorificar estas práticas governamentais. Por um lado, ele incorpora as suas formas plenamente aceites, as únicas no Ocidente onde o colonialismo e o racismo ainda podem ser plenamente justificados como tais. Por outro lado, é como o grande laboratório, o centro experimental. O seu papel de vanguarda na contra-insurgência, no controlo populacional, nas tecnologias de vigilância e morte, na repressão e na gestão de supranumerários, tudo isto é perfeitamente assumido pelos israelitas e seus aliados. Não são apenas vozes anticoloniais,  recusados  ​​ou opositores que se referem a ela. Muitos militares e políticos israelitas, bem como líderes empresariais, continuaram a elogiar este know-how, não só na Europa ou nos Estados Unidos, mas na Índia, no Egipto, na Arábia Saudita e até nas favelas do Brasil. Em França, este aspecto é transmitido por muitos actores económicos, políticos, industriais e académicos, que não perdem nenhuma oportunidade de expressar a admiração que este país lhes inspira e o desejo de tomá-lo como modelo.25. São apenas os sionistas de esquerda que fingem perguntar-se por que é que os apoiantes da Palestina se concentram tanto no Estado de Israel. Os pró-israelenses declarados há muito que deixaram de fazer esta pergunta, achando muito mais vantajoso aprofundar e confirmar as razões para este foco.

ALI REBAS

Pesquisador itinerante e interdependente.

 

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Publicada por Pena Preta à(s) sábado, julho 06, 2024