segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ana Paula Dourado - A ausência das cidades, da paisagem e do território nos debates autárquicos

 

OPINIÃO

A ausência das cidades, da paisagem e do território nos debates autárquicos

Ana Paula Dourado 

Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa


Não é claro a quem os debates se dirigem. Aos eleitores em eleições autárquicas não será. Não é aceitável que os debates instrumentalizem as eleições autárquicas. Eles estão nos antípodas das discussões contemporâneas sobre as cidades inteligentes ou as cidades dos quinze minutos


13 SETEMBRO 2021 13:13


A ideia de cidade e de território adjacente, seja campo, paisagem ou natureza, transmitida nos debates televisivos sobre as autárquicas é muito pobre, insuficiente, fica muito aquém dos desejos e necessidades contemporâneos. As cidades que nos oferecem são tudo o que uma cidade não deve ser.


Nos debates, as grandes cidades em que vivemos ou trabalhamos são prisões ou postais turísticos onde só importa ter acesso a uma qualquer habitação, subsidiada de preferência, e transporte para o emprego. As cidades nas perguntas dos jornalistas e nas respostas dos candidatos são locais para dormir ou chegar e partir, ao serviço do trabalho e do consumo. Cidades fonte de escravatura, isentas de estímulos sensoriais, criativos e de socialização para a maior parte dos que aí trabalham. Cidades desligadas do restante território, umas vezes com espaço e tempo definidos, dotadas de início e fim, outras vezes, cidades contínuas, mas sempre amorfas.


Os debates fazem também lembrar algumas das Cidades Invisíveis mas não vivas, de Italo Calvino: Trude, Maurília, Zora(1972). Lisboa e Porto, apesar de tão diferentes entre si, correspondem, no discurso dos candidatos, à Trude de Calvino. Quem os ouve e não os conheça, não sabe se os candidatos estão a falar de Lisboa ou do Porto, nas suas bocas tornam-se cidades uniformes, não-lugares, com iguais letreiros, setas, alamedas, montras, sem tempo ou história para viver e criar, iguais a todas as outras, como Trude. Já as Praças do Município de Lisboa e do Porto, filmadas para os debates, são Maurílias, embelezadas para os turistas as visitarem aqui e agora, desfrutarem do presente, mas gabando a memória dos velhos edifícios. E estas Lisboa e Porto para turistas são também asZoras, artificiais, partituras musicais que estagnam até desaparecerem um dia.


A especulação imobiliária é sem dúvida o problema mais relevante nas grandes cidades europeias, de entre as quais, Lisboa e Porto. A habitação é a primeira condição para manter vivas as cidades portuguesa. E não há dúvida que o transporte está relacionado com as metas climáticas, de mobilidade e de conforto. Mas habitação e transporte, assim apresentados, sem debate sobre a vida e a qualidade de vida, são insuficientes para um conceito de cidade do século XXI. Não são essas as cidades que desejamos e merecemos, independentemente da nossa profissão.


Se os participantes no debate lessem Calvino, saberiam que o assalariado Marcovaldo, há sessenta anos (As Estações na Cidade, 1963), procurava incessantemente a liberdade na cidade, a presença da natureza na cidade, a complementaridade entre ambas através de sinais ou do ecrã gigante do cinema, idealizava e incutia essa idealização aos filhos.


Estamos em 2021, mais ou menos afetados pelos confinamentos sucessivos e cercas sanitárias. E todavia, para efeitos dos debates televisivos e dos programas autárquicos, esta pandemia foi a última e os constrangimentos vividos não se repetirão. O risco de escassez de bens que vivemos, como evitá-la no futuro, o papel da paisagem rural, não são mencionados; não se discute a produção local ou o compre local; ou a cidade dos 15 minutos. Não fazem parte do debate as cidades sem acesso ao campo e à paisagem limítrofe, por terem sido destruídos e excluídos, como se a cidade não os contemplasse e muito menos dependesse deles. E como se as eleições autárquicas não os abrangessem.


Tudo se passa como se o despovoamento ou as aglomerações urbanas, os incêndios, as inundações e a falta de água, a betonização das margens dos rios, o tratamento e tipo de ocupação dos leitos de água, as construções, o tipo de agricultura e a desertificação não fossem um problema de organização das autarquias.


Não é claro a quem os debates se dirigem. Aos eleitores em eleições autárquicas não será. Não é aceitável que os debates instrumentalizem as eleições autárquicas. Eles estão nos antípodas das discussões contemporâneas sobre as cidades inteligentes ou as cidades dos quinze minutos. Songdo, cidade inteligente construída de raiz em Singapura, onde tudo foi pensado: a eliminação do desperdício, a reciclagem automatizada sem sair de casa, máximo conforto aos seus habitantes, hortas incluídas na paisagem. E todavia, cidade invisível, sem gente, cidade morta. Paris, megacidade a ser transformada em múltiplos bairros, tudo ao alcance de quinze minutos, cidade visível.


Numa antologia sobre a Filosofia da Paisagem (2013), Adriana Veríssimo Serrão explica que as paisagens não são quadros de uma exposição, não são cortinas, não devem ser iguais a todas, são fatores de identidade para as suas populações: a ética da paisagem exige o respeito pelos seus aspetos físicos, morfológicos, culturais, históricos.


O mesmo é verdade para as cidades. Cidades estimulando os nossos sentidos e a imaginação, conservadas e pensadas para quem nelas trabalha e habita, inseridas na paisagem e relacionadas com ela e com a natureza, num contínuo. Paisagem e cidade. Gonçalo Ribeiro Telles explicou-nos isto tudo há muitas décadas, a ideia de paisagem global, ainda não tinham começado as catástrofes naturais aqui e lá fora. As suas ideias devem ser estudadas, explicadas, debatidas, contraditadas. Seriamente.


https://expresso.pt/opiniao/2021-09-13-A-ausencia-das-cidades-da-paisagem-e-do-territorio-nos-debates-autarquicos-44984c6b

domingo, 5 de setembro de 2021

António Gedeão - Poema para Galileu


Galileu - retrato na Galeria dos Ofícios de Florença

 * António Gedeão

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios).


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te?

A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… Eu sei…

As margens doces do Arno

às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileu Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita

num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileu,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar

(que disparate, Galileu!)

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação -

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.

 

Pois não é evidente, Galileu?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa

ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileu,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos,

hirtos,

de toga e de capelo

a olharem-te severamente.


Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível

que um homem da tua idade

e da tua condição,

se estivesse tornando num perigo

para a Humanidade

e para a civilização.


Tu, embaraçado e comprometido,

em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites

e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e poisaram, como aves aturdidas

(parece-me que estou a vê-las),

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

 

E tu foste dizendo a tudo que sim,

que sim senhor,

que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado

e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite

louvores à harmonia universal.


E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo,

na própria intimidade do teu pensamento,

(livre e calma),

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e escrevias

para eterna perdição da tua alma.


Ai, Galileu!

Mal sabiam os teus doutos juízes,

grandes senhores deste pequeno mundo,

que assim mesmo,

empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.


Tu é que sabias, Galileu Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer,

homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.


Por isso, estoicamente,

mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias,

a todos os contratempos,

enquanto eles,

do alto inacessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa dos quadrados dos tempos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Carlos Esperança - O Hissope – Conto (10.000 carateres)

* C. B. Esperança

Corria tranquila a vida no convento, cumprido o tempo com orações e refeições frugais a horas certas. Da missa diária encarregava-se o Padre Agostinho, confessor e diretor espiritual, com descrições do Inferno, pormenorizadas e convincentes, e de horrores ainda maiores do Mundo, criado por Deus e abandonado nas mãos dos homens. Falava de um ror de pecados inenarráveis que faziam zangar muito Nosso Senhor, cabendo às monjas recuperar-lhe o humor pela oração e sofrimento.


Nas longas horas de meditação, nas rezas coletivas ou individuais, davam graças por não partilharem esse espaço que o Diretor Espiritual e a Madre Superiora eram únicos a transpor, protegidos pelas orações aflitas com que o convento inteiro os acompanhava.

Nessas horas de vigília mística transferiam a intenção habitual para a proteção dedicada e rezavam com a mesma acendrada devoção com que pediam pelas intenções do Santo Padre, sem se interrogarem quais eram essas intenções, pelo cumprimento da vontade divina, se é que depois de tantos anos de Mundo ainda há vontade que resista, mas isto são pensamentos ímpios, reflexões de quem julga inútil a vida monástica e considera a oração mera ociosidade, sem lhe atribuir a eficácia e bondade sublinhadas por milagres que crentes de todas as religiões confirmam.

Agostinho, tal como o santo de quem tomara o nome, possuía a mesma vontade e determinação de ser casto, esperando também que a idade lhe apaziguasse os desejos. Nutria igual desprezo pelas mulheres que lhe incendiavam os sentidos, tinha a mesma certeza de que eram uma encarnação do diabo, cujo cabelo e voz eram obscenos, inteligente reparo do santo, verdadeiras fontes de pecado que só a oração e o sofrimento podiam evitar. Talvez por isso era tão apreciado pelo prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, de quem tinha o privilégio de receber bênçãos especiais por altura das festividades canónicas.

Às vezes, enquanto administrava a sagrada partícula, adivinhava os corpos que os hábitos escondiam, os desejos que as orações atenuavam, e atormentavam-no pensamentos pecaminosos de que os jejuns e a oração o libertavam. Mas era durante a confissão, onde, por dever do múnus, perscrutava até ao mais íntimo da alma, que a efervescência o apoquentava, sabendo bem que a culpa cabia às filhas de Eva que ali se genufletiam carregando o desejo que os seus conselhos e as regras monásticas reprimiam para maior glória divina.

O Padre Agostinho já durante as confissões da Irmã Maria Imaculada tinha indagado dos pecados cometidos, ao menos por pensamentos e, perante o total desinteresse da penitente pelos ditos pecados, a tinha advertido para estar vigilante, que Satanás manifestava particular predileção pelos pensamentos, janela de oportunidade para tresmalhar a alma de uma devota, mesmo, ou sobretudo, sendo freira e estando particularmente devotada à castidade. De resto, o convento não era refúgio seguro das arremetidas do demo, antes pelo contrário. Ele próprio era testemunha, com o sangue a ferver-lhe perante o louvável desinteresse de Imaculada pela luxúria. E tudo isto apesar de o convento albergar uma relíquia tão rara e cobiçada pelos outros mosteiros – uma pena do Arcanjo Gabriel, muito bem conservada num relicário de ouro cinzelado e com pedras incrustadas, proteção infalível à honra do convento.

A Irmã Maria Imaculada do Sagrado Coração de Jesus Santíssimo, ou Irmã Maria Imaculada, ou Imaculada, simplesmente, deixados cair os apelidos e reduzida a um só nome dos que no ato de professar serviram para sepultar os profanos, rezava abundantemente. Sob os olhos indiferentes de um Cristo cansado das orações e da cruz dependurada num prego periclitante entalado na ranhura dos blocos de granito, rezava diariamente o terço, absorta e genufletida, sem pressa de concluir o rosário que a Virgem recomendara à Irmã Lúcia, em Fátima, para conversão da Rússia e salvação do mundo.

Uma tarde, igual a tantas outras, Imaculada, enquanto rezava, através dum ligeiro vaivém da porta sem trinco, apercebeu-se da sombra que penetrara a cela, de uns braços potentes que a agarraram por trás, da mão que lhe esmagou os lábios, dum corpo que se colava ao seu enquanto outra lhe percorria o hábito e lhe devassava a orografia do corpo esquecido.

Debateu-se em silêncio, esquecida a voz de que já se desabituara, incharam-lhe os olhos, acudiu-lhe o sangue à face, quando descobriu na estranha criatura que a enlaçava a figura do padre confessor que, num ápice, lhe despia apressadamente o hábito a caminho da satisfação das necessidades próprias sem cuidar das alheias. Despojada do hábito e reduzida ao mínimo vestuário, precária resistência à lascívia reprimida, em estado de estupor, suportou a arremetida. Apercebeu-se do corpo a ser derrubado sobre o leito, sentiu a arremetida ignóbil, a violência gratuita, a sanha animal, como quem aceita a penitência, como quem se resigna ao isolamento, ao silêncio e à oração, com o mesmo desprendimento da vida sem sentido, que é fardo virado desejo, que é morte de que se faz a vida monástica, que é renúncia a pretexto da salvação.

Debateu-se primeiro, sim, mas quedou-se depois, desinteressada, com uma dor intensa a penetrá-la, ferro em brasa a percorrer-lhe as entranhas, imobilizada por uma força imensa – como se pudesse fugir, primeiro, ou o quisesse tentar, depois. O ódio que a clausura sublimara foi o sentimento primeiro, logo seguido da indiferença que os movimentos alheios poderiam ter conquistado para a cumplicidade.

Não teve tempo. Pela primeira vez o olhar se detivera no teto da cela para voltar à enxerga onde jaziam fluidos cujo sangue não podia provir das chagas do Cristo metálico e indiferente, imobilizado na cruz da parede.

Na violação da freira pôs o padre a mesma violência perversa do proselitismo. Desta feita não foi a fé que procurou impor, apenas buscou aliviar o cio.

Na metamorfose do êxtase esqueceu a alma cujo destino incerto e distante não interfere na pacificação espiritual que os corpos conquistam na tumultuosa explosão dos sentidos. Mas ali não houve arrebatamento, apenas conquista e saque de um corpo devastado, espada enterrada em bainha que a fúria abriu e devassou, um corpo esmagando a alma de outro na pressa de servir-se.

O abuso sexual foi o resultado das pulsões primárias de um indivíduo anacrónico, que não fizera a catarse da violência.

Agora até o místico tugúrio de anacoreta tinha virado palco de profanas fantasias que o carácter confessional dos parceiros transformara em incestuosas investigações eróticas da geografia de um corpo flagelado. O êxtase parece tanto mais sublime quanto maior tiverem sido a dor, a abstinência, o desejo e o recalcamento. Faltou, na circunstância, o tempo, a sabedoria e a sedução. Não foi a mulher que o sevandija procurou, mas o vaso em que se aliviou.

A SIDA, o medo que lhe infundia, foi o pretexto que a si próprio o padre ofereceu para buscar na freira o consolo cujas consequências temia nas rameiras, a violação o prémio que se atribuiu pelos longos meses de castidade sofrida. Ao menos não adicionou à fraqueza da carne o pecado suplementar do preservativo. Desagradara igualmente a Deus, mas não ofendera tanto o Santo Padre.

Apaziguados os desejos, libertos os humores, a freira, que pensou arrancar a lâmina que a rasgou, acabou guardando entre as mãos a arma que a ofendera, inútil, pegajosa, mole, onde adivinhava um hissope fundido pelo vigor da aspersão. E nem sentia sequer revolta, medo ou vergonha. Começava a deixar-se percorrer por uma estranha sensação de prazer igual à flagelação, parecida com a do cilício, e sem dor, sem sofrimento, sem necessidade de se imobilizar. Ousou mesmo uma discreta massagem como se de uma relíquia se tratasse, relicário igual, quem sabe, a outro muito jovem de onde foi extraído o santo prepúcio.

Deixou vaguear os olhos pelo próprio corpo que há muito não via, pousou-os no outro corpo de que sempre afastara os pensamentos, deteve-se nas diferenças de ambos e pensou que tudo poderia ter acontecido sem violência, devagar, como quem reza, com gestos ritmados como se batesse no peito em ato de contrição, mas o ímpeto que a magoou foi talvez o tributo indispensável à tranquilidade que agora sentia. Quem sabe se não devia ao tumulto o prazer que experimentava!

Não era violenta a clausura que extasiava? Não embriagavam os jejuns? Não fazia a dor dos cilícios percorrer o corpo, todo o corpo, de um doce calor de inebriante felicidade?

A dor que inicialmente sentira, a humilhação que sofrera, a vergonha que a prostrara, foram a fonte de onde começou a jorrar uma ponta de felicidade. Estranhos caminhos da natureza, complicadas formas de ventura, a escrava conformada a procurar o caminho do perdão.

Continuou a segurar a arma que a trespassara, tomava-lhe o peso, acariciava-a e sentiu que a coisa mole ganhava dureza, assumia forma, tomava cor. Sentiu-se confusa, fechou os olhos, deixou-se escorregar para o chão e aguardou. Outra vez a dor e o fogo a percorrerem-lhe as entranhas, agora já sem violência, um corpo sobreposto em movimentos ritmados, a dor a esbater-se, o próprio corpo a ensaiar o acompanhamento do outro, uma indizível felicidade a percorrê-la, uma sensação idêntica à da libertação do cilício, sem pensar em intenções do Papa, contrações incontroladas, prazer a jorros, um êxtase sublime, como se naquele momento, sozinha, tivesse libertado o mundo de todos os pecados.

Perdeu a noção do tempo. Ao ver o seu Diretor Espiritual abandonar a cela sem uma explicação, sem uma palavra, confusa, esmagada, teve ainda forças para lhe sussurrar: venha mais vezes, volte...

Na manhã seguinte seguiu com o costumado interesse a santa missa que o mesmo padre celebrava. Sentia os olhos dele cravados em si e, à força do hábito, continuou a olhar o chão. Doía-lhe o corpo cansado de todos os esforços da véspera acrescidos com a dificuldade de disfarçar da cela os sinais de sangue e outros fluidos.

Na confusão do cérebro todos os movimentos eram agora, não para glorificar Deus e o seu divino nome, mas gestos de estimulante lubricidade. Mesmo o turíbulo, no seu vaivém, lembrava-lhe o corpo cujos movimentos esmagaram o seu, mais lentos, é certo, e, talvez por isso, Imaculada sentia percorrê-la uma estranha sensação de felicidade e um calor deslumbrante que a transportava ao êxtase. Lembrou-se das descrições de Santa Teresa e sentiu em si as mesmas emoções, a mesma onda de felicidade que a inundava, duvidosa de ser ou não ser o Divino Mestre que a percorria nas fantasias bem humanas que haviam despertado de forma incontrolável.

Enquanto o oficiante celebrava não eram já as palavras pronunciadas que lhe ouvia, mas a língua que as articulava que sentia. Os conselhos de sempre traziam apenas o bafo quente que lhe envolvia o pescoço. A bênção que lançava devolvia-lhe os dedos que a descobriram.

Imaculada sentia-se transportada ao céu por que tanto tinha implorado. Rezava agora com paixão, sem intenções prévias, cada vez mais convicta de que esse dia traria de novo a visita privada do confessor que talvez passasse a confessado.

E assim foi. A cela deixou de ser o espaço de reflexão sem sentido para se converter na antecâmara do desejo. Perdeu o ar frio e funesto para ganhar a dimensão dum ninho fofo e proporcionar a visão de uma centelha do paraíso.

À mesma hora do dia anterior, a preceder as vésperas, Imaculada viu claramente que não era uma sombra que penetrara a cela. Era o homem que esperava. O ascetismo místico tinha ganhado uma nova dimensão e ia ser temperado pela explosão simultânea dos fluidos em reparadores espasmos fruídos sofregamente, sobre o catre, ou no chão, no exíguo espaço de uma cela.

E não mais pediu ao Padre Agostinho para voltar. Dia após dia o hissope vinha mergulhar suavemente na caldeirinha para aspergi-la vigorosamente no momento certo, enquanto ambos, à medida que exultavam com as delícias da alcova, se foram esquecendo do martírio do seu Deus.

In Pedras Soltas (ed. 2006) – ortografia atualizada

Ponte Europa / Sorumbático

AFIXADO POR: CARLOS MEDINA RIBEIRO ÀS 10:38

http://sorumbatico.blogspot.com/2021/09/o-hissope-conto-10000-carateres.html

José Simões - O partido novo da gente velha


* josé simões

Diz o candidato do Ilusão Liberal à câmara de Setúbal no Diário de Notícias de hoje que "em 47 anos foi só perder". Fazendo uma contas rápidas de cabeça: 2021 - 47 = 1974, o ano do 25 de Abril, e conclui-se que ele "Chega" ao tempo em que o presidente da câmara era nomeado pelo poder central fascista, o tempo em que a família valia na cidade pelo nome, em que não havia cá chatices com eleições e democracias. "Nos anos 70, éramos a terceira cidade do país". Cercada de bairros de lata por todos os lados, excepto pelo lado do rio, onde estavam os pés descalços que iam ao mar quando fazia bom tempo, 4.ª classe para os filhos e ala deitar rede ou aprender um ofício, que davam as mulheres às fábricas de conservas e divertiam-se a falar de bola nas centenas de tabernas que floresciam na cidade e, quando o paizinho do nome de família passava na rua, tiravam o boné, faziam uma vénia e diziam "bom dia sô tôr", que o respeitinho, que era muito bonito, perdeu-se todo com a merda do 25 de Abril, que a escumalha agora até tem canudo e não se inibe de opinar sobre a cousa pública. O partido novo da gente velha ou o novo partido da velha gente, vai dar no mesmo.

, em 01.09.21
[A imagem é minha, propositadamente descolorida]

https://derterrorist.blogs.sapo.pt/o-partido-novo-da-gente-velha-4695933

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Valdemar Cruz - 100 objetos que contam histórias de um século de vida do PCP

 SOCIEDADE

 * Valdemar Cruz, Jornalista



Na noite de 28 de fevereiro de 1935, no Barreiro, a luz foi cortada e, protegidos pela escuridão, militantes comunistas espalharam propaganda em diversas ruas. Numa ação espetacular, içaram oito bandeiras vermelhas com a foice e o martelo

Da caixa de fósforos da casa clandestina ao jogo de xadrez feito com pão, da bicicleta do funcionário ao violino construído na prisão, da marmita para esconder o “Avante!” à máquina de escrever silenciosa, da bandeira hasteada no Barreiro em 1935 à primeira pedra arremessada no ataque ao Centro de Trabalho de Aveiro em 1975, o livro “Vozes ao Alto!” conta 100 histórias contidas na história do PCP. Neste artigo, contamos - e mostramos - uma vintena delas

2 SETEMBRO 2021 12:27


Éum mergulho profundo num mar de histórias materializadas a partir das narrativas contidas nos objetos mais díspares e inimagináveis. Intitulado “Vozes ao alto!”, o livro a lançar esta sexta-feira na festa do “Avante!” propõe-se, com base num intenso trabalho de recolha de objetos, alguns óbvios, outros de presença e importância inesperada, contar os múltiplos caminhos seguidos pela vivência dos comunistas portugueses durante um século.

Dividido em três períodos distintos, começa em 1921 e abrange os primeiros cinco anos de existência do PCP, numa legalidade precária que corresponde à crise final da Primeira República. Segue pelos 48 anos de resistência na clandestinidade, entre 1926 e 1974. E conclui com os já 45 anos de vivência em regime democrático.

Projeto coletivo concretizado através de financiamento colaborativo ao qual aderiram centenas de pessoas através das redes sociais, o livro foi elaborado com fotografias dos premiados Adriano Miranda, Egídio Santos e Paulo Pimenta, e textos de Cristina Nogueira, doutorada em Ciências da Educação e investigadora de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Isabel Nogueira, psicóloga, Maria Alice Samara, doutorada em História Institucional e Política Contemporânea, e Vanessa de Almeida, licenciada em História e com mestrado em Antropologia. Não são todos comunistas, ou militantes do PCP. Como escreve o historiador Manuel Loff no prefácio, “não é preciso ser-se militante comunista para partilhar uma parte da cultura da sociabilidade comunista, mesmo que apenas, como fazem todas/os estas/es autoras/es, na afirmação pública do reconhecimento das motivações e dos valores que fundamentaram a conceção e a preservação de cada um destes objetos”.

UM VESTIDO EM CAXIAS
Começaram a envolver-se nesta aventura aos poucos, inspirados por fragmentos, ideias dispersas, curtas passagens de leituras diversas, como quando alguém chamada Conceição disse ter feito um vestido em Caxias. Ou a partir dos múltiplos significados e inimaginável importância de um objeto tão comum como uma caixa de fósforos, percepcionada durante a leitura de um artigo assinado por uma “Leonor”, publicado em “A Voz dos Camaradas”.

Depois começam as perguntas. Por exemplo, porque era tão importante uma caixa de fósforos numa casa clandestina? “Leonor” era Margarida Tengarrinha e dá a resposta no tal artigo, que se intitulava “A caixa de fósforos do Partido”. Ao referir-se àquele objeto afinal tão discreto, Tengarrinha, citada no livro, escreveu: “Acreditem que isto não é dar excessiva importância aos objetos, nem mesmo querer tornar simbólica uma questão de pormenor. Mas a ‘caixa de fósforos do Partido’ representa ainda hoje para mim a disciplina constante que se educa nas pequenas como nas grandes coisas”.

O PRIMEIRO COMUNICADO
A viagem de um século proporcionada por este livro é impressionante. Abre com a reprodução de uma folha de papel de 104 por 76 centímetros encontrada na Torre do Tombo. É uma proclamação intitulada “Ao País”, data de 1921 e é tido como o primeiro comunicado do PCP. Foi apreendido pela polícia na algibeira de um jovem barbeiro oriundo do Porto, José Carlos Rodrigues Frias, às 7 horas da manhã do dia 13 de março de 1922 numa morada na Calçada de S. Vicente, em Lisboa.

Depois, é um constante navegar por uma verdadeira galáxia de objetos, alguns icónicos, outros apenas reflexo de um quotidiano vernacular. Podem incluir o cartão de militante, datado de 1925 e ainda chamado “bilhete de identidade”, a bandeira do PCP hasteada no Barreiro no dia 28 de fevereiro de 1935, depositada na Torre do Tombo e referente a um processo em que os réus são acusados do crime de "propaganda revolucionária". Naquele dia, pelas 22h15, é cortada a luz elétrica na vila e impõe-se a escuridão total. Militantes comunistas aproveitam para espalhar materiais de propaganda e são içadas oito bandeiras vermelhas, uma delas de grandes dimensões, no topo da chaminé de 36 metros de altura das Oficinas Gerais dos caminhos de ferro.

UM VIOLINO CONSTRUÍDO NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
Há objetos inusitados, como um violino construído no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, por um comunista da Marinha Grande, algures entre 1936 e 1953. Se há um elemento icónico da clandestinidade comunista é a bicicleta utilizada por funcionários nas deslocações pelo país. Também lá está representada, tal como uma das brochuras mais míticas de quantas foram criadas pelo PCP: “Se Fores Preso, Camarada...”. O livro reproduz a primeira edição, de 1947, com capa azul e a foice e o martelo. Não é indicado o autor, mas sabe-se ter sido Álvaro Cunhal a perceber a necessidade absoluta de escrever um texto com recomendações para melhor ser enfrentada a duríssima prova da prisão e tortura. Como se explica no livro, “a leitura e a discussão desta obra eram obrigatórias. Nesta revela-se aquilo que o preso devia esperar, os métodos de tortura aplicados, bem como as alucinações daí resultantes. Descrevem-se os espancamentos ‘durante horas e horas a cavalo-marinho com grossas tábuas’, os ‘apertos de testículos, queimaduras com faíscas elétricas e com cigarros, pancadas brutais nas plantas dos pés descalços’, a tortura do sono, a estátua, assim como a incomunicabilidade”, a representação de papéis pela PIDE, com o polícia bom versus o polícia mau, bem como as permanentes ameaças e calúnias.

Por tudo isto, a brochura termina com um apelo ao orgulho do resistente: “Se fores preso, camarada, e souberes vencer as torturas e as horas difíceis, e se souberes honrar o teu nome de comunista, e se não prestares à polícia fascista, a esses inimigos do povo, quaisquer declarações prejudiciais ao Partido -, sentirás uma profunda alegria pelo teu próprio comportamento, ficarás profundamente satisfeito pela tua firmeza, pela confiança em ti próprio, e pela confiança e consideração do Partido, dos teus camaradas, da classe operária, dos trabalhadores, de todos os portugueses honrados.”

UMA COISA ESTRANHA
Os autores deixam bem claro não pretenderem com este livro elaborar uma história do PCP. Quando muito, serão contributos para uma melhor compreensão do universo comunista ao longo de vários períodos históricos. Na sua diversidade, os objetos representados – e são estes como poderiam ser muitos outros – abrem espaços de reflexão, não apenas para a história do PCP, como para a do mundo em que o partido nasceu, cresceu e se solidificou. Como escreve Manuel Loff, “estes cem anos confundem-se inevitavelmente com a história do país e do mundo em que o PCP existiu e existe, mas para o observador desatento, muito do que aqui se mostra, se explica, se recorda, pode parecer ter uma natureza estranha – porque, á luz da cultura política dos últimos quarenta anos, a clandestinidade é estranha, é estranha a decisão de dedicar uma vida inteira à luta política (quer a clandestina, quer a da democracia, como muitos comunistas, desde há quase meio século dedicam), estranha é a experiência da prisão política, que fica absolutamente longínqua da imaginação que a grande maioria de nós e dos nossos contemporâneos tem do que faz parte do campo do possível, do provável na vida colectiva dos portugueses”.

A HISTÓRIA DE UMA PEDRA DE CALÇADA
Há objetos, sublinha o historiador “que quase marcam a continuidade entre dois ciclos de resistência – a resistência antifascista contra a ditadura e a resistência antifascista face á contrarrevolução. Em ambas esteve o PCP na primeira fila. É aqui que aparece uma pedra da calçada” conservada por um militante de Aveiro como prova material do ataque aos Centros de Trabalho (CT) do PCP perpetrados, sobretudo no norte do país, no Verão Quente de 1975, com destruição de Centros de Trabalho, ataques bombistas, assassinatos.

Esse é um passado, sublinha Loff, “de que quase não se fala quando se faz a história da Revolução Portuguesa. Aquelas pedras da calçada, eram pedras preparadas para matar, como se escreve no livro e constituíam apenas um dos elementos do imenso manancial de artefactos usados, escreve o historiador, pelo sortido mundo da contrarrevolução, “nessa bizarra (mas reveladora) coligação que ia da extrema-direita ao PS, passando pela hierarquia da igreja católica, ex-combatentes organizados e caciques locais”. Tentaram, e em muitos casos conseguiram, destruir “centenas de espaços que os comunistas e militantes de outros partidos e de sindicatos de esquerda tinham transformado nas suas sedes políticas e espaços de convívio”.
 
O livro tem duas formas de leitura, ou duas capas. A primeira, a azul, abrange a curta existência legal, entre 1921 e 1926, e o período de clandestinidade, de 1926 a 1974. A capa vermelha remete para o tempo da liberdade, entre 1974 e 2021

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https://expresso.pt/sociedade/2021-09-02-100-objetos-que-contam-historias-de-um-seculo-de-vida-do-PCP-56e9f6c0 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Florbela Espanca - Ser poeta

* Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Carlos Coutinho - Poesia

(Carlos Coutinho, in Facebook, 01/08/2021)

Florbela Espanca, num soneto muito conhecido e até muito cantado, proclama que ser poeta “é ter asas e garras de condor”, questão que monopolizou a conversa de duas senhoras minhas desconhecidas, esta manhã, num café do meu bairro, onde raramente vou.

Aposto que são professoras, porque ambas tinham livros sobre a mesa, embora só uma folheasse de vez em quando um grosso caderno de argolas, precisamente aquela que mastigou o citado verso de Florbela e afirmou:

– Ainda não sei se, neste caso, não teremos aqui um poeta, em vez de uma poetisa… Como agora está na moda dizer…

– Que ideia! Lê o soneto desde o princípio.

Silêncio.

–. Sim. Nenhum macho seria capaz de escrever que ser poeta “é condensar o mundo num só grito”.

– Hum… os machos também sabem mentir.

Senti-me abrangido pela ofensa e fiquei sem respiração quando ouvi:

– Olha este: bla, blá, blá “quando os teus mamilos túmidos como cerejas de veludo tépido rastejam devagarinho no meu peito atento, descem de rojo pelo meu ventre e só me param nestas virilhas sôfregas, absolutamente se aninhando nelas, que finalmente lhe dão guarida …”

– Há melhor. Olha este: “Existe uma Valquíria que me faz voar sobre obstáculos irremovíveis. Como é bom sentir-lhe o peso!”

– Aí estão dois fragmentos que podem ser muito expressivos, mas nada de poético se deteta na sua construção… O que também está na moda. Gosto mais do tempo em que se escrevia assim: “Conheço o sal da tua pele seca…”

Olá, pensei, isto é Sena! E pus-me â escuta. Só que, tal como, alguns momentos antes, eu não tinha conseguido reter as palavras todas do pretenso poema e apenas me é possível transcrevê-las agora, porque a dona do papel o deixou cair ao chão inadvertidamente e se esqueceu de o apanhar quando foi embora, também o saboroso texto de Jorge de Sena me escapava em grande parte.

Mas eu sabia onde encontrá-lo e, quando cheguei a casa, corri para a estante, tirei a “Poesia-III” e não demorei a ver na pág. 236 o que pretendia. Li, saboreei e não me coíbo a transcrever aqui as duas primeiras e as duas últimas estrofes:

“Conheço o sal da tua pele seca

depois que o estio se volveu inverno

da carne repousando em suor nocturno.

“Conheço o sal do leite que bebemos

quando das bocas se estreitavam lábios

e o coração no sexo palpitava.

(…)

“Conheço o sal da tua boca, o sal

da tua língua, o sal de teus mamilos,

e o da cintura se encurvando de ancas.

“A todo o sal conheço que é só teu,

ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,

um cristalino pó de amantes enlaçados.”

Quem quiser conhecer o poema na íntegra faça como eu, que estes esforços não fatigam e dão saúde.


https://estatuadesal.com/2021/08/05/poesia/

domingo, 1 de agosto de 2021

João Miguel Tavares - Otelo e o princípio de Peter


OPINIÃO

Muitos disseram que Otelo Saraiva de Carvalho foi uma personagem complexa, contraditória, instável. Todos somos, quando não temos a menor ideia do que estamos a fazer.

*  João Miguel Tavares
27 de Julho de 2021, 0:00

Eram todos muito jovens. Às vezes esquecemo-nos disso. Salgueiro Maia tinha 29 anos. Vasco Lourenço tinha 31. Otelo era um pouco mais velho, tinha 37. Jaime Neves tinha 38. Ernesto Melo Antunes, que tantas vezes apareceu como a voz da experiência e da razão dentro do MFA, tinha 40 anos. Ramalho Eanes, 39.

As melhores tropas estavam em África. Os soldados revoltosos tinham pouco mais do que a instrução militar. O 25 de Abril de 1974 foi feito por miúdos, e por jovens oficiais que tinham passado várias vezes pela guerra, mas nunca por uma revolução. Não sabiam como se fazia. Ou melhor: sabiam como se derrubava uma ditadura, e derrubaram-na com grande coragem, brilhantismo e contenção – Abril foi, nessa medida, um empreendimento impressionante e digno da nossa maior gratidão –, mas não faziam a menor ideia de como se erguia uma democracia. O talento para destruir nada tem a ver com o talento para construir. É a diferença entre uma marreta e um estirador, e Otelo nunca teve talento para a arquitectura.

Muitos disseram que Otelo Saraiva de Carvalho foi uma personagem complexa, contraditória, instável. Todos somos, quando não temos a menor ideia do que estamos a fazer. O princípio de Peter explica isso: numa estrutura hierárquica, todos os funcionários tendem a subir até ao seu nível de incompetência, e a competência de Otelo terminou no dia 25 de Abril. A 26 de Abril, ele já era incompetente para a sua função. Infelizmente, demorou demasiado tempo a percebê-lo, e desse equívoco nasceu muito sofrimento e muitas mortes.

Otelo cometeu demasiados erros na época do COPCON, e errou de forma catastrófica na época das FP-25. Podia ter sido apenas um herói, mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a inconsciência das suas próprias limitações

Vasco Lourenço escreveu um texto bonito sobre o seu amigo no PÚBLICO, onde disse: “Hoje, não teremos o Portugal com que cada um de nós sonhou, mas temos o Portugal que os portugueses têm sido capazes de construir. Em Liberdade e em Democracia.” Está muito bem dito. Por um lado, ninguém podia impedir os capitães de Abril de sonhar, muito menos em 1974 e 1975. Por outro, era inevitável que os sonhos de uns se tornassem nos pesadelos de outros, porque todas as grandes utopias estão pejadas de cadáveres. Salgueiro Maia, mais por temperamento do que por experiência, sabia-o bem, regressou a casa, e é hoje a única e verdadeira face apolínea de Abril: o capitão que após fazer o seu trabalho voltou para o quartel, onde morreu modestamente, ainda novo, consciente dos perigos das aventuras políticas extremadas e das tentações de engenharia social.

Vasco Pulido Valente disse o essencial sobre Otelo em 1979, e só precisou de quatro palavras: “Viva Otelo! Na reserva.” Sempre muito cheio de si e convencido das suas qualidades, Otelo não seguiu o conselho. A probabilidade de ele ter alguma competência para liderar o país seria semelhante à de Mário Soares ser um mestre a conduzir colunas de chaimites. A megalomania de Otelo impediu-o de perceber isso.

Em pleno Verão de 1975 – era ele, então, o “general Otelo Saraiva de Carvalho” –, andou entretido a fazer viagens de Estado e de estudo pela Suécia e por Cuba. Estranhamente, preferiu o modelo cubano para Portugal, e à chegada a Lisboa declarou: “Parece que se vai tornando impossível fazer uma revolução socialista na totalidade pela via pacífica.” Foi o tempo em que ameaçou colocar “os contra-revolucionários no Campo Pequeno”. Otelo cometeu demasiados erros na época do COPCON, e errou de forma catastrófica na época das FP-25. Podia ter sido apenas um herói, mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a inconsciência das suas próprias limitações.

https://www.publico.pt/2021/07/27/opiniao/opiniao/otelo-principio-peter-1971905
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João Garcia - Contas ainda por ajustar com o 25 de Abril

* João Garcia 

Conta a História pouco divulgada que houve um ministro inglês que deu ordens aos seus militares para lançar gás sobre os insurrectos inimigos. Acreditava que apenas o homem branco tinha condições para governar e que a guerra química contra os “selvagens” era necessária. Elogiou os seus militares por terem realizado um enorme lançamento de bombas de gás, pois assim “os árabes e os curdos” ficaram a saber “o que significa um verdadeiro bombardea­mento”. Para ele, Gandhi era “um faquir sedicioso”; empolgado, aconselhou os seus generais a “deitarem fogo à Europa” quando o seu país entrou na Segunda Guerra Mundial.

Também houve um general francês que conduziu uma guerra em que morreram 300 mil argelinos defensores da independência e que tudo tentou para esmagar o hoje endeusado Maio de 68.

Ambos, Churchill e De Gaulle, ficaram na História, não por estes atos raramente recordados, mas pelos enormes feitos de terem derrotado Hitler e libertado a França. Ficaram pelos feitos maiores. Como deve ser.

Spínola, o fundador do MDLP — movimento que tinha o ELP como braço armado e foi causador de muitas mortes e variadíssimos casos de violência —, desertou de Portugal com mate­rial militar. Nunca foi julgado (apenas interrogado durante umas horas em Caxias). Fala-se dele por ter defendido uma solução política para a Guerra Colonial e pelo papel que teve nos primeiros tempos de democracia — não pelo demais.

E ainda bem que assim é. Fica-se na História pelos grandes contributos. Devem omitir-se ou minorar os erros? Nada disso, primeiro para não falsear a História; depois para, por mera pedagogia, se perceber que até grandes homens dizem e fazem enormes asneiras. Quando se elogia o pensamento de Adriano Moreira, ex-ministro de Salazar, ou a estreita ligação de Marcelo Rebelo de Sousa a Caetano, devem sempre recordar-se estes aspetos? Não me parece.

Mas há um homem que muitos sentem necessidade de associar ao pior que fez. Otelo, obviamente. Mesmo entre os mais comedidos, são frequentes as referências aos excessos, esquecendo que, na época, certamente também os cometeram. Muitos dos que então se envolviam na política fizeram e disseram coisas que hoje os fariam corar. Foram menores os seus crimes? Talvez, mas também foram muito menores os seus feitos.

Portugal vive mal, muita da esquerda incluída, com os homens do 25 de Abril. Só dois foram conselheiros de Estado por nomeação presidencial. Contam-se pelos dedos os que tiveram cargos de destaque no Estado. Que eu conheça, há apenas um memorial, em Grândola, com nomes de homens de Abril e, no país, julgo que só foi erigido um “monumento aos capitães de Abril” em Castro Verde. Porquê? Porque, na esmagadora maioria, eles não pertenciam, e poucos entraram, aos aparelhos partidários e derrubaram a ditadura sem o beneplácito das organizações políticas. Os partidos tendem a esquecer quem teima em ficar de fora.

Os capitães de Abril toleram-se, mas não se homenageiam. Não caíram na boa graça das elites pensadoras nem dos partidos. Não lhes pertenciam

Há um homem, José Alves Costa, que o jornalista Adelino Gomes tirou da ignorância nacional. Quem é? Um heroico cabo apontador que, apesar de ter ouvido o seu brigadeiro dizer-lhe “ou dá fogo ou meto-lhe um tiro na cabeça”, se recusou a disparar contra as tropas de Salgueiro Maia, estacionadas à sua frente, a cortar a Rua do Arsenal. Um ato que levou o capitão de Abril a afirmar: “Aqui é que se ganhou o 25 de Abril.” Não deve haver, sequer, uma rua cabo apontador José Alves Costa. Na internet, as referências começam e acabam em 2014, ano de lançamento de “Os Rapazes dos Tanques”, de Alfredo Cunha e Adelino Gomes.

Temos um Aeroporto Cristiano Ronaldo mas nem um memorial à altura daqueles a quem devemos a liberdade, que a conquistaram e devolveram, que vão desaparecendo e sendo esquecidos. Não há um mural que os liste e imortalize. E luto nacional não haverá por qualquer deles, a manter-se a abstrusa explicação de Marcelo Rebelo de Sousa de que a falta de antecedentes impede homenagens futuras. Como se esta decisão não coubesse ao Governo e Presidente do momento e exigisse especial coerência. Por Sá Carneiro, o Governo da Aliança Democrática decretou cinco dias.

Os que nunca sentiram a falta da liberdade não percebem o que receberam; os que a sentiram parecem mal-agradecidos. Sentem-se melhor com a ingratidão do que com os capitães de Abril.

Jornalista, antigo membro da direção do Expresso e ex-diretor da “Visão”

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2544/html/primeiro-caderno/opiniao/contas-ainda-por-ajustar-com-o-25-de-abril


Paulo Moura - Se isto não é um herói OTELO SARAIVA DE CARVALHO


Ele não escolheu o protagonismo. A revolução era urgente, mas ninguém a fazia. Quando era preciso agir, mas, por medo, inépcia ou calculismo, ninguém agia, ele foi herói. Depois continuou a desempenhar o seu papel, sem perceber que o pano já tinha caído. Eis os factos, segundo uma longa entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho.

* Paulo Moura
24 de Abril de 2009, 9:09


Otelo: "Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões" ADRIANO MIRANDA

Nevoeiro cerrado, Lisboa, rotunda da Encarnação, 6h30 da manhã de 16 de Março de 1974. Otelo está no meio da praça a ver se a Revolução acontece sozinha. Vai a uma cabine fazer um telefonema, sai e dá alguns passos perscrutadores no terreiro vazio. Tem uma camisola de lã castanha por cima do uniforme e uma pistola 6.65 no coldre, carregada. Olha em redor. Estacionado na berma está um Ford Capri cor bordeaux, de capota negra. Um tipo de gabardina e chapéu fuma um cigarro, de pé, junto à porta aberta do carro.

Quem era?

“Pide, claro”, diz Otelo, identificando um agente da polícia política.

O inimigo já sabia de tudo. Mais do que o próprio Movimento. Fora alertado e ia reagir. Mas contra quê? Uma coluna militar vinda das Caldas da Rainha devia estar a chegar à rotunda, mas todas as outras iniciativas tinham falhado. Que iria acontecer?

“O pide estava ali parado em posição estratégica”, conta hoje Otelo Saraiva de Carvalho, 73 anos, no seu apartamento de Carnaxide. “E eu vi logo que se preparava um grande granel.”

Otelo, 37 anos, um homem bonito, atlético, determinado e corajoso, um líder nato, no auge da sua vitalidade, não é mais do que um fantasma no meio da praça. Ainda não experimentou a sua força. Está à espera que as coisas aconteçam. Perdeu o controlo da situação. Está à espera que o regime caia com um sopro. Está a espera de um banho de sangue. Está à espera de ser preso. De que está ele à espera?

Moçambique, anos 40. Cumprindo ordens da mãe, Otelo leva o empregado doméstico da família à administração do concelho. Ao lavar a loiça, o rapaz partiu um copo, e portanto tem de ir ao sipaio levar umas palmatoadas nas mãos.

“Não vais nada. Eu não te levo lá”, diz, pelo caminho, Otelo ao criado, que é mais velho do que ele.

“Mas eu tenho de aparecer com as mãos inchadas.”


Foto ADRIANO MIRANDA  “Ó pá, sei lá, esfrega-as com urtigas.”

Otelo é amigo do criado, bem como dos outros miúdos negros do bairro onde vive, em Lourenço Marques, e com quem costuma jogar futebol. Mas se o criado se desleixa no trabalho, ou bebe uns copos a mais, é submetido a formidáveis sessões de pancada do pai de Otelo.

“De repente, aquela fraternidade que existia num jogo de futebol de rua transformava-se num distanciamento, quando o preto tinha de levar uns tabefes, ou um arraial de batatada”, recorda Otelo. E quando punha em causa o racismo vigente, respondiam-lhe que na África do Sul ainda era pior. Para o confirmar, meteu-se num comboio e viajou, durante 18 horas, até Joanesburgo. Tinha 17 anos. “Era chocante. Havia filas para europeus e para não-europeus. Em Moçambique o racismo era semelhante, embora mais encapotado.”

Otelo tornou-se rebelde. Só pensava em fugir, em libertar-se. No liceu, admirava um grupo de colegas mais velhos, de que faziam parte os irmãos Fernando e José Gil, Eugénio Lisboa, Hélder Macedo, Rui Knopfli, Rui Guerra. Eram brilhantes, gostavam de classificar o liceu Salazar como “o maior centro intelectual comunista da África Austral”, e costumavam reunir-se em casa do Fernando Gil, para discutir política. Por essa razão, começaram a ser presos e interrogados pela PIDE, que rondava o liceu. Otelo não se conformava. Adolescente, tentou visitar os amigos na prisão. Mas não o deixaram entrar.

“Eu só pensava em conhecer o mundo, abrir horizontes. Queria ser actor, para poder desempenhar uma multiplicidade de papéis. Estudar em Nova Iorque, no Actor's Studio, onde estavam o Marlon Brando, o Montgomery Cliff, o Paul Newman.”

O avô Otelo
O avô paterno de Otelo foi actor. Era um homem baixinho e gordo, e por isso nunca conseguiu representar outros papéis que não fossem os de mordomo. E no entanto formou-se com 20 valores no conservatório de arte dramática. Otelo Augusto Fernandes de Carvalho tornou-se empresário de teatro. Criou a sua própria companhia, e actuou no Salão Foz, em Lisboa. Mas em 1930 foi em tournée para Angola, onde, aos 44 anos, morreu subitamente de um AVC. Deixou em situação económica precária a mulher e três filhos. O mais velho, que sonhava vir a ser oficial da Marinha, foi obrigado, aos 17 anos, a trabalhar para sustentar a mãe e os irmãos. Escreveu a um tio que era inspector superior dos Correios, Telégrafos e Telefones de Lourenço Marques, e ele conseguiu-lhe um emprego como aspirante dos correios.

Nunca recuperou da frustração e foi talvez por isso que quando o filho Otelo quis seguir a carreira dos palcos, como o avô Otelo, se recusou a ajudá-lo ("de mim, não levas um centavo!"), o que levou o jovem actor em potência a optar pela carreira militar, a conselho do avô materno.

Este fora um homem bem-sucedido. Assentou praça como soldado e ofereceu-se como voluntário para a Índia. Foi lá que casou e teve duas filhas. Fez a sua carreira no chamado Exército Ultramarino, foi colocado em Moçambique. Com 16 anos, a filha mais velha conheceu o pai de Otelo, de 21, funcionário dos Correios, casou com ele, em Julho de 1934, e deixou de estudar. Otelo nasceu em Lourenço Marques em 1936, “fruto das andanças do Império”.

Quando, em 1955, terminou o liceu, candidatou-se à Escola do Exército, porque o avô materno o entusiasmou com os valores da vida militar: a coragem, a frontalidade, a camaradagem, a lealdade.

“Filho, escolhe a vida militar, porque vais sentir-te bem. É uma vida disciplinada, mas tu vais adaptar-te. Porque, cá fora, a vida civil é uma selva de competição, de invejas, com cada um a querer passar à frente do outro”, explicou o avô.

Otelo acreditou, e ingressou na vida militar, apesar de, um ano antes, ter chumbado na milícia da Mocidade Portuguesa. “Não possui a mínima vocação militar”, fora a apreciação final.

“Há em mim uma série de contradições imensas”, confessa Otelo. Em alternativa ao teatro, escolheu as Forças Armadas, como meio de libertação. “Eu tive na altura a noção de que só ali poderia fazer alguma coisa para combater o poder. Porque era ali que estavam as armas. E só com armas seria possível fazer alguma coisa.”

O professor preso
Na Escola do Exército, organizou um núcleo de teatro, como já tinha feito no Liceu Salazar, em Lourenço Marques. Foi aluno excelente nas áreas de comando, regular nas disciplinas teóricas.

Numa prova oral de Matemática, o mestre-examinador major Alcides Oliveira chama o aluno Otelo ao estrado. Este, que desde que começou a namorar colocou os livros completamente de lado e já reprovou um ano, faz uma prova miserável.

“Bem, Saraiva de Carvalho, vamos considerar a coisa assim: eu sei que você faz para aí umas imitações, entre as quais a minha. Pois vou conceder-lhe uma última oportunidade. Você vai imitar-me. Se eu gostar da imitação, dou-lhe 10. Se não gostar, você chumba.”

Quando Otelo termina, Alcides Oliveira aplaude. “Está perfeito. Tem 10. Passou.”

Foi com outro professor, o major Augusto Pastor Fernandes, que percebeu que as tentativas dos militares para derrubar o regime já tinham começado.

11 de Março de 1959. Vai realizar-se o jogo de basquete da equipa da Academia Militar (a que Otelo pertence) contra a do Instituto Superior Técnico, a contar para o Campeonato Universitário. Para a manhã seguinte está marcado um teste da disciplina de Tiro de Artilharia e não vai haver tempo para estudar. O jogo, obviamente, é mais importante e Otelo pede ao chefe de curso que telefone ao professor, implorando pelo adiamento do ponto.

Pastor Fernandes atende o telefone.

“Adiar? Com certeza. O ponto fica adiado, obrigatoriamente, sine die. Isto porque, neste momento, estão aqui em minha casa dois agentes da PIDE que me vão levar preso para Caxias, ou para a Trafaria, ainda não sei bem.” Pastor Fernandes, que participou na chamada Intentona da Sé, será “deportado” para Timor, e depois passará à reserva.

“Nós gostávamos muito dele. Era um homem de grande envergadura moral e intelectual. Foi um choque para mim.” No ano anterior, Humberto Delgado fizera a sua campanha e Otelo, aproveitando a boleia, num Citroën 2 cv, de duas francesas amigas da namorada, viajou até Paris. A viagem demorou uma semana, apesar da pressa que Solange e Michelle tinham em chegar, para votarem a favor da autodeterminação da Argélia no referendo organizado por De Gaulle. As conversas versaram quase sempre sobre isso, sobre a democracia dos países europeus e sobre o regime ditatorial português. Otelo sentiu-se humilhado por ser estudante militar num país de regime fascizante.

“Os militares são a principal base de apoio do regime”, diz uma.

“Isso não é bem assim. Nós, os militares, não estamos assim tão submissos ao regime”, responde Otelo.

“Mas como, se vocês são o derradeiro bastião da ditadura?”, argumenta a outra. E Otelo contra-ataca:

“É dentro da instituição militar que eu tenho a possibilidade de derrubar a ditadura.”

“Isso nunca vai acontecer, porque vocês são a última defesa que o regime tem, face a uma insurreição que possa surgir.”

“Não”, insiste Otelo, tentando convencer, ao mesmo tempo, as raparigas e a si próprio. “Eu vou ser militar para derrubar a ditadura.” Três anos depois será enviado para Angola, para defender a pátria dos terroristas.

E é lá que, pela primeira vez, toma contacto com o Portugal autêntico. “As condições terríveis em que vivíamos levavam a criar laços de estreita proximidade com os soldados, que eram gente do povo. Camponeses, operários. Comandando o meu pelotão, tinha, por vezes, de acampar a céu aberto, com uma parelha de combate, um soldado. Estávamos ali a olhar para as estrelas e falávamos da vida.

‘Eu sou trabalhador numa fábrica’

‘Sim? E como é? Quanto ganhas?’

‘Eh pá, a gente ganha muito mal. Mal dá para a família. A minha mulher trabalha nas limpezas e lá vamos conseguindo...’

Uns trabalhavam no campo, de sol a sol, outros tinham de sustentar os pais, eram um mundo de gente miserável, com que eu nunca tinha contactado. Tive pela primeira vez uma perspectiva do que era o povo e da animosidade surda em que ele vivia, em relação ao regime. Os soldados contavam-me que se na fábrica onde trabalhavam faziam um ligeiro protesto contra os salários miseráveis, o patrão telefonava à GNR local, que ia lá obrigá-los a trabalhar à cacetada.

‘Ó meu alferes, vocês é que podiam fazer qualquer coisa em nosso favor... Vocês é que têm as armas’, diziam-me eles. E eu pensava: sim, é verdade, nós temos essa obrigação para com este povo.”

A consciência de que a vida no país era injusta precedeu em vários anos a da própria injustiça da guerra colonial. “Quando fomos enviados para ‘Angola rapidamente e em força’, como disse o Salazar, estávamos convencidos de ir proteger as populações portuguesas indefesas, e restabelecer a paz. Só com o tempo começámos a tomar consciência do que se passava.”

Admiração pelo Velho
Foi um processo lento. Nas reuniões do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas, já em 1973, muitos militares ainda recusavam terminantemente a ideia de pôr fim à guerra. Mas foi ganhando terreno a noção de que era preciso resolver o conflito de outra forma. Até entre alguns oficiais superiores que se notabilizaram pela fidelidade ao regime, como era o caso de António de Spínola.

Como começasse a ver a carreira a fugir-lhe, aos 52 anos, o ambicioso e então ainda tenente-coronel Spínola ofereceu-se como voluntário para comandar um batalhão em Angola. Já não era um jovem, usava monóculo, luvas brancas de pelica, camuflado e pingalim, mas ia para o mato com a sua tropa, dormindo em tendas, atravessando rios a pé, o que lhe valeu um imenso prestígio nas Forças Armadas. Foi nomeado para o conselho de administração da indústria de siderurgia de Champalimaud, o que lhe permitia encomendar, para o seu batalhão, jipes e camiões blindados com chapa de ferro, helicópteros e toda uma panóplia de equipamento com que as outras unidades em África apenas sonhavam.

“Fez uma guerra de luxo, era um grande combatente, foi idolatrado e subiu rapidamente na carreira”, conta Otelo, sem esconder a admiração pelo “Velho”, como era conhecido. Em 1968 já é oficial general na Guiné, e pouco depois governador da província, onde se rodeia de um escol notável de oficiais, como Rafael Durão, Almeida Bruno ou Manuel Monge.

É nessa altura, e por influência desses oficiais, que a sua perspectiva em relação à guerra se altera, até chegar à conclusão de que a solução teria de ser, não militar, mas política. Ele, de quem circulavam lendas de façanhas sanguinárias contra as populações autóctones, toma agora a iniciativa de organizar os congressos da Guiné, uma experiência de democracia directa que Otelo nunca mais esquecerá.

Durante três dias, representantes das tabancas da Guiné (das zonas controladas pelas forças portuguesas, obviamente) vinham a Bissau e reuniam-se numa sala de espectáculos para discutir os problemas das suas regiões. Os oficiais tiravam notas das intervenções dos representantes do povo e depois tomavam as providências necessárias. Alguns dos líderes indígenas, nas suas vestes de cerimónia, imaculadas, louvavam as obras dos militares colonizadores. Mas outros criticavam duramente os abusos e maus-tratos por parte dos administradores locais, sem qualquer receio.

Spínola queria conquistar a confiança das populações, e Otelo ajudou-o, nas funções que desempenhou nas subsecções de Imprensa e Acção Psicológica, e depois como verdadeiro Relações Públicas do general. Produzia e coreografava festas e cerimónias, recebia jornalistas nacionais e estrangeiros. E ainda conseguiu reunir um grupo de teatro e uma banda, com o Fernando Girão, que fez uma tournée à volta da Guiné. Mas foi nessa altura que o Chefe de Estado, Américo Tomás, promulgou o decreto-lei 353/73, o início do rastilho que levaria à revolução.

Segundo o diploma, os oficiais oriundos de milicianos poderiam entrar para o Quadro Permanente, através da frequência de cursos intensivos na Academia Militar. A medida destinava-se a incentivar a entrada para os quadros das Forças Armadas de jovens que provinham de cursos civis, para prover às necessidades da guerra. Mas desagradava aos oficiais do Quadro Permanente, principalmente os capitães, que precisaram de vários anos de estudo na Academia Militar para chegar à sua patente.

Os protestos começaram logo. Na Guiné e no Continente, houve reuniões, abaixo-assinados, manifestos. Mais tarde Marcelo Caetano revogaria o decreto, aumentaria os salários dos capitães, mas o Movimento já estava em marcha e era imparável. 

O regresso à metrópole
A comissão de Otelo na Guiné termina e ele regressa à metrópole, onde é colocado como professor adjunto de Táctica de Artilharia na Academia Militar. Mas mete uma licença, porque tem outros afazeres.

Após uma reunião, em Outubro de 1973, no apartamento do capitão Diniz de Almeida, no Bairro do Rego, o capitão Vasco Lourenço dá boleia a Otelo, cujo carro ainda não chegou da Guiné. Têm um furo, na Avenida de Berna.

“Eu não sei o que é que tu pensas, Vasco, mas ultrapassada esta parte da luta do Movimento dos Capitães, que praticamente já ganhámos, acho que podemos ir muito mais longe, e criarmos condições para derrubarmos o Governo. Que é que tu achas?”, diz Otelo, enquanto mudam o pneu.

“Eu penso exactamente como tu”, responde Vasco Lourenço.

“Então vamos para a frente. Mas com calma, para não chocar os camaradas.”

Numa das últimas reuniões ainda na Guiné, a 25 de Agosto, na sala do Agrupamento de Transmissões, para aprovar um documento de protesto contra o decreto, um capitão engenheiro, Jorge Golias, toma a palavra e declara, exaltado:

“Estamos a perder demasiado tempo a pensar e discutir sobre o conteúdo do documento, quando devíamos era preparar-nos para a revolução armada, pois o que interessa é abater o regime, e isso só se consegue à porrada.”

É o pânico na sala, e a maior parte dos participantes quer abandonar a reunião.

“Não, nisso eu não alinho”, dizem. E o Golias, isolado, acaba por calar-se.

Sábado, 24 de Novembro de 1973. A reunião realiza-se num armazém nas traseiras da Colónia Balnear Infantil de O Século, em São Pedro do Estoril. Estão presentes os elementos das comissões coordenadora e consultiva e oficiais de patente mais elevada. Ao todo, 80 camaradas. O objectivo é a eleição de uma Comissão Coordenadora efectiva, que represente o Movimento. Quando ninguém espera, o tenente-coronel Luís Banazol faz um discurso, com voz rouca: “A única via possível para a reconquista do prestígio há muito perdido pelas Forças Armadas é o derrube pela força do Governo marcelista através de um golpe militar e o fim da ignominiosa guerra colonial...”

Burburinho na sala.

“Meus senhores, sejamos realistas!”, grita o major Vítor Alves. E acaba por se aprovar a continuidade da guerra, exigindo embora melhor armamento.

“Naquele momento, o nosso objectivo já era o derrube do Governo”, explica Otelo. “Mas precisávamos de generais, para constituirmos um directório militar que assumisse o poder depois da queda do Governo, credibilizando a revolução. Não vamos aparecer, nós os capitães, e dizer: o poder é nosso.”

Em Janeiro, Spínola, regressado da Guiné, é nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Otelo e Vasco Lourenço vão falar com ele. Informam-no de que o Movimento o elegeu, juntamente com Costa Gomes (os dois generais mais prestigiados do país), para constituírem o directório militar pós-revolução.

“Ok, tomo conhecimento e fico à espera”, diz Spínola. “Mas tomem cuidado.”

Em Fevereiro, Spínola tem pronto o livro que anda há meses a escrever, Portugal e o Futuro, em que advoga uma solução política para o problema das colónias. Otelo vai a descer a Rua do Telhal e um Mercedes pára no semáforo vermelho. Uma buzinadela fá-lo voltar-se. Vê o vidro traseiro abrir-se e uma luva de pelica a chamá-lo.

“Olá Otelo, está bom?”, diz Spínola. “Quer saber de uma coisa? O Marcelo Caetano não me deixa publicar o meu livro.”

“Ó meu general, mas o livro que está a escrever não é sobre a política colonial?”, pergunta Otelo.

“É esse mesmo. O Marcelo não mo deixa publicar. Entreguei-lhe um exemplar e ele diz que não posso publicar, porque advoga uma política completamente oposta à do Governo.”

“E qual é a posição do general Costa Gomes?”

“O Chico está comigo. Já deu luz verde para a publicação. O Marcelo é que diz que se demite se eu publicar.”

“Ó meu general, mas é isso mesmo que nós queremos. Se o livro provocar a demissão do Governo, óptimo. Meu general, publique o livro, mesmo contrariando o Marcelo Caetano. Nós apoiamos”, diz Otelo, assumindo já, individualmente, as decisões fundamentais do Movimento.

“Vocês estão comigo? Apoiam?”

“É evidente meu general.”

Dias depois, Portugal e o Futuro está nas livrarias. Vende 100 mil exemplares numa semana. Marcelo cumpre o prometido e apresenta a demissão a Américo Tomás, mas este não a aceita. Antes ordena a Marcelo que exonere Spínola e Costa Gomes. Para haver um pretexto para o fazer, organiza-se a chamada Brigada do Reumático. Chefes militares, comandantes das forças militarizadas, da Legião Portuguesa e da PIDE, em conjunto com os ministros, vão ao Palácio de S. Bento, a 14 de Março, manifestar a sua lealdade a Marcelo.

Três dias antes, Otelo recebe um telefonema do ajudante de campo de Spínola, António Ramos, que, muito nervoso, o convida para almoçar.

“O nosso general está numa posição tramada”, começa ele. “Já viste, está anunciada esta manifestação de generais...”

“Pois está, mas eles não representam nada”, diz Otelo.

“Pois, mas eles vão apresentar a sua fidelidade ao Marcelo e pedir a continuidade da guerra, e o nosso general e o general Costa Gomes vão ser exonerados.”

“Pois, isto não deu o resultado que esperávamos. Mas qual é a alternativa? O nosso general propõe alguma coisa?”

“O nosso general propõe que os oficiais do Movimento se fardem com o uniforme número 1, com faixa, espada, luvas brancas e condecorações, e vão para a frente do Ministério do Exército exigir que não se realize a manifestação dos generais e que o ministro se demita.”

Otelo não concorda. “Diz ao general que nós não vamos fazer nada disso. Não estás a ver os oficiais do Movimento, que têm estado em semiclandestinidade, a aparecerem em frente ao ministério numa manifestação. A PIDE iria tirar fotografias de todo o pessoal, e o Movimento morre.”

Dia 16
Entretanto regressam da Guiné o Manuel Monge e o Casanova Ferreira, que tinha sido instrutor da maior parte dos actuais capitães do Movimento.

Otelo põe-os a par da proposta de Spínola. Casanova responde logo:

“Nem pensar nisso. O nosso general está louco. Não é ele que nos vai dizer o que fazer. Consegues marcar uma reunião com os militares das escolas práticas, que são as unidades mais fortes? Eu tenho uma vivenda em Algueirão, marca a reunião para lá.”

Otelo convocou tenentes e capitães das escolas práticas e a comissão executiva do Movimento.

“Eh pá, vamos fazer uma acção, rapidamente, para evitar a Brigada do Reumático”, diz Casanova na reunião. E todos aplaudem. À tarde, numa outra reunião mais restrita, Casanova apresenta uma Ordem de Operações, que traz esboçada num papelinho: “A acção começa com o lançamento, por via aérea, de uma bomba de 250 quilos na Assembleia Nacional”, diz ele.

“Eh pá, ó Casanova, aí é que estamos tramados”, responde Otelo. “A Força Aérea não está connosco, e nem sei se há em paiol bombas de 250 quilos.”

“Eh pá, mas isso é que era giro, rebentar com aquilo tudo. Mas não faz mal. Aqui está a ordem de operações.” E começa a distribuir papelinhos com as várias funções. A Escola Prática de Cavalaria manda uma coluna para Lisboa e fica na rotunda da Encarnação à espera de ordens. Vem uma bateria de Cavalaria da Escola Prática de Vendas Novas. Uma coluna motorizada com morteiros de Mafra.

Otelo tenta objectar: “Eh pá, ó Casanova, mas isso não é uma operação militar com pés e cabeça...”

“Isto cai logo pá. Isto está podre.”

“Olha que é capaz de não ser bem assim. Mas está bem. O que determinas que eu faça?”

“Vais amanhã de manhã à Escola Prática de Cavalaria, que é a mais renitente, e convences a malta a sair para a rua, na noite de 13 para 14.”

Dia 13 de manhã, Otelo parte para Santarém. Mal acaba de ler a descrição da missão, levanta-se um capitão, homem respeitador da hierarquia: “Meu major, desculpe, essa ordem de operações vem assinada pelo nosso general Spínola?”

“Não. Ele nem sonha que estamos a fazer isto.”

“Então nós não alinhamos nessa aventura.”

“Ok, mas posso falar com os pára-quedistas?”

“Sim, vou chamar um representante deles a Tancos.”

Otelo reúne-se com três pára-quedistas no seu carro. Convoca-os para uma reunião no Dafundo, às 6 da tarde. Aí, o representante dos pára-quedistas recusa-se a colaborar na operação, mas promete elaborar um plano no prazo de dez dias (o que nunca fará).

“Vocês são quantos?”, pergunta o Casanova.

“Uma força de 800 homens, perfeitamente disciplinada.”

“Óptimo. Com isso já se faz uma revolução. Esperamos então pela vossa Ordem de Operações”, diz o Casanova aos oficiais presentes, entre os quais alguns da Escola Prática das Caldas da Rainha. “Ficam portanto canceladas todas as acções para amanhã.”

Nesse mesmo dia, todos assistem pela televisão ao espectáculo da Brigada do Reumático. No dia seguinte, é anunciada a exoneração de Spínola e Costa Gomes. Otelo e Casanova decidem passar em Miraflores, por casa do Manuel Monge, spinolista convicto, para o consolar. Quando estão lá, tocam à campainha. É um capitão, Marques Ramos, que diz estar em contacto com as Caldas da Rainha.

“Tenho notícia de que aquilo nas Caldas está em polvorosa. A malta parece disposta a pegar em armas e a vir por aí abaixo.”

“Eh pá, não vamos cometer nenhuma loucura”, diz Otelo. “As acções estão canceladas.”

Toca o telefone. É o capitão Manuel Ferreira da Silva, colocado no Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego.

“Lamego está em pé de guerra. Está a organizar uma coluna e vai marchar sobre Lisboa”, diz o Ferreira da Silva. E acrescenta que já contactaram Viseu para fazerem o mesmo. O Monge fica fora de si:

“Eh pá, Ferreira da Silva, ganda Manel, pá, tu nunca me enganaste! É assim mesmo, vamos embora! Tá a andar!” Pousa o telefone e diz: “Lamego vai sair!”

Agora é o Casanova que fica eufórico. “Ainda tens aí o papelinho das operações?”, vira-se para Otelo. “Dá cá isso. Telefona já para Vendas Novas. Manda vir de lá uma bateria de artilharia. Vais a Mafra e trazes de lá uma coluna de infantaria, com morteiros e essa coisa toda. Eu vou a Santarém e trago uma coluna de blindados. Monge, tu ficas aqui agarrado ao telefone, para receberes as comunicações. Marques Ramos, vai já para as Caldas, diz ao pessoal para se preparar para avançar para Lisboa.”

“Isto vai dar um buraco desgraçado”, ainda resmunga Otelo.

“Não vai nada. Quatro ou cinco colunas nas estradas e o Governo cai já.”

Otelo telefona para Vendas Novas e atende o cantor Duarte Mendes.

“Meu major, anteontem disse que estava tudo cancelado, a malta foi toda de fim-de-semana. Só aqui estou eu e os sentinelas. É impossível mandar uma bateria para Lisboa.”

Segunda missão: Mafra. Otelo chega lá às 3 da manhã, sob um nevoeiro cerrado. A resposta é a mesma: está tudo de fim-de-semana.

Regressa a Miraflores. O Monge deve saber o que se passa. Quando chega, às 5h30 da manhã, um carro estaciona 50 metros à sua frente. As portas abrem-se e saem cinco homens de gabardina e chapéu, apontando para o andar do Monge. É a PIDE. Otelo acelera o Morris 1100. Ruma à rotunda da Encarnação, para onde, segundo a Ordem de Operações, a coluna das Caldas se deveria dirigir, para esperar instruções. Telefona para casa do Monge e atende a mulher a chorar. A PIDE esteve lá. Revistaram tudo. Mas o Monge já tinha saído, não sabe para onde.

São 6h30 da manhã. Otelo caminha pela rotunda da Encarnação, que está vazia, sob o nevoeiro. O silêncio só é cortado pelo walkie-talkie de um pide, de pé junto à porta aberta de um Ford Capri bordeaux com capota negra.

Otelo não sabe que o Monge, quando o Casanova chega de Santarém também sem a missão cumprida, vai com ele a casa de Spínola, tentando convencê-lo a assumir a liderança da revolução. Sem êxito. O general, respeitador da hierarquia, diz que nunca poderá pegar em armas contra o seu Governo. A seguir, Casanova e Monge correm na direcção das Caldas. Encontram a coluna às 4 da manhã, já perto de Lisboa, e fazem-na dar meia volta. Assumem a sua liderança e entrincheiram-se no RI5 das Caldas da Rainha, até serem cercados e presos.

Otelo não sabe nada disto. Ignora se a coluna revoltosa das Caldas vai entrar na rotunda.

Mas as forças do regime, essas, chegam em força, de repente e com apavorado espalhafato. De boina e uniforme negro, armados até aos dentes, surge o corpo de intervenção da Legião Portuguesa. A seguir, a GNR, Regimento de Cavalaria 7, com autometralhadoras Panhard, Batalhão de Caçadores 5, blindados M 47, jipes e Berliets. Uma multidão de soldados, polícias, pides, alguns dos quais muito jovens, de cabelo comprido, hippies que Otelo nunca imaginou que a polícia política pudesse ter ao seu serviço. Ouvem-se os walkie-talkies, os apitos da PSP tentando controlar os veículos que parecem cruzar a praça de forma completamente descoordenada.

“Então é isto!”, pensa Otelo.

“Então era aquilo a força de reacção do regime! Eles têm conhecimento de que uma coluna militar vem pela estrada fora a caminho de Lisboa, desde as Caldas da Rainha, e aquele dispositivo todo era por causa disso.”

“Se os gajos ficam todos em palpos de aranha por uma coluna que vem aí, se forem cinco colunas, em vários pontos do país, não terão capacidade de reagir.”

E nessa madrugada de 16 de Março, estoirado, cheio de sono, mas de súbito iluminado por uma compulsiva evidência, Otelo planeou o 25 de Abril. 

Otelo sozinho
A seguir à tentativa de golpe, 23 camaradas foram presos, o que, a acrescer ao facto de Vasco Lourenço ter sido colocado nos Açores, deixava Otelo sozinho na direcção do Movimento. Além disso, não se sabia o que poderia acontecer aos detidos. “Talvez fossem parar a um Tarrafal qualquer.” E nessa altura, sentindo-se sacrificados e abandonados pelo movimento, era provável que começassem a denunciar os companheiros.

“Eu tenho enormes responsabilidades, agora. Fundamentalmente, chegámos a um ponto crítico, em que é preciso actuar”, disse Otelo numa reunião em Oeiras. E começou a planear tudo, sozinho. Era como se a revolução estivesse à espera de ser feita, mas precisasse, ainda assim, de alguém que a fizesse.

“Sem a tentativa das Caldas, o golpe poderia ter ficado adiado eternamente. Mas agora era preciso agir rapidamente.” Dia 18, encontrou-se com Melo Antunes num café da Praça de Londres. Dissuadiu-o de abandonar o Movimento, como ele queria, e encomendou-lhe um programa político para o Movimento das Forças Armadas.

“Eu vou fazer uma operação militar, elaborar uma Ordem de Operações, à minha responsabilidade”, disse Otelo. “O Vítor Alves vai constituir o grupo político e tu o programa.”

O golpe teria de ser feito na última semana do mês, para aproveitar o facto de a PIDE estar ocupada a prender os agitadores políticos do PCP e do MRPP que enchiam as paredes de graffiti no 1.º de Maio.

Em três semanas, Otelo preparou tudo. Sozinho? “Sim, foi um trabalho solitário. Elaborei uma ordem de operações, sem ajuda de ninguém. Eu sabia quais eram as unidades com que podia contar. E essas eram suficientes. Só não conhecia as forças inimigas. A GNR, a PIDE, a Legião. Esse era o grande problema. Foi o maior risco que tive de correr.”

Como obter as informações? Lembrou-se de que tinha um primo que era comandante da GNR, no quartel do Carmo. E que um antigo colega, o Rosa Garoupa, estava colocado no Estado-Maior do Exército. Nenhum deles era simpatizante do Movimento. Mas tinha de arriscar.

“Eh, Fernando. Aqui é o Otelo. Gostava imenso de te ver, pá”, cumprimentou, pelo telefone, o primo, que não via há anos. Foi a sua casa em Alfragide e disse-lhe: “Fernando, é o seguinte: eu vou fazer uma operação militar, uma revolução, e preciso da tua ajuda.”

“Eh pá, estás a brincar comigo.”

“Não, é a sério, pá. E vou confiar totalmente em ti. Eu preciso de saber informações sobre a GNR. Efectivos, armamento, viaturas, patrulhas, que postos de observação têm, que objectivos têm em Lisboa para defender, etc. Tens de me dar isso tudo, pá, e não me vais denunciar.”

“Eu não posso fazer isso...”

“Podes, e vais fazer, a bem da nação. Rapidamente.”

Alguns dias depois, o primo telefonou.

“Já tenho tudo.”

A mesma coisa com o Rosa Garoupa. “Eh pá, há quantos anos a gente não se vê...”

“Eh pá, estás bom? Dá cá um abraço. Senta aí, queres tomar alguma coisa? Então que contas?”

“Eh pá, vou fazer uma revolução e preciso da tua ajuda.”

“Estás a gozar, pá.”

“Eu explico: preciso de elementos sobre a Legião, a PIDE, a polícia. É isso que eu te peço.”

E, tal como o primo da GNR, não demorou a reunir toda a informação. Por que o fizeram? “Por camaradagem, lealdade militar. Não por afinidade ideológica.”

Faltava a prisão de Caxias. “Fui lá fazer um reconhecimento com o meu carrito, mas não podia demorar, para não levantar suspeitas. Havia um grande portão verde, e eu pensei: como uma bazucada, deito isto abaixo. A tropa entra por aqui, tomamos isto de surpresa. Mas o que está para lá do portão? Pode haver uma fogachada, a GNR dá para aqui uns tiros, pode morrer alguém, é uma chatice. Então lembrei-me de telefonar ao Silva Graça, que esteve preso.”

O militante do PCP estivera preso, embora não em Caxias. Mas contactou um companheiro que, desgraçadamente, conhecia bem o forte por dentro e que, dias depois, enviou um croquis. Só depois do 25 de Abril Otelo soube que se tratava de Jorge Sampaio.

No dia 15 de Abril, a Ordem de Operações estava pronta. O anexo de transmissões, encomendado a Amadeu Garcia dos Santos, ficou concluído pouco depois. Uma linha telefónica directa foi montada da Escola Prática de Transmissões até ao Posto de Comando, instalado no regimento de Engenharia da Pontinha. Otelo combinou com jornalistas do Rádio Clube Português e da Renascença as canções-senha que dariam o sinal para o início das operações. Entre 16 e 19 de Abril, distribuiu as missões aos líderes das várias unidades.

Oeiras, na casa de Otelo. “Vou fazer-te a leitura da Ordem de Operações. Tu vais ouvir com atenção, sem tirar notas. No fim, fazes as perguntas que quiseres”, diz Otelo ao capitão Salgueiro Maia, que comandará a força da Escola Prática de Santarém.

“Ok. Estou a ouvir-te.”

Otelo explica a manobra, a situação, as forças amigas e inimigas, a logística, as transmissões, as rações de combate, tudo. “Então, Salgueiro? Tens perguntas?”

“Duas. Primeira: temos base de sustentação política, para o caso de sermos bem-sucedidos na operação militar?”

“Temos, sim senhor. O Vítor Alves formou o grupo político e o Melo Antunes deu-nos as bases programáticas.”

“Segunda pergunta: temos generais no posto de comando?” Otelo pensou rapidamente: se lhe digo que não, ele, respeitador da hierarquia como é, recusa-se a entrar na operação. Mentiu:

“Temos, sim senhor. É evidente. Generais não faltam.”

E Salgueiro Maia só vem a saber que Spínola e Costa Gomes não estão no posto de comando pela boca do próprio Marcelo Caetano, momentos antes de se render.


Foto ADRIANO MIRANDA

Quartel do Carmo, 25 de Abril. Cumprindo ordens de “Óscar”, o nome de código de Otelo no posto de comando, as forças de Salgueiro Maia, vindas do Terreiro do Paço, cercam o edifício, onde se refugiou o presidente do Conselho. Salgueiro é levado até ele.

“Entre, sr. Capitão”, diz Marcelo. Salgueiro Maia faz continência e fica parado no meio da sala. Marcelo continua:

“Pode informar-me do que pretende?”

“Recebi ordens do posto de comando do Movimento para formular um ultimato. Ou V. Excia. se entrega, ou terei de mandar arrasar o quartel a tiros de armas pesadas.”

“E quem comanda o Movimento?”

“O general Spínola!”

“O quê? É o general Spínola que está no posto de comando? Olhe que não é. Acabo de falar ao telefone com o general Spínola. Ele está em casa e diz que não chefia a revolução. Mas pedi-lhe para vir cá, para eu lhe entregar o poder.”

Salgueiro Maia fica estarrecido. Depois de garantir a Marcelo que nunca pegaria em armas contra o seu Governo, Spínola telefonou para o posto de comando.

“Acaba de me ligar o presidente do Conselho, pedindo que eu vá ao Carmo receber o poder. Eu disse-lhe que não tinha nada a ver com o Movimento, mas poderia contactá-lo. Qual é a sua ideia, Otelo? Vai lá você, ou aceita que vá eu?”

“Meu general, considere-se mandatado pelo Movimento das Forças Armadas para ir ao Quartel do Carmo receber o poder das mãos do presidente do Conselho.”

Spínola partiu. Marcelo rendeu-se-lhe e foi entregue a Salgueiro Maia, que o levou numa chaimite até ao posto de comando. Daí, seria transportado num DC-6 para o Funchal, e depois para o Brasil. Quando chegou à Pontinha, Spínola abriu um sorriso que nunca ninguém lhe vira. “Olha o Otelo!”, disse o “Velho”. “Dê cá um abraço, homem! Isto foi uma coisa extraordinária!” Logo a seguir, assumia a presidência da Junta de Salvação Nacional, e depois a Presidência da República. Otelo voltou para casa.

“No dia 28 apresentei-me na Academia Militar, como se nada tivesse acontecido.” Pensou que a sua missão estava concluída. Mas mal tinha começado.

O chefe da revolução
A Junta anunciou o Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), formaram-se os primeiros governos provisórios, libertaram-se os presos políticos, regressaram os exilados, surgiram os partidos. O golpe transformou-se em Revolução, o poder caiu realmente na rua, e três meses depois de Abril foi criado o Comando Operacional do Continente (Copcon). Tinha sob o seu mando nada menos que todas as forças regulares do país e também todas as forças especiais. Foi criado para reagir a uma eventual reacção dos fascistas, mas, na prática, o Copcon tinha poder absoluto. Para o liderar, o chefe da revolução: Otelo.

“Confinado à missão puramente militar que lhe foi atribuída, o Copcon teria levado uma vida tranquilíssima”, admite ele. Mas não foi o caso. “Começaram a aparecer no Copcon os problemas mais diversos e mais disparatados, trazidos por gente que não tinha nada a ver com militares, gente pobre, trabalhadores, camponeses, que não sabiam a quem se dirigir”, conta Otelo.

As estruturas existentes foram destruídas, era preciso reinventar tudo, e as pessoas colocadas nas várias funções de poder não tomavam decisões, por incompetência, ou puro medo de um reviralho. Esta é a explicação de Otelo. Desorientados, mandavam todos para o Copcon. “O Otelo que resolva”, diziam. “Ele é que fez a revolução.”

Quando, por exemplo, a administração de uma empresa desaparecia, os trabalhadores iam ao Copcon perguntar o que fazer. Quem não tinha casa ia ao Copcon, quem não tinha trabalho ia ao Copcon.

“Fiquei numa situação difícil. Das duas uma: ou corria com toda aquela gente, mandando o sentinela dar uns tiros para o ar, para os afugentar, ou tinha de resolver os problemas”, explica Otelo. E eram cada vez mais pessoas. E queriam ser recebidas pelo Otelo, pessoalmente. Prometeram-lhes a revolução, e o Otelo era a revolução. Ninguém previra que isto ia acontecer. “Fizemos o 25 de Abril para termos uma democracia burguesa, não isto”, diz Otelo. Mas agora uma força colossal, incontrolável, tinha-se soltado no país. Desconhecida e imprevisível. Ninguém a queria ou conseguia segurar. Otelo ficou sozinho com a revolução nas mãos.

“Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões.” Passou a receber as pessoas numa sala.

“Vamos lá a ver isso. Os patrões fugiram? Muito bem. Vocês têm matéria-prima?”

“Sim, está lá no armazém. Mas agora quem é que nos diz o que temos de fazer?”

“Eh pá, quem é o mais antigo na fábrica? Ficas chefe da comissão de trabalhadores. Continuem a trabalhar. Vamos depois tentar vender os produtos que fabricarem.”

Para acompanhar as situações, Otelo nomeava um capitão, que supervisionava cada caso. Mas começaram a surgir outros problemas. O programa do MFA dizia que todos têm direito a uma casa.

“Sim, senhor, vamos resolver isso.” Otelo chama um capitão da Força Aérea. “Tu ficas encarregado desta questão da ocupação de casas. O princípio é este: estes camaradas vêm dizer que há uma batelada de andares vagos ali perto do Casal Ventoso. Vamos ocupá-los, mas com disciplina. Nomeias uma comissão, para coordenar as ocupações. É preciso fazer um levantamento dos andares e ver quais são as famílias mais necessitadas.”

Depois, a partir de Fevereiro de 1975, vieram as ocupações de terras, no Alentejo. Um grupo de trabalhadores vai dizer a Otelo que ouviu falar de uma reforma agrária. Não sabem bem o que isso é, mas sabem que, em consequência dos rumores e dos graffiti a dizer “a terra a quem a trabalha”, os latifundiários já começaram a fugir para o estrangeiro, e a levar com eles o gado, as máquinas e as alfaias agrícolas.

“Quando as terras chegarem a ser distribuídas, não teremos nada para as podermos trabalhar”, explicam os camponeses.

“Bem, para já, ocupem as terras”, diz Otelo. “E não deixem sair nem mais uma cabeça de gado.”

“Já podíamos ter feito isso. Mas não temos armas.”

“Vocês não têm caçadeiras?”

“Temos, mas a GNR vai lá expulsar-nos, com metralhadoras G3.”

“Bom, amanhã às 9 da manhã tenho um briefing com o capitão que comanda a GNR, e vou-lhe dar ordem para, a partir de amanhã, não actuar contra as ocupações de terras no Alentejo. Portanto vocês vão para lá, com as caçadeiras, defendam a terra e não deixem sair mais nada.”

Em pouco mais de um mês, um milhão e 200 mil hectares de terras foram ocupados no Alentejo, por vezes com a ajuda de soldados armados do Copcon. O Partido Comunista, que estava bem implantado na região, assumiu depois a organização da Reforma Agrária, criando unidades colectivas de produção. Mas quem possibilitou as ocupações de terras foi Otelo.

“Cá está mais um caso em que alguém tinha de tomar uma atitude. O ministro da Agricultura dizia: calma, está em preparação uma reforma agrária. Mas era preciso agir rapidamente.

Assumindo um verdadeiro poder paralelo, o Copcon dirigiu de facto uma revolução socialista. De forma tão precipitada e unilateral, que acabou por dividir rapidamente o país em dois.

“Eu agi em benefício de gente que nunca tinha tido nada, e que, entusiasmada com as promessas do MFA, começava a exigir condições de vida básicas. Mas isso criou contra mim ódios terríveis”, admite Otelo. “E contribuiu largamente para a bipolarização do país. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Hoje reconheço que não havia condições para dar esse salto enorme. Precisávamos da ajuda dos países ocidentais, e a solução socialista não era possível. Se me tivessem explicado essa realidade, eu teria agido de forma diferente. Mas na altura, com toda a minha inexperiência política, não vi outra alternativa. E também ninguém me apresentou nenhuma.” 

As prisões
A 25 de Novembro de 1975, o país estava à beira da guerra civil. Uma tentativa de golpe dos esquerdistas, cuja ponta visível foi a ocupação das bases aéreas por parte das forças pára-quedistas, foi o pretexto para o golpe dos moderados, chefiados por Ramalho Eanes. Mas, dizem os historiadores, quem deu a ordem fatal aos “páras” foi o próprio Otelo, ou alguém por ele. O comandante do Copcon diz que não, embora tenha confessado que sim a Vasco Lourenço, alegadamente para ilibar os seus subordinados, que tinham sido presos. Por causa dessa confissão, foi ele próprio preso, por 44 dias. “Eh pá, a minha candura e ingenuidade têm-me feito enfiar cada barrete, pá.”

Pouco depois de ser libertado participou num comício na Aula Magna, em Lisboa. À saída, um grupo de apoiantes abordou-o pedindo-lhe que se candidatasse à Presidência da República. Apesar de não ser apoiado por nenhum grande partido, obteria 18 por cento dos votos nas eleições de 1976.

Essa força, que representava um projecto de poder popular, de democracia directa, sem partidos, que Otelo defendia desde 1975, acabou por implodir. Mas, segundo Otelo, foi o pretexto para a criação, entre 1978 e 1979, de um movimento designado por Projecto Global, que incluía uma face legal e duas clandestinas, armadas. O objectivo era ambíguo: defender o país de um eventual regresso do fascismo, ou usurpar o poder burguês por via violenta. Essa ambiguidade levaria Otelo de novo à prisão, condenado por chefiar as FP-25, um grupo extremista que cometeu vários crimes nos anos 80 e que, segundo o tribunal de Monsanto, não era mais do que uma das secções do Projecto Global.

Otelo cumpriu cinco anos. O país não conseguia manter preso o homem que lhe ofereceu a liberdade, e que, afinal, diz que “foi o 25 de Novembro que restituiu ao país a pureza dos ideais do 25 de Abril”.

https://www.publico.pt/2009/04/24/sociedade/noticia/se-isto-nao-e-um-heroi-1376370