D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 18 de julho de 2026
Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]
sexta-feira, 17 de julho de 2026
(32) - Rui Belo - Esta rua alegre
(31) - José Régio - Romance de Vila do Conde
O excerto presente na lápide faz parte do poema "Romance de Vila do Conde", escrito por José Régio, uma composição lírica de tom nostálgico, onde o autor recorda com saudade as paisagens da sua infância e juventude na sua terra natal.
O texto completo do poema é o seguinte:
Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra
* Daniel Oliveira
A polémica dos
chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal
começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível
para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a
praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo
económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias.
Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo
Durante anos,
milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões
privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa
veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição
de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o
mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a
pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma
instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer
outra.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Imigração: foi a economia, estúpido!
* Daniel Oliveira
(Expresso 2026 06 29)
Foi a economia,
mais do que a lei, que determinou as oscilações migratórias. Mesmo assim,
envelhecemos e a população ativa só cresceu graças aos imigrantes. A questão
não é se 14% é demais. É o que seríamos sem eles. Pressionam serviços públicos
porque os preparámos para o deserto demográfico. Recebemos imigração pouco
qualificada e desintegrada porque é isso que o modelo económico extrativista e
com pouco valor acrescentado absorve. A questão não é quem entra. É mudar o que
o país oferece. A eles e a nós
A mudança de
metodologia usada pelo INE pôs fim ao apagão estatístico. Portugal terá
11,4 milhões de residentes, 1,6 milhões estrangeiros — 14% da população total.
Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado. E
atingimos um número de habitantes surpreendente. Como estes números obrigam a
rever indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno,
contribuintes por beneficiário da Segurança Social (sobre o impacto que isto
tem no PIB per capita e a metodologia usada, aconselho a leitura do texto de
Susana Peralta) e toda a política pública, devem ser escrutinados para alem do
mero debate político. Como o presidente do INE explicou, não é fácil
contabilizar as saídas para o espaço Schengen (que terão sido
significativas). Ainda assim, será o estudo mais robusto feito até agora.
domingo, 28 de junho de 2026
(30) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
* Google Gemini
Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_ec8a08.jpg) traz de volta a famosa citação de Don Lorenzo Milani retirada da sua "Carta aos Juízes" de 1965. Curiosamente, esta é a mesma passagem que transcrevemos anteriormente, mas desta vez pintada num formato puramente textual e abstrato.
O que está escrito?
O texto foi pintado em letras maiúsculas pretas e rústicas, ocupando grande parte de um painel branco:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il direito di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri. (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. (DON MILANI)"
(Nota: O pintor cometeu um pequeno erro ortográfico de grafia na palavra "direito", escrevendo-a em português/espanhol com "g" em vez do italiano "diritto", além de trocar a palavra original "diseredati" por "disperati", o que é muito comum em reproduções populares de cariz oral ou de memória).
O que representa este mural?
Esta obra representa o antifascismo, o internacionalismo e a primazia da justiça social sobre as fronteiras geográficas ou o nacionalismo estatal.
1. Elementos Visuais e Simbologia
Estilo Gráfico Abstrato: Ao contrário de outros murais figurativos de Orgosolo que mostram pastores ou cenas históricas, este foca-se na força crua da palavra escrita. O texto assenta sobre manchas de cores primárias vivas — vermelho, amarelo e azul — dispostas de forma fluida no fundo. Estas formas orgânicas e dinâmicas servem para dar destaque e urgência à leitura da mensagem.
A Sombra Projetada: A própria arquitetura do edifício cria uma sombra triangular cortante sobre a pintura, conferindo ao mural uma forte integração com a envolvência urbana da vila.
2. O Significado Político e Humanitário
Ao estampar esta frase de Don Milani no centro da Sardenha, os muralistas recusam a lógica de exclusão baseada na terra de nascimento. A obra afirma que a verdadeira divisão da humanidade não se faz por passaportes ou bandeiras (italianos vs. estrangeiros), mas sim por uma linha de classe e de justiça: os que sofrem (os oprimidos) contra os que abusam do poder (os opressores).
Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marginalizada pelo Estado centralizado, esta frase serve como um lema de solidariedade universal com todos os povos que sofrem pressões semelhantes em qualquer canto do planeta.
VER (28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
sábado, 27 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Memórias da Biblioteca Pública Municipal do Porto
Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas
Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras
Por Redação
26/06/26 •
Resumo da notícia
Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição
“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração”
por Susana Prizendt
(artigo escrito inteiramente
por uma pessoa humana)
Suspensa em um apartamento de um
bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras
milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de
concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar
minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do
crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá,
resistindo a ser dado como morto.
Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra
inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio
acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo
é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a
existência do que chamamos de fertilidade.
Estima-se que um quarto das
espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que
habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e
uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante,
responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o
crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a
população humana.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
João Miguel Tavares - “Grande solidariedade”? Será que a PSP não aprende nada?
Bruno Pinto errou gravemente. A PSP errou horrivelmente. Luís Carrilho preferiu alimentar o mesmo corporativismo que desempenhou um papel trágico em toda esta história.
* João Miguel Tavares
18 de Junho de 2026
Chegou nesta semana ao fim o
julgamento do polícia que matou Odair Moniz. Bruno Pinto foi condenado a três
anos e meio de prisão por homicídio, com pena suspensa. O agente da PSP ficou
ainda obrigado a pagar uma indemnização à família de cerca de 90 mil euros — 30
mil pela perda do direito à vida, 20 mil euros para a viúva e outros 20 mil
para cada um dos dois filhos de Odair —, mais uma pensão de alimentos para a
sua filha menor, no valor de 220 euros mensais, até ela atingir os 18 anos.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...
Este mural em Orgosolo aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.
O que está escrito?
O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:
"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"
Tradução:
"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"
(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).
Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.
Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:
1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu
Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.
Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:
"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."
Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."
2. A atribuição a Jomo Kenyatta
Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:
"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."
Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.
O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.
A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)
Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra
terça-feira, 16 de junho de 2026
«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)
No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?
Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um
dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de
género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do
25 de Abril de 1974).
O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª
Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época
de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a
maternidade.
Bruno Amaral de Carvalho - Relembrando Odair Moniz e tantos outros
Acanção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.
Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.
(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.
O que está escrito?
O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."
O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.
Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.
Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:
Texto Original (Em Italiano)
"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.
Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).
È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.
Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranie
ri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."
Tradução em Português
"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.
Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).
Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.
Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms
Opinião
As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.
Se há cidade europeia que sabe o
que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada
rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens
pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias
arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses
retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas
sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações
da violência sectária. Só mudou o alvo.
domingo, 14 de junho de 2026
Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros
sábado, 13 de junho de 2026
Inês Chaíça - Suíça vota em referendo medida sem precedentes: limitar a população a dez milhões
As sondagens
mostram que a medida está longe de ser consensual. Gera preocupação pela
possível falta de mão-de-obra estrangeira e pela perspectiva de um “Brexit à
suíça”, pondo fim a acordos com a UE.
Inês Chaíça
13 de Junho de
2026
A Suíça vai votar, este domingo, um referendo
que quer limitar o crescimento da população a dez milhões até 2050 e inscrever
esse objectivo na Constituição. O partido que está a apoiar esta iniciativa, o
Partido Popular Suíço (SVP), diz que é uma forma de lidar com a imigração
excessiva, de contornar a falta de oferta de habitação e de aliviar a
sobrecarga das infra-estruturas e dos transportes públicos. Mas há quem
antecipe outras dores de cabeça.
A proposta — a que o SVP chama “Iniciativa de Sustentabilidade”, quase como um eufemismo —
assenta no facto de a população na Suíça ter aumentado de forma exponencial
desde que foram assinados os acordos de livre circulação de pessoas e bens com
a União Europeia, em 2002.
Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?
* Pedro Tadeu
Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD
* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
António José Seguro - Discurso no Dia de Portugal (2026)
* António José Seguro
«Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.»
Vitorino Nemésio nasceu aqui, nesta ilha. E nestes versos deixou aquilo que talvez só alguém criado entre o Atlântico e o céu aberto dos Açores poderia escrever: a ideia de que o mar não é apenas uma paisagem, é uma condição. Uma forma de ser no mundo.
O mar não é apenas a geografia que nos rodeia. O mar é memória, é destino e é carácter. Foi diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe.
João Miguel Tavares - O primeiro 10 de Junho de Seguro e os excessos de poesia
O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.
* João Miguel
Tavares
11 de Junho de
2026
É um mal
antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de
editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles
simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de
discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill
sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua
oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por
força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação
democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.
Em Portugal não
temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História
mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e
dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador
que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os
discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem
escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar,
que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de
professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco
modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.
Actualmente, os
nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz
cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante
para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com
doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho.
Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que
os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus
discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta
maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de
Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.
Esta carga poética cavalar, quase
sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os
nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do
Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa
Tivemos direito
a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas
de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde
se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro
pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma
lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética
cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali
está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste
a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a
pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de
tédio metade do auditório.
O problema
português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos
serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha
piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John
Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a
visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get
to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para
evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de
televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva,
assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”
domingo, 7 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem
* Daniel Oliveira
Os debates
sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite
rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os
de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os
que estão no degrau inferior da escada classista
04 junho 2026
Aburguesia
nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder
político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do
condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou
oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços
públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje,
assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital
de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o
rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à
inovação. Produziu uma cultura.
Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV
As “coisas novas” da primeira
encíclica de Leão XIV
Este Papa não esperou que
amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra
quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas”
do nosso tempo.
Jorge Wemans
7 de Junho de 2026
É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A
frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum,
mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos
a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões
diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e
alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa
sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de
tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à
“questão social”.
sábado, 6 de junho de 2026
Brecht e Gino Strada: guerra e paz
O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:
1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):
"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"
Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."
Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.
A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.
O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.
Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.
Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):
ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!
(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)
ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.
FEDERZONI: Tem calma.
ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.
GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.
(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)
ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.
(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)
GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.
O detalhe da adaptação no mural
No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).
O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.
2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):
"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"
Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."
Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).
Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.
Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".
A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:
A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.
Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.
Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)















