sexta-feira, 14 de agosto de 2026

(75) Junta a tua à nossa voz e o sol brilhará para todos nós

* Victor Nogueira / Gemini

As 'letras' em epígrafe correspondem a dois versos de 'Avante Camarada', da autoria de Luís Cila, em 1967 durante o seu exílio em Paris,Nos murais desta publicação, a letra do hino do PCP não serve apenas para ser cantada em comícios ou festas do Avante!, ela era "gravada" no reboco das paredes para ser lida diariamente por quem passava, garantindo que a mensagem se tornasse parte da paisagem urbana e duma identidade política. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

(74) 'Imprensa e Jorna/istas' nas paredes

 * Victor Nogueira / Gemini

Os 'muros', libertando-se, podem tornar-se espaços de liberdade, contando histórias ou registando, mesmo que efemeramente, factos e acontecimentos, como se fossem jornais de parede. As fotos seguintes registam alguma dessa 'imprensa', pintada nas paredes ou 'imprensa' em jornais de papel.

A rua, enquanto palco ou arena, funcionou nos anos subsequentes ao 25 de Abril  como complemento ou alyernativa à imprensa de papel . Nos registos que aqui apresento, a imagem é o ponto de partida para observar esta relação entre o papel e o reboco, dividida em três eixos:

1. A memória dos jornalistas e dos jornais na cidade

A arte urbana contemporânea tem servido para eternizar figuras que fizeram da palavra a sua ferramenta de trabalho. É o caso de Fialho de Almeida, cronista e polemista incontornável das letras portuguesas, lembrado em murais em Setúbal, ou de Mário Zambujal, nome maior do jornalismo desportivo e generalista, homenageado no mural da Estrada de Benfica, em Lisboa. São registos que ligam a memória de quem viveu o jornalismo à presença física e perene na cidade.

2. O jornal partidário como palavra de ordem

No calor do PREC, o jornal de partido deixou de ser apenas algo que se comprava na banca para passar a ser algo que se lia no muro.

  • O Avante!: Mural de 1977 que celebrava a publicação e a festa do jornal do PCP, provando a força desta imprensa na ocupação simbólica da cidade.

  • O Grito do Povo: As imagens da UDP (na Ajuda ou na Rua de S. Jorge, entre 1975 e 1976) mostram o apelo direto: "Lê e discute com os teus camaradas". O mural funcionava como uma "primeira página" de rua, mobilizando e / ou alertando para temas políticos.

3. Os "Jornais de Parede": a imprensa de base

Os 'jornais de parede'  são outra faceta da  "imprensa de rua", como em Alcácer do Sal e Mora. Forças políticas (como a UDP e o PCP) afixavam comunicados, palavras de ordem e notícias – como o apelo "Vingaremos Catarina, a terra a quem a trabalha", com alertas e palavras de ordem, criando uma rede informativa alternativa aos jornais de papel.

Estes registos fotográficos são o que resta dessa imprensa efêmera. Pintada à escova, colada com cola de farinha ou gravada na memória urbana, ela continua a contar a história de um tempo em que os muros também eram, de facto, jornais.

Nos dias de hoje, em que a imprensa em papel é marginalizada pelas edições on line e redes sociais, os garfitos, mais ou menos elaborados, mais ou menos artísticos. são a nova expressão dos 'jornais de parede' nos anos da pré-revolução.


Foto victor Noguera - Alcácer do Sal – Jornal de Parede – UDP – Catarina Eufémia 


foto Victor Nogueira - 1974-75 - cartazes e murais de abril 03 Alcácer do Sal  - UDP - Vingaremos Catarina


Foto Victor Nogueira - 1974 -75 - cartazes e murais de abril 01 - Mora (Alto Alentejo)



Fotos Victor Nogueira Mural de homenagem a Fialho de Almeida na R 
ua Ramalho Ortigão, em Setúbal (IMG_2943 e l IMG_2945)

Liisboa 2022 Mário Zambujal Mural de Mariana Duarte Santos Estrada de Benfica 299 Foto Ana Luísa Alvim CM Lxa


Foto Victor Nogueira - Mural em Lisboa. Av. da Junqueira e Av. Marginal 1977 - Jornal e Festa Avante


Lisboa    1975 AJUDA- Lê e discute  com os teus camaradas  o jornal comunista   O Grito do Povo


Foto Victor Nogueira - Lisboa, Rua de S. Jorge  1976-   [UDP] Contra a] USA CIA  O Grito do Povo  jornal comunista

(73) Grito(s) urbano(s) 02 - a polis


* Victor Nogueira / Gemini

Se os primeiros 'Grito(s) urbano(s)' regsitam o confronto direto com a autoridade, esta nova publiaçao da série Letras na "Arte Urbana" volta a tinta para as entranhas da própria pólis: a forma como é gerida, a violência do seu crescimento e as feridas sociais de quem a habita.

As paredes transformam-se num manifesto coletivo sobre o direito à cidade, desdobrando-se em vários eixos de reflexão:

  • A crítica ao urbanismo desumano e à betonização: Mensagens como "E tudo o cimento levou...", "Urbanizar não é desumanizar" e "Existe vida debaixo do cimento" denunciam a perda do espaço verde e da escala humana para a especulação e a construção desenfreada. A cidade surge como um corpo sufocado que clama por respirar.

  • A denuncia da desigualdade e da pobreza: A pólis não trata todos por igual, e a parede lembra-o sem rodeios — "Não deixes que a pobreza se torne uma rotina" e "Pior que a pobreza é a injustiça". A falta de habitação e a precariedade ecoam na reivindicação direta e vernacular: "QERO CASA COM BONES".

  • A estética e a identidade da cidade: A reação à degradação do espaço urbano manifesta-se no grito "Não podemos fazê-lo bonito quando a cidade é feia", enquanto no topo de uma fachada em ruínas a marcação "CIDADE REBELDE" assume a resistência da rua frente ao abandono.

  • Os afetos e as fraturas da convivência: Entre pedidos de desculpa íntimos e rasurados e apelos de cariz ético — "Que o amor suplante o ódio plantado nos nossos corações" —, a parede regista também o desgaste das relações humanas no espaço público.

  • A presença constante dos writers: A juntar à mensagem política e social, a marcação de território permanece viva com as assinaturas de quem ocupa os muros do quotidiano, como o piece "FOME" que volta a marcar presença na fachada.

Da crítica ao cimento à exigência de justiça social, a parede deixa de ser apenas betão para se afirmar como a verdadeira ágora moderna: o lugar onde a pólis se pensa, se indigna e exige o seu futuro.


Foto victor nogueira - Braga (rolo 349 - 1998.06.07)


Setúbal Rua Garcia Perez (Bairro Salgado) 'cidade rebelde' (Foto victor Nogueira GEDC0574)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

(72) Grito(s) urbano(s) 01 - a bófia

* Victor Nogueiira /  Gemini

Letras na Arte Urbana: Quando as Paredes Falam (e Protestam)

A rua é a galeria mais democrática do mundo, mas é também o seu espaço de debate mais cru. Na transição do traço figurativo para a palavra escrita, a street art deixa de ser puramente estética para se tornar intervenção, manifestação e ruído. No ecossistema gráfico das nossas cidades, poucos alvos atraem tanta tinta — e tanto consenso na rejeição — como a autoridade policial.

Nesta edição da série Letras na "Arte Urbana", reunimos quatro registos de rua que abordam o mesmo tema sob perspetivas, linguagens e graus de elaboração visual completamente distintos:

  • Da poesia libertária: A antítese poética e luminosa que pede "Mais Sol, Menos Polícia", trocando a vigilância pelo espaço público aberto e comunitário.

  • Ao manifesto global: A apropriação do slogan universal "Fuck the Police", imortalizado pelo hip-hop dos N.W.A em 1988, demonstrando como a cultura urbana importa e traduz hinos de protesto internacionais para os muros locais.

  • À gíria das ruas: O calão cru e direto de "Fuck Chibos e Bofia", onde a rejeição da autoridade se cruza com o código de conduta do próprio bairro.

  • Ao grafito elementar: O insulto gráfico e visceral, reduzido ao símbolo obsceno e à palavra "Bofia", na sua forma mais pura de vandalismo e marcação de território.

Da caligrafia cuidada ao tag apressado a spray, estes quatro registos mostram como a palavra escrita nas paredes oscila entre a crítica social, o hino de contracultura e o desabafo imediato. (Gemini)


Mais Sol Menos Polícia -No muro da antiga EICS no troço que liga a Avenida Mariano de Carvalho à Rua da Escola Técnica (Foto victor nogueira GEDC0601)


Foto victor nogueira - Fuck the Police - grafitos no Parque de Vanicelos, em Setúbal (fotomontagem GEDC1642 e GEDC1643)


Fuck Tha Police (Remastered 2000) · N.W.A.

A canção "Fuck tha Police", lançada em 1988 pelo grupo de hip-hop americano N.W.A (constituído por membros como Ice Cube, MC Ren e Eazy-E), é estruturada como um julgamento fictício no tribunal. Na música, os membros do grupo atuam como "procuradores" que apresentam testemunhos contra o departamento de polícia de Los Angeles (LAPD), denunciando o perfilamento racial, a brutalidade e o abuso de autoridade contra jovens negros.

A introdução marcante da faixa estabelece o cenário do tribunal:

"Right about now, N.W.A. court is in session"

"Judge Dre presiding"

"Fuck the police coming straight from the underground"

— N.W.A, "Fuck tha Police"


Fuck chibos e bófia  Setúbal, Bairro do Montalvão  (Foto victor nogueira image1786566936=


Bófia - Setúbal Rua Dr. António Luís Pereira de Almeida (Foto victor nogueira IMG_4290)

domingo, 9 de agosto de 2026

(71) Curvo Semedo; A Bocage (Tu, que o nume divino e a mente erguida)

 

Setúbal, R. Dr Paula Birba - mural montra Bocage (Foto victor nogueira)  

Soneto de Curvo Semedo a Bocage

 (1766 / 1838)


Tu, que o nume divino e a mente erguida

Têm no Parnaso em posto tão supremo,

Ó Elmano, por quem choro e por quem temo,

Na tempestade d'esta incerta vida;

 

Se a sorte te persegue encarniçada,

E te faz experimentar o golpe extremo,

Ouve Jalmiro, que no amor que me mo,

Te dá a alma em amizade consagrada.

 

Que importa que a fortuna te combata,

Se as Musas te coroam de imortais

Louros que o tempo e a morte não desfazem?

 

Vive, ó Elmano, e em tuas rimas tais,

Mostra à turva multidão cega e ingrata

Como os génios do Sado a glória fazem!

(70) Nicolau Tolentino — A Bocage (Bocage, cujo engenho o mundo admira)

 

Setúbal Av, República Guiné Bissau - Painel de azulejos no antigo Cinema Bocage (Foto victor nogueira  IMG_9589) AUTORES: Louro de Almeida e Rogério Chora (1979)  

 Nicolau Tolentino — A Bocage

Tolentino (1740 / 1811) , mestre da sátira e do retrato de costumes do século XVIII, manteve um diálogo poético acutilante e bem-humorado com o jovem Bocage.


Bocage, cujo engenho o mundo admira,

Que em rimas fluídas, fáceis e sublimadas,

Vês as musas do Tejo encantadas

Ouvir o som da tua áurea lira;

 

Se a inveja contra ti seu dardo atira,

E as mentes vis, de raiva perturbadas,

Querem ver tuas glórias eclipsadas

Com a cega fúria com que o vulgo gira:

 

Despreza o ganido dessa matilha insana,

Que a fama, que os teus versos te assegura,

Não se apaga com sopro de áurea vã;

 

Segue o teu rumo, ó génio da pintura,

Que a glória do teu nome, sobre-humana,

Há-de vencer o tempo e a sepultura.


(69) Jorge Castro - Soneto a Bocage (Truculento e vivaz a pena empunha)


Setúbal Av, República Guiné Bissau - Painel de azulejos no antigo Cinema Bocage (Foto victro nogueira  IMG_9582) AUTIORES: Louro de Almeida e Rogério Chora (1979) 


Jorge Castro - Soneto a Bocage 

 (1930 / 2010)


Truculento e vivaz a pena empunha

Acutilante do nariz às estribeiras

Zurze agreste as lusas pepineiras

Ao poltrão ferrabrás come-o à unha 

 

Com mão direita o vate se desunha

Prosápias vergastando e caturreiras

Enquanto afaga cru pobres rameiras

À esquerda do afecto a que se impunha 

 

Debochado ordinário e vil até

Eis Bocage todo inteiro e contumaz

Desvairante num bordel ou num café 

 

E veremos pelos poemas que nos faz

Perversos ou amargos de outra fé

Quanta alma este Bocage nos traz! 

(68) 'A Morte de Bocage' (fado) (Na noite escura, no quarto calado)

 

Setúbal - estátua e Praça de Bocage (foto victor nogueira)

. Letra do Fado "A Morte de Bocage"


Na noite escura, no quarto calado,

Apaga-se a vela, fecha-se o olhar,

Morre o Poeta que viveu em fado,

Que fez do verso a forma de amar.


Já não há rimas de riso e sátira,

Cumpriu-se a hora do seu destino,

Chora Setúbal, chora a sua pátria,

A partida triste de Elmano Sadino.


A pena caindo da mão cansada,

O livro aberto no último verso,

A alma livre, da dor libertada,

Vai procurar o seu universo.


Passam os anos, passa a memória,

Mas na calçada de noites sem fim,

Fica Bocage gravado na história,


Cantado em fado e em tom menor assim.

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Relativamente à letra do fado "A Morte de Bocage"  pertence à tradição oral do fado vadio e de fado de coimbra/lisboa.

No fado e na música popular portuguesa, a figura de Bocage surge frequentemente humanizada, boémia e trágica. O fado "A Morte de Bocage" (revisitado por vários fadistas e gravado em registos históricos do fado de Coimbra e de Lisboa) canta os seus últimos momentos e o contraste entre a sátira e a morte.

Na história do fado, muitas destas composições de tom descritivo e memorialista sobre figuras históricas não têm um autor individual registado nas plataformas modernas. São tidas como domínio público / fado tradicional (frequentemente cantadas na estrutura do Fado Menor ou Fado Cravo). (Gemini)

(67) Tomás Ribeiro - 'Epitáfio a Bocage' (Aqui jaz quem da vida fez brinquedo)

 

  Setúbal - Parque do Bonfim  'Pasmadinhos' Bocage    (Fotos victor nogueira=


. "Epitáfio a Bocage", de Tomás Ribeiro

(1831 / 1901)


Aqui jaz quem da vida fez brinquedo,

Quem rindo da ilusão chorou a sério;

Quem não teve do mundo nem do medo

A chave de fechar o seu mistério.


Aqui jaz o Poeta da tristeza,

Que o amor cantou em notas de amargura;

Quem teve por rainha a Natureza,

E por abrigo esta caverna escura.


Passante, que de longe o nome escutas

Do grande Elmano que aqui jaz desfeito,

Se pelas mesmas dores também lutas,


Deixa uma lágrima caindo no seu peito,

E diz chorando à terra que o encerra:

"Nunca tal alma se encontrou na terra!"

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(66) Victor Nogueira - Auto-retrato em passatempo

 



Setúbal Avenida Belo Horizonte  'Plano Sequência' conjunto escultórico de João Limpin  (Fotos victor nogueira)


AUTO RETRATO  EM PASSATEMPO

Com nariz grande, olhar estrelado,
Baixo, cabelo negro, ondulado,
Magro, moreno, mui desajeitado,
Nada ou p'la vida sempre perdoado.
.
Buscando amizade, mau achado,
Agindo calma ou mui despeitado,
O êxito logrou, mal torneado,
Com persistência e pouco alegrado.
.
Tolerante, mas não libertário,
Conduzindo, longe da multidão,
Na vida procurando liberdade.

 Em tudo mal, buscando seu contrário,
Com ar sério ou risonha feição,
Mal sente, co'a razão, felicidade.

in "Retratos" - 1989.09.10 - Setúbal 

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A escultura de João Limpin intitulada Plano-Sequência representa um autocarro articulado em tamanho real, integrado na paisagem urbana na Avenida Belo Horizonte, na zona do Forte da Bela Vista / Bairro Azul, em Setúbal.

(65) Bocage - A frouxidão no amor é uma ofensa


Praça de Bocage



Foto victor nogueira (2020) Setúbal Bocage na portada duma montra na Praça de Bocage. editada pelo  Gemini
 

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso,
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.

(64) António Feliciano de Castilho - 'A Bocage' (Génio que em fogo e luz te desataste)

 

Setúbal  Travessa do Ximenes . azulejos Bocage (Foto victor nogueira IMG_8702)


. "A Bocage", de António Feliciano de Castilho

(1800 / 1875)


Génio que em fogo e luz te desataste,

Rindo e gemendo em versos d’harmonia,

Que a dor das paixões todas provaste,

E em tudo quanto tocaste puseste poesia!

Na pátria onde o talento por desgraça

Tantas vezes encontra a sepultura,

Tu passaste a sorrir, como quem passa

Por entre as sombras de uma noite escura.

Curvaste a fronte ao peso da injustiça,

Mas na memória viva te quedaste;

A boca que escarnece e que cobiça

Não calou o cantar que nos deixaste.

Dorme em paz, ó Poeta! A tua glória

Não no-la rouba o tempo nem a sorte;

Ficou teu nome impresso na História,

Triunfante da vida e também da morte

(63) Filinto Elísio: 'A Bocage' (Grato às Musas, de Elmano a mente ufana)

 

Setúbal  - Rua Francisco José Mota azulejo Bocage (Foto victor noguiea GEDC0778)

 "A Bocage", de Filinto Elísio

(1734 / 1819)


Grato às Musas, de Elmano a mente ufana

Voo toma aos espaços do Infinito;

Não curva o colo ao cego e torpe rito,

Nem a cerviz ao jugo que o desmana.


Na Lira acorda a voz, que a alma humana

Desperta do torpor em que tem jazito;

E em notas de ouro, em número prescrito,

A virtude celebra e o vício dana.


Se a inveja o morde, se a calúnia o assalta,

Canta mais alto, e no seu canto puro

A pátria ilustra, a língua Lusa exalta.


Vive, ó Mago do verso, e no futuro

Teu nome ressoe em cima do altar

Onde a Glória te vem coroar!

(62) Ary dos Santos - AO MEU FALECIDO IRMÃO MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

  



Setúbal Rua General Daniel de Sousa, 136  - Mural Bocage (Foto victor nogueira, editada pelo Gemini)

Este mural, com a sua estética e enquadramento urbano, faz o contraste entre a tradição e a subversão pela modernidade, tendo como elo de ligação a '(re)vivência', não reverencial, da(s) memória(s),   mesmo que Ary mantenha a norma sonetística.

* Ary  dos Santos
(1937 ( 1984)


Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!


José Carlos Ary dos Santos. VIII Sonetos, 1984
http://nestahora.blogspot.com/2019/09/bocage-254-anos-hoje.html 

(61) De 'Já Bocage não sou!' a 'Era eu Bocage!'



Setúbal - Fotos victor nogueira

* Gemini

Numa caixa de eletricidade decorada nas ruas de Setúbal, a figura do poeta surge acompanhada pelas datas do seu falecimento (1805) e da intervenção (2014), juntamente com a afirmação: «ERA EU BOCAGE!».

Esta inscrição na rua contradiz frontalmente o tom da célebre trilogia de sonetos da agonia, escrita pelo poeta no leito de morte, onde ele renegava a sua faceta libertina e pedia para esquecerem a sua persona satírica.

(60) Fialho de Almeida e a Garra de Os Gatos




Fotos victor nogueira Setúbal Rua Rua Ramalho Ortigão Mural de homenagem a Fialho de Almeida

Na Rua Ramalho Ortigão, no Bairro Humberto Delgado, em 2020.10 foi inaugurado um mural homenageando o "General sem Medo" e os escritores Ramalho Ortigão e Fialho de Almeida. Este mural é de autoria do Colectivo Explicit Citizens (David Martins, Filipe Serrallha e João Murta)

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Fialho de Almeida e a garra de Os Gatos

Na Rua Fialho de Almeida, em Setúbal, a secção do mural dedicada ao escritor eborense destaca a sua imagem ladeada pela estampa do jornal Diário Regional e pelas silhuetas de dois gatos. A referência evoke diretamente Os Gatos (1889-1894), a sua obra mais célebre e uma das mais acutilantes coletâneas de panfletos de crítica social e política da literatura portuguesa.

Tal como o animal que lhe dá nome, a escrita de Fialho de Almeida em Os Gatos caracteriza-se pelo olhar felino, agudo e noturno sobre as mazelas da sociedade da época. Com uma prosa incisiva e satírica, o autor "arranha" as instituições, a moral vigente e o poder político, utilizando a literatura como uma ferramenta de intervenção pública e combate cívico.

Este painel integra um conjunto em curva e declive na mesma artéria, onde são também homenageados Ramalho Ortigão e Humberto Delgado. (Gemini)

Para ver o registo integral do mural nesta rua de Setúbal ,ver  Murais e grafitos em Setúbal 96 - Rua Ramalho Ortigão

sábado, 8 de agosto de 2026

(59) Ramalho Ortigão e a ética de As Farpas

 

Fotos victor nogueira Setúbal Rua Ramalho Ortigão  Mural de homenagem a Ramalho Ortigão

Na Rua Ramalho Ortigão, no Bairro Humberto Delgado, em 2020.10 foi inaugurado um mural homenageando o "General sem Medo" e os escritores Ramalho Ortigão e Fialho de Almeida. Este mural é de autoria do Colectivo Explicit Citizens (David Martins, Filipe Serrallha e João Murta).


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Ramalho Ortigão e a ética de As Farpas

Integrado no mesmo conjunto mural da Rua Fialho de Almeida, em Setúbal, o retrato de Ramalho Ortigão surge acompanhado por um excerto inscrito sobre um pergaminho. A citação pertence à emblemática obra As Farpas, a célebre publicação mensal de crítica social e política criada em 1871 em colaboração com Eça de Queirós.

"Ninguém é grande ou pequeno neste mundo pela cadeira em que se senta. Por mais gloriosa ou obscura que seja a categoria em que a sorte nos coloque, a importância da nossa vida depende do valor dos actos que praticamos e da utilidade das ideias que difundimos e comunicamos."

O trecho reflete o pensamento ético do autor e da Geração de 70: uma defesa do mérito individual e do civismo, lembrando que a verdadeira relevância de uma figura pública não provém do cargo formal, mas do impacto real e da utilidade das suas ideias.

Este segmento faz parte de uma obra coletiva dedicada à memória crítica e libertária, partilhando o espaço com os murais de Fialho de Almeida e do "General sem Medo", Humberto Delgado. (Gemini)

Para ver o registo integral do mural nesta rua de Setúbal ,ver  Murais e grafitos em Setúbal 96 - Rua Ramalho Ortigão

(58) Friedrich Nietzsche - 'No Love, No Law'


Setúbal Praceta do Montalvão grafito 'No Love No Law' (Foto victor nogueira (IMG_4780)


* Gemini 

Friedrich Nietzsche encaixa com enorme precisão no espírito desse grafito, capturando a rejeição da moral tradicional, o niilismo e a rutura com as leis impostas:

Aqui estão as passagens mais alargadas no seu contexto original, retiradas diretamente das obras de Friedrich Nietzsche:

1. Para Além do Bem e do Mal (1886)

Seção IV: Epigramas e Intermédios — Aforismo 153

«Das que se fazem por amor acontecem sempre para além do bem e do mal. O amor verdadeiro transcende as valorações morais comuns da sociedade, pois não obedece a mandamentos externos nem à coação da lei; a sua própria natureza constitui a sua única e suprema legislação.»

(Nota: O aforismo 153 na sua formulação mais célebre e direta lê-se: «O que se faz por amor acontece sempre para além do bem e do mal.»)

2. Assim Falava Zaratustra (1883–1885)

Terceira Parte — «Das Velhas e Novas Tábuas», Capítulo 2

«Aqui estou eu e espero; rodeado de velhas tábuas quebradas e também de novas tábuas meio escritas. Quando virá a minha hora? — a hora do meu declínio e do meu declive: pois quero ir mais uma vez para junto dos homens...

Pois os homens assim o querem: e quem quer que deva ser um criador no bem e no mal tem de ser, em verdade, um destruidor primeiro e quebrar valores. Assim, o maior mal pertence à maior bondade: mas esta é a criadora.

Rompamos, rompamos as velhas tábuas, meus irmãos!»

3. A Gaia Ciência (1882)

Livro Terceiro — Aforismo 116: Herdado de novo

«Onde quer que encontremos uma moral, encontramos uma avaliação e uma hierarquia dos impulsos e das ações humanas. Estas avaliações e hierarquias são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade e de um rebanho: aquilo que lhe é útil em primeiro lugar — e em segundo e terceiro — é também o padrão supremo para o valor de todos os indivíduos. Com a moral, o indivíduo é ensinado a ser função do rebanho e a atribuir valor a si próprio apenas enquanto função. Como as condições de preservação de uma comunidade foram muito diferentes das de outra, existiram morais muito diferentes; e considerando as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, as nações e os Estados ainda têm de sofrer, pode profetizar-se que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo.»

Na perspetiva nietzschiana, "No Love, No Law" lê-se como a recusa de uma ordem moral externa que não nasça do próprio indivíduo ou da paixão vital.  (Gemini)

(57) DO ART... NOT WAR!


Foto victor nogueira - 'DO ART ... NOT WAR' é o slogan neste grafito na Rua Luís Sá, editada pelo  Gemini 


Foto victor nogueira - 'DO ART ... NOT WAR' é o slogan neste grafito na Rua Luís Sá, uma rua desolada onde abundam corroídos pelo tempo. Presumo que o homenageado por esta artéria seja o dirigente do PCP falecido em 1999.

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DO ART... NOT WAR!

A expressão "DO ART... NOT WAR" (ou na sua forma mais comum "MAKE ART, NOT WAR") pode ser ligada a várias referências culturais, literárias e musicais.

As principais ligações incluem:

1. Origem Literária e Slogan Pacifista (Counterculture)

  • "Make love, not war": O slogan "Do Art, Not War" é uma variação direta da famosa palavra de ordem dos anos 60, popularizada durante os protestos contra a Guerra do Vietname.

  • Herbert Marcuse e a Literatura da Contracultura: Embora a autoria do slogan original seja atribuída a figuras como Gershon Legman e Diane DiPrima, autores e filósofos da época (como Marcuse na obra Eros e Civilização) defenderam a transformação da pulsão destrutiva (Thanatos) em criação e arte.

2. Ligações Musicais

A antítese entre Arte/Música e Guerra é um dos temas mais recorrentes da música de protesto:

  • John Lennon & Yoko Ono – "Give Peace a Chance" e "Imagine": A filosofia do "Bed-In" e o manifesto pacifista de Lennon pregavam que a expressão artística e o ativismo cultural eram as principais armas contra a violência militar.

  • Movimentos Punk e Hip-Hop: A frase "Make Art, Not War" e as suas variações tornaram-se lemas em centenas de canções, mixtapes e manifestos musicais do movimento DIY (Do It Yourself), onde o ato de criar arte e música é visto como uma forma direta de resistência à destruição.

3. Arte Urbana e Visual (Shepard Fairey)

  • A expressão foi imortalizada no mundo da street art pelo artista Shepard Fairey (OBEY) na sua célebre obra gráfica e mural intitulada "Make Art Not War", criada como um cartaz de protesto contra a Guerra do Iraque e posteriormente reproduzida em murais por todo o mundo.  (Gemini)