terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sérgio Ferreira Borges - Passos Coelho e o regresso à Idade Média (2012)

 

* Sérgio Ferreira Borges

 Quando o Marquês de Pombal chegou ao poder, encontrou um Estado ainda medieval, quase inexistente, sacrificado aos egoísmos de uma aristocracia inútil e parasitária.

Os saques - coloniais e domésticos - eram coisa corriqueira que contavam com o beneplácito régio, para, do seu produto, se alimentarem os vícios da nobreza dissoluta. Talvez por isso, o Marquês de Pombal se tenha aproveitado da tentativa de regicídio dos Távoras, para desferir um golpe inclemente, contra os privilegiados da corte.

Há um elemento passional na origem do processo dos Távoras. O rei José era amante de Teresa Leonor, a mulher do Luís Bernardo, filho de Francisco Távora. E terá sido esse, aparentemente, o móbil do crime.

Mas havia também fortes motivações políticas para eliminar o rei e, com ele, o seu chanceler-mor. E Pombal respondeu, também, politicamente, com execuções e desterros, para que a aristocracia percebesse que alguma coisa tinha mudado, no Reino de Portugal.

Atacou depois os jesuítas que, desde a restauração de 1640, controlavam grande parte do comércio colonial e daí financiavam um poder imenso que abafava o Estado: Regiam o ensino, a cultura e a ciência, abuso que Pombal não lhes tolerava. Mas nesse tempo, a Igreja via no poder a sua própria sobrevivência.

Na realidade, o Estado não existia. Havia uma corte e, à sua volta, um conjunto imenso de privilégios que ninguém sabia justificar.

Hoje, o Estado está a caminhar para a mesma irrelevância que teve, até ao advento do Marquês de Pombal. Está pobre e falido, mas os privilegiados que o cercam estão ricos, prósperos, apoderando-se cada vez mais de um poder ilegítimo, que não lhes pertence. São os "Catrogas" que, além de meios financeiros, dispõem de influências enormes que lhes colocaram nas mãos todo o poder que devia ser público. Assim eram também os Távoras.

Reduzir o Estado, como eles dizem, não é nada de moderno, bem pelo contrário. É antes um regresso ao medieval, para manter os privilégios de uma horda que, sem pejo nem vergonha, à custa das mais escandalosas mentiras, vai usurpando o poder. E aqui, está uma questão nuclear: o poder tem de existir, mas resta saber se o queremos no domínio público, isto é, no Estado, ou nas mãos dos privilegiados, para serviço dos seus interesses privados.

Passos Coelho já optou pela segunda premissa. É um servidor de interesses privados, como ele próprio tem dito, por entre algumas inverdades. Repare-se na incongruência dele, quando pede mais investimentos aos investidores e mais poupança aos consumidores. As duas coisas não podem coexistir. Isto é uma enorme falácia, porque Passos Coelho sabe que, só o consumo pode remunerar o investimento. E sem remuneração, nenhum investidor está na disposição de malbaratar o seu capital.

Ele serve os interesses privados, como se pode ver pelos resultados da Caixa Geral de Depósitos. No último ano, pela primeira vez, registou prejuízos da ordem dos 488 milhões de euros. Dinheiro que foi tapar as falcatruas do Banco Português de Negócios e do Banco Privado Português. Trafulhices que se tomaram em lucro, para uma minoria. Para os Távoras do século XXI. A modernidade apregoada por este governo é um retrocesso, um regresso à idade média!

(in Diário de Coimbra, 12/02/2012)

23.02.26 | Manuel

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/passos-coelho-e-o-regresso-a-idade-246462

Eduardo Maltez Silva - “Reclusos vão limpar florestas”



* Eduardo Maltez Silva

“Reclusos vão limpar florestas.” Vendido como se fosse uma mudança revolucionária, quando na verdade é apenas mais um episódio clássico de populismo punitivo e inútil, embrulhado como “novidade” para agradar aos cheganos.
A ideia é simples — não porque funcione, mas porque excita um certo reflexo emocional: alguém tem de ser punido, alguém tem de sofrer, alguém tem de “pagar” pela minha vida frustrada.
Décadas de investigação em psicologia social mostram que uma parte das marionetas do populismo tem forte adesão à crença do “mundo justo”: a necessidade quase visceral de acreditar que quem está mal alguma coisa fez para o merecer.
Quando essa crença é ativada — por medo, insegurança económica ou ansiedade social — cresce o apoio a soluções punitivas, mesmo quando são contraproducentes e até inúteis.
Não é racional. É emocional.
E emoções dão votos.
É por isso que estes partidos perdem mais tempo a falar de punir quem comete crimes do que a falar em prevenir o crime.
Porque prevenir o crime exige mais Estado, melhores escolas, melhor polícia, melhor justiça, melhor apoio social, melhor saúde mental, menos guetos, menos desigualdade… e isso incomoda as elites económicas.
O populismo sabe isto de cor. Qualquer manual de propaganda dos anos 30 já o sabia.
Por isso repetem esta coreografia moral: reclusos, beneficiários de RSI, desempregados, imigrantes — tudo embrulhado na mesma narrativa de suspeição e punição.
O objetivo não é resolver problemas estruturais. É oferecer catarse barata a quem precisa de sentir que alguém está a ser posto “no lugar”.
Mas vamos aos factos, porque a propaganda vive da ignorância.
Em Portugal, os reclusos sempre puderam trabalhar e ter formação.
Sempre. Vou repetir: SEMPRE.
Está na lei há anos. Faz parte do modelo de reinserção social.
Existem oficinas prisionais, serviços internos, cantinas, programas profissionais e até trabalho no exterior em regimes específicos.
Não, não estavam proibidos de trabalhar. Nunca estiveram.
Aliás, no final de 2024 havia perto de 43% da população prisional em actividade laboral. (fora os que estavam em formação)
O que existe — e existe há décadas — é um sistema onde a maioria dos reclusos que trabalha dentro da prisão recebe valores na ordem dos 2 a 3 euros por dia. Sim, por dia.
Quando se converte isto em horas de trabalho, estamos a falar de cêntimos por hora.
Isto não nasceu ontem.
Isto não foi agora descoberto.
A possibilidade sempre existiu.
O que mudou foi outra coisa: a propaganda.
De repente, vender trabalho prisional como se fosse uma invenção musculada rende cliques e rende votos num eleitorado que vibra com soluções simplistas servidas em tom de taberna.
Mas há um pequeno problema que o marketing político esconde.
Trabalho exterior de reclusos não é apenas mandar pessoas para o mato com uma enxada para apaziguar o instinto punitivo.
Para colocar reclusos fora dos muros é preciso:
– guardas prisionais
– transporte
– logística
– alimentação
– seguros
– formação para operar maquinaria
– segurança permanente
– protocolos formais com empresas e associações
Tudo isto custa dinheiro. Muito dinheiro.
E, na prática, o impacto nas florestas é altamente discutível.
Reparem: estamos a falar de um sistema onde o próprio sindicato do setor aponta para uma falta estrutural próxima dos 1.500 guardas prisionais.
Ou seja, enquanto se vende a imagem bonita da “limpeza das matas”, o custo real é empurrado para debaixo do tapete... mais recursos de segurança desviados para operações de impacto estrutural reduzido.
Mas isso é detalhe técnico.
E detalhe técnico não ganha votos.
Há outro ponto ainda mais incómodo neste populismo de taberna.
Quando o Estado começa a disponibilizar mão-de-obra prisional em larga escala, o risco — já observado noutros países — é criar pressão em baixa sobre os custos laborais e abrir espaço a modelos de negócio dependentes de trabalho ultra-barato supervisionado pelo erário público.
O mecanismo é perverso:
– o Estado paga a vigilância
– o Estado assume o risco
– o Estado mobiliza recursos escassos
– e terceiros beneficiam de custos mais baixos
Isto não é teoria da conspiração.
A literatura internacional sobre economias prisionais mostra precisamente este risco: o foco pode deslizar da reinserção para a utilidade económica do trabalho barato.
E é aqui que o populismo revela o truque.
Não é política pública séria.
Não é reforma estrutural.
Não é estratégia florestal.
É ilusionismo político.
Pega-se numa medida que já existia, dá-se verniz musculado, vende-se como novidade,
esconde-se os custos e a utilidade real da ação.
Ao mesmo tempo, alimenta-se a narrativa moral de que o problema do país são sempre os de baixo — o recluso, o beneficiário, o desempregado — nunca as falhas estruturais que dão muito mais trabalho resolver.
Convém relembrar o óbvio.
Quem recebe RSI já tem obrigações legais.
Quem está desempregado já tem deveres de procura ativa de trabalho.
Reclusos já trabalham no sistema prisional.
O Estado social moderno não funciona à base de chicote.
Funciona criando condições, incentivos e percursos de reinserção com racionalidade económica e social.
Tudo o resto é teatro punitivo...é performance...é maquilhagem, cabeleireiro e chuva digital.
Há trabalho prisional que pode e deve existir com dignidade, formação real e verdadeiro valor público — trabalho para reintegrar, não para alimentar oportunismos.
O que não precisamos é de políticas desenhadas para provocar aplausos fáceis enquanto desviam recursos escassos, colocam em causa a nossa segurança e vendem soluções simplistas a quem confunde punição com reinserção.
O país já paga caro demais por políticas feitas ao som de berros de taberna… e ainda assim votámos nesta porcaria.
Resultado? O que estava mal piorou.
O que estava bem, conseguiram estragar.
Por isso a distração faz parte do plano.
Não se distraiam...Não se deixem enganar.

2026 02 24

https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

Eduardo Maltez Silva - Que belos cromos à pala do orçamento

 


* Eduardo Maltez Silva

in Facebook, 23/02/2026, Revisão da Estátua

O Governo contrata por 11 mil euros, em ajuste direto, maquilhadores e cabeleireiros para embelezar a imagem do Governo. (é mesmo verdade, não é sátira, ver notícia aqui).

Porque quando a substância falha, entra a maquilhagem. Quando a política rebenta tudo, entra o styling. Quando a governação é incompetente, entra o verniz.

Este executivo especializou-se nisso: Cosmética Política.

Pegou no que estava a funcionar e implodiu. Pegou no que já estava frágil e deixou degradar.

E, no meio disto tudo, investe na única área onde tem mostrado verdadeira consistência: gestão de imagem e PowerPoints.

Tal como a Spinumviva operava na lógica do balcão de interesses, este Governo move-se com a mesma fluidez entre o público e o privado — sempre com uma bússola muito clara: quem ganha com isto no topo da pirâmide?

Enquanto isso:

— a saúde pública ficou muito pior.

— as negociatas e transferência de dinheiro da classe média para os mais ricos está nos máximos.

— os pacotes laborais para esmagar quem trabalha em nome dos lucros de quem manda são desenhados às escondidas.

— a habitação transforma-se num parque de extração para especuladores e bilionários.

Mas calma — a franja está impecável para a conferência de imprensa.

Isto não é governar…tal como a chuva falsa nos vídeos do CHEGA, isto é performance para enganar patetas.

Muito ruído. Muito enquadramento. Muito spin. Muito “a culpa era dos outros” E cada vez menos Estado a funcionar.

No fim do dia, a mensagem implícita é simples: não te veem como cidadão — veem-te como dador de votos que precisa de uma boa imagem no ecrã para não olhar demasiado para os números.

É o CHEGA 2.0, com menos tom de taberna, mais bem barbeado e com melhor maquilhagem.

https://estatuadesal.com/2026/02/24/que-belos-cromos-a-pala-do-orcamento/

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Prabhat Patnaik - Poderia a Europa proporcionar uma "terceira via"?


Desigualdade crescente da riqueza.


Prabhat Patnaik [*]

Com a administração Trump a adotar medidas brutalmente repressivas não só contra os imigrantes mas também contra os cidadãos americanos, surgiu uma tendência nos círculos liberais americanos de olhar para a Europa como uma "terceira via", um "modelo" diferente tanto da China como dos EUA, as duas grandes potências em disputa no mundo atual. É claro que os liberais americanos nunca foram apaixonados pela China; portanto, não é surpreendente que rejeitem o "modelo" chinês. Mas com a democracia a enfraquecer nos próprios EUA, eles veem na Europa um potencial para combinar êxito económico com democracia eficaz, direitos humanos e justiça social. Para que esse potencial se concretize, acreditam que a Europa deve colocar a sua economia em ordem, mantendo as forças de extrema direita à distância.

Embora a democracia europeia possa parecer atraente para os liberais americanos, aos olhos do terceiro mundo ela sempre foi associada ao imperialismo, e isso continua a ser o caso mesmo após o fim formal dos impérios coloniais. A Grã-Bretanha tem sido cúmplice ativa na maioria das conspirações levadas a cabo pelo imperialismo norte-americano contra governos "recalcitrantes" do terceiro mundo que procuraram ou exerceram controlo independente sobre os seus próprios recursos naturais, desde Mossadegh no Irão, a Lumumba no Congo, a Saddam Hussein no Iraque. Quanto à França, a descolonização nunca foi concluída na África francófona, com tropas francesas continuando a estar estacionadas na maioria das antigas colónias francesas formalmente independentes. Quando Thomas Sankara, do Burquina Faso, procurou livrar-se das tropas francesas, foi derrubado e assassinado num golpe de Estado que se suspeita ter sido fortemente apoiado pela França; só agora é que está a ser feito um esforço renovado em alguns países da África Ocidental, incluindo o Burquina Faso, para se livrar das tropas francesas.

O apoio dado pela Europa ao genocídio em Gaza faz parte desse padrão; e, além disso, vários liberais europeus alinharam-se, pelo menos implicitamente, com o apoio de seus governos ao genocídio, como ficou evidente, por exemplo, quando o cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, questionado sobre esse genocídio, disse que a política deveria ser mantida separada do cinema.

Mas vamos esquecer tudo isso; vamos também esquecer o facto de que a Europa é responsável pelo naufrágio dos acordos de Minsk, que poderiam ter evitado a guerra na Ucrânia, e é hoje a oponente mais veemente de qualquer solução pacífica para este conflito. Esqueçamos a sua cumplicidade tanto no esforço para alargar a NATO até à fronteira russa como na derrubada de Viktor Yanukovych, que foi auxiliada e incentivada, como até o Instituto Cato, sediado nos EUA, admite, pela administração liberal de Obama. Examinemos apenas o argumento restrito sobre a possibilidade de a Europa proporcionar uma "terceira via".

O que este argumento geralmente pressupõe é que estas peripécias de Trump são devidas inteiramente às suas falhas pessoais; o que não questiona é por que razão uma pessoa assim chegou ao poder nos EUA e por que razão também na Europa o meio-termo liberal parece estar a desmoronar-se, tal como aconteceu com a eleição de Trump nos EUA. Dito de outra forma, o argumento não relaciona a eleição de Trump, ou as perspetivas políticas da Europa, com quaisquer causas económicas subjacentes, em particular com o estado atual do capitalismo.

A característica mais marcante do capitalismo contemporâneo que caracteriza tanto os EUA como a Europa é um enorme declínio na participação da classe trabalhadora no rendimento nacional. Na verdade, esse declínio foi tão grande que Joseph Stiglitz chega a sugerir que o salário real de um trabalhador americano médio em 2011 era inferior, em termos absolutos, ao de 1968. Também na Europa, de acordo com o Banco Central Europeu, os salários reais, que caíram drasticamente em termos absolutos em 2022-23, não recuperaram o seu nível do quarto trimestre de 2021 até ao quarto trimestre de 2024; e a crise energética na Alemanha, resultante da guerra na Ucrânia, só veio agravar os problemas da sua classe trabalhadora. No entanto, para além das flutuações específicas, tem havido um choque salarial geral para os trabalhadores europeus (tal como, de facto, para os trabalhadores americanos) decorrente do fenómeno da globalização neoliberal, que se prolonga há décadas, em que a mobilidade do capital sujeitou estes trabalhadores ao impacto nefasto das enormes reservas de mão-de-obra do terceiro mundo nas suas reivindicações salariais. A cólera dos trabalhadores dos países capitalistas avançados contra os regimes políticos liberais que promoveram os regimes económicos neoliberais é, portanto, significativa e compreensível; o enfraquecimento das forças políticas liberais em todos esses países, do chamado “meio-termo” entre a extrema direita e a esquerda, é o resultado direto disso.

Na verdade, esses elementos "centristas", seja Hilary Clinton nos EUA, o New Labour no Reino Unido, Macron na França ou Friedrich Merz na Alemanha, também têm sido notavelmente alheios e, portanto, indiferentes à situação dos trabalhadores nos seus respetivos países; e muitos deles são ex-funcionários de grandes empresas, como Merz, que trabalhou na gigante financeira Blackrock. Os trabalhadores, portanto, voltaram-se para a extrema-direita ou para a esquerda; e onde a esquerda foi frustrada pelas maquinações desse “centro”, como foi o caso de Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha ou Bernie Sanders nos EUA, eles migraram em grande número para a extrema-direita. Só em França é que uma esquerda unida conseguiu frustrar tais maquinações e emergiu como a formação política mais forte, empurrando a extrema-direita liderada por Marine Le Pen para o segundo lugar.

Reverter o declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional, que constitui uma condição necessária para obter o seu apoio e, portanto, para preservar a democracia contra o ataque da extrema direita, requer uma intervenção fiscal ativa por parte do Estado. Mas tal intervenção é impossível num mundo onde não há controlo de capitais, pois qualquer intervenção desse tipo daria origem a uma fuga de capitais do país que a tentasse. Por outras palavras, qualquer reversão do declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional requer uma retirada do regime neoliberal, que só a esquerda pode realizar; a extrema direita pode prometer uma melhoria nessa participação, mas necessariamente trairá essa promessa, uma vez que a extrema direita requer, para o seu sucesso, o apoio do capital monopolista, que obviamente não toleraria um declínio na sua própria participação no rendimento.

Os círculos liberais americanos que depositam as suas esperanças na Europa para fornecer um "modelo", uma "terceira via", e gostariam que a sua economia passasse por uma transformação, não abordam este ponto básico. Ou seja, que a espontaneidade do capitalismo, restaurada pelo neoliberalismo após a fase pós-guerra de intervenção estatal keynesiana, implica uma tendência imanente de desigualdade de rendimentos que trouxe sofrimento à classe trabalhadora e cuja consequência foi a ascensão da extrema-direita. A Europa não pode servir de "modelo" de qualquer tipo, a menos que essa espontaneidade seja superada através da intervenção de um governo sensível às necessidades da classe trabalhadora, ou seja, um governo de esquerda, o único capaz de tirar a economia das garras do neoliberalismo, impondo controlos de capitais. Esses círculos podem ver a necessidade de algum recuo em relação ao atual nível de globalização, mas os controlos de capitais vão ao cerne do neoliberalismo.

Não apenas as economias europeias, mas a economia mundial como um todo atingiu hoje um momento crítico, em que a preservação da democracia exige a chegada ao poder de governos sustentados pelo apoio da classe trabalhadora (ou, no caso dos países do terceiro mundo, pelo apoio do povo trabalhador como um todo, composto por trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e pequenos produtores). Os limites à ação governamental na Europa surgem não por causa da natureza e do nível da integração europeia, mas, como em todas as outras regiões do mundo, por causa da camisa de força do neoliberalismo. O problema com os liberais, o que também se aplica à tendência liberal americana que temos vindo a discutir, é que eles não estão suficientemente conscientes deste facto.

A situação difícil da Europa hoje não é, portanto, diferente da dos Estados Unidos. É verdade que ela teve uma história diferente e, assim, um legado económico diferente dos Estados Unidos, decorrente das correlações muito diferentes das forças de classe no final da Segunda Guerra Mundial; mas todas essas diferenças foram superadas atualmente pela exposição comum às tendências imanentes do capitalismo neoliberal. As consequências dessa exposição exigem não a busca de algum “modelo” europeu distinto do que vem acontecendo nos Estados Unidos, mas a superação do capitalismo neoliberal. Donald Trump, é preciso enfatizar, não conseguiu isso, apesar de sua agressividade tarifária: ele permanece fiel à essência do neoliberalismo por seu compromisso com o livre fluxo de capitais transfronteiriços, especialmente fluxos financeiros.

22/Fevereiro/2026

https://resistir.info/patnaik/patnaik_22fev26.html
Ver também:

World Inequality Report 2026 (para descarregamento, 208 p.)  in  https://wir2026.wid.world/

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0222_pd/can-europe-provide-“third-way”

Edward Curtin - A espontaneidade cuidadosamente calculada da divulgação “chocante” dos ficheiros de Epstein


(Edward Curtin, in Contercurrents.org, 19/02/2026, Trad. Estátua)

Sempre que um “escândalo” com o impacto dos arquivos de Epstein domina as notícias, podemos ter certeza de que se trata de uma manobra para desviar a atenção de algo mais sinistro que está para vir.

Os arquivos de Epstein estão na posse do FBI há oito anos ou mais. Então, por que é que os arquivos, com trechos censurados, foram apenas divulgados recentemente?  Cui bono ?

E quem está por detrás da divulgação que não ocorreu durante o primeiro mandato de Trump e o primeiro mandato de Biden?  Cui bono ?

O genocídio em Gaza e a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, ambos apoiados por Biden e Trump, encaixam-se no cronograma e nas omissões, visto que podemos presumir que o Mossad, a CIA, a NSA e o MI6 também tiveram acesso aos arquivos por muito tempo? Um ataque dos EUA/Israel ao Irão?   Porque, como nos filmes, toda a propaganda e encobrimentos têm datas de divulgação cuidadosamente escolhidas.

Última pergunta: por que é que alguém ficaria chocado com o conteúdo dos ficheiros de Epstein, embora muitas pessoas pareçam estar? Sim, mais nomes foram adicionados à lista de elites degeneradas que, alegremente, faziam parte da organização criminosa de Epstein, mas a revelação de mais nomes apenas confirma o quanto ela era extensa.

Há muito tempo que sabemos das atividades criminosas do degenerado Epstein, dos financiadores, celebridades, políticos e figuras públicas que se juntaram a ele. Chantagem sexual, cooperação entre agências de serviços secretos e o submundo, acordos financeiros secretos, planeamento de guerras em nome da paz, etc., são formas de como, há muito, o capitalismo tem operado. Embora aqueles que investigam estas coisas já há muito soubessem da sua existência (ver, por exemplo, One Nation Under Blackmail, de Whitney Webb, em dois volumes), as pessoas comuns podem estar, finalmente, a compreender; mas chocante não é. E o “podem” deve ser enfatizado. Todos nós vivemos há muito tempo numa cultura de crescente «choque», onde as notícias e o entretenimento mais grotescos são elementos básicos dos meios de comunicação social, desde Washington D.C. a Hollywood e em toda a Internet, o macaco perseguiu a doninha. Os macacos pensaram que era tudo uma brincadeira, e então Pop! lá se foi a doninha.

Ficar chocado parece estar na moda; apimenta a vida, induz aquele calafrio que só o sexo, a morte e o tempo podem trazer às conversas diárias. “Dá para acreditar?” e “Inacreditável!” ouvem-se a toda a hora e brotam dos lábios, dos ecrãs e dos sites em toda a parte, convidando-nos a vir até àquele sítio para ficarmos estupefactos e com a cabeça a girar vertiginosamente. Pessoas comuns tornaram-se Regan MacNeil, a jovem possuída por um demónio em O Exorcista.

Se os meios de comunicação social mainstream alguma vez aprofundassem o assunto a fundo, teriam que expor-se como agentes das mesmas forças que se encontram por detrás da ascensão de Epstein ao poder. Com que frequência é que esses meios de comunicação ligam Epstein a Israel, ao Mossad, à CIA, etc.? Não são só indivíduos malvados que governam, mas uma estrutura do mal, um sistema, se quiserem, um sistema social profundamente enraizado, atualmente administrado publicamente pelo idiota malvado Trump que, numa entrevista recente ao The New York Times, quando questionado se achava que havia limites para o seu poder global, disse: “Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode deter-me”.

Essa declaração revelou o segredo. É o credo do niilista, fundamental para o ethos atual. Sem honra, sem padrões éticos tradicionais, sem Deus, sem amor pela humanidade, apenas notícias falsas e enganosas destinadas a chocar e um presidente dos EUA falando como um punk adolescente. Sim. Inacreditável! «Eu conheço as palavras. Tenho as melhores palavras. Tenho as… – mas não há palavra melhor do que estúpido.» (Entra a banda sonora.)

O cineasta francês da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, disse certa vez: “Para fazer um filme, tudo o que é preciso é uma garota e uma arma“. Bem, temos o filme sobre Epstein, no qual ele e os seus amigos venais e sórdidos tinham as garotas, mas quem detinha as armas, e não os pénis, por trás dos seus empreendimentos criminosos, é algo que permanece sem resposta.

Quando apanhados em flagrante, os meios de comunicação social adoram expor certos indivíduos que baixam as calças para fins de abuso sexual, mas consideram impossível derrubar aqueles vilões depravados que cometem atrocidades contra pessoas comuns, dia após dia, em todo o mundo. Vamos chamá-los os produtores. Eles moldam e pagam pelas notícias.

O presidente do reality show, Donald Trump — o rosto do imperialismo explícito e do regime ditatorial interno, um brutamontes grosseiro cuja máxima fundamental é “o poder faz a justiça” e cujo nome aparece várias vezes nos arquivos de Epstein —, sabe bem como o jogo é jogado. Após a sua briga televisionada com Zelensky no ano passado (ou foi antes do conflito?), disse: “Isto vai dar um excelente programa de televisão”. O mesmo se poderá dizer do filme sobre Epstein. Talvez até dê uma série.

E, como no passado, ninguém envolvido nessa atividade deplorável e criminosa – com exceção de Epstein e Ghislaine Maxwell – irá provavelmente cumprir qualquer pena de prisão. O que não é surpresa nenhuma.

Quanto a choques, é melhor assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e ficar «chocado» com os atletas favoritos a caírem no gelo e na neve. Pelo menos essas quedas são reais.

Há uma pintura numa casa de campo ainda visível na entrada da Casa dos Vettii, nas ruínas de Pompeia, que nos diz muito sobre os arquivos de Epstein, o poder e a riqueza. Ela simboliza perfeitamente um aspecto da diferença entre as classes dominantes internacionais – ou seja, os detalhes obscenos nos documentos de Epstein, sem a resposta de quem tem conduzido a operação de chantagem e porquê – e o resto de nós. Ela retrata o deus Príapo pesando o seu pénis numa balança de moedas de ouro, como se dissesse: ouro, Deus, riqueza e poder – nós governamos. Vão-se foder! É uma velha história contada por homens niilistas desesperados para provar a sua potência dominando meninas e mulheres vulneráveis e o mundo inteiro.

Muitos têm perguntado como é possível que Epstein e todos os outros, nomeados ou não, tenham feito coisas tão más e criminosas? O mal parece deixar os intelectuais modernos muito perplexos. Será que eles acham que El Diablo é uma marca de molho de salsa?

A explicação de Hannah Arendt para o comportamento de Adolf Eichmann – a banalidade do mal – é uma das explicações que agora estão a ser usadas para dissecar o comportamento de Epstein. Outros dizem que ele não tinha consciência ou não conseguia raciocinar como um adulto; que não era muito inteligente, mas que era um excelente vigarista. Que era narcisista. Todas elas são explicações superficiais. Nenhuma delas chega ao cerne da questão. Como de costume, e de forma completamente errada, alguns culpam Nietzsche e a ideia do ubermensch (o super-homem). Nietzsche (tal como a Rússia) é frequentemente culpado por todos os males modernos por aqueles que interiorizaram noções falsas acerca da sua obra. Na verdade, Nietzsche alertou que, visto que os homens mataram Deus, “algo extraordinariamente desagradável e maligno está prestes a ocorrer”. Ele não estava nada contente com isso.

O brilhante e subestimado escritor Edward Dahlberg, num ensaio sobre Nietzsche – “O Verdadeiro Nietzsche ” – diz o seguinte sobre o filósofo: “Ele denunciou a política racial, outro termo para antissemita, chamando-se a si mesmo de ‘bom europeu’, ‘anti-antissemita’… Nada adiantou; os anti-judeus do Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) apresentaram-no ao público como um político teutónico. E é assim ele que ele é apresentado até hoje, distorcido para fins ideológicos. É de se perguntar quem é que ainda lê hoje em dia.

A propósito do uso da linguagem e da degradação da compreensão, Dahlberg acrescenta: “Tornámos a linguagem tão comum que deixámos de ser leitores simbólicos. A menos que examinemos o intelecto total do poeta como o seu texto, interpretaremos mal Blake ou Shakespeare, da mesma forma tola em que Nietzsche tem sido distorcido”.

Compreender as palavras simbolicamente é entender como os bons escritores as usam nos seus múltiplos significados, não apenas literalmente, não como lascas de pedra desprendidas de uma encosta pedregosa que atravancam uma estrada que não leva a lugar nenhum; mas como eles as fazem vibrar e brilhar, mergulhar profundamente e voar alto como pássaros luminescentes, para que outros possam contemplar profundamente e pensar uma, duas ou talvez mais vezes.

Pense no uso grosseiro da linguagem por parte de Trump; pense no de Epstein; pense na cultura em geral. Mergulhámos numa época de ignorância grosseira e a nossa decadência cultural reflete-se na decadência da nossa linguagem. Trump e Epstein refletem a cultura em geral nesse aspecto. Claramente, uma das razões para isso é a internet e os média digitais, particularmente o telemóvel com a sua câmara e mensagens de texto. É também uma razão importante para a comunicação vasta e constante entre Epstein e os seus «amigos», bem como a facilidade com que a chantagem poderia ser efetuada. Isso não é por acaso.

Alguns de nós tivemos a sorte de vivenciar, ainda jovens, a corrupção no âmago do sistema. Penso no grande jornalista  Michael Parenti, falecido recentemente, que por causa de suas opiniões pacifistas, foi excluído da carreira académica, mas que usou essa experiência para se tornar um professor livre para o mundo.

Na minha ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu trabalhava à noite na 42ª Delegacia do Bronx, entrevistando detidos nas celas de detenção. Lá, descobri que muitos eram incriminados por polícias à paisana que colocavam drogas neles; que a delegacia tinha um stock de drogas ilegais para esse fim. Pensando que eu era seu aliado, um polícia contou-me isso e disse que «temos que tirar esses malditos bastardos das ruas» (referindo-se aos homens negros e porto-riquenhos). Isso foi quatro ou cinco anos antes de o honesto e corajoso polícia à paisana do Departamento de Polícia de Nova York, Frank Serpico (que mais tarde se tornou meu amigo), ser incriminado por outros polícias e ser baleado no rosto. Alguns anos depois, foi feito sobre ele o filme Serpico, interpretado por Al Pacino.

Há sempre um filme.

Numa escola onde eu lecionava, um homem que ocupava um cargo importante e que eu respeitava, sabendo que eu estava envolvido em atividades contra a guerra, tentou – para meu grande choque – recrutar-me para a Inteligência do Exército. Esses e muitos outros exemplos fizeram-me adotar desde cedo uma postura cética em relação às figuras de autoridade. Estou grato por essas lições iniciais.

Como todas as histórias, o filme de Epstein passa-se dentro de um sistema simbólico cultural mais amplo, que é mítico nas suas dimensões. De que outra forma se pode explicar o ódio quase inerradicável dos americanos por tudo o que é russo? Nos EUA, o grande mito é chamado Sonho Americano, no qual, segundo o falecido George Carlin, é preciso estar adormecido para acreditar, mas que, mesmo assim, existe, embora possa estar a desmoronar-se. Todas as sociedades têm um sistema simbólico desse tipo. Através das suas histórias e símbolos, são transmitidos significados e valores. E as pessoas vivem de histórias, histórias dentro de histórias. Mito significa história.

Durante muitas décadas, temos passado por uma enorme transformação simbólica, na qual a ordem simbólica controladora (do grego: juntar) está a ser substituída pelo seu oposto, uma ordem diabólica (do grego: separar, o diabo, el diablo) com novas histórias para confundir as mentes das pessoas, dissociar as suas personalidades, colocá-las umas contra as outras e criar uma sensação geral de incerteza. Deus contra o diabo.

Todo o poder é, fundamentalmente, poder para negar a mortalidade. Isso é verdade quer se trate do poder do Estado ou da Igreja, quer de grupos secretos como o de Epstein. E é sempre um poder sagrado. Sagrado ou pervertido.

Muitos perguntam por que os super-ricos e poderosos sempre querem mais. É simples. Eles desejam transcender a sua mortalidade humana e tornar-se deuses – imortais. Eles acreditam estupidamente que, se puderem dominar os outros, matar, dominar, violar, alcançar status, tornar-se bilionários, presidentes, magnatas, celebridades, etc., eles viverão de alguma forma numa estranha eternidade. Assim são Epstein e o seu círculo.

Num processo que se estendeu por, pelo menos, cento e cinquenta anos, os nossos sistemas simbólicos culturais/religiosos tradicionais foram radicalmente minados, principalmente pela criação faustiana de Lord Nuke (1). Todas as formas de imortalidade simbólica (teológica, biológica, criativa, natural e experiencial) que antes proporcionavam uma sensação de continuidade foram severamente ameaçadas. Este é o espectro assustador que paira sobre o pano de fundo da vida atual.

O que é a morte? Como derrotá-la ou transcendê-la? Qual é o número do telemóvel de Deus? Rápido. Improvise.

Homens pequenos como Epstein e aqueles que se deixaram capturar voluntariamente na sua teia, todos aqueles desesperados com as mãos nas calças, mentindo descaradamente enquanto iam com Pinóquio e o Cocheiro para a Ilha do Prazer…

Corte!

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Ainda não vimos nada.


    (1) «Lord Nuke» não é um título muito conhecido, mas o autor refere-se, provavelmente, a Nuke (Frank Simpson), um supervilão da Marvel Comics. Ele é um soldado altamente cibernético e aprimorado, com um segundo coração, frequentemente usado pelo governo, conhecido pelas suas elevadas aptidões de combate e que aparece nos quadrinhos do Demolidor.

    (2) Edward Curtin é um escritor — difícil de classificar. O seu novo livro é “At the Lost and Found: Personal & Political Dispatches of Resistance and Hope” (Clarity Press).

    https://estatuadesal.com/2026/02/22/a-espontaneidade-cuidadosamente-calculada-da-divulgacao-chocante-dos-ficheiros-de-epstein/

    https://countercurrents.org/2026/02/the-carefully-contrived-spontaneity-of-the-shocking-epstein-files-release/


    Eduardo Maltez Silva - Joana ODEIA o socialismo que nem sequer existe.

     


    Não sabe bem porquê.

    Aprendeu a odiar — entre reels, comentários indignados e frases que lhe apareciam no feed, noite após noite.
    O que nunca lhe explicaram é que o SNS onde leva os filhos, o subsídio de férias que recebe, o abono de família de que já beneficiou, a licença de maternidade que um dia lhe deu descanso, o salário mínimo que puxa o mercado para cima — tudo isso nasceu do mesmo socialismo que lhe ensinaram a odiar.
    Disseram-lhe que o problema eram “os impostos socialistas”. Não lhe disseram que, sem escalões de IRS, quem ganha como ela pagaria mais para que os de cima pagassem menos.
    Joana acredita que é mais livre se pagar 200 euros por mês em seguros de saúde e mais 400 em propinas para garantir o básico aos filhos, enquanto o senhorio beneficia de isenções fiscais com as rendas absurdas que ela paga.
    Acredita mesmo.
    Porque ninguém lhe explicou que há modelos em que se paga menos no total — apenas de forma coletiva. E, quando não se explica, o medo faz o resto.
    Ensinaram à Joana que o perigo tem nacionalidade. Que a criminalidade tem etnia. Que, ao apontar o dedo a imigrantes, ciganos ou a multar mulheres de burca, está a defender-se.
    O que Joana ainda não percebeu é que esta é a forma mais barata de gerir um país desigual: quando se colocam pobres contra pobres, não é preciso tocar nos privilégios de quem está verdadeiramente no topo.
    Divide-se. Distrai-se. Juntam-se criminosos e inocentes na mesma caixa e tudo parece resolvido.
    Joana também aprendeu a odiar Mariana Mortágua...nunca falou com ela, mas odeia como nunca odiou ninguém.
    Uma mulher a odiar outra mulher — porque “não sabe estar”, porque “fala alto”, porque “é radical”.
    Nunca lhe contaram o resto da história.
    Que Mariana se licenciou em Economia aos 22 anos.
    Que, aos 23, já desempenhava trabalho técnico no Parlamento.
    Que concluiu o mestrado aos 25, enquanto trabalhava.
    Que ainda nos vinte e poucos anos já lecionava no ISCAL.
    Que fez doutoramento na SOAS, com investigação sujeita a peer review internacional.
    Que publicou, investigou e construiu um currículo verificável antes e durante a atividade política.
    Não encaixa na caricatura que ensinaram à Joana — por isso, é mais fácil odiar.
    Na política, Mortágua ficou conhecida onde menos convinha aos poderosos: nas comissões de inquérito à banca — BES, Banif, CGD — abrindo dossiês que muitos preferiam manter fechados.
    Nunca precisou de empresas familiares para prestar consultoria a elites. Nunca viveu de cargos decorativos. Nunca surgiu associada a avenças opacas com grandes grupos económicos.
    As elites nunca perdoaram...
    Mas Joana não percebe isto… só ouve “Venezuela”..."Esquerdalha"...
    No entanto, grande parte das medidas que, em Portugal, se rotulam como de “extrema-esquerda” existem em países nórdicos e até na Suíça.
    Joana diz preferir o tom grave e sério de Passos Coelho.
    Parece mérito. Parece autoridade. Parece ordem.
    Ignora que o “campeão do mérito” só concluiu a licenciatura aos 37 anos, a pagar. E que a carreira empresarial surgiu de forma quase instantânea dentro do círculo partidário.
    Ignora o episódio dos recibos verdes e da Segurança Social — aquele momento em que o discurso do sacrifício colidiu com a realidade de alguém com formação em Economia que afirmou não saber que tinha de pagar contribuições para a Segurança Social.
    Mas a imagem fala mais alto do que os factos, quando o algoritmo já decidiu por nós.
    Depois, Joana olha para Luís Montenegro e vê normalidade institucional.
    Não repara no padrão clássico do “Portugal dos pareceres”: carreiras feitas em gabinetes onde o valor do trabalho invisível atinge centenas de milhares de euros.
    Tudo pode estar formalmente legal — e muitas vezes está —, mas, para quem entra às 9 e sai às 18, sobra sempre a mesma pergunta: o que produziu realmente? E quem vive da proximidade ao poder decisor pode ser considerado um trabalhador como nós? Ou é apenas um facilitador chico-esperto?
    E, no topo do sonho meritocrático de Joana, surge André Ventura.
    O homem que berra contra quem “não faz nada”, mas cuja própria carreira raramente passou pela rotina esmagadora que milhões conhecem.
    Comentário televisivo, consultorias fiscais para as elites e algumas horas semanais de docência — e um talento especial para transformar indignação em carreira. Uma vida profissional distante da experiência laboral da maioria, sustentada por subsídios públicos e partidários.
    Joana ouve. Joana repete. Joana partilha.
    Porque Joana está cansada.
    Trabalha num horário desajustado num centro comercial, conduz um Opel Corsa a cair aos bocados e sente — com razão — que a vida nunca lhe deu grande folga. E, quando a vida aperta, as respostas simples parecem sempre mais verdadeiras.
    O problema é que, enquanto Joana culpa os de baixo para se sentir um pouco mais alta, há sempre alguém muito mais acima a rir-se do espetáculo.
    Joana acha que foi convidada para o jantar das elites económicas que financiam esses partidos.
    Mas ninguém teve coragem de lhe dizer:
    Ela não está sentada à mesa — está na cozinha a lavar os pratos.

    https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva