quinta-feira, 21 de maio de 2026

Nazim Hikmet - Dom Quixote

 

2026 05 21 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - D. Quixote, de Cervantes

Este mural foca-se na literatura clássica universal, trazendo uma representação estilizada e abstrata de Dom Quixote de la Mancha e o seu fiel escudeiro, Sancho Pança, personagens imortalizadas pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes.

O poema parcialmente  transcrito neste mural do Dom Quixote é do famoso poeta turco Nâzım Hikmet (1902–1963).

"Il cavaliere dell'eterna gioventù
ormai verso la cinquantina
la legge che batteva
nel suo cuore
partì un bel mattino
di luglio
per conquistare il bene,
il vero il giusto..."

O poema intitula-se originalmente Don Chisciotte (Dom Quixote) e faz parte da sua célebre obra poética mundialmente traduzida. Como curiosidade, a tradução mais famosa deste poema para a língua italiana foi feita justamente por Joyce Lussu, a ativista e escritora que também foi homenageada no mural anterior (o do poema sobre as sapatilhas de Buchenwald).

Aqui está o texto integral do poema "Dom Quixote" (1947), do poeta turco Nazım Hikmet, traduzido para o português:

Dom Quixote

O Cavaleiro da Eterna Juventude
obedeceu, até os cinquenta anos,
à verdade que pulsava em seu coração.
Partiu numa bela manhã de julho
para conquistar o belo, o verdadeiro e o justo.
Diante dele estava o mundo
com seus gigantes abjetos,
e sob ele estava Rocinante,
triste e heroico.

Sei
que uma vez que se cai nessa paixão
e se tem um coração de um peso respeitável,
não há nada a fazer, Dom Quixote,
nada a fazer:
é preciso arremeter contra os moinhos de vento.

Tu tens razão: Dulcineia é a mulher mais bela do mundo.
Certo que seria preciso gritar isso mesmo
na cara dos grandes mercadores;
certo que eles se atirariam sobre ti
e te moeriam de pancada.
Mas tu és o invencível Cavaleiro da Sede.
Tu continuarás vivendo como uma chama
em tua áspera armadura de ferro
e Dulcineia será cada dia mais bela.» (Google Gemini)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil

Opinião

* Manuel Cardoso, Humorista

Já só falta transformar o 25 de abril num festival de cerveja artesanal chamado Li-beer-dade

21 abril 2026

Há quem aproveite o mês da liberdade para mostrar ressentimento. Como tem chovido pouco por esta altura nos últimos anos, o provérbio passou a ser "Abril, mágoas mil". O Centro Interpretativo do 25 de Abril está bloqueado porque o governo não cedeu o espaço que estava previsto para a instalação do museu, no Terreiro do Paço. Faz sentido. Não é exactamente um museu, é um centro interpretativo; portanto, não é essencial que abra mesmo, basta que se interprete que existe. É um museu que não se visita, imagina-se.

O governo já sugeriu alternativas à localização, como a lindíssima, central e muito visitada freguesia da Pontinha. Não é que isto signifique necessariamente que o governo da AD esteja contra o centro interpretativo, mas, colocando tantos entraves à sua abertura, correm o risco de serem mal interpretados.

O que não dá para grande espaço para interpretações é a atitude do Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, face ao 25 de abril. Depois de acabar com o concerto de 24 para 25 de abril, a Câmara de Lisboa quis agora renomear as Festas de Abril para Festas da Primavera. São decisões que agradam ao tipo de pessoa que considera que a liberdade não se deve ao 25 de abril, mas ao primeiro carro, oferecido aos 18 anos pelos pais.

Já só falta transformar o 25 de abril num festival de cerveja artesanal chamado Li-beer-dade. Não seria melhor cancelar as comemorações populares do 25 de abril e fechar antes da Avenida da Liberdade para uma parada de celebração do Dia Mundial do Pinguim, que se celebra no mesmo dia? Estou certo que o Guaraná Antártida patrocinaria essa mudança.

Qual é a ideia? Tornar o 25 de abril num 15 de agosto: uma daquelas datas em que as pessoas agradecem não ter de trabalhar, apesar de não conseguirem precisar o motivo do feriado? Antigamente, uma certa esquerda reclamava para si o 25 de abril. Hoje, há uma certa direita que faz questão de rejeitá-lo abertamente.

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-22

Manuel Cardoso - A inaudita guerra da Serra de Carnaxide

Opinião

* Manuel Cardoso Humorista

Os concelhos de Oeiras e da Amadora estão à beira de um conflito. É essencial compararmos as capacidades militares destas duas potências para melhor acompanharmos o desenrolar das hostilidades
 
01 abril 2026 

Os concelhos de Oeiras e da Amadora estão à beira de um conflito. Isaltino Morais denunciou uma "invasão" do território oeirense por parte de uma urbanização da Amadora e tentou erguer uma barreira arbórea, que um grupo de cidadãos amadorenses acaba de embargar. Resta saber em que dia é que a guerra vai eclodir, porque neste momento parece inevitável. Para já, é essencial compararmos as capacidades militares destas duas potências para melhor acompanharmos o desenrolar das hostilidades.

No que diz respeito a infraestruturas militares, Oeiras tem o Forte de São Julião da Barra; a Amadora tem o Estado Maior da Força Aérea. No que toca à geografia, Oeiras tem a grande vantagem de ter acesso ao mar e de contar com a armada de veleiros atracados na sua marina. Porém, situa-se num vale e está exposta aos ataques vindos da Serra de Carnaxide. A Amadora está cercada por terra mas, por outro lado, a sua malha urbana complexa, plena de becos e ruelas, favorece as emboscadas e dificulta avanços no terreno a qualquer exército.

Em matéria de base potencial de mobilização, à partida as duas potências parecem estar equilibradas. No entanto, a população de Oeiras é mais envelhecida, enquanto a Amadora conta com mais homens em idade militar. Neste aspecto, há uma ligeira superioridade amadorense. Em termos do moral das populações para a guerra, Oeiras parte na frente. O culto ao chefe consolidado há décadas aliado à ideia de que foram atacados primeiro ajudarão a granjear apoio para o conflito armado junto dos oeirenses. Menos sorte tem o autarca da Amadora, Vítor Ferreira: ninguém vai para a guerra por um homem que não publica o seu almoço nas redes sociais.

Devemos estar atentos à política de alianças. Oeiras contará certamente com o apoio de Cascais, mas só isso não chega. Apenas com o apoio e a infraestrutura de Lisboa poderá almejar uma vitória nesta guerra. Amadora conta com a lealdade de Odivelas, Loures e Sintra. Se a capital apoiar Isaltino, poderá ter sérias dificuldades. Contudo, se conseguir convencer Almada a escolher o seu lado - estamos a falar de um concelho que tem a capacidade geográfica de apontar artilharia a Paço de Arcos - Isaltino capitulará certamente.

Vamos aguardar pelas próximas semanas. É bem possível que Isaltino tente, primeiramente, anexar o IKEA. Contará, para esse efeito, com as milícias da minoria oeirófila que reside em Alfragide. Depois, talvez tente surpreender, abrindo uma segunda frente pelas Portas de Benfica e tomando as instalações da Rádio Renascença. Porém, a longo prazo, não tem qualquer chance. Deve conter-se e tentar resolver o conflito pela via diplomática, que ainda considero possível. Até porque se há líder mundial que gosta de se sentar à mesa é Isaltino.

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-01

Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...

* Fernando Serrano

14 de abril  de 2026

O Sr. Ventura falou...falou...falou...

Mas negou a verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...

Primeiro escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou não quis fazer. Salazar falhou.

Mesmo depois do desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.

Salazar tratou os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal. Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse sido a ONU ainda hoje ali estariam...

Puniu, humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta impossível de vencer.

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O Sr. Ventura mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.

O Sr. Ventura não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a estes lugares que concor ressem?!

Só depois de todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?

Os portugueses de Portugal receberam os retornados muito bem.

Tivesse sido o contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou Moçambique e a música seria bem diferente.

Basta que se saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os animais domésticos...

Não fazíamos lá falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam

eles.

O Sr. Ventura não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem conhece.

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Uma descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...

Uma descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.

Estaria o Povo Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?

Eu não estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.

O tempo de ser negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.

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Quanto aos presos políticos.

48 anos de repressão…a PIDE ...de prisões...de mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...

Catarina Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…

«A morte saiu à rua num dia assim...»

Comparar este tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito desonesto.

O Sr. Ventura quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25 de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.

E sabe, Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta ver como se comporta na AR.

Após o 25 de Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...

Não houve mais um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando, não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero que não, pois uma vez chega.

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O Sr. André não viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.

O Sr André não viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.

O Sr. André não chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e desespero.

O Sr.André Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o «cacarejar...

Quanto aos massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...

E o rebola a bola que a bola é cabeça de preto em Angola?

E o Napalm na Guiné?!...

E Wiryamu em Moçambique?

E os guerrilheiros mortos no momento da rendição?

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Ó senhor Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...

Se estamos abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de 30 meses de guerra, à nova situação...

Um combatente eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.

O médico que lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o aceitaram...

Hoje, 50 anos depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer hospital militar.

Salazar foi o tal que abandonou os seus soldados.

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56 anos depois de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá, provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.

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O senhor Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961 recomeçou...

Não esqueça as campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime, onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene… Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.

Entre 1910 e 1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o passo, como dizer sói…

Em 1961 a guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de guerrilha…Eu estive nesta guerra.

E sabe por quê? Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.

Se não fosse Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.

O senhor Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu por ignorância ou por maldade?!

Salazar ordenou a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…

Eu sei como as coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.

Leia...informe-se e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade, só é ganha, se se exterminar esse Povo.

Recorde-1143-1385-1640…E Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.

Salazar enganou os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram. Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler os ventos da História…

Diz o Povo…«Se vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»

Espanha descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica descolonizou…Holanda descolonizou…

Salazar, « O Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da Europa Ocidental…

Uma taxa de analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.

Mas com uma moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!

Um Povo Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos privilégios- Clero e Nobreza.

O Sr. Ventura sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em Portugal?

Salazar obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.

Salazar explorava o Povo Português em favor das colónias.

Claro que não sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…

Esse Abril que nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.

Respeitosamente,

Um Português de Portugal, Patriota.

Antigo combatente que ama o seu país e a liberdade.

25 de Abril sempre… 

2026 04  14
https://www.facebook.com/fernando.serrano.7399/

domingo, 17 de maio de 2026

Frederico Duarte Carvalho - Abel Manta em três cartoons




` Frederico Duarte Carvalho 

17 de maio de 2026

ACTA DIURNA

O que está em causa?

Com a morte de João Abel Manta, figura do mundo artístico e homem livre, que se notabilizou na Imprensa pelos seus cartoons, resolvemos destacar três dos seus trabalhos mais icónicos. Assim, temos o caso da obra 'Muito Prazer em Conhecer Vocelências', seguido do igualmente conhecido 'Um Problema Difícil' e ainda o 'Metamorfose'. Havia muitos mais trabalhos e a vida de uma pessoa que faleceu com 98 anos não poderia ser resumida apenas com base nestas escolhas. No entanto, representam momentos que nos resume a todos. E esse era o génio do artista que agora nos deixa. O nosso Obrigado.
 

Viveu 98 anos, mas há muito que era eterno. João Abel Manta, que faleceu na sexta-feira, dia 15, nasceu em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1928. Cresceu num ambiente intelectual e artístico ligado à oposição cultural ao Estado Novo, convivendo desde cedo com escritores, artistas e professores universitários.

Licenciou-se em Arquitetura em 1951, mas foi com o desenho, pintura, ilustração e cartoon que se tornou popular. E a sua ‘marca’ artística faz dele um artista maior. A partir do final da década de 1960 tornou-se uma presença regular na imprensa portuguesa, sobretudo no Diário de Lisboa, mas também no Diário de Notícias e mais tarde em O Jornal.



“Acima de tudo, foi um homem livre”.

Teve dissabores com a censura, como foi o caso, por exemplo, do cartoon Monumento Nacional, que fez para o Diário de Lisboa, em finais de 1969. A imagem de um enorme rebanho de carneiros em torno de uma televisão, em tamanho monumental, não agradou a um regime que usava aquele meio de comunicação de massas para ‘educar‘ todo um povo.

Em Novembro de 1972, com o poster Festival, dedicado ao festival da canção, onde a bandeira nacional se misturava com a figura de um cantor, Abel Manta foi processado por abuso da liberdade de Imprensa. Julgado por ofensa à bandeira nacional, foi absolvido, mas fez um interregno na carreira. Até que chegou Abril, em 1974.

A revolução será feita também com os cartoons de João Abel Manta. Ficará famoso aquele da campanha de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), com o título Muito Prazer em Conhecer Vocelências. Vemos uma família nuclear portuguesa, com aspecto modesto, de pés descalços, a ser apresentada por um militar aos grande nomes das artes e da ciência. Reconhecemos, facilmente, entre outros, Einstein, Shakespeare, Picasso, Marx, Camões, Chaplin e Freud.



Muito Prazer em Conhecer Vocelências

A este cartoon, juntar-se-á ainda o não menos famoso Um Problema Difícil, onde um grupo de famosas personalidades internacionais da filosofia e política, estão sentados a olhar para um quadro perto onde está desenhado o mapa de Portugal.

Vemos na imagem, com o traço único do artista, figuras como Lenine, Marx, Fidel Castro, Che Guevara ou Sartre. Todos com um caderno e lápis na mão, disciplinados a olharem com atenção para Portugal após a revolução, como se estivessem numa escola, perante um “problema difícil” escrito no quadro.

Nesse cartoon, o detalhe de um Henry Kissinger, minúsculo, sentando no fim da fila, à direita, com orelhas de burro, é o toque de génio de Abel Manta.


Um Problema Difícil.

Outra imagem icónica – e havia tantas e tantas – será ainda a Metamorfose. São dois desenhos, lado a lado. No primeiro, há uma data a identificar o momento: 24 de Abril de 1974, o dia anterior à revolução. Nele, vemos uma funcionário sentado na sua secretária e, na parede, estão os quadros com as fotos do Presidente da República, Américo Thomaz, e do Presidente do Conselho, Marcello Caetano.

Em cima da mesa deste funcionário, de um lado, está uma estatueta de um padrão da época dos Descobrimentos, com a cruz da Ordem de Cristo e o brasão das quinas. Depois, do outro lado, estão os carimbos no devido suporte.

A imagem seguinte, é alusiva a quatro meses depois: 24 de Agosto de 1974, onde a pena, genial, de Abel Manta já registava toda a diferença radical nesse curto espaço de tempo: As fotos dos líderes deram lugar a um poster de Che Guevara. O funcionário, entretanto, deixou crescer o cabelo e bigode, trocou a gravata por um colar com o símbolo da Paz e a estatueta levou com uma imagem de uma guerrlheira em cima. Em vez de carimbos, há cravos.


Metamorfose.

Com estes três cartoons, podemos encontrar aqui o retrato daquilo que Abril nos deu. São obras maiores de um homem com muito talento. E explicam tanto sobre quem éramos, e o que ainda podemos ser.

A pena de João Abel Manta, sobretudo com a sua visão da época imediata do pós-25 de Abril, há muito que é património de um povo que quer aprender com o mundo, mas também é um problema difícil. E, no fundo, é um povo se adapta a tudo. Por isso, dizemos: Obrigado, João.


https://contraprova.pt/posts/abel-manta-em-tres-cartoons

Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]

* Carlos Coutinho
 ·
Já passou quase um século após o aparecimento de um verdadeiro tratado sobre a canalhice, mas não me parece que já não seja de ter em conta a vantagem da sua vigência, dadas a sua abrangência e, sobretudo, a sua profundidade. 

   Aconteceu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial o aparecimento nas livrarias de um livro feroz do filósofo alemão Ernst Bloch que analisa a ascensão de Hitler ao poder e se interroga sobre como foi possível que a consciência coletiva de quase todo o país se tivesse degradado a ponto de aceitar a nazificação, como uma espécie apodrecimento que quase nunca parou de se agravar.

   A propaganda oficial e o trauma da humilhação, em resultado da derrota e do esbulho sofrido às mãos dos vencedores em 1918, reivindicavam a continuidade do Terceiro Reich, restaurando o Primeiro – o do Sacro Império Romano-Germânico – criado por quem reclamava a atualização do instaurado por Carlos Magno que durou entre 962, e a suas aniquilação por Napoleão, em 1806, seguindo-se o Segundo Reich, isto é, o império que foi erguido com a unificação da Alemanha e a guerra franco-prussiana em 1871, cujos efeitos só foram travados com o colapso alemão na Primeira Guerra Mundial, mas tal consequência não explica para Ernst Bloch a mórbida e sanguinária aceitação da ditadura nazi.

   Como se fizeram, então, os canalhas e se instituiu o seu regime? Como foi aceite a fábula segundo a qual este novo império iria durar 1000 anos? E o que se pode concluir desta histórica tragédia que custou perto de 70 milhões de mortos? Não estava escrito que o führer conquistasse o poder e que 10 anos depois de ter ocupado a presidência do partido nazi, bem como que, após uma curta prisão por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, o paranoico político aguarelista austríaco disputasse a segunda volta das eleições presidenciais alemãs em abril de 1932 e obtivesse 37% dos votos e que os comunistas e os social-democratas somados se ficassem pelos 36%. 

   Contudo o presidente eleito, o tão celebrado marechal Hindenburg entregou-lhe o lugar em Berlim, que não era a capital da Áustria, mas viria ser anexada com geral aplauso germânico,  em 30 de janeiro de 1933.

   Quando, poucos anos depois, Blcch se pergunta sobre como se chegou a este desfecho, a conclusão que encontra é que o centro e a direita, aceitam a receita da  extrema direita, aceitam Hitler como se de uma solução de curto prazo se tratasse, ou apenas fosse um mal menor, para impor a ordem, enquanto amplos setores da burguesia e do que hoje se chama classe média, como comerciantes, militares e acadêmicos, celebravam no despotismo.

   Havia nisso a evocação de um fundo cultural – considera Bloch – e não foi a magia propagandística de Goebbels que respondeu à desintegração do regime de Weimar. Foi antes a recuperação de mitos incrustados na crença da epopeia germanista mobilizando um romantismo reacionário que se apropriou de Nitzsche e de Wagner, ou seja, foi a ideologia social dominante que fez de Hitler o seu porta-voz e o estandarte dos interesses económicos dominantes.

   Leio estas análises e percebo melhor os êxitos eleitorais do nosso Ventura e de quem lhe paga as campanhas, bem como os favores que recebe da comunicação social quase toda. 

   Vade retro, Satanas…  

2026 05 17

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.14855377

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pedro Tadeu - Qual é a história política de Carlos Brito?

* Pedro Tadeu

 
Carlos Brito foi militante do PCP durante quase 50 anos, mas deixou de o ser há mais de 25 anos. Com toda a enorme admiração que tenho pela pessoa que ele foi; com todo o respeito pela forma heróica com que ele lutou contra o fascismo (que me faz sentir pequenino); com todo o mérito que teve enquanto deputado constituinte e líder parlamentar; com toda a ótima relação pessoal, próxima, diária, amiga, que criámos entre 1992 e 1996 quando ele foi meu diretor no jornal “Avante!”; com todo o prazer que tive quando, depois disso, nos vimos algumas vezes; com tudo o que de bom há a dizer sobre este homem inteligente, sensível, talentoso e culto, não posso deixar de sublinhar isto: com ou sem razão, com ou sem motivo, Carlos Brito deixou o meu partido há muito tempo e um terço da sua vida política foi feita fora do PCP – e isso, politicamente, é relevante.

Sim, Carlos Brito está na história do PCP e essa história não pode nem deve ser apagada, deve ser sublinhada, sobretudo em tempos de tentativa de apagamento dos horrores do fascismo português ou de transformação da Revolução dos Cravos num processo de loucura coletiva. Mas na história política de Carlos Brito também não pode ser apagado o percurso que ele fez depois de abandonar o PCP.

Quando Brito saiu do partido, no ano 2000, não teve um comportamento democrático.

Brito lutou pelas suas ideias dentro do PCP, teve meios e oportunidades de as divulgar e de as defender a partir de uma posição interna privilegiada, uma posição de poder. Teve, ainda, a seu favor, o contexto político de recontextualização do ideal comunista e um enorme interesse do jornalismo pela luta interna do PCP, que favorecia as posições dos chamados “renovadores”, mas que esconjurava os outros militantes com o palavrão “ortodoxos”.

Carlos Brito, com toda a legitimidade, foi à luta pela modificação do que achava estar errado, mas perdeu essa luta. Não perdeu por poucos, perdeu por muitos: a esmagadora maioria dos militantes comunistas rejeitou claramente essas ideias. Carlos Brito não foi democrático ao não se conformar com a derrota, ao não aceitar a posição da maioria. Cheguei a dizer-lhe isso e a lembrar-lhe aqueles que, tendo tomado posições semelhantes à sua, decidiram que era mais útil para a democracia portuguesa continuarem a militância no PCP.

Quando saiu, provavelmente, Brito sentiu-se magoado, desrespeitado, sobretudo quando lhe aplicaram uma sanção disciplinar. É humano e compreensível, todos temos ego, e isso não o torna melhor ou pior pessoa, mas não lhe dá mais razão política – na verdade, as ideias que Brito defendeu foram aplicadas, depois do fim do bloco soviético, em inúmeros partidos comunistas e quase todos colapsaram rapidamente. O projeto de Carlos Brito e dos renovadores teria morto quase imediatamente o PCP – 26 anos depois, isso está comprovado na vida real – e as razões da atual decadência eleitoral dos comunistas só muito lateralmente terão a ver com o debate desse tempo.

Quando vejo chusmas de insultos ao PCP por causa de um curto comunicado onde, objetivamente, só se elogia Carlos Brito, vejo sobretudo um ataque político abusivo e hipócrita. Sim, acho que o comunicado poderia ter sido mais generoso, menos racional e mais emocional, mas, caramba, foi respeitoso para com este grande português e, o que é compreensivelmente mais importante para o PCP, respeitou os outros grandes portugueses que, ao contrário de Brito, decidiram continuar a militar no partido mesmo tendo, no passado, perdido as suas batalhas políticas.

15 Mai 2026

https://www.dn.pt/opiniao-dn/qual-a-histria-poltica-de-carlos-brito

Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]

* Carlos Coutinho

O horror bíblico, superior ao próprio inferno, por ser verdadeiro e ter datas, pode exprimir-se em muitas línguas e, sendo referido a factos diferentes no tempo e no modo, não deixa de ser a moeda de duas faces que de um lado tem o holocausto e do outro a Nakba, o custo real da existência humana, quando o seu ADN é o expoente máximo da crueldade politizada, ora por Deus, ora pelo Diabo.

   Hoje, o dia que recebe uma das datas mais hediondas do calendário judaico-árabe, celebra-se a criação do Estado de Israel, acaso histórico ocorrido a 14 de Maio de 1948, mais de metade do mundo sabe o que foi o Holocausto, aquela multitudinária matança físico-química e pós-pogromes que o justificou, mas, em contrapartida, muitos menos são os terráqueos com uma noção, mesmo que só aproximada, do que foi a Nabka, apesar dos seus trágicos prolongamentos na Palestina ocupada e nos territórios adjacentes.

   Se é certo que a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU estabeleceu no dia 29 de novembro de 1947 a divisão da Palestina histórica em doois estados, um hebraico e outro, a verdade é que a proclamação do Estado de Israel foi feita de forma unilateral pelos dirigentes sionistas, à revelia das Nações Unidas, acompanhada por uma orgia de violência que nem Hitler desdenharia e que Netanyahu gostosamente prolonga, com Trump a assobiar para o lado e a arquitetar negócios próprios e milionários para o teatro do morticínio, sem câmaras de gás nem fornos crematórios, mas com palacetes de luxo à beira-praia.

   Os 78 anos decorridos desde maio de 1948 têm sido uma permanente nabka. A ocupação de territórios internacionalmente reconhecidos como palestinianos e a violência sistemática e brutal praticada por Israel são agora a continuação de um genocídio que não terminou, apesar do “cessar-fogo”   e do “plano de paz” anunciados por Trump.

   Hoje, os dirigentes israelitas proclamam abertamente o objetivo de expandir o Estado sionista e não apenas com a ocupação de todo o território histórico da Palestina, do rio até ao mar, o tal “Grande  Israel” que é muitas vezes descrito como indo do Nilo ao Eufrates.

   No terreno prossegue a ocupação de vastas zonas da Palestina e da Síria, a tentativa de ocupação o sul do Líbano, além de repetidas agressões ao Irão, em conjunto com os EUA.

   O historiador israelita Ilan Pappe, que só pode ser tomado como insuspeito, escreve que, ao longo de poucos meses, “mais de metade da população nativa da Palestina, cerca de 800 000 pessoas, foi expulsa de suas casas”, uma ação planeada, o Plano Dalet, e que “as ordens dadas incluíam uma descrição pormenorizada dos métodos a serem empregues para expulsar a população pela força: intimidação em larga escala; sitiar e bombardear aldeias e centros populacionais; atear fogo a casas, propriedades e bens; expulsões; demolições e, finalmente, colocar explosivos entre os destroços para impedir o regresso dos habitantes”. Houve “dezenas de massacres” e até o “o envenenamento de fontes de Acre com tifo

2026 05 13

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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo

* Jaime Nogueira Pinto

A proposta de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e reformista

14 mai. 2026, 

A Esquerda rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1 da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto.  Mais para o centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se, implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda: afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.

Independentemente da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.

Nada mais falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos político-partidários na Europa e na América.

Para os conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da monarquia limitada.

A Questão Social – Marx, Bismarck, Leão XIII

Na primeira metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas soluções.

Com o Manifesto e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de Ludwig Feuerbach.

A ideia primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis, num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado sairia vencedor da luta.

As ideias socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.

Mas ao mesmo tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun, Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.

Também, na área nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883), a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e agrícolas.

E em 1891, Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do socialismo.

São exemplos de pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé, com os papas sociais.

A direita revolucionária

Outra linha de reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito, ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.

Haveria muito mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927, inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda não tem o monopólio da preocupação e da acção social.

A idade da reforma

Em resumo, a proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na Europa.

Deixar à Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado e manipulado discurso dominante.

Afinal, é hoje com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm vindo a crescer e a ganhar eleições.

 https://observador.pt/opiniao/a-idade-da-reforma-e-o-reformism

Marta Pinho Alves - Cinema de Abril


Marta Pinho Alves

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção

Por­tugal. Abl. Ci­nema.

A Re­vo­lução de 1974 que ter­minou com os 48 anos de di­ta­dura fas­cista a que Por­tugal fora sub­me­tido abriu ca­minho à cri­ação cul­tural que tanto tempo havia es­tado amor­da­çada ou con­fi­nada a fron­teiras rí­gidas. No caso do ci­nema, a his­tória é bas­tante par­ti­cular e com­plexa, mas ten­ta­remos sin­te­tizar. Por­tugal co­meça o seu labor ci­ne­ma­to­grá­fico no final do sé­culo XIX, ali­nhado com o que acon­tece na Eu­ropa e nos EUA. Quando se inicia o ci­nema so­noro no nosso país, este surge já en­fi­lei­rado com o Es­tado fas­cista recém-criado e como ins­tru­mento de pro­pa­ganda. É o tempo das “co­mé­dias à por­tu­guesa” ou “co­mé­dias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cot­ti­nelli Telmo, 1933) ou Pátio das Can­tigas (Fran­cisco Ri­beiro, 1942), e dos filmes de­di­cados à his­tória e li­te­ra­tura na­ci­o­nais eleitas por An­tónio Ferro, tais como Amor de Per­dição (An­tónio Lopes Ri­beiro, 1943) ou Ca­mões (An­tónio Leitão de Barros, 1946). Es­go­tadas estas fór­mulas junto do pú­blico, facto que cul­minou em 1955, no cha­mado ano zero do ci­nema por­tu­guês, com a não pro­dução de ne­nhuma longa-me­tragem co­mer­cial, fruto de ini­ci­a­tivas es­ta­tais que pre­ten­diam re­a­bi­litar o in­te­resse do pú­blico pelo ci­nema feito em Por­tugal e formar pro­fis­si­o­nais, em par­ti­cular para a te­le­visão, cujo apa­re­ci­mento em Por­tugal, apesar de adiado, era cada vez mais ine­vi­tável, o ci­nema por­tu­guês é alvo de uma mu­dança sig­ni­fi­ca­tiva. Ex­pressar essas mu­danças e a re­cepção desse ci­nema numa só frase é im­pos­sível, mas talvez se possa tentar re­fe­rindo a cor­rente do Novo Ci­nema Por­tu­guês, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Be­lar­mino (Fer­nando Lopes, 1964), filmes que aban­donam o re­gisto épico dos filmes his­tó­rico-li­te­rá­rios ou fan­ta­siado da “co­média à por­tu­guesa”, para mos­trarem um país real, os seus ver­da­deiros ci­da­dãos e os seus de­sa­fios, an­gús­tias e im­posta imo­bi­li­dade.

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção como pra­ti­ca­mente todas as di­men­sões da so­ci­e­dade. É pre­ciso dizer agora aber­ta­mente o que antes não era pos­sível, é pre­ciso de­mons­trar o que antes era apenas su­ge­rido, é pre­ciso gritar a raiva do pas­sado e a pro­messa do fu­turo. “Ci­nema de Abril” é a de­sig­nação en­con­trada para o pe­ríodo, curto, em que o ci­nema se or­ga­nizou, saiu à rua, mo­bi­lizou todos com uma câ­mara na mão. Nesta época, or­ga­nizou-se um sin­di­cato de ci­nema, co­o­pe­ra­tivas, rei­vin­dicou-se mais di­nheiro para a pro­dução, o PCP criou no seio do seu Sector In­te­lec­tual uma Cé­lula de Ci­nema, de­di­cada a pro­duzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o es­cla­re­ci­mento e a po­li­ti­zação das massas. Ler e es­crever ima­gens podia e devia ser di­reito de todos, não apenas dos já en­ten­didos e ini­ci­ados como au­tores1. Vale muito a pena re­gressar ao ci­nema pro­du­zido nesse pe­ríodo e per­ceber como foi re­latar, no mo­mento em que acon­tecia, aquele mo­mento his­tó­rico e a sua po­tência.

Para fi­na­lizar, uma nota de ac­tu­a­li­dade. O que per­ma­nece do ci­nema de Abril no ci­nema por­tu­guês? Quando evo­cámos os filmes da época é de pas­sado que fa­lamos ou também é do que somos hoje? Qual o le­gado para os filmes que fa­zemos no Por­tugal de 2026? Qual a marca dei­xada nos seus au­tores? É pos­sível não fa­larmos de Abril e con­ti­nu­armos a evocar as con­quistas de Abril? Há uma es­pe­ci­fi­ci­dade na­quilo que fre­quen­te­mente de­sig­namos como o ci­nema au­toral por­tu­guês – para o dis­tin­guir da cor­rente que afirma que o “ci­nema deve ir para o mer­cado”, estar ali­nhado com as in­dús­trias cul­tu­rais –, que o apro­xima da in­tenção da ci­ne­ma­to­grafia ini­ciada em Abril de 1974?

Ten­ta­remos, em pró­ximos textos, apro­xi­marmo-nos de uma res­posta quase im­pos­sível à per­gunta: o que é o ci­nema por­tu­guês (con­tem­po­râneo)?

1Sobre este tó­pico, ver o tra­balho vasto e di­verso dos in­ves­ti­ga­dores José Fi­lipe Costa e Paulo Cunha


https://www.avante.pt/pt/2733//183358