D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Carlos Coutinho - Homenagem a Manso Pinheiro
Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926
* Raquel Varela
Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?
Portugal teve
desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas
revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro,
espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça
revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente
fascista.
A incapacidade
de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase
imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia
portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria
burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do
poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder
económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o
Parlamento – a Ditadura Militar.
Entre 1926 e
1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia
portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital,
baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos
e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado,
não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a
par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.
O
pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade
ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.
Se a República
teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se
instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os
protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a
“instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social”
operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas
e Gomes da Costa.
O golpe de 28
de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República
burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim,
resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do
vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra
a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via
para a ditadura que se segue.
Como lembra
César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial
até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático
à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos
eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da
contrarrevolução.
Contexto
internacional da Ditadura Militar
Não se pode
compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender
o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução
europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses
anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois
de 1927.
Gramsci
sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende
eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma
de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a
sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de
crise orgânica do capitalismo.
Primo de Rivera
liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido
fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se
com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento
social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram
obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a
burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela
exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções
insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e
envolver estivadores, transportes, etc.
À semelhança de
outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão
constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia
“democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado –
organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das
socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a
estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.
É bonapartista
a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de
um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte
coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro
para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em
todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas
revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será
proibida em 1935.
Após o golpe de
Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento
do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a
censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A
Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma
contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário
de seis para quatro anos.
Em 1928,
promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias
portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do
trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses
“públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A
27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das
Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da
Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças
que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de
receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas
restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira
“política de austeridade” no país.
Qual regime?
Mas afinal o
que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a
Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado,
de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde
1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.
Não houve
resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926.
Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a
República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.
A repressão
durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem
traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta
de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o
consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção.
Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os
detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido
Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos
monárquicos”.
A República
decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara,
para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura
Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário
– os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia
nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.
Raquel Varela e
Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand).
Todas as referências estão no livro
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Vijay Prashad - O socialismo amadurece lentamente | Carta semanal 21 (2026)
Manuel Cardoso - Passos Coelho não se aposenta, apresenta
João L. Maio - Talvez: Bad Bunny, as mensagens de plástico e as palavras que se perdem
terça-feira, 26 de maio de 2026
Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa.
Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA
O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA
Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito
importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de
contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo.
Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas
não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era
fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de
Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano.
Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para
terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já
Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver!
Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora
bem.
Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas
significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut,
ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá,
arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.
Pimba.
E há mais:
«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e
apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»
Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não
quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este
momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".
Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é
que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.
*
O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO
O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa
a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não
desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à
ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o
requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.
Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa
dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar
golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro
estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma
declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a
Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a
jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou
alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E
comenta, satisfeito com a sua visão periférica:
«Eu sabia. Esta gente...»
*
O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA
Até porque a sua política é o trabalho.
E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos
outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer
trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se
do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem
entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.
Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho
estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.
Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a
buzinar, o bom fascista ruge:
«Estou a trabalhar!»
E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que
carrega na buzina, e grita:
«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»
Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer,
rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto
é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser
pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para
aprender a da próxima vez ficar quietinho.
O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.
O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando
estamos cheios de trabalho.
O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está
a trabalhar, finge que está a trabalhar.
*
O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR
Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes
achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se
não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se.
Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de
escravos”. Quem não está bem emudece.
Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom
fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E
tecnicamente até é, só que imigração por pouco tempo —
tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.
De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de
escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo
moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os
nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da
História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os
lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja
quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?
O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é
que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se
vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos
marsápios, ficar com as nossas mulheres.
O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR
Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua
vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?
Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem
continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.
Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os
nossos pecados.
Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não
precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.
O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o
melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá
sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até
nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.
Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho
autoritário.
A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e
emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da
guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões
aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis
no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).
E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu
quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto
e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos
como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um
adesivo se lhe colar aos dedos?
Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas
que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.
(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)
Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)
Henry David Thoreau - Walden (ou A Vida nos Bosques)
Para que possa apreciar o contexto filosófico original pensado pelo autor, eis o parágrafo final completo do livro na sua versão original em inglês e a correspondente tradução para português:
Versão Original (Inglês)
"I do not say that John or Jonathan will realize all this; but such is the character of that morrow which mere lapse of time can never make to dawn. The light which puts out our eyes is darkness to us. Only that day dawns
to which we are awake. There is more day to dawn. The sun is but a morning star."
Tradução para Português
"Não digo que o João ou o Jónatas venham a perceber tudo isto; mas tal é o carácter desse amanhã que o mero passar do tempo nunca poderá fazer amanhecer. A luz que nos cega os olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Há mais dias para amanhecer. O sol não passa de uma estrela da manhã."
Significado no Contexto da Obra
Neste encerramento, Thoreau resume o cerne do seu período de isolamento junto ao lago Walden: a urgência de uma revolução interior. Ele defende que a verdadeira visão e a verdadeira vida não dependem do tempo cronológico ou da luz física do sol, mas sim do nível de consciência e de despertar espiritual de cada indivíduo. (Google Gemini)
Helder Moura - (1000) “Tudo é vão. Porque tudo é em vão”
Escrevi este artigo que aqui será o último a 2 de janeiro de 2019. Eis a sua reprodução, com os meus agradecimentos aos que me foram acompanhando neste percurso.
Vacuidade de vacuidades: todas as coisas são vacuidade, Eclesiastes.
O destino do tolo também a mim acontecerá. Então porque me tornei sábio?
Embora o ser humano se esforce para procurar, não encontrará o que procura.
Não existe coisa boa para o ser humano debaixo do Sol a não ser comer e beber e sentir prazer.
Com os conhecimentos científicos que atualmente temos, não parece apresentar grandes dificuldades a definição do que deve o ‘ser humano’ ser. Tudo parecemos já saber sobre a sua biologia, fisiologia, química, psicologia, etc., dando já quase como certo como deverá viver o seu futuro.
Ficamos no entanto, sempre um pouco desconfiados com tanta recém-certeza, dado os presentes quase sempre adiados para um futuro que nos foram dizendo estar aí sempre à porta, com as perspetivas assentes em algoritmos científicos controlados por enquanto às escondidas pelos que manhosamente se creem e autointitulam como sendo os merecidamente escolhidos novos donos disto tudo.
Há, contudo, uma outra forma para conhecermos, reconhecermos, quais são as características da vivência do ‘ser humano’, recorrendo antes a escritos milenares em que nos revemos revelados.
Esses escritos baseiam-se na ideia de que a experiência, trazida pelos muitos anos vividos, pode servir de guia para as gerações seguintes. Partem da observação da vida e da necessidade de lidar com os seus diversos problemas e situações, muitas vezes com instruções práticas sobre a forma como a devíamos viver, outras vezes com críticas e reflexões interrogativas sobre o sentido da vida, morte, justiça, vida social, o mal, a natureza da sabedoria etc.
Esses escritos inscrevem-se naquilo que se costuma catalogar como “literatura de sabedoria”. Não faltam exemplos que se reportam aos muito antigos tempos da Suméria, Babilónia, Assíria, Egito e Grécia. São, por exemplo, os casos do mito da criação Enuma Elish (c. 1800 a.C.) e do épico de Gilgamesh (2800 a 2500 a.C.), onde a descrição do Dilúvio e das indicações para sobrevivência ao mesmo, são muito anteriores às descritas na Bíblia. Outros exemplos: o poema sumério Instruções de Suruppak (2500 a. C.),e os Trabalhos e Dias (700 a.C.) do poeta grego Hesíodo.
Também a enigmática e, talvez por isso igualmente inesgotável Bíblia, contém vários destes escritos de sabedoria, apresentados como Livros Sapienciais do Antigo Testamento: Salmos, Odes, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Job, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Salmos de Salomão.
Um desses escritos que nos dá essa sensação de ser um escrito de sempre e para sempre, é o Eclesiastes, incorretamente atribuído a Salomão (990 a 930 a.C.) e que os especialistas atuais datam de 580 a 200 a. C., do qual reproduzo aqui alguns excertos, começando pela sua afirmação inicial:as de Eclesiates, filho de David, rei de Israel em Jerusalém.
Vacuidade de vacuidades: todas as coisas são vacuidade.
/Que vantagem existe para o ser humano/ em todo o seu esforço com que se esforça debaixo do Sol? / Uma geração passa; e uma geração chega; / e a terra fica de pé para sempre.
[…] Aquilo que aconteceu, isso mesmo irá acontecer. / E aquilo que foi feito, isso mesmo será feito. / Nada de novo existe debaixo do Sol. / Quem dirá e afirmará: “Eis que isto é novo”? /Isso já aconteceu nas idades que existiram antes de nós. / Não existe memória de pessoas anteriores, / nem dos que nasceram depois.
[…] “O destino do tolo também a mim acontecerá. / Então porque me tornei sábio?”
[…] Não há nada de bom no ser humano.
[…] Para todas as coisas há um tempo; / e há um tempo para todo o assunto debaixo do céu. / Tempo de dar à luz e tempo de morrer; / Tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado; / Tempo de matar e tempo de curar; / Tempo de deitar abaixo e tempo de construir; / Tempo de chorar e tempo de rir; / Tempo de estar de luto e tempo de dançar; /Tempo de atirar pedras e tempo de juntar pedras; /Tempo de abraçar e tempo de estar longe de um abraço; /Tempo de procurar e tempo de perder; / Tempo de guardar e tempo de atirar fora; / Tempo de rasgar e tempo de coser; / Tempo de calar e tempo de falar; / Tempo de amar e tempo de odiar; / Tempo de guerra e tempo de paz.
Que vantagem tem quem faz as coisas que faz?
[…] “Deus julgará o justo e o ímpio, / pois há um tempo para todo o assunto / e para toda a obra.”
[…] Acerca da fala de filhos do ser humano: / Pois Deus julgá-los-á / para mostrar que também eles são gado.” / Pois destino de filhos do ser humano / e destino do gado: / O destino de ambos é um. Assim como é a morte de um, do mesmo modo é morte do outro: / O espírito de todos é só um. / E o ser humano sobreleva em quê ao gado? / Nada. Porque todas as coisas são vacuidade. / Todas as coisas vão para um só lugar: / Todas as coisas vêm do pó; / e todas as coisas voltarão para o pó.
E eu voltei-me e vi a vacuidade debaixo do Sol. / Existe um solitário e não existe um segundo que lhe faça companhia: / pois não tem filho nem irmão. / Não há fim para todo o seu esforço; / e o olho dele não se satisfaz com riqueza. / “Para quem me esforço e privo a minha vida de felicidade?” / Pois, isto é vacuidade e uma preocupação negativa. / “Melhores são dois que um, / porque têm uma boa recompensa para o seu esforço. / Pois se caírem, um levantará o seu amigo. / E ai daquele que, quando cair, / não tenha outro para o levantar! / Pois se dois dormirem juntos, terão calor; / Um sozinho, como se aquecerá? / E se um for dominado, / dois estarão do lado dele; / E a corda tripla não será depressa quebrada. / Melhor é um rapaz pobre e sábio / do que um rei velho e tolo, / que já não soube dar atenção”.
Um bom nome é melhor do que azeite; / e o dia da morte de alguém é melhor do que o dia do seu nascimento. / É melhor entrar numa casa de luto / do que entrar numa casa de bebida, / porque esse luto é o fim de todo o ser humano / e o vivo dá-lo-á ao seu coração. / A ira é melhor do que o riso, / pois na má disposição do rosto o coração sentir-se-á bem. / O coração dos sábios reside em casa de sofrimento, / e o coração dos tolos, em casa de alegria. / É melhor ouvir a repreensão do sábio / do que um homem que ouve uma canção de tolos.
E louvei o prazer, / porque não existe coisa boa para o ser humano debaixo do Sol / a não ser comer e beber e sentir prazer.
[…] Foi então que vi todas as obras de Deus, / pois nenhum ser humano conseguirá / descobrir o feito que é feito debaixo do Sol. / Embora o ser humano se esforce para procurar, / não encontrará o que procura.
Vacuidade é algo que está em todas as coisas. / O mesmo destino existe para o justo e para o ímpio; / para o bom e para o mau; / para o puro e para o impuro, / para o que sacrifica e para o que não sacrifica. / O homem bom é como o pecador; / o que jura é como o que receia jurar. / Isto é um mal em tudo o que é feito debaixo do Sol: / o facto de ser só um o destino de todos.
[…] Pois os vivos saberão que vão morrer; / e os mortos não têm noção de nada. / Não há para eles recompensa, / porque foi olvidada a memória deles. / De facto, o amor deles e o ódio deles / e a inveja deles já pereceu; / E não lhes cabe nunca mais porção / em tudo o que é feito debaixo do Sol. / Vai, come o teu pão com prazer; / e bebe de bom ânimo o teu vinho, / porque Deus já aprovou as tuas obras. / […] Vê a vida com a mulher que tu amaste, / todos os dias da tua vida de vacuidade / que te são dados debaixo do Sol; / todos os dias da tua vacuidade, / porque isto é a tua porção na tua vida / e no teu esforço, com o qual te esforças debaixo do Sol.
[…] Que não é aos céleres que a corrida pertence; / nem aos fortes pertence a guerra; / nem aos sábios, o pão; / nem aos compreensivos, a riqueza; / nem aos inteligentes, a beleza; / porque tempo e destino acontecerão a todos eles.
[…] Vacuidade das vacuidades – disse o Eclesiastes -, tudo é vacuidade
Eclesiastes, como aquele que preside ou convoca uma assembleia, foi opção para o título escolhido pelo autor (desconhecido), apresentando-se como se fosse o próprio rei Salomão a escrevê-lo, um pseudo-Salomão. Percebe-se a escolha:
“confere credibilidade ao discurso cético acerca do valor da riqueza e dos bens materiais. Quem melhor que Salomão, detentor e dono de tudo (sabedoria, poder, riqueza, mulheres), para nos dizer que tudo o que acontece é ilusão? Para se compreender a profunda semelhança entre ‘tudo’ e ‘nada’, é preciso ter tido a experiência desse tudo. É preciso ter experimentado tudo”.
Alguns dos temas tratados referem-se ao propósito desta vida, à vida após a morte, à realidade do mal e da morte, à justiça retributiva das recompensas ou castigos de acordo com a obediência ou desobediência do ser humano.
Apesar de nas traduções tradicionais iniciarem o escrito com: “Palavras de Eclesiastes, filho de David, rei de Israel em Jerusalém: vaidade de vaidades – disse o Eclesiastes -, vaidade de vaidades, todas as coisas são vaidade”, Frederico Lourenço explica-nos que o termo grego “vaidade” não remete para a aceção narcisista de uma pessoa vaidosa, mas para a qualidade daquilo que é “em vão”. Pelo que optou traduzi-lo por “vacuidade”, ficando mais clara a afirmação de Eclesiastes, segundo a qual tudo é vão, porque tudo é em vão.
Surpreende a solução apontada por Eclesiastes para minorar a insatisfação humana, preconizando a contribuição do comer, beber e gozar do bem-estar, embora reconhecendo ao mesmo tempo que o apetite do ser humano não possa ser suscetível de satisfação.
Apontando para a impossibilidade da felicidade individual, também não acredita que ela possa ser alcançada coletivamente. E uma vez que bons e maus são tratados da mesma forma, tal significará que não existirá o bem comum, pelo que não vale a pena lutar por ele.
Interessante uma das justificações para a vivência a dois: a cama ficar mais quente.
Outro ponto importante tem que ver com a consciência de que todos os seres vivos da terra têm um mesmo destino comum. Ou seja, homens e animais ao terem todos o mesmo destino, faz com que o ser humano não seja considerado superior ao animal.
Como é que tal escrito é repescado e sucessivamente integrado na Bíblia, é algo que só os teólogos poderão aclarar. Mas que se trata de um texto para todo o tempo, profundamente atual, ninguém poderá duvidar. Os algoritmos utilizados por Eclesiastes estavam corretos, e com a vantagem de não nos condicionarem
Nota: Frederico Lourenço, Bíblia, Antigo Testamento, Os Livros Sapienciais.
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