quarta-feira, 3 de março de 2021

Mário Dionísio - Com a data de hoje

* Mário Dionísio

 

Nas esquinas destas horas transitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA",

Mário Dionísio - Balada dos Amigos Separados

* Mário Dionísio

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco 
E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangularmos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

Mário Dionísio, in 'As Solicitações e Emboscadas'

Francisco Louçã - Épater le bourgeois, ou o grito pelo sangue

OPINIÃO

* Francisco Louçã

A credibilidade mora no sentido, não tanto no simples gesto. Reduzido a uma estratégia de entretenimento, o gesto esvai-se na banalidade. É o caso da polémica sobre se “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos” na revolução do 25 de Abril. Vagamente inconsequente, não é?

Aexpressão épater le bourgeois, ou surpreender o burguês, terá sido utilizada por Charles Baudelaire, mas diversas fontes relacionam-na, de modo mais amplo, com uma atitude geracional, a de poetas malditos do final do século XIX, apelidados com ligeireza de decadentistas, como Arthur Rimbaud, ou mesmo Oscar Wilde. Precursores do dada ou do surrealismo, dizem-nos.

Se bem que a origem exata da frase seja obscura e, portanto, incerta, pode ter sido usada por Baudelaire para descrever a estratégia comercial dos artistas plásticos e das suas galerias, que teriam que exibir objetos surpreendentes para chamar a atenção dos eventuais compradores. Não basta mostrar um urinol, teria ele dito, é preciso ser ainda mais provocador.

Para combater o tédio, privilégio do dinheiro, a arte deveria chocar os aperaltados clientes das galerias. Devia fazer-se ouvir, mesmo que fosse, e até seria melhor se fosse pela rejeição pela sociedade bem pensante (desde que um generoso investidor apreciasse ser a exceção).

A técnica de chamar a atenção pelo insólito não foi inventada por estes poetas nem pelos pintores que descrevem. É mesmo uma constante universal. Desde que existe linguagem e comunicação que as interjeições, os gritos, as frases retumbantes, os grandes efeitos são usados em abundância. Por isso mesmo, tais técnicas de épater le bourgeois podem ter muitas declinações.

Num discurso de um célebre parlamentar português e reputado orador de há um século, ao lado de uma frase de efeito esperado surge a anotação “aqui, mais forte”. Um político e militar que tomou o poder na China dizia, prosaicamente, que é preferível que o inimigo nos insulte do que nos ignore, tudo depende da atenção. Nestes casos, a atenção é suscitada pelo volume da fala ou pela ameaça; noutros, será simplesmente pelo inusitado.

O problema é que mesmo épater le bourgeois exige alguma dimensão. A credibilidade mora no sentido, não tanto no simples gesto. Reduzido a uma estratégia de entretenimento, o gesto esvai-se na banalidade. É o caso da polémica sobre se “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos” na revolução do 25 de Abril. Vagamente inconsequente, não é? Pedir mortes que não houve, naturalmente desde que não seja a minha, cruzes canhoto, e imaginar um passado glorioso com esse sangue que faltou, é um heroísmo um tudo nada bacoco. Na verdade, trata-se unicamente da sequência da proposta sobre a “demolição” do Padrão dos Descobrimentos, que parece ter sido logo seguida de uma explicação pacificadora, tratar-se-ia de uma mera metáfora, seria então o apelo a uma destruição assim a modos que fictícia, tudo fica na mesma.

O curioso nestas frases é precisamente o efeito da sequência, dado que, se não têm valor de proposta nem sequer de política, são somente uma representação do grito, uma chamada de atenção. Elas dão um título de jornal e isso é tudo o que é preciso. O mesmo se pode dizer das descobertas espantosas do comentador que sentencia que os pobres têm uma estrutura cerebral deficiente e distinta do comum dos mortais, coitados. Ou da forma como Ventura faz comunicação, tudo são gestos tonitruantes. Ou, para não o esquecer, da proposta de ilegalização do Chega, ou ainda de tantas outras afirmações e polémicas cuja utilidade é esgotarem-se de imediato.

A estratégia da atenção faz parte de toda a política, ou até da vida, concedo. Comunicação é atenção, um discurso do Presidente ou do ministro, uma proposta parlamentar, um comentário televisivo, tudo busca atenção. No entanto, há uma diferença entre a fala e a simulação. A fala é argumentativa e, por isso, sujeita à crítica; a simulação é nada mais do que um pretexto, que usa a encenação contra o discurso. Uma tem consequência e vale por ela, a outra é inconsequente e afirma-se pela irrelevância.

Percebo que em partidos políticos, ou no espaço público, esse seja o recurso disponível para quem luta por um lugar: a afirmação de um particularismo, mesmo se for, sobretudo se for uma posição chocante, é porventura um caminho para preservar a posição na lista eleitoral seguinte, ou na notícia do dia. Há quem se torne incontornável por ser campeão da impertinência. De facto, nesse jardim das vaidades é melhor investimento ser flamingo do que ser pombo. Infelizmente, isso nem chega para épater le bourgeois, que prosseguirá seraficamente o seu empreendimento.

2 MARÇO 2021 11:37

https://expresso.pt/opiniao/2021-03-02-Epater-le-bourgeois-ou-o-grito-pelo-sangue

terça-feira, 2 de março de 2021

As férias, por Ary dos Santos

* Ary dos Santos 
.
Era uma rosa azul de água amarrada
um palácio de cheiros um terraço
e uma jarra de amigos derramada
da casa até ao mar como um abraço.
.
Era a intensa e clara madrogada
com cigarras dormindo no regaço
e a ampulheta do sono defraudada
no tempo cada dia mais escasso.
.
Era um país de urses e lilases
de tardes sonolentas espreguiçando
um aroma de nardos pele chão
.
e bandos de meninas e rapazes
correndo amando rindo e adiando
a minha inexorável solidão

Domingos Lobo - A literatura da Guerra Colonial



A literatura portuguesa sobre a guerra colonial desenvolve-se numa visão progressista

*  Domingos Lobo

No ano de brasa de 1961, em Fevereiro, há sessenta anos portanto, os movimentos de libertação angolanos iniciavam, com o ataque à cadeia de Luanda, a primeira das insurreições armadas que se estenderiam, nos anos seguintes, a outros territórios do império colonial: Moçambique e Guiné.

Mais de um milhão de jovens foram enviados, ao longo de 13 anos, para esses três cenários de guerra. A nossa literatura irá reflectir, anos mais tarde, como nenhuma outra literatura o fez, essa dolorosa experiência, a da Guerra Colonial, que deixou um rasto de milhares de mortos e estropiados e uma memória colectiva doendo, ainda em ferida.

Não tenho conhecimento de que a catarse individual que os mais importantes títulos da nossa literatura sobre o conflito colonial opera, tivesse transcrição semelhante noutras literaturas que inventariam a guerra, e os fenómenos sociais e psicológicos a ela ligados. Embora existam algumas correspondências na literatura alemã da 2.ª Guerra (Günter Grass mas, sobretudo, Heinrich Böll) e na do Vietname – ambas, no entanto, o fazem sobre a perspectiva dos vencidos, enquanto a nossa, a sua produção mais significativa, se desenvolve numa visão progressista da história, ou seja, numa oposição clara e frontal aos pressupostos do conflito; do opressor que, enquanto tal, se questiona, entendendo a posição justa dos povos que era forçado a oprimir é, nesse contexto, uma literatura que questiona dialecticamente o sentido da história. Não existe, no cânone restrito da literatura portuguesa da guerra, uma concepção imperial ferida, mas a rejeição liminar do absurdo, do inumano que ela foi, e sua veemente denúncia.

Humanismo universal

Há pois, entre a nossa literatura de guerra e as duas referidas, diferenças conceptuais e ideológicas significativas, as quais originaram dinâmicas e imaginários diversos. Existe nela, a par da contextualização autobiográfica do fenómeno, uma dimensão cívica, moral e reflexiva de assunção da verdade como método estruturante do narrado, o estigma da culpa geracional e colectiva, uma dextra capacidade de ficcionar os factos históricos, de envolver na narrativa (mesmo no hiperbólico emotivo, como faz João de Melo), elementos factuais, entrelaçando-os com a reflexão do tempo social e político.

A literatura da Guerra Colonial, ao mesmo tempo que exorciza os fantasmas pessoais, constrói uma escrita de coragem, no assumir dos factos e das feridas que lhe estão no cerne: o sujeito, enquanto agente de uma determinada realidade e da sua efabulação. Há uma componente humanista (no sentido heideggeriano) universal nestes textos que é, na sua proposição subjectiva, um traço determinante de intervenção sobre o real.

Se o acto de escrever é um processo de responsabilização – cultural, cívica e ética –, os autores que vieram da guerra e a escreveram atingiram, nos títulos mais significativos desse processo, o estágio supremo da criação literária.

Raramente a literatura portuguesa deu a dimensão trágica, o absoluto do drama, do épico, como nos textos em que a Guerra Colonial surge como suporte ficcional. É a tragédia do homem só com sua consciência, com a conflitualidade íntima, entre o dever, a justiça e a dignidade – o homem e o seu estupor existencial, as suas perplexidades, em estado imanente, e esses estágios do Ser raramente a literatura portuguesa conseguiu traduzir de modo tão veemente.

Bastam-nos umas dezenas de obras, entre mais de 200 até hoje publicadas – algumas, estreias notáveis dos seus autores –, para provar que foi decisiva essa contribuição para a projecção abrangente, com olhar plural e incisivo, das omissões sobre um dos períodos mais dramáticos da História portuguesa dos anos 1961/1974:

O Capitão Nemo e Eu, de Álvaro Guerra; Lugar de Massacre, de José Martins Garcia; História do Soldado que não Foi Condecorado, de Modesto Navarro; Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes; Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz; Autópsia de um Mar de Ruínas, de João de Melo; Jornada de África, de Manuel Alegre; Salário de Guerra, de Vergílio Alberto Vieira; Memória de Cão, de Álamo Oliveira; A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge; Diário Pueril da Guerra, de Sérgio de Sousa; Os Navios Negreiros Não Sobem o Cuando, de Domingos Lobo; Adeus Até ao Meu Regresso, de Mário Beja Santos, e No Percurso de Guerras Coloniais, de Mário Moutinho de Pádua.

Livros que andam por aí, que nos contam os duros dias dessas guerras.

https://www.avante.pt/pt/2465/argumentos/163210/A-literatura-da-Guerra-Colonial.htm

segunda-feira, 1 de março de 2021

Filipe Chinita - os sem terra

*  Filipe Chinita

os
sem terra
.
eu 
sou comun.ista...  
parte 
do
aro
do 
fogo
da forja
da foice
da plaina
do alforge 
da bigorna
da alfombra
e do ainda mais largo alfobre 
da in.comum comuna alentejana
de sucessivas gerações de homens e mulheres 
proletários.rurais.sem terra.e sem nada de seu
explorados.de sol a sol,
quais animais.de lavra.
pobres e analfabetos.
de tudo!
no entanto... 
os mais ricos/cultos.íntegros/inteiros 
corajosos... e in.comuns.humanos! 
que me foram dados
re.conhecer
.
fj
17.15
01.03.2021
fotograma 
de j. botelheiro
sobre revista... de antes de eu nascer (em 1955)

Filipe enviou a mensagem: 01 de Março 17:57

David Mourão-Ferreira - Ilha

* David Mourão-Ferreira


Deitada és uma ilha     E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique      e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha      Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante eu morro
da vida que me dás todos os dias


in Matura Idade (Os Sonetos)
Arcádia Editora 

Raquel Varela - Jornalismo e desinformação

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL
por Raquel Varela   23 JAN, 2021

Este foi o ano em que todos os líderes mundiais alertaram para o grave “problema da desinformação”. Supostamente a sua origem seriam as redes sociais, que divulgariam notícias “falsas”. Não restam dúvidas que hoje há uma enorme circulação de propaganda duvidosa e notícias falsas. Não creio, porém, que o seu problema esteja, principalmente, nas redes sociais. O jornalismo está ele próprio – e com a pandemia adensou-se esta questão – numa encruzilhada. Ou há uma rutura com as práticas atuais como a precariedade e a ausência de trabalho em redação ou o seu declínio é ineludível. Vive-se no jornalismo o que chama uma crise total: crise dos proprietários, crise dos meios, crise dos jornalistas, crise de formação. A demonização das redes sociais não resolverá o problema.
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Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.
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Desde logo nas redes sociais há de tudo – banalidades, vida pessoal, mentiras; mas também divulgadores científicos notáveis, trabalhos seríssimos de académicos, intelectuais e artistas com obras maravilhosas. É uma questão de escala -, tudo é grande: o mau, mas também o bom. Se o que tem má qualidade aumentou, o mesmo acontece com o que tem boa qualidade. Sublinho – as redes sociais não produzem trabalho sério, nem podem fazer. Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.
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O problema hoje não é tanto saber distinguir o certo do errado – esse é um problema geral de educação. O problema das redes é que elas são o inferno de excesso de informação – para se chegar a um belo artigo crítico sobre um determinado tema é preciso navegar, durante horas, por textos nem bons nem maus, selfies, memes, anúncios de férias e casas para alugar. Exige um tempo de que não dispomos.
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É aí que volta a entrar o lugar que o jornalismo pode ter. Os jornais diários passaram a substituir, com frequência, reportagens e jornalismo por opinião – casa vez mais superficial. Talvez a solução esteja num retorno ao início. Em vez de fact-check a posteriori precisamos de fact-check a montante, que não é senão outro nome para o Jornalismo. Esperamos do jornalismo artigos de 1 ou 2 páginas, que condensam um trabalho de 2 ou 4 semanas de um profissional, culto, com capacidade de reflexão intelectual, que pensa e investiga, e escreve – sem medo, em diálogo com as melhores práticas, com redações sólidas experientes, trabalho cooperativo, e, evidentemente, com boas condições de trabalho.
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https://regiaodecister.pt/opiniao/jornalismo-e-desinformacao

Raquel Varela - A Maria e o Padeiro

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL
por Raquel Varela  27 FEV,2021

A Maria, nome da minha crónica ficcional, trabalha em estética e é mãe de 3 filhos. A mais nova vive ainda com ela e com o companheiro, padeiro. Pagam 600 euros por dois quartos numa casa no distrito de Lisboa, “já com as despesas incluídas”. O sonho era alugar uma casa, “mas com as despesas um T2 ia chegar a 1000 euros”. Trabalha como esteticista num grande centro comercial, ganha o salário mínimo, 10 horas por dia, com uma 1 de almoço, e folga 1 vez por semana.
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Começa no shopping ao meio dia e termina às 10 da noite, mas faz sempre umas horas extra num cabeleireiro de bairro de manhã onde entra às 9 da manhã – se contarmos a ida e vinda do trabalho são 15 horas por dia 6 dias por semana dedicadas ao trabalho, 84 horas por semana. O INE diz-nos que metade dos portugueses trabalham até 70 horas – não contam aqui o que fazem como biscate para conseguir pagar contas. Ambos os trabalhos de Maria foram encerrados, argumentando o Governo que isso diminuiria o contágio. Para ela não –  o companheiro é trabalhador essencial de um supermercado, a padaria, pelo que está sempre a trabalhar e em contacto diário com milhares de clientes num espaço fechado sem ventilação natural. A filha está no ensino secundário público e sonha ser arquiteta. Sonhava. Sair da reprodução social da pobreza, esse lugar onde filho de esteticista, esteticista será.
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A Maria no primeiro confinamento em março recebeu 210 euros num mês, porque só conta o que foi descontado legalmente; em janeiro deste ano, depois do novo confinamento, foi avisada pela Segurança Social que receberia cerca de 110 euros, “eles acham que vivemos disto?”. A filha, depois de março, teve pela primeira vez negativas, duas, uma delas a geometria descritiva – não vai ter média para entrar na Universidade. A escola avaliou o período como “normal”. A Maria, que entrega 15 horas por dia ao trabalho, não pode pagar explicações privadas e está dependente ou do companheiro ou de trabalhar ilegalmente. O companheiro era padeiro numa pastelaria de uma zona nobre, onde aliás se servem os melhores croissants do bairro. Ganhava o ordenado mínimo, mais 20% que o patrão lhe pagava “por baixo da mesa”, foi assim 9 anos. Ele indignou-se com o corte, e saiu, “caramba um homem tem dignidade!” – empregou-se numa cadeia de supermercados, onde recebe o salário mínimo.
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Nos EUA 75% dos americanos que não têm ensino superior nunca pararam de trabalhar, porque estão em trabalho essencial e industrial. Em Portugal mais de metade dos portugueses nunca parou de trabalhar. Quando a Maria for ao passeio marítimo apanhar sol alguém lhe vai gritar “criminosa!, vou chamar a polícia”.

https://regiaodecister.pt/opiniao/maria-e-o-padeiro?

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Maria João Antunes - Como nossos pais

 

Os dias foram sendo passados assim. Sem o calor do abraço, sem o carinho do beijo. Sem a dignidade de decidir .Créditos Manuel de Almeida / LUSA

OPINIÃO|PANDEMIA

* Maria João Antunes

Um ano está para fazer desde a última vez que ao meu pai foi permitido almoçar com os filhos, passear na rua, tomar um café, dizer tontarias em família.
Foi com o meu pai que visitei o jardim zoológico pela primeira vez. As ruínas de Conímbriga, Viana do Castelo, Guimarães, a Régua, entre outros tantos sítios. Foi pela mão do meu pai que participei pela primeira vez nas jornadas de trabalho da construção da Festa do Avante!. Na escola primária, foi o meu pai que me ajudou a montar um pequeno jornal dos alunos, onde já questionávamos os atrasos das obras na área circundante à escola. O meu pai, homem curioso, desapegado dos bens materiais e amante da cultura, da música, das terras e dos povos, vive hoje numa estrutura residencial de apoio a idosos. A vida, a vida dele assim o ditou. Tem 71 anos e o AVC, do qual já recuperou, não o impediu de continuar a contar histórias.
Conta uma, de que gosto particularmente, sobre o meu bisavô, nos seus tempos de emigrante em França. O meu pai usa esta história para falar de um povo que cultiva a arte do desenvencilhar. Então, ao meu bisavô, certa vez em França, pela primeira vez numa obra, foi-lhe dada a tarefa de construir um pequeno muro. Como a ferramenta tardava e o parco conhecimento da língua não ajudava, o meu bisavô começou a fazer o muro com o que tinha à mão. Quando o encarregado francês apareceu com a ferramenta, já o muro ia alto. Deu-se um momento de tensão entre os dois mais um colega que ia traduzindo a conversa. Dizia o encarregado que «agora vai ter que se deitar o muro abaixo que não está aprumado, que desperdício, ó homem que foi fazer». E o meu bisavô lá explicava que não, que o muro estava bem; que, na falta de ferramentas, tinha usado uma malga com água para verificar o nível e que, com uma pedrinha atirada de cima, se tinha certificado do alinhamento dos tijolos.
O meu pai conta histórias sobre tudo um pouco, mas, nos últimos anos, mais da Guiné, onde foi voluntário à força nos anos 70, às custas do Fascismo. Iluminam-se-lhe os olhos, abre um sorriso traquinas e lá nos conta mais umas peripécias. Entre feitos e feitios, é uma pessoa genial que, aos 71 anos, conserva a beleza da ingenuidade de uma criança com a matreirice e o voluntarismo de um adolescente. Foi sempre assim e não seriam os anos a mudá-lo.
Ultimamente, não tem havido espaço para histórias nem malandrices. As conversas, ora cara a cara ora na internet, foram mais pesadas e o tempo, sempre cronometrado, foi-se gastando; um ano, mais coisa menos coisa.
Um ano está para fazer desde a última vez que ao meu pai foi permitido almoçar com os filhos, passear na rua, tomar um café, dizer tontarias em família.
Os dias daqueles que têm mais de 60, mais de 70, mais de 80, foram sendo passados assim: sem brincadeira, nem passeio, nem conversa. É assim para aqueles que vivem em lares e para aqueles muitos milhares que vivem sozinhos. Sem o calor do abraço, sem o carinho do beijo. Sem a dignidade de decidir.
Quase doze meses depois de o Governo ter decretado o primeiro estado de emergência, pergunto-me se o último ano foi mesmo de vida, se foi mesmo vivido. Não soube a vida; foi antes uma espécie de purgatório. Pergunto-me se desistimos de viver; se tudo aquilo de que abdicamos no último ano valeu a pena.
Pergunto-me se um país pode abdicar tão facilmente da vida. Se uma nação que valoriza os seus trabalhadores, e cujo objetivo fundamental é o bem-estar dos seus cidadãos, lhes pode suspender a vida.
Lembro-me do vídeo que circulou na internet de um agente de segurança a mandar uma mulher mais velha para casa com violência. Recordo a pressão praticamente consensual, no início de tudo isto, sobre os mais velhos, para que não saíssem – que era para o bem deles que lhes falávamos alto e que por eles decidíamos.
Primeiro, a culpa vestiu-se de anos; depois, virou-se para a juventude rebelde que se juntava nas ruas; mais recentemente, atirou-se às famílias que se juntavam em convívios ao domingo ou que jantaram na noite de Natal.
Lembro-me que, no verão, o bicho não explicava o acréscimo de mortes – então alguém explicou que era o calor: um pico de calor que matava muitos velhinhos. Mas em Janeiro, quando as coisas apertaram, a terrível vaga de frio que entrou casa adentro não teve nenhuma importância – o problema era afinal o Natal. Não importou para as explicações que as nossas casas sejam de construções fracas ou que não tenhamos aquecimento ou dinheiro para o pagar – estas coisas não têm influência nenhuma nos problemas respiratórios e nos sistemas imunitários, como se sabe.
Recordo também que, no início, ainda o Governo andava de lá para cá sem saber muito bem o que fazer, já as pessoas na rua usavam máscaras e desinfetavam as mãos. Malditos portugueses, sempre tão insurretos e pouco civilizados!
Lembro-me que, a certa altura, se afirmou que, na falta de mãos ou estrutura, se obrigaria os privados a ajudar no combate à pandemia. Ora, a requisição transformou-se em contrato chorudo, enquanto aos pais que ficaram em casa com crianças pequenas se roubou 34% do salário.
Lembro-me ainda do choro de Agosto pelo turistar dos ingleses. A quem lhes suplicou, não foi atribuída nenhuma culpa.
Quando se vive num país em que mais de um milhão e meio de pensionistas vive com menos de 300 euros, não nos devia admirar que, em apuros, se culpe o pobre, o velho, o que vive só do seu trabalho.
O meu pai trabalhou muitos anos, muitos mais anos do que diz o registo da Segurança Social. Em muitos desses anos, o patrão escusou-se a descontar e, quando chegou a altura, a reforma ficou nos 300 e poucos euros. Os governos não corrigiram a situação – quando muito, vão dando borlas aos patrões que se dispensam a descontar, aumentando taxas e taxinhas e deixando que os preços da água, da luz e da comida aumentem sem parar.
Não sei se na Suécia há pensões de 300 euros. Também não tenho a certeza se as casas são boas, mas imagino que o aquecimento não deva ser um luxo como em Portugal, afinal o país chega a temperaturas bastante baixas no inverno. Parece que morreu muita gente na Suécia atacada pelo bicho – diz que foram mais de 12 mil pessoas. Por aqui, já ultrapassamos as 16 mil e há um ano que o meu pai não almoça com os filhos. Parece também que na Suécia, tão atacada pelo bicho, a mortalidade não-Covid não subiu. Parece que se continuou com a vida normal das consultas, cirurgias e outras coisas. Por aqui, morreu muita gente sem ser do bicho – diz que até houve gente que teve enfartes e não foi às urgências. Tão insurretos os portugueses!
Acho que está na hora de almoçar com o meu pai. Vou telefonar para o lar e pressionar. O homem até já está vacinado, por que raio não há-de sair da clausura?
Porque é que não saímos todos da clausura? Quando dermos por ela, a prisão não é só lá fora: instalou-se na cabeça e aí é que já não nos libertamos.

- DOMINGO, 28 DE FEVEREIRO DE 2021
«Como nossos pais» é uma canção composta em 1976 por Belchior e eternizada pela voz de Elis Regina.

A autora escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

https://www.abrilabril.pt/nacional/como-nossos-pais

Filipe Chinita - dos 100 anos


* Filipe Chinita


dos 
100 anos
ou 
de um
uno 
partido
comunista
.
para mim...
todos 
os que comigo lutaram
e se acreditam e dizem 
comunistas...
- estando dentro 
ou fora 
dele 
e
mesmo em toda 
a sua possível 
diferença.
de mim - 
me 
foram e me são... 
para sempre!
partido
.
fj
21.41
28.02.2021
sempre! 
na inteira verdade 
política! de cada 
um de 


Filipe enviou a mensagem: 28 fev às 21:50

 

José Gameiro - Um hino à vida

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA
 
* José Gameiro  

Sempre tive alguma atração pela passagem para o outro lado, para o nada absoluto

Não posso dizer que sempre quis ser médico. Talvez tenha sido pelos meus 15 anos, depois de uma doença grave da minha avó. Marcou-me muito a relação com o colega que a tratava e que falava comigo como se eu fosse um adulto. Explicava-me todos os procedimentos e, quando ela já estava melhor, fez-me uma visita guiada à enfermaria. Pude então ver de relance um quarto em que estava um doente cheio de tubos e fios. Mal eu sabia que viria a ser intensivista.

Fiz o curso sem sobressaltos, concorri ao Internato de Medicina Interna e fiquei. Durante esta fase estagiei nos CI e aí tive a certeza absoluta que a minha vida iria ser ali. Além daquela muito divulgada ideia que salvamos vidas no limite, sempre tive alguma atração pela passagem para o outro lado, para o nada absoluto. Conheci-a nesses meses. Transpirava segurança e a calma de quem já tinha tratado centenas de doentes, muito graves. Tinha uma máxima que nunca mais esqueci, “aqui não se fala da morte, nunca se sabe se os doentes nos ouvem”.

Passaram dois anos até ficar efetivo no hospital. E voltei para a unidade onde tinha aprendido. Mal sabia eu o que me esperava... Ela já era a chefe. Nos primeiros meses, os doentes eram os habituais, politraumatizados graves, com multifalência de órgãos, sépsis, cardiovasculares, complicações pós-cirurgia. Trabalho de rotina, duro, mas satisfatório, uma urgência interna semanal, com a responsabilidade de todos os doentes. E veio a pandemia. Os primeiros doentes muito graves, a tristeza de perdermos alguns e a alegria, quase euforia, de tirarmos muitos do fundo.

A pouco e pouco o ambiente foi mudando. Tornámo-nos mais próximos, por vezes quase confidentes. Os pequenos intervalos para um café ficavam, por vezes, parecidos com festas de finalistas. Claramente o stresse tinha de sair por algum lado. Uns cantavam, outros contavam anedotas, cada vez mais arrojadas. Depois voltávamos a vestir os fatos de proteção individual e ficávamos ultrafuncionais, com gestos seguros, a cumprir os protocolos há muito estabelecidos.

Tínhamos instituído equipas de dois, para alguns procedimentos. Um pouco como trabalham dois pilotos num cockpit de avião. Um faz e o outro verifica.

Foi ao puncionar uma artéria mais difícil que senti a mão dela a guiar a minha. Mesmo com luvas, não me foi indiferente. Fez um sorriso aberto, que só vi nos olhos, por trás da viseira.

— Vês como é fácil, já fizeste tantas, estás cansado, a mão tremia-te.

Seguimos para a doente seguinte. Uma senhora com 90 anos, sedada há duas semanas e ainda com um prognóstico muito fechado. Antes de ser entubada pediu-nos para, sempre que possível, lhe deixarmos junto ao ouvido o telefone. Tinha muitas playlists, se pudéssemos ir mudando, agradecia. Na dúvida, tentámos respeitar. De Bach a Mozart, passando pelos Beatles e Rolling Stones, ouviu tudo. Enquanto a observávamos trauteámos a ‘Michele’.

Parecia estar a ser um dia, não direi leve, mas sem nenhuma tragédia, quando os alarmes dispararam. Um jovem internado há dois dias, em paragem cardíaca. Os gestos foram automáticos, na sucessão protocolada das intervenções. Ainda conseguimos reanimá-lo, mas, depois, perdemo-lo para sempre. Foi o único jovem que não resistiu, na nossa unidade. Disse-me que, ao fim de tantos anos, não conseguia habituar-se àquilo. Que um velho morra é a lei da vida, agora um miúdo, com a vida toda à frente, é muito injusto. Preciso de ir beber um copo, vens comigo?

Hesitei, mas fui. Levou-me para um local com uma vista deslumbrante sobre a foz do Tejo.

— É aqui que venho quando preciso de pensar em mim. Nunca deixes de pensar em ti, se o fizeres as coisas correm mal.

Encostou a cabeça no meu ombro e pegou na minha mão. O que aconteceu depois apaguei.

Segui, quase à risca, uma das orientações das UCI.

O que acontece aqui dentro, não passa lá para fora.

Mas é sempre um hino à vida.

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2522/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/um-hino-a-vida

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Eugénio Lisboa - RECADO?

* Eugénio Lisboa 
.
Há todo um mundo que agora apodrece
perante nossos olhos espantados:
o que agora ante nós amanhece
é um dia em que a esperança já fenece.
.
Todos fogem ao fim que os espreita,
desejando que a ceifa que os procura
a outros vá lançar sua maleita,
enquanto eles buscam via escura.
.
Nunca o mundo foi tão desabitado.
nunca a vida assim se escondeu:
se tudo assim está tão sossegado
.
é sinal de que um mal aconteceu.
Será, do mundo, o fim anunciado?
Será apenas um ínvio recado?

-
Eugénio Lisboa, "Recado?" (inédito)
Dia 2.04.2020
https://livrespensantes.blogspot.com/2020/04/um-poema-inedito-de-eugenio-lisboa.html

José Soeiro - Portugal: imaturidade e amor próprio

*  José Soeiro  

“Sinto-me constrangido ao ver como Portugal, apesar de ser um país tão antigo, continua tão imaturo na leitura da sua própria história, com um amor próprio tão frágil que não suporta qualquer olhar crítico para o próprio passado”.

As palavras são de Luca Argel, músico carioca e portuense, brasileiro com nacionalidade portuguesa, que acaba de lançar o seu “Samba de Guerrilha”, um álbum que é também uma aula de história, através da qual somos levados por mais de um século de resistência. O lamento de Luca vem a propósito da proposta grotesca, impossível e ridiculamente inconstitucional de “deportar” um cidadão português, Mamadou Ba, por dizer o que tantos outros disseram: que a história de Marcelino da Mata é a de uma galeria de crimes de guerra, aliás exibidos pelo próprio em várias declarações públicas. Curiosamente, não faltaram portugueses – militares, deputados, advogados, historiadores… – a lembrar isto. Contudo, ninguém se atreveu a sugerir que fossem expulsos do país. É que Mamadou não é apenas português. É negro.

A dificuldade em olhar com verdade para o passado colonial não vem de hoje nem se revelou apenas neste caso. O historiador Miguel Cardina dissecou-as há dias. Há uma espécie de “pacto de silêncio sobre a guerra”, que nos tem impedido de encarar os massacres e os crimes cometidos (mesmo os que, no passado, já foram explicitamente condenados pelas Nações Unidas). Esse pacto manifesta-se nas “burocráticas omissões” como a que ficou patente no recente voto de pesar do Parlamento, validado pela direita e pelo PS. E expõe-se na fuga ao debate com a suposta equivalência, historicamente absurda, entre “os erros dos dois lados” (como se a ocupação colonial não fosse uma estrutura de poder desigual, de dominação e de opressão), que procura passar um pano nos factos para diluir quaisquer responsabilidades, fingindo que, na guerra, todos se comportaram da mesma forma. Este “pacto de silêncio” tem-nos privado de uma abordagem madura do legado colonial e dos padrões que herdámos dele e que hoje se exprimem diversamente, mas tem contribuído também para invisibilizar as feridas e os traumas dos que, tendo sido enviados para combater, tiveram de lidar frequentemente sozinhos com os fantasmas e as dores profundas que essa experiência cravou no seu corpo.

Perante a ausência de um espaço de debate, de uma leitura crítica da violência colonial, perante a ocultação das narrativas da resistência anticolonial, o que fica, além do silêncio e da amnésia? A reabilitação, mais explícita ou mais implícita, de um imaginário colonial baseado numa recauchutagem das teses lusotropicalistas e na ideia de um “convívio” e de uma “grandeza” portuguesas. Quem ousa questionar essa narrativa e esse revisionismo histórico, logo é apelidado de querer “politizar a história”, de estar a “interpretar o passado à luz de hoje”, de desejar substituir a análise pela imputação da “culpa”, como se os processos de desmemória que abrem a porta à banalização do colonialismo e do racismo não fossem a mais política das escolhas.

À recriminação das tentativas de promover uma leitura crítica do passado no espaço público, tem-se somado ainda a fabricação histriónica de falsas polémicas. A mais recente envolve uns supostos canteiros de flores na Praça do Império, em Lisboa, que teriam sido destruídos selvaticamente pela fúria antirracista e de reescrita da história da Câmara Municipal, mas que afinal não existem há décadas, nem sequer eram parte do projeto original da praça. Mas que importa tudo isso, se o objetivo é agitar e polarizar controvérsias, mesmo que não sejam reais?

Este silêncio e esta polarização tem vários efeitos de invisibilização. Invisibiliza a herança colonial do passado, mas também a identificação da discriminação e das fraturas económicas e sociais de hoje, como se o trabalho de universalização e de construção de alianças e de lutas maioritárias no país não incluísse o reconhecimento das múltiplas experiências de desigualdade e de negritude que fazem parte de Portugal. E concorre, finalmente, para a banalização e a legitimação da extrema-direita atual. Essa banalização está aí, na competição de uma ala do CDS que quer ser ventríloqua do Chega. Está aí, no namoro explícito entre dirigentes do PSD e Ventura (que esta semana teceu elogios a Passos Coelho e ao sentido dos sacrifícios que impôs no tempo da troika). E está aí, também, no discurso de uma direita intelectual que tem vindo a relativizar de forma explícita o regime constitucional e a própria democracia. Inebriada com os resultados da extrema-direita, Fátima Bonifácio é provavelmente quem de forma mais desabrida se vem dedicando ao elogio dessa direita extremada que dispensa as “boas maneiras” e as “falinhas mansas” da democracia, constituindo-se assim no “possível pelotão da frente” para o resto da direita que queira ir a reboque. Eis, no seu esplendor, a miséria de espírito, a abdicação democrática e a infantilidade política destas elites.

Felizmente, há um outro país que não quer o fantasma do passado como projeto. Que tem amor próprio suficiente para olhar criticamente para trás. Que quer verdade e memória. Que está disposto a lutar por democratizar a democracia, em vez de abdicar dela.

27 FEVEREIRO 2021 0:00

https://expresso.pt/opiniao/2021-02-27-Portugal-imaturidade-e-amor-proprio

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Filipe Chinita


* Filipe Chinita

 o 1º da esquerda de quem daqui olha
.
sim

do 
início dos inícios 
ou
de uma obliterada
mas para sempre 
histórica 
foto
.
fj
14.47
27.02.2021
o
1º 
da esquerda
de quem 
daqui
olha
.
dos braços  
nus.
até 
aos ombros.
e de lápis 
na mão
.
daqui 
nunca 
me poderão 
apagar

2021.02.26

Filipe enviou a mensagem: 26 de Fevereiro às 18:29

~~~~~~~~~~


do 
início dos inícios 
ou
de uma obliterada
mas para sempre 
histórica 
foto
.
fj
14.47
27.02.2021
o
1º 
da esquerda
de quem 
daqui
olha
.
dos braços  
nus.
até 
aos ombros.
e de lápis 
na mão
.
daqui 
nunca 
me poderão 
apagar
____________________________________

em 1974/5.
usava 
uma grande cabeleira negra.
de que sequer tinha noção. 
fruto do(s) tempos.
os braços nus.
o meu evidente nariz.
e lá está.um lápis ou uma caneta na mão. 
mas para onde rumaram 
estas espessas e compridas sobrancelhas 
que já as não tenho.
em que sonhos as perdi eu. 
lembras-te de como delas 
falavas tu - em moscovo.76/77 -
ó mulher para sempre 
amada
.
fj
04.11.2014

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Eugénio Lisboa - O poder das palavras em tempo de peste

Eugénio Lisboa


https://poetria.pt/l-n/poemas-em-tempo-de-peste-eugnio-lisboa

Filipe Chinita - olha só ...

 * Filipe Chinita


olha só...
1.
cascais.
em casa de leonor.
1ª metade da década de 80.
com a joão.meu primeiro amor 
de uma comum vida.
num mesmo 
espaço.
curta 
mas mui intensa. 
e nunca eu deixei de a amar... mesmo perdendo-a.
nunca antes.nem depois o combate 
amororo.erótico.sensual.e sexual 
nos foi tão apaixonado
apaixonante e 
intenso
2.
eu 
era então 
absolutamente pobre
3.
libertara-me... já da barba
(em que me quiseras 
tu.outra)
mas 
ainda não 
de um bigode 
mínimo...
que ora... 
nem percebo 
porque ainda 
o usava
4.
olha só... 
o cair 
do ante braço
do pulso 
da mão 
de todos 
os dedos 
desta 
(tua) 
mão
.
olha só... 
as (tuas) botas 
(de) todo o terreno...
.
lembras-te ainda?!
.
olha só... 
as (tuas) calças.laranja
.
olha só... 
dobrar 
do teu jooelho 
no exacto volume 
das (tuas) 
coxas
 .
olha só... 
o prazer/gozo 
da (tua) 
boca... 
no 
sonho 
fechado 
do (teu) 
tão belo 
olhar
5.
ó 
como 
sempre 
eu te amei... 
de todos os desejos 
da palavra.do amor.e do sexo... 
6.
ó 
quanto 
palavrosa... eras! 
meu amor
ó 
quanto 
era impossível calar-te 
quando (te) começavas... 
debitando
7.
olha só... 
o queimar do tempo 
no cigarro ardendo 
na ponta de (teus) 
dedos
que nunca eu 
fumei...
.
olha só... 
o desejo 
que sempre te tinha 
no quasi.assobiar... 
de (meus) 
lábios
8.
ó 
como (ainda) 
brilhava 
feliz 
o (meu) 
olhar 
de mui longas sobrancelhas... 
de mui negros cabelos 
em todo o seu 
volume... 
desordenado... 
de patilhas!
e tudo...
9. 
todo 
o (meu) corpo 
me era 
ainda 
de 
uma 
suprema 
elegância.magra 
10.
como não?! 
.
de tanto 
andar 
pé 
de tanto 
fazermos amor...
de em quasi contínuas refregas... 
des.ordenadas... pelas noites
madrugadas.
e acordar.
es
11.
quem 
aqui 
nos poderá 
ter fotografado 
senão... a leonor ou a lena?!
12.
ó 
quanto 
tu eras vivíssima 
de palavras.de dança.de amor.d'água.s 
e de toda a alvoraçada 
entrega de ti... 
em tudo
13.
ó 
como 
eu amava 
tudo! em ti...
mesmo o excesso do discurso... 
eu 
que era 
e sou todo...
de silêncio.s
14.
ó 
como 
eu te amava... 
de.lamber e re.morder sem fim... 
os pequenos seios levantados
na ponta da 
(minha) 
língua
o todo 
o latifúndio dorsal 
pejado de buraquinhos.
mínimos... 
.
e
as virilhas 
e
a vulva 
o teu clitóris.
de prazer...
de mútuos 
orgasmos
sem 
fim 
15.
tudo em ti... 
era 
à medida 
de mim... 
.
começar 
pela fome
e constante sede
de desejo amor e sexo 
que ambos tínhamos... 
(um) do outro
16. 
por mim...
eu teria ficado 
para sempre! 
amando
-te
.
fj
17.03
25.02.2021


Filipe enviou a mensagem: 25 de Fevereiro às 18:54

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Rui Diogo - O colonialismo matou muito mais que o Holocausto

OPINIÃO

O investigador e professor da Universidade de Howard Rui Diogo analisa o colonialismo europeu e compara-o, em termos de mortos, com o extermínio em massa perpetrado pelo regime nazi

23 FEVEREIRO 2021 9:18
Rui Diogo*

João Miguel Tavares escreveu, na última pagina da edição de quinta-feira (dia 18) do "Público", o qual leio diariamente desde há anos, um artigo com o titulo: "Mais uma comparação com o nazismo e eu grito." É preciso notar que o artigo estava na última página do jornal, a qual é facilmente visionada por todos os que compram este jornal, ou outros.

Sendo eu português, especialista em temas ligados ao racismo e colonialismo - que são o tema principal do meu último livro -, e professor na Howard University, uma universidade mundial constituída principalmente por alunos descendentes de africanos e com prestígio e influência mundiais precisamente por chamar a atenção para estes temas - é preciso lembrar que Kamala Harris, agora vice-Presidente dos E.U.A., foi aluna de Howard -, este artigo parece-me totalmente indigno de um jornal de prestígio internacional como o "Público". Por ser não só uma falta de respeito para as centenas de milhões de mortos resultantes do colonialismo europeu - muitíssimos mais que o número atroz e horripilante de mortos de judeus - e também ciganos, e pessoas com deficiência, não podemos esquecer - causados pelo horrível Holocausto, mas também para os sobreviventes e descendentes dos que foram colonizados, como os meus alunos em Howard, e muitos milhares de alunos, professores e outras pessoas a viver em Portugal.

Que o colonialismo europeu matou muito mais que o Holocausto é um facto histórico consensualmente reconhecido por historiadores internacionais. Mas na Europa, e sobretudo em Portugal - contrariamente ao que se faz por exemplo na Alemanha, em que se reconhecem muito mais, a nível público, as atrocidades feitas pelos nazis e também pelo colonialismo alemão - continua a nem querer sequer fazer uma comparação entre o Holocausto e o colonialismo. Isto porque o primeiro é visto como o 'mal absoluto', e o segundo como algo que no fundo "não foi tão mau" - ou, como escreveu João Miguel Tavares, que foi muito mais "rico" do que simplesmente "brutalidade e opressão".

Não há dúvida que o Holocausto é um dos eventos mais horríveis da humanidade: entre 1941 e 1945, os nazis e os seus colaboradores mataram cerca de 6 milhões de judeus, ou mesmo mais, segundo os números consensualmente aceites hoje em dia, e isso envolveu um planeamento frio, totalmente inumano, desde tirar as pessoas das suas casas, construir linhas de caminho de ferro e ter comboios para as transportar, e criar campos de concentração, de extermínio para os matar, e câmaras de gás para as gazear: o mal absoluto, sem dúvida - cerca dois terços dos judeus Europeus foram mortos, nesses 4 anos.

No realidade, o facto de pessoas como João Miguel Tavares, e no fundo uma grande maioria dos portugueses, continuarem a nem aceitar que se façam comparações entre o colonialismo europeu e o Holocausto, tem precisamente a ver com este último ponto: porque o Holocausto afetou-nos sobretudo a "nós", os europeus, enquanto o colonialismo afetou os "outros". Porque na realidade, uma comparação factual revela que não só o colonialismo matou muito mais que o Holocausto, mas que também envolveu planeamento igualmente horripilante e inumano: como construir barcos para levar escravos, aglomerados, acorrentados, em viagens de meses, sabendo de antemão que em muitos casos um terço, ou mesmo dois terços, deles iriam morrer nessas viagens. Nesse sentido, essas condições foram ainda mais horríveis que aquelas terrivelmente inumanas que ocorreram nos comboios usados pelos nazis para transportar judeus durante o Holocausto
.
E, sim, acima de tudo, temos os dados mais nefastos de todos: o colonialismo matou mais, muito mais - entre 10 e 20 vezes mais, no mínimo - que o Holocausto. Por exemplo: consensualmente aceita-se que só em relação aos povos indígenas das Américas, entre 1492 e as primeiras décadas de 1600 morreram cerca de 56 milhões de indígenas, devido às armas usadas e aos germes levados pelos colonizadores europeus. Esse número é, por si só, 10 vezes maior que o número horrivelmente atroz de mortos do Holocausto. E se compararmos em números relativos as coisas são ainda piores: enquanto a chamada "grande morte" desses indígenas representa a morte de cerca de 10% da população total do planeta, nesse tempo, o Holocausto causou a morte de cerca de 0,2% da população global, no meio do século passado: 50 vezes pior, em termos comparativos.

E o colonialismo foi, infelizmente, muitíssimo mais que a "grande morte" indígena. É consensualmente aceite que, entre os séculos XV e XIX, morreram cerca de 18 milhões de escravos africanos, ou mais. Mais: dezenas de milhões de africanos morreram em África devido ao colonialismo, não só em inúmeras guerras coloniais, mas por outros fatores, incluíndo a existência de campos de concentração.

Na verdade, se João Miguel Tavares realmente quisesse saber de verdade sobre História, saberia que as comparações entre colonialismo europeu e Holocausto são totalmente justificadas: é um facto histórico reconhecido internacionalmente que o genocídio dos hererós e namaquas, que ocorreu no Sudoeste Africano Alemão onde hoje se localiza a Namíbia, entre 1904 e 1907, foi precisamente onde se criaram muitos dos métodos atrozes que os alemães usaram depois durante o Holocausto.

E não foram só os alemães que usaram campos de concentração: durante a "partilha de África" foram usados por vários países europeus, como ocorreu no "Estado Livre do Congo", onde, em apenas 23 anos, entre 1885 e 1908, morreram cerca de 10 milhões de africanos - ou seja, mais que o número horrível de mortos de todo o Holocausto. Repito, num único país africano. Isto tudo quer dizer que é consensualmente aceite, por peritos internacionais, que no total o colonialismo europeu matou mais de 100 milhões de pessoas, ou seja, efetivamente, cerca de 20 vezes mais que o Holocausto em termos absolutos - e, ademais, levou a um número ainda maior de gente a viver vidas oprimidas, em condições de extrema pobreza, e de fome.

Claro que, em Portugal, pessoas como João Miguel Tavares dirão, em resposta a este artigo: mas o colonialismo português não tem nada a ver com o do resto dos países europeus, nós não somos como os alemães ou os belgas - ou, como ele escreveu, o "colonialismo (português ou outro)" não foi simplesmente uma "história de brutalidade e opressão", pois não se pode "roubar ao passado a sua riqueza, a sua complexidade e a sua espessura".

Não se pode reduzir a brutalidade e opressão, e esquecer a "riqueza, complexidade e espessura" do colonialismo? Então o que foi o colonialismo? Tentemos os antónimos: foi liberdade, e brandura, um termo tão usado pelos portugueses para descrever o colonialismo do "povo dos brandos costumes"? Vejamos então o que fez este povo de "brandos costumes", em termos factuais. Por exemplo, na região que é hoje o Brasil, segundo estimativas oficiais, havia pelo menos entre 3 e 5 milhões - e segundo dados mais recentes, até 11 milhões - de indígenas antes do colonialismo: em pouco mais de um século, no princípio de 1600, já eram só uns 900 mil. Ou seja, se usamos a estimativa de 11 milhões da Survival-International, uma respeitada organização internacional que trabalha especificamente sobre estes temas, a presença dos - ou seja, as armas, e os germes levados pelos - portugueses no Brasil levou a um extermínio de cerca de 9,9 milhões de indígenas, ou seja, mais que todo o Holocausto.

E, mesmo que o número eventualmente seja menor, é preciso notar que isto é só no Brasil, uma das muitas colónias de Portugal, e sem contar com os milhões de mortes de escravos africanos que também morreram aí, e de africanos que morreram nas colónias portuguesas em África, e sobretudo, sem ter em conta que, como referi acima, os portugueses foram os grandes catalisadores, originalmente, do colonialismo europeu e da escravatura transatlântica que, sem dúvida nenhuma, mataram pelo menos 20 vezes mais, e provavelmente muito mais, do que o horrível, horripilante, indesculpável Holocausto.

Como salientou Ignacio Ellacuria, há cinco séculos com a 'descoberta' do chamado 'novo mundo' o que realmente se descobriu foi a realidade da Europa, a sua verdadeira cara - "a realidade da cultura ocidental, colonizadora e dominadora": factos são factos, por mais que eles sejam difíceis de aceitar para o nosso país, que terá de ter a ousadia de se olhar ao espelho e 'descobrir' - ou seja, aceitar, de uma vez por todas, em vez de "gritar", olhar para o lado, e negar factos históricos inegáveis - o que realmente foi, e fez, o nosso país durante tantos séculos.

* Rui Diogo é professor na Universidade de Howard, em Washington D.C., EUA

https://expresso.pt/opiniao/2021-02-23-O-colonialismo-matou-muito-mais-que-o-Holocausto

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

OPINIÃO

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.


Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores
Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2021/02/23/opiniao/opiniao/carta-aberta-televisoes-generalistas-nacionais-1951298

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Filipe Chinita - zé casanova sobre 'cantata pranto e louvor'




zé casanova sobre 'cantata pranto e louvor'
edições avante!2009.

leiam de 
uma só
vez.
e depois 
quem ainda o não leu
corra a comprá-lo
e a lê-lo.
em setembro passam 35 anos! 
do seu assassinato
.
«Cantata Pranto e Louvor - em memória de Casquinha e Caravela», do Filipe Chinita e do Manuel Gusmão, é um livro que tardava, e pela publicação do qual desde já agradeço aos autores.
Muitas vezes me perguntei por que é que os acontecimentos que inspiraram este poema, não inspiraram, antes, outros poetas.
Isto porque, a meu ver, o dia 27 de Setembro de 1979 – dia do assassinato de José Geraldo (Caravela) e de António Maria Casquinha – foi, porventura, o dia mais sombrio do pós-25 de Abril. Um dia e um crime 
carregados de significado: 
a lembrar-nos que o passado não tinha sido completamente afastado da 
nossa vida e da nossa história colectiva; 
a lembrar-nos que o latifúndio opressor e explorador, sustentáculo do 
regime fascista, não só não estava definitivamente enterrado como não 
desistia de regressar – e para esse regresso estava disposto a tudo, a matar, inclusive; 
a lembrar-nos, ainda, que a contra-revolução de Abril trazia consigo, e 
tinha como alimento essencial, pedaços desse passado fascista;
a lembrar-nos, por tudo isso, outros dias e outros crimes, dias e crimes 
ocorridos neste mesmo Alentejo, e com os quais o fascismo procurou, em 
vão, esmagar a serena coragem, a lúcida intervenção e a forte determinação de luta do proletariado rural do Alentejo – coragem, lucidez e determinação sustentadas por uma elevada consciência de classe e política. E partidária, também, porque falar da luta do povo alentejano é falar da história do PCP.
Catarina, a sua vida e o seu assassinato, foram cantados por dezenas 
de poetas – mais de trinta, creio eu; outros acontecimentos do Alentejo 
resistente e combativo, foram assinalados em romances e contos de alguns dos maiores nomes da nossa literatura.
Ora, tanto quanto sei, até agora apenas o José Gomes Ferreira e o Manuel Gusmão nos tinham falado deste dia 27 de Setembro de 1979 e deste crime que nos levou o José Geraldo (Caravela) e o António Maria Casquinha.
Por isso digo que este belo poema de Filipe Chinita e de Manuel Gusmão 
nos fazia falta. Por isso saudei efusivamente o seu aparecimento: pela 
sua qualidade poética e porque é um poema que faltava ao cancioneiro da 
Revolução de Abril – desse que foi o momento mais luminoso da história 
do nosso País, o mais avançado, o mais progressista, o mais justo, o mais 
livre – e, portanto, o momento de maior modernidade da nossa história 
colectiva.
.
Uma Abertura, cinco partes e um Epílogo: assim os autores organizaram 
e estruturaram a narrativa poética dos acontecimentos – acontecimentos 
que nos são contados/cantados pelos assassinados – Caravela e Casquinha; pelo Coro – porque de uma tragédia se trata;
e por um Narrador – ora anónimo, ora aludindo ou tomando a voz de 
poetas, escritores, artistas plásticos – o já referido José Gomes Ferreira, 
Manuel da Fonseca, José Carlos Ary dos Santos, João Cabral de Melo 
Neto, Chico Buarque de Holanda, Manuel Gusmão, José Saramago, 
João Hogan. E Paul Vaillant- Couturier, que, muito a propósito e muito 
oportunamente, é chamado a lembrar-nos que o comunismo é o futuro do 
mundo – afirmação que pode parecer insólita neste tempo de capitalismo 
dominante, mas que a história se encarregará de confirmar.
(Eu disse o Coro, mas deveria dizer os coros: são dois, de facto: 
o Coro 1, Voz dos assassinados e dos seus irmãos de luta; 
e o Coro 2, a outra Voz...)
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Na Abertura, Caravela e Casquinha apresentam-se ao Leitor – mortos, 
assassinados, e à nossa «espera, à espera da verdade/à espera da 
justiça». 
E de pé. Pois, dizem-nos – e nós confirmamos, «foi de pé que morremos».
Como de pé viveram: Caravela, militante comunista e enfrentando o 
fascismo com a dignidade dos homens dignos; Casquinha, jovem de 17 
anos, dirigente da Juventude Comunista, e também construtor da Reforma 
Agrária.
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Na Primeira Parte – «Setembro estava no fim» - o Narrador situa o crime 
«nesta minha aldeia/vila do Escoural»; 
sinaliza a hora do crime - «entre as 11 e as 11 e meia»; 
e aponta as bestas assassinas: «vieram os bárbaros outra vez/sempre 
estão aqui/parecem hibernar».
«Bárbaros»?: «piores que bárbaros/escondem a mão assassina/
escondem a boca/que ditou a ordem».
Ali em Montemor, os «bárbaros outra vez»: outra vez a violência, a 
selvajaria, a morte - e não só ali, mas em toda a zona da Reforma Agrária, alvo da brutal ofensiva destruidora, iniciada pelo primeiro Governo PS/Mário Soares e prosseguida por todos os que lhe sucederam, até à destruição, num dos governos de Cavaco Silva, daquela que foi «a 
mais bela conquista da Revolução de Abril». «Os bárbaros outra 
vez», e outra vez o Alentejo a ferro e fogo, a repressão, as prisões, os 
interrogatórios pidescos; os assassinatos.
«Os bárbaros» que, como os seus antepassados do tempo do 
fascismo, «escondem a boca que ditou a ordem»...
Como é sabido, os assassinos e os responsáveis pelos assassinatos de 
Caravela e Casquinha nunca foram conhecidos nem levados a julgamento - tal como acontecia no tempo do fascismo. 
Com uma diferença: desta vez foi aberto o tradicional inquérito que, como 
é já de tradição nestes casos, nos últimos 33 anos, foi cirurgicamente 
arquivado...
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A Segunda Parte deste Poema fala-nos da Solidariedade – palavra-
chave da resistência, palavra-chave do proletariado rural do Alentejo e do 
Ribatejo.
Toda a história da Reforma Agrária – desde os primórdios da luta por ela, 
até à luta pela sua concretização e à luta pela sua defesa face à ofensiva 
criminosa – é um acto de solidariedade, um imenso acto de solidariedade.
Pode dizer-se que a história da luta do povo alentejano é uma sucessão 
infindável de actos de solidariedade: foram-no as lutas por melhores jornas e melhores condições de trabalho; e a épica luta vitoriosa pelas oito horas de trabalho; e a luta consciente contra o fascismo, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
Solidariedade foi a Reforma Agrária construída: a Reforma Agrária 
que, acabando com a exploração do homem pelo homem no seu espaço 
de intervenção, nos mostrou que o futuro é possível e nos mostrou um 
pedacinho desse futuro: lá estavam as terras cultivadas como nunca 
e a produzir como nunca; lá estava a justa repartição da riqueza 
produzida; lá estavam os cuidados, o amor, a ternura, pelas crianças e 
pelos idosos; lá estavam os direitos humanos respeitados e cumpridos 
como nunca antes acontecera e nunca de então para cá voltou a 
acontecer.
Continuando a falar da solidariedade: a presença de Caravela e de 
Casquinha naquele lugar e naquele dia, é um acto de solidariedade - que 
neste Poema nos é explicada pelos próprios. Dizem-nos eles que viajaram 
da UCP Salvador Joaquim do Pomar para a Bento Gonçalves, «desta nossa 
terra/a esta terra também nossa».
Porque, como sublinha, pertinente, o Coro 1, «nós somos iguais - a terra 
toda/trabalhada é de quem a trabalha/a terra é nossa». E insiste o Coro 
1, porque imperioso é insistir: «Por solidariedade vieram/entre herdades 
e nomes/a acudir à sua gente/a clamar justiça»,
porque «roubar gado/espoliar da terra a cooperativa/queriam eles/a 
força bruta e mandada/impondo como lei/os interesses dos agrários».
Belíssimas e certeiras palavras que, com rara beleza, nos dizem tudo o que sobre a matéria há a dizer.
Aqui, o Coro 1 explica ao Coro 2 a origem dos nomes dados às duas 
cooperativas - Salvador Joaquim do Pomar, militante comunista preso de 
1956 a 1961; e Bento Gonçalves, «nascido de meúdos/camponeses do 
Norte», operário do Arsenal, dirigente comunista, «deixaram-no vocês 
morrer no Tarrafal».
Por esta parte do Poema passa, também, essa questão maior que é a da 
posse e do uso da terra – questão à qual os construtores da nossa Reforma Agrária responderam de forma criativa e singular - rejeitando a sua posse individual e reclamando-a para a trabalhar, aumentar a produção agrícola e desenvolver o País - como criativo e singular foi, aliás, todo o processo de construção da Reforma Agrária de Abril.
Mas – sublinha incisivamente o Narrador - o que, naquele dia 27 de 
Setembro de 1979, acontecia na UCP Bento Gonçalves, «era uma história 
repetida/Veio a guarda com a lei/no cano das carabinas»...
«Uma história repetida», de facto: Alfredo Lima, 1950, Alpiarça; 
Catarina: 19 de Maio de 1954, Baleizão; José Adelino dos Santos, 1958, 
Montemor…; Caravela e Casquinha: 27 de Setembro de 1979, Montemor. 
O mesmo cenário: de um lado, o latifúndio sustentáculo do fascismo (com 
a sua GNR) e, agora (sempre com a sua GNR), inimigo de Abril; do outro 
lado, os que lutavam contra o fascismo e, agora, por Abril; de um lado, os 
assassinos; do outro lado, os assassinados.
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A Terceira Parte é a morte de Caravela e Casquinha, «os que vieram por 
solidariedade/clamando por justiça» - os que, por serem solidários e por 
clamarem por justiça, foram assassinados. 
Chamei há pouco àquele dia 27 de Setembro de 1979, o dia mais sombrio 
do pós-25 de Abril – e creio que assim foi. Talvez porque o assassinato 
de Caravela e Casquinha foi uma coisa do tempo passado, do tempo que 
julgávamos ter erradicado definitivamente das nossas vidas e vivências, 
e agora nos aparecia ali, igual ao que dele conhecíamos, carregado de 
escuridão, de ódio e de morte.
E é bem verdade que, como nos diz o Coro 1, com a morte de Caravela 
e Casquinha, «um pouco de nós/morreu com eles» - mas é verdade, 
também, e isso é certamente o mais importante, que como nos diz o mesmo Coro, uns versos adiante, «um pouco deles/ficou vivo em nós».
Daí a importância e a força do compromisso assumido no Poema: 
«Casquinha!Caravela!/ Vozes de luta hão-de semear/os vossos nomes 
pelas ruas/dos povos deste Alentejo».
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Na Parte Quatro – «Ó Aflição e Raiva» - os assassinados contam-nos a 
morte: o que sentiram quando as balas os atingiram, «aquele fogo frio ou/aquela faca de gelo», «o frio que queima/e a faca de fogo que rasga/
pelas costas até ao coração» - e «o negro/tudo ficou negro», «uma 
nuvem negra/dos olhos até um ponto/cá dentro...», «Como se fosse tudo 
num sonho». Depois «fechei-me como o quê?» – pergunta Caravela, e responde Casquinha: «como os bichos-de-conta/que vivos, vivíssimos/se enrolam sobre si mesmos/como se quisessem desaparecer/do mundo dos vivos».
E o Narrador coloca a pergunta crucial: «Porque são sempre os nossos/ 
que assim morrem?» - talvez, porque, como o mesmo Narrador nos 
diz, os «nossos» são os portadores da esperança, dessa esperança que a 
«violência cobarde e estúpida» não pode matar.
De facto, eles podem prender, e prendem, os homens; podem matar – e 
matam – os homens. Mas não podem prender nem matar o ideal – e é essa a nossa força, e é essa a nossa esperança.
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«De Luto Desfilamos» na Quinta Parte do Poema: de luto estamos todos: 
«a aldeia do Escoural», «Montemor», «A Reforma Agrária/nos 
campos do Alentejo e/do Ribatejo» - e «trabalhadores do pais inteiro/
desfilam connosco», «somos muitos, muitos mil/os nossos passos têm 
a cadência/da tristeza e da firmeza/e ouvem-se no silêncio». Por aqui 
desfila «um rio de punhos erguidos/contra a morte», um «rio que 
chegará/um dia/ao mar».
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E, como José Gomes Ferreira nos diz no Epílogo, «Quando os dois 
camponeses desceram às covas/ante os punhos cerrados de todos nós/
chorei!».
Chorámos: os que lá estivemos e muitos que lá não estiveram. 
E continuamos a chorar, hoje, 31 anos passados.
Mas chorámos de punhos cerrados – que é uma forma só nossa de chorar, que é um Pranto mas não é um lamento, antes é – voltamos à palavra... – um acto de solidariedade.
Como nos diz o Narrador – que somos nós - «neste dia ficou marcado/um 
outro dia no futuro/nesse dia desfilaremos/sobre o chão da terra/enfim 
devolvida nossa».
Que assim será, dizem-nos o Caravela e o Casquinha nas suas falas finais:
Caravela confiando-nos o seu «desejo mais fundo/Que da próxima seja 
de vez/a terra a quem a trabalha/a terra será de quem a trabalha»; 
Casquinha, o «menino-homem», intimando-nos a que não o deixemos 
sozinho, a que nos lembremos dos bandidos, a que nos lembremos que 
«o comunismo/é a juventude do mundo».
E nós não esqueceremos.
E este belo Poema do Filipe Chinita e do Manuel Gusmão é um precioso 
contributo para que a nossa memória continue viva.
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zé casanova