sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entrevista a Fabio Levi, sobre Primo Levi


CENTENÁRIO
Fabio Levi, historiador
“Primo Levi disse que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e eu”

Nos cem anos do nascimento do autor de “Se Isto é um Homem”, o Expresso conversou com Fabio Levi, historiador e diretor do Centro de Estudos Primo Levi, de Turim. Este sábado, na edição impressa, leia mais sobre Primo Levi, que escreveu sobre a sua experiência em Auschwitz quando o mundo ficava calado

ENTREVISTA LUCIANA LEIDERFARB
Fabio Levi é professor de História Contemporânea na Universidade de Turim. E é diretor, desde 2009, do Centro Internacional de Estudos Primo Levi, que investiga o legado do escritor. No ano em que se celebra o seu centenário, o autor de “Se Isto é um Homem” mantém uma poderosa atualidade, não só por ter partilhado o seu testemunho sobre Auschwitz, como por tê-lo aprofundado ao longo da vida.

Nascido a 31 de dezembro de 1919, em Turim, Primo Levi foi deportado para aquele campo de concentração alemão em 1944, ali permanecendo durante onze meses, os últimos da II Guerra Mundial. Judeu italiano, judeu do Piemonte, químico de formação e de profissão, trabalharia três décadas na fábrica de tintas Siva, que chegou a dirigir. Numa Europa onde a maioria dos sobreviventes se remetia ao silêncio, a experiência do Lager tornou-o escritor. Levi contou uma e outra vez a sua experiência, e nunca da mesma maneira, ao ponto de, em 1986, no seu derradeiro livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, a ter abordado com o intuito “mais ambicioso” de perguntar se o mundo dos campos de concentração está morto e se não irá regressar. “Além da nossa experiência individual, fomos coletivamente testemunhos de um acontecimento fundamental e inesperado. Ocorreu contra todas as previsões: incrivelmente, na Europa, aconteceu que um povo inteiro civilizado, saído do fervilhante florescimento cultural de Weimar, seguisse a um ator cuja figura hoje causa o riso; e, no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e louvado até à data da sua catástrofe. Aconteceu e, por isso, pode voltar a acontecer: isto é a essência do que temos para dizer”, lê-se no final do volume. Primo Levi suicidou-se em abril de 1987, um ano depois de o publicar.

De visita a Lisboa, para a apresentação no Instituto Italiano de Cultura do documentário “Primo ufficio dell’uomo: I mestieri di Primo Levi” – encomenda do Centro Internacional de Estudos Primo Levi –, Fabio Levi conversou com o Expresso sobre a vida e a obra do escritor.

Que leitura podemos hoje fazer da obra de Primo Levi?
Primo Levi fala às novas gerações, isto por três razões. A primeira é que faz um grande esforço de verdade, de contar o que realmente aconteceu. A segunda força de Levi está na sua sensibilidade moral, abordando questões que tocam diretamente a consciência do interlocutor. A terceira força é a sua habilidade de escritor que, como todos os grandes, fala para as gerações seguintes. Primo Levi é um grande nome da literatura e do pensamento contemporâneo, e tem uma capacidade de expressão que supera todas as distâncias. Estes três aspetos ajudaram-no a transmitir não uma mensagem, mas uma experiência que deve ser aprofundada. Na introdução a “Se Isto é um Homem”, ele diz que, mais do que contar o que se passou, pretendeu raciocinar sobre alguns aspetos do espírito humano. A experiência da deportação serve para a levantar problemas, para colocar perguntas. Para obrigar o interlocutor a pensar.

Nessa introdução refere-se à “infeção latente” presente em certos discursos que estão, de novo, na ordem do dia na Europa.
Sim. Vemo-los na Europa, mas sobretudo na nossa vida. Não é possível fazer uma distinção clara entre os problemas gerais do mundo e os problemas particulares dos indivíduos. Mesmo assim, Levi fez o esforço – e nisto é original – de falar sobre o homem comum. Ele disse, por exemplo, que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e como eu, que sob certas condições cometeram delitos horríveis. Disse que todos somos potencialmente capazes de comportar-nos daquele modo.

Hoje assistimos a uma crescente ignorância sobre o que aconteceu há 70 anos. Como historiador, isso preocupa-o?
Não devemos esquecer que, durante 50 anos, a Europa não quis olhar para a Shoah. Só na década de 80 é que se começou a falar difusamente do Holocausto e do extermínio ocorrido na II Guerra. Temos nas costas um esquecimento muito pesado: os 70 anos são na verdade 30, saltou-se uma geração. Os filhos dos protagonistas da guerra praticamente não estiveram envolvidos numa reflexão sobre aquela tragédia. Hoje volta a haver uma menor atenção em relação ao tema e é neste sentido que o ponto de vista de Primo Levi se torna mais relevante.

Como define a escrita de Primo Levi? Ele próprio se considerou um químico que escrevia nas horas vagas – e a sua obra tem essa marca de clareza e de objetividade.
Reconduzir tudo à sua formação em química é limitador. Mas a grande precisão e a curiosidade pelo que o rodeava deveram-se obviamente a essa bagagem de químico. O primeiro relato sobre Auschwitz foi um texto a que podemos chamar de científico, escrito no campo de trânsito de Katowice, a pedido dos russos – e cujo título era “Relatório sobre as condições higiênico-sanitárias do campo de concentração de Monowitz”. Aqui, ele fez uma descrição analítica da realidade do campo, das suas condições concretas. “Se Isto é um Homem” é um livro muito diferente, que tem dentro de si muitos registos. Reúne a sua experiência pessoal, o pensamento e as sensações. Em certos momentos, inclui retratos aproximados, como se Levi fizesse um zoom sobre alguém ou sobre alguma situação.

E o humor, a ironia?
A ironia é uma constante na sua prosa. Se se pensar que o livro foi escrito quando ele tinha 27 anos, e que a experiência de Auschwitz remonta aos seus 24, 25 anos, vemos até que ponto isto foi extraordinário. Tinha de ser um escritor inato. Porém, a figura de testemunho apagou todo o resto. Determinou que o seu lado de pensador capaz de refletir sobre as questões da contemporaneidade tivesse um reconhecimento mais lento. É interessante verificar que, em quase todos os países onde está traduzido, a primeira tradução tenha sido a de “Se Isto é um Homem”, seguido de “A Trégua” e, por fim, de “Os que Sucumbem e os que se Salvam” – a trilogia de Auschwitz, de que o último volume foi escrito em 1986, 40 anos depois do primeiro. Curiosamente, nos Estados Unidos, a ordem foi outra. Ali, Levi foi “O Sistema Periódico” que o tornou famoso, e não “Se isto é um Homem”, que já estava traduzido desde 1959. Mas é uma exceção.

Quando a guerra acaba, Primo Levi passa por outra guerra, a do sobrevivente. Essa condição acompanhou-o para sempre?
Ao voltar, ele sentia uma grande necessidade de falar. Contava tudo, parecia um louco. Então alguém lhe perguntou por que não escrevia. E ele escreveu “Se isto é um homem”. Sentiu-se imediatamente aliviado. Porém, à medida que os anos passavam, a sua relação com essa experiência sofreu transformações. Levi continuou a falar dela, em particular, nas conversas que começou a dar nas escolas, no início dos anos 60, quando nenhum dos seus companheiros de deportação falava do assunto. Estes diálogos com os jovens ajudaram-no a contar melhor o que se tinha passado. Ao ponto de, em 1976, juntar a “Se isto é um homem” um apêndice com as respostas às perguntas mais frequentes que lhe eram feitas nas escolas. Nesse apêndice, ele diz textualmente: “Correndo o risco de parecer cínico, devo admitir que não sofro mais como sofria”.

O sofrimento transformou-se em reflexão?
Sim, de certo modo. Se Auschwitz é uma referência permanente, ele vai modificando o seu olhar. O último livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, é de novo sobre Auschwitz, embora de um ponto de vista mais amadurecido: relata o resultado das suas reflexões 40 anos depois da deportação. Ao mesmo tempo, Levi ocupou-se de muitas outras coisas. Abordou o problema do trabalho, interessou-se pelo mundo animal, pela natureza, pela linguagem. Era um curioso sério.

Em 1987, o ano em que morreu, Levi chegou a comentar a realidade do revisionismo histórico na Alemanha. Que efeitos teve nele esta realidade?
Ele sempre se perguntou como é que foi possível os alemães fazerem que fizeram. Em 1947, quando escreveu “Se Isto é um Homem”, não sabia exatamente a quem estava a dirigir-se. Em 1958, a Einaudi fez uma segunda edição e, nessa altura, Levi disse que tinha finalmente percebido para quem é que o escrevera. E escrevera-o para os alemães, para que estes soubessem o que havia acontecido. Este reconhecimento coincide com a proposta de tradução do livro para a língua alemã, feita por um seu contemporâneo que tinha estado na resistência italiana contra os nazis. E com quem discute a tradução animadamente, frase a frase, ao longo de um ano inteiro. Em 1961, o livro é publicado na Alemanha e Levi recebe numerosas cartas de alemães a interpelá-lo. Ele fala sobre esta correspondência no último capítulo de “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, em 1986, onde diz que se deparou com um estranho paradoxo: foram os alemães inocentes, e não os culpados, aqueles que lhe escreveram a desculpar-se pelo que aconteceu na Alemanha. Ele tentou sempre compreender os alemães, mas nunca o conseguiu.

Como é que Primo Levi encarava o judaísmo?
Ele era um judeu italiano. E estes judeus nos anos 30 estavam muito bem integrados na sociedade — muitos deles estavam a caminho da assimilação. Ele mesmo chegou a afirmar que, quando era novo, ser judeu era “uma anomalia alegre”. Como os restantes judeus italianos, foi obrigado a sentir-se judeu a partir do início da perseguição, em 1938. Mais tarde, a sua relação com o judaísmo modificou-se. Levi manteve-se ateu, mas começou a estudar e a refletir sobre a sua cultura de origem, a escrever sobre os seus antepassados. O primeiro conto de “O Sistema Periódico” é uma descrição irónica e precisa do mundo do qual provinha, o mundo judaico piemontês, e dá uma atenção extrema à língua, ao dialeto daquele grupo, que era pequeno ainda que com raízes fortes na sociedade piemontesa dos anos 50 para a frente.

Diz que a perseguição marca a relação de Primo Levi com o judaísmo. E no Lager encontra também um outro mundo judaico, o da Europa central e oriental.
Com o tempo, o Lager acaba por ser um estímulo para Levi estudar o mundo judaico fora da Itália, que ele conhecia muito mal. Em Auschwitz, tinha sido confrontado com um tipo de judaísmo completamente diferente – o asquenaze, os judeus polacos, alemães, russos. Os judeus da Itália desconheciam aquele mundo, da mesma forma que este também não sabia sequer que existiam judeus italianos! Em “La Trégua”, o livro onde Levi narra a longa viagem de regresso à Itália no pós-guerra, há uma passagem divertida, em que ele e os amigos italianos encontram umas raparigas polacas. Como eles não dominam o iídiche, elas não acreditam que também são judeus.

Há dias, disse numa entrevista que falar sobre o Holocausto é cada vez mais difícil. Porquê?
Porque o tempo passa e as testemunhas diretas já cá não estão. Porque o mundo muda, a cultura se transforma e as pessoas estão muito mais atentas ao presente do que ao passado. Durante muito tempo, no século XIX e mesmo no século XX, a ideia de progresso ligou o passado ao futuro. Hoje, os jovens evitam olhar para o futuro. Têm a sensação de que provavelmente o futuro não será melhor do que o presente. E quem olha pouco para o futuro, é menos atento ao passado.


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

FRANCISCO LOUÇÃ - Autobiografia, de José por José


* FRANCISCO LOUÇà 

José Luís Peixoto publicou a sua “Autobiografia”, um romance sobre a relação verdadeira e a ficcionada entre o autor e outro José, Saramago. É uma narrativa da admiração, do afeto e até da descoberta, em que não sabemos, nem na verdade interessa saber o que é factual, ou inspirado em factos reais, ou a imaginação do autor sobre a sua admiração por um escritor consagrado e já no auge da sua carreira. Saramago poderia ser o que Peixoto quereria da vida. Mas essa não é a história desta autobiografia. O que ali se lê é outra coisa: é o esforço e o ofício do escritor, no seu quotidiano pesado, algumas vezes exasperado, outras desesperado, raramente tranquilo.

É ao voltar a uma escrita mais próxima da sua realidade vivida e mais longe de alguma imaginação ficcional que o escritor se torna mais ousado na exploração da linguagem e dos seus personagens. Gosto mais deste Peixoto. Contando de si próprio, é mais livre

Tanta curiosidade, José olha intensamente para o outro José, consegue um pretexto para falar com ele pela primeira vez, ainda não é íntimo, nem próximo, nem sequer é lido, também ainda publicou tão pouco, mas em todo o caso escreveu um dos seus melhores livros, “Morreste-me”, e porque é que o escritor famoso havia de ter lido uma pequena edição de autor, chega a tempo ao encontro, quer uma entrevista, não sabe se deve gravar ou tomar notas, entorna a bebida na mesa, está nervoso, quer saber mas não lhe saem as perguntas. E depois lê. Talvez o escritor pudesse conhecer o outro escritor só pela escrita, isso podia bastar, afinal é assim para todos nós. Mas José quer conhecer José, quer ver como se move, ouve a voz de Pilar, entrevê os seus amigos, as suas coisas, os seus lugares. Há mais mundo para além da mão que escreve. O roteiro dessa ronda chama-se “autobiografia”, como se o eu fosse aqui uma entidade difusa, quem é quem? E há um amor cabo-verdiano, e há uma criança, e um bairro de imigrantes, e a encomenda de uma biografia.

Em tudo isso há muito do que quem lê José Luis Peixoto já conhece, mas há também uma chispa diferente. É interessante, é ao voltar a uma escrita mais próxima da sua realidade vivida e mais longe de alguma imaginação ficcional que o escritor se torna mais ousado na exploração da linguagem e dos seus personagens. Gosto mais deste Peixoto. Contando de si próprio, é mais livre. Talvez a literatura seja mesmo isto.


terça-feira, 16 de julho de 2019

Adrienne Savazoni: Mito e luta na poesia do angolano N’dualu Polo

Um poeta é um grande poeta quando consegue ultrapassar a sua realidade local, para falar do universal e do que pertence a todos. Nesse sentido, não é difícil se enxergar nas poesias de Esperança no Musseque – Poemas sobre Angola, primeiro livro de N’dualu Polo, pseudônimo de Fontes Nuno Eduardo Paulo, poeta angolano, biólogo, radicado no Brasil.


Por Adrienne Kátia Savazoni Morelato*

N’dualu Polo se propõe, em seu exílio, contar a história e falar dos problemas do seu país como se lá estivesse, ao mesmo tempo em que está aqui no Brasil. Pois esses problemas não serão diferentes dos daqui em nosso país. Esperança no Musseque pretende ser a voz dos excluídos, representando toda e qualquer periferia no mundo. A voz dos marginalizados que habitam os musseques e que se recheiam ainda de esperança.

“Os representantes do povo são deputados do luxo” é um verso do poema Assembleia Insensível de Angola, que poderia servir totalmente para o nosso país. Ao falar da Angola, Fontes Paulo/N’dualu Polo não deixa de falar do Brasil. Há uma conexão estreita entre os dois países que é explorada no livro, principalmente quando o autor quer redescobrir suas raízes e mostrar as origens da cultura afro-brasileira, sua ancestralidade: “Voltar à terra, à cultura e às nossas tradições” porque “a origem é a origem da humanidade”, o que faz com que o poeta conclua que foi o seu povo que colonizou o mundo.

Angola é o sétimo maior país em território da África, seu segundo maior produtor de petróleo e o quarto maior produtor de diamantes do mundo. Apesar de toda essa riqueza, é um país com uma grande desigualdade social. A maioria de sua população vive nos musseques, a poucos minutos do centro comercial, lugar sem infraestrutura e sem saneamento básico. 

Mas, mesmo com tantas dificuldades, N’dualu Polo descreve que o seu povo, os do musseque, tem um jeito próprio de olhar a vida que se traduz em alegria e esperança: “Minha história é linda”, diz o título do poema, que continua: “povo que preserva as raízes da nossa identidade / Somos o povo do continente da diversidade / Cultural, de etnias entrelaçadas numa unidade. Ubuntu”. E é a palavra Ubuntu, a qual não tem tradução em nossa língua, a que expressará melhor a mensagem desse livro.

Esperança no Musseque é, antes de tudo, um livro de poesias que critica essencialmente os valores individualistas e materialistas do mundo ocidental, na qual o indivíduo se sobrepõe ao coletivo: “Oh! Mundo tão moderno... / Que fica difícil achar alguém fraterno...”. Ubuntu é exatamente o contrário – é a força da coletividade e a ligação que o indivíduo tem com o seu todo, com o seu lugar e com as pessoas. Todos são o que são porque estão intimamente ligados – você só tem um eu quando se junta ao outro.

Por isso, N’dualu Polo procura em seus poemas valorizar a cultura ancestral africana, aquela que nos deu o cafuné, o moleque, o borocoxô, o quitute, o samba e as miçangas, nosso jeito corporal de ser, de aproximar, de dançar e de tocar. Chegou a hora, como ele mesmo diz, de reverter o jogo, descolonizar também na literatura, algo que pode fazer surtar a Casa-Grande: “Agora é o afrocentrismo”. 

Pulsa o corpo negro em seus poemas, há gingado, há o batuque, o ritmo marcado na pele, traços do fenótipo mais lindo, voz que não se cala e o cabelo carapinha que se torna chique, valorizando o que se deve e o que merece ser valorizado: “A nossa história foi interrompida / nosso corpo e alma despida”. Enquanto isso, a dor e o sofrimento são vencidos tanto pelo ritmo da dança e da música quanto pela poesia. Esperança no Musseque é esse grito de luta, resistência – canto de um poeta com o seu povo e também com o nosso povo!

Leia abaixo três poemas de Esperança no Musseque: 
 

ESPERANÇA E CONFIANÇA
O mar do oceano que nos separou
É apenas um detalhe em nossas trajetórias
O passado glorioso de nossas histórias
Sempre nos ligam no presente…

O tempo nos empurra para frente
A nossa história foi interrompida
Nosso corpo e alma despida
Das mazelas e cicatrizes dos crimes
Hediondos contra nossa humanidade

Resistimos em nome de nossa unidade
Vencemos toda vossa crueldade
E as lutas dos ancestrais orgulham nossa identidade
Por essa razão veneramos a ancestralidade…
Espalhando paz, amor e muita esperança
Essa é a nossa maior herança…


A VIDA NO QUIMBO
Uma vida simples, vivida no campo
De origem humilde da zona rural
Um estilo de vida sem excesso
Moradia de pau-a-pique

Que não precisa de bens de luxo
Um fogão a lenha
Para fazer os quitutes da terra

Um quimbo que produz
Seu próprio sustento

Comida orgânica e saudável
O Quimbo é um luxo à parte
Tudo aqui é feito com carinho e amor

O Quimbo é resistência da nossa cultura
De um modo de vida ancestral
Onde o ancião é sempre uma referência
Dentro da comunidade
As nossas tradições resistem…!!!


CARAPINHA CHIQUE
A elegância e essência da carapinha chique
Faz parte de sua origem
Ela define sua essência
Seu cabelo, carapinha chique é resistência

Ela ressignifica a sua cultura
Resiste à violência
É um traço cultural, é nossa vivência
Tranças corrediças com vários adereços
Suas missangas ao longo dos carrapitos

Tranças corridinhas exaltam a beleza natural
Carrapitos que definem o seu belo
Carapinha é obra rara
Que tem a ver com sua identidade
Herança de nossa ancestralidade
Tem um acabamento incomparável

Chama atenção e é inigualável

Carapinha chique
Cabelos naturais, símbolo de nossa beleza
É a mãe África, ela significa:
Resistência
Existência,
É o belo de nossa negritude.

Adrienne Kátia Savazoni Morelato, mestre e doutora em Estudos Literários pela Unesp, é professora da rede estadual de São Paulo

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Claudio Daniel: A poesia angolana hoje


* Cláudio Daniel

Dia: 04/07/2019 às 01:38:10

A poesia angolana contemporânea aborda temas como o desencanto do mundo pós-utópico, as cicatrizes da guerra civil, as contradições sociais, a emancipação da mulher, o erotismo, a beleza das paisagens naturais, a herança dos mitos e práticas tribais na sociedade moderna e, claro, a própria linguagem poética. 

Por Claudio Daniel*

É uma poesia plural, diversificada, que utiliza recursos como o humor, os provérbios locais, a mescla do português com palavras de dialetos tribais e o diálogo intertextual com a poesia ocidental, destacando-se no quadro das literaturas africanas em língua portuguesa.

Apresentamos aqui um pequeno quadro desse rico florilégio, com poemas de cinco autores significativos das letras angolanas: Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, Lopito Feijoó, Abreu Paxe, José Luís Mendonça e Jorge Arrimar.


PAULA TAVARES

Rapariga

Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...

Sou do clã do boi –

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.

A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.

(Do livro Ritos de Passagem, 1985)


O lago da lua

No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua
No lago branco da lua
misturei meu sangue
e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dias claros
Neste lago deposito
minha reserva de sonhos para tomar

* * *

Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

Ana Paula Ribeiro Tavares (Lubango, província da Huíla, Angola, 30 de Outubro de 1952) é uma historiadora e poeta angolana. Cursou História na Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o mestrado em Literaturas Africanas. Atualmente, vive em Portugal, lecionando na Universidade Católica de Lisboa. Tanto a prosa como a poesia de Ana Paula Tavares estão presentes em várias antologias publicadas em Portugal, no Brasil, em França, na Alemanha, em Espanha e na Suécia. No Brasil, foi publicado um volume com a sua poesia completa, Amargos como os Frutos.


MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS

Nasceu em mim uma fonte
nada sabia dessa água
até encontrar as margens
desta escrita
que quis fosse lisa
como pedra mármore

***

Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade

na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
unguentos e odores tropicais
então, um homem tranquilo torna fácil a nudez.

***

O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.

***

E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz – esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.

Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).


JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Esse país chamado corpo de mulher

Fundo um país com os fonemas imprevistos
no roteiro do teu corpo de mulher.
Um tigre espreita
a inocente plumagem de um pássaro
poisado na colina do teu púbis.
Os teus seios forjam nos meus lábios
o paladar íngreme da pedra subterrânea.
Então nasço asas nos ombros como as tangerinas mecânicas
que Leonardo da Vinci anteviu nos seus esquissos.
Diamante de carne que as redes do tempo cristalizaram
na geometria incisiva dos meus versos.
Coral de azeite finíssimo.
Demorada galáxia de metal ideográfico.
Marcaste o meu destino com o traço de sal nocturno e luminoso
do teu andar de rumba.
País selvagem
que o trote mitológico da savana anuncia
sobre o verão alucinante do asfalto
me derrotas com as armas da tua cópula fulminante
e me sepultas como um faraó calcinado
no sarcófago apertado do teu sexo
onde navega um concerto de peixes doces como o mar
branquiando a palavra nascitura entre as vogais do meu esperma.


Pode ser que o mundo acabe na semana que vem

Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
O que é que eu posso fazer senão conhecer até à exaustão
todas as coisas que fazem de ti um verão denso e humífero?
Cantar sem vacilar por exemplo esse teu ar breve
de pequena vissapa de luz.
A mim pouco importa o destino do universo
saber se os planetas estão na mão de algum deus subatómico
ou se um meteorito beija a Terra por amor ou por acaso.
Pode ser até que o mundo se acabe na semana que vem.
A mim basta conhecer
uma a uma essas colónias de sede e de êxtase
que o teu sangue construiu com apoteose e presciência
em cada ossatura do teu porte
uma a uma essas luas térreas de sedução
que a savana do teu riso faz refém em cada sequência do teu
andamento galáctico.
A mim basta saber que a simples historicidade do teu cio
sempre desenha um pendor de pássaro
na frágil película da minha humanidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
Macacos me mordam se mesmo assim eu não te levo (hoje ainda)
nos meus ombros a chupar gelado de múcua
para espanto crucial da cidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
No grau zero da escrita ainda a vogal preta dos teus olhos
erguerá a sua esfinge
e o enigma dos nossos ventres siameses ainda
levantará as areias inverosímeis do deserto.

José Luís Mendonça nasceu em 1955, no Golungo Alto, província do Kwanza Norte, Angola. Poeta e jornalista, é funcionário da Unicef em Angola, onde exerce o cargo de assistente de informação. Colabora em diversas publicações de seu país e no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Portugal. Ingressou na União dos Escritores Angolanos em 1984. Publicou os livros de poesia Chuva Novembrina (1981), Gíria de Cacimbo (1987), Respirar as Mãos na Pedra (1991), Quero Acordar a Alva (1996), Se a Água Falasse (1997), Logaríntimos da Alma - Poemas de Amar (1998) e Ngoma do Negro Metal (2000).

JORGE ARRIMAR
 
1. de que montanha?

não sei de que montanha sou
se daquela que transporto em mim, toda em mim,
um meteoro vindo do espaço há mil anos
se daquela que me habita há um segundo,
o segundo tempo depois do primordial (es)pasmo


2. álbum de recordações

uma velha buganvília
a embeber tudo numa névoa roxa
e minha bisavó sentada no terreiro
a refrescar-se nas tardes mornas
com leques de bambu e palma

3. infância
o deserto que atravessamos
não é nosso. somos estrangeiros
nas suas dunas. só os cactos
vieram connosco, agarrados
aos pés da infância

4. Esconderijo
entre ábacos de ébano
e dados de marfim
um velho chinês procura-me
com dedos de bambu
o carácter que me possui
é um esconderijo de silêncios

5. Imbondeiro
há frutos
nos ramos do imbondeiro
a penugem que libertam
cobre os pássaros que voam para o céu
da boca

6. ressureição da dança
é da terra que chega a seiva,
o sangue das plantas que, morrendo,
mais se enraízam.
da próxima vez que te vir
de pés nus a lavrar o chão
acertarei o passo contigo
na dança
dos homens que estão antes
dos mais antigos que a memória guarda

Jorge [Manuel de Abreu] Arrimar nasceu em S. Pedro da Chibia, Angola. Publicou dez títulos de poesia e cinco de ficção. Encontra-se representado em diversas antologias, nomeadamente Antologia de Poetas de Macau (Macau), Divina Música (Portugal), Ovi-sungu – 13 Poetas de Angola (Brasil), Poetas da Ásia Portuguesa (EUA); participa em várias revistas literárias, das quais se destacam Eufeme (Portugal), Seixo Review (Canadá), Literatas (Moçambique), Textos & Pretextos (Portugal), Zunái (Brasil).


LOPITO FEIJOÓ

Sabedoria VIII

Vende-se uma pátria incompleta
chamam-lhe
país que estamos com ele.

Carcaça com centro. Sem norte nem sorte
pois a bota nunca bate com a perdigota
no atribulado e atropelado sul do sul.

CONSELHO: Leve somente a geofísica
a parte material está destroçada
a espiritual em fios de recuperação!


Sabedoria XVI

Os sábios nem tudo sabem
os deuses têm deuses também
os corruptos facilmente corroem
e as víboras vigiam novinhas vizinhas.

Quem rouba não rouba tudo
quem mata não mata o todo
quem perde ganha também
e quem ganha nem tudo apanha.

Os sábios os deuses e os corruptos
urgentes, mais as víboras dementes
por demais impacientes…
eternamente neste mundo de inocentes!


Sabedoria XXX

Homem que é homem não amiga jacaré
Mulher de verdade não saltita na maré.
Toda vaidade implica os cabelos no lugar
limpa, rendilhada e arrumada, varanda
Temperada e asseada cozinha humilde.

Homem velho é pau de embondo. Então:
encosta-te ao velho homem enquanto SER
saberás de muitos, passados e dolorosos anos.

Qualquer sóbria mulher tem
só o tamanho dos profundos universos
não amiga jacaré nem saltita na maré
do alto da sua pegajosa vaidade, guiar-te-á
santificando o nobre, caminho das estrelas!

Lopito Feijoó, nome literário de João André da Silva Feijó, nasceu em Malanje (Angola) em 1963. Estudou Direito em Luanda, na Universidade Agostinho Neto (UAN). É deputado (reformado) da Assembleia Nacional de Angola. Publicou diversos livros de poesia, entre eles Me Ditando (1987), Rosa Cor-de-Rosa (1987), Cartas de Amor (1990), Na Idade de Cristo. Poesia Declamada em CD (1997), O Brilho do Bronze – Haikais (2005) e Imprescindível Doutrina Contra (2017). Tem livros traduzidos para o francês, inglês e italiano e colaborou publicações de Angola, Portugal, França, Espanha, Brasil, Estados Unidos e outros países.


ABREU PAXE


Nkalu a maza: Tigela de sentidos
A mbuta bavova vô

descalçadas e fraternos no aço há braços e botas também o carvão preto

aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva

se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de

montanhas

os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias

desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida

e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra

ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar

da geografia do meu desenhado espaço jardins todo o gesso requerido

Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens

ampliam-se

feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e

as aurículas

circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,

bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.


Kuna ketwalwaka ko

eu e a estela mais escuros estes ventos claros no nilo clara a cerveja

loira não mexia na minha panela garantia que se contém como deus pagão

o texto de música muito delicada a página a pauta violando ordens tácitas

do dia da noite escava pressentida carne a terra árvores de mim

eemente clara convém e contém o escuro escorre e não nos impede de sonhar

feito sol a noite do dia cinzento morcego inflama nos ossos das dentadas

transfigura o metal reside kuna ketwalwaka kó a chegada além uma nova

expectativa

escuta tudo sobre onde ainda nós não chegamos

como quem vem dum cruel lugar incontinente unifico todos os gritos de lá


Zulu dya bwa

mezaya e palantada falava sem sol com o sol da luz

esticando um gato fio de seduções os sonhos todos sem arrumação

essa esquina se não é atum é sovaco de manga outra vez

esse atum que não é esquina ou toque de cabritos obrigação diária

uma página uma janela uma paisagem desestruturados todas

enquanto boca os vidros desvendados pontual um só dedo

espelhos os corpos intervalos não coagulados de estrume, nem de esterco

o céu em queda se lhe contassem fechaduras

mezaya falava palantada que era a lâmpada a passagem de luz

fontes de obtenção de conhecimentos visuais esses Límpidos lampejos

teu sono os braços de luz teu leito ainda descortinado.

Abreu Castelo Vieira dos Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe (Angola). Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. É técnico de comércio externo pela escola de comércio. Publicou A Chave no Repouso da Porta (2003), que venceu o Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR) e Comunità Italiana (RJ), e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento (Câmara Municipal de Fundão).




sábado, 29 de junho de 2019

José Pacheco Pereira - Os espectadores activos contra os espetadores ativos




OPINIÃO
Os políticos preocupam-se muito com as beatas no chão, mas nada pela riqueza ortográfica do português, na sua memória nas palavras antigas que são o solo que pisamos.

29 de Junho de 2019, 6:35
o     
À memória do Vasco Graça Moura.
Se pensam que este artigo é duro, imaginem o que ele escreveria.

Prometi a mim próprio escrever um ou dois artigos por ano contra o chamado acordo ortográfico. E fiz essa promessa para não pecar do mesmo mal da inércia, que é a principal força que mantém este acordo vivo. Na verdade, são duas forças conjugadas, uma, a inércia, e a outra o desprezo pela língua portuguesa. São duas forças muito poderosas e, conjugadas entre si, ainda mais poderosas são. Mas são forças negativas, que misturam preguiça, indiferença, incultura, desprezo pela memória e irresponsabilização pelo desastre e fracasso diplomático que representou o acordo.

O resultado é que todos os anos o português escrito em Portugal se afasta do do Brasil, de Angola, Cabo Verde, onde o acordo ou não existe ou não é aplicado. Ficamos com um português de ortografia pobre, menos resistente a estrangeirismos e menos expressivo, em nome de um objectivo falhado: o de fazer a engenharia da língua de forma artificial. E não me venham com o “pharmácia” e farmácia, porque o contexto deste acordo inútil é muito diferente dos anteriores, porque foi feito num momento em que tudo aconselharia prudência em mexer numa língua cujas ameaças principais não vêm da falta de unificação ortográfica, mas da correlação entre a perda de dinamismo social e a riqueza da língua, ortografia, léxico, gramática e oralidade. E aqui Portugal fica sempre a perder com o Brasil.

E não me venham também com o facto de ser apenas um acordo na ortografia, que não afecta a oralidade, nem a riqueza lexical. Afecta e muito porque lemos com os olhos, e para lá dos olhos é a imagem das palavras que fica, e uma coisa é ser “espetador” e outra ser espectador, apesar da inútil dupla grafia. Por detrás do espetador, como diria o Napoleão diante das pirâmides, mais de dois mil anos de civilização contemplam os infelizes do acordo, sem pai nem mãe latina e grega. Mas quem é que quer saber disso?

Este é um dos casos em que fico populista e atiro em cima “deles”, os políticos. “Eles” preocupam-se muito com as beatas no chão, mas nada pela riqueza ortográfica do português, na sua memória nas palavras antigas que são o solo que pisamos. E é por isso que o acordo serve a ignorância, dos políticos do PS e do PSD e do CDS, que deixaram à suposta geração designada de “a mais preparada de sempre” um dos mitos com que alimentamos a nossa mediocridade colectiva. Sim, uma geração que faz cursos universitários sem ler um livro, e que fala com a expressividade dos SMS e do Twitter numa linguagem gutural e pobre, que o acordo ajuda a consolidar.

Big Brother de Orwell eliminava do vocabulário todos os anos algumas palavras. Para ele a linguagem patológica dos escassos caracteres do Twitter, onde não passa um argumento racional, mas passa com facilidade um insulto, seria um ideal a conseguir. Falar com vocabulário variado e rico, algo que só se tem lendo, dá poder. O Big Brother queria retirar poder e não tenho dúvidas que gostaria do acordo ortográfico, para eliminar a memória das palavras vindas dos dias de cor e passar ao cinzento da farda.

Na verdade, é um problema maior do que a ortografia, é o problema da cultura e da democracia, onde todos os dias os parâmetros de mínima exigência são baixados, pelos pais, pelos professores, pelas instituições e, como o peixe apodrece pela cabeça, pela nonchalance dos nossos políticos pelas coisas importantes. E se há comparação que me honra é com o “velho do Restelo”. Na verdade, o velho do Restelo é uma das personagens mais interessantes e criativas dos Lusíadas. E tinha razão.

E deixem-me lá as excepções. A regra é que os mais velhos traíram a memória da língua, e os mais novos vivem bem no mundo do Big Brother. O tecido cultural do país, agredido pelo acordo, não é feito de excepções mas sim da regra, e a contínua enunciação das excepções só serve para esconder a regra. Pode-se ser culto sem saber quem era Ulisses, ou Electra, ou Lear, ou Otelo, ou Bloom? Não, não pode. Como não se pode ser culto sem perceber a inércia, ou o princípio de Arquimedes. E, no caso português, sem ter lido umas frases de Vieira, ou saber quem eram Simão Botelho, Acácio, o sr. Joãozinho das Perdizes, ou Ricardo Reis, ele mesmo. E não me venham dizer que sabem outras coisas. Sabem, mas não chega, são menos, são diferentes e não tem o mesmo papel de nos fazer melhores, mais donos de nós próprios e mais livres. Sim, livres, porque é de liberdade que se está a falar.

Colunista



quarta-feira, 5 de junho de 2019

Frederico Garcia Lorca – O Poeta Pede a Seu Amor que lhe Escreva

* Frederico Garcia Lorca

Meu entranhado amor, morte que é vida,
tua palavra escrita em vão espero
e penso, com a flor que se emurchece
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem a sombra conhece nem a evita.
Coração interior não necessita
do mel gelado que a lua derrama.

Porém eu te suportei. Rasguei-me as veias,
sobre a tua cintura, tigre e pomba,
em duelo de mordidas e açucenas.

Enche minha loucura de palavras
ou deixa-me viver na minha calma
e para sempre escura noite d'alma.

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Poemas a Estalinegrado

Novo Canto de Amor a Stalingrado  (Pablo Neruda)

Escrevi sobre a água e sobre o tempo,
descrevi o luto e seu metal acobreado,
escrevi sobre o céu e a maçã,
agora escrevo sobre Stalingrado.

As noivas já guardam no seu lenço
raios de meu amor enamorado,
meu coração agora está no solo,
na fumaça e na luz de Stalingrado.

Já toquei com as mãos a camisa
do crepúsculo azul e derrotado:
agora toco a própria luz da vida
nascendo com o sol de Stalingrado.

Sinto que o velho-jovem transitório
de pluma, como os cisnes adornado,
despe a roupagem de seu mal notório
por meu grito de amor a Stalingrado.

Ponho minh`alma onde quero.
E não me nutro de papel cansado
temperado de tinta e de tinteiro.
Nasci para cantar a Stalingrado.

Minha voz esteve com teus inúmeros mortos
contra teus próprios muros esmagados,
minha voz soou como o sino e o vento
vendo-te morrer, Stalingrado.

Agora americanos combatentes
brancos e escuros como a romã,
matam no deserto a serpente.
Já não estás a sós, Stalingrado.

França volta às velhas barricadas
com pavilhão de fúria hasteado
sobre as lágrimas recém derramadas.
Já não estás a sós, Stalingrado.

E os grandes leões da Inglaterra
voando sobre o mar de furacões
cravam as garras na parda terra.
Já não estás a sós, Stalingrado.

Hoje abaixo de suas montanhas de escarmento
não estão apenas os teus enterrados:
tremendo está a carne de teus mortos
que tocaram tua frente, Stalingrado.

Teu aço azul de orgulho construído,
seu cabelo de planetas coroados,
teu baluarte de pães divididos,
tua fronteira sombria, Stalingrado.

Tua Pátria de louros e martírios,
o sangue no teu esplendor nevado,
o olhar de Stalin sobre a neve
tingida com teu sangue, Stalingrado.

As condecorações que teus mortos
colocaram sobre o peito transpassado
da terra, o estremecimento
da morte e da vida, Stalingrado.

O sal profundo que de novo traz
ao coração do homem estremecido
com a rama de vermelhos capitães
saídos de teu sangue, Stalingrado.

A esperança que se rompe em seus jardins
como a flor da árvore esperada,
a página gravada de fuzis,
as letras de sua luz, Stalingrado.

A torre que concebes nas alturas,
os altares de pedra ensanguentados,
os defensores de tua idade madura,
os filhos de tua pele, Stalingrado.

As águias ardentes de tuas pedras,
os metais por tua alma amamentados,
os adeus de lágrimas imensas
e as ondas de amor, Stalingrado.

Os ossos dos assassinos feridos,
os invasores de pálpebras fechadas
e os conquistadores fugitivos
atrás de sua centelha, Stalingrado.
Os que humilharam a curva do Arco
e as águas do Sena transpuseram
com o consentimento do escravo,
se detiveram em Stalingrado.

Os que a bela Praga sobre lágrimas,
sobre o emudecido e o traído,
passaram pisoteando suas feridas,
morreram em Stalingrado.

Os que na gruta grega esculpiram
a estalactite de cristal quebrado
em seu clássico azul escasso,
agora onde estão, Stalingrado?

Os que a Espanha incediaram e dividiram
deixando o coração encarcerado
dessa mãe de ensinos e guerreiros,
se puseram a seus pés, Stalingrado.

Os que na Holanda, água e tulipas
salpicaram no lodo ensanguentado
e derramaram o açoite e a espada,
agora dormem em Stalingrado.

Os que na branca noite da Noruega
Um uivo de chacal soltaram
incendiando esta gelada primavera,
emudeceram em Stalingrado.

Horror a ti pelo que o ar traz,
o que se há de cantar e o cantado,
horror por tuas mães e teus filhos
e teus netos, Stalingrado.
Horror ao combatente da névoa,
horror ao comissário e ao soldado,
horror ao céu por traz da tua lua,
horror ao sol de Stalingrado.

Guarda-me um pedaço de violenta espuma,
guarda-me um rifle, guarda-me um arado,
e que o coloquem em minha sepultura
com uma espiga vermelha de teu estado,
para que saibam, se há alguma dúvida,
que morri amando-te e que me tens amado,
e se não estive combatendo em tua cintura
deixo em tua honra esta granada escura,
este canto de amor a Stalingrado.


Stalingrado - (Carlos Drummond de Andrade)

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.



Do Portal Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia/263636-11


Portal Vermelho Dia: 08/05/2015 às 15:07:00
   
Konstantin Simonov: Espere por mim

Espere por mim é o mais famoso poema de Konstantin Simonov, poeta e dramaturgo da União Soviética, foi correspondente durante a Grande Guerra Patriótica, contra a Alemanha Nazista. Prosa, Poesia & Arte desta semana faz um especial com obras sobre a vitória do povo soviético e destaca a obra de Simonov
.
Leia o poema na íntegra:


Espere por mim, que eu retornarei - só espere com muito ardor; 
Espere da mesma forma quando você sentia-se triste pela chegada da chuva amarela; 
Espere quando o vento varrer os flocos de neve; espere no mais intenso calor; 
Espere quando os outros, esquecendo-se dos seus dias anteriores, pararam de esperar; 
Espere mesmo quando de longe não mais chegarem cartas para você; 
Espere mesmo quando os outros já cansaram de esperar; 
Espere mesmo quando a minha mãe e o meu filho pensarem que eu não existo mais; 
E quando os amigos sentados ao redor do fogo brindarem à minha memória, 
Espere, e não te apresses também em beber com eles pela minha memória; 
Espere, pelo meu retorno, a despeito de todas as mortes; 
E deixe aqueles que não me esperaram dizer depois que eu tive sorte; 
Eles nunca vão entender isso, pois em meio a tanta morte, 
Tu, com a tua espera, conseguiste me salvar; 
Somente você e eu sabemos como eu sobrevivi - 
É porque você me esperou quando ninguém mais o fazia."


Do Portal Vermelho