D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Nazim Hikmet - Dom Quixote
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil
Manuel Cardoso - A inaudita guerra da Serra de Carnaxide
Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...
* Fernando Serrano
14
de abril de 2026
O Sr. Ventura
falou...falou...falou...
Mas negou a
verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...
Primeiro
escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que
fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou
não quis fazer. Salazar falhou.
Mesmo depois do
desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.
Salazar tratou
os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal.
Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de
Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse
sido a ONU ainda hoje ali estariam...
Puniu,
humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão
porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta
impossível de vencer.
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O Sr. Ventura
mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.
O Sr. Ventura
não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na
colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a
estes lugares que concor ressem?!
Só depois de
todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam
direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?
Os portugueses
de Portugal receberam os retornados muito bem.
Tivesse sido o
contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou
Moçambique e a música seria bem diferente.
Basta que se
saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes
defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os
animais domésticos...
Não fazíamos lá
falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam
eles.
O Sr. Ventura
não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem
conhece.
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Uma
descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...
Uma
descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.
Estaria o Povo
Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?
Eu não
estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.
O tempo de ser
negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.
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Quanto aos
presos políticos.
48 anos de
repressão…a PIDE ...de prisões...de
mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...
Catarina
Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…
«A morte saiu à
rua num dia assim...»
Comparar este
tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito
desonesto.
O Sr. Ventura
quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os
Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que
durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25
de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos
grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.
E sabe,
Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem
princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta
ver como se comporta na AR.
Após o 25 de
Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...
Não houve mais
um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos
que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando,
não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero
que não, pois uma vez chega.
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O Sr. André não
viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.
O Sr André não
viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.
O Sr. André não
chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e
desespero.
O Sr.André
Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o
«cacarejar...
Quanto aos
massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...
E o rebola a
bola que a bola é cabeça de preto em Angola?
E o Napalm na
Guiné?!...
E Wiryamu em
Moçambique?
E os
guerrilheiros mortos no momento da rendição?
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Ó senhor
Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...
Se estamos
abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem
sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de
30 meses de guerra, à nova situação...
Um combatente
eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente
com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade
ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.
O médico que
lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o
aceitaram...
Hoje, 50 anos
depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer
hospital militar.
Salazar foi o
tal que abandonou os seus soldados.
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56 anos depois
de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da
guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe
reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber
uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos
estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá,
provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a
nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não
esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.
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O senhor
Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961
recomeçou...
Não esqueça as
campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais
Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime,
onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene…
Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.
Entre 1910 e
1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o
passo, como dizer sói…
Em 1961 a
guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não
avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de
guerrilha…Eu estive nesta guerra.
E sabe por quê?
Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.
Se não fosse
Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha
família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou
exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.
O senhor
Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu
por ignorância ou por maldade?!
Salazar ordenou
a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir
pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…
Eu sei como as
coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.
Leia...informe-se
e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade,
só é ganha, se se exterminar esse Povo.
Recorde-1143-1385-1640…E
Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.
Salazar enganou
os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes
que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram.
Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler
os ventos da História…
Diz o Povo…«Se
vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»
Espanha
descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica
descolonizou…Holanda descolonizou…
Salazar, « O
Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da
Europa Ocidental…
Uma taxa de
analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.
Mas com uma
moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos
mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!
Um Povo
Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos
privilégios- Clero e Nobreza.
O Sr. Ventura
sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em
Portugal?
Salazar
obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a
emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que
para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de
onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.
Salazar
explorava o Povo Português em favor das colónias.
Claro que não
sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…
Esse Abril que
nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.
Respeitosamente,
Um Português de
Portugal, Patriota.
Antigo
combatente que ama o seu país e a liberdade.
25 de Abril sempre…
domingo, 17 de maio de 2026
Frederico Duarte Carvalho - Abel Manta em três cartoons
Viveu 98 anos, mas há muito que era eterno. João Abel Manta, que faleceu na sexta-feira, dia 15, nasceu em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1928. Cresceu num ambiente intelectual e artístico ligado à oposição cultural ao Estado Novo, convivendo desde cedo com escritores, artistas e professores universitários.
Licenciou-se em Arquitetura em 1951, mas foi com o desenho, pintura, ilustração e cartoon que se tornou popular. E a sua ‘marca’ artística faz dele um artista maior. A partir do final da década de 1960 tornou-se uma presença regular na imprensa portuguesa, sobretudo no Diário de Lisboa, mas também no Diário de Notícias e mais tarde em O Jornal.
Teve dissabores com a censura, como foi o caso, por exemplo, do cartoon Monumento Nacional, que fez para o Diário de Lisboa, em finais de 1969. A imagem de um enorme rebanho de carneiros em torno de uma televisão, em tamanho monumental, não agradou a um regime que usava aquele meio de comunicação de massas para ‘educar‘ todo um povo.
Em Novembro de 1972, com o poster Festival, dedicado ao festival da canção, onde a bandeira nacional se misturava com a figura de um cantor, Abel Manta foi processado por abuso da liberdade de Imprensa. Julgado por ofensa à bandeira nacional, foi absolvido, mas fez um interregno na carreira. Até que chegou Abril, em 1974.
A revolução será feita também com os cartoons de João Abel Manta. Ficará famoso aquele da campanha de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), com o título Muito Prazer em Conhecer Vocelências. Vemos uma família nuclear portuguesa, com aspecto modesto, de pés descalços, a ser apresentada por um militar aos grande nomes das artes e da ciência. Reconhecemos, facilmente, entre outros, Einstein, Shakespeare, Picasso, Marx, Camões, Chaplin e Freud.
A este cartoon, juntar-se-á ainda o não menos famoso Um Problema Difícil, onde um grupo de famosas personalidades internacionais da filosofia e política, estão sentados a olhar para um quadro perto onde está desenhado o mapa de Portugal.
Vemos na imagem, com o traço único do artista, figuras como Lenine, Marx, Fidel Castro, Che Guevara ou Sartre. Todos com um caderno e lápis na mão, disciplinados a olharem com atenção para Portugal após a revolução, como se estivessem numa escola, perante um “problema difícil” escrito no quadro.
Nesse cartoon, o detalhe de um Henry Kissinger, minúsculo, sentando no fim da fila, à direita, com orelhas de burro, é o toque de génio de Abel Manta.
Outra imagem icónica – e havia tantas e tantas – será ainda a Metamorfose. São dois desenhos, lado a lado. No primeiro, há uma data a identificar o momento: 24 de Abril de 1974, o dia anterior à revolução. Nele, vemos uma funcionário sentado na sua secretária e, na parede, estão os quadros com as fotos do Presidente da República, Américo Thomaz, e do Presidente do Conselho, Marcello Caetano.
Em cima da mesa deste funcionário, de um lado, está uma estatueta de um padrão da época dos Descobrimentos, com a cruz da Ordem de Cristo e o brasão das quinas. Depois, do outro lado, estão os carimbos no devido suporte.
A imagem seguinte, é alusiva a quatro meses depois: 24 de Agosto de 1974, onde a pena, genial, de Abel Manta já registava toda a diferença radical nesse curto espaço de tempo: As fotos dos líderes deram lugar a um poster de Che Guevara. O funcionário, entretanto, deixou crescer o cabelo e bigode, trocou a gravata por um colar com o símbolo da Paz e a estatueta levou com uma imagem de uma guerrlheira em cima. Em vez de carimbos, há cravos.
Com estes três cartoons, podemos encontrar aqui o retrato daquilo que Abril nos deu. São obras maiores de um homem com muito talento. E explicam tanto sobre quem éramos, e o que ainda podemos ser.
A pena de João Abel Manta, sobretudo com a sua visão da época imediata do pós-25 de Abril, há muito que é património de um povo que quer aprender com o mundo, mas também é um problema difícil. E, no fundo, é um povo se adapta a tudo. Por isso, dizemos: Obrigado, João.
Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Pedro Tadeu - Qual é a história política de Carlos Brito?
Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Jaime Nogueira Pinto - A Idade da Reforma e o reformismo
* Jaime Nogueira Pinto
A proposta
de André Ventura não é necessariamente “de esquerda” ou “socialista”. Dizê-lo é
ignorar ou desprezar a existência, à direita, de toda uma tradição social e
reformista
14 mai. 2026,
A Esquerda
rejubilou perante as críticas quase unânimes, varrendo todo o espectro
político, ao líder que nem há um mês enlameava a memória do “dia inicial
inteiro e limpo” em plena “Casa da Democracia”. Como é que o inimigo número 1
da lusa “democraticidade”, o “caluniador de Abril”, se atrevia a propor que se
antecipasse a idade da reforma? Além de usurpar uma “medida de esquerda”, a
proposta era irrealizável e indesejável no actual contexto. Mais para o
centro e para o centro-direita, e também com natural júbilo, sublinhou-se,
implicitamente, o suposto monopólio da “questão social” por parte da Esquerda:
afinal Ventura e o Chega não passavam de “socialistas encobertos”.
Independentemente
da viabilidade, conveniência e oportunidade da proposta ou da reivindicação, de
resto, notoriamente inviável, inconveniente e inoportuna (a não ser que a
oportunidade fosse amalgamar governo e oposição num qualquer “todos contra
um”), há aqui muita confusão na admissão, errada de base, de que o que separa a
Esquerda e a Direita é, sobretudo, a Economia. Como que numa eterna Guerra
Fria, a Direita seria sempre pelo mercado e respectiva “mão invisível” e a
Esquerda sempre pelo Estado e respectivas preocupações sociais.
Nada mais
falso, quer em termos históricos, de História das Ideias e categorias
político-económicas, quer em relação aos actuais alinhamentos
político-partidários na Europa e na América.
Para os
conceitos de Esquerda e Direita temos a arrumação inaugural, na Assembleia
Constituinte francesa, no princípio da Revolução – os partidários do veto real
arrumaram-se à direita, os adversários à esquerda. Ou seja, nesta oposição
inicial, uns eram conservadores, outros progressistas; uns partidários da
Religião e da Monarquia tradicional, outros partidários da laicização e da
monarquia limitada.
A Questão
Social – Marx, Bismarck, Leão XIII
Na primeira
metade do século XIX, os partidários da laicização e da monarquia limitada
acabaram por vencer. Foi também nesses princípios do século XIX que despontou a
chamada questão social, com a industrialização nas grandes cidades de
Inglaterra, da futura Alemanha e de França a arrastarem centenas de milhares de
famílias, até aí rústicas, para o proletariado urbano. Foi desse proletariado
urbano, com ele e por causa dele, que nasceu a “Questão Social”. Marx e Engels,
no Manifesto Comunista, dissecaram essa realidade e apresentaram as suas
soluções.
Com o Manifesto
e a continuação da obra de Marx e Engels, foi estabelecida, então, a doutrina
socialista. Em linhas gerais, e em primeiro lugar, era uma doutrina
materialista, assente no materialismo histórico e “científico”, convicção
primeira dos redactores do Manifesto que também integravam ali o contributo de
Ludwig Feuerbach.
A ideia
primeira e principal era, pois, a de que a realidade humana era apenas a que
podia ser sentida e apreendida pelos cinco sentidos. O resto não existia. A
segunda, era a de que a Economia era senhora do mundo e condicionava tudo, da
política às artes e à vida social e cultural. A terceira, era a de que a
Economia determinava a existência de duas classes – a Burguesia e o
Proletariado. E a quarta era que essas duas classes eram inimigas irredutíveis,
num conflito de sempre, mas que tendia a agudizar-se, indicando “a marcha da
História” que, no final feliz dessa história e da História, o Proletariado
sairia vencedor da luta.
As ideias
socialistas, ao longo do século XIX, foram-se espalhando pela Europa e pelas
Américas, com maior ou menor sucesso. Além do “socialismo científico” de
Marx-Engels, havia uma colecção de socialismos utópicos. Mais tarde, surgia a
social-democracia, que recusava o lado violento da luta de classes e sustentava
a luta operária dentro das regras da democracia liberal. O raciocínio era
elementar: a luta de classes era desnecessária porque, com o alargamento do
sufrágio, a tendência seria para a vitória final das maiorias proletárias sobre
as minorias burguesas – e sem derramamento de sangue.
Mas ao mesmo
tempo que, na Esquerda política, emergiam estas correntes, surgia, no campo
cristão e católico, um pensamento social alternativo, que, em nome de ideais de
justiça e redistribuição da riqueza, combatia, também, o liberalismo
capitalista. Ideais eminentemente cristãos que, de resto, e depois de
devidamente extirpados de transcendência, eram a óbvia inspiração das utopias
materialistas da Esquerda. Veio daí o pensamento social da Igreja Católica, que
depois das preocupações de Lamennais – e, mais tarde, logo a seguir ao episódio
sangrento da Comuna de Paris (1870-1871) –, daria origem, com Albert de Mun,
Maurice Maignen e René de La Tour du Pin, aos Círculos Operários Católicos.
Também, na área
nacional conservadora, o chanceler Bismarck, na Alemanha reunificada e
industrializada, negociaria com os nascentes sindicatos e com os dirigentes
socialistas um pacto que daria origem às primeiras instituições europeias de
segurança social. Na Alemanha de Bismarck, a lei dos seguros de doença (1883),
a lei dos acidentes de trabalho (1884) e as leis sobre os seguros de velhice e
invalidez (1889) passariam a aplicar-se aos trabalhadores industriais e
agrícolas.
E em 1891, Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum, que tornava doutrina oficial da Igreja Católica o repúdio dos excessos, tanto do capitalismo liberal como do socialismo marxista, defendendo uma terceira via que aplicava conceitos éticos aos mecanismos dos mercados e instituía bases morais de legitimação da intervenção institucional para a justiça social, em liberdade e fora do socialismo.
São exemplos de
pioneirismo social, vindos da direita nacional-conservadora, na Alemanha de
Bismarck, e da direita católico-social, na França do século XIX e na Santa Sé,
com os papas sociais.
A direita
revolucionária
Outra linha de
reformismo social, com outras origens, encontramo-la na radicalidade social de
base estatal da direita revolucionária, com o fascismo italiano e o falangismo
ou nacional-sindicalismo espanhol. Do mesmo modo que promoveram políticas
intervencionistas e de nacionalismo e proteccionismo industrial, estas direitas
autoritárias deram expressão ao chamado “fascismo de sinistra” ou “fascismo de
esquerda” no mundo do trabalho, representado por Giuseppe Bottai e Ugo Spirito,
ou por escritores como Elio Vittorini que, depois da guerra civil espanhola, se
tornou antifascista. O empenho social reformista da Falange espanhola
nacional-sindicalista, fundada por José António Primo de Rivera, ficava também
bem evidente na trilogia “Patria, Pan e Justicia”.
Haveria muito mais exemplos da tradição social das direitas, quer na direita católica e intervencionista, quer nas “direitas revolucionárias” (como a introdução das primeiras férias pagas na Itália de Mussolini pela Carta del Lavoro de 1927, inovação falsamente atribuída à Frente Popular francesa em 1936). Ou seja, ao contrário do que nos querem fazer crer, por táctica ou ignorância, a Esquerda não tem o monopólio da preocupação e da acção social.
A idade da
reforma
Em resumo, a
proposta de antecipação da idade de reforma de André Ventura não é
necessariamente “de esquerda” ou uma cedência à Esquerda, como alguns críticos
afirmaram ou insinuaram. O problema da proposta é a sua desadequação ao caso
português e às tendências dominantes no sector de trabalho, em Portugal e na
Europa.
Deixar à
Esquerda o monopólio da intervenção e da justiça no trabalho, monopólio que
notoriamente não lhe pertence, é desconhecer a História ou ceder ao interessado
e manipulado discurso dominante.
Afinal, é hoje
com o voto do que resta das classes trabalhadoras da Europa e da América do
Norte, cujas lutas e direitos foram abandonados pelas esquerdas em favor de
minorias mais coloridas, que os partidos da direita nacional e popular têm
vindo a crescer e a ganhar eleições.
Marta Pinho Alves - Cinema de Abril
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção
Portugal. Abl. Cinema.
A Revolução de 1974 que terminou com os 48 anos de ditadura fascista a que Portugal fora submetido abriu caminho à criação cultural que tanto tempo havia estado amordaçada ou confinada a fronteiras rígidas. No caso do cinema, a história é bastante particular e complexa, mas tentaremos sintetizar. Portugal começa o seu labor cinematográfico no final do século XIX, alinhado com o que acontece na Europa e nos EUA. Quando se inicia o cinema sonoro no nosso país, este surge já enfileirado com o Estado fascista recém-criado e como instrumento de propaganda. É o tempo das “comédias à portuguesa” ou “comédias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cottinelli Telmo, 1933) ou Pátio das Cantigas (Francisco Ribeiro, 1942), e dos filmes dedicados à história e literatura nacionais eleitas por António Ferro, tais como Amor de Perdição (António Lopes Ribeiro, 1943) ou Camões (António Leitão de Barros, 1946). Esgotadas estas fórmulas junto do público, facto que culminou em 1955, no chamado ano zero do cinema português, com a não produção de nenhuma longa-metragem comercial, fruto de iniciativas estatais que pretendiam reabilitar o interesse do público pelo cinema feito em Portugal e formar profissionais, em particular para a televisão, cujo aparecimento em Portugal, apesar de adiado, era cada vez mais inevitável, o cinema português é alvo de uma mudança significativa. Expressar essas mudanças e a recepção desse cinema numa só frase é impossível, mas talvez se possa tentar referindo a corrente do Novo Cinema Português, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Belarmino (Fernando Lopes, 1964), filmes que abandonam o registo épico dos filmes histórico-literários ou fantasiado da “comédia à portuguesa”, para mostrarem um país real, os seus verdadeiros cidadãos e os seus desafios, angústias e imposta imobilidade.
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção como praticamente todas as dimensões da sociedade. É preciso dizer agora abertamente o que antes não era possível, é preciso demonstrar o que antes era apenas sugerido, é preciso gritar a raiva do passado e a promessa do futuro. “Cinema de Abril” é a designação encontrada para o período, curto, em que o cinema se organizou, saiu à rua, mobilizou todos com uma câmara na mão. Nesta época, organizou-se um sindicato de cinema, cooperativas, reivindicou-se mais dinheiro para a produção, o PCP criou no seio do seu Sector Intelectual uma Célula de Cinema, dedicada a produzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o esclarecimento e a politização das massas. Ler e escrever imagens podia e devia ser direito de todos, não apenas dos já entendidos e iniciados como autores1. Vale muito a pena regressar ao cinema produzido nesse período e perceber como foi relatar, no momento em que acontecia, aquele momento histórico e a sua potência.
Para finalizar, uma nota de actualidade. O que permanece do cinema de Abril no cinema português? Quando evocámos os filmes da época é de passado que falamos ou também é do que somos hoje? Qual o legado para os filmes que fazemos no Portugal de 2026? Qual a marca deixada nos seus autores? É possível não falarmos de Abril e continuarmos a evocar as conquistas de Abril? Há uma especificidade naquilo que frequentemente designamos como o cinema autoral português – para o distinguir da corrente que afirma que o “cinema deve ir para o mercado”, estar alinhado com as indústrias culturais –, que o aproxima da intenção da cinematografia iniciada em Abril de 1974?






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