segunda-feira, 21 de maio de 2018

Fernando Buen Abad Domínguez - Por que é que as pessoas insultam os seus governantes?

*  Fernando Buen Abad Dominguez

"Se não há justiça para o povo,
que não haja paz para o governo"
Emiliano Zapata

Tão velhos como a luta de classes, os insultos proferidos pelos oprimidos costumam ter uma mesma base histórica e um mesmo propósito político. São formas da “expressão” popular que nem sempre são “fáceis” nem sempre proliferam massivamente, mas marcam (como poucas) os territórios da luta simbólica onde, com frequência, o sentido do humor mais corrosivo surte efeitos demolidores na moral dos “amos” e nos seus galões de prestígio. Claro que nunca falta o engenhoso genuflexo que se julga capaz de neutralizar os “dardos” do insulto popular com escudos de silogismos de sucata e sem riscos. Moral e cacete.

Há insultos de todo o tipo contra as classes dominantes. Produzem-se de todas as formas e em todos os géneros. Há canções, danças, poemas... dramaturgia, pintura, cinema e humor de tons variados. Ironias, sarcasmos, chungas... e até afrontas directas baseadas quase exclusivamente na procacidade fermentada de uma jantarada de ocasião ou na necessidade profunda de ferir o poderoso em alguma das suas fibras sensíveis: mães, filhos ou parentes próximos. Mesmo que não tenham culpa directa das humilhações e da exploração que se acumulam nas costas da classe trabalhadora.

Há um sentido subversivo no insulto popular, contra os governantes do dinheiro e os governantes da política, que desliza de formas diversas entre os territórios semânticos de cada época. A maior ou menor intensidade do insulto pode ser conjuntural e é sempre um eco de conformações culturais predominantes. Nada escapa aos eflúvios do insulto cuspido pelos povos na cara dos seus verdugos. 
Soube-o Cervantes como o soube Daumier... soube-o Chaplin  e soube-o Cantinflas. Abarca as pessoas e as instituições, cruza os mares da fúria social para levantar tormentas de adjetivos, substantivos e verbos... gestos, esgares e contorções. Tudo serve se o insulto é certeiro, se faz tremer as estruturas do ego nas suas mais caras fortalezas do poder e consegue ridicularizar todos quantos sustentam a autoridade de uns contra a imensa maioria. Há mesmo insultos finíssimos.

Tudo isto lança o pânico na classe dominante que precisa, como do ar que respira, de alguns redutos de “respeito” ou medo para se manter de pé. Um “subordinado” que teime em insultar a autoridade, produto do aumento da consciência ou da fadiga, começa a ser temido e reprimido. Nos casos mais conspícuos forja-se um círculo virtuoso que, mais cedo que tarde, precipitará a queda de algum verdugo e facilitará mais um passo, ainda que pequeno, no caminho da emancipação. Assim o testemunham as melhores tradições do grotesco e dos carnavais. Para só referir alguns casos.

Mas no insulto também se reproduz a ideologia da classe dominante infiltrada nas cabeças dos dominados. Por exemplo, o sexismo que reina livremente no imaginário hegemónico burguês escorre sem controlo nem filtro sobre o arsenal dos que se treinam para insultar ou ofender os “patrões”. Por exemplo, todo o género de fetichismo dos genitais e toda a espécie de subordinação coital machista costuma florescer na metralha ofensiva popular carregada com a sua marca de classe e com força irreverente. Tudo isto estabelece uma diferença clara, mas lança um desafio semântico nodal. Não mediremos aqui com a mesma vara a intensidade humilhante dos insultos da classe dominante face aos arsenais da classe subordinada. Não cairemos nessa armadilha.

O “modo” no insulto popular é determinante. Implica os matizes e as intenções. Há insultos que vêm do picaresco e do humor sexualizado e há insultos que emergem do medo e da raiva. Não poucas vezes são combinações barrocas com resoluções explosivas. Mas na sua textura áspera, o insulto ao poderoso implica um rompimento. Não há insulto popular contra os oligarcas que não pondere o enérgico tesouro da rebeldia. Contundentes e expressivos, os insultos enriquecem na sua intensidade, e na sua qualidade, muitas das fórmulas linguísticas, mas com a jactância de quem descobre uma força ofensiva cheia de analogias que vêem o léxico como uma arma que tem, indubitavelmente, arestas destruidoras. A defensiva que passa à ofensiva. Tal como os tesouros, os insultos costumam estar à flor da terra e assim, pesadas de muitos séculos, as linguagens pejorativas de classe fortaleceram-se, pacientemente. É um arsenal popular de palavras que ao fazerem tremer a vaidade do poder e o poder da exploração, estendem o seu exemplo e contagiam-se para lá da perspectiva comum e da comarca da submissão (não há limites idiomáticos nem gestuais). É um jardim fértil onde se refazem os armamentos das batalhas diárias e o seu poderio se torna potencialmente infinito. Custe o que custar.

Também é possível criar novos insultos mediante a formação de conceitos e de vocábulos contra os estereótipos impostos que caracterizam uma conduta determinada ou o nome de uma classe de indivíduos (mas isto não é uma cátedra de gramática) porquanto o insulto reflecte o modo de produção e as relações de produção degeneradas em rebeldia provocadora do povo contra os seus “amos”.

Ficam fora desta reflexão aquelas manias burlonas que mais não são do que desplantes do individualismo burguês infiltradas nos povos como formas de catarse reduzidas a banalidades. Dessas, não obstante, convém resgatar o que de engenhoso possam desenvolver graças à criatividade pessoal e que bem podem dar um salto de qualidade mobilizadas ao abrigo de consensos que recolham o que de força rebelde ofereçam. Alguns exemplos muito valiosos estão a fermentar nos EUA, por exemplo, contra Donald Trump e as esquizofrenias mafiosas nos seus empresários da guerra.

Ora todos sabemos muito bem que a realidade não se transforma só com insultos aos “poderosos”. E que mesmo uma época fértil em injúrias graves não implica, “per se”, saldos positivos em matéria de organização nem de elaboração de programas revolucionários com vocação de praxis sistematizada. A proliferação dos insultos contra a classe dominante, por si mesma, não é mais do que um sintoma que, para crescer nos seus valores rebeldes, deve construir consciência e acção. De nada serve ficar satisfeito com uma concatenação de vociferações pejorativas se isso não passar de um mero reduto que tranquiliza. Logo que estejamos seguros da genuína origem popular dos insultos aos vitimários do povo trabalhador, é necessário acertar os passos que conduzem a uma saída emancipadora, de contrário ficaremos muito contentes insultando tudo para que nada mude. Como reformistas vulgares.

Fernando Buen Abad Domínguez

Tradução de Armando Pereira da Silva
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 17:19
https://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2018/05/por-que-e-que-as-pessoas-insultam-os.html

sábado, 19 de maio de 2018

Joaquim Vassalo Abreu - O (NEGÓCIO) FUTEBOL E OS TEMPOS


* Joaquim Vassalo Abreu,  19/05/2018


futebol
Seria natural que antes fosse “espectáculo”, porque disso efectivamente se trata, e só depois um negócio. Seria, mas deixou de ser.
Mas antigamente o “negócio” era transparente e puro? Os anais dizem-nos que nem por isso e contam-se mesmo mirabolantes histórias!
Lembro-me de ouvir pela rádio em pequeno, no tempo dos transístores, que determinado clube precisava de ganhar por 28-0 (!) para não descer e, por artes de magia, ganhou por 29-0! Esse número ficou-me e lembro-me de há uns anos ouvir à entrada do estádio do Dragão um repórter perguntar a um espectador prestes a entrar qual o seu prognóstico para o resultado!
Eu estava atrás dele e com a minha resposta pronta se me interpelasse. Sorte a dele e azar o meu! É que se fizesse a mesma pergunta ter-lhe ia respondido: 28-0! Ele teria dito de imediato: Está a brincar? E eu responderia: Não, o senhor é que está a brincar comigo! Teria sido bonito…
Eram tempos surreais, tempos dos campos pelados, tempos de jogadores rijos e indomáveis e tempos das rádios! Tempos do “atenção Nuno, perigo no Barreiro” e das quase nulas transmissões televisivas. E tempo dos jornais também…E tempos da Capital possuir o unilateral mando! A Capital do Império…
Depois o “negócio”, que não o “espectáculo”, foi-se sofisticando, foram as leis se alterando, foi-se entretanto jogando e os vícios se aperfeiçoando…E veio a luta Norte Sul pelo seu domínio. É que antes o “negócio” quase só se circunscrevia à Capital, a Capital do Império…
E veio a Revolução e com ela um Pedroto disposto a deixar de ser “Andrade”, atravessar a ponte e conquistar a Capital, a ex- capital do ex-império.E com ele chegou um Pinto da Costa vindo do Boxe (estão a ver?), mas um tipo oriundo de boas famílias, de verve esfusiante, de piada fácil, acutilante e cortante e, acima de tudo, disposto a tudo fazer para mudar a Capital do “negócio” para o Porto! E com ele chegou a “fruta” ao  dito…
Entretanto uns puritanos verdes, de bigodinho curvo a pasteis de nata, olhavam para os seus umbigos e sentiam-se espantados com tanta desfaçatez naquele “savoir faire”!
Mas, mais tarde, já para os recentes tempos, veríamos ressurgir o outro da segunda circular, disposto também a recuperar o mando no “negócio”, pela mão de um tipo vindo ali de Alverca que, depois de uns falhados candidatos a “padrinhos”, assumiu com mão de maleável borracha, não tivesse ele vindo do negócio dos pneus, o comando da “empresa”. Radicou-se entretanto na Expo e, depois de fazer fortuna, para lá de um pequeno “furo” no BPN (17 milhões, que é isso?) espetou um autêntico “taco” ( há quem lhe chame “calote” e outros mesmo de “rombo”, no BES (Novo Banco) de mais de 600 milhões…trocos!
Mas isso comparado com o “furo” do Sócrates são apenas uns trocaditos, digo eu agora a tentar ter piada!
A diferença com o anterior descrito, o chamado “Rei” do Norte ou “Pinto Rei”, é que este ao menos sabe dizer Poesia, é de ironia fácil e não consta ter dado alguma vez “rombos” desses! Por favor, deixem-me pôr as coisas no seu lugar…é que este até gosta de Ópera!
Até que dos lados dos “viscondes” aparece um “paisano”, um pássaro de arribação impetuoso e de bico grave, um autêntico valentão. Sabe-se que também vem de boas famílias e que é perito em falir empresas (se os outros falem eu também falo, ora…). Diz-se que, com aquele célebre acordo com a Banca, terá salvado o Clube dos Viscondes da insolvência. Pois, mas voltou aos velhos hábitos e não consta que diga Poesia e piada não tem nenhuma! E faz-me, assim de repente, lembrar o célebre romance do grande GABO: “ O General no seu Labirinto”! Mas, será ele também contralto?
Mas é então esta gente que quer dominar, à força toda, o tal “negócio” do futebol, o tal que se deveria restringir ao “espectáculo”? Esta tal gente que noutros países já há muito foi banida, com o retorno do tal “espectáculo”? Na Inglaterra, primeiro exemplo, e até na insuspeita Itália. Em Espanha o presidente da federação foi preso e esquecido. E o “espectáculo” segue e os presidentes juntam-se, jantam, falam e vêm o “espectáculo” lado a lado. E os “teatros” estão sempre cheios, porque sem “espectáculo” não há assistências…torna-se um sítio cheio de lugares vazios…
Mas chegamos ao derradeiro tempo, o nosso tempo, o tempo da chafurdice, o tempo da impunidade e do nojo, o tempo de uma louca Justiça que ao invés de julgar esse nojo o protege e em que para a opinião pública devidamente demarcada já não interessam os crimes dos anteriores mas apenas os do último que, como sempre, se torna o fácil alibi para todos os outros. É o último, o desgraçado…
E os anteriores ainda vêm pedir justiça pois este os prejudicou…foi além do que devia, o desgraçado!
E depois há também o costumeiro “afinal são todos iguais…”quando, por falta de mais argumentos para defenderem os “seus”, se utiliza este velho refúgio que, no fundo e no essencial, quer dizer “ não se pode fazer nada, é assim e assim será e, apesar de tudo, eles continuam a ser os meus…”. E até dizem, estes ingénuos, que o clube é deles! Também estes são todos iguais, agora digo eu…
E neste degradante estado do “negócio”, um estado onde tudo isto estagna no pântano desse depravado sistema, há uma autêntica “tríade” procurando chefiar o “negócio”, ser o “padrinho”, é claro,  e chefiar todos os “capos” ao seu serviço…E nas Máfias estes matam mesmo…
E voltamos sempre ao mesmo: ao banditismo, às seitas organizadas e aos agentes procurando migalhas. Triste sina a deste “espectáculo”. E não se mudam os tempos?
Li algures que o Presidente da República, o seu melhor amigo o Dr. Eduardo Barroso, o deste amigo também Ferro Rodrigues, que é a segunda figura do Estado, o Dr. Sampaio que já foi PR, o seu irmão Daniel que nunca foi, mas é Psiquiatra, e mais uma série de viscondes, de barões e de  baronetes, e mais outros que usam bigode à pastel de nata e ainda outros “agro-betos” que por lá pululam, se sentem “constrangidos”, “desanimados”, “envergonhados”, ”apalermados”, “angustiados”, “embasbacados” e “preocupados”…
A mim só me surge dizer: “COITADOS”…
https://estatuadesal.com/2018/05/19/o-negocio-futebol-e-os-tempos/

quinta-feira, 17 de maio de 2018

José Miguel Pinto dos Santos - Premium: o preço do cheiro?

OBSERVADOR

José Miguel Pinto dos Santos

17/5/2018, 7:35

Se os jornais, como negócio, têm servido para vender anúncios, não serão as notícias o cheiro da publicidade? E não será premium o preço do cheiro?

O modelo de negócio do Facebook consiste, em traços gerais, em atrair tráfego para vender publicidade, sendo que o tráfego é gerado pondo os utilizadores a criar conteúdos de graça. Embora requeira algum investimento em infraestrutura, a operacionalização bem-sucedida deste modelo permite gerar receitas chorudas a custo ínfimo: o cost of revenue da empresa foi de 12% no último trimestre de 2017.

Por seu lado, o modelo de negócio dos jornais consistiu, durante muito tempo, em distribuir notícias em papel para vender publicidade. O grosso das receitas não estava na venda do papel, mas na venda de anúncios. Era com a venda de publicidade que os jornais cobriam os custos de produção dos seus conteúdos, custos que, ao contrário dos do Facebook, não são negligenciáveis. O preço que os leitores pagavam destinava-se a cobrir os custos de impressão e distribuição física do papel. Com a substituição do papel por canais digitais pareceria que a necessidade de cobrar algo aos leitores desapareceria, já que deixa de haver custos com papel. Assim, a recente introdução de conteúdo premium pelo Observador, na senda de muitos outros meios de informação, parece indiciar uma evolução face ao modelo tradicional: com ela pretende-se passar para os leitores parte dos custos de produção dos conteúdos. Mas será este novo modelo viável?

Uma transição semelhante foi tentada por um comerciante japonês do século 18, como se pode ler nos anais referentes a Ōoka Tadasuke (大岡忠相, 1677—1752), um magistrado com poderes executivos e judiciais, também conhecido pelo seu título de Echizen-no-Kami 越前守:

“Certo dia, um pobre mas sério e honesto estudante chamado Shūhei, proveniente da província de Sagami, encontrou e obteve alojamento numa residência em Kanda, um dos bairros preferidos pelos escolásticos que procuram conhecimento e erudição e sabedoria nesta grande cidade que é Edo. Tinha alugado um pequeno quarto no segundo piso de um edifício, no mesmo andar em que também vivia o senhorio com a sua família e serviçais. No piso térreo o senhorio operava uma loja de tenpura, onde peixe e legumes fritos podiam ser comprados e comidos por vizinhos e forasteiros. O quarto de Shūhei era mesmo por cima da cozinha deste estabelecimento.

“O dono da casa era não só miseravelmente avarento como também doentiamente desconfiado de todos os seus semelhantes, fossem eles desconhecidos ou clientes ou familiares. Pensava ele que ninguém perderia uma oportunidade de lhe dar a volta e de o enganar e desfalcar, caso baixasse a sua guarda e lhes desse essa oportunidade. Assim nunca relaxava e tratava a todos com desconfiança. Não fiava nem dava crédito e contava três vezes o troco quer no dar quer no receber. Andava sempre, para onde quer que fosse, com o cofre no qual acumulava todo o vil metal que lhe vinha às mãos. O seu principal negócio e fonte de rendimento era a loja de tenpurado primeiro piso que, sendo frequentado por farta clientela de professores e estudantes, samurai e mercadores, era próspero e lhe permitiria gozar desafogadamente das comodidades e prazeres deste mundo, enquanto se os podem ter, caso ele assim o desejasse.

“Aconteceu um dia este homem ouvir, do outro lado da parede, uma conversa entre Shūhei e um condiscípulo que o visitava. Disse este: ‘Penosa é na verdade a vida de estudante. Temos de trabalhar dia e noite nas nossas lições e o dinheiro que temos mal dá para comprar o arroz necessário para manter a alma unida ao corpo e, de longe em longe, alguma folha de nori que anime o paladar.’

“Respondeu o da casa: ‘Sem dúvida que é mortificante a vida de estudante, embora no meu caso tenha a felicidade de ter uma loja de tenpura lá em baixo. Eu como sempre o meu arroz quando o cozinheiro frita a comida. O cheiro da fritura sobe e impregna o meu humilde e alvo cereal com o sabor do peixe e dos legumes fritos. Bem sabeis que é o cheiro que em grande medida faz a comida saber bem ou mal.’

“Ao ouvir isto o senhorio sentiu-se ludibriado e espoliado. Abrindo raivosamente a porta do quarto arrendado gritou: ‘Pérfido larápio! Há cinco meses que andas a consumir o cheiro do meu restaurante sem me pagares nada. Exijo que me ressarcias de todo o cheiro que furtivamente me tens roubado e tens usado para a tua utilidade e conforto pessoal.’

“Surpreendido por tão abrupta interrupção e por tão obtusa exigência, o inclino desconfiou por alguns momentos do bom funcionamento das suas conchas auditivas. Mas percebendo visualmente a ira do proprietário balbuciou: ‘Mas, ó honorável senhorio, todos os meses vos tenho pago a renda deste quarto e é entendimento habitual, corrente e comum entre todos os habitantes deste Império que a renda inclua não só o serviço prestado pelo chão e tecto e quatro paredes, mas também a luz que entra pela janela, e o som que invade da rua, e o cheiro que se infiltra da vossa reputada casa de comidas.’

“Retorquiu-lhe o mesquinho: ‘O cheiro, tal como a comida, é pago à parte e não está incluído na renda. Tal como é roubo comer sem pagar, é furto cheirar sem compensar.’

“Insistiu humildemente o estudante: ‘Um cheiro é um cheiro, e todos cheiram mesmo que não queiram e ninguém consegue deixar de cheirar mesmo que o queira. O vosso pedido não é razoável e, portanto, não vos devo nada para além daquilo que vos tenho pago.’

“Vendo que o seu inclino resistia pertinazmente à sua cobiça e se recusava à indemnização que lhe era devida, o dono da casa, vermelho de raiva, dirigiu-se à residência do magistrado da cidade para apresentar queixa. Ao chegar, disse ao oficial de dia: ‘Fui roubado!’

“Perguntou o interpelado: ‘E o que foi que te tiraram?’

“Guinchou o acusador: ‘O cheiro da minha comida! O meu inquilino há cinco meses que cheira a tenpura do meu restaurante e recusa-se a pagar-me pelo cheiro que tem vindo a usar.’

“O oficial ficou surpreso primeiro, aborrecido depois, e finalmente disse-lhe irritado: ‘Estou a ver que regaste abundantemente a tua tenpura com sake. Não me venhas com causas frívolas ou arriscas a ser preso por desrespeito a esta magistratura.’

“Aconteceu que nesse momento Ōoka Echizen-no-Kami entrava no edifício e tendo ouvido a resposta do seu subalterno parou e disse: ‘Todas as relações entre pessoas são importantes e nenhuma causa de contenção que surja entre dois homens é frívola. Tal como de pequenas sementes crescem as grandes árvores, de pequenas questões nascem graves rixas e por insignificantes questiúnculas se combatem grandes guerras. Portanto, se alguém se sente suficientemente lesado para apresentar queixa é dever do magistrado ouvir a sua reclamação e dar-lhe o seguimento que merece com a celeridade devida. Deixai, pois, que ele me apresente o seu caso.’

“Assim o senhorio fez a sua queixa, os factos foram apurados, e tendo acusador e acusado alegado as suas razões ambos compareceram em frente de Chikuzen no Kami para este passar sentença: ‘Declaro que o estudante Shūhei é culpado de se ter apoderado e inalado e assim gozado do cheiro da tenpurado restaurante do seu senhorio, e condeno-o a pagar indemnização proporcional aos benefícios de que indevidamente se apoderou para seu próprio proveito. É obvio que o cheiro é um atributo da comida e é evidente que a tenpurapertence a quem fez a acusação do furto. O acusado não devia ter usado dos atributos de um bem que não é seu sem autorização do seu proprietário, e tendo-o feito deve-lhe entregar uma retribuição proporcional.’

“Ao ouvir esta sentença tão surpreendente, a audiência espantou-se, o senhorio alegrou-se e o estudante horrorizou-se. Ele era tão pobre que tudo o que tinha gastava-o nos estudos, na habitação e no alimento. Como poderia agora pagar os cinco meses de cheiro em mora?
“Ōoka ordenou ao condenado: ‘Apresenta o dinheiro que tens.’

“Shūhei retirou da sua manga cinco sen, cinco pequenas moedas metálicas, e com a mão direita mostrou-as ao magistrado. Disse este: ‘Muito bem, passa-as agora para a mão esquerda.’

“O estudante obedeceu e todos na sala de audiências puderam ouvir as moedas fazerem charin-charin ao passarem de uma mão para a outra. Declarou então o juiz: ‘Muito bem, guarda o teu dinheiro. Estando assim o lesado compensado este caso fica encerrado.’

“E, voltando-se para o senhorio, acrescentou: ‘No futuro, sempre que te sentires injustiçado não deixes de apresentar queixa às autoridades, pois é dever de qualquer o magistrado assegurar sempre que a injustiça é corrigida e o crime punido e a virtude recompensada.’

“Agitou-se o acusador e disse: ‘Mas honorável juiz, como podeis dizer que eu estou compensado se o larápio ainda não me entregou uma moeda que fosse?’

“Ōoka olhou-o gravemente e respondeu-lhe: ‘É de elementar justiça que o valor da indemnização deve corresponder ao valor do dano. É meu julgamento que o preço do cheiro de comida deve ser o som tilintante de moeda.’

“Todos os presentes se espantaram com o teor desta sentença, mas não houve quem não admirasse a argúcia do magistrado, nem louvasse a sua justiça.”

E assim se frustrou uma tentativa, criativa e audaciosa, de monetizar uma das externalidades da produção e comercialização de tenpura.

Vender notícias é um negócio diferente, provavelmente mais difícil, que vender publicidade. Se os jornais, como negócio, têm servido para vender anúncios, não serão as notícias o cheiro da publicidade? E não será premium o preço do cheiro? Sendo um cheiro de qualidade, o premium do Observador certamente será um sucesso.

Professor de Finanças, AESE Business School
https://observador.pt/opiniao/premium-o-preco-do-cheiro/

domingo, 13 de maio de 2018

A Costa da Caparica de Luísa Costa Gomes (pré-publicação)


Há 30 anos que a escritora Luísa Costa Gomes entra e sai da mesma casa na Costa da Caparica. E um dia perguntou-se: que sítio é este onde vivo? A resposta está no livro "Da Costa". Pré-publicação.
Não é uma historiografia da Costa da Caparica, lugar que há muito é de eleição para a escritora portuguesa, mas antes uma viagem pelos diferentes tempos daquele pedaço da costa portuguesa. Luísa Costa Gomes estreia-se este mês no catálogo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o livro “Da Costa”, publicado na coleção Retratos.
A própria escritora descreveu estas páginas como o retrato vivido de um pequeno mundo, onde também ela habita. Há 30 anos, como conta logo na introdução, que entra e sai da mesma casa, faz o mesmo caminho. E um dia pergunta-se: que sítio é este onde vivo? Para responder à pergunta, ouviu um sem-fim de pessoas. No final, a viagem à procura de respostas leva o leitor pelas praias da Costa, pela Cova de Vapor, pelas quintas onde em tempos viveram famílias fidalgas, acabando nos Cooperativistas.
E é no areal da Costa da Caparica que começa esta pré-publicação.
“Olhando a imensidão do areal da Costa na maré-baixa, temos dificuldade em imaginar que não tivesse sido sempre uma praia. Mas, na verdade, o troço de mar da Trafaria à Fonte da Telha só ganhou foros de praia recentemente, desde os anos trinta do século xx.
Em Costa Fronteira, Francisco Silva enuncia os factores que impediram durante séculos o povoamento da Costa, sendo o primeiro a imprevisibilidade do comportamento do mar: «as tempestades, as marés vivas, faziam da faixa de areia litoral, representada na cartografia pelo menos desde o século xvi, um território alagadiço e pantanoso, coberto por dunas móveis e juncais».
Não se tratava, no entanto, de uma ria, mas de terras alagadas pelas águas que escorriam da arriba e de areais que tinham configuração bem diferente da que agora têm. «Nenhuma razão justificava o povoamento deste lugar inóspito e insalubre. A Costa, como se designava toda a frente atlântica do concelho de Almada, não era mais do que simplesmente a costa, o limite, a fronteira, o lugar onde o continente termina […].»
O cimo da Rocha — nome que os pescadores depois deram à arriba fóssil —, onde os frades Capuchos de Lourenço Pires de Távora, conselheiro e amigo de D. Sebastião, se instalaram em 1558 num lugar «ermo e afastado das povoações, definia desde então o espaço humanizado no concelho de Almada». Para cá da arriba não havia nada. Mas a abundância do peixe que vinha no leito do Tejo desaguar aqui acabou por provocar o povoamento, primeiro durante apenas alguns meses no Verão, para a safra da sardinha, depois estabelecendo duas comunidades de pescadores, uma oriunda de Ílhavo, outra de Olhão.
«Atribui-se a data de 1770 à fixação nas praias da Costa das primeiras famílias de pescadores conduzidos na nova morada pelos mestres de redes José Rapaz, natural de Ílhavo e José Gonçalves Bexiga, de Olhão.»
Para marcarem a intenção de não regressarem às terras de origem, construíram «com tábuas a primeira igreja e dedicaram-na a Nossa Senhora da Conceição».
A rivalidade entre as duas comunidades começou no estabelecimento em duas zonas distintas da Costa, sendo que «os ílhavos instalaram-se a norte enquanto os algarvios construíram as suas barracas a sul. Entre os dois aglomerados encontrava-se o local onde as dunas atingiam a maior elevação sobre o imenso areal, a que chamaram o Alto. Desse local, os pescadores iam ver o mar e decidir os lanços. Quando os alcatrazes desciam a pique, mergulhando no mar, era sinal de peixe na costa, quando as ondas do mar transpunham a praia e lhes vinham lamber os pés descalços era sinal de fome na barraca».
Separados da população de Almada pela arriba fóssil, uma linha perpendicular ao mar dividia os ílhavos dos olhanenses: a Rua dos Pescadores.
O isolamento obrigou à solidariedade entre as duas comunidades, criando o «cofre do quinhão das companhas», um embrião de associação mutualista, «para o qual cada companha contribuía com um quinhão proporcionalmente retirado do produto da venda do pescado» e que serviu para financiar a construção do Poço da Vila, em 1879, e assim ter água potável, e o cemitério, no ano seguinte.
Para cá da arriba não havia nada. Mas a abundância do peixe que vinha no leito do Tejo desaguar aqui acabou por provocar o povoamento, primeiro durante apenas alguns meses no Verão, para a safra da sardinha, depois estabelecendo duas comunidades de pescadores, uma oriunda de Ílhavo, outra de Olhão.
«Da praia e do mar chegava o único sustento das populações da Costa, dada a total impossibilidade de qualquer prática agrícola nas estéreis areias», continua Francisco Silva.
«Um dos estigmas que marcou a comunidade piscatória da Costa relacionava-se com a necessidade de dispor de muitos braços para pescar», pois, além de todas as actividades ligadas à arte xávega, a forma de pesca tradicional trazida pelos pescadores, era preciso ainda varar as embarcações fora do alcance do mar, transportar as cordas e as redes e tudo isto se fazia a pulso pela areia acima.
Pescava-se de Junho a Outubro em o mar deixando, no resto do tempo procurava-se trabalho nas redondezas.
«O isolamento geográfico, o afastamento das autoridades e da administração do concelho de Almada, tornavam estas costas um destino privilegiado para quem fugia à justiça ou não queria ser por ela incomodado. O sustento era o mínimo, mas não se inquiria sobre a moralidade dos forasteiros. […] Por se abrigarem nas barracas onde as companhas guardavam as redes e outros aprestos, estes “pescadores” eram conhecidos por Barraqueiros, de que se conheciam as alcunhas mas raramente os apelidos, contribuindo para criar má fama à Costa da Caparica que, até aos primeiros anos do século xx, tinha a imagem de local de frequência pouco recomendável ou até mesmo perigoso.»
Essa imagem poderá alterar-se, mas até muito tarde mantém-se no, chamemos-lhe assim, «inconsciente colectivo», a fantasia de um lugar muito remoto, selvagem, de topografia imprecisa, em que nomes não referenciam exactamente sítios, mas áreas de gesto largo, a Fonte da Telha fica algures para ali, a Trafaria algures para acolá. Esta vagueza opõe-se à segurança claustrofóbica da cidade pombalina, com a gente bem arrumada em prateleiras do rés-do-chão ao quarto andar.
A ideia de lugar «além» ainda hoje impede a passagem da ponte a muito boa gente. Há a noção de que de Lisboa à Caparica é muito longe, e o caminho arriscado, sendo menor a distância psicológica no sentido inverso. Lisboa é centrípeta na imaginação e é sempre melhor ir para lá do que vir de lá.
A primeira vez que vi a Costa da Caparica, no final dos anos sessenta, era um dia chuvoso de Primavera, e o sítio feioso e triste como a noite. Lembro uma Rua dos Pescadores cinzenta, fechada, pingada daquela humidade marinha insidiosa que nos fazia querer fugir a choramingar.
Desse local, os pescadores iam ver o mar e decidir os lanços. Quando os alcatrazes desciam a pique, mergulhando no mar, era sinal de peixe na costa, quando as ondas do mar transpunham a praia e lhes vinham lamber os pés descalços era sinal de fome na barraca».
A Costa da Caparica é um desses lugares, como o Algarve, que tem a obrigação de mostrar boa cara ao turista. A outros lugares, nada se exige.
Quem se lembra de querer bom tempo em Vieira de Leiria, ou na Figueira da Foz? Em Odeceixe? Mas quem atravessou a ponte, quem demorou duas horas a atravessar a ponte, vindo de sítios que são sítios de pleno direito, onde chove e faz sol e tudo o que lhe apetece, não aceita nevoeiro, como em Odeceixe, ou em Santa Cruz, que têm por logótipo a neblina matinal.
Quem chega exige calor, sol e – opcional, é certo – uma brisa. Água decente para um banho de mar revigorante.
Toda esta margem sul sofre ainda, aliás, deste injusto grau de exigência. Não bastam dezasseis quilómetros de praias atlânticas de areia fina a dez minutos de Lisboa, nem apoios de praia que se estendem ao longo do paredão. Não chegam festivais e caldeiradas. Não chegam parques, piscinas, «equipamentos» de fazer inveja a todas as outras margens.
Tem de se ter o Verão eterno, bom e barato, ou foge-nos a freguesia para os Algarves e as costas espanholas.
[…]

La plage

Quando a Duquesa de Berry inaugurou em 1820 a saison dos banhos de mar na plage em Dieppe, uma estância favorita dos ingleses, repicaram os sinos ao meio-dia em ponto e houve salvas de canhão. Esta Duquesa de Berry não era a Condessa de Barry, amante de Luís XV.
Para quem não conheça nem uma nem outra, a confusão é impossível, e aqui se revela ainda outra benesse da ignorância. Como quer que seja, a senhora de Berry entrou muito bem ataviada no mar gelado da Alta Normandia pela mão do seu médico.
O homem trajava casaca e luvas brancas, talvez por causa do frio. A sua função era, por um lado, inspeccionar a qualidade da água, mas a mais relevante, a sua função simbólica, era ligar, para os séculos seguintes, a atmosfera marítima a um benefício para a classe social que dela publicamente usufruísse.
A nova nobreza dava a sua bênção à humidade e à corrente de ar, de que por exemplo os fidalgos portugueses do Antigo Regime se protegiam como o diabo da cruz, nos palácios e palacetes que não conheciam o asseio, muito menos o conforto.
A saúde deixou de estar exclusivamente à mercê do capricho divino, dos pecados pessoais e colectivos e ao cuidado de amuletos, rezas, santos e benzeduras; e fez o seu caminho para o lado do controlo humano, da responsabilização pela manutenção do mecanismo corporal e da boa biologia.
O mar começava a sua epopeia regeneradora, depois de ter ameaçado o Homem pelos séculos com os seus adamastores. Agora era uma atmosfera benéfica, produzia fósforo e iodo e esses elementos faziam bem. Mas a ideia de que o que faz bem também deve dar prazer ia demorar a impor-se.
Por se abrigarem nas barracas onde as companhas guardavam as redes e outros aprestos, estes “pescadores” eram conhecidos por Barraqueiros, de que se conheciam as alcunhas mas raramente os apelidos, contribuindo para criar má fama à Costa da Caparica
A nobreza que vinha pelo menos desde o século xvi buscar às suas quintas de Almada grande parte do rendimento para se apresentar dignamente na corte usava a Margem Sul, a que se chamava Lisboa Oriental, para desenfado da cidade, para recreação, para recolhimento, às vezes para exílio ou fuga do alcance de algum monarca mais irritadiço; usava os campos e bosques até à lagoa de Albufeira para caçar e a costa, a praia das pescarias, para piqueniques ocasionais, como o que José Trazimundo, Marquês de Fronteira, neto da Marquesa de Alorna, descreve nas suas Memórias.
«Minha avó residia de Verão em Almada, na antiga casa de meus avós», escreve ele. Trata-se da Quinta do Conde, que usava ainda o nome do Conde de Assumar, no que hoje é a Rua Capitão Leitão, uma das principais da cidade de Almada. O jovem Trazimundo recebera uma carta da avó, convocando-o a ele e ao irmão para virem ajudar a preparar o aniversário da tia Henriqueta.
Trazimundo e o irmão acharam a travessia «longa e não muito divertida» e quando chegaram não encontraram ninguém em casa. A avó tinha deixado recado para irem ter à Costa, «onde estavam em uma grande pescaria».
Muito caracteristicamente, no entanto, a Marquesa de Alorna insistira em fazer-se transportar no seu paquebote, um carroção muito pouco adequado ao caminho. Ia com o capelão, trajado a rigor, e o cocheiro com a libré da antiga casa de Alorna.
«[…] A equipagem e a parelha eram tão velhas como a dona e o cocheiro, o caminho arenoso e impraticável para qualquer equipagem.»
Os jovens alugaram cavalos e partiram a toda a brida para a Costa, encontrando pelo caminho umas mulheres que lhes perguntaram «se éramos os meninos da Senhora Condessa de Oyhenhausen» (nome injusto, aponho eu, para gente tão simples) e os informaram, com a pressa que sempre há em comunicar acontecimentos desagradáveis, que a «avó e o avô estavam enterrados na areia» e «os machos quase mortos».
Intrigados pelo aparecimento deste novo avô, já que o legítimo estava morto há mais de vinte anos, os irmãos espicaçaram os cavalos e encontraram o velho cocheiro «desamparado ao pé da carruagem, rogando mil pragas a sua ama, dizendo que nunca mais havia de servir poetas e que o resto das nossas tias se tinha adiantado, seguindo minha avó com Monsenhor Cherubini».
Mais à frente, encontraram-na os netos no preparo que mais uma vez confirmou no jovem Trazimundo a imagem de uma senhora de idade teimosa e excêntrica, mas a quem faltava o passo seguinte na loucura para ser verdadeiramente quixotesca. Iam ela e o capelão montados em mulas de moleiro e seguidos do moço de traseira.
«Encontrámos a caravana, dirigida por nossa boa avó, montada em uma das tais mulas, tendo posto por cima da touca e cabeleira loura um grande chapéu de palha que lhe havia emprestado um pescador da Costa, por causa do grande calor, conseguindo resolver o seu companheiro a fazer o mesmo, pondo sobre a calva empoada um chapéu semelhante. Monsenhor ia de casaca à romana e meias encarnadas e o moleiro levava-lhe na mão o chapéu de três cantos. O velho moço de traseira seguia a caravana, cansadíssimo e de péssimo humor e Monsenhor, perdido de riso, exclamava, apontando para minha avó: Que caricatura! Que graça! Que espírito! Que talento! Assim chegámos à Costa, onde fomos recebidos pela outra parte do rancho que se tinha adiantado, e o Mestre de desenho Luiz Tomé de Miranda, que era da partida, fez uma espécie de caricatura da entrada de minha avó e de seu companheiro, Monsenhor Cherubini, a qual muito sinto ter perdido.»
N’As Praias de Portugal (Guia do Banhista e do Viajante), primeira grande recensão dos banhos de mar portugueses, publicada em 1876, Ramalho Ortigão não menciona a Costa da Caparica e praticamente nada entre Lisboa e Setúbal. Inclui, no capítulo das «praias obscuras», duas linhas telegráficas sobre o Porto Brandão, sendo uma delas: «magnífica vista para a margem oposta do Tejo». A Fonte da Pipa, mais para o lado de Cacilhas, é «um lugar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços».
Esta Duquesa de Berry não era a Condessa de Barry, amante de Luís XV. Para quem não conheça nem uma nem outra, a confusão é impossível, e aqui se revela ainda outra benesse da ignorância.
É preciso dizer que São Martinho do Porto, São Pedro de Moel e Santa Cruz também entram no mesmo capítulo das praias obscuras. Mas a lagoa de Albufeira, pertença do Almoxarifado do Alfeite, o «retiro predilecto» de D. Pedro V, que aí vinha pescar e caçar coelhos, maçaricos e patos, achou Ramalho «de uma grande melancolia simpática, de um encanto profundamente penetrante.
A água tranquila da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planície, o profundo silêncio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade inefável».
Foi na lagoa que a «Ramalhal figura» fisgou um polvo contra uma rocha «com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queirós lhe mandou de presente das margens do Niagara». Embora a pesca fosse proibida sem autorização do concessionário anual, Ramalho tranquiliza-se com o argumento de que «a rocha não é água» e passa adiante.
Como passa adiante da «imensa vida azul» que tanto há-de impressionar Raul Brandão em 1923. Será ele talvez o primeiro a ver as praias da Costa e o morro vermelho para sobre eles escrever com verdadeira empatia.
https://observador.pt/especiais/a-costa-da-caparica-de-luisa-costa-gomes/

Karl Marx - Carta ao Pai em Trier (10 de Novembro de 1837)

 * Karl Marx

Ciência do Direito e Filosofia Investigadas na Própria Realidade, Com o Próprio Objecto Perscrutado em seu Desenvolvimento   

Querido pai,

Há momentos na vida que, tais quais marcas fronteiriças, colocam-se diante de um período concluído, apontando, porém, ao mesmo tempo, com determinação, para uma nova direção. Em um tal ponto de transição, sentimo-nos forçados a contemplar o passado e o presente com os olhos de águia do pensamento, a fim de tornarmo-nos conscientes de nossa posição real.

Em verdade, a própria história do mundo gosta desse olhar retrospectivo e desse investigar-se, o que freqüentemente, confere-lhe, então, a aparência de retrocesso ou estagnação, enquanto que a história, ela mesma, apenas se lança em uma poltrona, para entender a si mesma, penetrando, espiritualmente, em sua própria atividade, qual seja a atividade do espírito.      

Em tais momentos, porém, um indivíduo torna-se lírico, pois toda metamorfose é, em parte, um canto de cisne e, em parte, a abertura de um novo grande poema que aspira a adquirir uma postura em cores brilhantes, que estão, porém, ainda desbotadas.  

Contudo, gostaríamos de erigir um monumento em homenagem àquilo que já vivenciamos, para que readquira em nosso sentimento o lugar que perdeu para as nossas ações. E onde é que poderia encontrar-se para isso um santuário mais estimado, se não fosse no coração do pai, o juiz mais moderado, o partícipe mais íntimo, o sol do amor, cujo fogo ardente é sentido no centro mais cardeal de nossas pretensões !

Como poderiam muitas coisas que são odiosas e censuráveis receber melhor compensação e perdão, se não surgissem como uma manifestação de um estado essencialmente necessário das coisas ? Como poderia o jogo do acaso, freqüentemente desfavorável,  bem como o erro espiritual, ser substraído à acusação de ser devido a um coração perverso ?

Portanto, se, agora, no fim de um ano aqui transcorrido, lançar um olhar sobre as condições, havidas durante esse tempo, a fim de responder, meu querido pai, à sua carta infinitamente querida, procedente de Ems, permito-me contemplar minhas relações, tal como contemplo a vida em geral, enquanto expressão de um agir espiritual que se conforma em todas as direções, na ciência, na arte e nas questões privadas. 

Quando vos deixei, surgiu para mim um novo mundo, o mundo do amor e, em verdade, no início, do amor embriagado de saudades e de esperanças vazias.

Até mesmo a viagem à Berlim, que, por sinal, poderia ter-me encantado ao extremo, despertando-me a observação da natureza, abrasando-me o prazer de viver, produziu-me frieza, deixando-me visivelmente de mau humor, pois as rochas que via não eram mais grosseiras, não eram mais impudentes do que os sentimentos da minha alma, as amplas cidades, não mais vivazes do que o meu sangue, as refeições dos albergues, não mais sobrecarregadas, não mais indigeríveis do que os pacotes de fantasias que levava e, finalmente, a arte, não tão bela quanto Jenny.

Chegando à Berlim, rompi todos os laços que haviam existido até então, passei a fazer, com dissabor, raras visitas e procurei afundar-me na ciência e na arte. Em conformidade com a situação espiritual de outrora, a poesia lírica havia de constituir, necessariamente, o meu primeiro projeto, ao menos o mais agradável e mais próximo. Porém, esta era puramente idealista, tal como meu posicionamento e todo o desenvolvimento até  o presente momento o demonstraram. Um reino do além, de igual forma distantemente situado - tal como o meu amor -, passou a ser o meu céu, a minha arte. Todo o real tornou-se vago e tudo o que é vago não encontra nenhuma fronteira.

Ataques ao presente, sentimento impactado de modo amplo e informe, nada de natural, tudo construído a partir da lua, o pleno oposto daquilo que existe e daquilo que deve ser, reflexões retóricas em vez de pensamento poético, talvez, porém, um certo calor do sentimento e da luta pelo ímpeto caracterizam todas as poesias dos três primeiros volumes, por mim enviados e recebidos por Jenny. Toda a extensão de uma ansiedade que não conhece nenhuma fronteira manifesta-se em diversas formas e faz da “poesia” uma “extensão”. Então, a poesia podia e devia ser apenas um acompanhamento.

Tive de estudar a Ciência do Direito e senti, sobretudo, o incitamento de bater-me com a Filosofia. Ambas foram de tal maneira relacionadas que tratei, em parte, Heineccius, Thibaut e as fontes de modo puramente acrítico, de modo meramente escolástico - assim, p.ex., traduzi os dois primeiros livros das Pandectas para o alemão -, e, em parte, procurei fazer passar uma Filosofia do Direito pelo domínio do Direito.[2]

À guisa de introdução, prefaciei algumas proposições metafísicas e conduzi essa obra infeliz até o Direito Público, de modo a elaborar um traballho de aproximadamente 300 páginas.[3]
  
Aqui, surgiu, sobretudo, de modo pertubador, o mesmo antagonismo, existente entre ser e dever ser, próprio do idealismo, tornando-se a matriz da divisão subseqüente, irrecuperavelmente incorreta.

De início, apareceu a Metafísica do Direito - assim por mim piedosamente denominada -, i.e. os fundamentos, as reflexões, as definições conceituais - divorciada de todo Direito real e de toda forma real do Direito, tal como haveria de aparecer em Fichte, apenas que de modo mais moderno e sem conteúdo, em meu trabalho.[4]

Nisso, a forma acientífica do dogmatismo matemático, em que o sujeito roda em torno da coisa, refletindo, para cá e para lá, sem que a própria coisa assuma sua forma, como algo abundantemente vivo e em desenvolvimento, era um obstáculo, colocado de antemão, à apreensão da verdade.

O triângulo permite ao matemático construir e comprovar, permanece, porém, mera representação no espaço, não se desenvolvendo subseqüentemente em nada. 

É necessário que o coloquemos ao lado de outras coisas, para que assuma, então, outras posições, e esse diferenciar em relação ao mesmo ali colocado, confere-lhe diversas relações e verdades.

Pelo contrário, na expressão concreta do mundo do pensamento vivo, tal como é o Direito, o Estado, a Natureza, a inteira Filosofia, deve o próprio objeto ser perscrutado em seu desenvolvimento. Divisões arbitrárias não se podem imiscuir. A razão da própria coisa deve, enquanto algo em si mesmo antagônico, desenvolver-se e encontrar a sua unidade em si mesma.

A título de segunda parte, surgiu, então, a Filosofia do Direito, i.e., conforme a minha concepção de outrora, a contemplação do desenvolvimento do pensamento no Direito Positivo Romano, tal como se o Direito Positivo, em seu desenvolvimento intelectual (não quero dizer em suas prescrições puramente finitas), pudesse ser mesmo alguma coisa diferente da conformação do conceito de Direito que, porém, haveria de ser abarcado pela primeira parte.

Essa parte, dividi, então, ainda adicionalmente, em doutrina formal do Direito e em doutrina material do Direito, sendo que a primeira deveria descrever a forma pura do sistema, em sua seqüência e em sua interconexão, a subdivisão e a dimensão, ao passo que a segunda, o conteúdo, o condensar-se da forma em seu conteúdo. Esse foi um erro que compartilhei com o Sr. von Savigny - tal como, posteriormente, verifiquei em sua obra erudita sobre a posse - com a única diferença de que ele chama de definição conceitual formal o "encontrar a sede em que esta e aquela doutrina assumem no (fictício) sistema romano", e de definição conceitual material propriamente "a doutrina do positivo, que os romanos adjudicaram a um conceito assim fixado", enquanto que eu entendia por forma o arquitetônico necessário das formulações dos conceitos, e por matéria, a qualidade necessária dessas formulações.[5]
  
O erro residia em ter eu acreditado que conteúdo e forma poderiam e deveriam desenvolver-se separadamente, não adquirindo, assim, nenhuma forma real, a não ser a de uma mesinha com gavetas, nas quais, a seguir, resolvi dispersar areia.         

O conceito é, em verdade, o elo intermediário entre forma e conteúdo. No desenvolvimento filosófico do Direito, um deve emergir no outro. Com efeito, a forma pode apenas ser a continuação do conteúdo.

Assim, cheguei, pois, a uma divisão da matéria, tal como o sujeito a pode projetar para a classificação mais extremamente simples e superficial. Porém, nela, o espírito e a verdade do Direito pereceram. Todo o Direito desintegrou-se em Direito contratual e Direito não-contratual.

Visando à sua melhor percepção, tomo a liberdade de colocar aqui o esquema, até à divisão do jus publicum, o qual é também trabalhado na parte formal. 


I.                                                   II.
jus privatum                                jus publicum


I. jus privatum

a.     Direito Privado contratualmente condicionado
b.    Direto Privado não condicionado por contrato

A.   Direito Privado contratualmente condicionado

a)   Direito Pessoal b) Direito das Coisas c) Direito Pessoal em relação às Coisas

a)   Direito Pessoal
I.       decorrente de contrato oneroso
II.    decorrente de contrato de garantia
III. decorrente de contrato de fidúcia

I.        decorrente de contrato oneroso
2. contrato de sociedade (societas)
3. contrato de locação (locatio conductio)

3. locatio conductio

1.    na medida que se relaciona com operae (serviços)

a) locatio conductio propriamente dita (sem querer dizer
o contrato de aluguel nem o arrendamento romanos !)
b)    mandatum (encargo)

2.    na medida em que se relaciona com usus rei
(Direito de uso sobre uma coisa)

a)sobre o solo : usufructus (usufruto) 
(também não em sentido meramente romano)


b) sobre casas : habitatio (Direito da moradia)

 (de início sobre a própria casa, mais tarde sobre a casa de outro)


II.      decorrente de contrato de garantia


1.    contrato de arbitragem e de conciliação

2.    contrato de seguro


III.    decorrente de contrato de fidúcia


2. contrato de endosso


1. fidejussio (fiança)

 2. negotiorum gestio (gestão de negócios sem mandato)

3. contrato de doação


1.    donatio (doação)

2.    gratiae promissum (promessa de favorecimento)


b) Direito das Coisas

I.        decorrente de contrato oneroso


2. permutatio stricte sic dicta (troca em sentido originário)


1.    permutatio propriamente dita (troca)

2.    mutuum (usurae)  

3.    emptio venditio (compra e venda)



II.      decorrente de contrato de garantia


pignus (penhor)


III.    decorrente do contrato de fidúcia


2. commodatum (empréstimo, contrato de empréstimo)

4.    depositum (conservaçao de um bem confiado)



Porém, porque devo eu continuar a encher páginas com coisas que eu mesmo reprovo ?

Divisões tricotômicas transpassam o todo. Escreve-se com enfadonha prolixidade e as concepções romanas são violadas, da maneira mais bárbara, para metê-las a força em meu sistema. Por outro lado, foi assim  que adquiri tanto amor como visão geral a respeito da matéria, no mínimo em determinado sentido.

Na conclusão do Direito Privado Material, vi a falsidade do todo que, no esquema fundamental, faz fronteira com o de Kant, dele se esquivando totalmente na execução, e, mais uma vez, tornou-se-me claro que sem a Filosofia não seria possível penetrar.[6]

Assim, permite-me, com boa consciência, lançar-me novamente nos braços da Filosofia e redigi um novo sistema metafísico fundamental, em cuja conclusão fui forçado a admitir, novamente, o equívoco das suas (EvM.: i.e. as de Kant) e de todas as minhas pretensões precedentes.  No curso dessa atividade, havia-me apropriado do hábito de fazer excertos de todos os livros que lia, tais como o “Laokoon”, de Lessing, o “Erwin”, de Solger, a história da arte de Winckelmann, a história alemã de Luden e, dessa forma, adiconalmente, rabiscar reflexões.[7]
  
Concomitantemente, traduzi a ”Germania”, de Tacitus, o ”Libri Tristium” de Ovídio, e comecei, de modo particular, i.e. a partir das gramáticas, com o inglês e o italiano, nos quais ainda nada consegui, bem como li o Direito Criminal, de Klein, seus anais e tudo o de mais novo da literatura, fazendo-o, porém, de modo secundário.[8]

Em fins de setembro, procurei novamente por danças das musas e música das sátiras e, já nesse caderno que vos enviei, o idealismo penetra mediante humor forçado (“Scorpion e Felix”), mediante drama fantástico, fracassado (“Oulanem”), até que se transforma, finalmente, de modo pleno, em uma arte formal pura, na maioria das partes, sem objetos estimulantes, sem dinâmica tempestuosa de idéias. Entretanto, essas últimas poesias são as únicas, nas quais resplandeceu diante de mim, repentinamente, tal como através de um golpe mágico - oh ! o golpe foi, de início, esmagador - o reino da verdadeira poesia, à maneira de um palácio de fadas distante, sendo que todas as minhas criações dissolveram-se no nada. 

Com todas essas variegadas ocupações, tive de atravessar acordado muitas noites, pelo meu primeiro semestre a dentro, travando muitas lutas, havendo de padecer com muitas agitações internas e externas. No final das contas, não emergi, porém, muito enriquecido, tendo negligenciado a natureza, a arte e o mundo, bem como repudiado os amigos, sendo que essas reflexões pareciam estar sendo feitas por meu corpo. Um médico aconselhou-me a partir para o campo e, assim, pela primeira vez, atravessei toda a grande cidade, indo ter diante do portão de Stralow(Stralau).  Não pressenti que haveria de amadurecer ali de uma fraqueza anêmica até à robusta firmeza de meu corpo.  Uma cortina havia sido abaixada. Minhas coisas mais sagradas haviam sido despedaçadas e novos Deuses haviam de ser erigidos.

Partindo do idealismo, o qual, dito de passagem, comparei e enriqueci com o idealismo de Kant e o de Fichte, cheguei ao ponto, então, de investigar a idéia, na realidade mesma. Se os Deuses haviam, anteriormente, habitado a terra, tornavam-se, agora, o centro da mesma. Havia lido fragmentos da Filosofia de Hegel, cuja melodia rochosa grotesca não agradou.[9]
  
Mais uma vez, quis mergulhar no mar, porém com o propósito determinado de constatar que a natureza do espírito é tão necessária, concreta e firmemente fundada quanto a natureza do corpo, bem como pretendendo não mais praticar artes de esgrima, senão segurar a pérola genuína diante da luz do sol.
Escrevi um diálogo de aproximadamente 24 páginas : ”Cleanthes ou o Ponto de Partida e a Necessária Continuação da Filosofia”.[10]

Aqui, arte e saber, que estavam inteiramente separados, unificaram-se, em certa medida, e, como um vigoroso andarilho, marchei rumo à própria obra, rumo a um desenvolvimento filosófico-dialético da divindade, tal como manifestada enquanto conceito em si, enquanto religião, natureza, história.
Minha última proposição foi o início do sistema de Hegel.

E esse trabalho, para o qual me familiarizarei, em certa extensão, com a Ciência da Natureza, Schelling e a História - o que me provocou infinita dor de cabeça, estando redigido de tal modo (uma vez que deveria constituir uma nova lógica) que, agora, nem mesmo eu consigo me recordar de ter alimentado esse meu filho predileto, sob o brilho da lua -, esse meu trabalho conduz-me, tal como uma falsa sereia, aos braços do inimigo.[11]
  
Devido a esse meu desgosto, não pude pensar em absolutamente nada durante alguns dias. Corri como um louco pelo jardim, junto à água imunda do Spree. "Lavei a alma e dilui o chá". Aderi até mesmo a uma sessão de caça, com o dono de minha pensão. Disparei rumo a Berlim, quererndo abraçar cada um dos transeuntes das esquinas.

Logo a seguir, empreendi apenas estudos positivistas : o estudo sobre “A Posse” de Savigny e sobre o Direito Criminal, de Feuerbach e Grolmann, o De verborum significatione, de Cramer, o Sistema das Pandectas, de Wening-Ingenheims, e a Doctrina pandectarum, de Mühlenbruch, nos quais ainda continuo trabalhando, e, finalmente, títulos esparsos de Processo Civil e, sobretudo, Direito Eclesiástico, de Lauterbach, dos quais a primeira parte, ”Concordia discordantium canonum”, de Gratian, li quase completamente no corpus, elaborando excertos, como também o fiz com o suplemento ”Institutiones”, de Lancelotti.[12]

Em seguida, traduzi, em parte, a ”Retórica”, de Aristóteles, li do célebre Baco v. Verulam seu ”De dignitate et augumentis scientiarum”, ocupei-me bastante com Reimarus, cujo livro ”Do Impulso Artístico dos Animais” analisei com prazer, resvalei também no Direito Alemão, porém, principalmente, apenas na medida em que examinei as Capitulares dos Reis Francos e as cartas dos Papas a eles dirigidas.[13]    

Por encontrar-me pertubado com a doença de Jenny e com os meus baldados e fracassados trabalhos espirituais, pelo aborrecimento dilacerante de ter de construir para mim mesmo um ídolo a partir de uma visão que odiava, fiquei doente, meu caro pai, tal como já lhe escrevi precedentemente. Uma vez recuperado, queimei todas as poesias e materiais sobre novelas etc., na loucura de acreditar que disso me poderia livrar inteiramente, sendo que, até agora, de nenhuma forma, dei provas do contrário.

Durante minha doença, conheci Hegel do início ao fim, juntamente com a maioria de seus discípulos.[14]

Através de diversos encontros com amigos, ocorridos em Stralow, fui dar em um Clube de Doutores, no qual se encontravam alguns livres docentes e meu amigo mais íntimo de Berlim, Dr. Rutenberg.[15] 

Aqui, em meio a debates, revelaram-se muitas concepções reticentes, sendo que me acorrentei, cada vez mais firmemente, à filosofia do mundo atual, da qual pensei escapar. Porém, todo a riqueza de sons tornou-se silenciosa e uma verdadeira fúria de ironia envolveu-me, tal como se pudesse isso suceder bem facilmente, depois de tantas coisas repudiadas. Ademais, havia o silêncio de Jenny e não pude tranquilizar-me até que alcançara a modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual, por meio de algumas produções de má qualidade, tal como ”The Visit (A Visita)” etc. [16]

Se, talvez, nem lhe tenha apresentado aqui, meu caro pai, esse último semestre por inteiro nem penetrado, de modo claro, em todas as particularidades, obscurecendo também todos os matizes, perdoe-me por minha ansiedade de falar sobre o presente.

H. v. Chamisso enviou-me um bilhete extremamente insignificante, comunicando-me que "lamenta não poder o Almanaque utilizar minhas contribuições, por este já se encontrar inteiramente impresso, desde muito tempo.” [17]

Engoli-o, com irritação. O livreiro Wigand remeteu o meu plano ao Sr. Schmidt, editor da casa empresarial de Wunder, que vende bons queijos e má literatura. Sua carta anexo à presente. O Sr. Schmidt ainda não respondeu. Entretanto, não abandonarei, de nenhuma forma, o plano em questão, já que todas as celebridades estéticas da Escola de Hegel prometeram-me a sua cooperação, mediante a intermediação seja do Professor Bauer, que desempenha entre eles um importante papel, seja do meu coadjutor Dr. Rutenberg. [18]

No que concerne, então, à questão da carreira junto à fazenda pública, conheci, meu caro pai, recentemente, um assessor chamado Schmidthänner que me aconselhou a passar a atuar como juiz assessor, depois do terceiro exame de Direito, o que tanto mais aceitaria, na medida em que prefiro realmente a Ciência do Direito a todas Ciências da Administração. Esse senhor disse-me que ele mesmo e muitos outros chegaram até o posto de assessor junto ao Supremo Tribunal Estadual da Vestfália em três anos, o que não teria sido difícil. É possível entender isso, quando se trata de muitos tipos de trabalho, já que, na Vestfália, os estágios não são rigidamente determinados, tal como em Berlim e alhures. 

Posteriormente, obtendo-se, como assessor, um título de Doutor, existirão também perspectivas muito mais fáceis de poder atuar, imediatamente, como Professor Extraordinário, tal como ocorreu com H. Gärtner, em Bonn, que escreveu um trabalho medíocre sobre códigos de província e, ademais disso, não é senão conhecido por ser um adepto da Escola dos Juristas Hegelianos.

Porém, meu caro e bom pai, não seria possível tratar disso tudo pessoalmente com você ?

O estado de Eduard, o sofrimento da minha amada mãezinha, o seu próprio mal-estar - ainda que espere não seja grave -, tudo isso faz com que deseje apressar-me a ir encontrar-vos, em verdade torna isso quase uma necessidade. Já estaria aí convosco, caso não duvidasse fortemente do seu assentimento e permissão. Creia-me, meu querido e amado pai, não me sinto impelido por nenhum propósito egoísta (muito embora me resultaria bem-aventurado poder rever Jenny), porém existe um sentimento que me move e que não posso declarar.  Para mim, seria, até mesmo, em diversos sentidos, um passo muito duro, porém, tal como me escreve minha única e doce Jenny, todas essas considerações perdem a importância, em face do cumprimento dos devereres que são sagrados.  

Seja lá o modo como venha a decidir isso, peço-lhe, meu caro pai, não mostrar essa carta - no mínimo essa página - a minha mãe angelical. Minha chegada repentina poderia ajudar, quem sabe, a recuperar essa grande e maravilhosa mulher. Minha carta à mamãe foi escrita muito antes da chegada da estimada carta de Jenny e, assim, talvez, tenha eu escrito, inconscientemente, demais sobre assuntos que não são absolutamente adequados ou o são apenas muito pouco.[19]

Na esperança de que, gradualmente, dissipem-se as núvens que se acumularam sobre nossa família, que a mim me seja permitido, sofrer e chorar convosco e, talvez, em vossa proximidade, dar provas de minha profunda e íntima simpatia, provas de meu incomensurável amor, que, freqüentemente, posso apenas expressar de modo tão ruim;

Na esperança de que você, meu caro e eternamente amado pai, tendo em conta o aspecto do meu estado de ânimo por demais agitado, perdoe-me, onde meu coração aparenta, freqüentemente, ter-se equivocado, enquanto meu espírito combativo acomete, e desejando que também você se recupere plenamente, de sorte que possa eu o apertar em meu coração e declarar-lhe todos os meus pensamentos, subscrevo-me,
      
seu filho que o ama eternamente

Karl

P.S. : Perdoe, meu caro pai, minha letra ilegível e o meu mau estilo. Já são quase 4 horas da manhã, a vela já se extinguiu inteiramente e meus olhos estão turvos. Um verdadeiro sobressalto apoderou-se de mim. Não serei capaz de acalmar os espectros turbulentos, até que me encontre na vossa amada proximidade.

Cumprimente, por favor, minha doce e maravilhosa Jenny. Já li sua carta 12 vezes e nela sempre descubro novos estímulos. Em todos os sentidos - incluindo o artístico - é a mais bela carta que posso imaginar ter sido redigida por uma mulher.    

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EDITORA DA ESCOLA DE AGITADORES E INSTRUTORES

“UNIVERSIDADE COMUNISTA REVOLUCIONÁRIA J. M. SVERDLOV”

PARA A FORMAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E DIREÇÃO MARXISTA-REVOLUCIONÁRIA 
DO PROLETARIADO E SEUS ALIADOS OPRIMIDOS 
- MOSCOU - SÃO PAULO - MUNIQUE – PARIS


[1] Cf. MARX, KARL HEINRICH. Brief an den Vater in Trier(Carta ao Pai em Trier)(10 de Novembro de 1837), in : Karl Marx & Friedrich Engels Werke(Obras de Marx e Engels), Vol. 40, Berlim : Dietz Verlag, 1973, pp. 3 e s.  Cumpre anotar que a presente carta de Marx, traduzida, agora, pela primeira vez, para a língua portuguesa, é a única, por ele redigida, em seus anos universitários que foi efetivamente preservada. Em alemão, sua publicação foi realizada, pela primeira vez, nas colunas do mais importante jornal da Social-Democracia Alemã, DIE NEUE ZEIT (O Novo Tempo), Nr. 1, em 1897. A carta de Marx aqui em realce, constitui o primeiro relato abrangente de seu expressivo desenvolvimento intelectual, obtido, outrora, ao tempo em que freqüentava a Universidade de Berlim. Marx informa-nos aqui acerca de sua colossal dedicação ao estudo científico e suas tentativas de esboço de sistemas de Ciência do Direito, fundados, essencialmente, na tradição herdada a partir do Direito Romano, que lhe fora, muito possivelmente, transmitida em aulas ministradas diretamente por Friedrich Carl von Savigny. Concluído o seu próprio sistema jurídico-científico inaugural, Marx afirma ter entrevisto "a falsidade do todo que, no esquema fundamental, faz fronteira com o de Kant ...", destacando que "sem a Filosofia não seria possível penetrar". Também na presente carta, é possível verificar importantes avanços de Marx, no sentido da formulação do materialismo histórico-dialético, ao declarar, entre outras coisas, que : "Partindo do idealismo, o qual, dito de passagem, comparei e enriqueci com o idealismo de Kant e o de Fichte, cheguei ao ponto, então, de investigar a idéia, na realidade mesma." E, a seguir : "Durante minha doença, conheci Hegel do início ao fim, juntamente com a maioria de seus discípulos."

[2] Anotação de Emil Asturig von München : Vale a pena recordar que as Pandectas representam uma das partes do Corpus Iuris Civilis (Corpo de Direito Romano), elaborado por ordem do Imperador Romano do Oriente, Justiniano I, entre 528 e 534. As Pandectas ou o Digesto contêm excertos dos trabalhos de Direito Civil e Direito Criminal de diversos juristas romanos. Sobre o tema, vide, mais precisamente, Cf. CORPUS IURIS CIVILIS. DIGESTORUM SEU PANDECTARUM PARS PRIMA.  LIBER PRIMUS. (Corpo de Direito Civil. Primeira Parte do Digesto ou das Pandectas. Primeiro Livro)(30 de Dezembro de 533), in : Corpus Iuris Civilis, Recognovit Paul Krueger / Theodor Mommsen, Berlim - Hildesheim : Weidmann, 1872, Vol. 1, pp. 3 e s. Uma tradução para o português das Pandectas pode ser encontrada em EMIL VON MÜNCHEN, ASTURIG & SCHMIDT VON KÖLN, PORTAU. Pequenos Textos para a Luta do Materialismo Histórico-Dialético contra os Fundamentos do Corpus Iuris Civilis (Corpo de Direito Romano) : O Codex Repetitae Praelectionis, o Digesto - As Pandectas -, As Institutas e as Novellae Constitutiones, Sustentáculos Antediluvianos da Abstrata Dualidade Geométrica Burguesa-Capitalista Privado-Pública da Atualidade, in : http://www.scientific-socialism.de/LeninMaterialismoAnexoCapa.htm Além disso, vide HEINECCIUS, JOHANN GOTTLIEB. Opera ad Universam Iurisprudentiam. 8 Continens Opuscula Posthuma, ex Schiedis Paternis Edita, Tomos de 1 a 8,  Geneva : Fratres de Tournes, 1771, pp. 3 e s.; em particular IDEM. Antiquitatum Romanorum Iurisprudentiam Illustratium Syntagma Secundum Ordinem Institutionum Iustiniani Digestum (1718), Francofortum : Haubold, 1822, pp. 3 e s.; IDEM. Historia Iuris Civilis Romani ac Germani (1733), Argentoratum : Bauer, 1754, pp. 5 e s.; IDEM. Elementa Iuris Naturae et Gentium, (1737), Frankfurt a.M. : Insel Verlag, 1994, pp. 3 e s.; THIBAUT, ANTON FRIEDRICH JUSTUS.  System des Pandektenrechts (Sistema do Direito das Pandectas)(1803), Tomos de 1 a 3, Jena : Mauke, 1831, pp. III e s.; IDEM. Über die Nothwendigkeit eines allgemeinen bürgerlichen Rechts für Deutschland (Sobre a Necessidade de um Direito Civil Geral para a Alemanha)(1814), Heidelberg : Mohr, 1840, pp. 5 e s.

[3] Lamentavelmente, esse trabalho de Marx não parece ter sido preservado. 

[4] Indicação de Emil Asturig von München : Acerca do tema, vide, mais detalhadamente, FICHTE, JOHANN GOTTLIEB. Grundlage des Naturrechts nach Prinzipien der Wissenschaftslehre (Fundamento do Direito Natural segundo Princípios da Doutrina da Ciência)(1796), Hamburg : Meiner, 1979, pp. 3 e s.; IDEM. Rechtslehre (Doutrina do Direito)(1812), Leipzig :Meiner, 1920, pp. 5 e s.

[5] Anotação de Emil Asturig von München : Marx parece ter elaborado essa citação do pensamento de Friedrich Carl von Savigny inteiramente de memória. Vide, mais especificamente, acerca do tema SAVIGNY, FRIEDRICH CARL VON. Das Recht des Besitzes. Eine civilistische Abhandlung (O Direito da Posse. Um Tratado Civilista)(1803), Viena : Gerold, 1865, pp. 5 e s.; IDEM. Vom Beruf unserer Zeit für Gesetzgebung und Rechtswissenschaft (Sobre a Vocação de nosso Tempo para a Legislação e a Ciência do Direito), Heidelberg, 1814, pp. 5 e s.; IDEM. Grundgedanken der Historischen Rechtsschule (Pensamentos Fundamentais da Escola Histórica do Direito)(1814-1840), Franfurt a.M. : Klostermann, 1948, pp. 3 e s.; IDEM. Geschichte des römischen Rechts im Mittelalter (História do Direito Romano na Idade Média)(1815-1831), Tomos de 1 a 7, Heidelberg : Mohl, 1834-1851, pp. 3 e s.; IDEM. Über den römischen Colonat und über die römische Steuerverfassung unter den Kaisern (Sobre o Colonato Romano e Constituição Tributária Romana sob os Imperadores), Berlim : Königl. Akad d. Wiss., 1823, pp. 5 e s.; IDEM. System des heutigen römischen Rechts (Sistema do Direito Romano da Atualidade), (1840-1849), Tomos de 1 a 9, Berlim : Veit, 1840-1851,pp. 7 e s.; IDEM. Juristische Methodenlehre nach der Ausarbeitung des Jakob Grimm (Doutrina do Método Jurídico Segundo a Elaboração de Jakob Grimm), Stuttgart : Koehler, 1951, pp. 7 e s.; IDEM. Politik und neuere Legislationen. Materialien zum "Geist der Gesetzgebung" (Política e Legislação Mais Nova. Materiais sobre o "Espírito da Legislação"), Frankfurt a.M. : Klostermann, 2000, pp. III e s.; IDEM. Vorlesung über juristische Methodologie 1802-1842 (Aulas sobre Metodologia Jurídica de 1802 a 1842), Frankfurt a.M. : Klostermann, 2004, pp. 5 e s. 

[6] Anotação de Emil Asturig von München : No que concerne ao sistema de Direito de Kant e à sua classificação de contratos jurídicos, vide, especialmente, KANT, IMMANUEL. Grundlegung der Metaphysik der Sitten (Fundamentos da Metafísica dos Costumes) (1785), especialemente Parte I : Rudimentos Metafísicos da Doutrina do Direito, Göttingen : Vandenhoeck und Ruprecht, 2004, pp. 17 e s.  

[7] Indicação de Emil Asturig von München : Acerca do tema, vide LESSING, GOTTHOLD EPHRAIM. Laokoon oder über die Grenze der Malerei und Poesie (Laokoon ou sobre os Limites da Pintura e Poesia)(1766), Leipzig : Phil. Recl., 1940, pp. 3 e s.; SOLGER, KARL WILHELM FERDINAND. Erwin. Vier Gepräche über das Schöne und die Kunst (Erwin. Quatro Conversações sobre o Belo e a Arte)(1815), Berlim : Henckmann, 1971, pp. 3 e s.; WINCKELMANN, JOHANN JOACHIM. Geschichte der Kunst des Altertums (História da Arte da Antigüidade)(1764), Mainz : Von Zabern, 2002, pp. III e s.; LUDEN, HEINRICH. Geschichte des teutschen Vokes (História do Povo Teutônico)(1825-1845), Tomo de 1 a 9, Gotha : Pertes, pp. 5 e s.

[8] Indicação de Emil Asturig von München : A esse respeito, vide TACITUS, PUBLIUS CORNELIUS. Germania. De Origine et Situ Germanorum Liber (98 d.C.), Leipzig : Teubner, 1878, p. 1 e s.; OVIDIUS NASO, PUBLIUS. Tristia, De Tristibis Libri Quinque (8 - 12 d.C.), Ingolstadium : Jac. Pontans, 1728, pp. 3 e s.; KLEIN, ERNST FERDINAND. Grundsätze der natürlichen Rechtswissenschaft nebst einer Geschichte derselben(Fundamentos da Ciência do Direito Natural, ladeada pela História da Mesma)(1797), Halle : Hemmerde u. Schwetschke, Reprints Samml. 1979, pp. 3 e s.; IDEM. Annalen der Gesetzgebung und Rechtsgelehrsamkeit in den preussischen Staaten (Anais da Legislação e da Erudição Jurídica nos Estados Prussianos), 1788 - 1809, Berlim : Nicolai, pp. 5 e s.

[9] Indicação de Emil Asturig von München : Vide, sobre o tema, KANT, IMMANUEL. Grundlegung der Metaphysik der Sitten (Fundamentos da Metafísica dos Costumes) (1785), especialemente Parte I : Rudimentos Metafísicos da Doutrina do Direito, Göttingen : Vandenhoeck und Ruprecht, 2004, pp. 17 e s.;  FICHTE, JOHANN GOTTLIEB. Grundlage des Naturrechts nach Prinzipien der Wissenschaftslehre (Fundamento do Direito Natural segundo Princípios da Doutrina da Ciência)(1796), Hamburg : Meiner, 1979, pp. 3 e s.; IDEM. Rechtslehre (Doutrina do Direito)(1812), Leipzig :Meiner, 1920, pp. 5 e s.; HEGEL, GEORG WILHELM FRIEDRICH. Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse (Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Delineamentos)(1817), Hamburg : Meiner, 1959, pp. 5 e s.  

[10] Lamentavelmente, esse trabalho de Marx não parece ter sido preservado. 

[11] Anotação de Emil Asturig von München : Anote-se que no manuscrito original de Karl Marx é impossível decifrar qual é o encerramento desse parágrafo. Possivelmente, trate-se de dois fragmentos de palavras rasuradas.

[12] Indicação de Emil Asturig von München : Acerca do tema, vide SAVIGNY, FRIEDRICH CARL VON. Das Recht des Besitzes. Eine civilistische Abhandlung (O Direito da Posse. Um Tratado Civilista)(1803), Viena : Gerold, 1865, pp. 5 e s.; FEUERBACH, PAUL JOHANN ANSELM RITTER VON. Blick auf die deutsche Rechtswissenschaft (Uma Vista da Ciência do Direito Alemã), Munique : Unterholzner, 1810, pp. 1 e s.; IDEM. Entwurf des Gesetzbuches über Verbrechen und Vergehen für das Königreich Baiern (Projeto do Código de Crimes e Infrações do Reino da Baviera), Munique : Red. d. Reg. Blattes, 1810, pp. I e s.;  GROLMANN, KARL LUDWIG WILHELM VON. Grundsätze der Criminalrechtswissenschaft (Fundamentos da Ciência do Direito Criminal)(1798), Gießen : Heyer, 1818, pp. 3 e s.; IDEM. Über die Begründung des Strafrechts und der Strafgesetzgebung nebst einer Entwickelung der Lehre von dem Maasstabe der Strafen und juristischen Imputation (Sobre a Fundamentação do Direito Penal e da Legislação Penal, ladeada por um Desenvolvimento da Doutrina do Padrão das Penas e da Imputação Jurídica), Gießen : Heyer, 1799, pp. 7 e s.; CRAMER, ANDREAS WILHELM.  De Verborum Significatione, Kilia : Kilia, 1811, pp. 5 e s.; WENING-INGENHEIM, JOHANN NEPOMUK VON. Über den Geist des Studiums der Jurisprudenz (Sobre o Espírito do Estudo da Ciência do Direito), Landhut : Krüll, 1814, pp. III e s.; IDEM. Ueber die Mängel und Gebrechen der juristischen Lehrmethode (Sobre as Deficiências e Debilidades do Método de Ensino Jurídico), Landshut : Krüll, 1820, pp. 5 e s.;  IDEM. Lehrbuch der Encyklopädie und Methodologie der Rechtswissenschaft (Manual da Enciclopédia e Metodologia da Ciência do Direito), Landshut : Krüll, 1821, pp. 5 e s.; IDEM. Lehrbuch des gemeinen Civilrechts nach Heise's Grundriß (Manual do Direito Civil Comum segundo um Plano de Heise, Tomos de 1 a 3, Munique : Georg Heise, 1827, pp. 3 e s.;  MÜHLENBRUCH, CHRISTIAN FRIEDRICH. Doctrina Pandectarum, Tomos de 1 a 3, Halis Saxonia : Schwetscheke, 1830, pp. 1 e s.; IDEM. Doctrina Pandectarum Scholarum in usum, Tomos de 1 a 3, Hala Saxonum : Schwetschke, 1838-1840, pp. 7 e s.; LAUTERBACH, WOLFGANG ADAM. Compendium iuris, Tubingae - Francofurti - Lipsiae : Cotta, 1730, pp. 3 e s. ;  LANCELOTTI, GIOVANNI PAOLO. Institutiones iuris canonici, Tomos de 1 a 4, Hala Magdeburgum, 1717, pp. 5 e s.

[13] Indicação de Emil Asturig von München : Vide, a esse respeito, ARISTOTELES DE ESTAGIRA. Tekhne Rhetorike (Técnica da Retórica)(entre 384 e 322 a.C.), Munique, Fink, 1995, pp. 3 e s.; BACO VON VERULAM (BACON, FRANCIS), De Dignitate et Augmentis Scientiarum(1605), Darmstadt : Wiss. Buchges., 1966, pp. 5 e s.; REIMARUS, HERMANN SAMUEL. Allgemeine Betrachtungen über die Triebe der Thiere, hauptsächlich über ihre Kunsttriebe (Considerações Gerais sobre os Impulsos dos Animais, Principalmente sobre seu Impulso Artístico)(1762), Göttingen : Vandenhoeck & Ruprecht, 1982, pp. 5 e s.; CAPITULARIA REGUM FRANCORUM. ed. Stephanus Baluzius, Parisiis : H. Welter, 1902, pp. 5 e s. 

[14] Indicação de Emil Asturig von München : Sobre esse ponto, vide, sobretudo, HEGEL, GEORG WILHELM FRIEDRICH. Phänomenologie des Geistes (Fenomenologia do Espírito)(1806-1807), Jena : Friedrich Schiller, 1971, pp. 11 e s.; IDEM. Wissenschaft der Logik (Ciência da Lógica)(1812-1816), Hamburg : Meiner, 1952, pp. 7 e s.; IDEM. Grundlinien der Philosophie des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse (Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito ou Direito Natural e Ciência do Estado em Delineamentos)(1821), Berlim : Akad. Verl., 1981, pp. 3 e s. ; IDEM. Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse (Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Delineamentos)(1817), Hamburg : Meiner, 1959, pp. 5 e s.  

[15] Anotação de Emil Asturig von München : O "Doctorclub (Clube de Doutores)" em referência foi fundado por representantes da ala radical ou de esquerda da Escola Hegeliana, em Berlim, em 1837. Entre seus membros, encontravam-se o Professor de Teologia da Universidade de Berlim, Bruno Bauer, o Professor de História de Ginásio, Karl Friedrich Köppen, e o Professor de Geografia, Adolf Rutenberg, bem como Edgar Bauer, Ludwig Buhl, Karl Nauwerk e Max Stirner. O clube em tela, de que Marx foi membro ativo, devido a seus largos e profundos conhecimentos das obras de Hegel, desempenhou um importante papel no movimento hegeliano da época. Pouco tempo depois, também Friedrich Engels veio a ntegrar o clube em referência, em um momento, porém, em que Marx já dele não mais participava. Já no início dos anos 40 do século XIX, o Clube de Doutores passou a denominar-se "Círculo dos Jovens Hegelianos Libertados". 

[16] Lamentavelmente, esse trabalho não parece ter sido preservado. 

[17] Anotação de Emil Asturig von München : Marx refere-se, aqui, ao "Deutscher Musenalmanach (Almanaque Alemão de Musas)" , publicado, anualmente, a partir de 1829, na cidade de Leipzig.

[18] Anotação de Emil Asturig von München : Tal como se depreende de uma carta de Heinrich Marx, dirigida a seu filho, Karl Marx, datada de 16 de setembro de 1837, este pretendia publicar um jornal de crítica teatral.

[19] Anotação de Emil Asturig von München : A carta em realce, dirigida por Marx à sua mãe, parece não ter sido preservada.


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