quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

«Colheita», de Jim Crace

segunda-feira, 31 de março de 2014

«Colheita», de Jim Crace



The luminaries, da escritora Eleanor Catton, foi o romance vencedor do prestigiado Man Booker Prize de 2013. Um outro candidato ao prémio, intitulado Harvest, figurou também na lista final e fora apontado como um dos favoritos pela crítica. Esse romance foi escrito por um dos maiores romancistas ingleses da atualidade: Jim Crace (n. 1946).

O cenário de Colheita desenvolve-se numa remota aldeia inglesa (situada num local e tempo não especificado pelo autor), com poucos habitantes, mas com muitos hectares de terra de cultivo. O pacato quotidiano dos agricultores, nessa terra onde «tudo estava destinado a manter a forma que tinha», rege-se em torno da labuta, de sol a sol, e mesmo com o excesso de trabalho a fartura na mesa não abrange os seus lares, nunca. Master Kent, o proprietário das terras, devido à mão-de-obra que, mesmo sendo vasta não é suficiente, em busca de melhor retorno financeiro, manda um primo seu vir visitá-lo, a fim de poder contar com o conselho e gestão das suas terras por uma pessoa de fora, mais habituada às novas técnicas agrícolas. Ele era apenas um gestor de pessoas, não de máquinas. Com a chegada de novos forasteiros, com visão oposta às da população, uma ameaça pairará na pequena aldeia. Incêndios, torturas, mortes, deserções e mistérios farão parte da narrativa após as primeiras duas dezenas de páginas, e terão uma voz que as narrará ao leitor: Walter Thirsk, um agricultor, um dos poucos que sobreviveu para contar a história.

Colheita é um romance intrincado, que questiona, mais do que dá respostas. A prosa é rica, metódica, linguisticamente criativa, e é dada a conhecer paulatinamente, via frases curtas. Jim Crace não necessitou de quatrocentas ou quinhentas páginas para revelar como o progresso varre o passado e distancia as pessoas do mundo natural, a que pertencem. O final do romance poderia ter sido melhor compreendido se o autor não tivesse tanta relutância em descortinar mais o enredo, os factos sobre os personagens centrais. Contudo, essa omissão premeditada (ou não) não conta demasiado para que este romance não seja classificado como um belo livro.

Além de Colheita, que chegou às livrarias portuguesas a 18 de Março, Jim Crace é autor de outros doze livros; desses, para português foram traduzidos os seguintes: pela Difel: Continente (1988), eQuarentena (1999), A Morte nas Dunas (2001) e Arcádia (2006) pela Gradiva.
Data de Publicação: 18/03/2014N.º de Páginas: 216

http://silenciosquefalam.blogspot.pt/2014/03/colheita-de-jim-crace.html

Este foi um livro finalista de vários prémios internacionais, no decurso do ano de 2013, sendo, até, apontado, na altura, como favorito ao prémio final. Apesar de não ter ultrapassado a “shortlist”, esta obra recebeu, no entanto, vários elogios em jornais prestigiados e várias estrelas de mérito em blogues de cariz literário.

Jim Crace, o seu autor, não é propriamente um desconhecido. Há mesmo quem o considere “um dos grandes escritores do nosso tempo”, ocupando “um espaço próprio entre os romancistas ingleses dos nossos dias”.

E é mesmo na Inglaterra do feudalismo de outros tempos, no despertar da revolução industrial, que se passa a história que ele nos conta em “Colheita”.

Sem nunca especificar o local, o narrador fala-nos de uma aldeia remota, segura, perdida dos centros urbanos mais próximos; e nomeia o final de um qualquer verão como o tempo histórico dos acontecimentos.

Pelos olhos e voz de Walter Thirks, é-nos descrito o quadro de um número reduzido de aldeãos que, por lá, vivem pobremente do amanho da terra; labutam arduamente, de sol a sol, segundo o ciclo da mãe natureza, e recolhem os produtos que ela lhes dá, ao ritmo das variações climatéricas das estações do ano.

O ambiente harmonioso entre eles e Mr Kent, o proprietário da casa senhorial que os tutela, é perturbado, a certa altura, por um grupo de viandantes desconhecidos, errantes, com hábitos diferentes dos daquela pequena sociedade agrícola e, também por isso, mal recebidos.

As tensões crescem, os problemas sucedem-se, mas a ameaça que sobre eles paira não fica por aí. E o que se segue, com novos rostos de perigo e devastação, é a ruína dos fundamentos do modo de vida daqueles que naquela comunidade rural entretinham relações sociais de uma forma pacífica e cooperante; até à sua própria destruição.

Razões tradicionais de sucessão de bens, assim como a vontade de melhorar a gestão das terras e a desejada apropriação dos terrenos comunitários e de cultivo para a introdução de novas técnicas agrícolas, vão atingir a confiança dos laços familiares e de vizinhança, o âmago da moralidade e dos costumes.

A violência instala-se e irá reduzir tudo a cinzas.

Num espaço de sete dias, Walter, o único que, na aldeia, sobrevive a este desmoronamento, dá-nos conta da desorganização de uma agradável ordem social, dos estragos e aflições na localidade e dos preparativos inesperados e rudes para a iniciação da produção industrial.

Ele tornou-se um trabalhador agrícola, mas as suas origens permitiram-lhe ser mais esclarecido que os demais e  observador do meio que o circunda e da sua própria rotina. Gosta de discorrer sobre temas que o preocupam, mas o seu relato não deixa de ser sombrio, dorido, inquietante, cheio de questões, dúvidas e perplexidades.

Embora não muito longa, esta não é uma narrativa de leitura fácil. A história é densa, complexa, contada na primeira pessoa, com muito pouco diálogo. Nela misturam-se relatos de factos acontecidos em diversos tempos do passado com acontecimentos presentes e até reflexões suscitadas por uns e outros.

É, não obstante, um livro muito interessante; algo instrutivo sobre tempos e sociedades que já não voltam, sem ser encomiástico da vida campesina.

É, de certo modo, uma viagem à História, viva e demonstrativa de que o progresso desagrega as comunidades nas suas relações intergrupais, nos seus usos, costumes e apego à terra-mãe.

A prosa de Crace é rica, criativa, lírica e detalhada, despertando no leitor emoções que o levam até ao final.

http://dosnossoslivros.blogspot.pt/2015/02/colheita-jim-crace.html

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Carlos Drummond - Carta a Stalingrado


3 de fevereiro de 2018 - 17h59
Drummond: Carta a Stalingrado
A barbárie nazista foi derrotada em StalingradoA barbárie nazista foi derrotada em Stalingrado
No dia 2 de fevereiro de 1943 o Exército Vermelho infringiu em Stalingrado uma memorável derrota contra as forças nazistas que haviam invadido a URSS. Foi o começo do fim para Hitler e seus parceiros nazistas. 

Poema de Carlos Drummond de Andrade 

Em Stalingrado, o ridículo e sanguinário “Reich dos Mil Anos” foi ferido de morte e os soldados soviéticos começaram a marcha para o oeste que só terminariam em Berlim onde, em 8 de março de 1945, impuseram a rendição final à Alemanha nazista.

Stalingrado tornou-se sinônimo mundial do heroísmo e da luta pela pátria e pelo socialismo que, no Brasil, Carlos Drummond de Andrade cantou neste poema.

A banda Bassoti, formada por operários da periferia de Roma (Itália), ligados à esquerda italiana, notória pelos shows que promove contra o imperialismo e em apoio aos povos do mundo, especialmente os palestinos, gravou a música que acompanha o poema de Drummond (José Carlos Ruy). 

Stalingrado

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas 
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, 
e o hálito selvagem da liberdade 
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem, 
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, 
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, 
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida. 

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder, 
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, 
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos; 
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, 
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate, 
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, 
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, 
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.


Do livro Rosa do Povo (1945). In Carlos Drummond de Andrade. Poesia e Prosa. Rio de janeiro, Editora Nova Aguilar, 1983


Banda Bassotti - Stalingrado

Da redação do Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/204991-1

Fame e macerie sotto i mortai
Come l'acciaio resiste la citta'
Strade di Stalingrado, di sangue siete lastricate
ride una donna di granito su mille barricate
Sulla sua strada gelata la croce uncinata lo sa
D'ora in poi trovera' Stalingrado in ogni citta'

L'orchestra fa ballare gli ufficiali nei caffe'
l'inverno mette il gelo nelle ossa
ma dentro le prigioni l'aria brucia come se
cantasse il coro dell' Armata Rossa

La radio al buio e sette operai
sette bicchieri che brindano a Lenin
e Stalingrado arriva nella cascina e nel fienile
vola un berretto, un uomo ride e prepara il suo fucile
Sulla sua strada gelata la croce uncinata lo sa
D'ora in poi trovera' Stalingrado in ogni citta'


https://www.youtube.com/watch?v=CpTzWFNkbvg

Francisco Louçã - Leonor vai formosa e não segura

* Francisco Louçã

OPINIÃO

Leonor, cavaleira da mais insigne ordem de cavalaria, que não leu Camões nem se enfadará com a mitologia do Tosão de Ouro, sabe pelo menos que as monarquias são um conto de fadas para as revistas cor-de-rosa.

3 de Fevereiro de 2018, 7:57 

Leonor decerto não conhece Luís de Camões, nem nunca lhe sopraram carinhosamente aqueles versos, “Descalça vai para a fonte/Leonor, pela verdura;/vai formosa e não segura”. No Centro Privado de Enseñanza de Santa Maria de los Rosales, Leonor não cuida de trovas portuguesas. Também o que lhe interessaria esta homónima tão antiga, que “Leva na cabeça o pote,/o testo nas mãos de prata,/cinta de fina escarlata,/sainho de chamalote;/traz a vasquinha de cote”, e ainda por cima “vai formosa e não segura”? Leonor vai segura e mesmo certa, sem lho terem citando, ou porventura tendo ouvido demais, de que “chove nela graça tanta/que dá graça à formosura”. Mas Camões não entra naquele colégio, onde estuda a única pretendente a um trono europeu que frequenta o ensino privado.

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Leonor também não se lembrará do Duque de Borgonha, Filipe III, que levava o curioso cognome de O Bom, sabe-se lá por que artes. Já passou tempo demais, quase 600 anos, pois foi nos idos de 1429 que sua Alteza criou a Ordem do Tosão de Ouro, “uma das ordens de cavalaria mais prestigiosas e antigas da Europa”, apressa-se a explicar a Wikipedia, que sabe tudo.

Leonor talvez não tenha ouvido a história graciosa da Argo, essa nave que atravessa a mitologia, comandada por Jasão, acompanhado dos filhos dos melhores da Antiguidade, lá estava Hércules, filho de Zeus, Teseu, o maior herói grego, Orfeu e tantos outros, corajosos Argonautas navegando pelos mares em nome de uma vingança dinástica e para encontrarem o Tosão de Ouro, esse que deu nome à ordem de cavalaria. Newton, dado a cosmologias, calculou pela posição dos astros que a busca tivesse ocorrido no ano 939 antes da nossa era, portanto há 2957 anos. Como é que Leonor haveria de saber da aventura?

Leonor também não deve ter visto a lista dos cavaleiros da Ordem do Tosão de Ouro, apreciaria ela cruzar-se com Sarkozy, tacões altos no Salão Real, o rei da Arábia Saudita, a única família que dá nome ao seu país, o czar da Bulgária, o rei da Tailândia, o Grão-Duque do Luxemburgo, tudo boa gente, e, mais mundanamente, o chefe da NATO e um banqueiro, garbosos cavaleiros do Tosão? Mas Leonor saberá, e certamente apreciará, que desde o tempo da sua mãe até as mulheres passaram a poder receber a insígnia, e ela é uma das primeiras a pregá-la ao peito (um íman escondido garantia não haver riscos com o alfinete, esclarecem as revistas).

Saberá Leonor que a Ordem do Tosão de Ouro tem os seus dissidentes, que a Casa de Bourbon, que veio de terras francesas, e que em Espanha se ajustou a Bórbon, tem uma ramo austríaco, e quem sabe se algum mais por aí, que, sabedor da importância das insígnias, reclama um Tosão próprio, o mais verdadeiro, o que a deixa a ela como a pretendente de linhagem pura ou como uma usurpadora, vá-se lá saber?

Lembrar-se-á em todo o caso Leonor, princesa das Astúrias, de lhe ter sido concedida essa graça aos 10 anos. Mas teve de ter paciência. A insígnia, a condecoração mais distinta de Espanha, só lhe foi entregue agora aos 12, pelo pai, o rei, não podia ser cavaleira enquanto ainda fosse uma criança. A aplaudi-la, estavam na cerimónia vinte jovens da sua idade, dos 11 aos 14, todas vencedoras de um concurso de redacção em que tinham que desenvolver o tema fascinante, “O que é um Rei para ti?”. Diz uma revista que estas vencedoras da pena “trouxeram a sua frescura à solenidade da cerimónia”, ficam tão bem ao lado dos hussardos que ocupam os cantos do salão, de espada em riste.

Leonor, cavaleira da mais insigne ordem de cavalaria, que não leu Camões nem se enfadará com a mitologia do Tosão de Ouro, sabe pelo menos que as monarquias são um conto de fadas para as revistas cor-de-rosa.

https://www.publico.pt/2018/02/03/opiniao/opiniao/leonor-vai-formosa-e-nao-segura-1801812?

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Um texto de Charlot

* Charles Chaplin

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!


Charles Chaplin - Poema da Noite

* Charles Chaplin


Já chorei vendo fotos e ouvindo musica;
Já liguei só para ouvir uma voz;
Me apaixonei por um sorriso;
Já pensei que fosse morrer de saudade;
E tive medo de perder alguem especial... (e acabei perdendo)
Já pulei e gritei de tanta felicidade;
Já vivi de amor e fiz muitas juras eternas... "quebrei a cara muitas vezes!"
Já abracei para proteger;
Já dei risadas quando não podia;
Já fiz amigos eternos;
Amei e fui amado;
Mas tambem já fui rejeitado;
Fui amado e não amei...


Sebastião da Gama - Pelo sonho é que vamos

* Sebastião da Gama

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

Partimos. Vamos. Somos.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Hamurábi Bezerra Batista - A história de José Martí contada em cordel


28 de janeiro de 2018 - 18h24 

  


 

A história de José Martí e da revolução cubana
 Autor: Hamurábi Batista

Ele veio à luz em Cuba
A 28 do mês
No final desse janeiro
Do ano 53
Do século dezenove
José Matí, havanês.
 Mariano era o seu pai
 De Valência natural
 Leonor Perez Cabrera
 A sua mãe afinal
 Foi jornalista e filósofo
 Poeta, e intelectual.
Desde a sua mocidade
Suas ideias eram várias
E demonstrou simpatias
Das mais revolucionárias
Que havia entre os cubanos
Germinando aquelas áreas.
 Quando tinha quinze anos
 Uma rebelião surgiu
 Em busca da independência
 O grito bravo e hostil
 Que libertou aos escravos
 Desafiando o poderio.
Foi Carlos Manuel de Céspedes
Quem essa façanha fez
A luta de várias décadas
Começou naquela vez
Daquelas grandes pelejas
Nós destacaremos três.
 Teve a Guerra dos Dez Anos
 Ou Grande Guerra chamada
 Também a Guerra Chiquita
 Durante um ano travada
 E a Guerra Hispano-Cubana
 Ou Guerra Chica falada.
Numa escola secundária
Que cursou na adolescência
Do mestre Rafael Mendive
Nutriu a grande influência
Contra o domínio espanhol
A total independência.
 Iniciou na política
 O seu ativismo honrado
 Nuns jornais separatistas
Diretamente empenhado
Mas seu professor Mendive
Foi preso e após deportado.
 Com a prisão de seu mestre
 Cristalizou sua luta
 Numa atitude rebelde
 Muito forte e resoluta
 Versus a Espanha invasora
 Acrescentando à disputa.
No ano 69
Aos seus dezesseis de idade
Publicou folhas impressas
E fez a publicidade
De ideias separatistas
E o rumo da liberdade.
 Distribuiu um periódico
 Numa intenção temporária
 Por esse motivo preso
 Em uma ação arbitrária
 Por divulgar conteúdo
 De ordem revolucionária.
Pelo invasor espanhol
Foi ele então condenado
A seis anos de prisão
Sob trabalho forçado
 Que acabou resultando
 Bastante debilitado.
Sendo assim que conseguiu
A um indulto obter
No ano 71
Para dalí ocorrer
Deportação para Espanha
Onde passou a escrever.
 Seu estilo idealista
 Mui presente e vigoroso
 O tornara conhecido
 E bastante estudioso
 E dedicou se ao Direito
 Com um zelo prestimoso.
Da República Espanhola
Viu sua proclamação
Quando escreveu sua crítica
À grande contradição
“Revolução na Espanha
E lá em Cuba a opressão.”
 No ano 74
 O doutorado ele fez
 Em Letras, Filosofia
 Como também fez em Leis
 Naquela universidade
 Que em Zaragoza perfez.
No ano 75
Para o México partiu
Se aproximando de Cuba
O objetivo incluiu
Com a população indígena
José Martí interagiu.
 Sendo assim intensificou
 O que batalhava em prol
 A luta contra o racismo
 E o clamor de sol a sol
 A exploração da igreja
 E o domínio espanhol.
Quando a Guerra dos Dez anos
Finalmente terminou
Seguindo destino a Cuba
Jose Martí regressou
E com Calixto Garcia
Ao Comitê que fundou.
 Um ano de seu regresso
 De novo foi deportar
 Quando da Guerra Chiquita
 Não pode participar
 Mas pros Estados Unidos
 Foi da Espanha pra lá.
Em Nova York entretanto
Ao Comitê organiza
O seu primeiro discurso
Nos States realiza
Forças revolucionárias
Num chamado prioriza.
 “Com lágrimas não se conquista
 Para os direitos o endosso
 Para o futuro sombrio
 Se abandonarmos o esforço
 Da nossa terra assolada
 E sufocada no fosso.”
Viajou pra Venezuela
No ano de 81
Achou com Simon Bolívar
A identidade em comum
“Os latinos das Américas
O povo todo é só um.”
 Far-se-ia a pátria livre
 E próspera a sua classe
 Se dos Estados Unidos
 A gente se afastasse
 E cultivasse o cultura
 Que ela mesma criasse.
Fundou o PRC
No ano 92
Escreveu um documento
Pra insurreição que propôs
Chamado de Montecristi
O Manifesto que expôs.
 E regressou para Cuba
 Do Haiti proveniente
 Quando seiscentos soldados
 De forma surpreendente
 Emboscaram-no num ataque
 Deveras muito potente.
Em 19 de maio
Foi baleado e abatido
Sendo depois destacado
Por mentor reconhecido
Da Revolução Cubana
Diretamente influído.
 José Martí das Américas
 Ele é de todos países
 Do continente é a voz
 Das lutas as mais felizes
 Pra derrotar o império
 As principais diretrizes.
Do imperialismo nascente
A denúncia efetivar
Das terríveis consequências
Que poderá provocar
Caso os revolucionários
Não consigam se ajuntar.
 “Pois o revolucionário
 Não busca por seu prazer
 Porém o lado que possa
 Habituar-se ao dever
 Pois os seu sonho de hoje
 É Lei que amanhã vai ser.”
“Ardentes e ensanguentados
Dos séculos, no caldeirão
Notou a ferver os povos
Ao dirigir sua visão:
No futuro a diferença
É resultante da ação.”
 FIM

http://www.vermelho.org.br/noticia/307060-1
De Vitória (ES),  Cláudio Machado para o Portal Vermelho


http://www.vermelho.org.br/noticia/307060-1

Gabriel Mithá Ribeiro - Como Saramago forçou Pessoa a converter-se ao comunismo 49 anos depois de morto

Especiais
LITERATURA

Gabriel Mithá Ribeiro
25/1/2018, 10:32296

O efeito literário tentado por José Saramago resulta num jogo de espelhos em que a ficção serve de escudo a ambições ideológicas panfletárias cujo valor intelectual e cultural é quase nulo.

Talvez por não ter resistido à beleza da capa amarela com o título manuscrito da nova edição da Porto Editora ou por outro qualquer desígnio decidi ler «O Ano da Morte de Ricardo Reis». A escrita de José Saramago embala desde a primeira página pela criatividade e qualidade da forma. Porém, quanto mais se avança na leitura mais se esboroa o valor intelectual do conteúdo. Isso pela impossibilidade de desfiliar a narrativa de certos traços políticos demasiado óbvios do contexto em que foi originalmente publicada: 1984. Tal facto cruza o livro de José Saramago com a premonição de George Orwell revertida no título do seu livro. «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro» tipifica a manipulação da linguagem no duplo sentido em que o manifesto verbal tem uma relação inversa com o resultado prático da ação.

«O Ano da Morte de Ricardo Reis» joga numa variante dessa duplicidade: anuncia-se como ficção com contextualização histórica, porém faz um inverso. Retrata a Península Ibérica nos anos de 1935-1936. Entre inúmeras possibilidades de escolha, a máquina cultural ultra seletiva do estado difunde ativamente «O Ano da Morte de Ricardo Reis» pelo suposto valor intelectual e cultural, isto é, não estamos perante um objeto menor na construção da memória coletiva dos portugueses.

Ressalvo, todavia, não estar em causa a falsificação de factos históricos. Mas é justamente porque José Saramago os trata com rigor que não é tolerável que sejam conjugados com propósitos de adulterar o sentido do tempo histórico. Para isso, importa insistir na data da publicação original d’«O Ano da Morte de Ricardo Reis»: 1984.

Vivia-se no contexto da guerra fria (1945-1991) e, à época, era impensável a implosão da URSS, ainda que a pátria-mãe do comunismo se afundasse numa crise, mas que se assemelhava a uma pausa para regeneração após o auge da superpotência soviética na década de setenta. O paralelo com a superpotência rival justificava-se. Os EUA tinham atravessado uma crise profunda na década anterior condicionada pelo primeiro choque petrolífero (1973), pela derrota na guerra do Vietname (1973) e pelo escândalo do Watergate (1972-1974). Todavia, na década de oitenta, os EUA estavam de regresso ao papel de liderança no sistema internacional profundamente regenerados.

Portanto, o livro é produto de um contexto em que permanecia intacta a crença numa URSS que poderia reinventar-se, apesar de atolada na guerra do Afeganistão (o Vietname soviético) e da enorme discrepância entre o seu poderio militar e político e as profundas debilidades de uma economia estagnada pelo comunismo. A crença no ideal é transportada com tal intensidade para o livro a ponto da construção ‘ficcional’ ficar dominada por propósitos idênticos aos do filme «A Revolução de Maio» (1937), obra propagandista do regime de Salazar, realizada por António Lopes Ribeiro, ridicularizada n’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» (1984). Contudo, o efeito literário tentado por José Saramago resulta num jogo de espelhos. Num e noutro caso, a ficção serve de escudo a ambições ideológicas panfletárias cujo valor intelectual e cultural é quase nulo, por muito que os formatos se escondam em muitas imagens, palavras ou enredos.

O que move uma e outra ficção é a conversão dos descrentes, por via de uma relação amorosa improvável entre os protagonistas, a um amor profundo a uma causa maior inicialmente rejeitada pelo lado masculino. Este enredo simplório tanto visa a conversão dos descrentes às virtudes da governação de Salazar (‘fascismo’), como às escolhas políticas não menos virtuosas de Saramago (comunismo). O que distingue o último é ter necessitado de mais de quatro décadas, de muita investigação de arquivo (sobretudo da imprensa), de um interminável arrazoado de 494 páginas e de uma grande ausência de pudor na artimanha da evangelização póstuma de uma das maiores (senão mesmo a maior) figura intelectual portuguesa do século XX, Fernando Pessoa, para pagar na mesma moeda à «A Revolução de Maio».

Para os que continuam e continuarem vivos, substantiva é a diferença entre a saúde mental de não ambicionarem salvar do ridículo a propaganda política de um filme de 1937 comparativamente à indigência mental de fazer ascender a propaganda política em livro de 1984 à categoria de obra-prima, peça essencial que justificou a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1998, portanto, após o colapso da URSS em 1991. A decisão da academia sueca conferiu a um extenso panfleto político rudimentar a dignidade de ser ensinado em universidades e escolas, por várias gerações, como suprassumo da lucidez intelectual. «Mas julgaes que n’isto se resume a litteratura portugueza? Não! Mil vezes não!» – escreveu José de Almada Negreiros em 1916-1917.

Em 1984, com a pátria-mãe do comunismo intacta, tal como as certezas num rumo da história que faria eclipsar o ideário ocidental capitalista decadente, José Saramago permite-se ironizar, recorrendo a estereótipos, sobre os comunistas com intuito de tornar óbvio o injustificado ridículo das críticas ao comunismo na época de Salazar. A questão é que o tempo está a transformar as ironias de 1984 num tiro que sai pela culatra. Entre os anos da escrita e a atualidade, por um lado, o comunismo sofreu um cataclismo e, para desgraça do autor, quem ler o livro no contexto do século XXI terá razões de sobra para fazer interpretações literais sobre o ridículo do comunismo que José Saramago esconde a coberto dos ridículos dos regimes conservadores da época. Por outro lado, hoje a relação dos europeus ocidentais consigo mesmos não é a mesma dos anos oitenta. Daí resulta uma erosão significativa da construção intelectual de José Saramago, sintoma infalível de má literatura.

«O Ano da Morte de Ricardo Reis» confere sentido irónico, com sabor a ridículo, ao facto de ter existido, na Europa dos anos trinta do século XX, um punhado de movimentos políticos preocupados em defender uma (subentende-se) indefensável civilização ocidental. Como a atualidade pós-guerra fria foi recolocando o assunto na ordem do dia, a suposta obra-prima de José Saramago fica sem pé. Pelo menos para uma parte dos portugueses e europeus é hoje mais do que legítimo rejeitar que o estado, por via do sistema de ensino, lhes impinja, e à respetiva descendência, uma obra que destrata a sua inteligência e convicções. Só um estado autoritário ou totalitário insiste em impor-se com obras como a de José Saramago à pluralidade da vida social, algo com que não se incomodam as atuais elites intelectuais e culturais.

Não sendo viável apontar outros aspetos de um livro extenso, sublinho que a aproximação ao epílogo (entre as páginas 449 e 494) desfaz as dúvidas. O ponto de referência da entrada no epílogo são as referências a Miguel Unamuno, intelectual nacionalista que teve papel ativo no início da guerra civil da sua Espanha (1936-1939). O português José Saramago esgrime argumentos pró-esquerda fortíssimos contra uma figura histórica de direita, mas de um tempo histórico que não é o seu. Na prática, José Saramago faz-se autor de uma vitória apoteótica de um intelectual vivo sobre um intelectual morto. Nem sei se é possível encontrar uma designação que disfarce a indignidade da ‘técnica’ literária.

Miguel de Unamuno é, na leitura de José Saramago, a personificação do mal, entre os que melhor representa o óbvio lado mau que atenta contra a vida do povo sofredor, fazendo parelha com a igreja, as chefias militares e a demais elite rica nacionalista espanhola, conjunto que começa a ser retratado através dos que se exilaram em Lisboa no Hotel Bragança ou que se exibiam nos «Estoris» durante a guerra civil, nos bairros da gente rica da linha de Cascais. Depois, com a força da sua pena literária, José Saramago invade mesmo a Espanha durante a guerra civil – mas em 1984… – em defesa dos que congregam todas as virtudes: a Frente de Esquerda que estava a ser derrotada. A esta, José Saramago abençoa as atrocidades praticadas pelos seus, atrocidades tidas como selváticas se perpetradas pelos conservadores, com uma descrição pungente do que se passou na praça de touros de Badajoz (p.466, mas que deve começar a ser lida pelo menos a partir da p.462).

Nesse olhar seletivo sobre a violência que nada deve a um sofisticado panfleto soviético, é claro que n’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» o repugnante Victor, intelectualmente limitado e com intenso cheiro a cebola, só poderia ser quem é: agente da PVDE [antecessora da PIDE]. Com uma imaginação literária que não dá para mais, José Saramago quis fazer história e, parece que a contragosto, teve de compor um ramalhete de personagens ajustado à utopia em que se destaca Lídia, mulher do ‘povo’ com hábitos de vida desempoeirados e sem estudos, o reverso das elites. É uma empregada de hotel carregada de dignidade e de bons sentimentos, em especial em relação ao seu irmão resistente comunista, Daniel Martins, no epílogo morto na rebelião da marinha no Tejo [8 de setembro de 1936].

Lídia, incansável trabalhadora cuja simplicidade, lucidez e amor desinteressado, que se se submete ao prazer carnal do parceiro, acabam por converter à causa comunista o médico Ricardo Reis, homem rico, conservador e poeta recém-chegado do Brasil nas últimas semanas de 1935 por causa da morte do seu criador, Fernando Pessoa. O último tem direito a circular entre os vivos mais nove meses após o funeral por existir um tempo equivalente para o abandono definitivo da vida ao que existe na sua entrada, os nove meses de gestação. O morto, Fernando Pessoa, vai acompanhando a conversão de Ricardo Reis às virtudes do comunismo que o último, ou ambos, carregam para a eternidade quando finalmente se fecham no túmulo em 1936.

A obsessão de José Saramago com uma certa ideia de ‘povo’ em 1935-1936, tipificando-o em Lídia, tem o senão de ignorar que a I República (1910-1926) tinha caído dez anos antes precisamente por desprezar um povo conservador, rural e católico. Esse mesmo povo que, em 1917, tinha gerado o fenómeno popular das aparições de Fátima, marco na reconstrução identitária dos humildes por si mesmos contra humilhações impostas pelo radical anticlericalismo republicano. A peregrinação a Fátima de 1936 não escapa à sátira de José Saramago. Como bom comunista, é tão incapaz de retratar o que funda a dignidade do povo (com tudo o que de ambíguo isso comporta), quanto extraordinariamente hábil em fabricar um tipo de ‘povo’ que quase só existe na cabeça do escritor.

Considerando que o clímax d’«O Ano da Morte de Ricardo Reis» é a conversão de Fernando Pessoa, por via do heterónimo Ricardo Reis, quarenta e nove anos depois de morto aos encantos do comunismo, estamos perante uma grosseria intelectual bem mais corrosiva para a cultura e identidade portuguesas do que a propaganda do Estado Novo com o filme «A Revolução de Maio». No mínimo, o filme de 1937 e o alter-ego em livro de 1984 deveriam ter o tratamento que merecem em universidades e escolas: exemplos de ridículo intelectual.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/