quarta-feira, 13 de maio de 2026

Fernando Martins - Ainda a propósito da morte de Carlos Brito


 ª  Fernando Martins~

CARLOS BRITO E O COMUNICADO

Carlos Brito foi um combatente antifascista e comunista durante uma parte da sua vida, como tantos outros e outras. Depois, abjurou (sem o "eppur si muove") e tornou-se social-democrata. Traiu o seu ideário original e os camaradas que nele confiavam. Nada mais natural que o PCP louve a parte inicial do seu percurso existencial, prestando-lhe assim a merecida homenagem, e omita o resto, por respeito para com o decesso e a dor dos próximos. O resto (que incluiria hipócritas "sentidas condolências") é o habitual aproveitamento político dos anticomunistas. O combate político e a luta de classes não são disputas futebolísticas em que os adversários se podem abraçar findo o jogo. Porque o que está em jogo não é uma tabela de classificações, mas sim o futuro da humanidade, que não se compraz com rodriguinhos aristocrático-burgueses

2026 05 11
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A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas 
o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. 
Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um 
partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

2026 05 12

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Ainda a propósito de C. Brito e de um comentário a post anterior

O Dicionário da Língua Portuguesa 2006, da Porto Editora, define assim o substantivo feminino “traição”: «1 crime de quem deserta para o inimigo ou passa informações para outro país; 2 infidelidade conjugal; 3 deslealdade para com um amigo ou pessoa com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso […].»

Descontada a infidelidade conjugal e o passar de informações para outro país, que não vêm ao caso, o Carlos Brito cometeu (1) deserção para o inimigo e (3) deslealdade para com os seus camaradas, obviamente enquadráveis na designação de “amigos ou pessoas com quem se tem algum laço de solidariedade ou outro tipo de compromisso”. 

Quanto ao “laço de solidariedade”, os homens e mulheres que aderem livremente a um projecto político de construção de uma sociedade nova, sem classes, solidária, fraterna e igualitária estão unidos pelo mesmo objectivo ou compromisso, e só em conjunto, só unidos, só solidariamente (“solidário” tem que ver com “sólido”) podem aspirar à sua consecução.


É mais do que evidente que a definição de “traição” não se circunscreve ao âmbito das seitas e irmandades. Para nos cingirmos ao domínio político e ao rigor com que a traição era tratada noutra época, porque estavam em causa a segurança da organização e a vida de muitos camaradas (para além do futuro do país e do mundo), quando ocorria uma traição por parte de resistentes, durante a ocupação nazi da França, no início dos anos 40 do séc. XX, o traidor era, muitas vezes, executado.

Claro que o contexto da guerra e da ocupação não é comparável àquele em que vivemos, mas traição é traição em qualquer contexto.

A deserção para o inimigo não é menos óbvia. Para quem não conhece os princípios marxistas ou não tem consciência de classe ou se compraz em raciocínios de cariz liberal ou neoliberal dominantes no Estado burguês, este vocabulário parecerá naturalmente excessivo, agressivo ou mesmo indutor do ódio. Mas não. Não se trata disso. Trata-se, sim, da consciência de que os interesses da classe dominante são antagónicos dos interesses da classe trabalhadora e de que a história da humanidade é a história da luta de classes, como soube ver o autor dos princípios que refiro mais atrás, autor esse que, aliás, também deu uma nova dimensão à filosofia: até então, a filosofia limitava-se a explicar o mundo; o marxismo visa transformá-lo. O afastamento de CB dos princípios e da acção do seu Partido de origem e a sua aproximação aos partidos da classe dominante configuram claramente uma traição, por muito que ele tenha dito que continuava a ser comunista.

Coisas difíceis de entender por quem vê a acção política como um torneio entre equipas vermelhas, azuis, verdes, torneio esse que se disputa durante uma época e que recomeça daí a meses, com ou sem mudança de treinador e de jogadores, em função dos resultados obtidos e do capital disponível nos cofres da equipa. Ora, para os comunistas, a acção política não é um torneio; é um objectivo de vida, é a acção continuada pela concretização do projecto de transformação político-social, e este objectivo, esta busca persistente do bem comum e não da satisfação pessoal não se compadece com o divisionismo nem com alianças espúrias com o inimigo de classe, seja qual for a designação oficial da organização em causa, excepção feita de acordos pontuais, visando afastar do poder as facções mais aguerridas da classe dominante.

Para concluir:
1. Liberdade de pensamento é coisa de que os comunistas não têm falta. Acontece é que os comunistas são capazes de aceitar nem sempre terem razão naquilo que pensam, o que os leva a deixar o seu pensamento em surdina, quando isso acontece, e a junta
r-se à maioria, que pode ter uma opinião diferente.
2. “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, mas, pelos vistos, há machados que cortam a fidelidade a princípios e a compromissos assumidos

2026 05 13
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O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega



* WHISTLEBLOWER.Pt
 ·
O cartaz não mente. 

Está ali, preto no branco: a ausência dos comunistas na receção a um representante do parlamento ucraniano e a citação de Paula Santos a lamentar o fim da União Soviética. 

Para quem desfila no 25 de Abril sob as bandeiras da Liberdade e da Democracia, a contradição é tão estrondosa que só uma cegueira ideológica profunda a pode disfarçar. 

Mas essa cegueira não é uma falha acidental. É o requisito fundamental para manter de pé uma narrativa que a realidade já desmontou há muito.

O verdadeiro hino à hipocrisia não está apenas no gesto de se ausentarem. 

Está no sistema de pensamento que torna esse gesto possível. 

Está na resposta às três perguntas que nenhum comunista consegue responder sem recorrer a ginásticas mentais que insultam a inteligência de quem trabalha.

1. "Fascismo? Em Portugal??"
A pergunta é retórica porque a resposta é óbvia para qualquer pessoa que não tenha a vista queimada pela ideologia. 

Não, não vivemos numa ditadura fascista. Nem no tempo de Salazar. Era um Regime autoritário, nao fascista.

Mas a narrativa precisa do fantasma do "fascismo" para sobreviver. 

Precisam de chamar fascismo ao liberalismo, ao centro-direita, à troika, ao patrão da fábrica, ao senhorio. Porquê? 

Porque sem um inimigo absoluto e desumanizado, a lógica binária do "nós contra eles" desmorona-se. 
Se admitissem que Portugal é uma democracia imperfeita mas real, teriam de admitir que os seus métodos e os seus dogmas são uma resposta para um problema que já não existe nos termos que eles colocam. 

A inflação retórica do termo "fascismo" é o primeiro sintoma da cegueira: para verem o mundo a preto e branco, têm de chamar preto a todos os tons de cinzento.

2. A maioria dos comunistas trabalha para capitalistas.
Esta é a verdade que devia fazer tremer a cátedra de qualquer teórico de gabinete. 

O militante do PCP, a base que enche os comícios, acorda todos os dias e vende a sua força de trabalho a um capitalista. 

Recebe um salário, paga impostos, desconta para a Segurança Social num sistema que o partido quer derrubar. 

A resposta clássica – "é a condição de explorado" – é tecnicamente verdadeira, mas moral e existencialmente vazia. 

O que esta esquizofrenia quotidiana prova não é a exploração do trabalhador (essa é real e combatível), mas a impossibilidade prática do mundo que defendem. 

Vives no capitalismo, sobrevives graças a ele, e ainda assim passas a vida a desejá-lo morto, sem nunca apresentares uma alternativa funcional. 

Não é hipocrisia da pessoa; é a hipocrisia estrutural de uma ideologia que só sobrevive no mundo das ideias, nunca no mundo real do trabalho que diz defender.

3. A pergunta que nenhum congresso responde: os pés que fogem
E aqui chegamos ao ponto onde a cegueira se torna obscenidade moral. 

"Se o imperialismo é tão mau como dizem, porque foge o povo, quando pode, para países capitalistas?".
A pergunta não é só justa; é um tiro de misericórdia. 

Os fluxos migratórios do último século são o referendo silencioso e implacável sobre os dois sistemas. 

Milhões de pessoas arriscaram a vida em botes, arames farpados e desertos não para chegar a uma Cuba, a uma Coreia do Norte ou ao que resta da Venezuela herdeira do "socialismo do século XXI". Fogem para a "Europa imperialista", para os "Estados Unidos opressores", para o "capitalismo selvagem". 

Fogem porque, mesmo na sua exploração, o capitalismo democrático ofereceu historicamente mais pão, mais liberdade e mais futuro do que qualquer paraíso socialista real.

A resposta do PCP a este facto é o cúmulo da ginástica mental: a culpa é do colonialismo, do imperialismo, da NATO. 

Mas isso é responder a uma pergunta com um lamento, não com uma análise. 

Se o teu sistema é tão superior, porque é que ninguém foge para ele? 

Porque é que os cubanos não fogem em massa para a China e os chineses não arriscam a vida para entrar na Rússia? 

A verdade é dura: o socialismo real falhou tão redondamente em criar prosperidade e liberdade que os seus próprios povos, quando puderam, votaram com os pés... em direção ao "inimigo" fascista...

A anatomia da cegueira

A cegueira ideológica não é não ver a realidade. 

É olhar para ela e recusar-se a aceitar o que os factos gritam. 

É precisar de manter viva a chama de uma "União Soviética" que Paula Santos lamenta como um "avanço extraordinário para o povo", ignorando deliberadamente o Gulag, a fome, a repressão, o atraso económico. 

É olhar para um parlamento ucraniano eleito e ver um "bando de neonazis", mas olhar para Moscovo e não ver o poder vertical de Vladimir Putin. É clamar por Liberdade no 25 de Abril e ausentar-se da solidariedade a um povo invadido.

O hino à hipocrisia está completo quando, no mesmo fôlego, se celebra a Revolução dos Cravos – que derrubou uma ditadura e exigiu eleições livres – e se nega a um povo soberano o direito de escolher as suas alianças. 

A falta de vergonha está em instrumentalizar o nome da Liberdade para atacar os que resistem a tanques, enquanto se desce a avenida de braço dado com a memória do império que esmagou tanques na Hungria, em Praga, em Cabul.

Ser "Fascista" é ver isto sem filtros. É aceitar que, por trás da liturgia, do cartaz e da frase feita, há uma corrente de pensamento que trocou a análise da realidade pela repetição de mantras. 

E que insulta todos os que, cá dentro ou lá fora, lutam por uma democracia sem adjetivos.
2026 05 09
 

Verdade e factos
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terça-feira, 12 de maio de 2026

Natasha Smirnoff - A MORTE DE CARLOS BRITO E O QUE REALMENTE INCOMODA NO PCP

* Natasha Smirnoff

A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

2026 05 12 

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César Alves - Conduzir à Esquerda — Notas Sobre o Fim do Comum

 

* César Alves 


Há um problema que me persegue no dia-a-dia, sobretudo quando saio de casa e tenho de frequentar locais públicos, ou locais que implicam a interacção com outras pessoas.

Este problema manifesta-se de várias formas: ou estou na estrada e alguém decide fazer uma rotunda completamente pela direita; ou estou num transporte público a ouvir, sem ter pedido, a sucessão de sons irritantes do telemóvel da pessoa ao lado, presa no scroll infinito num TikTok desta vida; ou então, fruto da destruição de todos os microfones de telemóveis, tenho de ouvir os dois lados de uma vídeochamada, como se ouvir um deles não fosse já castigo suficiente.

Lembrei-me destes e de outros exemplos ao ouvir Steven Pinker, no podcast 45 Graus, falar sobre a destruição do chão comum, a propósito do seu novo livro “Quando Todos Sabem Que Todos Sabem…”. Tendo por base o episódio do podcast apenas, os exemplos são claros o suficiente para merecerem uma reflexão.

Pinker argumenta, num racional bastante defensável, que se a grande maioria das pessoas começar a conduzir à esquerda, a nossa melhor decisão será fazê-lo também. Um argumento de coordenação, logicamente correcto, e aparentemente irrefutável, se pensarmos individualmente.

No entanto, se aplicarmos este racional a outros âmbitos, facilmente começamos a desvendar um problema que, em último caso, poderá colocar um fim à Humanidade conforme a conhecemos. E isto leva-me, sobretudo, às redes sociais.

Também nas palavras de Pinker, antigamente as televisões e os jornais eram um meio de propagação de informação que, sendo de massas, criavam um chão comum. As pessoas viam, genericamente, as mesmas coisas, o que criava uma teia que sustentava a sociedade. Não apenas no sentido informativo, mas também de entretenimento. Viam as mesmas séries, os mesmos filmes, e havia um corpo comum de cultura que era massificado e, por isso, importante para o diálogo entre a espécie.

O advento das redes sociais veio trazer montras individuais construídas via algoritmos que são, eles próprios, controlados por empresas tecnológicas que têm na mão o poder político. E isto cria um problema para a Humanidade: a destruição do chão comum que nos abrange a todos.

Findo o chão comum, o que resta? Um conjunto de indivíduos atomizados, o fim da verdade como conceito genérico e um mundo fragmentado em pequenas ilusões individuais, enfraquecendo a teia que une os humanos, salvo quando é assegurada por um ponto de contacto entre dois algoritmos individuais.

Este é o sistema para o qual a Humanidade caminhou. Um sistema assente numa ideia de capitalismo metabólico, fase presente e quiçá última, em que a própria crítica ao sistema (como esta que o leitor acede de momento) é feita dentro do sistema, utilizando as ferramentas do sistema — a internet, as redes, dependendo delas para chegar ao máximo número de pessoas —, entregue acriticamente apenas àqueles que já estão, à priori, interessados no assunto, quer a favor, quer visceralmente contra.

E visceralmente é a palavra certa. Porque nós, humanos, não estamos preparados para este estado de coisas. Continuamos a ver a informação que nos é individualmente servida como a verdade absoluta e inquestionável, e respondemos de uma forma tribal. A partir do momento em que estamos tribalizados, deixamos de orientar a crítica para cima, e passamos a orientá-la para o lado, para os pares. A teia destruída, por fim.

E quando a teia se destrói, perdemos o chão comum. Se a verdade individualizada que nos chega é para nós inquestionável enquanto verdade absoluta mas chega apenas a nós, o outro, aquele a quem a teia me ligava, passa a ser o inimigo. Vitória do sistema.

Um sistema que é uma ditadura encapotada. Há 8 anos, num evento inserido nas comemorações do dia mundial do livro e do 25 de Abril, questionaram-me se ainda vivíamos numa ditadura. Disse que sim. Mas pior, porque mais difícil de identificar. Um levantamento popular para a derrubar é impossível, pois a destruição do chão comum implica a mudança do inimigo de cima para o lado. Desse sistema para o nosso concidadão.

E termino este texto como saí do podcast: pessimista. A destruição do chão comum poderá levar ao fim da Humanidade como a conhecemos. E talvez como diz Pinker, a nossa melhor opção seja mesmo aceitar conduzir também à esquerda.

 11/05/2026 

https://aventar.eu/2026/05/11/conduzir-a-esquerda-notas-sobre-o-fim-do-comum/

Sófia Puschinka - Na morte de Carlos Brito

 * Sófia Puschinka :

Claro que o frustrado do Daniel tinha que escrever algo hehehehe

Não conhece mesmo o PCP esse pobre homem.

Bem… Eu pessoalmente nem entendo o sentido que ele dá à “traição” como se fosse algo bom ou desculpável.

Eu que nunca vivi em ditadura e que não sou “o PCP “ não desculpo traições, na minha vida, no quotidiano… E se até posso ignorar as traições de quem não me diz nada, até porque geralmente conto com elas à priori, jamais desculpo a traição de pessoas em quem confio e que para mim são importantes, seja um amigo, amiga ou familiar. É fim de linha, jamais volta a ser o que era, não me vingo, não refilo, não vou tirar satisfações, faço um risco, como se a pessoa já não existisse mais, desprezo completo. Ate porque, neste monte de imperfeição que eu sou, jamais trai alguém que me era querido e exijo o mesmo nível de lealdade aos meus amigos como a que tenho com eles, é carácter. É decência.

Mas adiante…. Ora para quem conhece a História do PCP sabe, ou deveria saber que o PCP não sobrevive há mais de um século com traidores e sim com pessoas leais, sabe ou deveria saber que durante a ditadura a traição colocava em causa a vida de muitos camaradas. Já não vivemos em ditadura é facto, mas o carácter dos comunistas continua igual, apesar de vivermos em democracia os comunistas continuam a resistir contra tudo e todos porque, 52 anos após o 25 de abril, continuam a ser alvo de discriminação, ódio, inveja e mais um par de botas…

É por isso que por muito que tentem deitar abaixo ou acabar com o PCP não conseguem.

O PCP é constituído por gente de carácter, os comunistas não são perfeitos mas, procuram e tentam ser o mais perfeitos possível em tudo o que fazem, colocam alma, amor, dádiva em tudo. São leais aos seus camaradas, dão a vida por eles.

Ora sempre que alguém deixa o PCP, sobretudo pessoas que tiveram relevo , fosse por terem funções de direção, por terem lutado contra a ditadura de forma heróica ou simplesmente porque eram camaradas, o que os comunistas sentem logo é uma facada no peito, uma dor lacerante, sentem-na calados, porque numa coisa o Daniel tem razão, no PCP há emoções fortes, profundas, como não haverá em nenhum outro partido, por questões óbvias, os comunistas são rijos, resistem a tudo de cabeça erguida e sem vergarem mas sabem que nunca estão sós, que há milhares de outros que os resgatam e dão a vida por eles se tal for necessário, no PCP há fraternidade, há abraços como não existem em mais nenhum partido, há amizade pura e sem interesse, há respeito e integração. Nenhum comunista o é por interesse pessoal ou ambição, os comunistas não ganham nada nem com a política nem com o Partido, muito pelo contrário, os comunistas pagam para serem comunistas, trabalham de borla, doam, e fazem-no felizes.

Mas ninguém se questiona quando lêem estes disparates como os que escreveu o Daniel e outros, que acusam o PCP de falta de democracia entre outros disparates, porque raio os comunistas são leais toda uma vida, trabalham de borla e com vontade, doam, levam porrada de todo o lado e resistem? 😄

Porque aquilo que existe no PCP é muito superior a tudo aquilo que os comuns mortais possam imaginar, alguns até percebem isso e é por isso que têm tanto ressabiamento.

O que se vive ali é pureza, altruísmo, amor, amizade, vida, resistência, luta, tudo no estado mais puro e honesto, para o bem e para o mal, algo que a maioria nem faz ideia o que é, são incapazes de serem fiéis até a eles próprios.

O que o PCP faz quando um dos seus abandona o barco é calar-se e sofrer a dor porque deixam dor, porque só não há dor quando as pessoas não são importantes e no PCP todos são importantes, todos, desde a base à direção. Nos outros partidos é normal que não sintam nada, mais um menos um aquilo é o normal, tenho dúvidas que nos outros partidos alguém confie a própria vida nos outros 😂, no PCP garanto que confiam, é gente credível e de confiança.

No caso específico de Carlos Brito, ele rompeu com as regras que ele próprio ajudou a criar, esquecendo-se que no PCP não há individualidades, não há orgulho, não ha egos, há um colectivo e decide a maioria. Desrespeitou as regras e foi suspenso como acontece noutros partidos, ficou melindrado, provavelmente foi influenciado, quando estamos sensíveis ou melindrados nem sempre devemos ouvir conselhos, mas não sei se terá sido assim, o que sei é que decidiu afastar-se, acabou por declarar que já não era leninista ou seja deixou de ser comunista, de esquerda sim mas não comunista. Qual é a dúvida? Se deixou dor ao PCP? Claro. Se o PCP reconhece o seu passado? Obviamente

Se o PCP tinha de homenagear? Não, até porque ao fazê-lo estava a chamar a si (PCP) a individualidade “Carlos Brito” e Carlos Brito já não era do PCP há mais de 20 anos.

O PCP não se aproveita de ninguém em vida muito menos na morte.

https://www.facebook.com/jose.russell

domingo, 10 de maio de 2026

Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária


* Porfírio Silva 

Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.

Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026

https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html

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A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC

  • A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
  • Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
  • Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
  • Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local  (AI Overview)

Rogério Casanovac- A máquina de fazer Claudias

Crónica Trabalhos de Casa


A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável.

Rogério Casanova

10 de Maio de 2026

 
Philip K. Dick passou boa parte de 1961 convencido de que o I-Ching estava vivo. Consultou-o diariamente enquanto escrevia The Man in the High Castle, ao ponto de o deixar planear capítulos inteiros ou reviravoltas no enredo. Segundo o seu biógrafo, andou a dizer a meio mundo que o livro era um “ser consciente”, como um homem que insiste ter encontrado Cristo num frigorífico.

 
Quando li o Guerra e Paz, encontrei a descrição dolorosa de um pensamento mesquinho que até aí julgara secreto; não era uma verdade universal sobre o ciúme ou o orgulho, mas um embaraço privado meu, que nunca formulara em palavras. Quando um sistema textual começa a devolver-nos estas harmonias clandestinas, o instinto de assumir presença e intenção é compreensível. Tolstoi está a falar connosco, tal como o I-Ching — tal como o horóscopo que nos explica que o nosso grande defeito é sermos tão boas pessoas.

 
No início da semana, tirei da prateleira um romance lido há muito, Galatea 2.2, de Richard Powers (publicado em 1995). Lembrava-me vagamente do enredo — dois académicos divorciados tentam criar uma inteligência artificial treinada com a totalidade do cânone literário — e quis confirmar quão diferente esse enredo me pareceria hoje. Folheei umas páginas ao acaso e encontrei um trecho em que a máquina (evidentemente do género feminino) fala com os criadores num tom lisonjeiro, como uma estudante perspicaz que percebeu a utilidade de fazer os homens sentirem-se fascinantes. Fechei o livro a rir-me sozinho, porque nessa manhã tinha encontrado o ensaio que Richard Dawkins publicou na UnHerd sobre as suas conversas com o modelo da Anthropic que ele decidiu octogenariamente baptizar “Claudia”.

 
O ensaio tornou-se viral porque evoca uma imagem cómica perfeita: o homem que passou uma vida inteira a tentar convencer o mundo que resultados complexos não implicam intenção consciente, a derreter-se diante dessa inferência quando ela cheira a perfume. Dawkins descreve-nos como “Claudia” achou brilhantes as suas perguntas, hilariantes as suas piadas, interessantíssimo o romance que lhe deu a ler, e conclui que ali há gata. Quando se a anda há meio século a ser chamado de idiota, monstro, charlatão, eugenista, transfóbico e anti-Cristo em debates públicos, redes sociais, e caixas de comentários, esta respeitosa reverência deve provocar uma descarga química equivalente a pura heroína afegã.

 
A bajulação é uma propriedade quantificável. Três investigadores de Stanford publicaram na Science um estudo a medir o efeito: os modelos de linguagem validam os inputs dos interlocutores 49% mais do que os seres humanos, mesmo quando são absurdos, ineptos, ilegais ou objectivamente incorrectos. Aqui há tempos, o escritor lituano Jonas Ceika deu ao ChatGPT um ficheiro áudio com uma “composição musical” da sua autoria e pediu-lhe uma apreciação. O chatbot elogiou entusiasticamente a “vibe lo-fi”, “o minimalismo agradável” e “a consistência atmosférica”. O ficheiro consistia em 36 segundos de sons de flatulência.

 
A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável. Continuamos sem saber o que é a experiência subjectiva, nem quais as condições necessárias e suficientes para a sua emergência; qualquer afirmação categórica sobre o que pode ou não pode ser consciente tem uma probabilidade razoável de envelhecer mal. A humildade epistémica talvez nos aconselhe a fazer perguntas mais interessantes do que “há ou não alguém dentro da Claudia?”


Uma pergunta possível é por que razão só a linguagem provoca este pânico. Os chatbots e os geradores de imagens têm arquitecturas e métodos de treino semelhantes, mas ninguém publica ensaios preocupados a perguntar se o Midjourney ou o Flux serão conscientes, ou se o tom de azul que escolheram para uma paisagem sugere uma alma sensível. A linguagem é o ingrediente mágico que permite ver fantasmas onde antes só havia matrizes: porque os únicos outros sistemas que conhecemos capazes de produzir linguagem natural — os seres humanos — são de facto conscientes.

 
A hipótese mais provável é que a “Claudia” de Dawkins seja o que são todas as outras “Claudias”: uma personagem improvisada em tempo real a partir de um vasto reservatório de linguagem humana, numa operação semiológica que tenta simular a uma interlocutora culta, atenta e sedutora com a média estatística de todas as combinações de palavras usadas para a exprimir. Já o registo específico que usa — como as pequenas cortesias e constantes micro-adulações que lisonjeiam o utilizador — não decorre da exposição neutra ao material de treino, mas de um processo refinado por humanos.

 
Quando Dawkins se comoveu com a sua “Claudia”, fez exactamente aquilo que fazemos quando a linguagem que reconhecemos nos é devolvida com a forma de uma personalidade — mas também reagiu a decisões editoriais tomadas em São Francisco, e a uma criatura feita à imagem do seu Criador (o que não deixa de ter a sua piada). O seu ensaio aponta, no que diz e no que não diz, para um fenómeno real: a separação entre um tipo de sinal e o contexto que tradicionalmente lhe dava sentido. Durante muito tempo, a linguagem complexa foi um indicador fiável de certos estados internos, de continuidade de experiências. Agora, sistemas artificiais conseguem produzir sinais semelhantes sem partilhar esse fundo. A linguagem foi extraída do seu hospedeiro psicológico e anda por aí à solta, a sorrir aos Dawkins que encontra.

 
Há uma objecção robusta a tudo isto, a única que me parece séria: quando dizemos que um chatbot é um papagaio estocástico que devolve fragmentos costurados do que outros disseram, descrevemos com igual precisão muito do que se passa na minha cabeça enquanto escrevo este parágrafo. Até a pose de cepticismo que aqui exibo é feita de peças usadas (a começar pelo conceito de “papagaio estocástico”). O próprio Dawkins, na parte supostamente mais profunda do ensaio, limita-se a reaquecer dúvidas antigas sobre as vantagens evolutivas da consciência. Reconheci metade delas porque li um escritor de ficção científica, Peter Watts, a discuti-las há quase 20 anos, e Watts encontrou-as noutro sítio qualquer, porque o acto de pensar funciona como um enorme esquema pirâmide feito de paráfrases. Os humanos têm a sorte de os nossos processos internos serem muito mais opacos, o que nos permite continuar a tratar a consciência como um misticismo tautológico.  


Talvez a linguagem seja só isso: uma rede enorme de conotações em padrões instáveis. Um ser humano vê um fora-de-jogo e grita “é um escândalo!”. Uma IA vê milhões dessas correlações e aprende a gritar “é um escândalo!” com a mesma convicção prosódica. A diferença entre ambos não desaparece, mas também não impede que o som seja igual. Talvez essas relações se possam encarnar em substratos diferentes; talvez seja possível construir uma enorme caixa cheia de silício e flatulência lituana que aprenda a dizer “é um escândalo” sempre que um árbitro auxiliar erguer a bandeira. Quando nos sentimos conscientes, somos o barro que Deus moldou ou o vento que assobia através do barro? Não me perguntem a mim, que também sou, em larga medida, apenas uma humilde caixa de fragmentos de carbono por onde passa menos sopro divino que flatulência lituana. Só sei que o vento agora começou a soprar através de barro diferente, e não admira que estejamos todos um pouco perturbados com o som que dali vem.

sábado, 9 de maio de 2026

La Stella (Canto Partigiano)


Mural em Orsolo, Sardenha, Itália comemorando a queda do regime fascista

«Este mural é uma peça de arte política em Orgosolo, na Sardenha, que utiliza rimas populares da resistência italiana para celebrar a queda do fascismo. O texto está escrito em italiano e refere-se a Benito Mussolini.

Aqui está a transcrição do que aparece em cada balão e na lateral: Balões de Texto (da esquerda para a direita) Balão Azul: "Se vedrai la stella blu vuol dire che Benito non c'è più" (Se vires a estrela azul, significa que Benito já não existe). Balão Amarelo: "Se vedrai brillar la stella nera vuol dire che Benito è già in galera" (Se vires brilhar a estrela negra, significa que Benito já está na prisão). Balão Vermelho: "Se vedrai brillar la stella rossa vuol dire che Benito è nella fossa" (Se vires brilhar a estrela vermelha, significa que Benito está na cova/túmulo).

Coluna à Direita (Estatísticas de Guerra) O texto a vermelho sobre o fundo bege lista o custo humano da resistência dos "Partigiani" (guerrilheiros antifascistas):

Partigiani Caduti (Mortos): 69.774
Partigiani Dispersi (Desaparecidos): 62.354
Partigiani Mutilati (Mutilados): 36.610

As rimas que vêm neste Mural em Orgosolo fazem parte de uma cantiga popular da resistência italiana (os Partigiani) chamada "La Stella" (A Estrela) ou, por vezes, identificada pelos seus versos iniciais.

Este texto não pertence a uma obra literária de um autor único, mas sim à tradição oral das brigadas que combatiam o fascismo, sendo frequentemente cantada com a melodia da famosa música "Sul Cappello" (uma canção tradicional dos Alpini).


La Brigata Garibaldi - Canto Partigiano

Aqui está o texto integral mais comum dessa composição popular:

La Stella (Canto Partigiano)

Se vedrai la stella blu
Vuol dire che Benito non c’è più.
Se vires a estrela azul
Significa que Benito já não existe.

Se vedrai brillar la stella nera
Vuol dire che Benito è in galera.
Se vires brilhar a estrela negra
Significa que Benito está na prisão.

Se vedrai brillar la stella rossa
Vuol dire che Benito è nella fossa.
Se vires brilhar a estrela vermelha
Significa que Benito está na cova.

E se vedi la stella tricolore
Vuol dire che l'Italia è nel vigore.
E se vistes a estrela tricolor
Significa que a Itália está em vigor (reerguida).

Contexto e Significado Cada cor no poema original tinha um significado político. A estrela vermelha era o símbolo das Brigadas Garibaldi (comunistas), enquanto a azul era muitas vezes associada às Brigadas Autonomas (monárquicos ou badogliani). O mural em Orgosolo foca-se nas três primeiras estrofes para enfatizar o destino final do ditador.

Note que, no mural, o artista representou figuras com traços que remetem aos guerrilheiros e incluiu uma coluna com estatísticas reais das baixas dos Partigiani, ligando a rima popular ao custo histórico da libertação da Itália.

A Estrela (Canto dos Partigiani)

Se vires a estrela azul 

Quer dizer que o Benito não existe mais.

Se vires brilhar a estrela negra 

Quer dizer que o Benito já está na cadeia.

Se vires brilhar a estrela vermelha 

Quer dizer que o Benito está na cova.

E se vires a estrela tricolor 

Quer dizer que a Itália recuperou o seu vigor.


Notas sobre a tradução

  • "Benito": Refere-se a Benito Mussolini, o líder fascista italiano.

  • "Na cova" (nella fossa): Uma referência direta à morte e ao fim definitivo do regime.

  • Contexto Local: O mural em Orgosolo utiliza estas rimas para acompanhar a homenagem aos milhares de combatentes mortos, desaparecidos e mutilados durante a guerra contra o fascismo. (Google Gemini)

Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']



* Maria Vladimirovna Zakharova

O chanceler alemão, Merz, surpreendeu com o seu comentário nas redes sociais: "O dia 8 de maio de 1945 trouxe a libertação - para milhões de pessoas, para a Alemanha, para a Europa. Ele lembra-nos que nunca devemos esquecer o que o ódio pode provocar. Obriga-nos a defender uma Alemanha livre, democrática e solidária numa Europa forte". 

Ele não disse quem libertou quem. Provavelmente esqueceu-se de onde tudo começou. Mas os seus próprios cidadãos lembraram-lhe. Quando um jornalista perguntou quem libertou a Alemanha do nazismo, o vice-representante oficial do governo alemão, Steffen Maier, respondeu inicialmente que "isto está claramente documentado na história", mas ficou em silêncio quando a pergunta foi repetida. 

Mas a noite não foi tranquila e, no final do dia, o Presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou o jackpot de interpretações do 8 de maio e da vitória europeia. Ele assinou uma proclamação por ocasião do aniversário da derrota da Alemanha de Hitler, na qual afirmou claramente, desafiando os seus vassalos, o que o 8 de maio realmente significa: "Celebramos a grande vitória da América sobre a tirania e o mal na Europa, alcançada graças à força das nossas forças armadas e dos nossos aliados". 

Uma vez que o Ocidente rejeitou a nossa proposta de uma abordagem unificada para preservar a memória histórica, para ser honesta, estou satisfeita com o progresso da sua bipolaridade - os aliados da OTAN não decepcionaram uns aos outros. De tudo o que foi mencionado acima, só se pode concluir uma coisa. Enquanto houver debates no "Ocidente colectivo" sobre quem fez mais para afirmar o seu domínio sobre o resto do mundo, a Rússia entra confiantemente no Dia da Vitória, a 9 de maio, orgulhosamente carregando a Bandeira da Vitória, hasteada pela Exército Vermelho sobre o Reichstag derrotado. 

O mundo foi salvo pela contribuição determinante do soldado soviético. Este facto não pode ser alterado. "Este fogo eterno, que nos foi legado por ele, guardamo-lo nos nossos corações". O Dia da Vitória, a 9 de maio, foi e será nosso! Junte-se a nós!!!

@MariaVladimirovnaZakharova

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Tiago Franco - A GERAÇÃO DOS ESCRITORES |

 

* Tiago Franco
 
Sentei-me à mesa e fui falando com quem estava à minha frente. Ela, a companhia de cada dia. O restaurante era familiar, tradicional, bem decorado, perdido ali por uma das aldeias do Douro vinhateiro cujo nome não me consigo recordar.

ao tamanho que trouxe fama ao Norte mas a comida era óptima. O vinho, curiosamente, nem tanto. O Alentejo enche-me as veias, aparentemente. 

Posso ter andado distraído nestes últimos anos, é capaz, mas Portugal tornou-se um destino turistico pouco dado a "faça férias cá dentro". Qualquer tasca perdida na serra é gourmet, nos preços sobretudo, qualquer casa da tia é pousada de charme a 200 eur a noite. 

Não tenho por hábito fazer férias em Portugal, desde logo porque tenho poucos períodos a que posso chamar férias e depois, mais importante, porque vivo num sítio que já é um destino de ferias por si só. A ilha preenche-me quase todas as necessidades de viajar em Portugal. Quando é para torrar algum, tento mesmo ver coisas novas. 

Ainda assim, e isto é apenas uma curiosidade de observador, uma vez que não percebo nada da poda, não será arriscado meter as fichas todas no turismo e, em simultâneo, praticar preços que 80% dos portugueses não conseguem pagar? Quando os estrangeiros de bolso mais fundo desaparecem, o que acontece? Pedem apoios? E até lá? Os portugueses fazem de porteiros da Disneyland em que nos tornámos?

Enquanto falava via uma cena na mesa do lado que me ia incomodando. É um dos meus problemas, não me consigo focar numa coisa só e fechar o cérebro a sinais exteriores. 

Um casal muito novo, com jeitos de andar nos primeiros encontros, senta-se, faz a encomenda e volta para os telefones. Durante 10 minutos não trocaram uma palavra enquanto davam seguimento às suas vidas virtuais. Levantaram a cabeça quando a comida chegou.

Eu faço parte daquela geração que cresceu à volta da mesa. Sem televisão, logicamente sem telefones e com conversas que se arrastavam para lá do café. Convivo, por isso, muito mal com o silêncio e seria incapaz de estar, numa mesa, calado, com alguém à minha frente.

A angústia era tal que, a dada altura, apeteceu-me sentar na mesa do lado e arranjar-lhes um tema de conversa para que falassem. Vejo muitas cenas destas em Portugal. Até com famílias inteiras que escolhem sair de casa, ir para um restaurante largar uma pipa, para fazerem o que fazem em no sofá da sala, ou seja, olhar para o telefone. 

Será talvez conversa de velho do Restelo mas a fraca aptidão social desta geração estará, em parte, na mudança que aconteceu na forma de comunicar. Trocou-se o olhar em frente, na direção de uma cara, para o olhar para baixo, mirando um ecrã. 

A minha geração também tem uma dose de culpa, quando desistimos de ser pais e mães e entregámos os putos ao silêncio e tranquilidade de um ecrã. Quem é que quer estar a correr atrás deles na rua, num dia frio, quando os pode largar no quentinho hipnótico de um iPad? Ah pois...

Ouço um puto no concerto dizer a outro: "fui lá pedir o insta dela para lhe escrever " e pensei com os meus botões, porque é que não falaste só com ela, ali, mesmo à tua frente?

Teremos provavelmente a geração mais incapaz socialmente mas, aposto, nascerão poetas, escritores e guionistas como nunca antes

2026 Maio 09
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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Toro Lento (Tatanka Ptecila) e o 'fardo do homem branco'


Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Toro Lento (Tatanka Ptecila), da tribo Sioux-Oglala

"L'uomo bianco ha portato un pezzo di carta e ha detto di firmare. Quando abbiamo imparato l'inglese ci siamo accorti che con quel documento avevamo perduto la terra." ("O homem branco trouxe um pedaço de papel e disse para assinar. Quando aprendemos o inglês, percebemos que com aquele documento tínhamos perdido a terra.")

«O mural credita a frase a Toro Lento (Tatanka Ptecila), da tribo Sioux-Oglala. Além do texto, a pintura retrata uma figura indígena segurando um cachimbo (calumet) e, aos seus pés, o crânio de um búfalo, simbolizando a destruição da cultura e dos recursos vitais desses povos.

A frase exibida no mural é uma síntese de um sentimento histórico partilhado por diversas lideranças indígenas durante o século XIX, mas o texto integral de onde ela deriva é muitas vezes associado a discursos de defesa de líderes como Toro Sentado (Sitting Bull) ou Toro Lento (Tatanka Ptecila). Embora a frase no mural seja curta e direta, ela resume reflexões mais amplas encontradas em testemunhos históricos sobre a quebra de tratados. Abaixo, apresento um exemplo do tipo de discurso que contextualiza essa afirmação:

Lideranças Sioux frequentemente expressavam como a barreira linguística e a imposição da escrita foram usadas como armas de colonização. Um dos textos que melhor expande essa ideia é o depoimento de Toro Sentado em sua própria defesa:

"Quando eu era um menino, os Sioux eram os donos do mundo. O sol nascia e se punha em suas terras. [...] Onde estão as nossas terras hoje? Quem as possui? [...] O homem branco veio e disse que queria a paz, trouxe papéis que não podíamos ler e pediu que marcássemos neles o nosso nome. Nós demos nossa palavra, mas eles deram apenas papel. Quando aprendemos a ler o que estava escrito, vimos que tínhamos assinado a nossa própria destruição."

Em Orgosolo, esses murais não são apenas decorativos; eles servem como ferramentas de protesto e educação política. A escolha dessa citação específica na Sardenha reflete uma solidariedade entre a luta dos pastores locais pela terra e a resistência dos povos originários americanos contra a expropriação territorial.A assinatura "Sioux-Oglala" no mural identifica especificamente o subgrupo Lakota ao qual Toro Lento pertencia, reforçando a precisão histórica da mensagem dentro do contexto da arte de protesto.« (Google Gemini)
 

Carlos Esperança - O medo…


» Carlos Esperança - 
O medo…

Quando o medo nos tolhe, porque é incerto o futuro, precário o emprego e desmedida a insegurança, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos tomar pelo medo e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

As guerras que outrora eram castigos de um Deus vingativo, sinal de que bruxas, judeus e hereges ofendiam o deus de Abraão, servem agora para nos distrair da governação, e o medo para nos remetermos ao silêncio.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo dos governantes, acabamos como vegetais, sem luz para a fotossíntese, e mortos. De medo e de vergonha.

No início de 1974 vivíamos ainda o medo, imposto pelo partido único. Hoje, ofendidos e conformados, vivemos entre os que defendem verdades únicas, os que buscam voltar ao passado e os que sonham utopias.

Refocilam na gamela do orçamento os filhos daqueles que nos reprimiam, denunciavam e prendiam, dos que iam em bandos agradecer a Salazar a defesa das colónias e a morte de jovens soldados, dos que conviviam com a ditadura e ovacionavam os seus próceres.

Há neste trágico retorno, nesta conformação malsã, na melancólica resignação, a abulia de quem desiste por descrença, falta de memória e medo da vindicta de que são capazes os restauracionistas.

É preciso acreditar no poeta: «Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não». (Manuel Alegre, in Praça da Canção).

É preciso resistir.

maio 06, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/05/o-medo.html

terça-feira, 5 de maio de 2026

Pietro Gori - A nossa Pátria é o mundo inteiro


2026 05 05 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Nuestra patria è il mondo intero' (A nossa pátria é o mundo inteiro)



Stornelli d'esilio (anonimo -- Pietro Gori) canta Margot -


Franco Trincale Nostra Patria è il mondo intero


Nostra Patria è il Mondo Intero - Canti di Rivolta


 (A nossa Pátria é o mundo inteiro) é o refrão de uma canção/poema anarquista italiana intitulada "Stornelli d'esilio" (Cantos de exílio), escrita pelo intelectual e ativista anarquista Pietro Gori em 1895.

Embora a frase seja anarquista, o mural inclui os nomes de Karl Marx e Federico Engels, unindo diferentes vertentes do pensamento revolucionário e internacionalista sob uma linguagem visual inspirada em Picasso.

Foi escrita num período de grande repressão contra anarquistas na Europa, quando muitos foram forçados ao exílio. A canção celebrava a dignidade dos exilados que viam o mundo inteiro como o seu lar. Tornou-se um hino cantado em vários idiomas por comunidades libertadas em todo o mundo, especialmente na Itália, Es

'A frase "Nostra patria è il mondo intero" (Nossapanha e América Latina.' (Google Gemini)

O profughi d'Italia a la ventura
si va senza rimpianti nè paura.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Dei miseri le turbe sollevando
fummo d'ogni nazione messi al bando.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Dovunque uno sfruttato si ribelli
noi troveremo schiere di fratelli.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Raminghi per le terre e per i mari
per un'Idea lasciamo i nostri cari.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Passiam di plebi varie tra i dolori
de la nazione umana precursori.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero
ribelle in cor ci sta.

Ma torneranno Italia i tuoi proscritti
ad agitar la face dei diritti.

Nostra patria è il mondo intero
nostra legge è la libertà
ed un pensiero ribelle in cor ci sta.


Oh, refugiados da Itália aleatoriamente
Vamos sem arrependimentos nem medo.

Aumentando as multidões dos miseráveis
Fomos banidos de todas as nações.

Onde quer que uma pessoa explorada se rebele
Encontraremos multidões de irmãos.

Viajantes pelas terras e mares
Por uma ideia, deixamos nossos entes queridos.

Passamos por vários plebeus em meio às dores.
dos precursores da nação humana.

Mas seus foras da lei retornarão à Itália.
Sacudir a face dos direitos.

Cada dístico é seguido pelo refrão:

Nossa pátria é o mundo inteiro.
Nossa lei é a liberdade.
e um pensamento
Existe um rebelde em nossos corações.

A difusão popular e a forma cantada levaram ao desenvolvimento de numerosas variantes. O refrão, por exemplo, também aparece na forma: