quinta-feira, 11 de junho de 2026

António José Seguro - Discurso no Dia de Portugal (2026)

* António José Seguro

«Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.»

Vitorino Nemésio nasceu aqui, nesta ilha. E nestes versos deixou aquilo que talvez só alguém criado entre o Atlântico e o céu aberto dos Açores poderia escrever: a ideia de que o mar não é apenas uma paisagem, é uma condição. Uma forma de ser no mundo.

O mar não é apenas a geografia que nos rodeia. O mar é memória, é destino e é carácter. Foi diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe.

Enquanto outros viam o fim da terra, os portugueses viram um caminho. E essa visão moldou a nossa alma coletiva: resiliente perante as tempestades, humilde perante a imensidão e determinada perante o desconhecido.

O mar ensinou-nos a partir, mas também a regressar. Ensinou-nos o valor da saudade, essa palavra tão nossa, que carrega distância e afeto ao mesmo tempo. Ensinou-nos que um povo pequeno em território terrestre pode ser grande em ambição.

Falar de mar é falar da identidade portuguesa.

É também por isso que quis estar aqui, em Angra do Heroísmo, no coração do Atlântico, para celebrar o Dia de Portugal.

Senhoras e Senhores,

Os Açores assumem um lugar singular na nossa identidade, na nossa história e no nosso futuro. Os Açores situam-nos num ponto estratégico da relação entre a Europa e o continente americano. Entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global.

Por todas estas razões, é um lugar que nos obriga a assumir especiais responsabilidades e deveres, no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico. Sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja com um país, seja com a comunidade internacional e a Carta das Nações Unidas. E na minha perspetiva, uma situação não está dissociada das outras.

Gostaria ainda de reafirmar que a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica. É o seu complemento natural.

O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança, que tem na NATO o seu pilar fundamental.

E o Atlântico faz parte da autonomia estratégica europeia, do ponto de vista político, económico, energético, tecnológico e de segurança e defesa.

Autonomia não significa isolamento. Significa liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados.

A garantia da segurança dos países europeus só é possível em articulação com os nossos aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a Paz, a Liberdade, os Direitos Humanos e o Multilateralismo. Valores que norteiam a ação das nossas Forças Armadas em Portugal e destacadas em missão por todo o mundo.

As Forças Armadas são um dos pilares fundamentais do Estado democrático.

A garantia permanente da soberania da República, da integridade territorial e da liberdade do povo português.

Quando a tempestade ameaça o horizonte e o medo percorre a terra, são elas que permanecem firmes, defendendo a paz em vez da guerra. Saúdo a vossa lealdade e a vossa dedicação e amor a Portugal.

Senhoras e Senhores,

Celebramos hoje também meio século de autonomia regional dos Açores e da Madeira.

Por isso, depois do Luxemburgo e da minha presença aqui, nos Açores, estarei amanhã na Madeira.

Esta presença nos dois arquipélagos projeta uma ideia a que atribuo um valor fundamental: Portugal é maior quando é plural. A unidade nacional não se faz pela uniformidade, faz-se pelo reconhecimento das diferenças. Um país capaz de gerir a sua própria diversidade interna tem mais capacidade para enfrentar os desafios que vêm de fora.

Em 1976, quando a Constituição da República consagrou a autonomia político-administrativa das regiões autónomas, havia quem duvidasse. Questionavam a capacidade das ilhas de se governarem. Duvidava-se da viabilidade de territórios fragmentados, ultraperiféricos, distantes dos centros de decisão. Duvidava-se, no fundo, de que a descentralização fosse compatível com a coesão nacional.

Cinquenta anos depois, a resposta dos Açores e da Madeira é inequívoca: a autonomia não enfraqueceu Portugal. Fortaleceu-o.

Criou instituições com legitimidade democrática. Desenvolveu políticas adaptadas às realidades locais. Gerou identidades regionais robustas que não contradizem a identidade portuguesa, antes a enriquecem.

Mas este aniversário não é um exercício de nostalgia. Deve igualmente ser um convite à lucidez. Porque cinquenta anos de autonomia revelam também o que ficou por fazer: as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas, o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas, a necessidade de um modelo de financiamento que reflita com mais precisão e mais justiça a especificidade destas regiões.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

O 10 de Junho é assinalado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas há quase meio século. Desde 1978.

Juntar ao Dia de Portugal a evocação de Camões e das Comunidades Portuguesas não foi um detalhe administrativo nem uma escolha inocente de palavras. Foi uma decisão profunda sobre a forma como os portugueses olham para si próprios, para a sua história e para o seu futuro.

Neste dia assinalamos muito mais do que um país com quase nove séculos de existência.

Celebramos uma comunidade histórica, uma memória coletiva, uma língua, uma ideia de pertença que atravessou guerras, crises, mudanças de regime, separações e reencontros.

Celebramos Portugal com as suas grandezas e contradições, com os seus erros e a sua extraordinária capacidade de resistência.

Celebramos Luís de Camões, talvez a expressão mais poderosa da consciência portuguesa. Porque nenhum outro poeta escreveu tão profundamente aquilo que fomos, aquilo que desejámos ser e aquilo que continuamos a procurar.

Depois de Camões, nenhuma cultura europeia produziu um poema nacional com semelhante densidade humana, simbólica e histórica.

Evocar a figura e a obra de Luís de Camões não significa escolher o passado e, muito menos, permanecer nele. Significa reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para o nosso modo de ser atual e para nos prolongarmos como povo.

É graças a Camões, também, que Natália Correia podia dizer, recordando os Açores, «Foi por línguas de fogo que aprendi a falar».

Camões continua entre nós porque escreveu aquilo que permanece no centro da experiência humana: o medo, a ambição, o amor, a perda, a coragem, a dúvida, a inveja, o desejo de grandeza e a fragilidade da condição humana.

Camões ensinou-nos a falar da beleza e da violência, da glória e do fracasso, do heroísmo e da miséria.

Ensinou-nos, sobretudo, que uma nação não se constrói apenas pelas suas vitórias. Constrói-se também pela capacidade de enfrentar as suas contradições.

Num país que, por vezes, parece dominado pelo ressentimento ou em conflito consigo próprio, todos já nos identificámos com Luís de Camões: num verso, numa imagem, numa frase ou numa passagem que sabemos de cor.

Numa das mais célebres passagens de “Os Lusíadas”, Luís de Camões interroga-se sobre qual poderia ser o nosso lugar de refúgio: «Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida» para «um bicho da terra tão pequeno?»
Nós somos esse «bicho da terra», frágil e à procura de um lugar a que pertencemos e onde nos sentimos protegidos. E esse lugar é Portugal.

Celebrar Camões, quinhentos anos depois, é também uma forma de sermos portugueses. Porque ele nos escreveu a todos.

É uma forma de continuarmos a celebrar uma língua antiga e que suscitou a Vergílio Ferreira uma das mais belas definições, e que tanto tem a ver com este cenário histórico e memorável cidade de Angra do Heroísmo: «Uma língua é o lugar de onde se vê o mundo. Da minha língua vê-se o mar.»

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Celebramos também as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. As que vivem no território nacional. E as que transportam Portugal consigo através dos continentes, das gerações e da distância.

A diáspora não é um complemento de Portugal. É uma das nossas maiores riquezas. Ainda há dias o voltei a confirmar, no Luxemburgo, onde estive com portugueses e lusodescendentes que constroem as suas vidas no centro da Europa sem deixarem de ser profundamente portugueses.

Comunidades unidas por uma língua, por referências comuns, por uma herança afetiva e cultural que o tempo transformou, mas nunca, mas nunca, destruiu.

A todos eles, onde quer que estejam, digo hoje: Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidirem.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Vivemos um tempo de trincheiras.

As ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros.

Neste tempo, faltam-nos cada vez mais as palavras do meio. Aquelas que não nascem entre muros, mas nos espaços abertos. As que não ficam sitiadas nem sitiam, mas que se abrem como convite ao diálogo e ao encontro.

As palavras do meio são mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento. São elas que permitem a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições, entre as ideias. São o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação.

Essas palavras do meio fazem parte de um dicionário que antecipa o próprio diálogo porque criam a disponibilidade para que ele aconteça. Têm a ver com o desejo do bem comum, com um desígnio coletivo, com um país unido, com liberdade de pensar e de criar. Ou, como escreveu Ruy Belo, falando de um «Portugal futuro», de «um país aonde o puro pássaro é possível».

A minha eleição para Presidente da República foi marcada pelo desejo de unir os portugueses e de unir Portugal. Mas unir o país não significa uma unanimidade artificial e indesejável. Significa reconhecer que a pátria é um chão comum e que nele há espaço para todos.

Não haverá democracia firme e pujante se os partidos não reconhecerem que a política, sendo um espaço de confronto, é também um lugar de compromisso. Um compromisso com a tolerância para quem pensa de forma diferente, para quem tem origens distintas, religiões e credos distintos, por forma a que Portugal seja, para todos, um chão comum.

Foi isso que nos permitiu ser o melhor do que fomos.

Senhoras e Senhores,

Este é um tempo que nos pede coragem. A coragem prática de fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo. De dizer a verdade mesmo quando é desconfortável. De investir no futuro mesmo quando o presente aperta. De defender o interesse de longo prazo mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo.

Este é também um tempo que nos pede humildade. A humildade de reconhecer que ninguém tem o monopólio das soluções. Que nenhuma região ou comunidade é dispensável. Que nenhuma geração é proprietária do país. Recebemo-lo em herança e temos a obrigação de o deixar em melhores condições para quem nos suceder.

É uma responsabilidade que não podemos escamotear e, por isso, no meu entender, este é, em particular, um tempo que nos exige ambição.

A ambição justa de não nos conformarmos com menos do que merecemos. A ambição de quem conhece o seu valor e se recusa a aceitá-lo como uma promessa adiada.

Olho para Portugal e vejo um país que tem mais do que aquilo que por vezes reconhece em si próprio.

Temos investigadores e cientistas cujo trabalho é reconhecido e premiado internacionalmente. Temos universidades que atraem estudantes de todo o mundo. Temos empresas que exportam com valor, que inovam em setores onde competem com os melhores e que vencem. Temos uma cultura que se expande pelo mundo através da língua, da música, da literatura, do cinema, das artes. É uma presença criativa que ultrapassa em muito o peso demográfico de um país de dez milhões de habitantes.

Temos uma língua falada por trezentos milhões de pessoas em todos os continentes. Uma língua que é simultaneamente um laço afetivo entre povos, um instrumento diplomático e um ativo económico de enorme valor e que ainda não soubemos aproveitar plenamente.

Temos jovens extraordinariamente qualificados. Jovens que aprenderam a ser competitivos num mercado global, que dominam línguas, que circulam entre culturas com uma naturalidade que as gerações anteriores não tinham.

No meu entender, e julgo que partilham a minha opinião, o problema não é o talento. Nunca foi o talento. O problema é que esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer.

O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração. A habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento.

Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. Isso é inaceitável e temos de o alterar.

Ao contrário da ladainha habitual, Portugal não pode cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres. O que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. Portugal precisa de si próprio na sua melhor versão. E isso está ao alcance de cada um de nós.
Precisamos de políticas que fixem talento em vez de o exportar. De salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses. De um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram. De um Estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente.

Precisamos de empresas que invistam em investigação e desenvolvimento e de um sistema financeiro que saiba avaliar o valor do conhecimento e não apenas o valor dos ativos tangíveis. Precisamos de universidades ainda mais ligadas ao tecido produtivo. De centros de investigação que transformem descobertas em soluções concretas para os problemas das pessoas e das empresas.

Precisamos, acima de tudo, de uma cultura de confiança.

Os países que crescem de forma sustentada têm algo em comum: os seus cidadãos confiam uns nos outros, confiam nas instituições e arriscam juntos porque acreditam que os outros vão cumprir a sua parte.

O presente não pode ser um bloqueio porque a capacidade de reinvenção é algo que a história portuguesa demonstra repetidamente. Não uma, mas várias vezes, em contextos radicalmente diferentes.

A capacidade de transformar limitações em oportunidades. De encontrar rotas quando os caminhos conhecidos se fechavam. De ser, quando necessário, mais do que as circunstâncias pareciam permitir.

Não inventei este Portugal. Está aqui, neste espaço, no trabalho silencioso de milhões de pessoas que todos os dias se esforçam para melhorar a sua qualidade de vida e dos seus filhos.

Está aqui, nos Açores, na Madeira, no continente e está na diáspora que, longe, continua a ser profundamente portuguesa.

Em todos os que constroem este país com competência e com dignidade, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Termino onde comecei, neste Atlântico que nos define e nos desafia.

Emanuel Félix, nascido aqui em Angra do Heroísmo, escreveu: «somos herdeiros de uma lembrança / de tesouros afundados / e arpoamos a esperança».

Sim. Somos isso. Herdeiros de uma memória longa, de conquistas e fracassos, de grandeza e fragilidade.

E projetamos a esperança com a determinação de quem sabe que o futuro se pode moldar consoante as nossas decisões, a nossa coragem e a nossa determinação.

A esperança é uma dessas palavras do meio, que, como já referi, combate a polarização. É também uma das melhores palavras desse novo dicionário que celebra o nosso tempo que há de vir, que desejamos e que ambicionamos.

Que neste Dia de Portugal possamos renovar a confiança no nosso país, na nossa capacidade de criar, de inovar e de enfrentar o futuro com coragem. Na verdade, é dar continuidade à vocação atlântica de abertura ao mundo, de diálogo e de humanidade.

Porque Portugal, tal como o mar, é feito de profundidade, de movimento e de infinito.
Viva Portugal!
Muito obrigado!
10 de junho de 2026

https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2026/06/discurso-na-cerimonia-militar-do-dia-de-portugal-de-camoes-e-das-comunidades-portuguesas/

João Miguel Tavares - O primeiro 10 de Junho de Seguro e os excessos de poesia

O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.

* João Miguel Tavares

11 de Junho de 2026

É um mal antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.

Em Portugal não temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar, que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.

Actualmente, os nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho. Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.

Esta carga poética cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa

Tivemos direito a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de tédio metade do auditório.

O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva, assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”


domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

A nossa desigualdade persistente tem raízes anteriores ao modelo neoliberal. Enquanto no resto do Ocidente a desigualdade diminuiu até aos anos 80 do século XX, sobretudo depois da construção dos seus Estados sociais, ela manteve-se elevada em Portugal durante a maior parte desse período, só tendo caído de forma significativa depois do 25 de Abril. Sendo tão persistente, cristalizou a convicção difusa de que as posições sociais têm uma justificação moral — o comportamento dos que estão em baixo. É assim que um dos países mais desiguais da Europa popularizou um estranho diagnóstico para si mesmo: a doença nacional não é o privilégio, é a inveja que ele alimenta. Quem nunca citou “a última palavra d’‘Os Lusíadas’”? O classismo tem, em Portugal, um retrato resistente: o pobre digno, humilde, que trabalha de sol a sol, que não exige, que não se queixa. Que não inveja. E assim se assinala, por exclusão, o pobre indigno: o que reclama, que faz greve, que recebe apoios. Enquanto a sede de justiça for um problema de caráter a desigualdade não será um problema de estrutura.

Mas o classismo tem uma ordem: começa no fundo das escadas, pelos mais frágeis, e vai subindo. Como é sempre a elite que produz as verdades incontestáveis de que se faz o senso comum, cada degrau é mobilizado contra quem está abaixo, poupando sempre, para não ser invejoso, quem está acima. E nunca percebendo que é o próximo a ser pisado. O primeiro degrau é do imigrante. Vem abusar dos apoios, não se integra, não quer trabalhar. Isto sobre contribuintes líquidos da Segurança Social indispensáveis para a nossa economia. Contra ele, leis de imigração e da nacionalidade mais restritivas. O segundo degrau é do pobre nacional que recebe apoios. Está encostado, faz do subsídio uma vida, também não quer trabalhar. Contra ele, 15 horas de trabalho obrigatório em troca de um apoio social, como se o problema fosse a preguiça, não a pobreza. O terceiro degrau é do trabalhador descontente. É um obstáculo à competitividade, faz greve em véspera do feriado e, claro, também não quer trabalhar. Contra ele, uma contrarreforma laboral que fragiliza quem já tem tão pouco poder na empresa. Um Governo sem um programa de modernização do país só tem de apostar nesta tripla.

Num país que, seja qual for o critério, gasta em proteção social uma percentagem do PIB significativamente abaixo da média europeia e muito abaixo do que as menos necessitadas França ou Finlândia, o RSI não é um privilégio, é a última rede. Podemos debater como tornar os apoios mais eficazes e orientados para a empregabilidade. Mas as 15 horas de trabalho obrigatório foram apresentadas sem estudos, dados sobre os beneficiários, estratégia de inserção ou clareza sobre a quem se dirigem e o que se pretende que façam. Porque, para além de esconderem os cortes em vários apoios, era a mensagem, não a função, que interessava: quem recebe apoios sociais é, em princípio, malandro, e o Estado vai pô-lo na ordem. Quem vive do preconceito não são precisos números. Da mesma forma que o Governo construiu toda a contrarreforma laboral no pressuposto de que os problemas de produtividade resultam de quem trabalha — quando todos os dados indicam o contrário — e uma lei da imigração com um apagão estatístico deliberado. Entretanto, os mesmos que exigem ainda mais vigilância e burocracia para um RSI cada vez mais minguado e recebido por cada vez menos gente vivem bem com a ajuda que o Governo deu aos patrões que não declaram os seus trabalhadores à Segurança Social. A burocracia é um escândalo para o empresário, construtor, agricultor ou investidor, em quem devemos confiar, mas é indispensável perante os abusos do pobre, que até passou a ter direito a um canal de bufaria.

A regulação da imigração, a natureza dos apoios sociais e o aumento da produtividade são debates legítimos. Mas foram capturados e instrumentalizados por uma elite que, vivendo pendurada no Estado, naturaliza a desigualdade prometendo pôr os de baixo na ordem. O classismo não é um preconceito. É um programa político.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-04-por-os-de-baixo-na-ordem-355e9521

Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


O Papa Leão XIV assina a a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, a 15 de Maio, numa fotografia divulgada pelos serviços de comunicação do Vaticano VATICAN MEDIA - VIA REUTERS

As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas” do nosso tempo.

Jorge Wemans

7 de Junho de 2026


É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum, mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à “questão social”.

Desde logo é o próprio Leão XIV que sublinha essa necessidade de um pensamento católico em constante evolução, contrariando o preconceito ainda reinante na Igreja Católica de que tudo é imutável nela e na sua missão, porque já foi tudo dito e feito por Jesus Cristo. Pelo contrário, escreve o actual bispo de Roma, o pensamento católico tem de recorrer ao “essencial contributo da filosofia e das ciências humanas e sociais, que ajudam a compreender e a analisar mais profundamente as dinâmicas culturais, económicas e políticas”.

E é por isso que afirma que a “doutrina social da Igreja surge, não como um manual de princípios e normas a aplicar, mas como um caminho de discernimento comunitário (…) deixa-se interrogar pelos sinais dos tempos; nutre-se dos contributos das ciências, das culturas e das experiências humanas”. Consequente com esta afirmação, a Magnifica Humanitas não se apresenta como a última palavra sobre a IA e as suas consequências, mas como o início de “um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso”.

Leão XIV coloca-se, assim, muito longe da “Igreja mestra da última palavra” e cita o Papa Francisco para explicar como quer que a sua palavra seja entendida: “A Igreja não pretende oferecer ‘uma palavra definitiva’, mas reconhece a importância de ouvir a investigação científica e favorece um intercâmbio sério e leal entre estudiosos, acolhendo a diversidade de opiniões”. Talvez seja este seu posicionamento que lhe permite usar expressões tão fortes e exprimir conclusões tão veementes nesta sua primeira encíclica.

Outra das grandes inovações deste texto diz respeito ao tempo em que ele é publicado. Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte económico, social e cultural da IA e dos seus futuros desenvolvimentos. O Papa Prevost arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram de substancial sobre as “coisas novas” do nosso tempo. E, desse modo, afirma-se como alguém à frente do seu tempo.

O tempo da escolha decisiva

Num tempo acelerado como aquele em que vivemos, Roma não quer ficar à margem, maldizendo a rapidez com que os acontecimentos se sobrepõem e os processos se sucedem. Mantendo uma reflexão crítica sobre a euforia do passageiro, o Vaticano parece ter entendido a colossal diferença entre erguer a sua voz hoje ou amanhã. E o contraste com o passado é, ele mesmo, abissal.

Leão XIII escreveu sobre as consequências da Revolução Industrial um século depois de ela ter começado. Era o tempo do “esperar para ver”, da palavra última e definitiva que exigia uma longa e demorada avaliação dos fenómenos sociais. O Vaticano intervinha empurrado por uma realidade que já transformara boa parte do mundo e sobre a qual quase tudo já havia sido dito.

Por sua vez, o Papa Francisco recuperou décadas de atraso da Igreja Católica em relação à “questão ambiental” que as outras Igrejas já tinham relevado como incontornável. Fê-lo com uma encíclica memorável, a Laudato si’. A Igreja Católica chegava tarde ao debate sobre a crise climática, mas, graças à genialidade espiritual de um Papa e ao inquestionável conhecimento científico dos conselheiros de que se rodeou, marcava de forma irrevogável o futuro da “questão ambiental”.

Francisco veio propor uma nova interpretação das causas profundas da destruição do planeta e oferecer uma visão abrangente e articulada das crises que a humanidade enfrentava e enfrenta. Ao mesmo tempo, na sua Laudato si’ cunhava conceitos e expressões que se tornariam parte incontestada do património de quantos defendem a sustentabilidade do planeta. A Igreja chegava no século XXI a uma “questão social” vinda do século anterior, mas conseguia unificar as suas anteriores intervenções parcelares e acções dispersas num documento poderoso que a academia recebeu com respeito e agrado.

A urgência que agora move o Papa americano, não é a do desejo de protagonismo, ou a do medo que dele se esqueçam. O que o move é a consciência de que, perante os avanços da IA, a Humanidade — que Deus criou tão amorosamente que merece ser apelidada de “magnífica” — enfrenta uma “escolha decisiva”: ou a aproveita para “fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada”; ou permite que com ela se construa “um mundo desumano e mais injusto”.

Esta é também uma dupla inovação trazida ao pensamento social católico pela Magnifica Humanitas: não se trata de ponderar os efeitos positivos e os negativos de uma nova tecnologia — aplicando erroneamente às questões sociais o famoso “sim, mas também” que tão bons serviços prestou à teologia —, ou de apelar a grupos ou classes sociais para que encontrem soluções que permitam superar os conflitos. Nada disso. Do que se trata é de desafiar todos e cada um a contribuir, aos diferentes níveis de responsabilidade, para um desenvolvimento controlado da IA que garanta em cada momento a promoção do desenvolvimento integral de cada ser humano.

Controlados por um poder opaco

Optar entre aqueles dois pólos daquela “escolha decisiva” parece simples, fácil e indiscutível. Entre um mundo que salvaguarde a dignidade de cada pessoa e um mundo desumano e injusto, haverá dúvidas sobre qual escolher?

Há. Mais do que dúvidas. Há práticas, opções, comportamentos e processos quotidianos que criam relações e realidades desumanas e injustas favoráveis à consolidação de uma “lógica da eficiência, do domínio e do lucro que governe por si só as escolhas pessoais, sociais e económicas”.

A mentalidade dominante, não apenas em países do Ocidente, mas um pouco por todo o mundo, é condicionada pelo “paradigma tecnocrático em que estamos imersos, potencializado pela revolução digital e pela IA”, paradigma que faz “parecer justa e normal uma visão anti-humana, segundo a qual a plenitude da vida consistiria em possuir mais”. E possuir mais parece ser a ambição que todos querem ver preenchida.

Sobretudo numa época em que os antagonismos são favorecidos pelas “redes de comunicação, os ambientes informativos fragmentados e os algoritmos que privilegiam o confronto” e, assim, amplificam “a polarização e o ressentimento, aceleram a propaganda e dificultam o discernimento comum”. Por esta via se “consolida uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão”.

A esta cultura de poder que “penetra na sociedade, altera relações e comportamentos”, o Papa junta os mecanismos de desinformação que criam uma falsa “identidade colectiva construída contra um inimigo”, alimentada por “narrativas nas quais cada um se apresenta como vítima com direito à vingança” criadas a partir das “simplificações — ‘primeiro, eu’, ‘amigo-inimigo’, ‘nós-eles’”.

Mas, para além dos que se deixam persuadir de que todos estão contra eles, os ditos “ambientes informativos fragmentados e os algoritmos” ajudam a criar o “súbdito ideal do totalitarismo”, que, “como escreveu a filósofa Hannah Arendt, não é tanto o ideologicamente convencido, mas ‘aquele para quem já não existe a diferença entre o facto (isto é, a realidade da experiência) e a ficção, nem a diferença entre verdadeiro e falso (que constituem os critérios do pensamento)’”.~

Vive-se, deste modo, num patamar onde o risco que a Humanidade enfrenta “não é apenas que algumas tecnologias sejam mal usadas”. O perigo consiste no facto da técnica ter deixado de ser um mero instrumento e se ter tornado o critério, ou seja, é ela que “acaba por determinar o que é importante e o que pode ser descartado, reduzindo a criação a objecto de exploração e as pessoas a engrenagens de um sistema que quer ser sempre mais eficiente”.

Se a decisão sobre o que “é importante e o que pode ser descartado” deixa de pertencer às pessoas e às sociedades, ela também não é prerrogativa dos Estados, pois “no contexto digital, o controle das plataformas, das infra-estruturas, dos dados e da capacidade de computação” pertence a “grandes atores económicos e tecnológicos que, na prática, estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação”.

Ora, conclui o Papa, “quando um poder desta magnitude se concentra na mão de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público, aumentando o risco de um desenvolvimento distorcido que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.

Críticas de dentro e de fora

Por todo o mundo a Imprensa saudou calorosamente a entrada de Leão XIV no debate sobre a Inteligência Artificial. De tal modo que ao fazer para o jornal 7MARGENS a recensão dos títulos de primeira página e dos editoriais que os jornais europeus e das Américas dedicaram à encíclica, o jornalista Eduardo Jorge Madureira escreveu: “Ninguém diria que uma encíclica papal se poderia apresentar como um tema jornalisticamente relevante. (…) As conhecidas proclamações sobre a irrelevância da voz da Igreja Católica não foram escutadas”.

Tão rápidas quanto as apreciações laudatórias, surgiram as críticas. Vindas do interior e do exterior da Igreja Católica. De dentro, o desinteresse distanciado das correntes mais espiritualistas para as quais o Papa não tem de perder tempo com estas questões, pois o seu múnus específico consiste no anúncio das verdades evangélicas e tratar da alma e do espírito, dedicando-se às coisas de Deus.

Se estas vozes se exprimem em surdina, já de Silicon Valley vieram críticas bem audíveis atestando que “o Vaticano não pode ter uma posição sobre a IA, porque não a entende”. Pelo mesmo diapasão alinhou Doug Burgum, membro da Administração Trump em entrevista à Fox Business: “Não sabia que opinar sobre tecnologia fazia parte do papel do Papa”.

Outra crítica surgiu de meios eclesiais de diferente cariz, acusando Leão XIV de ter caído no logro que denúncia ao dar eco e direitos de cidadania “ao tema que está em todas as conversas, que os bilionários de Silicon Valley tornaram o assunto do momento”, levando a Igreja a entrar “no debate que o hemisfério Norte, as empresas mais poderosas do mundo, definiram como central” e “ao entrar nele — mesmo que criticamente — legitima-o como o debate que importa”.

Para estes críticos, nada do que o Papa escreve está errado. Mas gostariam que a encíclica desse conta de que “há um mundo enorme que não debate algoritmos e que vive com problemas que a IA não vai resolver” — esse mundo “merecia ser o ponto de partida” para uma avaliação crítica dos desenvolvimentos da Inteligência Artificial à luz da tradição evangélica.

Tal como se apresenta, o texto papal parece dar a primazia à IA e permite a interrogação: “A IA é importante. Mas é assim tão mais importante do que a fome, a água, as guerras que já existem, as migrações forçadas, a solidão que corrói as sociedades por dentro?”. E à interrogação, segue-se a crítica: “O documento toca em tudo isso — mas de passagem, como contexto para a questão tecnológica. A IA é o primeiro plano. O resto é cenário”.

Mais contundente é a apreciação negativa das propostas de Leão XIV para controlar os desenvolvimentos da Inteligência Artificial e garantir que estes são colocados ao serviço de todos e do aprofundamento da dignidade humana de cada um. A ideia de que “os Estados e as instituições supranacionais são chamados a garantir regras justas e tutelas efectivas” sobre os produtos da IA é fustigada por quantos vêem nela um apelo “aos burocratas de Bruxelas” e “às ineficazes intervenções das Nações Unidas” que apenas adiam o desenvolvimento tecnológico, sem democratizar as suas aplicações.

A IA e a guerra permanente

Para um Papa que começou o seu pontificado com a invocação de “uma paz desarmada e uma paz que desarma”, o tema da guerra não podia estar ausente quando discorre sobre a IA, tanto mais que esta se tornou essencial na preparação, no desenho e na concretização das acções de guerra mais violentas.

Leão XIV constata o que todos sabemos: “Assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”. Ao mesmo tempo, degradam-se “os critérios éticos que tinham limitado o seu uso” como meio de resolver os conflitos e, em simultâneo, confere-se, ilicitamente, “decisões letais a sistemas artificiais”.

Resumindo, a visão do Papa americano é a de que a guerra é hoje uma opção normalizada pelo discurso armamentista e ninguém se assume como responsável pela decisão de onde, quem, quando matar e destruir. A Inteligência Artificial é que decide. Contra este estado de coisas, Leão XIV é peremptório: “Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”.

Enquanto o mundo assiste à explosão à distância que apenas mata e destrói no espaço do inimigo e muitos se congratulam com o facto de os “nossos rapazes” não serem sequer beliscados porque se encontram a milhares de quilómetros do conflito, acompanhando sistemas auto-inteligentes que levam a cabo operações antes protagonizadas por soldados, aviadores e marinheiros, o Papa escreve uma encíclica para exigir que “a responsabilidade e eventuais culpas [no uso das armas] não se dissolvam ‘na máquina’, ou em processos pouco transparentes ou automatizados”.

Quando estão em jogo vidas humanas, a decisão de matar ou de as poupar não pode ser deixada ao arbítrio de um qualquer sistema artificial por mais sofisticado que seja. Coerente com a sua cruzada em favor da paz e do diálogo como meio de resolução dos conflitos, Leão XIV exige que “a cadeia de responsabilidades deve permanecer identificável e verificável: quem projecta, quem treina, quem autoriza e quem utiliza [armas incorporando IA] deve poder prestar contas das suas escolhas”.

A formulação destas exigências representa um sobressalto num tempo em que “a guerra não só não é combatida, como é preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo” e “a violência é apresentada como necessária, inevitável ou mesmo ‘limpa’ e a humanidade se encontra a resvalar para a cultura violenta do poder, onde a paz já não aparece como uma tarefa a assumir, mas como um intervalo precário entre conflitos”.

É preciso, diz o Papa, fazer uma pausa na corrida à Inteligência Artificial e ponderar prudentemente que mundo e que humanidade ela está a construir, mesmo que disso não tenhamos consciência. E essa reflexão não pode ser feita apenas pelos poucos que pensam controlá-la, mas que na realidade mais não fazem do que direccioná-la. É preciso responsabilizar o seu uso, torná-lo transparente e garantir que a todos beneficia. Mas é também necessário conhecer os contornos da guerra cultural que ela veio potencializar.

Para evidenciar os pressupostos culturais que acompanham a revolução digital em curso, o Papa identifica “algumas correntes que colonizam o imaginário colectivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunicação e nas redes sociais” nos quais tratam de confundir o progresso com a “superação do humano”, estimulando o “entusiasmo pelas novas tecnologias com uma visão futurista do ‘homem aperfeiçoado’ ou do ‘homem hibridado’ com a máquina”.

Essas correntes, apostadas num projecto de poder capaz de “eliminar o imprevisto, controlar tudo” e “reduzir a fragilidade humana” articulam-se, quer no transumanismo, que, em linhas gerais, “imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades”, quer no pós-humanismo que aponta para “uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estádio de evolução”.

Mas que risco, que perigo real representam tais correntes científico-ideológicas que parecem pertencer mais a um enredo de ficção-científica do que ao mundo concreto em que vivemos?

Mantendo uma reflexão crítica sobre a euforia do passageiro, o Vaticano parece ter entendido a colossal diferença entre erguer a sua voz hoje ou amanhã. Jorge Wemans

O alerta do Papa Prevost pode sintetizar-se deste modo: a promessa de um homem sem limites, liberto de todas as fragilidades, do erro e eventualmente da própria morte, é um horizonte de desumanização em que o ser humano será “tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar” e será “mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos”.

Já, actualmente, sublinha o documento papal, “tudo o que se apresenta como ‘limite’ — incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade — tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação”.

Em contracorrente com esse pensamento dominante, o Papa recorda “que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites” e, mais: “É precisamente na nossa limitação que encontram espaço a compaixão, a sincera preocupação perante as necessidades dos outros, a generosidade que surpreende mesmo no meio da escuridão e do fracasso, a experiência espiritual e a adoração de Deus”.

É essa a escolha decisiva, resume Leão XIV, que a magnífica humanidade criada por Deus tem perante si: erguer uma nova torre de Babel, personificação de um poder humano sem limites, mas em que ninguém se entende; ou construir a cidade edificada com base na cooperação de todos e o contributo de cada um, em que Deus e a humanidade habitam juntos.

Jornalista. Editor do jornal 7MARGENS

sábado, 6 de junho de 2026

Brecht e Gino Strada: guerra e paz

 

2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.

O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.

Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.

Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):

ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!

(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)

ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.

FEDERZONI: Tem calma.

ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.

GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.

(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)

ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.

(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)

GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.

O detalhe da adaptação no mural

No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).

O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.

Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".

A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:

  1. A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.

  2. Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.

Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)

Luís Osório - O dia em que começámos a traficar escravos

                                     

* Luís Osório 


POSTAL DO DIA
1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
LO

2026 06 06
https://www.facebook.com/luis.osorio.940/posts/postal-do-dia-o-dia-em-que-come%C3%A7%C3%A1mos-a-traficar-escravos1orgulho-me-da-nossa-his/27663786879891636/