segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

A história da caça às minorias que se viveu na última semana é relativamente simples de contar. Um requerente de asilo sudanês, a quem fora concedida autorização de permanência no Reino Unido, foi responsável por um ataque à faca de rara brutalidade. A vítima, um homem na casa dos 40 anos, perdeu um olho e testemunhas falaram de uma tentativa de decapitação. O crime exige mão rápida e pesada.

É o tipo de crime que a extrema-direita adora para espalhar a culpa e a vingança por associação. Não quer saber da vítima e até ignorou os familiares que pediram para “não se politizar” o ataque. Quer combustível para o ódio. Em poucas horas, foram publicadas listas com moradas de imigrantes e de advogados de imigração nas redes sociais. Homens mascarados arrombaram portas para “libertar” as casas. Enfermeiras de minorias étnicas foram arrancadas dos carros a caminho do trabalho. O ano passado já tinha acontecido algo parecido, depois de uma acusação de violação contra jovens romenos.

Na véspera da oferta pública em Wall Street que o tornou o homem mais rico do planeta — uma fortuna equivalente a tudo o que o nosso país produz em três anos —, o que ocupou o tempo de Elon Musk não foi a SpaceX. Foi Belfast. Mais de cem tweets em quatro dias. Partilhou o apelo a protestos por todo o país, lançado pelo ativista britânico de extrema-direita, Tommy Robinson, sabendo muito bem que acabariam em violência. Continuou a dar palco a Rupert Lowe, líder de um partido sem qualquer exposição até Musk o promover, que defende deportações em massa, a proibição do abate halal kosher e a reposição da pena de morte. Amplificou Matt Goodwin, outra figura marginal. Difundiu listas com dezenas de locais para protestos-relâmpago e acrescentou a sua própria instrução: “só protestando REPETIDAMENTE e RUIDOSAMENTE haverá mudança”.

Segundo o Center for Countering Digital Hate, Musk amplificou as imagens da violência de Belfast até elas somarem mais de 64 milhões de visualizações. Musk não é um nome lateral nestes protestos. É um dos seus maiores instigadores e promotores.

Elon Musk não vive no Reino Unido. O mais certo é não conhecer Belfast e as suas camadas de história. Mas sabe, como Trump, que cada país pode ser usado como cenário para a sua guerra ideológica. O multiculturalismo, os direitos, os tribunais, os requerentes de asilo, a BBC, os governos liberais, tudo é apresentado como prova de uma civilização que se odeia a si própria. Não é por acaso que Ventura partilha um sem número de falsidades internacionais, como a que Amesterdão proibiu a publicidade a carne no espaço público para não ofender muçulmanos. A imagem de caos e dissolução das sociedades é central na propagação do medo e ressentimento que alimenta a sua mensagem.

A violência sectária recuou, mas as estruturas que a alimentaram não desapareceramEm alguns bairros, antigas redes paramilitares protestantes, antes viradas contra católicos, encontraram novos alvos. A organização, a intimidação, o controlo territorial, a capacidade de mobilizar jovens, tudo isso já lá estava. Mudou o inimigo. O imigrante, o muçulmano, o requerente de asilo, o não branco, o advogado que o defende. A violência sectária apenas mudou de alvo para continuar a demonstrar quem manda no bairro.

O que ardeu em Belfast tem um nome que a Europa devia conhecer de cor, porque o escreveu com o seu próprio sangue: pogrom. Casas marcadas, famílias expulsas, multidões a “limpar” bairros, minorias transformadas em ameaça comum.

As redes sociais não inventaram a propaganda do ódio. As máquinas que normalizaram o extermínio dos judeus não precisaram de algoritmos. A diferença é que a mentira viaja à velocidade da luz e não conhece fronteiras. As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional. Representam a concentração sem precedentes históricos dos fluxos informativos, nas mãos de três ou quatro pessoas. São elas que, através do algoritmo, decidem o que vemos, o que se repete, o que parece ameaça e o que é escondido. Sem transparência, sem controlo democrático e com um incentivo estrutural para amplificar o que nos torna piores. O ódio é rentável porque é partilhável. E a violência e o medo do caos são sempre excelentes conteúdos.

As democracias são frágeis quando a desigualdade volta a ser obscena, o custo de vida esmaga classes médias atormentadas por sucessivas crises inflacionistas. É o caldo perfeito para a extrema-direita. O ressentimento nasce de uma vida material em degradação, de instituições desacreditadas, de um sistema de poder onde sentimento que o voto conta cada vez menos nas decisões que efetivamente contam. E tem o mais poderoso dos aliados: a elite das big tech. Os mesmos que, sentados numa concentração sem paralelo, se aliaram a Trump para fazer frente às tentativas de regulação da União Europeia e lhes permitir carta-branca para as suas explorações na nova fronteira tecnológica, a Inteligência Artificial.

O primeiro-ministro britânico fez alusões, mais ou menos veladas, a Musk quando falou na perseguição legal dos autores morais dos distúrbios racistas. O empresário sul-africano respondeu como sempre, dizendo que Starmer “odeia brancos”. Musk é um dos rostos mais perigosos desta convergência entre riqueza extrema, poder tecnológico e autoritarismo cultural. Não é excêntrico ou provocador. É o proprietário de uma máquina global de influência que usa para promover forças interessadas em tornar a democracia ingovernável.

Numa coisa, Musk tem razão: Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Quando um trilionário consegue exportar ódio para um país que desconhece e antigas paramilícias encontram nas redes sociais uma nova logística para os seus pogroms, temos um problema existencial no coração da democracia. Ou os governos europeus tomam a sério a regulação das redes sociais ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

 2026 Junho15

https://expresso.pt/opiniao/2026-06-15-o-trilionario-que-promove-pogrom 

domingo, 14 de junho de 2026

Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros

 

sábado, 13 de junho de 2026

* Caitlin Johnstone


A espécie humana foi essencialmente transformada numa máquina gigante para gerar lucro para as empresas.

Sob o capitalismo, a humanidade existe para servir os interesses da corporação. Somos todos gado; animais de carga usados para transportar a expansão da margem da declaração trimestral para a declaração trimestral. O gozo da vida não tem outro valor senão até que ponto pode ser usado para aumentar o patrimônio líquido dos acionistas.

Por isso todos estão tão infelizes. Não estamos vivendo com propósito. Não estamos trabalhando juntos para construir um mundo melhor e um futuro melhor, estamos apenas puxando alavancas para girar as engrenagens para fazer a linha de seta subir no gráfico na sala de conferências. É uma maneira oca e inútil de as pessoas viverem.

Torna toda a nossa cultura insípida e sem alma.

A música é feita para ser o mais lucrativa possível, o que significa dar-lhe o apelo mais amplo possível usando uma estrutura musical estereotipada calculada para causar uma resposta química no maior número de cérebros humanos.

Os filmes são projetados para atrair a maior receita de bilheteria possível com o menor risco possível para estúdios e investidores, muitas vezes apenas refazendo um filme que já provou ser bem-sucedido no passado ou juntando uma história sobre um IP com apelo de massa pré-existente.

A comida é feita para ser rápida e viciante, em vez de nutritiva.

A conexão humana saudável foi mercantilizada à medida que as mídias sociais se entrelaçam com amizades e os aplicativos de namoro se inserem no desenvolvimento de relacionamentos românticos.

A sexualidade humana está sendo distorcida e distorcida à medida que a pornografia na Internet normaliza a violência e a degradação pelo número máximo de cliques.

A atenção e o envolvimento foram monetizados, criando um ecossistema de informação dominado por conflitos e fofocas concebido para apelar aos nossos instintos mais básicos.

O anúncio é injetado em todos os cantos possíveis da nossa experiência sensorial de vigília, com qualquer espaço disponível onde o olho possa descansar ou o ouvido possa ouvir sendo inundado por manipulação psicológica que nos obriga a consumir. Eles começarão a veicular comerciais em nossos sonhos no instante em que tiverem tecnologia para fazê-lo.

Você passa oito horas no escritório trabalhando para gerar lucros corporativos, depois volta para casa e consome produtos para lucrar com outras corporações. Você precisa de sua cerveja e lanches para relaxar, seus serviços de streaming e mídias sociais para distrair sua mente do estresse de tudo isso, sua compra de roupas on-line para tentar se sentir bem consigo mesmo e seus medicamentos prescritos para dormir à noite. As pessoas vivem a vida inteira assim.

E esses somos aqueles de nós que têm a sorte de viver no norte global. No sul global, obtém-se escravatura e exploração assalariadas com muito mais trabalho árduo, muito menos tempo de relaxamento e sem produtos baratos fabricados por trabalhadores empobrecidos de outros continentes para se confortar.

Toda a humanidade foi amarrada nesta confusão. E para quê? Para fazer aumentar os números em algumas contas bancárias. Para obter algumas setas verdes apontando para cima na bolsa de valores. Para permitir que alguns bilionários comprem ilhas e eleições.

Ao mesmo tempo que destruímos a biosfera da qual todos dependemos para sobreviver.

Dizem-nos que este é o melhor sistema possível sob o qual poderíamos viver.

Pessoalmente, não acredito que isso seja verdade. Eu pessoalmente acredito que podemos ter melhor. Aqueles que se beneficiam desse arranjo atual vão nos garantir que é impossível e fazer tudo o que puderem para nos impedir de mudá-lo, mas temos os meios para recuperar a riqueza, a dignidade e a felicidade que eles nos roubaram.

Construíram toda esta máquina nas nossas costas. Tudo o que precisamos fazer é levantar-nos (e destruí-la - NT).

Caitlin Johnstone
12 de junho de 2026

Fonte  https://www.caitlinjohnst.one/p/the-entire-human-species-has-been

Postado por O BÁRBARO às 14:31 

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2026/06/toda-especie-humana-foi-transformada.html

sábado, 13 de junho de 2026

Inês Chaíça - Suíça vota em referendo medida sem precedentes: limitar a população a dez milhões

 


Um grafitti onde se lê "nazis" por cima de um cartaz de campanha do SVP a favor do limite de população REUTERS/DENIS BALIBOUSE 

As sondagens mostram que a medida está longe de ser consensual. Gera preocupação pela possível falta de mão-de-obra estrangeira e pela perspectiva de um “Brexit à suíça”, pondo fim a acordos com a UE.

Inês Chaíça

13 de Junho de 2026

 A Suíça vai votar, este domingo, um referendo que quer limitar o crescimento da população a dez milhões até 2050 e inscrever esse objectivo na Constituição. O partido que está a apoiar esta iniciativa, o Partido Popular Suíço (SVP), diz que é uma forma de lidar com a imigração excessiva, de contornar a falta de oferta de habitação e de aliviar a sobrecarga das infra-estruturas e dos transportes públicos. Mas há quem antecipe outras dores de cabeça.

 A proposta — a que o SVP chama “Iniciativa de Sustentabilidade”, quase como um eufemismo — assenta no facto de a população na Suíça ter aumentado de forma exponencial desde que foram assinados os acordos de livre circulação de pessoas e bens com a União Europeia, em 2002.

 A população cresceu 1,7 milhões desde então, para os actuais 9,1 milhões, um aumento explicado quase exclusivamente pela imigração vinda de outros países europeus: “As empresas, assim como as instituições públicas, muitas vezes contratam os trabalhadores qualificados de que precisam na União Europeia”, lê-se no texto da proposta.

É precisamente isso que pretendem contornar. A proposta, explicada em termos simples, funcionará a dois tempos: primeiro, quando o país chegar aos 9,5 milhões, o Conselho Federal e o Parlamento terão de tomar medidas “na área do asilo e da reunificação familiar”, afectando maioritariamente os refugiados. Depois, se o limite de dez milhões for ultrapassado por dois anos consecutivos até 2050, a Suíça será obrigada a terminar com os acordos que permitem a livre circulação de pessoas “incluindo o que tem com a União Europeia”, frisa a proposta.


Um cartaz de campanha a favor do "sim" onde se lê "preservar o que amamos" REUTERS/Stefan Wermuth

Uma medida inédita

O SVP, a maior força política do país, acredita que a Suíça chegou a um “ponto de ruptura” e cumpre, assim, uma promessa de campanha que, em 2023, se focou sobretudo na demografia e na imigração. De acordo com os últimos dados, de 2024, a população estrangeira na Suíça era 32,5%, um dos números mais elevados do continente. Desses, apenas uma fracção (menos de 220 mil pessoas) são refugiados. A larga maioria, 73%, são imigrantes europeus.

Não é a primeira vez que o partido tenta aprovar uma medida do género. Há pouco mais de uma década, em 2014, foi a votos uma iniciativa muito mais clara nos seus propósitos: chamava-se “Acabar com a imigração em massa”; foi aprovada por uma margem mínima, mas nunca foi totalmente aplicada. Agora, a nova iniciativa foi desenhada de modo a que isso não volte a acontecer.

Na sua essência, esta medida é inédita. A ser aprovada, será a única no mundo. As comparações são escassas: medidas de conservação que limitam a presença de humanos em ecossistemas frágeis, como nas ilhas Galápagos, ou políticas específicas para conter o aumento da população, como as da China. Mas nenhum desses exemplos se pode comparar, porque nenhum deles é resultado da vontade da própria população.


A proposta divide o país REUTERS/Denis Balibouse

 “A experiência internacional sugere que é difícil limitar o crescimento populacional através de metas quantitativas ou restrições migratórias quando a economia continua a necessitar de mão-de-obra estrangeira”, explica Inês Vidigal, coordenadora executiva do Observatório da Emigração do Iscte, por e-mail, ao PÚBLICO. “Em países envelhecidos e com baixos níveis de fecundidade, como a Suíça, a imigração desempenha um papel importante na renovação da população activa e no funcionamento de diversos sectores económicos”. Por isso, defende, esta proposta é muito mais política do que puramente demográfica.

Uma sociedade dividida

Os suíços estão habituados a decidir directamente sobre as medidas que os vão afectar: referendos como este acontecem, normalmente, quatro vezes por ano. Mas, neste caso, nem as sondagens conseguem prever o que vai acontecer.

As últimas, publicadas no fim de Maio, mostram uma curta vitória do “não” (com 52% dos votos), um aumento de cinco pontos percentuais desde as anteriores sondagens. Mostram os números disponíveis que a proposta é rejeitada pelos jovens, pelas mulheres e pelos residentes urbanos. Os homens, eleitores de meia-idade em zonas rurais, estão receptivos à proposta: “Muita gente aqui não fala inglês e sente-se deslocada. A geração mais velha pensa que antes estava em casa”, resume Dolfi Müller, político e residente em Zug, uma das cidades mais ricas do país, ao Wall Street Journal. Agora, “sente que ficaram para trás”.

Neste momento, só os eleitores do SVP mostram apoio abertamente à iniciativa, com 96% das intenções de voto. À esquerda, a oposição à medida excede os 80%.

Além do SVP, a medida não reúne o apoio nem do Governo, nem dos empregadores, nem dos sindicatos. O Conselho Federal assumiu, numa comunicação ao Parlamento, que a iniciativa iria “pôr em perigo a prosperidade suíça, prejudicar o funcionamento da sociedade e comprometer o caminho bilateral com a União Europeia”. O ministro da Justiça, Beat Jans, chamou-lhe um “risco enorme num mundo incerto”.

Num país onde as multinacionais são a coluna vertebral da economia (da Nestlé à Novartis, passando pela Roche, que rejeitou directamente a proposta) que, por sua vez, depende da mão-de-obra imigrante para suprir necessidades (quer se trate de trabalhadores qualificados, quer não), a conversa assusta. Também assusta a perspectiva de uma espécie de “Brexit à suíça”, porque o bloco dos 27 é o principal mercado de exportação do país: mais de metade das exportações da Suíça vão para a UE, o que corresponde a cerca de 160 mil milhões de euros.


Empregadores temem que, se a proposta for aprovada, tenha impacto na mão-de-obra disponível REUTERS/Denis Balibouse

Por tudo isso, a associação empresarial Economiesuisse classificou-a como “a iniciativa do caos”.

O país tornou-se “vítima do seu próprio sucesso”, admite Reto Föllmi, professor de economia internacional da Universidade de St. Gallen, no norte do país, à Associated Press. “Será que a Suíça está farta da sua prosperidade?”, questionava-se Joseph de Weck, investigador no German Council on Foreign Relations, num artigo de opinião publicado no The Guardian. Se não for isso, assinala, é um lembrete para os democratas de todo o continente: “Nem uma economia saudável é capaz de conter a extrema-direita.”


~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

Suíços rejeitam em referendo limites à população

Referendo promovido pela direita radical questionava os eleitores suíços sobre a possibilidade de se fixar um limite de dez milhões para a população do país.

Segundo os primeiros resultados parciais revelados durante a tarde, o “não” à proposta recolheu 55% dos votos, contra 45% a favor.


Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?

 * Pedro Tadeu 

Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.

É a partir desta base que Karl Marx cunha a expressão “acumulação primitiva”, exemplificando o processo com o levantamento, inicialmente ilegal, de cercas em terras comunais de Inglaterra, que antecedeu a expropriação e expulsão de camponeses. Depois, alarga essa lógica à colonização, à pilhagem colonial, à escravatura, ao tráfico atlântico, ao saque de metais preciosos e à violência do Estado.

Em Portugal levantam-se agora múltiplas vozes, várias delas insuspeitas de simpatias marxistas, contra a família Mirpuri, proprietária da Herdade da Comenda, por tentar, como os que roubaram terras aos camponeses europeus a partir do século XV, ficar dona de cinco praias contíguas ao projeto turístico e imobiliário que promove na Arrábida.

O jornalista Miguel Sousa Tavares classifica a operação como “roubo” e admite a hipótese de revolta popular. “Eu aconselharia alguma cautela: o povo é sereno, mas tem limites”, escreve.

O cronista Miguel Esteves Cardoso acha que os Mirpuri não têm hipóteses de vencer a batalha jurídica, mas garante que, se isso acontecesse, se inscreveria “imediatamente no Bloco de Esquerda”.

José Eduardo Martins, comentador e antigo secretário de Estado do Ambiente do Governo de Durão Barroso, intitulou um artigo com a frase A Praia dos Ricos e denunciou: “Aqueles que pagam a espreguiçadeira a peso de ouro querem sentir-se nas Maldivas, já que são as Maldivas que pagam, e anseiam por afastar da vista os chapéus foleiros e as sungas do povo.”

É a luta de classes à beira-mar, caramba!

Também Pedro Adão e Silva, ministro da Cultura do Governo de António Costa, atira: “A cultura de praia, a fruição dos areais e dos banhos de mar e a possibilidade de nos espraiarmos com poucos limites é uma conquista civilizacional.”

Na Comporta e em Tróia, várias praias estão, na prática e há já bastante tempo, sem acesso livre, perante a inação de diversas entidades públicas. Os Mirpuri, que procuram agora que os tribunais validem a “privatização” de cinco praias, tentam fazê-lo desde 2019. Isso levou Viriato Soromenho Marques a citar, em 2022, aqui no DN, o filósofo Benjamin Constant, que há 200 anos escreveu: “Nos nossos dias, os particulares são mais fortes do que os poderes políticos; a riqueza é uma potência mais rapidamente disponível, mais aplicável para todos os interesses e, consequentemente, mais real e mais bem obedecida.”

Tenho a dizer que estes campeões da abolição das classes sociais nas praias portuguesas, estes combatentes contra a privatização dos areais costeiros, estes frentistas da justiça social do chapéu-de-sol, têm toda a razão. Apoiado! Bravo!

Porém, talvez por ter a idiossincrasia de não gostar de praia, de não pôr lá o pezinho há mais de 30 anos e, ainda por cima, de padecer do defeito de ser um bocado comunista, lamento muito que esta indignação contra os ricos que querem a praia só para eles se esvazie, sistematicamente, num aplauso subserviente sempre que os mesmos ricos exploram para si todo o resto do planeta.

 Diário de Notícias, 12 de junho de 1026

https://www.dn.pt/opiniao-dn/a-revoluo-afinal-comea-na-praia

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD

* Daniel Oliveira

Montenegro está a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política

11 junho 2026  

Ométodo diz da função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate, impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco, para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.

Quanto à política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era, unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização, tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo. Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção. E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a oportunidades, apenas pune quem nela está.

A política do ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9) e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e, depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo: tática, tática e mais tática.

Costa desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável, o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim, Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-11-a-bebedeira-suicida-do-psd 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

António José Seguro - Discurso no Dia de Portugal (2026)

* António José Seguro

«Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.»

Vitorino Nemésio nasceu aqui, nesta ilha. E nestes versos deixou aquilo que talvez só alguém criado entre o Atlântico e o céu aberto dos Açores poderia escrever: a ideia de que o mar não é apenas uma paisagem, é uma condição. Uma forma de ser no mundo.

O mar não é apenas a geografia que nos rodeia. O mar é memória, é destino e é carácter. Foi diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe.

Enquanto outros viam o fim da terra, os portugueses viram um caminho. E essa visão moldou a nossa alma coletiva: resiliente perante as tempestades, humilde perante a imensidão e determinada perante o desconhecido.

O mar ensinou-nos a partir, mas também a regressar. Ensinou-nos o valor da saudade, essa palavra tão nossa, que carrega distância e afeto ao mesmo tempo. Ensinou-nos que um povo pequeno em território terrestre pode ser grande em ambição.

Falar de mar é falar da identidade portuguesa.

É também por isso que quis estar aqui, em Angra do Heroísmo, no coração do Atlântico, para celebrar o Dia de Portugal.

Senhoras e Senhores,

Os Açores assumem um lugar singular na nossa identidade, na nossa história e no nosso futuro. Os Açores situam-nos num ponto estratégico da relação entre a Europa e o continente americano. Entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global.

Por todas estas razões, é um lugar que nos obriga a assumir especiais responsabilidades e deveres, no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico. Sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja com um país, seja com a comunidade internacional e a Carta das Nações Unidas. E na minha perspetiva, uma situação não está dissociada das outras.

Gostaria ainda de reafirmar que a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica. É o seu complemento natural.

O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança, que tem na NATO o seu pilar fundamental.

E o Atlântico faz parte da autonomia estratégica europeia, do ponto de vista político, económico, energético, tecnológico e de segurança e defesa.

Autonomia não significa isolamento. Significa liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados.

A garantia da segurança dos países europeus só é possível em articulação com os nossos aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a Paz, a Liberdade, os Direitos Humanos e o Multilateralismo. Valores que norteiam a ação das nossas Forças Armadas em Portugal e destacadas em missão por todo o mundo.

As Forças Armadas são um dos pilares fundamentais do Estado democrático.

A garantia permanente da soberania da República, da integridade territorial e da liberdade do povo português.

Quando a tempestade ameaça o horizonte e o medo percorre a terra, são elas que permanecem firmes, defendendo a paz em vez da guerra. Saúdo a vossa lealdade e a vossa dedicação e amor a Portugal.

Senhoras e Senhores,

Celebramos hoje também meio século de autonomia regional dos Açores e da Madeira.

Por isso, depois do Luxemburgo e da minha presença aqui, nos Açores, estarei amanhã na Madeira.

Esta presença nos dois arquipélagos projeta uma ideia a que atribuo um valor fundamental: Portugal é maior quando é plural. A unidade nacional não se faz pela uniformidade, faz-se pelo reconhecimento das diferenças. Um país capaz de gerir a sua própria diversidade interna tem mais capacidade para enfrentar os desafios que vêm de fora.

Em 1976, quando a Constituição da República consagrou a autonomia político-administrativa das regiões autónomas, havia quem duvidasse. Questionavam a capacidade das ilhas de se governarem. Duvidava-se da viabilidade de territórios fragmentados, ultraperiféricos, distantes dos centros de decisão. Duvidava-se, no fundo, de que a descentralização fosse compatível com a coesão nacional.

Cinquenta anos depois, a resposta dos Açores e da Madeira é inequívoca: a autonomia não enfraqueceu Portugal. Fortaleceu-o.

Criou instituições com legitimidade democrática. Desenvolveu políticas adaptadas às realidades locais. Gerou identidades regionais robustas que não contradizem a identidade portuguesa, antes a enriquecem.

Mas este aniversário não é um exercício de nostalgia. Deve igualmente ser um convite à lucidez. Porque cinquenta anos de autonomia revelam também o que ficou por fazer: as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas, o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas, a necessidade de um modelo de financiamento que reflita com mais precisão e mais justiça a especificidade destas regiões.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

O 10 de Junho é assinalado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas há quase meio século. Desde 1978.

Juntar ao Dia de Portugal a evocação de Camões e das Comunidades Portuguesas não foi um detalhe administrativo nem uma escolha inocente de palavras. Foi uma decisão profunda sobre a forma como os portugueses olham para si próprios, para a sua história e para o seu futuro.

Neste dia assinalamos muito mais do que um país com quase nove séculos de existência.

Celebramos uma comunidade histórica, uma memória coletiva, uma língua, uma ideia de pertença que atravessou guerras, crises, mudanças de regime, separações e reencontros.

Celebramos Portugal com as suas grandezas e contradições, com os seus erros e a sua extraordinária capacidade de resistência.

Celebramos Luís de Camões, talvez a expressão mais poderosa da consciência portuguesa. Porque nenhum outro poeta escreveu tão profundamente aquilo que fomos, aquilo que desejámos ser e aquilo que continuamos a procurar.

Depois de Camões, nenhuma cultura europeia produziu um poema nacional com semelhante densidade humana, simbólica e histórica.

Evocar a figura e a obra de Luís de Camões não significa escolher o passado e, muito menos, permanecer nele. Significa reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para o nosso modo de ser atual e para nos prolongarmos como povo.

É graças a Camões, também, que Natália Correia podia dizer, recordando os Açores, «Foi por línguas de fogo que aprendi a falar».

Camões continua entre nós porque escreveu aquilo que permanece no centro da experiência humana: o medo, a ambição, o amor, a perda, a coragem, a dúvida, a inveja, o desejo de grandeza e a fragilidade da condição humana.

Camões ensinou-nos a falar da beleza e da violência, da glória e do fracasso, do heroísmo e da miséria.

Ensinou-nos, sobretudo, que uma nação não se constrói apenas pelas suas vitórias. Constrói-se também pela capacidade de enfrentar as suas contradições.

Num país que, por vezes, parece dominado pelo ressentimento ou em conflito consigo próprio, todos já nos identificámos com Luís de Camões: num verso, numa imagem, numa frase ou numa passagem que sabemos de cor.

Numa das mais célebres passagens de “Os Lusíadas”, Luís de Camões interroga-se sobre qual poderia ser o nosso lugar de refúgio: «Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida» para «um bicho da terra tão pequeno?»
Nós somos esse «bicho da terra», frágil e à procura de um lugar a que pertencemos e onde nos sentimos protegidos. E esse lugar é Portugal.

Celebrar Camões, quinhentos anos depois, é também uma forma de sermos portugueses. Porque ele nos escreveu a todos.

É uma forma de continuarmos a celebrar uma língua antiga e que suscitou a Vergílio Ferreira uma das mais belas definições, e que tanto tem a ver com este cenário histórico e memorável cidade de Angra do Heroísmo: «Uma língua é o lugar de onde se vê o mundo. Da minha língua vê-se o mar.»

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Celebramos também as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. As que vivem no território nacional. E as que transportam Portugal consigo através dos continentes, das gerações e da distância.

A diáspora não é um complemento de Portugal. É uma das nossas maiores riquezas. Ainda há dias o voltei a confirmar, no Luxemburgo, onde estive com portugueses e lusodescendentes que constroem as suas vidas no centro da Europa sem deixarem de ser profundamente portugueses.

Comunidades unidas por uma língua, por referências comuns, por uma herança afetiva e cultural que o tempo transformou, mas nunca, mas nunca, destruiu.

A todos eles, onde quer que estejam, digo hoje: Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidirem.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Vivemos um tempo de trincheiras.

As ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros.

Neste tempo, faltam-nos cada vez mais as palavras do meio. Aquelas que não nascem entre muros, mas nos espaços abertos. As que não ficam sitiadas nem sitiam, mas que se abrem como convite ao diálogo e ao encontro.

As palavras do meio são mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento. São elas que permitem a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições, entre as ideias. São o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação.

Essas palavras do meio fazem parte de um dicionário que antecipa o próprio diálogo porque criam a disponibilidade para que ele aconteça. Têm a ver com o desejo do bem comum, com um desígnio coletivo, com um país unido, com liberdade de pensar e de criar. Ou, como escreveu Ruy Belo, falando de um «Portugal futuro», de «um país aonde o puro pássaro é possível».

A minha eleição para Presidente da República foi marcada pelo desejo de unir os portugueses e de unir Portugal. Mas unir o país não significa uma unanimidade artificial e indesejável. Significa reconhecer que a pátria é um chão comum e que nele há espaço para todos.

Não haverá democracia firme e pujante se os partidos não reconhecerem que a política, sendo um espaço de confronto, é também um lugar de compromisso. Um compromisso com a tolerância para quem pensa de forma diferente, para quem tem origens distintas, religiões e credos distintos, por forma a que Portugal seja, para todos, um chão comum.

Foi isso que nos permitiu ser o melhor do que fomos.

Senhoras e Senhores,

Este é um tempo que nos pede coragem. A coragem prática de fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo. De dizer a verdade mesmo quando é desconfortável. De investir no futuro mesmo quando o presente aperta. De defender o interesse de longo prazo mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo.

Este é também um tempo que nos pede humildade. A humildade de reconhecer que ninguém tem o monopólio das soluções. Que nenhuma região ou comunidade é dispensável. Que nenhuma geração é proprietária do país. Recebemo-lo em herança e temos a obrigação de o deixar em melhores condições para quem nos suceder.

É uma responsabilidade que não podemos escamotear e, por isso, no meu entender, este é, em particular, um tempo que nos exige ambição.

A ambição justa de não nos conformarmos com menos do que merecemos. A ambição de quem conhece o seu valor e se recusa a aceitá-lo como uma promessa adiada.

Olho para Portugal e vejo um país que tem mais do que aquilo que por vezes reconhece em si próprio.

Temos investigadores e cientistas cujo trabalho é reconhecido e premiado internacionalmente. Temos universidades que atraem estudantes de todo o mundo. Temos empresas que exportam com valor, que inovam em setores onde competem com os melhores e que vencem. Temos uma cultura que se expande pelo mundo através da língua, da música, da literatura, do cinema, das artes. É uma presença criativa que ultrapassa em muito o peso demográfico de um país de dez milhões de habitantes.

Temos uma língua falada por trezentos milhões de pessoas em todos os continentes. Uma língua que é simultaneamente um laço afetivo entre povos, um instrumento diplomático e um ativo económico de enorme valor e que ainda não soubemos aproveitar plenamente.

Temos jovens extraordinariamente qualificados. Jovens que aprenderam a ser competitivos num mercado global, que dominam línguas, que circulam entre culturas com uma naturalidade que as gerações anteriores não tinham.

No meu entender, e julgo que partilham a minha opinião, o problema não é o talento. Nunca foi o talento. O problema é que esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer.

O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração. A habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento.

Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. Isso é inaceitável e temos de o alterar.

Ao contrário da ladainha habitual, Portugal não pode cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres. O que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. Portugal precisa de si próprio na sua melhor versão. E isso está ao alcance de cada um de nós.
Precisamos de políticas que fixem talento em vez de o exportar. De salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses. De um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram. De um Estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente.

Precisamos de empresas que invistam em investigação e desenvolvimento e de um sistema financeiro que saiba avaliar o valor do conhecimento e não apenas o valor dos ativos tangíveis. Precisamos de universidades ainda mais ligadas ao tecido produtivo. De centros de investigação que transformem descobertas em soluções concretas para os problemas das pessoas e das empresas.

Precisamos, acima de tudo, de uma cultura de confiança.

Os países que crescem de forma sustentada têm algo em comum: os seus cidadãos confiam uns nos outros, confiam nas instituições e arriscam juntos porque acreditam que os outros vão cumprir a sua parte.

O presente não pode ser um bloqueio porque a capacidade de reinvenção é algo que a história portuguesa demonstra repetidamente. Não uma, mas várias vezes, em contextos radicalmente diferentes.

A capacidade de transformar limitações em oportunidades. De encontrar rotas quando os caminhos conhecidos se fechavam. De ser, quando necessário, mais do que as circunstâncias pareciam permitir.

Não inventei este Portugal. Está aqui, neste espaço, no trabalho silencioso de milhões de pessoas que todos os dias se esforçam para melhorar a sua qualidade de vida e dos seus filhos.

Está aqui, nos Açores, na Madeira, no continente e está na diáspora que, longe, continua a ser profundamente portuguesa.

Em todos os que constroem este país com competência e com dignidade, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Termino onde comecei, neste Atlântico que nos define e nos desafia.

Emanuel Félix, nascido aqui em Angra do Heroísmo, escreveu: «somos herdeiros de uma lembrança / de tesouros afundados / e arpoamos a esperança».

Sim. Somos isso. Herdeiros de uma memória longa, de conquistas e fracassos, de grandeza e fragilidade.

E projetamos a esperança com a determinação de quem sabe que o futuro se pode moldar consoante as nossas decisões, a nossa coragem e a nossa determinação.

A esperança é uma dessas palavras do meio, que, como já referi, combate a polarização. É também uma das melhores palavras desse novo dicionário que celebra o nosso tempo que há de vir, que desejamos e que ambicionamos.

Que neste Dia de Portugal possamos renovar a confiança no nosso país, na nossa capacidade de criar, de inovar e de enfrentar o futuro com coragem. Na verdade, é dar continuidade à vocação atlântica de abertura ao mundo, de diálogo e de humanidade.

Porque Portugal, tal como o mar, é feito de profundidade, de movimento e de infinito.
Viva Portugal!
Muito obrigado!
10 de junho de 2026

https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2026/06/discurso-na-cerimonia-militar-do-dia-de-portugal-de-camoes-e-das-comunidades-portuguesas/

João Miguel Tavares - O primeiro 10 de Junho de Seguro e os excessos de poesia

O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.

* João Miguel Tavares

11 de Junho de 2026

É um mal antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.

Em Portugal não temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar, que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.

Actualmente, os nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho. Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.

Esta carga poética cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa

Tivemos direito a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de tédio metade do auditório.

O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva, assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”


domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

A nossa desigualdade persistente tem raízes anteriores ao modelo neoliberal. Enquanto no resto do Ocidente a desigualdade diminuiu até aos anos 80 do século XX, sobretudo depois da construção dos seus Estados sociais, ela manteve-se elevada em Portugal durante a maior parte desse período, só tendo caído de forma significativa depois do 25 de Abril. Sendo tão persistente, cristalizou a convicção difusa de que as posições sociais têm uma justificação moral — o comportamento dos que estão em baixo. É assim que um dos países mais desiguais da Europa popularizou um estranho diagnóstico para si mesmo: a doença nacional não é o privilégio, é a inveja que ele alimenta. Quem nunca citou “a última palavra d’‘Os Lusíadas’”? O classismo tem, em Portugal, um retrato resistente: o pobre digno, humilde, que trabalha de sol a sol, que não exige, que não se queixa. Que não inveja. E assim se assinala, por exclusão, o pobre indigno: o que reclama, que faz greve, que recebe apoios. Enquanto a sede de justiça for um problema de caráter a desigualdade não será um problema de estrutura.

Mas o classismo tem uma ordem: começa no fundo das escadas, pelos mais frágeis, e vai subindo. Como é sempre a elite que produz as verdades incontestáveis de que se faz o senso comum, cada degrau é mobilizado contra quem está abaixo, poupando sempre, para não ser invejoso, quem está acima. E nunca percebendo que é o próximo a ser pisado. O primeiro degrau é do imigrante. Vem abusar dos apoios, não se integra, não quer trabalhar. Isto sobre contribuintes líquidos da Segurança Social indispensáveis para a nossa economia. Contra ele, leis de imigração e da nacionalidade mais restritivas. O segundo degrau é do pobre nacional que recebe apoios. Está encostado, faz do subsídio uma vida, também não quer trabalhar. Contra ele, 15 horas de trabalho obrigatório em troca de um apoio social, como se o problema fosse a preguiça, não a pobreza. O terceiro degrau é do trabalhador descontente. É um obstáculo à competitividade, faz greve em véspera do feriado e, claro, também não quer trabalhar. Contra ele, uma contrarreforma laboral que fragiliza quem já tem tão pouco poder na empresa. Um Governo sem um programa de modernização do país só tem de apostar nesta tripla.

Num país que, seja qual for o critério, gasta em proteção social uma percentagem do PIB significativamente abaixo da média europeia e muito abaixo do que as menos necessitadas França ou Finlândia, o RSI não é um privilégio, é a última rede. Podemos debater como tornar os apoios mais eficazes e orientados para a empregabilidade. Mas as 15 horas de trabalho obrigatório foram apresentadas sem estudos, dados sobre os beneficiários, estratégia de inserção ou clareza sobre a quem se dirigem e o que se pretende que façam. Porque, para além de esconderem os cortes em vários apoios, era a mensagem, não a função, que interessava: quem recebe apoios sociais é, em princípio, malandro, e o Estado vai pô-lo na ordem. Quem vive do preconceito não são precisos números. Da mesma forma que o Governo construiu toda a contrarreforma laboral no pressuposto de que os problemas de produtividade resultam de quem trabalha — quando todos os dados indicam o contrário — e uma lei da imigração com um apagão estatístico deliberado. Entretanto, os mesmos que exigem ainda mais vigilância e burocracia para um RSI cada vez mais minguado e recebido por cada vez menos gente vivem bem com a ajuda que o Governo deu aos patrões que não declaram os seus trabalhadores à Segurança Social. A burocracia é um escândalo para o empresário, construtor, agricultor ou investidor, em quem devemos confiar, mas é indispensável perante os abusos do pobre, que até passou a ter direito a um canal de bufaria.

A regulação da imigração, a natureza dos apoios sociais e o aumento da produtividade são debates legítimos. Mas foram capturados e instrumentalizados por uma elite que, vivendo pendurada no Estado, naturaliza a desigualdade prometendo pôr os de baixo na ordem. O classismo não é um preconceito. É um programa político.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-04-por-os-de-baixo-na-ordem-355e9521