quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pilar del Rio: “José foi uma maldição”


JOÃO LIMA
Diz que chegou a Portugal como o “apêndice” de um homem e que, por cá, não faz parte da memória de ninguém. Mas carrega o peso de um legado imensamente português, que ajudou a construir. O trabalho na Fundação Saramago valeu-lhe o Prémio Luso-Espanhol de Cultura, que receberá em maio


ALEXANDRA CARITA

LUCIANA LEIDERFARB
texto

JOÃO LIMA
fotos

Recebe-nos no gabinete que ocupa na Fundação Saramago. E, mal abre a porta, a luz: Pilar é alta, bonita, exuberante, jovem. Uma jovem de 67 anos — idade que, dirá, não encontra em nenhuma parte do seu corpo. Rapidamente somos puxados para dentro do seu turbilhão, esse que a levou a criar esta casa há uma década, a casar com “um dos cidadãos mais completos do século XX”, 30 anos mais velho do que ela, a abdicar de uma carreira de jornalista, a mudar de pele, de país, a não parar de trabalhar, mesmo que o cansaço por vezes se imponha. E quem é esta mulher? Alguém que não quer morrer numa “decadência ostensiva”. Que não corresponde, nunca correspondeu, a estereótipos ou normas sociais. Que acorda todos os dias para viver “da e com a memória”, consciente de ter sido protagonista de uma experiência que muitas mulheres gostariam de ter tido. Uma “maldição” que ainda hoje, sete anos passados sobre a morte de José Saramago, a afasta de refazer a vida, porque, simplesmente, não lhe apareceu à frente outro igual a ele.

Sabendo que não gosta que lhe 
chamem a viúva de Saramago, quem é Pilar del Río hoje, aos 67 anos?
Não gosto que me chamem ‘viúva de’ porque ninguém me chamou ‘mulher de’ enquanto Saramago foi vivo. Isto por duas razões: porque tinham de enfrentar Saramago e tinham de me enfrentar a mim. Cada um de nós é o produto de si próprio. Não somos nem do pai nem do filho. Somos o que queremos ser. Nunca fui a mulher de Saramago nem serei a viúva dele, por respeito a Saramago e a mim própria.

E então quem é essa Pilar?
Uma mulher que não corresponde a estereótipos como o bom comportamento ou às normas sociais que se esperam de alguém que já tem uma idade. Talvez porque essa mulher ainda não consiga encontrar os 67 anos em nenhuma parte do seu corpo. Claro que me olho ao espelho, mas acho que o que está mal é um problema do espelho. Sou uma pessoa que todos os dias, ao acordar, pensa no que quer fazer da sua vida. Não tenho ainda um caminho definido. Ou seja, não estou reformada de nada. Faço a minha vida como quando tinha 20 ou 30 anos. Vou trabalhar. Não quer dizer que não tenha problemas. Tenho-os, de saúde...

Não sente que abdicou de uma carreira?
Sinto que tive um impasse. Isso também me dizia o meu marido, que eu tinha abdicado de uma carreira para estar com ele, para participar e estar no seu projeto, e, de facto, fui parte ativa nesse projeto. Mas ele também dizia, nos últimos anos da sua vida e pensando nestas coisas da internet (fiz-lhe um site), que eu tinha voltado à minha antiga profissão, a de jornalista. A contar, a dizer, a compor... Se calhar, estou de volta ao projeto inicial da minha vida.

Essa mulher que está no seu projeto original persegue um caminho, quer alguma coisa. O que é?
Tendo conseguido que esta fundação funcione e que tenha gente entre os 30 e os 40 anos, essa mulher não quer morrer numa decadência ostensiva.

Porque é que se tornou jornalista?
Porque gostava de contar coisas que antes gostava de ouvir. Acima de tudo, sou uma ‘ouvidora’, oiço, oiço todo o tipo de gente em todo o tipo de circunstâncias. Tudo me maravilha. Nasci para me maravilhar com uma bola que rebola, com uma estrada que está a ser arranjada... Gosto de contar essas coisas. Tive um programa de rádio há muito tempo, já depois de ter conhecido o José, chamado “Blimunda Não Se Rende”. Nele contava as maravilhas que Blimunda, que era pobre e sozinha, ia encontrando no mundo.

É mais fácil viver quando se acredita no mundo e se está maravilhado 
com ele?
Eu não acredito absolutamente nada num mundo que está a ser governado por gente em que não acredito nem quero acreditar. O que não me maravilha são todas as insolências e as perversões que os poderes económicos praticam no mundo e as guerras que criam. Maravilha-me que haja refúgios e momentos de harmonia e de poesia. Fomos feitos para sermos seres passivos e sofredores, estamos preparados para ser a massa no que respeita aos conceitos de política e ao domínio do social e fiéis no que concerne à religião. Maravilha-me que de repente haja gente que é ela própria e que é feliz.

A religião fez parte da sua vida...
Nunca vi Deus. O que me atraía na religião era uma forma bonita de relação com os seres humanos, que acontecia através da caridade cristã, entendendo a caridade como amor. Mas isso foi antes de descobrir que acima da caridade estava a solidariedade. Esse momento teve a ver com a minha chegada à faculdade, com a possibilidade de partilhar, com as melhores pessoas, as ideias de liberdade, contra a tirania e a ditadura, ideias que vieram também com a leitura. Hoje descubro que a caridade, no seu sentido etimológico de amor e de partilha, também me interessa muito.

Quando é que percebeu que Espanha vivia numa ditadura?
Desde sempre. Em criança sabia que vivíamos num país criado por obra e graça de Deus. Sabia que Deus tinha criado Franco para fazer o país preferido dele.

Aprendeu-o na escola?
Não foi preciso, já o tinha aprendido em casa: Deus criou Franco e Espanha! Claro que, ao crescermos, nos apercebemos de que o mundo é maior do que Espanha. Damo-nos conta disso por uma notícia num jornal, um livro que lemos... Com 14 ou 15 anos descobres que há países onde se vota e aos 18 já sabes que em Paris está a acontecer muita coisa. Tudo começa a encaixar-se, a fazer sentido. E, com a mesma naturalidade que se aceitou fazer a primeira comunhão, aceita-se deixar de ir à missa. Lembro-me perfeitamente da última vez que me fui confessar: o padre perguntou-me se já tinha acabado, e eu respondi-lhe que sim, mas que havia coisas que não lhe ia dizer. Não ia confessar o amor nem que estava com o homem que escolhi, o meu primeiro marido.

No entanto, casou com ele pela Igreja e batizou o seu filho...
Fi-lo para não dar um desgosto à minha mãe, que vivia uma guerra civil e não tinha de suportar as iras do meu pai. Porém, a palavra ‘família’ provoca-me fastio, repugna-me. Faz parte do ADN que te dão a conhecer: Estado, Família e Religião; Deus, Pátria e Família, se quiserem. Vi tudo isso em casa. Fi-lo para não aumentar o conflito entre a minha mãe e o meu pai. Para mim, era igual, queria lá saber da religião. Casei-me pela Igreja porque a religião não me dizia nada. Era como pôr um vestido comprido para ir a uma festa social ou usar uma joia, tanto me fazia. Deus não significa nada para mim. Se há um Deus, ele vai perceber que tudo o que inventaram à sua volta é uma merda. Quero que haja um Deus para lhe pedir contas sobre o que fez aos seres humanos, às mulheres.

De onde vêm as suas convicções?
De um mundo cheio de pobres diabos. Vivo com seres humanos que tentam levantar a cabeça e não conseguem, porque lha cortam.

Disse que em sua casa havia 
um conflito e que rejeita a ideia 
de família. Porquê?
Rejeito-a porque tenho os olhos abertos para o que acontece no mundo, as hipocrisias e mentiras que se fazem e dizem por aí. Descobri isso ao ver “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, em especial o momento em que ele se vira para ela e lhe diz: “Mete o dedo no cu. A que cheira?” Era uma boa família! Quer isto dizer que as primeiras mentiras que o ser humano diz — porque se chegou tarde a casa, porque se precisa de qualquer coisa, porque se tem medo — são à família, em família. Na minha casa, o conflito traduzia uma sociedade patriarcal a viver numa ditadura política e religiosa. Havia o nacional-catolicismo. Eu não sabia quem era mais importante, se Deus, se Franco. Tinha dias. Qualquer coisa que saísse do âmbito do nacional-catolicismo era um problema, e se fosses respondona como eu eram problemas acrescidos. A última vez que o meu pai me deu uma bofetada já eu tinha 23 anos.

O que fez?
Fui-me embora, estava de férias e fui ter com o meu namorado. Até a minha mãe me apoiou. Bateu-me porque eu estava a defender uma irmã adolescente que tinha chegado a casa 10 minutos atrasada.

Percebe-se que a relação com o seu pai era complicada...
Não era complicada, porque nem sequer tive uma relação com o meu pai. Não se têm relações com os pais. Os pais existem para mandar em nós.


Trabalhar. É o que Pilar faz todos os dias, desde que assumiu a presidência da Fundação Saramago, a completar uma década. Na foto lê a passagem de “Jangada de Pedra” em que Saramago descreve o primeiro encontro entre os dois
JOÃO LIMA

O que faziam os seus pais?
O meu pai era um tipo singular. Foi frade dominicano e depois aviador e agente de seguros. A minha mãe, submissa, tinha de ‘se defender’ de 15 filhos e do marido. Era uma mulher extraordinária.

E como é ser a mais velha 
de 15 irmãos?
Não sei, acho que gostava de ter sido a mais nova de todos. A verdade é que partilhei a responsabilidade com a minha mãe na hora de tomar decisões, assim como as tarefas diárias, que iam de pôr toda a gente na escola a dar de comer e vestir... Foi um excesso de responsabilidade, do qual beneficio hoje em dia.

Tentou ser diferente como mãe?
Fui uma má mãe, porque sempre pensei que seria a vida a educar o meu filho e não eu. Nunca pensei no que queria ser como mãe, tinha outras coisas que fazer.

Que relação mantém com o seu filho, hoje já com 40 anos?
Trato-o como uma pessoa que é independente e que está a trabalhar. E está a trabalhar sobre Saramago.

O que é que faz?
É uma história linda. O meu filho estava a viver na Argentina, pois detestava a ideia de estar num país onde tivesse de se relacionar com o José ou comigo. Mas quando o José adoeceu a sério, perguntou-me se eu queria que me viesse ajudar. E veio da Argentina para Lanzarote com um amigo e fez com que a minha casa nunca fosse uma enfermaria. Ficaram até ao dia em que o José morreu. Neste momento está em Lanzarote a fazer visitas guiadas à casa todos os dias.

Houve um antes e um depois 
de Saramago?
Claro. Eu trabalhava como jornalista, tinha um programa e vivia num país. O facto de estar com José Saramago fez-me deixar um posto de trabalho estupendo e vir para um país onde não faço parte da memória de ninguém, nem então nem agora. Antes estava com o José, agora estou com a memória do José.

E quem é a Pilar depois do José?
Uma mulher muito mais velha, com uma experiência maravilhosa que muitas das mulheres que conheço, e mesmo algumas que não conheço, gostariam de ter tido. Sou uma privilegiada, vivi uma história absolutamente singular que partilho de manhã à noite todos os dias na fundação, na casa de Lanzarote, na Azinhaga. Vá para onde for, partilho essa história, porque é demasiado grande para a guardar só para mim: é a história de um dos cidadãos mais completos do século XX, uma pessoa que nasceu para ser massacrada e não o foi, que se levantou do chão, que se fez a si próprio, que não precisou de ser ‘filho de’, que nem sequer tinha o apelido do pai. Uma figura que os burgueses de mente curta ainda não conseguem compreender. Aqueles que não entendem a literatura de Saramago ou o próprio Saramago têm de ir a um especialista, pois são egoístas ou doentios ou têm uma conceção da vida demasiado elitista. Mesmo os que não concordam com Saramago não podem negar que ele os arrasa. Saramago é a-rra-sa-dor, um tipo que em menos de 30 anos construiu uma obra como esta. Alguém que escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

Fala de uma elite que ainda não compreendeu Saramago. Alguma vez se zangou com Portugal?
Não. Para mim, não existem países. Tenho semelhantes. O que é que herdei do franquismo? A repulsão pela bandeira.

Então reformulemos: alguma vez se zangou com os semelhantes 
de Saramago?
Zanguei-me com os espíritos pequenos, ou melhor, com o comportamento de alguns indivíduos, sobre os quais só me ocorre dizer “coitados”. Esses que escrevem uma coluna em Portugal e teorizam e dogmatizam, mas não chegam nem à raia de Badajoz. Passando Badajoz, não são ninguém. Não suporto quando começam com a conversa de que Saramago saneou não sei quantas pessoas. Não, desculpem, o diretor literário não faz saneamentos, foi a administração, há provas. E escrevem isso em jornais que mal pagam aos seus colaboradores, que mal pagam aos seus redatores e que põem na rua jornalistas. Mas esses não são saneados. Têm ódio à revolução, no fundo querem ser aristocratas. Mas não são!

Como é que um encontro pode 
mudar uma vida?
Não tive consciência de que a terra tremeu. José Saramago sim, e descreve-o na “Jangada de Pedra”. Eu não. Senti tudo isso com uma enorme naturalidade. Saí do encontro com ele e disse: “Vai acontecer qualquer coisa!” Cheguei a Espanha, e a primeira coisa que fiz foi telefonar à pessoa com quem namorava na altura para lhe dizer que não íamos continuar. Passou junho, julho, agosto. Em setembro recebi uma carta: “Se as circunstâncias da vida mo permitirem, gostaria de te ir ver.” Já me tinha dado recomendações de leitura, a nossa correspondência nesse sentido era quase ditatorial. Eu tinha de ler “Uma Família Inglesa”, de Júlio Dinis, o “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, a Agustina Bessa-Luís, a Lídia Jorge...

Soube logo que ia dedicar-se a este homem?
Dedico-me à vida, aos meus irmãos, e se na vida está o meu marido dedico-me a ele; se está a fundação, dedico-me a ela. Ou seja, sou uma mulher dedicada. Mas, sim, dediquei-me a ele de corpo e alma, sabendo que era uma pessoa inesgotável. Começava uma conversa que nunca dava por terminada, porque tinha sempre pontos de vista diferentes, tal como a sua literatura. Era uma pessoa com uma formação infinitamente superior à minha. Foi uma maldição.

Maldição?
Sim, depois de o ter conhecido já não consegui gostar de mais ninguém.

Nunca pensou em refazer a sua vida?
Com quem? Deem-me outro. Só teria reconstruído a minha vida se tivesse aparecido alguém assim por quem me apaixonasse. Acho que os homens se impressionam com isso, que não querem ser comparados.

Como era ser 28 anos mais nova e 
saber que sobreviveria a esse amor?
Tínhamos isso muito claro e preparámos tudo. Uma vez, Madalena Perdigão disse-me, pouco tempo depois de a conhecer, que tinha uma relação com um homem mais velho e que isso a fazia sofrer muito, pois a sociedade não a entendia. A sociedade só percebe o lugar-comum. Acontece que ela morreu dois anos depois e o marido viveu quase até aos 100. O José e eu sabíamos que era uma lei da vida. E numa conversa ao almoço em Lanzarote, com dois amigos espanhóis, surgiu a ideia de fazer uma fundação para tomar conta do seu legado humanista — não de uma herança ou de uma biblioteca. Saramago primeiro não achou grande ideia, mas a conversa continuou e, no final, disse-me que, se eu lhe sobrevivesse, queria que me ocupasse da fundação.


Legado. Foi num almoço em Lanzarote que surgiu a ideia de criar uma fundação. Saramago acabou por anuir e disse a Pilar que, se ela lhe sobrevivesse, queria que avançasse com o projeto
JOÃO LIMA

Uma vez disse que ele queria que 
“o continuasse”. Como se continua José Saramago?
É terrível. Pelo menos, Saramago tinha uma companhia, eu não.

Sente-se sozinha?
Não. O problema é quando viajo. Nos últimos dois anos tem sido mais difícil viajar sozinha, com uma mala, de aeroporto em aeroporto, para compromissos relacionados com Saramago. No penúltimo país que visitei tive uma quebra, pensei que ia morrer, tive de tomar um tranquilizante. Sou a escrava, a protagonista e a que apanha os copos. Ou seja, há de chegar o dia em que não conseguirei fazer mais. O José não tinha de fazer a mala, não ia sozinho. Falava e era Deus. Eu não sou Deus e tenho de falar como Deus. Sou recebida por chefes de Estado, estou presente em conferências, em todo o tipo de situações. A vida é complicada.

O que significa para si a Fundação Saramago?
É a residência do pensamento do José. As editoras só publicam livros para ganhar dinheiro. É um negócio. Mas quem trabalha o pensamento de José Saramago? Já não há editoras que publiquem ensaios. Então somos nós que o fazemos. Exemplo disto é a “Proposta de Declaração Universal dos Deveres Humanos” — que tem a ver com a nossa obrigação de retribuir à sociedade e vai ser apresentada à ONU — ou a difusão do teatro. Houve teatro de Saramago em Portugal, em Espanha, em Itália, óperas... Alguém se deu conta? E quem leva isto para a frente? Os herdeiros? Eles têm a sua própria vida e não lhes pode cair o legado em cima. É a fundação que se ocupa de tudo.

Com uma vida como essa, porque aceitou ser administradora da TVI?
Uns amigos ligaram-me e pediram-me para aceitar o cargo. Eu estava numa apresentação de Vargas Llosa e não podia atender o telefone e acabei por responder por mensagem. A proposta em si era tão surpreendente que não sabia o que dizer ou fazer. No entanto, pensei: se não for eu, vai ser outro. E porque não estar lá uma pessoa tão vincadamente de esquerda? Eu sou uma pessoa de esquerda e muito antissistema.

E o que faz como administradora não executiva?
Só participei em reuniões, espero agora poder participar em algo mais. Mas o que faço é basicamente aprovar as contas e um pouco da linha editorial. Não posso chegar ao Conselho de Administração de uma empresa a opinar, cheguei a ouvir. Agora espero mais.

Sentia saudades de estar num meio de comunicação social?
Há 20 anos teria respondido que sim. Queria ser diretora do “El País”. Estava muito irritada, e ainda estou, pelo facto de quase não haver mulheres nesses cargos. O meu jornal ideal seria aquele que me deixasse ser mulher e dar a minha opinião, sem prestar tanta atenção à lógica do mercado, mas sim à dos leitores.

Não é ingénuo pensar que isso 
é possível?
O que nos ensinaram já não faz parte daquilo a que se chama ‘fazer jornais’. Já não contamos o lado obscuro das coisas. Pelo contrário, somos os que beneficiamos os interesses do poder. Estamos ali para esconder as falhas do sistema capitalista e não para trabalhar para uma sociedade que se quer socialista na sua essência.

Acredita no jornalismo independente?
Acredito muito nas pessoas, mas cada vez que um jornal tratou de levantar a cabeça e fazer frente ao poder económico foi abafado. Um jornal progressista, independente, tem de fazer imediatamente concessões. E tudo acaba por não passar de um jogo de concessões.

Voltando atrás, quem é hoje a sua família?
Em Portugal não faço parte da memória de ninguém. Estou muito só, mesmo que esteja rodeada de gente fantástica aqui na fundação. A minha família é a memória. Irrita-me dizê-lo, mas vivo da e com a memória — embora seja uma memória que projeta, uma memória para o futuro. Tenho amigos adoráveis, um grupo de amigas em Sevilha... E tenho a tribo — é assim que chamamos a nós mesmos em família. Eu saberia dizer o que estão agora a comer os 15 membros da tribo, ou seja, os meus irmãos. Sei que nunca mais me vou encontrar com o José, que ele nunca me vai poder dizer se estou a fazer bem ou mal.

Porque é que insiste em dizer 
que não faz parte da memória 
de ninguém?
Porque não faço. Cheguei com 40 anos e não tenho a chave, o código, para as pessoas daqui.

Não se está a subestimar?
Não, sou realista. E a realidade é a minha idade. As pessoas andam para trás, recuperam momentos do passado, e eu não estou lá. Cheguei tarde, já bem crescida, como o apêndice de um homem. E durante os 25 anos que vivi com ele não tinha existência real, era uma sombra. E agora tenho uma existência real relativa.

Relativa como?
Não sei se as pessoas se dirigem a mim como a um ser humano que querem agarrar ou beijar ou como a uma mulher que tomou decisões que Saramago nunca tomaria. Em Granada e em Sevilha existo como pessoa e companheira de trabalho. Em Portugal não existo sem Saramago.

Gostava de mudar isso?
Teria de ter vontade de o fazer, e se calhar já não tenho. Mas é curiosa a quantidade de viúvos que Saramago tem. Um dia, aqui no meu gabinete, contaram-me como foi o casamento de Saramago. Foi comigo que ele se casou! Não se lembram? Não me veem?

Mas há muita gente que a conhece...
Não sei se me estão a ver a mim ou à sombra de Saramago, mas houve um tempo em que tive a ilusão que me estavam a ver a mim. Agora desconfio sempre. Já não sei quem me olha, porque me olha, que olhar é esse.

No fundo, fala da sua individualidade. Como a manteve sendo tradutora de Saramago e o seu braço-direito?
Mantive-a sempre, mas ninguém o sabia. Isso fazia parte da nossa intimidade, onde cada um era livre. Não estávamos comprometidos nem com partidos políticos, nem com Estados, nem com nacionalizações, nem com o casal que formávamos... Éramos um projeto, trabalhávamos juntos. Quando decidíamos o que íamos fazer, não o fazíamos em função de Saramago, mas do projeto e da agenda, do livro que se estava a escrever ou a traduzir. Trabalhávamos para um projeto no qual participavam outras pessoas, a que chamávamos ‘saramaguitos’.

Como foi traduzir Saramago?
Foi uma ousadia própria da juventude. Eu lia os originais das traduções que mandavam a Saramago e muitas vezes não estava de acordo. Mas ele tinha um tradutor muito bom, que era professor catedrático da Universidade de Barcelona, e quem era eu para opinar... O tradutor veio à apresentação espanhola de “Ensaio sobre a Cegueira”, de óculos escuros e de bengala: “Venho à apresentação deste livro consciente de que será o último que traduzirei, porque estou a ficar cego.” Não ficou cego, exagerou um pouco. Mas eu já lhe tinha dito que a partir dali traduziria eu! Fi-lo porque era ousada, senão nunca teria traduzido Saramago.

Que relação tem com a família do seu marido?
A neta trabalha aqui na fundação e a filha, que vive no Funchal, também faz parte da organização. Mas como está longe relacionamo-nos menos. É uma relação sem problemas, cordial.

Já disse que não gosta de bandeiras. Porque é que escolheu ter a nacionalidade portuguesa?
Para pagar impostos em Portugal. Não vou pagar por José Saramago fora de Portugal. E a verdade é que o Governo se portou muito bem, pois fiz um pedido normal e responderam-me logo. Ao cabo de dois meses já tinha a nacionalidade e já podia apresentar a declaração de impostos aqui. Pago muito mais aqui do que pagaria em Lanzarote, mas agora tenho legitimidade para criticar o Governo e o Estado ao qual pago os meus impostos. Fico colérica de cada vez que gastam mal o dinheiro.

Como é que essa formalização da relação com Portugal se conjuga com o ideal de uma Ibéria sem fronteiras?
Sabe, no outro dia deram-me o Prémio Luso-Espanhol de Cultura, por eu servir de ponte de comunicação entre Espanha, Portugal e América Latina, segundo o júri. Fiquei muito feliz. Como na “Jangada de Pedra”, creio que é para lá que caminhamos, para a América Latina. E servir de agente de comunicação entre culturas parece-me muito importante. Sugeri que mo entregassem em finais de maio, na Feira do Livro de Madrid, cujo país-tema será Portugal. Não sou mulher de salões nobres.

http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-04-30-Pilar-del-Rio-Jose-foi-uma-maldicao

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mia Couto - Solidão

Mia Couto

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 21 de novembro de 2017



PRÉ-PUBLICAÇÃO
Jaime Batalha Reis "A anarquia era integral: não havia nem polícia, nem magistrados, nem tribunais, nem leis"
Enviado pelo Governo à Rússia, em 1912, o diplomata só consegue de lá sair a 27 de Abril de 1918, seis anos depois. Apanhado pelo turbilhão da história, com o início da Primeira Grande Guerra e a revolução de Outubro, Batalha Reis é testemunha de acontecimentos únicos e deles dá conta em depoimento
20 de Novembro de 2017, 5:07

Serie A

Reservado junho/setembro, 1918
Exmo. Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros
A presente comunicação, relatando a minha saída da Rússia, será, em carater e forma, inevitavelmente desusada, tratando de factos muito extraordinários, senão únicos, na vida oficial de um diplomata português.
Ignoro até que ponto esse Ministério conhece qual foi a situação do corpo diplomático em Petrogrado durante os últimos tempos revolucionários, por ignorar quais, entre os meus telegramas e ofícios, lograram chegar a Lisboa, havendo-se interrompido, quase completamente, as comunicações com a Suécia, desde o começo da guerra civil finlandesa.
Como é sabido, os Governos da primeira revolução russa, chamados “provisórios”, mas mais ou menos internacionalmente reconhecidos, mostraram-se sempre incapazes de criar e manter qualquer forma de ordem ou legalidade em Petrogrado e na Rússia.
Depois da revolução bolchevique dirigida por Lenine e Trotsky, a anarquia tornou-se quase completa. E digo quase, porque, oficial e ostensivamente, o Governo de facto russo nunca deixou de reconhecer, apesar de alguns episódios excecionais, as qualidades e imunidades dos membros do corpo diplomático, que aliás nunca lhe estiveram formalmente acreditados.
A situação dos Diplomatas foi porém, na realidade sempre, mas sobretudo nos últimos tempos, muito ameaçada e perigosa.
Houve, por mais de uma vez, começos de invasão nas embaixadas de Espanha, Inglaterra e Itália, nas legações da China, Dinamarca e Bélgica. Dois Secretários da legação da Roménia foram insultados e batidos num tramway, o Ministro da Itália atacado e roubado às 10horas da noite num dos lugares mais frequentados de Petrogrado (em frente do Hotel da Europa), saqueada a casa de um dos seus secretários.
A casa onde se achavam o Consulado e, em parte, os arquivos da legação de Portugal, por isso dependência oficial desta e sempre, como tal, reconhecida pelas autoridades superiores do Governo bolchevique, foi, entretanto, muita vez parcialmente invadida por soldados, por guardas vermelhos e operários, que se apresentavam como em cumprimento de missões oficiais, mas realmente para roubar.
A legação de Portugal, onde eu e minha família habitávamos esteve por diferentes ocasiões protegida por soldados russos. Os que, no começo da primeira revolução, nos guardavam eram das Equipagens navais da Guarda Imperial e tinham acabado, quando vieram guardar-nos, de assassinar quase todos os seus oficiais. Quando, por serem soldados os próprios que assaltaram as casas, roubavam e muitas vezes matavam os moradores, preferimos abandonar este meio precário de segurança, foram minhas filhas, e fui eu, que, dividindo entre nós as horas da noite, velávamos pela nossa própria segurança até ser manhã clara.
A atitude dos corpos diplomáticos, permanecendo na capital da Rússia, continuando a exigir o respeito de todas as imunidades e privilégios da extra territorialidade, sem entretanto nunca reconhecerem o último Governo revolucionário, exasperava os bolcheviques.
Todos os dias chegavam às Legações notícias de ameaças contra elas e seus membros, publicadas nos jornais e proferidas nas inumeráveis reuniões públicas.
Por duas vezes o Embaixador dos Estados Unidos, decano do corpo diplomatico, recebera mensagens escritas e assinadas pela junta diretora do Centro Anarquista, tornando as vidas dos diplomatas em Petrogrado responsáveis por tudo que, nos países que eles representavam, fosse feito contra quaisquer anarquistas. Como exemplo, que por assim dizer, me tocou de perto, exemplo, um entre milhares, do estado de toda a Rússia, notarei que, em dezembro de 1917, soldados assassinaram, com sua família, Mr. Goremykine, velho de mais de 80 anos, um dos últimos Presidentes de Conselho de Ministros do Imperador, proprietário da casa da legação de Portugal, por mim habitada até à nossa saída da Rússia. Os assassinos entraram, às 6 horas da tarde, na sua casa de jantar, enforcaram numa porta Mr. Goremykine, estrangularam sua mulher, mataram, a tiro, o General Oftchinikov seu genro, e feriram sua filha, que sobrevivendo, depois enlouqueceu. Estes e todos os assassinatos, ficaram sempre impunes. A anarquia era integral: não havia nem polícia, nem magistrados, nem tribunais, nem leis.
Cinco meses (outubro a fevereiro) durou no seu estado completo esta situação, mas nunca as missões diplomáticas em Petrogrado pensaram que ela bastasse a fazê-las a abandonar os seus postos.
Só um momento, algumas legações Aliadas entenderam que partiriam, se o governo bolchevique, tendo prendido Mr. Diamandy, ministro da Roménia, não cedesse logo, pondo-o em liberdade, às justas e coletivas exigências do corpo diplomático.
Quando, nos fins de 1916, o embaixador de Inglaterra, Sir George Buchanan, se tornou, pela partida do Visconde Motono, embaixador do Japão, decano do corpo diplomático, algumas vezes foram os chefes de missão convocados a reunir-se, e a deliberar juntos, sobre os acontecimentos correntes.
Começaram então as grandes lutas entre os partidos revelados e produzidos pela Revolução russa.
Mas essas reuniões só se tornaram mais frequentes quando, após Outubro de 1917, as Nações Aliadas da Rússia e as neutras, sem reconhecerem de facto a legitimidade dos diversos Governos, continuaram a manter representação diplomática em Petrogrado.
Na primeira das reuniões das missões Aliadas decidiu-se que estas não praticassem ato algum que não fosse previamente comunicado a todas, discutido e decidido em comum, devendo conservar-se estritamente secreto, para todos os que não fossem os respetivos Governos, o que em tais reuniões se passasse.
Quando, pela partida do Embaixador de Inglaterra, doente na verdade havia muito, e oficialmente apenas ausente por esta razão, o decanato e presidência do corpo diplomático passaram ao embaixador dos Estados Unidos, Mr. David Francis, as reuniões tornaram-se mais frequentes.
Em mais de uma delas se havia discutido a oportunidade, para as legações, de se retirarem de Petrogrado, ou mesmo de saírem da Rússia. A doutrina que, de acordo com as instruções enviadas às embaixadas pelos respetivos Governos, havia sido assente, quase sem discussão, fora a de que as representações diplomáticas se conservassem na capital, enquanto na Rússia existisse qualquer elemento de resistência contra a ação alemã, ou qualquer possibilidade de produzir ou provocar uma tal resistência. Assim, em todas as reuniões em que esse assunto fora discutido se decidira sempre permanecer em Petrogrado.
Alguns representantes supunham (e eu era um deles), que o Governo bolchevique dificultaria a nossa saída da Rússia, conservando os diplomatas como que em reféns para futuras eventualidades.
No mês de janeiro de 1918, os alemães dominavam por muitas formas, ostensivamente já, Petrogrado.
Tornara-se evidente, depois dos últimos acontecimentos militares alemães (entrada em Riga, ação directa sobre o Golfo da Finlândia, ocupação de Pskov, demonstração até Bologoye, sobre as comunicações com Moscovo), que os exércitos alemães ocupariam Petrogrado quando quisessem.
Era pois necessário saber se as legações das Potências Aliadas contra a Alemanha deveriam correr o risco, que a alguns chefes de missão parecia eminente, de serem aprisionados pelos soldados das Potências centrais.
Pela minha parte nunca considerei que este risco fosse próximo: os alemães e os austríacos eram, de facto, ostensivamente mesmo, e pela simples presença de algumas missões oficiais, senhores do único Governo que, na Rússia, tinha força e eram senhores da sua capital em Petrogrado. Enviar tropas a esta cidade importaria a ocupação militar efetiva de uma região extensíssima, no meio de uma população, como a de Petrogrado, densa e esfomeada; importaria a marcha, a alimentação e municiamento, sobre vastos territórios, então gelados, e, dentro de dois meses mais, cobertos de água e lama. A revolução russa fora, com efeito, pelo contrário, fomentada pelos alemães, como meio de não precisarem ter tropas na Rússia. A minha previsão era justa, pois que, 5 meses depois, em pleno verão, ainda as tropas imperiais não ocupavam Petrogrado.
Este meu modo de ver, fiz, por mais de uma vez, sentir aos meus colegas.
Mas nenhuma reunião geral foi nunca convocada para discutir este, mais que todos, importante assunto e resolver sobre ele, se bem que os chefes de missão se tivessem nos últimos dias várias vezes reunido para meras questões de sustentação das suas imunidades diplomáticas e das imunidades dos membros das colónias estrangeiras.
Inesperadamente, uma manhã, o Encarregado de Negócios de Inglaterra, Mr. Lindley, comunicou-me, em termos muito concisos e reservados, ao telefone, haver-se decidido partir, em poucos dias, de Petrogrado. Com efeito, as embaixadas dos Estados Unidos, de Inglaterra, de Itália, de França e do Japão, aliás, ao que parece, sem instruções precisas dos seus Governos, haviam tomado essa resolução, por si mesmas e pelas outras legações aliadas, sem com estas se haverem antes reunido e concertado. Mas nem a forma de partir, nem o lugar de destino exatamente se definiram até ao último momento.

Pré-publicação de Dos Romanov a Lenine, editado pelo Instituto Diplomático, Associação dos Amigos do Arquivo Histórico-Diplomático e com o apoio do Instituto de História Contemporânea

  évora 20.11.2017 22:23
esta porcaria de pré-publicação tinha mesmo que destruir a bela ortographia de Batalha Reis, convertendo-a à traição (como nem os russos, senhores!) ao simplismo pestilencial do acordês? Por que não conservar o sabor, o travo gráfico e phonetico do original?

Pablo Neruda - Sê


* Pablo Neruda



Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Sophia de Mello Breyner - Cantaremos o desencontro:

Sophia de Mello Breyner 

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


em O Nome das Coisas (1977)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

António Bagão Félix - ez palavras: na moda, mas feias

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16 de Novembro de 2017, 08:32

Por


Dez palavras: na moda, mas feias

A
proxima-se o dia do anúncio dos dez vocábulos para a votação da “Palavra do ano”, uma interessante iniciativa da Porto Editora desde 2009.

Enquanto aguardamos, resolvi fazer uma outra escolha: a das 10 palavras mais feias que por aí andam de braço dado com modismos ou encavalitadas em posologia tecnocrática. Fealdade, evidentemente subjectiva. Ou feiura, que só não está entre as eleitas porque ninguém a balbucia. Para mim, a estética da palavra é uma mistura quase sinestésica do som, da textura silábica, do bom casamento (ou não) entre vogais e consoantes, da macieza (ou falta dela), da cor que, por vezes, lhe associo. Numa curta viagem pela memória do ano, eis a minha selecção (por ordem alfabética):
1. Alavancagem, às vezes até sem embraiagem e engrenagem. Muito em voga na linguagem financeira e empresarial. Associo-a a tacto áspero, com vogais sem travagem. Mais tarde ou mais cedo, antevejo que vai servir para medir o grau e intensidade do assédio sexual.
2. Bascular, que não devemos confundir com basculhar ou vascular. Verbo muito usado no futebol, ainda que sem conta, peso e medida. Conjugação retorcida, como por exemplo, no imperativo “bascula tu!” ou no condicional “bascularia”. Além do mais, palavra a preto-e-branco entre as vogais a e u.
3. Disrupção. Pior só o sinónimo rompedura. Associo-a à memória do som agudíssimo do giz arranhando a pobre lousa escolar.
4. Empoderamento. Olfactivamente, o substantivo tem falta de refrigeração, por isso o associo a podre. Tem uma forma axadrezada, o que não significa necessariamente “xadrez” para o empoderado. O verbo é do mais divertido que há. Imaginemos um diálogo: “Empodera-o tu! Não senhor, melhor seria se tu o empoderasses…
5. Engajar. “Engaja, pá, antes que eu engaje”. Eis o engajamento em todo o seu verbal esplendor, indicativo e conjuntivo. Quando ouço estas palavras logo olho para os sapatos para ver se precisam de engraxamento. E do castanho me lembro.
6. Governança. Palpita-me que anda por aqui ideologia de género. É que governo é palavra masculina e governança é feminina, mesmo que juntas com outro palavrão, governabilidade. Cá para mim, associo-a a cozinha, bons pratos e olfacto guloso. E recordo, gostosamente, o governo da governanta da “família Bellamy”.
7. Incumbente. Que me perdoe um qualquer intendente desta palavra incumbente, mas só a retenho no sentido botânico, ou seja pensando na parte da planta inclinada para a terra. Palavra escura, senão mesmo tétrica, não por causa da planta, mas da terra para onde se vai.
8. Paulatinamente. Isto é: latinamente e com pau. Por fases. E atempadamente, a sua irmã siamesa, qual delas mais feia e disforme. Associo-as aos equipamentos desportivos às riscas. Não sei porquê.
9. Performante. Mais um anglicismo, tal qual o performativo. De todas estas palavras é a que cheira melhor, não fosse parente da perfumaria. Mas tirando isso, é como se em vez de um saboroso bacalhau com batatas, grelos e ovo cozido me dessem, em versão “nouvelle cuisine” minimalista, um “bacalhau confitado com pastel crocante de grão de bico, acelga selvagem e sêmola de milho”.
10. Resiliência. Lamento, mas já não a tenho (a dita resiliência) para sequer a comentar. Nem para a alocar (esta seria a 11ª…).
Peço desculpa por ter deixado de fora uma série de palavras que me merecem toda a desconsideração. Não tiveram “cabimento” (outra, a 12ª).

https://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/11/16/dez-palavras-na-moda-mas-feias/?page=/&pos=24&b=opinion__compact

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Resende Ventura (Manuel Medeiros) - AMOR CEGO

* Resende Ventura (Manuel Medeiros)


que bom seria que chegasses!
abrir-te a porta
entrares sorridente

e nascer o grande abraço que entre nós
ficou a germinar

a cor do meu planeta é sempre o verde
nos olhos que fechei para guardar
a luz de primavera que lhes deste

ceguei-me de amor por ti

a luz de outono tentou
que me fitasse na cor
das minhas folhas caídas

mas os meus olhos são teus
e já nada mos devolve
nem este espelho de mim

só podem voltar a ver
quando tu batendo à porta
a luz de abrir os acenda
para nos teus me perder

ó momento de chegares!
e nosso abraço a nascer
do milagre de te verem
uns olhos que amor cegou!

Resende Ventura (Manuel Medeiros)

Papel a mais – papéis de um livreiro com inéditos de escritores, Esfera do Caos, Lisboa 2009

Ana Luísa Amaral - Quase de nada místico

Quase de nada místico 

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.

- Ana Luisa Amaral - in Às vezes o Paraíso