D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Gustavo Carneiro - Num bairro, a História
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Fernando Pessoa - "Sê plural como o universo!"
«A frase "Sê plural como o universo!"
Trata-se de uma anotação isolada, um aforismo (frase curta que encerra um pensamento) que Pessoa registou de forma imperativa numa folha de papel solta.
Onde foi publicada?
Como grande parte da obra de Fernando Pessoa não foi publicada enquanto ele era vivo, este fragmento ficou guardado na sua famosa arca de manuscritos (o seu espólio).
A frase veio a público pela primeira vez em 1966, no livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação".
Nos arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal, este fragmento textual está catalogado sob a referência específica BNP/E3, 20-68r. Ele surge ali, sozinho, como um lema de vida ou uma instrução que o poeta deu a si mesmo.
O significado por trás da frase
Embora curta, a frase resume perfeitamente o conceito da heteronímia e o projeto literário de Pessoa.
O universo não é uma coisa só; é feito de multiplicidade, de contradições, de planetas, estrelas e perspetivas diferentes.
Um homem com uma mente desperta não se pode limitar a ter uma única profissão, uma única personalidade ou uma única opinião.
Ao escrever "Sê plural como o universo!", Pessoa justificava a criação dos seus outros "eus". Se o universo é infinito e múltiplo, o poeta também tinha o direito — e o dever — de o ser.? (Google Gemini)
fernando pessoa - AUTOPSICOGRAFIA
Valter Hugo Mãe - O Filho de Mil Homens
O texto completo de onde esse trecho foi retirado encontra-se no Capítulo 11 do livro. Ele descreve a profunda e dolorosa ligação das mulheres daquela vila piscatória com o mar, que tanto lhes dava o sustento como lhes roubava os maridos e filhos.
Aqui está o parágrafo completo em que o excerto se inclui:
"O mar era um cemitério em frente de casa. As mulheres olhavam-no com uma raiva que se parecia com a oração, que era uma oração ao contrário, a pedir que o diabo não lhes levasse a carne da sua carne. Este foi o mar das mulheres, aqui se glorificaram e aqui naufragaram. Tinham os olhos postos na linha do horizonte como quem vigia a hipótese do fim do mundo, e o fim do mundo acontecia-lhes tantas vezes."
Contexto da Obra
Em O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe explora a invenção do amor e da família por vias não consanguíneas. A história acompanha Crisóstomo, um pescador que chega aos quarenta anos e sente a urgência de ser pai, decidindo "adotar" Camilo, um jovem órfão.
O mar, neste livro, funciona quase como uma personagem viva — uma força da natureza implacável que molda a solidão, a resiliência e o luto das gentes daquela costa.
Não é possível fazer a transcrição integral do capítulo por motivos de direitos autorais (copyright), já que as leis de propriedade intelectual limitam a reprodução de capítulos inteiros de obras literárias protegidas.
No entanto, o romance O Filho de Mil Homens é composto por capítulos curtos e o trecho citado faz parte do Capítulo 11, dedicado a retratar a melancolia e a força das mulheres daquela comunidade piscatória.
Posso partilhar a estrutura poética e os elementos centrais desse capítulo para que consiga acompanhar o fio condutor do autor:
O Mar como Cemitério: O capítulo abre com a poderosa imagem do mar visto como "um cemitério em frente de casa", estabelecendo imediatamente o tom de luto constante que define a vida daquelas gentes.
A Oração Invertida: Valter Hugo Mãe descreve que o olhar das mulheres para a água continha uma raiva que se assemelhava à prece, mas uma "oração ao contrário", destinada a proteger "a carne da sua carne" (os seus maridos, pais e filhos pescadores) das garras da morte.
O Cotidiano da Espera: O texto desenvolve a ideia de que a rotina daquelas mulheres era a da vigília eterna. Elas passavam os dias com os olhos fixos na linha do horizonte, como se antecipassem o fim do mundo — um fim do mundo que, tragicamente, lhes acontecia repetidas vezes a cada naufrágio.
Curiosidade: O impacto real desta frase
Esta passagem específica tornou-se tão marcante na literatura contemporânea portuguesa que a frase "Este foi o mar das mulheres. Aqui se glorificaram e aqui naufragaram" foi escolhida para integrar uma grande obra de arte urbana em Portugal. Ela está pintada no gigantesco Mural da Seca do Bacalhau, em Vila do Conde, criado pela artista Isabel Lhano para homenagear as mulheres vilacondenses que dedicavam as suas vidas ao duro trabalho da salga e secagem do peixe-» (Google Gemini)
Che Guevara - Carta aos filhos
«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.
O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:
1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)
O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:
"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."A célebre carta de despedida de Ernesto Che Guevara aos seus cinco filhos (Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto) foi escrita em 1965, quando ele deixou Cuba para seguir para novas frentes revolucionárias. É uma carta curta, íntima e carregada de conselhos éticos.
Aqui está a transcrição integral da carta traduzida para o português:
Aos meus filhos
Queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto:
Se algum dia tiverem de ler esta carta, será porque já não estou entre vós.
Quase não se lembrarão de mim, e os mais pequenos não se lembrarão de nada.
O vosso pai tem sido um homem que age como pensa e, com certeza, tem sido fiel às suas convicções.
Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poderem dominar a técnica, que permite dominar a natureza. Lembrem-se de que a revolução é o que é importante e que cada um de nós, sozinho, não vale nada.
Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir, no mais profundo de vós, qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário.
Adeus, meus filhos, ainda espero ver-vos. Um grande beijo e um grande abraço do vosso
Papa
O detalhe no mural
O trecho que destaquei em negrito é exatamente a secção que os artistas de Orgosolo escolheram para eternizar na parede de pedra, adaptando a mensagem paternal de Che a um apelo universal de empatia para quem visita a vila.» (Google Gemini)
Emílio Lussu
Jaime Nogueira Pinto - Uma topografia do Além: a Commedia, em tempo de Natal
* Jaime Nogueira Pinto
27 dez. 2025,
00:18
Na infância,
muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos
decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa
atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados,
suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade,
mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia,
crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré. Uma das
mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.
E começa pelo
Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março
de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara
grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por
200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.
Dante estava
metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na
bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva
polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se
agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a
partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os
partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários
radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas
do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do
que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em
Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de
Natal de 1294.
Dante, guelfo
branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros
tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre,
Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo
da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de
antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il
Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada
de recuperar as graças dos Médici.
Mas Maquiavel,
depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma
desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela
primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de
Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram
para sempre e que sublimou em poesia.
Neste tempo, em
Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a
cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e
literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.
Voltando a
Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria,
passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio.
Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a
reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301,
Corso Donati, um guelfo negro que se encarregou da purga, do saque e das
decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não
estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).
Dante estava em
Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos
finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma
multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de
confisco.
Na amargura do
exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona,
Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade
nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.
O poeta
da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde
também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio,
arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII,
chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos
simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou
enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno
dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei
Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado
por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados
por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações
pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no
Sétimo Círculo, por sodomia.
No Inferno dantesco,
o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.
De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão
os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar
aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes
filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles,
Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente
ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que
tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).
Os restantes
círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a
Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo
para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição,
para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.
Em toda a
expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o
vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o
acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no
Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso
porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que
veio depois dele morrer, em 19 AC.
No último
círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três
cabeças que agita as asas num vazio gélido.
Os
Terraços do Purgatório
Se o Inferno se
estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de
sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali
para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a
Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência;
contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a
Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.
As
personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no
Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC),
Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese
Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de
polémica vituperativo jocosa (por sinal bastante ousada,
já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente,
a mulher).
O Purgatório
contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar.
No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a
expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um
propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as
orações dos vivos, para atingirem a redenção.
Mas há também
alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a
tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora,
insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o
autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os
gregos conquistaram Troia.
Ulisses fora
pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem
virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por
criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o
choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo
publicado no New Yorker de 1 de Dezembro: como é que
Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É
um lugar extremamente desagradável e para muitos de nós Ulisses é
um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso
condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para
seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini,
Paolo e Francesca).
A explicação da
condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e
Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias
do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo
pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do
mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à
aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena
equipagem, passando as “colunas de Hércules”.
O Voo
Louco de Ulisses
Assim, Dante
altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses
foi virtuoso ou fraudulento.
Na Comédia,
Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per
seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes
feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o
conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da
sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no
Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande
turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo
louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte
os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de
satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela
tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o
pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …
Com
Beatriz no Paraíso
Ulisses
perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou
aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira
instância da sua viagem pelo Além.
O Paraíso
dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus,
céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de
beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati
(as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do
lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem
das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de
Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou
a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com
isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos,
absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.
Tal como o
Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas
concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).
Há dúvidas
sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita
no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a 1302. Pensa-se que
o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313
ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O
Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona
desde 1311-1312.
A viagem ao
Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril
de 1300 e o dia 14 do mesmo mês. Dante passou dois dias no Inferno, três
no Purgatório e 24 horas no Céu.
A breve
passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão
perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços,
o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por
diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em
função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte,
Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a
Deus-Pai.
Dante tem, nas
várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador,
Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos
clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi
depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra
teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até
o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali
está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe
conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte,
estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida
degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por
Conrado III.
Na conversa com
o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos
Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e
um viajante privilegiado pelas rotas do Além.
Dante e a
Igreja
Além de
Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita
em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai
encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo
da Commedia.
No entanto, a
Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia
Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e
São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.
Foi Leão XIII,
o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que,
confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e
do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para
a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il
nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja. E no século XX, os
seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.
Assim o fez
Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In
Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia.
exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI,
na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na
véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa
Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:
“Relendo a sua
vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram
confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e
desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E
isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo
nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade,
uma plenitude de vida”.
Seguir Dante na
sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo
de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.
Um Santo Natal.
https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/
Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"
Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.
04 jun. 2026,
00:24
* Jaime Nogueira Pinto
“On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.
O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.
Depois de
1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política
corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960,
os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e
também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos
esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso,
a prestar um grande serviço à pátria.
A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional. Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.
A guerra
civil europeia
Ao criar, em
Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de
“inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e
consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em
muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.
Foi também
para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus
“camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do
fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do
comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a
Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do
Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente
revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”.
A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava
também integrada numa cultura futurista que via a violência como força
transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano
“viver perigosamente”.
O 28 de Maio,
a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o
fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –,
eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não
era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República.
Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de
Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver
habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também
que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma
organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar,
sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da
República.
O Exército
e Salazar
O partido
único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o
Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.
A verdade é
que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava
de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e
caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista,
nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção
de um Estado paratotalitário e social.
O que há em
Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e
crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a
nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A
sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras,
Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo
social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira
República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os
princípios proclamados e a política praticada.
Foi esta
democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que
coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido
Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente
alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e
de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).
A cabala
Alguns
dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação
fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de
Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do
nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede,
santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam
empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E
que tinha o Partido que ver com isso?
Não, a
Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para
evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E
como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato
judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?
E quanta
pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos
em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões
do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na
Venezuela?
Aqui, onde
os verdadeiros fascistas acabaram na oposição
Há cem anos, a
maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com
recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo
liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características
autoritárias e nacional-conservadoras. Mas não foram “fascistas”, como
tantas vezes são qualificados.
Esta
desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos
em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo
húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o
fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a
votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a
monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.
Além de um
certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização
da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes,
azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho
fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no
anti-comunismo, não foi fascista.
Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição.
Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século
* Jaime Nogueira Pinto
Indiferentes
à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas
trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da
Revolução de Maio.
28 mai. 2026
Há cem anos,
deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais –
capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do
general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da
Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que
faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os
civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.
Braga era a
sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para
iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada
“revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de
1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa,
ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes,
ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e
alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.
A República
jacobina
Com um record
de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República
caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos
militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao
monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano
Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”.
Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que
tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens
da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para
apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do
Progresso e da Liberdade.
Afonso Costa e
os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos,
reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes
arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe,
serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o
cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.
Mas a repressão
não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento
sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro
pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa
forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à
esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se
inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.
Por isso, além
de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912,
enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de
1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o
“presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado,
confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas
superiores de luta em caso de necessidade.
A seguir ao
sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e
“avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de
António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921);
a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em
revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos
“democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado
Santos.
O Zeitgeist
europeu
Dera-se,
entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo
trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento
da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em
Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o
fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma
“direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A
maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o
nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base
militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o
general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926,
dias antes do 28 de Maio.
Em Portugal
também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e
tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe
política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris
depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de
Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária,
organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo
anti-monárquico.
A
tripartição fatal
Os anos finais
da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300
bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora
católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a
nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O
partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da
criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em
França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência
socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco
Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários
públicos, alfaiates e ferroviários”.
Mas o PCP era
então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao
internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo
soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika”
Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”,
os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no
movimento operário português em relação aos comunistas.
De qualquer
modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República
Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não
alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%.
Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não
houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os
cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da
vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro
de 1926.
O partido
(militar) do Estado Novo
É neste
acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de
tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de
1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar. E que vão purgando
os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói
do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho,
com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão
do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que,
apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo:
a crise financeira.
Como em todos
os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições
parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política.
Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o
perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos
vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de
excepção.
Aqui a
diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas”
requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a
aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do
país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder
constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado
de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos,
institui a censura prévia e mantém uma polícia política.
A esquerda
unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes
encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a
Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a
modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar
manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o
analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que
sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis,
tendem a chumbar nos actuais polígrafos.
Nos anos 50 –
não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um
“colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que
o império ultramarino era essencial para independência e para importância
política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar –
primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de
desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em
Abril de 1974.
Salazar criara
um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele,
com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que
não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia
sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado
Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem
faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

.jpg)
.jpg)



.jpg)

