domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

A nossa desigualdade persistente tem raízes anteriores ao modelo neoliberal. Enquanto no resto do Ocidente a desigualdade diminuiu até aos anos 80 do século XX, sobretudo depois da construção dos seus Estados sociais, ela manteve-se elevada em Portugal durante a maior parte desse período, só tendo caído de forma significativa depois do 25 de Abril. Sendo tão persistente, cristalizou a convicção difusa de que as posições sociais têm uma justificação moral — o comportamento dos que estão em baixo. É assim que um dos países mais desiguais da Europa popularizou um estranho diagnóstico para si mesmo: a doença nacional não é o privilégio, é a inveja que ele alimenta. Quem nunca citou “a última palavra d’‘Os Lusíadas’”? O classismo tem, em Portugal, um retrato resistente: o pobre digno, humilde, que trabalha de sol a sol, que não exige, que não se queixa. Que não inveja. E assim se assinala, por exclusão, o pobre indigno: o que reclama, que faz greve, que recebe apoios. Enquanto a sede de justiça for um problema de caráter a desigualdade não será um problema de estrutura.

Mas o classismo tem uma ordem: começa no fundo das escadas, pelos mais frágeis, e vai subindo. Como é sempre a elite que produz as verdades incontestáveis de que se faz o senso comum, cada degrau é mobilizado contra quem está abaixo, poupando sempre, para não ser invejoso, quem está acima. E nunca percebendo que é o próximo a ser pisado. O primeiro degrau é do imigrante. Vem abusar dos apoios, não se integra, não quer trabalhar. Isto sobre contribuintes líquidos da Segurança Social indispensáveis para a nossa economia. Contra ele, leis de imigração e da nacionalidade mais restritivas. O segundo degrau é do pobre nacional que recebe apoios. Está encostado, faz do subsídio uma vida, também não quer trabalhar. Contra ele, 15 horas de trabalho obrigatório em troca de um apoio social, como se o problema fosse a preguiça, não a pobreza. O terceiro degrau é do trabalhador descontente. É um obstáculo à competitividade, faz greve em véspera do feriado e, claro, também não quer trabalhar. Contra ele, uma contrarreforma laboral que fragiliza quem já tem tão pouco poder na empresa. Um Governo sem um programa de modernização do país só tem de apostar nesta tripla.

Num país que, seja qual for o critério, gasta em proteção social uma percentagem do PIB significativamente abaixo da média europeia e muito abaixo do que as menos necessitadas França ou Finlândia, o RSI não é um privilégio, é a última rede. Podemos debater como tornar os apoios mais eficazes e orientados para a empregabilidade. Mas as 15 horas de trabalho obrigatório foram apresentadas sem estudos, dados sobre os beneficiários, estratégia de inserção ou clareza sobre a quem se dirigem e o que se pretende que façam. Porque, para além de esconderem os cortes em vários apoios, era a mensagem, não a função, que interessava: quem recebe apoios sociais é, em princípio, malandro, e o Estado vai pô-lo na ordem. Quem vive do preconceito não são precisos números. Da mesma forma que o Governo construiu toda a contrarreforma laboral no pressuposto de que os problemas de produtividade resultam de quem trabalha — quando todos os dados indicam o contrário — e uma lei da imigração com um apagão estatístico deliberado. Entretanto, os mesmos que exigem ainda mais vigilância e burocracia para um RSI cada vez mais minguado e recebido por cada vez menos gente vivem bem com a ajuda que o Governo deu aos patrões que não declaram os seus trabalhadores à Segurança Social. A burocracia é um escândalo para o empresário, construtor, agricultor ou investidor, em quem devemos confiar, mas é indispensável perante os abusos do pobre, que até passou a ter direito a um canal de bufaria.

A regulação da imigração, a natureza dos apoios sociais e o aumento da produtividade são debates legítimos. Mas foram capturados e instrumentalizados por uma elite que, vivendo pendurada no Estado, naturaliza a desigualdade prometendo pôr os de baixo na ordem. O classismo não é um preconceito. É um programa político.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-04-por-os-de-baixo-na-ordem-355e9521

Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


O Papa Leão XIV assina a a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, a 15 de Maio, numa fotografia divulgada pelos serviços de comunicação do Vaticano VATICAN MEDIA - VIA REUTERS

As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas” do nosso tempo.

Jorge Wemans

7 de Junho de 2026


É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum, mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à “questão social”.

Desde logo é o próprio Leão XIV que sublinha essa necessidade de um pensamento católico em constante evolução, contrariando o preconceito ainda reinante na Igreja Católica de que tudo é imutável nela e na sua missão, porque já foi tudo dito e feito por Jesus Cristo. Pelo contrário, escreve o actual bispo de Roma, o pensamento católico tem de recorrer ao “essencial contributo da filosofia e das ciências humanas e sociais, que ajudam a compreender e a analisar mais profundamente as dinâmicas culturais, económicas e políticas”.

E é por isso que afirma que a “doutrina social da Igreja surge, não como um manual de princípios e normas a aplicar, mas como um caminho de discernimento comunitário (…) deixa-se interrogar pelos sinais dos tempos; nutre-se dos contributos das ciências, das culturas e das experiências humanas”. Consequente com esta afirmação, a Magnifica Humanitas não se apresenta como a última palavra sobre a IA e as suas consequências, mas como o início de “um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso”.

Leão XIV coloca-se, assim, muito longe da “Igreja mestra da última palavra” e cita o Papa Francisco para explicar como quer que a sua palavra seja entendida: “A Igreja não pretende oferecer ‘uma palavra definitiva’, mas reconhece a importância de ouvir a investigação científica e favorece um intercâmbio sério e leal entre estudiosos, acolhendo a diversidade de opiniões”. Talvez seja este seu posicionamento que lhe permite usar expressões tão fortes e exprimir conclusões tão veementes nesta sua primeira encíclica.

Outra das grandes inovações deste texto diz respeito ao tempo em que ele é publicado. Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte económico, social e cultural da IA e dos seus futuros desenvolvimentos. O Papa Prevost arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram de substancial sobre as “coisas novas” do nosso tempo. E, desse modo, afirma-se como alguém à frente do seu tempo.

O tempo da escolha decisiva

Num tempo acelerado como aquele em que vivemos, Roma não quer ficar à margem, maldizendo a rapidez com que os acontecimentos se sobrepõem e os processos se sucedem. Mantendo uma reflexão crítica sobre a euforia do passageiro, o Vaticano parece ter entendido a colossal diferença entre erguer a sua voz hoje ou amanhã. E o contraste com o passado é, ele mesmo, abissal.

Leão XIII escreveu sobre as consequências da Revolução Industrial um século depois de ela ter começado. Era o tempo do “esperar para ver”, da palavra última e definitiva que exigia uma longa e demorada avaliação dos fenómenos sociais. O Vaticano intervinha empurrado por uma realidade que já transformara boa parte do mundo e sobre a qual quase tudo já havia sido dito.

Por sua vez, o Papa Francisco recuperou décadas de atraso da Igreja Católica em relação à “questão ambiental” que as outras Igrejas já tinham relevado como incontornável. Fê-lo com uma encíclica memorável, a Laudato si’. A Igreja Católica chegava tarde ao debate sobre a crise climática, mas, graças à genialidade espiritual de um Papa e ao inquestionável conhecimento científico dos conselheiros de que se rodeou, marcava de forma irrevogável o futuro da “questão ambiental”.

Francisco veio propor uma nova interpretação das causas profundas da destruição do planeta e oferecer uma visão abrangente e articulada das crises que a humanidade enfrentava e enfrenta. Ao mesmo tempo, na sua Laudato si’ cunhava conceitos e expressões que se tornariam parte incontestada do património de quantos defendem a sustentabilidade do planeta. A Igreja chegava no século XXI a uma “questão social” vinda do século anterior, mas conseguia unificar as suas anteriores intervenções parcelares e acções dispersas num documento poderoso que a academia recebeu com respeito e agrado.

A urgência que agora move o Papa americano, não é a do desejo de protagonismo, ou a do medo que dele se esqueçam. O que o move é a consciência de que, perante os avanços da IA, a Humanidade — que Deus criou tão amorosamente que merece ser apelidada de “magnífica” — enfrenta uma “escolha decisiva”: ou a aproveita para “fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada”; ou permite que com ela se construa “um mundo desumano e mais injusto”.

Esta é também uma dupla inovação trazida ao pensamento social católico pela Magnifica Humanitas: não se trata de ponderar os efeitos positivos e os negativos de uma nova tecnologia — aplicando erroneamente às questões sociais o famoso “sim, mas também” que tão bons serviços prestou à teologia —, ou de apelar a grupos ou classes sociais para que encontrem soluções que permitam superar os conflitos. Nada disso. Do que se trata é de desafiar todos e cada um a contribuir, aos diferentes níveis de responsabilidade, para um desenvolvimento controlado da IA que garanta em cada momento a promoção do desenvolvimento integral de cada ser humano.

Controlados por um poder opaco

Optar entre aqueles dois pólos daquela “escolha decisiva” parece simples, fácil e indiscutível. Entre um mundo que salvaguarde a dignidade de cada pessoa e um mundo desumano e injusto, haverá dúvidas sobre qual escolher?

Há. Mais do que dúvidas. Há práticas, opções, comportamentos e processos quotidianos que criam relações e realidades desumanas e injustas favoráveis à consolidação de uma “lógica da eficiência, do domínio e do lucro que governe por si só as escolhas pessoais, sociais e económicas”.

A mentalidade dominante, não apenas em países do Ocidente, mas um pouco por todo o mundo, é condicionada pelo “paradigma tecnocrático em que estamos imersos, potencializado pela revolução digital e pela IA”, paradigma que faz “parecer justa e normal uma visão anti-humana, segundo a qual a plenitude da vida consistiria em possuir mais”. E possuir mais parece ser a ambição que todos querem ver preenchida.

Sobretudo numa época em que os antagonismos são favorecidos pelas “redes de comunicação, os ambientes informativos fragmentados e os algoritmos que privilegiam o confronto” e, assim, amplificam “a polarização e o ressentimento, aceleram a propaganda e dificultam o discernimento comum”. Por esta via se “consolida uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão”.

A esta cultura de poder que “penetra na sociedade, altera relações e comportamentos”, o Papa junta os mecanismos de desinformação que criam uma falsa “identidade colectiva construída contra um inimigo”, alimentada por “narrativas nas quais cada um se apresenta como vítima com direito à vingança” criadas a partir das “simplificações — ‘primeiro, eu’, ‘amigo-inimigo’, ‘nós-eles’”.

Mas, para além dos que se deixam persuadir de que todos estão contra eles, os ditos “ambientes informativos fragmentados e os algoritmos” ajudam a criar o “súbdito ideal do totalitarismo”, que, “como escreveu a filósofa Hannah Arendt, não é tanto o ideologicamente convencido, mas ‘aquele para quem já não existe a diferença entre o facto (isto é, a realidade da experiência) e a ficção, nem a diferença entre verdadeiro e falso (que constituem os critérios do pensamento)’”.~

Vive-se, deste modo, num patamar onde o risco que a Humanidade enfrenta “não é apenas que algumas tecnologias sejam mal usadas”. O perigo consiste no facto da técnica ter deixado de ser um mero instrumento e se ter tornado o critério, ou seja, é ela que “acaba por determinar o que é importante e o que pode ser descartado, reduzindo a criação a objecto de exploração e as pessoas a engrenagens de um sistema que quer ser sempre mais eficiente”.

Se a decisão sobre o que “é importante e o que pode ser descartado” deixa de pertencer às pessoas e às sociedades, ela também não é prerrogativa dos Estados, pois “no contexto digital, o controle das plataformas, das infra-estruturas, dos dados e da capacidade de computação” pertence a “grandes atores económicos e tecnológicos que, na prática, estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação”.

Ora, conclui o Papa, “quando um poder desta magnitude se concentra na mão de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público, aumentando o risco de um desenvolvimento distorcido que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.

Críticas de dentro e de fora

Por todo o mundo a Imprensa saudou calorosamente a entrada de Leão XIV no debate sobre a Inteligência Artificial. De tal modo que ao fazer para o jornal 7MARGENS a recensão dos títulos de primeira página e dos editoriais que os jornais europeus e das Américas dedicaram à encíclica, o jornalista Eduardo Jorge Madureira escreveu: “Ninguém diria que uma encíclica papal se poderia apresentar como um tema jornalisticamente relevante. (…) As conhecidas proclamações sobre a irrelevância da voz da Igreja Católica não foram escutadas”.

Tão rápidas quanto as apreciações laudatórias, surgiram as críticas. Vindas do interior e do exterior da Igreja Católica. De dentro, o desinteresse distanciado das correntes mais espiritualistas para as quais o Papa não tem de perder tempo com estas questões, pois o seu múnus específico consiste no anúncio das verdades evangélicas e tratar da alma e do espírito, dedicando-se às coisas de Deus.

Se estas vozes se exprimem em surdina, já de Silicon Valley vieram críticas bem audíveis atestando que “o Vaticano não pode ter uma posição sobre a IA, porque não a entende”. Pelo mesmo diapasão alinhou Doug Burgum, membro da Administração Trump em entrevista à Fox Business: “Não sabia que opinar sobre tecnologia fazia parte do papel do Papa”.

Outra crítica surgiu de meios eclesiais de diferente cariz, acusando Leão XIV de ter caído no logro que denúncia ao dar eco e direitos de cidadania “ao tema que está em todas as conversas, que os bilionários de Silicon Valley tornaram o assunto do momento”, levando a Igreja a entrar “no debate que o hemisfério Norte, as empresas mais poderosas do mundo, definiram como central” e “ao entrar nele — mesmo que criticamente — legitima-o como o debate que importa”.

Para estes críticos, nada do que o Papa escreve está errado. Mas gostariam que a encíclica desse conta de que “há um mundo enorme que não debate algoritmos e que vive com problemas que a IA não vai resolver” — esse mundo “merecia ser o ponto de partida” para uma avaliação crítica dos desenvolvimentos da Inteligência Artificial à luz da tradição evangélica.

Tal como se apresenta, o texto papal parece dar a primazia à IA e permite a interrogação: “A IA é importante. Mas é assim tão mais importante do que a fome, a água, as guerras que já existem, as migrações forçadas, a solidão que corrói as sociedades por dentro?”. E à interrogação, segue-se a crítica: “O documento toca em tudo isso — mas de passagem, como contexto para a questão tecnológica. A IA é o primeiro plano. O resto é cenário”.

Mais contundente é a apreciação negativa das propostas de Leão XIV para controlar os desenvolvimentos da Inteligência Artificial e garantir que estes são colocados ao serviço de todos e do aprofundamento da dignidade humana de cada um. A ideia de que “os Estados e as instituições supranacionais são chamados a garantir regras justas e tutelas efectivas” sobre os produtos da IA é fustigada por quantos vêem nela um apelo “aos burocratas de Bruxelas” e “às ineficazes intervenções das Nações Unidas” que apenas adiam o desenvolvimento tecnológico, sem democratizar as suas aplicações.

A IA e a guerra permanente

Para um Papa que começou o seu pontificado com a invocação de “uma paz desarmada e uma paz que desarma”, o tema da guerra não podia estar ausente quando discorre sobre a IA, tanto mais que esta se tornou essencial na preparação, no desenho e na concretização das acções de guerra mais violentas.

Leão XIV constata o que todos sabemos: “Assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”. Ao mesmo tempo, degradam-se “os critérios éticos que tinham limitado o seu uso” como meio de resolver os conflitos e, em simultâneo, confere-se, ilicitamente, “decisões letais a sistemas artificiais”.

Resumindo, a visão do Papa americano é a de que a guerra é hoje uma opção normalizada pelo discurso armamentista e ninguém se assume como responsável pela decisão de onde, quem, quando matar e destruir. A Inteligência Artificial é que decide. Contra este estado de coisas, Leão XIV é peremptório: “Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”.

Enquanto o mundo assiste à explosão à distância que apenas mata e destrói no espaço do inimigo e muitos se congratulam com o facto de os “nossos rapazes” não serem sequer beliscados porque se encontram a milhares de quilómetros do conflito, acompanhando sistemas auto-inteligentes que levam a cabo operações antes protagonizadas por soldados, aviadores e marinheiros, o Papa escreve uma encíclica para exigir que “a responsabilidade e eventuais culpas [no uso das armas] não se dissolvam ‘na máquina’, ou em processos pouco transparentes ou automatizados”.

Quando estão em jogo vidas humanas, a decisão de matar ou de as poupar não pode ser deixada ao arbítrio de um qualquer sistema artificial por mais sofisticado que seja. Coerente com a sua cruzada em favor da paz e do diálogo como meio de resolução dos conflitos, Leão XIV exige que “a cadeia de responsabilidades deve permanecer identificável e verificável: quem projecta, quem treina, quem autoriza e quem utiliza [armas incorporando IA] deve poder prestar contas das suas escolhas”.

A formulação destas exigências representa um sobressalto num tempo em que “a guerra não só não é combatida, como é preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo” e “a violência é apresentada como necessária, inevitável ou mesmo ‘limpa’ e a humanidade se encontra a resvalar para a cultura violenta do poder, onde a paz já não aparece como uma tarefa a assumir, mas como um intervalo precário entre conflitos”.

É preciso, diz o Papa, fazer uma pausa na corrida à Inteligência Artificial e ponderar prudentemente que mundo e que humanidade ela está a construir, mesmo que disso não tenhamos consciência. E essa reflexão não pode ser feita apenas pelos poucos que pensam controlá-la, mas que na realidade mais não fazem do que direccioná-la. É preciso responsabilizar o seu uso, torná-lo transparente e garantir que a todos beneficia. Mas é também necessário conhecer os contornos da guerra cultural que ela veio potencializar.

Para evidenciar os pressupostos culturais que acompanham a revolução digital em curso, o Papa identifica “algumas correntes que colonizam o imaginário colectivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunicação e nas redes sociais” nos quais tratam de confundir o progresso com a “superação do humano”, estimulando o “entusiasmo pelas novas tecnologias com uma visão futurista do ‘homem aperfeiçoado’ ou do ‘homem hibridado’ com a máquina”.

Essas correntes, apostadas num projecto de poder capaz de “eliminar o imprevisto, controlar tudo” e “reduzir a fragilidade humana” articulam-se, quer no transumanismo, que, em linhas gerais, “imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades”, quer no pós-humanismo que aponta para “uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estádio de evolução”.

Mas que risco, que perigo real representam tais correntes científico-ideológicas que parecem pertencer mais a um enredo de ficção-científica do que ao mundo concreto em que vivemos?

Mantendo uma reflexão crítica sobre a euforia do passageiro, o Vaticano parece ter entendido a colossal diferença entre erguer a sua voz hoje ou amanhã. Jorge Wemans

O alerta do Papa Prevost pode sintetizar-se deste modo: a promessa de um homem sem limites, liberto de todas as fragilidades, do erro e eventualmente da própria morte, é um horizonte de desumanização em que o ser humano será “tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar” e será “mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos”.

Já, actualmente, sublinha o documento papal, “tudo o que se apresenta como ‘limite’ — incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade — tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação”.

Em contracorrente com esse pensamento dominante, o Papa recorda “que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites” e, mais: “É precisamente na nossa limitação que encontram espaço a compaixão, a sincera preocupação perante as necessidades dos outros, a generosidade que surpreende mesmo no meio da escuridão e do fracasso, a experiência espiritual e a adoração de Deus”.

É essa a escolha decisiva, resume Leão XIV, que a magnífica humanidade criada por Deus tem perante si: erguer uma nova torre de Babel, personificação de um poder humano sem limites, mas em que ninguém se entende; ou construir a cidade edificada com base na cooperação de todos e o contributo de cada um, em que Deus e a humanidade habitam juntos.

Jornalista. Editor do jornal 7MARGENS

sábado, 6 de junho de 2026

Brecht e Gino Strada: guerra e paz

 

2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.

O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.

Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.

Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):

ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!

(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)

ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.

FEDERZONI: Tem calma.

ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.

GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.

(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)

ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.

(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)

GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.

O detalhe da adaptação no mural

No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).

O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.

Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".

A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:

  1. A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.

  2. Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.

Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)

Luís Osório - O dia em que começámos a traficar escravos

                                     

* Luís Osório 


POSTAL DO DIA
1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
LO

2026 06 06
https://www.facebook.com/luis.osorio.940/posts/postal-do-dia-o-dia-em-que-come%C3%A7%C3%A1mos-a-traficar-escravos1orgulho-me-da-nossa-his/27663786879891636/

José Pacheco Pereira - Comer em tempos difíceis

No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.

* José Pacheco Pereira

6 de Junho de 2026

Ao dar-se o nome ao debate de que vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno Teixeira.

Tudo aqui é pouco comum, a começar por essa organização, única em Portugal, de um conjunto de arquivos privados e públicos cobrindo desde a memória da CUF ao património industrial, aos movimentos sociais operários de resistência ao Estado Novo, nessa terra especial que era o Barreiro, à memória dos seguros, dos Portos de Lisboa, Sesimbra e Setúbal, de escolas profissionais e politécnicos, e associações de artistas, colaborando entre si sob o título Cidade dos Arquivos. Em tempos de competição pelos escassos bens da fama, do dinheiro, pelo protagonismo do “nome”, isto é hoje muito pouco comum.

Comer em tempos difíceis

A Cidade dos Arquivos olhou para o Dia Internacional dos Arquivos e fez diferente, olhou para o “comer, beber, cozinhar e temperar”. A realidade daquela que foi a maior concentração industrial do país tornava esses actos vitais de sobrevivência uma experiência individual, familiar e colectiva, ímpar. Tabernas, mais que restaurantes, cantinas para os almoços, uma experiência colectiva nas fábricas, produtos locais para o consumo de quem tinha pouco dinheiro, e uma sociabilidade especial.

Voltando ao “comer em tempos difíceis”, vai-se falar com gente com experiências únicas e que normalmente não ascende à plataforma “intelectual” do debate. Cada uma traz uma memória especial do que era arranjar comida com pouco ou sem dinheiro. O primeiro interlocutor é um padre operário, Luís Martins Ferreira, cujo livro autobiográfico, O Trono e o Altar, é um retrato único de um grupo de padres que viveram toda a vida como operários, neste caso na Equimetal. Em 1984, com os salários em atraso, um grupo de trabalhadores da Equimetal, liderados pelo padre operário, combinaram ir ao único supermercado do Barreiro, o Pão de Açúcar, encher os seus carrinhos de alimentos e, na saída, dizerem na caixa que a conta devia ser mandada à Equimetal. A PSP e a administração barraram a saída e os trabalhadores deixaram os carros de compras e foram à rua, sendo recebidos com grande apoio. A comunicação social não se interessou pelo assunto e só depois de uma intervenção do bispo Manuel Martins é que o Governo de Mário Soares preparou um plano dedicado aos problemas sociais dos trabalhadores na península de Setúbal.

 O segundo e o terceiro interlocutores que vão participar no debate representam grupos de profissões duras e pobres que desenvolveram estratégias de ajuda às suas famílias e aos seus companheiros/as. Rogério Correia, pescador ligado à associação de pesca local Os Camarros, fala sobre o “Peixe Pró Gato e Rabisco”, que era suposto ser deitado fora ou servir para os animais, gatos neste caso. Não foram gatos, mas homens e mulheres que dependiam desse peixe, deitado fora ou apanhado na lama das marés baixas, quando os pescadores “rabiscavam” a lama e o peixe escondido saltava.

 

 A gastronomia no Barreiro foi durante muito tempo uma “gastronomia” muito especial, feita por pobres para pobres, no limiar da subsistência. É por isso uma maneira diferente de comemorar o Dia Internacional dos Arquivos, com a essência do que é a memória e o seu papel social


Por fim, vão ouvir-se as operárias da indústria conserveira (Conceição Sobral, Alice Silva, Maria Dilar Pimpão, Madalena Canas e Maria Poupinha), que vão falar sobre as “Receitas Desviadas”, o peixe que era “desviado” para os aventais e dos aventais para as cozinhas pobres das famílias, neste caso na sua maioria de Setúbal. É uma realidade mais conhecida devido a um projecto de investigação/comemoração das memórias desses anos de miséria.

Como se vê, a gastronomia no Barreiro foi durante muito tempo uma “gastronomia” muito especial, feita por pobres para pobres, no limiar da subsistência. É por isso uma maneira diferente de comemorar o Dia Internacional dos Arquivos, com a essência do que é a memória e o seu papel social. Não está na moda, mas a moda é a sucessiva tentativa de apagamento do que é inconveniente na memória, e a resistência dessa mesma memória a deixar-se apagar porque transporta uma matéria demasiado humana para que possa ser esquecida porque é relevante. Um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.

O autor é colunista do PÚBLICO

Tiago Franco - A RESIGNAÇÃO DE UM POVO |



* Tiago Franco
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O Expresso noticiava, em Abril deste ano, que Portugal tem um salário médio 38% inferior à média europeia. Faço estas contas repetidas vezes porque, apesar de este país ser cada vez menos recomendável, ainda é o mais parecido que tenho com o conceito de casa e gostava de um dia aqui trabalhar. 

Saio genuinamente irritado de sítios, onde quem me atende não tem qualquer culpa, por causa do custo de vida galopante. Como é que se vive? É sempre esta a minha interrogação. Como é que se vive nestas condições?

A esmagadora maioria dos portugueses leva para casa 1000 euros, um pouco mais ou um pouco menos. Ouvimos esta semana uma nova subida da Euribor que afectará as prestações dos créditos à habitação. Um depósito de gasolina já custa, sem grande esforço, cerca de 100 euros. A electricidade e o gás custam mais do que nos países mais ricos. 

Os preços das casas continuam a subir, o cabaz da alimentação também e já é certo que, no máximo, lá para Setembro, o BCE aumentará as taxas de referência. Uma notícia de ontem anunciava que o endividamento na banca sobe pelo oitavo mês consecutivo. Entretanto nós continuamos com os 1000 euros na mão, a escolher no que cortar. Alguém me faz essa conta? Como é que se suporta uma família com 1000 euros, em 2026 em Portugal?

As bombas da imagem distam pouco mais de 30 km. Na espanhola o governo resolveu absorver os custos. Na portuguesa, o governo de Montenegro aproveita o conflito do Irão para mais um jackpot de impostos.

Como é que nós aguentamos isto? Como é que um povo, que invade academias de futebol ou faz esperas a jogadores, não se junta e começa, por exemplo, a partir coisas? Sei lá...bombas de gasolina, supermercados, escadarias da AR. Como é que no desespero e na aflição de vermos a vida de miséria a que nos estão a condenar, não reagimos? Como é que aquele instinto animal, de sobrevivência e pouco maturado, reconheço, não aparece nestas ocasiões?

É que reparem, o governo pode fazer qualquer coisa para ajudar. Pode desde logo reduzir os impostos sobre os combustíveis. Pode incentivar políticas de trabalho remoto para que se poupe em deslocações. Pode parar com a idiotice de dar benefícios a senhorios ou construtores. Pode impôr regras fiscais que obriguem a uma distribuição mais justa da riqueza. Podem, enfim, tentar fazer algo pela melhoria de vida em vez de, repetidamente, nos tentarem convencer que todos os infortúnios resultam de factores externos e que nada, do nosso destino, é internamente controlado. 

Acho piada quando os grandes temas, em vez do passarem pelo nosso crónico empobrecimento, são o regozijo pelos imigrantes que resolvem abandonar Portugal ou as lutas de galinheiro sobre bandeiras, nacionalidade e opções sexuais.

Quando um português, mesmo daqueles um bocadinho mais fachos, percebe que nem um paquistanês cá quer ficar, não entende o que isso diz do nosso país?

Tudo isto me irrita. Um governo que nos rouba sem pudor e um povo que aceita, empobrecer, sem luta, sem combate, sem a rua.

Porque é a vida. Temos que aguentar e esperar por dias melhores. Que pena termos apenas uma vida.

2026 06 06

https://www.facebook.com/tiago.franco.735? 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Enrique Dans - A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas




LEITURAS MARGINAIS

O PAPA LEÃO XIV ENTENDE A IA COMO PODER. ELE TEM RAZÃO. AGORA, DEVE IDENTIFICAR OS ATORES QUE A EXERCEM

Enrique Dans, 
Medium. Revisão: O’Lima.



A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, é inteiramente dedicada à IA e às suas consequências para a humanidade. Publicada a 25 de maio, por ocasião do 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII sobre o capital e o trabalho, aprofunda-se muito mais do que a grande maioria das declarações empresariais sobre a ética da IA e é muito mais honesta do que muitos livros brancos governamentais que evitam desafiar as grandes empresas tecnológicas.

A encíclica está certa no essencial: a IA não é apenas mais uma tecnologia, uma ferramenta neutra que podemos avaliar exclusivamente pela sua eficiência, precisão ou capacidade de reduzir custos. É uma infraestrutura de poder. Ela decide o que vemos, o que lemos, que empregos desaparecem, que decisões são automatizadas, que formas de vigilância são normalizadas e que partes da realidade partilhada acabam por se transformar em ruído, polarização ou espetáculo. Como resume a Wired, o Papa entende a IA como uma camada invisível que atravessa o trabalho, a informação e as decisões coletivas. Até aqui, tudo bem.

O problema é que, quando a análise deveria transformar-se numa acusação, não são mencionados nomes. O Papa destaca a concentração de poder, mas não identifica quem o concentra. Fala de plataformas, mas evita nomeá-las. Aborda as lógicas de mercado, mas não identifica as empresas que transformaram essas lógicas numa forma de governo privado sobre as nossas vidas. E isso não é um problema teológico, é uma decisão política. É uma encíclica que fala em generalidades e no abstrato.

Mas a realidade não é abstrata. Enquanto o Papa adverte contra a cultura do poder e até apela ao «desarmamento» da IA, o Departamento de Justiça dos EUA tem provas de que a Google usou a sua posição dominante para controlar o mercado de pesquisa e partilha de vídeos durante uma década, e agora pretende usar o Gemini para fazer o mesmo com a IA. Não estamos a falar de uma «tendência preocupante», mas de um monopólio identificado pelos tribunais, de contratos de exclusividade, de dados, de distribuição, da própria arquitetura do acesso à informação. O documento pontifício vê o edifício, mas evita ler a placa na porta.

O mesmo se aplica à Meta. A reportagem da Wired sobre os protestos em Dublin dos moderadores de conteúdo subcontratados — que classificam dados para treinar a IA da Meta e que recebem salários extremamente baixos — não nos fala de má gestão laboral. É isto que acontece quando a IA é implementada em cadeias de valor reais: trabalho invisível, subcontratado e psicologicamente desgastante, apresentado como se fosse magia tecnológica, e as pessoas que o realizam são simplesmente descartadas quando já não são necessárias. Onde está a dignidade do trabalho, onde exatamente na cadeia está a «centralidade do ser humano»?

A parte da encíclica dedicada ao ecossistema da informação é a mais interessante. Aqui, o Papa tem toda a razão: o problema não se resume apenas à desinformação, às notícias falsas ou ao lixo gerado pela IA que induz os incautos em erro durante algumas horas. O problema é muito mais profundo: trata-se da reconstrução algorítmica do imaginário coletivo. Um sistema que otimiza o engajamento, a indignação, a permanência e a reação emocional não se limita a distribuir conteúdo: define o que uma sociedade considera visível, discutível ou possível. Um estudo publicado na PNAS Nexus mostrou que os algoritmos de classificação baseados no engajamento amplificam conteúdos carregados de emoção e hostis em relação a adversários políticos; outro estudo recolhido pelo El País apontou que a ordem pela qual as mensagens políticas são exibidas afeta a polarização. Na prática, a arquitetura do debate público já não é concebido por parlamentos, editores ou cidadãos, mas por modelos de otimização opacos que transformam os nossos impulsos mais primitivos em inventário publicitário.

E é aqui que a encíclica se revela valiosa, pois compreende algo que muitos reguladores ainda não conseguiram perceber: a verificação de factos não corrige um sistema concebido para recompensar o oposto da deliberação. A verificação de factos pode ser necessária, mas é desesperadamente insuficiente quando toda a infraestrutura foi concebida para apelar às emoções. A democracia não é destruída pela publicação de mentiras, mas sim quando o espaço comum no qual devemos distinguir entre verdade, mentiras, interesses e manipulação foi redesenhado por empresas privadas que respondem perante anunciantes, acionistas e métricas internas, e não perante os cidadãos.

O ponto mais fraco do documento é a questão do trabalho. O Papa Leão defende a dignidade do trabalho, mas a partir de uma conceção de emprego que parece cada vez mais desatualizada. A grande questão já não é se a IA irá destruir empregos, mas sim quem fica com o valor dessa destruição, dessa substituição ou dessa reorganização. Quando uma empresa automatiza um processo, reduz o número de funcionários, aumenta a produtividade e melhora as margens, para onde vai esse valor? Para os trabalhadores? Para as suas comunidades? Para impostos capazes de financiar a transição, a formação ou o rendimento? Como sabemos, a maior parte vai para os mercados. A McKinsey formula-o na linguagem da estratégia empresarial: a IA não é simplesmente uma revolução da produtividade, mas uma reinicialização competitiva, uma reconfiguração sinistra dos modelos de negócio, das estruturas de mercado e das fontes de lucro.

É por isso que a proposta da Coreia do Sul de um dividendo para os cidadãos proveniente dos lucros da IA é muito interessante. Pode ser imperfeita, discutível ou prematura, mas pelo menos coloca a questão no lugar certo: se os sistemas de IA são treinados com base em dados, mão de obra, infraestruturas, conhecimento coletivo e mercados socialmente construídos, por que razão o retorno deve concentrar-se quase exclusivamente em algumas poucas empresas e nos seus acionistas? Por que aceitamos sem pestanejar que a automatização seja apresentada como progresso quando os seus benefícios são privatizados e os seus custos são socializados?

O Vaticano tem tradição suficiente para ir muito mais longe. A Rerum Novarum não se limitou a lamentar «os excessos da industrialização». Apontou abusos, falou de salários, propriedade, empregadores, trabalhadores, associações e condições concretas. Compreendeu que a doutrina social não podia continuar a ser um apelo piedoso ao bem comum enquanto as fábricas, os proprietários de terras e o capitalismo industrial redefiniam as vidas de milhões de pessoas. A Magnifica Humanitas pretende ser a Rerum Novarum da IA e, em muitos aspetos, consegue-o: compreende a mudança de era, reconhece a magnitude do desafio e recusa-se a cair na ingenuidade tecnofílica. Mas, precisamente quando deveria transformar o diagnóstico numa crítica institucional concreta, refugia-se na abstração.

Obviamente, não se trata de pedir ao Papa que elabore uma lista negra de empresas tecnológicas, nem de transformar uma encíclica numa ação antitrust. As encíclicas são concebidas para serem atuais e legíveis durante décadas ou séculos, pelo que mencionar empresas específicas não faz sentido. Mas significa compreender que, em 2026, falar de IA sem indicar que empresas como a Google, a Microsoft, a Meta, a Amazon, a OpenAI, a Nvidia, a Apple ou a Anthropic é como falar da Revolução Industrial sem mencionar fábricas, minas, caminhos-de-ferro, empregadores ou sindicatos. Não uma menção específica, mas uma indicação de que tipos de atores são bons e quais são maus. A tecnologia não cai do céu. A tecnologia tem proprietários, incentivos, contratos, cadeias de abastecimento, modelos de negócio e estratégias de captura regulatória. Quando tudo isto desaparece da linguagem, a possibilidade de agir sobre ela também desaparece.

Nada disto diminui a importância do documento. Num mundo em que a ética da IA é, com demasiada frequência, definida pelas mesmas empresas que beneficiam da sua ausência, é extremamente relevante que uma instituição com autoridade moral a nível global afirme que a tecnologia deve servir a humanidade e não as empresas. Colocar o poder no centro da questão é igualmente importante. Discutir comunicação, educação, trabalho, guerra, democracia e dignidade no mesmo quadro é muito mais sofisticado do que a habitual litania de «princípios éticos» concebidos para adornar apresentações corporativas.

No entanto, fica aquém. A próxima carta, encíclica ou documento sinodal terá de fazer o que este evita: apontar estruturas, identificar atores e propor mecanismos concretos, em vez de fazer um apelo genérico ao multilateralismo num mundo em que o multilateralismo não consegue competir com os lóbis. Não precisamos de invocações solenes de responsabilidade partilhada enquanto a captura de valor permanecer brutalmente assimétrica. Chega de diagnósticos impecáveis minados pela timidez na acusação.

O Papa demonstra que sabe qual é o problema. Compreende que a IA não é uma ferramenta, mas sim uma nova arquitetura de poder. Percebeu que ela afeta a verdade, o trabalho, a democracia, a guerra e a liberdade. Chegou mesmo a encontrar uma formulação poderosa: «desarmar a IA». Mas desarmar algo requer saber quem detém as armas, quem as fabrica, quem as vende, quem delas beneficia e quem paga as consequências da sua utilização.

E é aí, precisamente aí, que a Magnifica Humanitas vacila. O diagnóstico do Papa é lúcido, parte de uma posição moral elevada, recupera uma valiosa tradição social e coloca as questões necessárias. Mas evita apontar o dedo aos culpados evidentes.

O Papa fez o diagnóstico. Agora tem de encontrar a coragem para identificar a origem do problema.

Posted by OLima at terça-feira, junho 02, 2026

https://onda7.blogspot.com/2026/06/leituras-marginais_01891278705.html
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Gustavo Carneiro - Num bairro, a História



* Gustavo Carneiro

Es­teve pa­tente até à se­mana pas­sada, no Te­atro Ave­nidas, em Lisboa, a ex­po­sição “As ja­nelas que Abril abriu”, que in­cluía tra­ba­lhos de es­tu­dantes do 9.º ano da Es­cola Bá­sica 2, 3 Pro­fessor Delfim Santos e iden­ti­fi­cava as casas clan­des­tinas do PCP no Bairro do Rego, onde hoje está si­tuada a sede na­ci­onal do Par­tido. Foram oito as casas, só neste bairro po­pular da ca­pital.

Numa delas viveu Álvaro Cu­nhal em 1937, quando era di­ri­gente da Fe­de­ração das Ju­ven­tudes Co­mu­nistas Por­tu­guesas. Ou­tras duas, uma ti­po­grafia e uma ha­bi­tação de mi­li­tantes clan­des­tinos, foram as­sal­tadas pela po­lícia po­lí­tica no mesmo dia: 10 de Ja­neiro de 1938. Neste final de dé­cada, o fas­cismo pa­recia im­pa­rável, em Por­tugal e em grande parte da Eu­ropa. A re­pressão des­feria rudes golpes nas or­ga­ni­za­ções do Par­tido e na sua im­prensa, e no Tar­rafal mor­riam já muitos an­ti­fas­cistas.

Mas a his­tória não acabou aí, como de­monstra a exis­tência de ou­tras casas iden­ti­fi­cadas na ex­po­sição: uma serviu de ponto de apoio a Pedro So­ares e talvez a Jo­a­quim Pires Jorge, que nesse ano de 1942 se em­pe­nhavam na re­or­ga­ni­zação do Par­tido, que ha­veria de lhe con­ferir uma di­mensão na­ci­onal e torná-lo na van­guarda da re­sis­tência e da uni­dade an­ti­fas­cistas. Na­quele bairro viveu também Oc­távio Pato em 1946, ano do IV Con­gresso do Par­tido, re­a­li­zado num mo­mento de forte ex­pansão das lutas ope­rá­rias e da or­ga­ni­zação par­ti­dária: em apenas três anos, o nú­mero de mi­li­tantes au­mentou seis vezes e a ti­ragem do Avante! mul­ti­pli­cara-se por quatro. Este mesmo di­ri­gente vol­taria mais tarde ao Bairro do Rego, onde em 1959 tinha um ponto de apoio, jun­ta­mente com An­tónio Dias Lou­renço. Nesses tempos em que o fas­cismo en­con­trava nos EUA e na NATO o apoio de que pre­ci­sava para so­bre­viver, a luta so­fria re­veses, era menos ampla do que nou­tros mo­mentos – mas não ces­sava. Quem sabe se na­quela casa da Rua Tomás Ca­breira não se ajudou a pla­near a fuga de Pe­niche, que no início de 1960 de­volveu à luta an­ti­fas­cista ac­tiva Álvaro Cu­nhal e ou­tros nove des­ta­cados di­ri­gentes co­mu­nistas?

Certo é que em 1963, uma casa clan­des­tina na­quele bairro fora aban­do­nada por ra­zões de se­gu­rança. Vivia-se já uma nova fase, de as­censo re­vo­lu­ci­o­nário: o 1.º de Maio de 1962 fora uma jor­nada ex­tra­or­di­nária; nos campos do sul os ope­rá­rios agrí­colas con­quis­taram a jor­nada de oito horas, pondo fim ao es­cra­vi­zante tra­balho de sol a sol; o início da guerra co­lo­nial abrira uma nova frente de luta an­ti­fas­cista. A úl­tima casa iden­ti­fi­cada al­bergou um casal de fun­ci­o­ná­rios do Par­tido em 1968, quando a di­ta­dura fingia mudar para deixar tudo na mesma e a luta crescia, alar­gava-se e agre­gava gente nova e nova gente.

Cen­trada num bairro, e em tantos ou­tros foi também assim, esta é a his­tória da luta de um povo, que con­tinua nos exi­gentes tempos em que vi­vemos. Com avanços e re­cuos – e onde sempre, mas sempre, se en­con­tram os co­mu­nistas.

https://www.avante.pt/pt/2740/opiniao/183927/Num-bairro-a-Hist%C3%B3ria.htm

Foto em
https://www.instagram.com/p/DYXpSZVCOjj/?img_index=4

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avenidas.umteatroemcadabairro
 
// EXPOSIÇÃO 
As janelas que abril abriu, ou não!
15 A 30 MAI

INAUGURAÇÃO 
🗓 15 MAI | SEX | 17h 
📍Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro 

A exposição “As Janelas que Abril abriu, ou não!”, apresenta trabalhos realizados pelos alunos da turma A, do 9.º ano da Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos – Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. 

Partindo de passeios pelo Bairro do Rego, em Lisboa, visitámos a Coletividade “Os Económicos” e observámos janelas de casas que outrora acolheram opositores ao regime. Tomámos essas janelas como testemunhos de tempos de vigilância, mas também de esperança e como símbolos de transição da abertura que abril tornou possível.

Parceria: Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos - Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. Alunos 9.º A, Professores Dilar Pereira e João Pedro Martins; Biblioteca Escolar e Projeto Descolar Com.

https://www.instagram.com/p/DYMZmJogsLw/

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fernando Pessoa - "Sê plural como o universo!"

* Fernando Pessoa



2021 07 15 Foto Victor Nogueira - Café do Desassossego, em Setúbal (2020 04 19 Canon 179_04 IMG_1061)


2017 06 07 foto victor nogueira . Setúbal - Café do Desassossego na Travessa da Anunciada (Bairro do Troino)

«A frase "Sê plural como o universo!" capta a própria essência de Fernando Pessoa, mas a resposta sobre qual é o seu "texto completo" costuma surpreender os leitores: não existe um poema ou um ensaio longo estruturado onde ela esteja inserida.

Trata-se de uma anotação isolada, um aforismo (frase curta que encerra um pensamento) que Pessoa registou de forma imperativa numa folha de papel solta.

Onde foi publicada?

Como grande parte da obra de Fernando Pessoa não foi publicada enquanto ele era vivo, este fragmento ficou guardado na sua famosa arca de manuscritos (o seu espólio).

A frase veio a público pela primeira vez em 1966, no livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação". Esta obra reuniu dezenas de textos e notas onde o próprio Pessoa tentava analisar e explicar psicologicamente a sua necessidade de se fragmentar e de criar os heterónimos (como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro).

Nos arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal, este fragmento textual está catalogado sob a referência específica BNP/E3, 20-68r. Ele surge ali, sozinho, como um lema de vida ou uma instrução que o poeta deu a si mesmo.

O significado por trás da frase

Embora curta, a frase resume perfeitamente o conceito da heteronímia e o projeto literário de Pessoa. Para ele:

  • O universo não é uma coisa só; é feito de multiplicidade, de contradições, de planetas, estrelas e perspetivas diferentes.

  • Um homem com uma mente desperta não se pode limitar a ter uma única profissão, uma única personalidade ou uma única opinião.

Ao escrever "Sê plural como o universo!", Pessoa justificava a criação dos seus outros "eus". Se o universo é infinito e múltiplo, o poeta também tinha o direito — e o dever — de o ser.?  (Google Gemini)