segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(91) José Régio - Balada de Coimbra

 

Fotos victor nogueira - Coimbra Casas com História – Edmundo Bettencourt e José Afonso (2000 F1060041 F1060049)

Neste prédio habitou / enquanto escolar de Direito / o poeta e cantor presencista / Edmundo de Bettencourt

“Gritos de cristal e oiro
Que o Betencourt alto erguia
Que é da roda que algum dia
Vos sabia acompanhar! “(José Régio)

Homenagem da Academia de Coimbra / aos trovadores presencistas / da década de oiro / Artur Paredes Albano Nogueira / Afonso de Sousa e Guilherme Barbosa / que ao lado de Bettencourt / ergueram um canto novo

Na tomada da Bastilha 25 – 11 – 1988
D.G. da A.A.C.

"Balada de Coimbra" é uma elegia nostálgica em que o poeta evoca o ambiente boémio e académico da cidade universitária. Ao longo do poema, Régio percorre lugares emblemáticos — como o Penedo da Saudade, a Quinta das Lágrimas, o Choupal e a Sé — evocando a memória de estudantes, amantes e músicos que por ali passaram. A estrofe da lápide surge no clímax dessa homenagem, imortalizando a genialidade de Artur Paredes na guitarra e o timbre inconfundível de Edmundo de Bettencourt no fado de Coimbra.

(89) Representações de Álvaro Cunhal 03 - A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche

 

Setúbal  - Memorial comemorativo do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal (2013), (Foto victor nogueira  IMG_1522)

Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)

  • Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.

  • Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.


Euma poética de resistência militante, escrita por anónimos, operários e comunistas na clandestinidade (ou durante a prisão), dedicada a Álvaro Cunhal  e à lendária fuga do Forte de Peniche a 3 de janeiro de 1960.

1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)

Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:

  • Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):

«Caiu a grade, quebrou-se o muro,

rasgou-se o vento na noite fria.

O Duarte volta ao nosso lado, 

traz a promessa de um novo dia.

 

Peniche ruiu na sua vaidade, 

a maré alta não guardou a prisão: 

quem tem o povo na sua voz 

nunca esteve preso na amplidão.»

2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)

O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:

  • Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):

«Na cela fria onde o tempo para, 

não vergam a fibra do teu pensar.

Escreves no escuro, Duarte irmão, 

aquilo que o povo há de cantar.

 

A tua ausência é presença viva 

na nossa jornada contra a dor, 

por cada grade que te prende a carne, 

cresce no peito o nosso amor.»

3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade

José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:

  • Quadras populares clandestinas (1960):

«Peniche já não é fortaleza,

uma porta que se abriu, o camarada 

 Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.

 

Guardavam-no torres e marés,  

guardavam-no armas e sentinelas, 

mas a vontade de um povo livre 

consegue saltar todas as janelas.»

(Gemini) 

(88) Representações de Álvaro Cunhal 02 - Pablo Neruda - 'A làmpada marinha'


.Palmela - Mural  da JCP 'Não ao aborto clandestino' (Foto victor nogueira  IMG_8596)


 * Pablo Neruda

Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
 
Como é isto?
 
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
 
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
 
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
 
aprenderás de novo a ser estrela.


(87) Representações de Álvaro Cunhal 01 - Eugénia Cunhal - 'Quando vieres'



Palmela Mual de homenagem a Álvaro Cunhal -(foto victor nogueira   em 2021 12 18 Canon 199_12)IMG_8593) 

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

(86) Fidel Castro - A História me absolverá (1953)

 

Nápoles - Mural em homenagem a Fidel Castro Ruz A História me absolverá

* Gemini 

  • A HISTÓRIA ABSOLVER-ME-Á (frase famosa de Fidel Castro, também traduzida comumente como A história me absolverá).

Textos secundários:

  • BEM-VINDO FIDEL (repetido duas vezes no muro à esquerda).

  • Viva Cuba ★ Viva Fidel (manuscrito em pequeno sobre o mapa, à direita).


  • O Discurso (1953): É a defesa oral proferida por Fidel Castro em tribunal a 16 de outubro de 1953, quando foi julgado pelo assalto ao Quartel Moncada contra o regime de Fulgêncio Batista. A famosa frase fecha a sua intervenção: "Condenai-me, não importa, a História absolver-me-á".

  • O Livro (1954): Enquanto cumpria pena na prisão da Isla de Pinos, Fidel reconstituiu e redigiu o discurso de memória. O texto foi retirado de forma clandestina da prisão em cartas escritas com sumo de limão (tinta invisível) e publicado em 1954 sob a forma de manifesto/livro, tornando-se o programa político do seu movimento.

O texto integral de «A História Absolver-me-á» é um documento histórico extenso, com mais de 30 000 palavras e cerca de 100 páginas impressas, o que torna inviável a sua publicação completa numa única mensagem. Eis  os pontos-chave, da intervenção de Fidel Castro, incluindo transcrições da mesma..
  • A introdução: Onde Fidel critica o julgamento à porta fechada e a violação dos direitos de defesa.

  • As medidas revolucionárias: Os 5 pontos económicos e sociais propostos para Cuba (reforma agrária, industrialização, habitação, educação e saúde).

  • O encerramento: A emblemática passagem final onde pronuncia a frase histórica


Rezgar Akrawi - inteligência artificial Revolução ou escravidão silenciosa?

 inteligência artificial

Revolução ou escravidão silenciosa? Como os algoritmos remodelam a consciência ao serviço do capital

22 de agosto 2026 - 12:51

A submissão da humanidade ao controlo da máquina já não é uma mera suposição filosófica, pois tornou-se cada vez mais real perante os avanços da inteligência artificial e a ausência de controlos jurídicos internacionais eficazes que regulem o seu funcionamento.

* Rezgar Akrawi


domingo, 23 de agosto de 2026

(85) Textos para um mural


Mural em Setúbal na Rua Edmond Bartissol, reconstituído pelo  Gemini a partir de 4 fotos de Victor Nogueira


* Victor Nogueira / Gemini

As fotos são de 2019, na Rua Edmond Bartissol, onde se localiza a casa onde presumivelmente nasceu o poeta setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage e o mural, estilo naïf, foi pintado no murete que a separa do Largo de S. Domingos. Nele se inscrevem várias frases: Todos nós fazemos a diferençaAqui somos felizes - Casa BocageMude e o Mundo muda. Inserido no projecto Setúbal Mais Bonita,  este mural foi pintado em 2019  por iniciativa do Centro Comunitário de S. Sebastião

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O MUNDO É COMPOSTO DE FAZENDA E MUDANÇA (Victor Nogueira)


 Cada um de nós é só ele próprio

E a sua boa ou má circunstância,

Procurando em tudo uma substância,

Com arte ou não, o alfa milenário.

 

Há na terra quem faça santuário

Do sentir ou razão, em abundãncia;

Mas é do cacau terna a fragância

Do fado ter um bom ou mau solário.

 

O tempo bem diz que é tudo ilusão;

O amor, doçura, felicidade,

Em lixo ou pó substanciando.

 

Honra, beleza, sentir, no caixão;

Erramos, pelo campo ou na cidade,

No mundo, bem ou mal, vagueando.

  Pinhal Novo 1989.09.10


sábado, 22 de agosto de 2026

(84) Humberto Delgado - discurso proferido em 22 de maio de 1958





Setúbal, Rua Ramalho Ortigão - Mural dos Explicit Citizens, de homenagem ao General Humberto Delgado

Discurso proferido pelo General Humberto Delgado, candidato nacional independente à Presidência da República, no Ginásio do Liceu de Camões. O texto refere-se diretamente aos acontecimentos da sua chegada a Lisboa e aos episódios da campanha eleitoral na capital. Esta transcrição, feita pelo Gemini, resulta do único registo fonográfico integral sobrevivente, no qual o "General Sem Medo" proferiu a célebre frase: "Estou pronto a morrer pela liberdade!"

* Humberto Delgado

Meus Senhores e de Senhores,

Amigos, Terceirenses, Aquenses :-

Ha quinhentos anos... a 14 de Agosto de 1385. Um grupo de homens serenos, fêz-se ouvir perante as pêsas hastes. Gigantes, sim, mas serenos no seu e especial modo de conceber a soberania popular.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

(83) Quadras irreverentes, entre o religioso e o profano


Santos populares - Setúbal - Grafito e quadra dos Redskins (foto victoe nogueira HPIM5294) 

* Victor Nogueira / Gemini

 Este é um grafito que serviu de pontapé de saísa para a presente publicação, uma quadra dos Redskins, do movimento skinheads antifascistas e de esquerda.

Jesus já aqui passou
e veio ver os festejos
Avisem-se os Santos
Não ande aí aos beliscões

A quadra brinca com as tradições populares e o imaginário religioso, própria de poesia similar e das cantigas medievais de escárnio e maldizer.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

(82) Abílio Paciência e o 'caminho dos pescadores'

* Victor Nogueira / Gemini

Partindo da Rua da Batalha do Viso encosta acima se encontra esta escadaria, em zona que após o 25 de Abril foi possível tornar habitacionalmente mais digna com o Projecto SAAL e a participação dos moradores das casas então abarracadas. Ingénuas quadras de Abílio Paciência ao longo do percurso são a memória desses tempos, substituindo grafitos anteriores.

Penosamente uma mulher idosa sobe a escadaria com um cão pela trela; saudamo-nos, cedo-lhe o lado do corrimão e ela agradece, enquanto lanudo canito saltita em meu redor deliciado com as festas que lhe faço. Mais adiante, no relvado, hierático, um indiferente e plácido gato aquece-se com os raios de sol duma tarde de céu azul mas algo neblinada. Áspero e acidentado era o caminho então feito a pé, entre a beira-mar e o Viso, encosta acima ou abaixo, incluindo a íngreme Rua do Clube Recreativo da Palhavã. onde as belas  vistas e horizontes estavam ao alcance da vista das populações vivendo na penúria, em estreitas vielas, atascadas na  lama.

«Um caminho que liga o rio e o bairro, que por ele passaram os pescadores que partiam e regressavam, com os bolsos quase vazios... Mas com o coração cheio de mar.

As mulheres, sozinhas, com os filhos pequenos, à espera do regresso de quem parte.

Um caminho que levava e trazia trabalhadoras da indústria conserveira.

Mulheres de corpos cansados de trabalho e de luta por uma vida mais digna.

É uma história antiga, mas que também é nossa e de todos os que a sentirem como sua, feita de coragem, dor e resistência.

Uma história que atravessa o tempo, entre marés de sacrifício e esperança, na eterna...

Luta pela Liberdade."

Todo o espectáculo teve como inspiração o poema a "A Arte da Palavra" escrito pelo Sr. Abílio Paciência, um antigo morador do Bairro dos pescadores, bem como histórias contadas por alguns moradores do bairro.» (in https://www.uf-setubal.pt/atividades/espaco-publico/348-novo-caminho-facilita-acesso-pedonal-no-bairro-dos-pescadores)




 O caminho que percorri

Até chegar ao sítio onde vivi

 

(81) A vida no Troino nas quadras de Alice Ramos

  * Victor Nogueira

Pelas paredes das ruas do Troino,  dezenas de quadras populares falando do que presumo sejam ou tenham sido seus habitantes vão sumindo por acção dos agentes atmosféricos erosivos. A origem desta iniciativa é-me desconhecida mas aqui fica uma pequena recolha do que aleatoriamente registei ao longo dos tempos, sobretudo em 2017, Não foi um trabalho sistemático porque, sem roteiro, não consegui  localizar a maioria delas

Maria Alice Ramos foi uma poetisa popular fortemente ligada ao Bairro do Troino (na freguesia da Anunciada, em Setúbal). Ficou conhecida como a "poetisa do povo" por retratar com enorme simplicidade, sensibilidade e sabedoria as memórias, vivências, tradições e figuras marcantes da comunidade setubalense.

As Quadras no Bairro do Troino e a Poesia nas Paredes: As suas quadras foram pintadas e numeradas em muros, fachadas e portões do Bairro do Troino, transformando as ruas  numa galeria de poesia urbana, a céu aberto. Os seus versos, ingénuos, homenageiam figuras locais (como comerciantes e artesãos), locais históricos (como a Escola da Fonte Nova ou a Capelinha da N.ª Sra. da Saúde), além de mostrarem a ligação do bairro ao mar, aos pescadores e às memórias de vida e da infância dos habitantes mais idosos.


1
 Meu querido Bairro do Troino
Onde nasci e cresci
Vou tentar descrever
O que jamais esqueci


terça-feira, 18 de agosto de 2026

(80) - José Afonso - O Povo é quem mais ordena, dentro de ti, oh cidade

 

Coimbta - Painel de azulejos na Casa onde viveu José Afonso (Foto victor Nogueira   F1060049)

"Em cada esquina um amigo /  Em cada rosto igualdade / O Povo é quem mais ordena / Dentro de ti, o cidade"

Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, Vila Morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, Vila Morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, Vila Morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

"Grândola, Vila Morena" é aemblemática canção composta e cantada por José Afonso (Zeca Afonso). Tornou-se mundialmente famosa por ter sido a segunda senha radiofônica da Revolução de 25 de Abril de 1974 , dando sinal verde para os militares avançarem e derrubarem o regime do Estado Novo. Escrita por José Afonso após uma visita à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense em Grândola, Alentejo, foi lançada em dezembro de 1971 no álbum Cantigas do Maio .

Manuel Loff - Cem anos a “justificar” o 28 de Maio

 * Manuel Loff

18 de Agosto de 2026

A Grande Guerra trouxera consigo, um pouco por toda a Europa mas sobretudo entre nós, a permanente irrupção dos militares e o sistemático uso da violência na vida política.

Há cem anos, o regime liberal português, que, com intermitências, havia durado mais de um século desde a Revolução de 1820, foi um dos primeiros na Europa a ceder perante a vaga autoritária fascizante do pós-I Guerra Mundial. A participação de Portugal na Grande Guerra acelerou, como ocorria por toda a Europa, o processo de crise do sistema liberal, de que a República do 5 de Outubro foi, no nosso país, a última etapa.

O rol de consequências que da guerra decorreram (cem mil jovens enviados para a guerra, racionamento, requisições forçadas, censura e supressão de liberdades, repressão da contestação social), coincidindo no seu ano final com a pandemia da gripe pneumónica, exasperara inevitavelmente a grande maioria da sociedade. Dela foram sintomas os levantamentos da fome e os assaltos aos armazéns e às lojas de víveres, as greves que os sindicatos convocaram contra Afonso Costa (1917) e Sidónio Pais (1918), ou a remobilização religiosa em torno das chamadas “aparições” de Fátima (maio-outubro de 1917).


domingo, 16 de agosto de 2026

Tiago Franco - A VIDA NA ILHA |

 

* Tiago Franco

Sempre que entrevisto candidatos a uma vida de emigrante, começo por lhes dizer tudo o que de mau nos pode trazer esse movimento de ir para um país que não é o nosso. 

Só depois de contar esse lado da história é que salto para as partes boas que, eventualmente, podem surgir ao trocar o quotidiano num país pobre e pouco desenvolvido por outro, alojado no topo do "ranking" da qualidade de vida.

Há uma parte de nós que morre quando se emigra e há pedaços de história, pessoal e familiar, que não voltamos a recuperar. Até ao dia de hoje continua a ser difícil aceitar, para mim entenda-se, que no meu país seja tão difícil prosperar pela via do trabalho e que procurar soluções fora daqui seja tão comum e banal. Boa parte de nós não consegue a vida que imaginou e para a qual estudou, sem largar tudo o que é conhecido. 

Ver e ouvir tantos pais, em 2026, a esperar que os filhos sigam o mesmo caminho da emigração, enquanto o país é dirigido pelo CEO da Spinumviva e a agenda é marcada pela extrema-direita, faz-me pensar que tenho que aceitar o passo dado há 20 anos.

É na solidão que muitas vezes me acompanhou nessas duas décadas que penso, quando passo os meus dias nesta pequena ilha no meio do Atlântico, a tropeçar em caras conhecidas. Provavelmente o único sítio onde ir jantar com colegas da primária e acabar num palco qualquer, corre o risco de se tornar uma tradição. 

Eu aprecio ver caras conhecidas e cumprimentar gente a cada 5 minutos. Porque é o oposto do que vivi na maior parte da minha vida adulta. E gosto da dinâmica que tão pouca gente, apenas 5000, empresta a uma ilha onde todos colaboram de alguma maneira para que a vida se extenda para lá do verão. 

É particularmente engraçado ver como cresceram os colegas de infância e o que fazem ao dia de hoje. A minha geração está espalhada na condução dos destinos da ilha, da política ao desporto, da cultura aos negócios. É normalíssimo beber um copo e rir, com alguém que defenda outras ideias políticas. É normal ajudar um vizinho ou falar com desconhecidos quando o Rafa chuta para o Colombo. 

Se 50 gajos, uma vez por ano, se juntam para acelerar os Saxos e os Clios barulhentos, isso é desculpa para andar em churrascadas o dia todo e ir, religiosamente, para a casa de um amigo, já quase uma instituição da ilha, que nem precisa de convidar. Todos sabem que naquele dia a porta está aberta e a grelha bem quente.

Há um misto de gente interessante nesta ilha. Os locais, que entre eles se dividem por freguesias e "para lá da serra". Portugueses de outras paragens, onde me inclúo. E malta estrangeira que, com mais ou menos tempo de ilha, vai trazendo um colorido bom à coisa. Quase uma espécie de Amsterdão do Atlântico,  onde as culturas se misturam. 

Não há anonimato. Há sempre alguém que te conhece na rua. Para mais algum silêncio, há que apanhar o voo de 15 minutos e ir à ilha do lado (onde se tropeça em gente conhecida mas a um ritmo mais lento).

Este é o sítio onde me perco na montanha ou tomo banho no mar cristalino, dependendo se saio de casa e viro para a esquerda ou para a direita. É o sítio onde o meu filho acampa, vai a festas e anda por onde quer sem que eu me preocupe. É o sítio onde se pede ao DJ que meta música dos anos 80 para dançarmos com o professor de matemática. É o sítio onde nos queixamos das estradas enquanto partilhamos uma cerveja com a autarca local. 

É essencialmente o sítio onde sentimos que fazemos parte de algo e onde as contribuições individuais contam.

Teria eu a mesma simpatia pela ilha, tendo saído daqui tão novo, se não tivesse emigrado para um país de costumes frios? Ou se não tivesse sido tão bem recebido pela família que ganhei depois de me casar?
Provavelmente não. 

Mas é essa a beleza das coisas. Ver como, aos meus olhos, Santa Maria deixou de ser aquele destino da praia de infância onde, de tempos a tempos contava voltar, para passar a ser o único sítio a que consigo chamar casa.

Era isto que estava a pensar enquanto me ia rindo, no meio daqueles velhotes de 77 que, tal como eu, um dia acharam que o reumatismo chegava aos 30.

2026 Agosto 16

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(79) - A raposa através das efabulações



Caixa EDP , em Setúbal - As galinhas não comem raposas (Foto  victor nogueira IMG_2770)
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* Victor Nogueira  / Gemini

A frase "Galinhas não comem raposas" joga de forma irónica com a ordem natural e moral das fábulas clássicas (Esopo e Jean de La Fontaine). Nas fábulas de La Fontaine, — como A Raposa e as Uvas ou nas histórias do galinheiro —,a raposa representa a astúcia, o predador e o engenho, enquanto a galinha é a presa ingénua. Dizer que "as galinhas não comem raposas" reitera uma verdade incontornável do mundo natural e social: as posições de poder e de vulnerabilidade não se invertem facilmente.A frase na caixa da EDP lembra, com humor sarcástico, que por mais que as presas tentem ou se iludam, a hierarquia da natureza não se inverte. 

Noutra perspectiva, a raposa é também o personagem central em "O Romance da Raposa", de Aquilino Ribeiro: Salpico (ou Salgada) é um exemplo perfeito para esta ilustração. O olhar meio sorrateiro e calmo da raposa desenhada reflete a astúcia e a amoralidade simpática da criatura de Aquilino: uma raposa que conhece as regras do jogo urbano e rural, sabendo exatamente quem manda e quem é comido.