domingo, 2 de agosto de 2026

Miguel Szymanski - A União Europeia a desintegrar-se de acordo com os planos dos EUA

* Miguel Szymanski
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Um chefe de Estado ou de Governo, seja português ou espanhol, não pode, no meio de uma crise cuja solução depende da boa vontade de um país vizinho — um regime policial e autoritário —, apontar-lhe o dedo e acusá-lo daquilo que, de facto, fez, e não pela primeira vez: instrumentalizar nas fronteiras uma multidão de milhares de pessoas desesperadas para fazer avançar a sua agenda. Mas é lamentável que um chefe de Estado na frase com que é citado pareça reforçar a tese central da extrema-direita. Foi o que Seguro fez, ou pelo menos assim é citado, quando um órgão de comunicação social resume a posição nesta crise à exigência de "mão forte contra a imigração ilegal". 

E em Espanha? Sánchez falou de "ataque à integridade territorial de Espanha". Mas nem uma palavra sobre Marrocos. A explicação oficial: máfias que aproveitaram uma sentença do Supremo Tribunal. Sánchez foi necessariamente omisso porque depende da boa vontade de Marrocos para resolver a crise criada por Marrocos. O contexto torna essa omissão ainda mais reveladora:

Há dias, Trump, depois de várias e repetidas ameaças contra Espanha, incluindo a de usar bases militares contra a vontade do governo espanhol,  anunciou que uma autoestrada no Sara Ocidental ocupado por Marrocos vai receber o seu nome. Rubio, secretário de Estado, disse na mesma ocasião que os EUA "reconhecem de forma inequívoca a soberania marroquina sobre o Sara Ocidental. Marrocos normalizou e estreitou as relações com Israel via Acordos de Abraão, parceria que inclui armas, drones e inteligência militar, reforçando o controlo marroquino sobre as suas populações, as fronteiras com Espanha e o Estreito de Gibraltar.

Também o governo israelita ameaçou repetidas vezes a Espanha por esta denunciar o genocídio na Palestina. Quando a crise em Ceuta rebentou, Trump disse à Fox News que as imagens deviam servir de aviso aos EUA e ao resto da Europa (Europa essa, cujas democracias os EUA assumiram abertamente e em documentos oficiais querer transformar em regimes nacionalistas e iliberais).

Convém lembrar: Marrocos nunca reconheceu a soberania espanhola sobre Ceuta, referindo-se-lhe oficialmente como enclave colonial, e Ceuta nem sequer pertence ao espaço Schengen. Não é um território menor para Marrocos instrumentalizar; é, no discurso marroquino, território em disputa cuja ocupação, há declarações nesse sentido, os EUA apoiariam. 

Um regime autocrático, com uma população na miséria, instrumentaliza dezenas de milhares de pessoas desesperadas como arma de pressão sobre Espanha, enquanto os EUA agitam a bandeira anti-imigração.

E a UE? À excepção da Irlanda, que manifestou o seu apoio ao governo espanhol, em vez de solidariedade com um Estado-membro sob pressão, a Itália e mais meia dúzia de países da UE ameaçam suspender Schengen com a Espanha. Na Alemanha, a extrema-direita dá a entender que milhares de marroquinos ilegais ameaçam chegar a Berlim, como se Ceuta ficasse nos arredores de Madrid e não no Norte de África.

Obviamente que a entrada de pessoas num país — quer queiram vir trabalhar, reformar-se com 'vistos gold' ou fazer turismo — tem de ser regulamentada. Afinal, não queremos ficar sem meios para arrendar ou comprar uma casa no nosso próprio país, nem deixar entrar mais pessoas em busca de trabalho do que a oferta do mercado de trabalho permite. Nunca foi isso que esteve em causa. Ou será que foi e este sistema económico precisa de mão de obra barata, ilegal e sem direitos, ao mesmo tempo que precisa de culpados a quem possamos apontar o dedo por termos perdido o controlo sobre o sistema económico que nos foi imposto e não sabermos como organizar as nossas vidas? Para citar mais uma vez o Papa Francisco: "este sistema económico mata"

2026 Agosto 01
https://www.facebook.com/miguelszymanski

Ângelo Alves - A 'invasão« de migrantes

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* Ângelo Alves
 
Alguém pode por favor explicar a alguns comentadores e a outros seres que vendo nos primeiros os deuses da sabedoria, parecem desprovidos dessa incomum capacidade de pensar pela sua própria cabeça, duas coisinhas muito simples? 

1 - Ceuta é um território situado no continente Africano! É um muito pequeno enclave espanhol, que faz fronteira directa com Marrocos. Portanto, por mais que isto entristeça os manipuladores de direita e extrema direita, não,  não houve dezenas de milhares de pessoas a nadar de Marrocos para o continente europeu. E a menos que fossem todos profissionais do maratonismo de natação, nunca conseguiriam e nunca conseguirão fazer essa travessia a nado. O que aconteceu é que uns nadaram contornando um quebra mar e outros pura e simplesmente passaram a pé.

2 - Só quem quer manipular consciências ou então nao pensa duas vezes antes de tecer opiniões é que pode achar que houve um dia em que milhares de pessoas acordaram e se lembraram, todas ao mesmo tempo e no mesmo sítio, de entrar naquele territorio. De igual modo parece muito frágil a tese de que isto foi organizado por máfias de tráfico de seres humanos. O modus operandi não é este e uma operação desta dimensão seria detectada a tempo de ser impedida ou pelo menos reprimida logo no lado marroquino. É portanto admissível uma terceira hipótese: estarmos perante uma operação organizada, aliás altamente organizada, que se aproveita da desgraça social de imensas massas da população marroquina,  que tem uma agenda política associada e que é impossível ter acontecido sem, pelo menos, a complacência das autoridades e polícias marroquinas. As máfias tiveram um papel mas desenganem-se os que acham que sozinhas poderiam ter montando uma operação desta dimensão.

Coincidência ou não o governo/reinado de Marrocos tem-se vindo a afirmar cada vez mais como um peão da Administração Trump para África, nas questões do chamado Mundo Árabe e até noutras como votações relativas a Cuba nos órgãos da ONU.
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E coincidência ou não a extrema direita dos Estados membros da União Europeia está a cavalgar o assunto, desde logo em Espanha , país que não anda nas melhores graças do imperialismo norte-americano.

E claro, sobre a vida daquelas pessoas (sim são pessoas como nós!) , sobre os seus direitos humanos, sobre as razões de fundo deste acontecimento.... nada.... a desumanidade esta a atingir níveis inauditos, e o mais perigoso é deixar que isso se torne o novo normal. O perigo não está naquelas pessoas, o perigo está em quem ja lhes destruiu os sonhos e os direitos, se aproveita disso para os usar como arma de arremesso, e quer fazer o mesmo aos nossos direitos e vidas.

2026 Agosto 01
https://www.facebook.com/j.angelo.a


(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

O que está escrito no mural?

À direita da figura central, está transcrito um excerto do famoso poema em italiano de Joyce Lussu intitulado "C'è un paio di scarpette rosse" (Há um par de sapatinhos vermelhos):

«C'è un paio di scarpette rosse / numero ventiquattro / quasi nuove... / sulla suola c'è ancora l'impronta / "Schuze Monowitz" / c'è un paio di scarpette rosse / in cima a un mucchio di scarpette d'ogni colore / a Buchenwald...»

  • Tradução:

    "Há um par de sapatinhos vermelhos / número vinte e quatro / quase novos... / na sola há ainda a marca / "Schuze Monowitz" / há um par de sapatinhos vermelhos / no topo de um monte de sapatinhos de todas as cores / em Buchenwald..."

No canto inferior esquerdo, pode ler-se a assinatura e homenagem:

"...CE LUSSU" (Joyce Lussu) "1912 - 2012" (Comemoração do centenário do seu nascimento)

O que representa este mural?

1. A Inocência Roubada pelo Holocausto

O poema evoca uma das imagens mais marcantes e dolorosas da barbárie nazi: as pilhas de sapatos tirados aos prisioneiros nos campos de concentração (referindo expressamente Monowitz — um subcampo de Auschwitz — e Buchenwald). Ao focar num pequeno par de sapatos vermelhos de criança (tamanho 24), a obra dá um rosto humano e comovente à tragédia do exterminismo e à perda de vidas inocentes.

2. A Homenagem a Joyce Lussu

Joyce Lussu (1912–1998) foi uma proeminente poetisa, tradutora, escritora e partisana antifascista italiana (casada com Emilio Lussu, uma das grandes figuras políticas e literárias da Sardenha). Este mural foi pintado por ocasião do seu centenário (2012) para assinalar o seu compromisso incansável com a resistência, os direitos humanos e a paz mundial.

3. A Simbologia Visual

  • A Maternidade e a Proteção: A figura feminina desenhada ao estilo cubista/picassiano segura carinhosamente um filho nos braços, simbolizando a proteção materna frente ao horror e à devastação da guerra.

  • Os Ramos de Oliveira: Entrelaçados no cabelo da mulher, representam tradicionalmente a paz e a esperança de sobrevivência da humanidade.

  • O Símbolo Pacifista: No canto superior esquerdo, o clássico círculo com a cruz de Nero (símbolo da paz e do desarmamento) reforça a mensagem contra a violência e as guerras.VER


(44) Deejay Telio & Deedz B - Não Atendo



Foto Victor Nogueira - Grafito em Setúbal, na Avenida Antero de Quental ( 2021 07 22 Canon 194_07)
Conteúdo partilhado com: Público

O número para qual você ligou, tá desligado
É para informar que eu hoje não atendo
Não atendo, eh
Deixa curtir minha drena, ya
Deixa curtir minha drena (deixa)
Ai hoje eu vou tchilar com meus avilos
Curtir uma drena longe do cubico
Please me liga só se tiveres guita
Hoje só atendo se o assunto for business, ay
Com tanta dama a tua volta só queres vir mesmo me incomodar, ohohoh
Tem lá calma contigo queres dar pra vip pois aqui não dá
Porque eu só quero curtir minha drena
Então deixa eu curtir assim

sexta-feira, 31 de julho de 2026

(43) - Razão de ser das 'Letras na arte urbana'



* Victor Nogueira / AI

No Kant_O Photomatico tenho publicado fotos de minha autoria, designadamente sob as etiquetas 'estatuária' e  'murais', algumas das quais contêm textos literários ou excertos destes. Entretanto no  mesmo blogue fui publicando sob o verbete  fotos retiradas da internet, sobretudo relativas a a murais em Orgosolo, na região da Sardenha que é uma galeria a céu aberto, alguns dos quais reproduzem textos literários. Resolvi publicar no meu blogue 'D'ali e d'aqui', inicialmente agrupadas como 'Mural biblio', que o tempo tornou inadequado, pois as  fotos com textos literários abarcavam outros suportes.  Pensei em 'street art' (arte de rua), mas este termo está mais ligado ao muralismo e grafitismo. Escolhi, finalmente,  um termo mais abrangente: # Letras na 'arte urbana'
 
Recorri ao chatGPT e ao Gemini para que gerassem três tipos de ilustrações, a saber:

1. - Uma flâmula com a frase 'Letras na arte urbana' num desenho com um bloco de granito a ser esculpido, um mural a ser pintado, um idoso a escrever numa Remington, um ceramista a colocar azulejos, um calceteiro  a executar calçada à portuguesa, num desenho colorido e a preto e branco, harmonioso

2. - Uma gravura representando um homem idoso a escrever num computador portátil e, no cenário, a pintura dum mural, o esculpir duma estátua, uma caneta e um pergaminho, uma impressora de Gutenberg- No ar esvoaçam letras de vários tipos.

3. - Combinando sete fotos de minha autoria

Eis os resultados obtidos;

(42) - Henri Estienne - Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait (Les Prémices)

 

Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Se gioventù sapesse, se vecchiaia potesse'


* Victor Nogueira / Gemini

Este provérbio — originalmente formulado em francês como «Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait» por Henri Estienne nas suas Premices (1594) — resume de forma brilhante uma das maiores contradições e paradoxos da vida humana.

(41) Xoto - Setubalense

 

Setúbal, Mural de Explicit Citizens Colectivo no Pavilhão Náutico Municipal ,no Parque Urbano de Albarquel (Foto victor nogueira IMG_8504)


Xoto (IGNIS VERBIS) - SETUBALENSE


* Xoto

Setubalense carrego na alma uma garra uma raiva amarrada a uma corrente irreverente dum rio azul cresci a correr nú pa praia da tróia que saudades meu refúgio meu casulo... azul

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Bruno de Carvalho - [Injluencers ... influenciados por Israel[

 * Bruno Carvalho

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A propagandista Rute Sousa, entre outros, foi a Israel numa viagem paga pelas autoridades daquele Estado. Em várias declarações diz que foram mostrar aquilo que as televisões não querem mostrar e, no entanto, não tem feito outra coisa senão estar nesses mesmos canais por estes dias.
 
Num dos seus últimos vídeos atacou os jornalistas, falou do militante do PCP que esteve como repórter de guerra no Donbass e que teria afirmado que ali não tinha acontecido nada. Esse jornalista sou eu. E é muito curioso porque enquanto jornalista com carteira profissional, com trabalhos publicados em meios nacionais e estrangeiros, eu fui ao lado da guerra onde mais ninguém estava. A propagandista Rute Sousa foi ao lado onde já todos estão. Não há meio conhecido que não tenha enviado alguém a Israel nos últimos anos. Aliás, Israel é tão incrível para este grupo de influencers ao serviço da propaganda de Telavive que não conseguiram explicar porque é que Israel não permite a entrada sem barreiras de jornalistas na Faixa de Gaza. 

Para alguns destes elementos que se gravaram a dançar em cima do chão de um território que está a ser alvo de um genocídio, nunca surgiu a questão sobre porque é que foi aprovada uma pena de morte exclusiva para palestinianos. Tampouco conseguiram explicar porque é que foram assassinados mais jornalistas na Faixa de Gaza do que em qualquer uma das guerras modernas, incluindo a mortífera Segunda Guerra Mundial. Não conseguiram porque esse não é o seu papel. 

Da mesma forma que um publicitário serve para promover uma marca ou um produto, estes influencers são pagos para lavar a cara de Israel no pior momento da sua história. E por muito que o jornalismo esteja a passar por uma grave crise existencial, os jornalistas estão obrigados a cumprir um código ético e deontológico. Quando estive no Donbass, ao contrário do que diz Rute Sousa, nunca disse que ali não tinha acontecido nada. Repeti-o várias vezes: qualquer crime de guerra deve ser condenado e isso aconteceu em ambos os lados. Nunca me pus a defender Putin ou a Rússia, como faz Rute Sousa com Israel, nem me pus a dar a minha opinião ou a fazer análises segundo as minhas crenças religiosas (mesmo sendo ateu) como Rute Sousa. O trabalho de um jornalista não é opinar. 

Noutro tempo, a Alemanha nazi teria feito a mesma operação de charme para atrair influencers, quem sabe para nos convencer de que não havia qualquer genocídio contra judeus, soviéticos e comunistas. Num mundo cada vez mais dominado pelos conteúdos em redes sociais controladas por grandes oligarcas, a tendência será para que os influencers com mais seguidores acabem por determinar a opinião pública. E o problema é precisamente que o algoritmo promova apenas aqueles que pensem como os seus donos. O que disse Rute Sousa, e o seu entourage, poderia perfeitamente ser dito por Elon Musk ou Mark Zuckerberg. 

E o mais grave não é apenas que tenham ido a Israel branquear um Estado assassino. O mais grave é que canais como a CNN e o Now, entre outros meios, legitimem essa operação de turismo de propaganda dando voz à desinformação. É a prova de que o jornalismo gosta de cavar a sua própria sepultura

30 Junho 2026
https://www.facebook.com/pedro.bala/posts/ 

A América que é grande


Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma his­tória de opressão, guerra e de­si­gual­dades. Nas úl­timas muitas dé­cadas, a prin­cipal po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo re­pre­sentou, como ainda re­pre­senta, o grande ad­ver­sário das forças da paz, da de­mo­cracia e do pro­gresso so­cial. Mas, se­jamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha to­mado par­tido pelos que todos os dias lutam pela so­bre­vi­vência e a dig­ni­dade, por quem menos tem, pelos povos opri­midos e agre­didos.

Era norte-ame­ri­cano o cam­peão de boxe Muhammad Ali, que se re­cusou a matar os seus “ir­mãos” vi­et­na­mitas, pois par­ti­lhavam um ini­migo comum – e foi por isso cas­ti­gado e im­pe­dido de de­fender o tí­tulo mun­dial. Como também o era o cantor Paul Ro­beson, que con­fessou ter sido na União So­vié­tica a pri­meira vez que não se sentiu ví­tima de ra­cismo e co­locou a sua mag­ní­fica voz ao ser­viço da paz e dos di­reitos dos povos (a sua in­ter­pre­tação das can­ções da Guerra Civil de Es­panha, num Con­gresso Mun­dial da Paz, emo­ciona).

Eram na­tu­rais dos EUA os mem­bros do Ba­ta­lhão Abraham Lin­coln, que atra­ves­saram o Atlân­tico para in­te­grar as Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais que tra­varam ao lado dos re­pu­bli­canos es­pa­nhóis uma ba­talha de­ci­siva contra o fas­cismo – e muitos por lá fi­caram, mortos. Nas­cido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os de­ser­dados da Grande De­pressão e cantou um país que de­veria ser para todos, em­pu­nhando a sua gui­tarra – essa má­quina que, avi­sava, “mata fas­cistas”. É também pro­fun­da­mente norte-ame­ri­cano Tom Joad, o per­so­nagem de “As Vi­nhas da Ira”, obra-prima de Stein­beck, que ins­pirou cada luta pelo pão e pela jus­tiça num país di­la­ce­rado pela de­si­gual­dade so­cial e ra­cial.

Era norte-ame­ri­cano o jor­na­lista John Reed, que como ne­nhum outro re­latou ao mundo as epo­peias re­vo­lu­ci­o­ná­rias do Mé­xico in­sur­recto e da Rússia bol­che­vique, com a qual se man­teve so­li­dário até ao fim pre­coce da sua vida, pe­rante a in­vasão de 14 po­tên­cias es­tran­geiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Har­riet Tubman e Fre­de­rick Dou­glass, an­tigos es­cravos que de­di­caram as suas vidas a com­bater a es­cra­va­tura e a apoiar os que não ti­veram as mesmas pos­si­bi­li­dades de eman­ci­pação.

Outro norte-ame­ri­cano, o ve­te­rano da Guerra Civil Henry Reeve, vi­ajou para Cuba para com­bater ao lado dos pa­tri­otas que no sé­culo XIX lu­tavam contra o do­mínio es­pa­nhol, luta essa que via como uma ex­tensão da sua pró­pria, contra a es­cra­va­tura (de origem ir­lan­desa, opunha-se também ao co­lo­ni­a­lismo). Nas fi­leiras do exér­cito re­belde cu­bano, Henry Reeve atingiu o posto de Bri­ga­deiro-Ge­neral antes de morrer em com­bate. Mais de um sé­culo pas­sado, a Re­vo­lução cu­bana honrou o herói in­ter­na­ci­o­na­lista dando o seu nome ao Con­tin­gente Mé­dico In­ter­na­ci­onal es­pe­ci­a­li­zado em si­tu­a­ções de emer­gência na­tural e sa­ni­tária.

Esta Amé­rica sim, é grande!

Avante n.º 2748 (30/07/2026)

(40) - António Maria Eusébio, “o Calafate” - Nunca fui mal procedido

* Victor Nogueira

 
Setúbal - Parque do Bonfim - António Maria Eusébio, “o Calafate” (1819 - 1911), nome pelo qual era conhecido devido à profissão que tinha. foi um poeta  popular analfabeto e apelidado também de “o cantador de Setúbal”, somente aos 84 anos de idade publica os seus versos em folhetos. Este monumento inaugurado em  1968,  é da autoria do escultor Castro Lobo, em bronze e mármore branco 


Nunca fui mal procedido.
Nunca fiz mal a ninguém.
Se acaso fiz algum bem
não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
são defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
no reino da eternidade.
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais.

Setúbal Monumento a Calafate, poeta popular (foto victor nogueira  _EDC1040 editada pelo Gemini 

(39) Sebastião da Gama - Naufrágio

* Victor Nogueira

Monumento de Homenagem aos Pescadores de Setúbal” da autoria de António Pacheco, inaugurado em 2006, situa-se na Doca dos Pescadores. (fotos em 2012) A embarcação com a imagem de  "N. Sra da Arrábida" retratada recebeu o nome de "Nossa Senhora Estrela-do-mar" e, numa placa, está contido o poema "Naufrágio", de Sebastião da Gama.

NAUFRÁGIO

Não era por mal …
A onda que vinha
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio…
E logo a barquinha
partiu pelo meio.

Nem homem, nem velas.
Quando a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas, se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
Feitos de cortiça,
Feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal…

      In ‘Cabo da Boa Esperança’
 
Setúbal - Monumento aos pescadores (Foto victor noguera HPIM2955)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

(38) Laureano Rocha - Rio Azul




Setúbal Av Luísa Todo Escultura Golfinhos - Rio Azul poema de Laureano Rocha (Fotos victor Nogueira MG_6471  e IMG_6469)

 

Xico da Cana - Rio Azul (Laureano Rocha / Mario Regalado)

Rio Azul

Setúbal, eu tenho pena
de não te poder cantar.
Tu és mote de um poema
que ninguem pode ensinar

Se há beleza em qualquer lado
se valesse algum dinheiro
com a princesa do Sado
comprava-se o mundo inteiro

Onde é que existe um rio azul igual ao meu
que em certos dias tem mesmo a cor do céu,
minha cidade é um presépio é um jardim
queria guardá-la inteirinha só para mim.

Setúbal terra morena
onde tudo fica bem,
tens a beleza serena
no rosto de minha mãe.

Ó rio Sado de águas mansas
que pró mar vais a correr,
não leves minhas esperanças
sem esperanças não sei viver.

(Rio Azul, poema de Laureano Rocha)


Na Rua do Seixal, no Bairro do Troino e à sombra da Igreja de N. Sta da Anunciada, defronte da Tasca do Xico da Cana, encontra-se este mural, com versos da canção "Rio Azul" (Foto victor nogueira IMG_4057)

Setúbal, Mural de Explicit Citizens Colectivo no Pavilhão Náutico Municipal ,no Parque Urbano de Albarquel (Foto victor nogueira IMG_8503)

VER

(37) - Sebastião da Gama - Serra Mãe - excerto


* Victor Nogueira 



O agoiro do bufo, nos penhascos, 
foi o sinal da Paz. 
O Silêncio baixou do Céu, 
mesclou as cores todas o negrume, 
o folhado calou o seu perfume, 
e a Serra adormeceu. 

Depois, apenas uma linha escura 
e a nódoa branca de uma fonte amiga; 
a fazer-me sedento, de a ouvir, 
a água, num murmúrio de cantiga, 
ajuda a Serra a dormir. 

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou 
e anda agora à procura, pela Serra, 
da verdade dos sonhos que na Terra 
nunca alcançou. 

E outros murmúrios de água escuto, mais além: 
os Poetas embalam sua Mãe, 
que um dia os embalou. 

 (Sebastião da Gama - Serra Mãe - excerto)

 


Monumento evocativo do poeta Sebastião da Gama, com excerto dum poema Fotos Victor Nogueira IMG_6485, IMG_6488 e  IMG_6493)

(36) Bocage - Auto-retrato [Magro, de olhos azuis, carão moreno]

* Victor Nogueira

Em Setúbal o  'Auto-retrato', de Bocage, figura num painel de azulejos e numa exposição efêmera ' Bocage na Rua - 30 + 1 Poemas' 

 

Auto-retrato - Palácio do Salema (Praça de Bocage) (foto victor nogueira editafa pelo chatGPT IMG_0524) 

Auto-retrato

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento. 
 
12. - Terreiro de Santa Maria
casa da avó materna de Bocage
intervenção plástica de Jaf Jaf

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |



* Tiago Franco

Por achar que já não tenho irritações que cheguem na vida, o algoritmo desta rede passa a vida a bombardear-me com "influencers" portugueses, de extrema-direita, pagos pelo estado de Israel para andarem por Gaza a repetir as narrativas que lhes são ditadas.

Vou deixar de lado esta coisa, muito do século XXI, da malta arranjar sustento a dizer banalidades e transmiti-las para uma geração onde, apesar da informação ao minuto, sobra ignorância. Quando vejo pessoal da minha idade, e mais velhos, a repetirem ideias destes gajos, vou perdendo um pouco a fé na humanidade. 

Não vou fazer publicidade a esta gente, são as novas Ferro Gouveia em potência e provavelmente vocês já os/as terão visto por aí. A gorducha da voz irritante, o anafado do táxi, a cruela da voz rouca e mais umas quantas azedas que por aqui andam.

Também não vou discutir o investimento que Israel faz em publicidade com influencers de vários países. Isso é do conhecimento público e nem aquele estado genocida o nega. 

Até percebo que se tenha que meter comida na mesa e, trabalhar, é algo que a poucos apetece.   Estou solidário nessa parte. Se pudesse andar a bater mundo e alguém me fosse pagando as contas, certamente chegaria mais depressa a alguns dos sonhos que me faltam concretizar. 

Mas não há um limite, de decência vá, para o preço da nossa alma? Por mais ódio e frustração que a vida nos traga, por mais racistas e intolerantes que sejamos, por mais xenófobos, conservadores ou islamofóbicos...não há uma linha vermelha a partir do qual se diz, "tenho que arranjar outra forma de pagar as contas"?

Há algum ser humano com coluna que, vendo o que os colonos na Cisjordânia estão a fazer, consiga encontrar um ponto de vista que justifique aquele terror e a expulsão dos palestinianos?

Alguém, que não siga fanaticamente a vida por um qualquer livro religioso, a bíblia, a tora, o corão ou outra merda qualquer, consegue encontrar uma justificação para as constantes chacinas em Gaza? Ainda se fala no 7 de Outubro como justificação? Os 70 000 (número onde parou a contagem) palestinianos mortos, maior parte deles mulheres e crianças, ainda não chegam para justificar o "direito de defesa" sobre a morte de 800 civis israelitas?

Quando vemos aquele inenarrável ministro de extrema-direita, Ben-Gvir, a entrar por Gaza a dentro, com uma horda de colonos, a gritar "quem diria, há 3 anos, que hoje estaríamos a controlar 70% da faixa de Gaza?", ainda conseguimos procurar uma narrativa que justifique as atrocidades de Israel?

Quase 2 milhões de pessoas, em Gaza, enfiadas num quintal, em condições desumanas e outros tantos na Cisjordânia, a sofrerem um processo de expulsão, patrocinado pelas IDF. E prestam-se estes "influencers", um pouco por todo o mundo, a troco de umas viagens e uns trocos para ficarem em casa a fazer vídeos mais uns meses, a mentir para as suas comunidades, fazendo parte de uma tentativa, à escala global , de limpar a imagem de Israel. 

Mas como? Sim, como meus amigos? Dá para apagar a morte de milhares de mulheres e crianças inocentes? Ou ainda estamos a vender a história de que cada pedra em Gaza era um terrorista do Hamas? Dá para apagar os vídeos diários de novos colonatos na Cisjordânia? Dá para apagar os vídeos do Ben-Gvir a celebrar a pena de morte para palestinianos? 

Também já perdi um pouco a paciência para as discussões das perspectivas ou das opiniões. Não há duas visões em crimes tão óbvios e tão desproporcionais.

Quem, a troco de dinheiro (ou não), se presta ao papel de tentar justificar um estado genocida, está exactamente a entrar no papel de colaboracionista, mas sem aquela desculpa clássica e histórica de quem luta pela sobrevivência. 

São, no fundo e apenas, uns filhos da puta

27 Junho 2026
https://www.facebook.com/tiago.franco.735