sábado, 30 de maio de 2026

Francisco Teixeira da Mota - A justiça na revolução

 

O caso José Diogo foi, durante o período revolucionário, o mais evidente embate judicial entre a legalidade instituída e uma nascente (?) legalidade revolucionária.

* Francisco Teixeira da Mota

30 de Maio de 2026

 “Há 50 anos, um homem matou outro, numa escaramuça corpo a corpo. À navalhada. Há 50 anos, um trabalhador rural matou o seu patrão. Há 50 anos, um proletário dos campos, um comunista, um revolucionário matou um latifundiário salazarista, legionário, prepotente, arrogante, uma fera 'fascista' que o tinha despedido. Hoje, 50 anos depois, tudo regressou à simplicidade, um criminoso assassinou um homem que foi a sua vítima. A história é assim, passa depressa e muda de roupagens”, escreve José Pacheco Pereira no prefácio do recém-publicado livro A Justiça no 25 de Abril e o Caso José Diogo, de Luís Eloy Azevedo. Um livro denso que analisa, detalhadamente, a evolução do mundo da justiça no pós-25 de Abril e vai muito para além do caso José Diogo, em que se defrontaram dois modos de ver as leis e a justiça, radicalmente opostos.

A acusação (querela, na altura) referia que José Diogo “alimentava certa animosidade contra Columbano Líbano Monteiro, o seu antigo patrão”, que o tinha despedido dias antes, pelo que, “no dia 30 de Setembro de 1974, José Diogo entrou na casa daquele" e, “depois de breve troca de palavras (...), ofendeu-o voluntária e corporalmente com uma navalha de bolso (...). Como consequência necessária da lesão traumática do intestino, a que sobreveio como complicação uma peritonite, resultou a morte do ofendido”. Concluía o Ministério Público que “dadas a natureza do instrumento empregado, a sede da sua entrada e a violência necessária para a produção da lesão”, José Diogo agira com intenção de matar, pelo que o acusou do crime de homicídio voluntário.

A partir de Abril de 1975, José Diogo passa procuração aos advogados Amadeu Lopes Sabino, Luís Filipe Sabino e José Augusto Rocha, que vêm introduzir no processo o conceito de “justiça burguesa”, defendendo a liberdade provisória para José Diogo e transformando, numa estratégia de ruptura, o processo judicial num processo político em nome de uma legalidade revolucionária. Do lado da família de Columbano Líbano Monteiro, encontrava-se o advogado Daniel Proença de Carvalho, que procurava defender a aplicação dos códigos legais vigentes e sublinhava que a legitimação do acto de José Diogo representava um “retrocesso milenário na história da humanidade, das suas regras e dos seus códigos” e que o direito à vida não podia “ser imolado a deuses ou a ideologias”.

Depois de variadas peripécias processuais e de uma imensa mediatização e politização, o julgamento foi marcado para o dia 25 de Julho de 1975, no Tribunal de Tomar, mas nesse dia, perante a decisão do seu adiamento, foi sugerido e imediatamente posto em prática o julgamento popular de José Diogo. Nas escadas do tribunal, um júri de 20 trabalhadores, neles se incluindo dois representantes da Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas, a que pertenciam os advogados de José Diogo, foi deliberado que o trabalhador não cometera nenhum crime e “o latifundiário Columbano, pela opressão e exploração sobre o povo de Castro Verde”, foi considerado “inimigo do povo alentejano”. Mais deliberou o júri “enviar esta sentença à assembleia do Movimento das Forças Armadas, reunida hoje”.

Acelerando a fita do tempo: José Diogo, que tinha sido libertado provisoriamente e desaparecera, tendo sido julgado à revelia, veio a ser condenado em 1980 definitivamente pelo Supremo Tribunal de Justiça numa pena de prisão de dois anos e seis meses, após uma ampla controvérsia sobre a existência da intenção de matar e da causalidade entre a agressão e a morte. Segundo refere Luís Eloy Azevedo, citando uma reportagem do semanário Tal e Qual, em 1992, José Diogo levava uma “vida triste” em Casével, Santarém, tinha dificuldade em arranjar trabalho e não ganhava “sequer para os copos”. Viria a morrer em Agosto de 2015, com 77 anos.

O livro A Justiça no 25 de Abril e o Caso José Diogo, de Luís Eloy Azevedo, é uma obra de indiscutível interesse para os juristas que pensam, mas, também, para os não juristas que, igualmente, pensam

A história é longa e Luís Eloy Azevedo relata-nos, de forma exaustiva e rigorosa, tudo o que se passou, recorrendo à variada documentação da época, judicial e não só, como também ao filme Liberdade para José Diogo, realizado por Luís Galvão Teles (disponível actualmente na plataforma Filmin), e ainda a depoimentos, agora por si obtidos, dos advogados Daniel Proença de Carvalho e Amadeu Lopes Sabino.

Foi durante o período revolucionário o mais evidente embate judicial entre a legalidade instituída e uma nascente (?) legalidade revolucionária; no entender do autor do livro, “o processo de José Diogo deixou clara a saturação da alternativa revolucionária da justiça e reflectiu as vulnerabilidades tradicionais do corpo judicial nos processos de transição”. Uma obra de indiscutível interesse para os juristas que pensam, mas também para os não juristas que, igualmente, pensam.

https://www.publico.pt/2026/05/30/opiniao/opiniao/justica-revolucao-2176337

Alice Walker - Nothing on earth can stop the freedom of my spirit

 

«Este mural de Orgosolo é uma obra de profunda carga dramática e política, dividida em três painéis sequenciais no estilo de fotogramas ou banda desenhada. Ele retrata um dos acontecimentos mais marcantes do início da Segunda Intifada e da cobertura jornalística de conflitos no Médio Oriente.

O que está escrito?

No topo (Data e Local):

  • No primeiro painel: "30 settembre"

  • No segundo painel: "2000"

  • No terceiro painel: "GAZA"

Na parte inferior (Poema/Manifesto): O texto distribui-se sob os três painéis e diz o seguinte em italiano:

  • Painel 1: Come uccelli, sogni e speranze volano via...

  • Painel 2: Nessuna catena riuscirà a tenerli

  • Painel 3: "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito"

  • Canto inferior esquerdo (em tons avermelhados): "Terra mia, Spirito mio"

  • Tradução: "Como aves, sonhos e esperanças voam para longe... Nenhuma corrente conseguirá prendê-los. 'Nada na terra travará a liberdade do meu espírito'. Terra minha, Espírito meu."

O que representa?

O mural é uma recriação artística e direta das filmagens televisivas que captaram a trágica morte de Muhammad al-Durrah (um rapaz palestiniano de 12 anos) e a tentativa desesperada do seu pai, Jamal al-Durrah, de o proteger atrás de um cilindro de betão sob fogo cruzado no cruzamento de Netzarim, na Faixa de Gaza, a 30 de setembro de 2000.

  • A Sequência do Drama (Os Três Painéis):

    • Primeiro painel: O pai acena desesperadamente com o braço, gritando para que parem os disparos, enquanto tenta cobrir o filho com o próprio corpo.

    • Segundo painel: O momento de pânico absoluto, onde ambos tentam encolher-se contra a parede de betão à medida que o tiroteio se intensifica.

    • Terceiro painel: O desfecho devastador. O rapaz surge caído sem vida sobre as pernas do pai, que se encontra gravemente ferido e desfalecido contra o muro, rodeado por uma mancha de sangue.

  • O Significado Político e Social: As imagens reais deste acontecimento, gravadas pelo operador de câmara Talal Abu Rahma para o canal de televisão francês France 2, chocaram o mundo e transformaram-se instantaneamente num símbolo global do sofrimento dos civis apanhados no fogo dos conflitos armados.

Ao transpor este episódio de Gaza para as paredes da Sardenha, os artistas de Orgosolo mantêm a sua longa tradição de solidariedade internacionalista com as causas dos povos oprimidos, transformando a dor local num grito universal pela liberdade, dignidade humana e denúncia da violência militar sobre os mais indefesos.

 o texto que se encontra na parte inferior deste mural é um excerto de um poema. Trata-se de uma tradução para italiano de alguns versos adaptados de um poema escrito pela ativista, poetisa e escritora feminista afro-americana Alice Walker (famosa mundialmente por ser a autora do livro A Cor Púrpura).

O Poema Original

A frase principal do terceiro painel — "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito" ("Nothing on earth can stop the freedom of my spirit") — sintetiza a essência da poesia de Walker voltada para a resistência espiritual, a superação do trauma e a invencibilidade da liberdade interior face à opressão física ou à violência.

A Relação com o Coletivo de Orgosolo

Os muralistas de Orgosolo costumavam cruzar imagens de forte impacto jornalístico e geopolítico com a grande poesia humanista e de intervenção social. Ao juntar as palavras de Alice Walker à trágica sequência dos acontecimentos de Gaza de 30 de setembro de 2000, o mural ganha uma nova dimensão:

  • O Contraste entre o Corpo e o Espírito: Enquanto as imagens mostram a fragilidade da carne e a violência brutal que ceifa uma vida no plano físico, a poesia na base responde com uma declaração de imortalidade ideológica.

  • A Mensagem: O texto sugere que, embora as forças militares consigam encurralar, ferir ou matar os corpos, os sonhos, as esperanças de um povo e o seu desejo intrínseco de autodeterminação e liberdade permanecem intocáveis, voando livres "como aves".

Este texto foi concebido especificamente como um epitaffio/poema visual para dialogar com a trágica sequência de imagens de Gaza.

O texto integral do poema, tal como está imortalizado na parede em formato de versos livres, é precisamente este:

Come uccelli,
Sogni e Speranze
volano via....
"Terra mia,
Spirito mio"

Nessuna catena
riuscirà a tenerli.

"Niente sulla terra
fermerà la libertà del
mio spirito."

A versão portuguesa do texto completo, mantendo a correspondência direta com a estrutura dos versos tal como estão distribuídos na parede, é a seguinte:

Como aves,
Sonhos e Esperanças
voam para longe....
"Terra minha,
Espírito meu"

Nenhuma corrente
conseguirá prendê-los.

"Nada na terra
travará a liberdade do
meu espírito."

A Estrutura e o Sentido dos Versos
Embora a frase final partilhe a forte filosofia de emancipação espiritual de autoras como Alice Walker, a força deste poema reside na forma como foi estruturado para responder à dor das imagens:

Os primeiros versos ("Come uccelli...") funcionam como uma elegia ou lamento fúnebre. Representam a fragilidade da vida das vítimas civis e a forma abrupta como os seus planos e o seu futuro são ceifados pela violência.

Os versos centrais ("Nessuna catena...") introduzem a viragem política e ideológica típica do espírito de resistência de Orgosolo: a ideia de que a força bruta ou o aprisionamento físico de um povo nunca conseguem conter o seu desejo de liberdade.

A afirmação final sela o mural com uma nota de indomabilidade, transformando o sofrimento do plano físico numa vitória moral e espiritual definitiva.

Como este poema foi concebido especificamente para o mural pelos próprios artistas (funcionando como um manifesto político-visual e uma elegia), ele não tem um título oficial e não está incluído em nenhuma obra literária ou livro de poesia publicado.

O texto nasce e existe apenas ali, naquela parede de Orgosolo, como um "epitafe" dedicado à memória de Muhammad al-Durrah e à resistência do povo palestiniano.

A única associação literária externa que se conhece é a inspiração conceptual do verso final ("Nada na terra travará a liberdade do meu espírito"), que ecoa a filosofia de resistência e liberdade interior muito presente nos ensaios e reflexões da escritora norte-americana Alice Walker. No entanto, a forma como os versos estão encadeados e distribuídos sob os três painéis é uma criação original e exclusiva deste mural.» (Google Gemini)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Eduardo Washington - Quando tu sentires vontade de chorar, não chores sozinho…

* Eduardo Washington

Quando tu sentires vontade de chorar, não chores sozinho…
chama-me, e deixarei que as minhas lágrimas acompanhem as tuas.
Quando um sorriso quiser nascer no teu rosto,
chama-me,
para que possamos iluminar juntos o mesmo instante.
Quando o teu coração tiver sede de amor,
chama-me,
e eu irei ao teu encontro com o meu inteiro.
Quando sentires que tudo desabou à tua volta,
chama-me,
que eu ajudarei a erguer, pedra por pedra, os teus sonhos perdidos.
Quando o mundo te parecer demasiado pesado
para as tristezas que carregas,
chama-me,
e transformarei os teus dias num lugar mais leve para a felicidade morar.
Quando precisares de uma mão,
chama-me,
porque a minha sempre encontrará a tua.
Quando a solidão visitar os teus dias cinzentos,
ou mesmo nos dias cheios de sol,
chama-me…
eu irei, sem hesitar.
Quando precisares ouvir alguém sussurrar:
“Eu amo-te”,
chama-me,
e eu direi quantas vezes forem necessárias,
porque o amor que trago por ti não conhece medida.
E quando chegar o dia
em que já não precisares mais de mim,
apenas avisa-me…
partirei em silêncio,
mas continuarei a guardar-te nas minhas orações
e no lado mais bonito do meu coração.

https://www.pensador.com/frase/ODg2MTk3/

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado

O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues

29 de Maio de 2026

 “Algumas das maiores empresas da história da humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção. Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano

A Suécia assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta, diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.

A Suécia tinha criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado. Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de aulas.

Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas conclusões.

Randi Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10 points to boost student learning and success in the AI era, que “as crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.

“O ritmo desta revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA). “A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”

Higienização

O tema está aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas, propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação, enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública sobre os conflitos.

Criado pelo Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos ângulos para olhar e das perspectivas de análise.

 “Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em tempos de conflito”, lê-se no site.

 “À força de fazer desfilar as notificações, os alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados, acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de fundo cruelmente banal.”

 O uso cada vez maior de meios digitais para travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.

 E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”

Atenção

A Meta, a empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.

“Outros sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações foram concebidos para fazer.”

Na sua intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar, mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.

 Dar valor à nossa atenção é importante porque se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.

Como disse Foster Wallace naquele dia, no Kenyon College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que mais custa ver e discutir”.

Empatia

Uma das piores expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento, pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.

Nestes tempos política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança, aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”

A empatia já não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer. Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.

No entanto, como refere Wedellsborg no site do International Institute for Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa, mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.

Para a autora de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Carlos Coutinho - Homenagem a Manso Pinheiro

Carlos Coutinho
6 h
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Em tempos que já lá vão, não me passava pela cabeça que a simples troca de posição de duas palavras que estavam juntas para designarem algo singular podia equivaler à mais insólita das transformações na ordem do mais curial estatuto semântico. 

   Admito que existam outros casos tão ou mais obscenos do que aquele que agora entrega as pontas dos meus dedos a um teclado indefeso como este, o do meu resiliente computador: o de uma árvore revirada para cidadão – pinheiro manso e Manso Pinheiro. 

   Corria o ano de 1974 quando conheci um capitão miliciano coproprietário de uma editora decisiva com o irmão. Chamava-se Manso Pinheiro, era de esquerda e atuava em conformidade com essa mundividência, merecendo-me um respeito crescente que ainda perdura, esteja ele vivo ou não.

   O mesmo ocorre com um árvore benemérita de Portugal, o pinheiro manso, que, apesar de ser resinosa, respirar por agulhas e ter séculos de régia e rígida inibição imposta aos resineiros, está há séculos a zelar por Portugal, começando por fornecer a salvífica anatomia das caravelas e a inconfundível fisionomia do mobiliário de alta qualidade.

   Dir-se-á que terei de estender tal apreço à oliveira, ao carvalho, ao sobreiro, à figueira, à macieira, ao castanheiro e até à parreira que se desdobra em milagres geradores de fé, esperança e caridade, como é timbre, sagrado timbre e altivez dos vinhos que conheço desde que nasci no Alto Douro. 

   Claro que um figo seco, um cacho de moscatel ou de mourisca, assim como uma castanha assada, por exemplo, já para não falar de um cálice de vinho fino, podem justificar a existência de uma pessoa, mesmo que já tenha de se esforçar muito para continuar viva e atuante, mas ninguém deve tanto a uma árvore como os navegadores, os seus patrões e as gentes que ainda hoje não prescindem dos frutos do mar. 

   É o meu caso, como está bom de ver.

2026 Maio 28

Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926

 * Raquel Varela

Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?

Portugal teve desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro, espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente fascista.

A incapacidade de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o Parlamento – a Ditadura Militar.

Entre 1926 e 1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital, baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado, não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.

O pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.

Se a República teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a “instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social” operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa.

O golpe de 28 de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim, resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via para a ditadura que se segue.

Como lembra César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da contrarrevolução.

Contexto internacional da Ditadura Militar

Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois de 1927.

Gramsci sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de crise orgânica do capitalismo.

Primo de Rivera liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e envolver estivadores, transportes, etc.

À semelhança de outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia “democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado – organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.

É bonapartista a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será proibida em 1935.

Após o golpe de Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário de seis para quatro anos.

Em 1928, promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses “públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A 27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira “política de austeridade” no país.

Qual regime?

Mas afinal o que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado, de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde 1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.

Não houve resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926. Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.

A repressão durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção. Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos monárquicos”.

A República decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara, para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário – os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.

Raquel Varela e Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand). Todas as referências estão no livro

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vijay Prashad - O socialismo amadurece lentamente | Carta semanal 21 (2026)




Olalekan Jeyifous (Nigéria), Devotos da Petrotopia 01, 2021.


* Vijay Prashad

26.05.26 

Embora o sistema capitalista recompense ciclos de curto prazo, construir um futuro digno é uma tarefa lenta que exige organização, disciplina e uma luta constante para fazer surgir as forças sociais de um novo mundo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Em 1921, poucos anos após o início da experiência soviética, V. I. Lenin publicou um ensaio com o título revelador Novos tempos e velhos erros sob nova aparência. O ensaio deu início a uma linha de investigação que permaneceria com Lênin até o fim de sua vida, o que ocorreu três anos depois. O que o cativou foi a questão de como construir o socialismo em um país devastado pela guerra, com um capital mínimo à sua disposição, uma sociedade predominantemente camponesa e com altas taxas de analfabetismo (cerca de 70%) e ainda sem uma administração pública capaz de administrar um Estado de orientação socialista. Nesse ensaio, Lênin reflete:

Após um esforço enorme e sem precedentes, a classe trabalhadora de um país de pequenos camponeses e em ruínas, a classe trabalhadora que, em grande parte, ficou desclassada, precisa de um intervalo de tempo para permitir que novas forças cresçam e venham à tona, e para que as forças antigas e desgastadas possam “se recuperar”. … É preciso compreender isso e levar em conta a necessária — ou melhor, inevitável — desaceleração do ritmo de crescimento das novas forças da classe trabalhadora.

Esta carta semanal será dedicada à ideia do “intervalo de tempo” necessário para que um “país em ruínas” seja ressuscitado de seu atraso e alcance o socialismo (tenho refletido sobre isso ao reler nosso dossiê n. 100, O futuro). Discutiremos essa ideia tendo em vista a lentidão com que o processo socialista amadurece, enquanto a sociedade capitalista agoniza em meio à crise. O conceito de “maturação lenta” será apresentado aqui e aprofundado posteriormente nos trabalhos do nosso instituto.


Konstantin Yuon (URSS), Povo, 1923

Todas as revoluções socialistas do mundo moderno ocorreram em países pobres, em que o campesinato predomina e a riqueza tem sido sistematicamente drenada de seu território para terras distantes. Nessas nações mais pobres, os novos governos revolucionários — seja na União Soviética (1917), no Vietnã (1945), na China (1949) ou em Cuba (1959) — tiveram de desenvolver sua própria capacidade estatal partindo praticamente do zero e reunindo recursos financeiros para a construção de infraestrutura e indústria. Nem a capacidade estatal nem o capital surgiram facilmente nesses processos revolucionários, o que os obrigou a realizar experiências que não foram devidamente documentadas. Aqui estão seis pontos elaborados a partir do que sabemos sobre esses processos, que servem como base para desenvolver uma teoria do conceito de “maturação lenta”. Convidamos você a nos escrever com suas próprias ideias sobre esse conceito, com base em suas experiências e estudos.

1. A confiança se conquista aos poucos, e é difícil abandonar velhos hábitos.
Os governos revolucionários herdam estruturas moldadas ao longo de gerações por antigas hierarquias de castas e tribais que regem as relações agrárias, pela humilhação e expropriação coloniais e pela privação social total. Os bolcheviques na União Soviética, por exemplo, descobriram rapidamente que a antiga cultura burocrática czarista não havia desaparecido em outubro de 1917. A corrupção, a deferência à autoridade e a desconfiança nas instituições coletivas persistiram durante anos. Na China, após a Revolução de 1949, o Partido Comunista enfrentou repetidamente os resquícios da hierarquia confucionista, os sistemas regionais de clientelismo e os hábitos de sobrevivência dos camponeses, forjados ao longo de séculos de insegurança. Em Cuba, após 1959, a liderança revolucionária falava abertamente sobre a criação de um “novo ser humano”, pois compreendia que a consciência socialista não poderia ser imposta por lei da noite para o dia.

As pessoas que vivem sob a violência do colonialismo e as desigualdades do capitalismo aprendem a se proteger individualmente ou por meio de redes familiares. Para que um projeto socialista tenha sucesso, as pessoas precisam aprender a confiar nos sistemas coletivos. Essa confiança cresce lentamente com a experiência – por meio de escolas que funcionam, clínicas que curam, moradias que abrigam e instituições que perduram. Uma revolução pode tomar o poder do Estado rapidamente, mas não consegue transformar a psicologia social de forma tão rápida.


Douglas-Perez-Cuba-The-porvenir-2008

2. As redes comerciais e financeiras favorecem a ordem global atual.
O capitalismo não domina apenas por meio da ideologia, mas também por meio de redes consolidadas de comércio e finanças, bem como da infraestrutura de transportes e comunicações. Os países que buscam uma transformação socialista entram em um mundo já organizado em torno da acumulação capitalista. Após a Revolução Russa, a União Soviética enfrentou dificuldades porque as cadeias de abastecimento industrial, as redes bancárias e as rotas comerciais eram controladas por potências capitalistas hostis. A experiência de Cuba após o colapso da União Soviética em 1991 demonstrou isso de forma contundente: a ilha perdeu o acesso a combustível, peças de reposição, crédito e relações comerciais praticamente da noite para o dia, pois a economia mundial estava estruturada em torno de sistemas dos quais Cuba estava amplamente excluída (e dos quais está sendo ainda mais excluída atualmente pelo embargo petrolífero ilegal imposto pelos Estados Unidos). Após a reunificação em 1975, o Vietnã enfrentou enormes dificuldades para reconstruir uma economia devastada pela guerra, mantendo-se à margem dos principais circuitos financeiros e comerciais. Os sistemas existentes se perpetuam porque todas as instituições, desde os portos até as moedas e os padrões de software, atuam nesse sentido. Construir redes alternativas leva décadas, não anos.

3. Os custos de capital e de infraestrutura são enormes nos países empobrecidos pelo colonialismo.
Quando os revolucionários vietnamitas derrotaram o imperialismo estadunidense, herdaram um país fisicamente devastado pelos bombardeios e quimicamente contaminado pelo Agente Laranja. Cuba herdou uma economia baseada na monocultura do açúcar, ligada quase exclusivamente aos Estados Unidos. Em 1949, a China emergiu de um século de humilhações e domínio dos senhores da guerra, do imperialismo japonês e da guerra civil, com baixa expectativa de vida, analfabetismo em massa e fraca capacidade industrial.

Essas revoluções tiveram que construir ferrovias e portos, escolas e instituições científicas, redes elétricas e siderúrgicas – praticamente do zero. Os países capitalistas do Atlântico Norte se industrializaram ao longo de séculos, financiados pela escravidão, pela pilhagem colonial e pelos tributos imperiais. Esperava-se que as instituições estatais socialistas dos países mais pobres que haviam sido colonizados condensassem esse processo em poucas décadas, mesmo sob bloqueio ou ameaça militar, e depois eram acusadas de falência estatal. O enorme peso material retardou a transformação.


Đặng Thái Tuấn (Vietnã), Sem título (Loja de conveniência móvel), 2021

4. Pressões externas – como sanções, sabotagem, isolamento diplomático e guerra – retardam o desenvolvimento.
Todos os Estados revolucionários do Terceiro Mundo enfrentaram cerco militar ou sanções econômicas. A União Soviética foi invadida por soldados de mais de uma dúzia de países estrangeiros após 1917 e, posteriormente, enfrentou a invasão nazista, que causou a morte de pelo menos 27 milhões de cidadãos soviéticos e destruiu dezenas de milhares de cidades e vilarejos. Cuba vem sofrendo há décadas com as sanções dos Estados Unidos, destinadas explicitamente a provocar escassez e descontentamento social. O governo da Unidade Popular (UP) do Chile tentou uma transformação estrutural, mas enfrentou uma desestabilização econômica imediata, resistência das elites e intervenção externa antes que as reformas de longo prazo pudessem se consolidar. O governo sandinista da Nicarágua enfrentou uma guerra contra os Contras, financiada pelos Estados Unidos, e a exploração dos portos do país, incluindo Corinto. O Vietnã travou uma guerra anticolonial entre 1945 e 1975.

Essas pressões consumiram recursos que teriam sido destinados ao desenvolvimento social. As sanções aumentam os custos de transação, limitam o acesso à tecnologia e geram escassez crônica. A guerra destrói a infraestrutura e redireciona a força de trabalho para a defesa. Nessas condições adversas, as ineficiências não decorrem de ideologias ou erros de planejamento, mas das condições de emergência permanente impostas por potências hostis.

5. Todo processo é ineficiente em suas fases iniciais.
Os Estados revolucionários procuram criar novos sistemas administrativos, ao mesmo tempo que ampliam os serviços de educação e saúde, além de promover a reforma agrária e o desenvolvimento industrial. Erros e confusões burocráticas, gargalos e escassez são inevitáveis. O sistema de planejamento soviético inicial enfrentou dificuldades de coordenação, pois não havia precedentes históricos para a administração de uma economia continental baseada na justiça social, em vez do lucro. As comunas e os projetos industriais da China foram prejudicados pela falta de conhecimento técnico e pela implementação local desigual. Em Cuba, a escassez de profissionais qualificados se agravou quando muitos fugiram para Miami após a revolução.

A administração pública aprende com a prática. As instituições amadurecem por meio de tentativa e erro. Espera-se que os governos socialistas dos países mais pobres alcancem eficiência de imediato, ao mesmo tempo que enfrentam embargos, baixas taxas de alfabetização e escassez de tecnologia. A ineficiência inicial não é, portanto, algo excepcional, mas sim uma característica de qualquer transformação social em grande escala.


Ming Wong (Cingapura), Ascensão ao Palácio Celestial III, 2015.


6. Os ciclos eleitorais curtos impedem a transformação social.
A transformação social exige horizontes de planejamento que se estendem por décadas — e não por ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, que privilegiam o consumo imediato em detrimento da reconstrução a longo prazo. Os governos revolucionários exigem paciência antes que se vejam resultados concretos. Mesmo fora dos Estados explicitamente socialistas, governos que tentam implementar programas de redistribuição ou de desenvolvimento frequentemente enfrentam sabotagem por meio de eleições antes que os projetos amadureçam. Uma política transformadora exige continuidade, mas os sistemas eleitorais, moldados pelos ciclos da mídia e pelas pressões financeiras, recompensam a gestão de curto prazo. As experiências socialistas, portanto, se depararam repetidamente com a contradição entre o tempo histórico (o longo período necessário para transformar a sociedade) e o tempo eleitoral (o ritmo acelerado da política moderna).


Eva Schulze-Knabe (RDA), Mulheres

Na peça “A Mãe” (1931), de Bertolt Brecht, a personagem principal, Pelagea Vlassova, enfrenta uma tragédia após outra até que a Revolução Russa a leva a agir. Quando ela se vê numa cozinha com várias mulheres, uma das quais reclama que o comunismo não passa de um crime, ela responde cantando:

É lógico – qualquer pessoa consegue entender. É fácil.
Se você não é um explorador, você consegue entender.
Isso faz bem para você. Dê uma olhada nisso.
Os tolos chamam de tolice, e os corruptos chamam de corrupção.
É contra o que está podre e contra a estupidez.
Os exploradores chamam isso de crime.
Mas sabemos
É o fim do crime.
Não é loucura, mas
o fim da loucura.
Não é o caos
mas ordem.
É uma coisa simples
tão difícil de conseguir.

Ao pensar em “amadurecer lentamente”, me lembrei da música da Vlassova. Vlassova trabalhou a vida inteira, mas pouco tinha para mostrar além de sua dignidade. Ela pode não ter tido uma educação completa, mas era muito esperta. Ela sabia que o comunismo era uma “coisa simples”, mas não era do tipo que vivia no mundo da fantasia. É simples, mas “difícil de colocar em prática”.

Cordialmente,

Vijay

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/o-socialismo-amadurece-lentamente-256739
https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-amadurece-lentamente/

Manuel Cardoso - Passos Coelho não se aposenta, apresenta


Manuel Cardoso, Humorista

Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo
 
Pedro Passos Coelho concluiu que precisava de se focar no seu bem-estar. Nesse sentido, decidiu agendar sessões recorrentes em que pode falar à vontade dos seus ressentimentos durante uma hora. Infelizmente para o país, não quis gastar dinheiro em terapia e optou pelas apresentações de livros. Há autores que, quando decidem escrever um livro, põem-se a pensar em quem é que poderia apresentá-lo. Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo. Os novos aliados de Passos Coelho estão a ficar seriamente preocupados: o ex-Primeiro-Ministro tem passado muito tempo em livrarias. Por estar permanentemente rodeado de estantes com livros, temem que possa considerar adquirir um.

Nunca marquei presença nestes eventos, mas consigo imaginar a dinâmica: primeiro, o autor do livro confessa que é uma honra ter sido convidado para escrever um livro a propósito do lançamento da apresentação de Passos Coelho; depois, faz uma breve biografia do apresentador, percorrendo o longo percurso apresentadorístico do massamense; a seguir, oferece o livro aos presentes para lhes despertar interesse na apresentação. Entretanto, Pedro Passos Coelho pega no microfone e apresenta o livro. Por fim, o autor do livro vai arrumando as cadeiras enquanto Passos Coelho distribui autógrafos.

Como sempre se soube, Portugal é demasiado pequeno para Pedro Passos Coelho. O mercado editorial português não faz lançamentos suficientes para acompanhar a prolificidade das apresentações de Passos Coelho. Até agora, o ex-presidente do PSD ainda tem conseguido encontrar, para participarem nas suas apresentações, autores de ciência política ou direito constitucional. Em breve, Pedro Passos Coelho vai ser forçado a apresentar "As 100 Receitas Mais Virais do TikTok", a biografia de um agente imobiliário ou a nova sensação do soft-porn "Tudo O Que Aprendi No Pilates". Em princípio, isso beneficiará os autores. Até porque, ao contrário do que acontecia quando Passos era PM, os "livros não-educativos" já não são taxados a 23%.

2026 Maio 27

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-27-passos-coelho-nao-se-aposenta-apresenta-4c980ba7

João L. Maio - Talvez: Bad Bunny, as mensagens de plástico e as palavras que se perdem



Fotografia: CARLOTA BARRENTO


* João L. Maio  
27/05/2026 

Começo por dizer que sou fã de Bad Bunny e que adoraria ter ido ao concerto (caso este não fosse no Estádio da Luz, uma vez que me recuso a entrar nesse estádio, com a única excepção a ser uma deslocação do FC Porto a Lisboa). Não vá dar-se o caso de sub ou sobre-interpretarem este texto.

Hoje temos sempre de fazer este género de avisos; que não somos anti-semitas por criticar o governo de Israel, que não somos comunistas por defender impostos progressivos ou que não somos homofóbicos por contarmos ou nos rirmos de uma piada que envolva homossexuais. Depois do aviso, aqui vai.

Muitos artistas atingem o estrelato e cimentam-se no mainstream com mensagens de amor, de paz e de solidariedade. No início, tal voragem humanista é o que os eleva. E parece-me sempre genuíno. Depois, o tempo passa e, estando no mainstream, a mensagem perde-se e o artista volta a ser o que estava planeado: um bem de consumo que passa de boca em boca até se perder na viragem do novo álbum, do single mais recente ou de outro artista que aparece… com outra mensagem. E o ciclo repete-se.

Benito, como é conhecido Bad Bunny, começou na música com o reggaeton mais convencional, com toques de hiphop. Depois, criou a sua imagem, aproveitando o crescimento do ódio, usando a sua posição como cidadão porto-riquenho para chamar a atenção para os problemas que assolam o seu território e que, directa e indirectamente, atingem toda a economia mundial: desregulação económica selvagem, especulação imobiliária, gentrificação ou a capitalização das cidades como grandes Disneylands, foram os temas que catapultaram o artista de Porto Rico para o mainstream definitivamente. O álbum DtMF explodiu e músicas como a que dá nome ao álbum, Baile Inolvidable, NuevaYol ou Café con Ron tornaram-se verdadeiros hinos de 2025, passaram na mente e ecoaram pelos lábios de quase toda a gente durante o Verão do ano passado e atravessaram o ano de 2026 com uma tour internacional anunciada, para delírio de muitos.

O problema é que com a proliferação das canções, a mensagem principal perdeu-se e deu lugar, como em quase tudo o que nasce organicamente hoje em dia, à venda de bilhetes e merchandising, aos outfits e ao poder visual das luzes. Os fãs, seguiram a mesma lógica: partilham as frases feitas, imitam o guarda-roupa e atendem aos concertos de câmera de plástico na mão com a inscrição “DtMF”, enquanto seguram milhares de telemóveis para, mais tarde, reverem o concerto que viram… exactamente através do telemóvel.

E a mensagem? A consciencialização das massas para o problema da habitação, da gentrificação e do capitalismo tardio? Já era. Perdeu-se na espuma que a onda de entusiasmo trouxe, como chapada na barra num dia de tempestade. Abre-se o Super Bowl, proliferam-se mais meia dúzia de frases amorosas que colam o público ao álbum e vendem-se mais bilhetes. E a prova de que a mensagem não importa nada, no final de contas, é ver o presidente da CM de Lisboa, que representa tudo aquilo que, no princípio, era o alvo das críticas de Bad Bunny, a promover um seu concerto na cidade que preside, como se nada fosse; como se a música não fosse, desde sempre, a condutora das ideologias, daquilo que se pensa, do que se sente e de tudo o que se defende. É um espelho de cada um de nós, em tudo aquilo que representamos.

Ou talvez não. Talvez as coisas tenham mudado e os hinos de ontem, que chegam até hoje, sejam já só mera arte imobilizada, que não se mexe por já não vender. Talvez o importante hoje seja o supérfluo e não o âmago de cada questão. Talvez o que importe seja o “eu estive lá” com uma fotografia que o comprove. Talvez a mensagem seja passageira. Talvez a música seja já só barulho. Talvez esteja a romantizar demasiado a arte. Talvez um dia a gente mude… talvez.

Aproveitem os concertos, divirtam-se muito, mas não deixem que mensagens revolucionárias se percam na estrada, pelo caminho, quando a mensagem é açambarcada pelo artista das mil e uma views, como um Deus que carrega uma verdade, porque esses deuses somos todos os nós, os que realmente carregam o papiro mensageiro que é vendido, usado e abusado, até já não significar nada mais do que uma canção num álbum de 2025.

https://aventar.eu/2026/05/27/talvez-bad-bunny-as-mensagens-de-plastico-e-as-palavras-que-se-perdem/

terça-feira, 26 de maio de 2026

Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa.

* canal #moritz

2026 05 26
 ·
Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa. Não importa se a conversa começa sobre salários, guerra, imigração ou o preço da electricidade. Ao fim de dez minutos aparecem sempre os mesmos arquétipos políticos, carregados de certezas absolutas, contradições épicas e uma impressionante capacidade para dizer tudo e o seu contrário sem pestanejar.

A primeira a entrar costuma ser a , socialista de televisão, europeísta de ocasião e anti-comunista preventivamente nervosa. É daquelas pessoas que conseguem, na mesma frase, elogiar o Estado Social, defender o PS, citar valores de Abril e terminar a pedir “responsabilidade dos mercados”. Para ela, o capitalismo americano é profundamente injusto, mas ao mesmo tempo representa “a democracia liberal que nos protege”. A União Soviética acabou há décadas, mas a dona Matilde continua a falar dos soviéticos como quem espera uma invasão anfibia em Peniche.

Depois aparece o inevitável , representante da esquerda domesticada, higienizada e compatível com painéis televisivos patrocinados por bancos. O Luís apresenta-se como homem do Bloco de Esquerda, progressista, defensor de causas sociais e especialista em indignação selectiva. Revolta-se contra tudo o que não coloque verdadeiramente em causa o sistema económico. Fala muito de linguagem inclusiva, diversidade e empatia, mas quando a conversa chega a imperialismo, NATO, grandes grupos económicos ou concentração de riqueza, entra imediatamente em modo nevoeiro ideológico:

 “A questão é complexa.”

Complexa, neste caso, significa:

 “Tenho medo de dizer algo que me retire convites para debates televisivos.”

O curioso é que esta pseudo-esquerda vive obcecada em parecer “responsável” perante o mesmo sistema que diz combater. Quer fazer revolução, mas sem incomodar acionistas. Quer combater desigualdades, mas sem tocar nos lucros. Quer defender trabalhadores, mas sem assustar comentadores da SIC Notícias.

E claro, nenhuma reunião estaria completa sem a lendária , patriota profissional do sofá, inimiga mortal dos imigrantes — excepto daqueles que lhe fazem os trabalhos todos que ela nunca quis fazer. A dona Rebola Caixotes passa a vida a repetir que “os estrangeiros vêm roubar empregos aos portugueses”, embora ela própria nunca tenha mostrado grande interesse em trabalhar. Defende valores tradicionais, acha que a mulher deve ficar em casa e acredita que o país está a ser destruído por gente de fora. No entanto, o jardineiro é imigrante, o estafeta é imigrante, o homem das obras é imigrante e provavelmente até o técnico da internet que lhe permite espalhar teorias absurdas no Facebook também é imigrante.

Mas esses não contam.

Porque no imaginário dela existem sempre dois tipos de estrangeiros:

* os “bons”, que trabalham barato e em silêncio;
* e os “maus”, inventados diariamente por páginas de propaganda e vídeos alarmistas.

No meio deste circo ideológico sobra apenas o , que apesar das minis e da linguagem caótica, por vezes é o único que percebe o absurdo geral da conversa. É ele quem pergunta como é possível um partido dizer-se socialista enquanto governa para grandes interesses económicos. É ele quem se ri de uma esquerda que evita certos temas para não parecer “radical”. E é ele quem nota que muitos dos que gritam contra pobres, imigrantes ou subsídios normalmente nunca criticam os verdadeiros centros de poder económico.

No fundo, aquela reunião online não era apenas uma conversa caricata. Era um retrato bastante fiel da confusão política moderna: uma direita agressiva alimentada pelo medo, uma pseudo-esquerda preocupada em parecer aceitável para o sistema, um centrismo disfarçado de socialismo e um povo perdido no meio de propaganda, redes sociais e slogans vazios.

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