quinta-feira, 4 de junho de 2026

Che Guevara - Carta aos filhos

 

«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.

O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:

1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)

O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:

"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."A célebre carta de despedida de Ernesto Che Guevara aos seus cinco filhos (Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto) foi escrita em 1965, quando ele deixou Cuba para seguir para novas frentes revolucionárias. É uma carta curta, íntima e carregada de conselhos éticos.

Aqui está a transcrição integral da carta traduzida para o português:

Aos meus filhos

Queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto:

Se algum dia tiverem de ler esta carta, será porque já não estou entre vós.

Quase não se lembrarão de mim, e os mais pequenos não se lembrarão de nada.

O vosso pai tem sido um homem que age como pensa e, com certeza, tem sido fiel às suas convicções.

Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poderem dominar a técnica, que permite dominar a natureza. Lembrem-se de que a revolução é o que é importante e que cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir, no mais profundo de vós, qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário.

Adeus, meus filhos, ainda espero ver-vos. Um grande beijo e um grande abraço do vosso

Papa

O detalhe no mural

O trecho que destaquei em negrito é exatamente a secção que os artistas de Orgosolo escolheram para eternizar na parede de pedra, adaptando a mensagem paternal de Che a um apelo universal de empatia para quem visita a vila.» (Google Gemini)

Emílio Lussu



«Este mural, presente na imagem é mais uma obra de forte teor político e histórico em Orgosolo, conectando a memória das guerras mundiais com a identidade e os ideais do povo sardo.

O texto principal está escrito em letras cursivas vermelhas no canto inferior esquerdo, abaixo da figura de um soldado na trincheira:

"non per un palmo
di lontana frontiera
abbiamo gettato al vento la nostra
giovinezza ma per un più alto
ideale di libertà e di giustizia"

Tradução para o português:
"Não por um palmo / de uma fronteira distante / jogámos ao vento a nossa / juventude, mas por um mais alto / ideal de liberdade e de justiça"

Assinatura e data: Logo após o texto, lê-se "E. Lussu 24-5-1924", indicando que a frase é uma citação de Emilio Lussu proferida ou escrita nessa data (exatamente nove anos após a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial).
 
Este extrato de Emilio Lussu também não foi retirado de um livro ou obra literária, mas sim de um discurso político oficial.

Trata-se de uma declaração proferida por ele na Câmara dos Deputados (o Parlamento italiano), numa sessão em que discursava para homenagear os soldados caídos e os veteranos da Brigata Sassari (a brigada composta quase inteiramente por sardos durante a Primeira Guerra Mundial).

O Contexto do Discurso: Lussu, que foi um dos oficiais mais condecorados dessa brigada e mais tarde tornou-se um feroz opositor do regime fascista, usou a tribuna do Parlamento para deixar claro que os jovens da Sardenha que morreram nas trincheiras não se sacrificaram por ambições expansionistas ou disputas territoriais do governo de Roma ("um palmo de fronteira distante"). O sacrifício deles, na visão de Lussu, tinha o propósito maior de alcançar a emancipação, a liberdade e a justiça social para as suas próprias comunidades.

A Data: Embora no mural se leia a data modificada de 24 de maio de 1924, o discurso original remete ao início dos anos 1920, no conturbado período pós-guerra em que Lussu ajudou a fundar o Partido Sardo de Ação (Partito Sardo d'Azione) para defender os direitos dos camponeses e pastores da ilha.» (Google Gemini)

Jaime Nogueira Pinto - Uma topografia do Além: a Commedia, em tempo de Natal

 Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

* Jaime Nogueira Pinto

27 dez. 2025, 00:18

Na infância, muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados, suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade, mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia, crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré.  Uma das mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.

E começa pelo Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por 200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.

Dante estava metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de Natal de 1294.

Dante, guelfo branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre, Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada de recuperar as graças dos Médici.

Mas Maquiavel, depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram para sempre e que sublimou em poesia.

Neste tempo, em Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.

Voltando a Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria, passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio. Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301, Corso Donati, um guelfo negro  que se encarregou da purga, do saque e das decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).

Dante estava em Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de confisco.

Na amargura do exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona, Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.

O poeta da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio, arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII, chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no Sétimo Círculo, por sodomia.

No Inferno dantesco, o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.  De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles, Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).

Os restantes círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo  para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição, para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.

Em toda a expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que veio depois dele morrer, em 19 AC.

No último círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três cabeças que agita as asas num vazio gélido.

Os Terraços do Purgatório

Se o Inferno se estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência; contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.

As personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC), Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de polémica vituperativo jocosa  (por sinal bastante ousada, já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente, a mulher).

O Purgatório contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar. No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as orações dos vivos, para atingirem a redenção.

Mas há também alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora, insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os gregos conquistaram Troia.

Ulisses fora pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo publicado no New Yorker de 1 de Dezembro:  como é que Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É um lugar extremamente desagradável e para  muitos  de nós Ulisses é um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini, Paolo e Francesca).

A explicação da condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena equipagem, passando as “colunas de Hércules”.

O Voo Louco de Ulisses

Assim, Dante altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses foi virtuoso ou fraudulento.

Na Comédia, Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …

Com Beatriz no Paraíso

Ulisses perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira instância da sua viagem pelo Além.

O Paraíso dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus, céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati (as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos, absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.

Tal como o Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).

Há dúvidas sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a  1302. Pensa-se que o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313 ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona desde 1311-1312.

A viagem ao Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril de 1300 e o dia 14 do mesmo mês.  Dante passou dois dias no Inferno, três no Purgatório e 24 horas no Céu.

A breve passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços, o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a Deus-Pai.

Dante tem, nas várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador, Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte, estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por Conrado III.

Na conversa com o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e um viajante privilegiado pelas rotas do Além.

Dante e a Igreja

Além de Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo da Commedia.

No entanto, a Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.

Foi Leão XIII, o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que, confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja.  E no século XX, os seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.

Assim o fez Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia. exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI, na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:

“Relendo a sua vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida”.

Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

Um Santo Natal.

https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/

Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

04 jun. 2026, 00:24

* Jaime Nogueira Pinto

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional.  Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição. 

https://observador.pt/opiniao/o-fascismo-nunca-existiu/

Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século

Jaime Nogueira Pinto

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

28 mai. 2026

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika” Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50 – não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

https://observador.pt/opiniao/o-28-de-maio-de-ha-um-seculo/

terça-feira, 2 de junho de 2026

Bruno Carvalho - A rapaziada de vermelho




*  Bruno Carvalho

Amanhã, quando ouvires falar mal da rapaziada de vermelho, lembra-te que estão na linha da frente para defender os teus direitos e os dos teus filhos. Lembra-te que és tu, todos nós, que fazemos o país funcionar. 

Apartir desta noite, milhares de mulheres e homens vestidos com coletes vermelhos da CGTP vão estar à porta dos seus locais de trabalho. Não vão apenas perder um dia de salário como todos os grevistas. Vão passar uma noite em branco para esclarecer ainda mais trabalhadores a aderir à greve geral e vão denunciar qualquer ilegalidade cometida pelos patrões. Provavelmente, sem cometerem qualquer crime, alguns serão arrastados, agredidos ou detidos pela polícia a mando daqueles que vivem à custa do suor do nosso trabalho. 

E eis aqui o facto ineludível: se as greves não servissem para nada, não se esforçariam tanto para que não acontecessem, se os sindicatos fossem inúteis, não tratariam de impedir a sua actividade. Através da chantagem e da ameaça, os patrões procuram amedrontar os trabalhadores. Quando não conseguem, chamam a polícia. Por muito que se tape o sol com a peneira, hoje como há um século, vivemos numa permanente guerra de classes. 

Se te portares bem, no fim do ano, eles dão-te uma palmada nas costas e tu dás-lhes uma casa de férias ou um novo Tesla. Luís Montenegro não governa para ti. Governa para eles. É um empregado dos grandes grupos económicos e financeiros. Por isso, amanhã, quando ouvires falar mal da rapaziada de vermelho, lembra-te que estão na linha da frente para defender os teus direitos e os dos teus filhos. Lembra-te que és tu, todos nós, que fazemos o país funcionar. 

Quando o fogo destrói as nossas aldeias, quando a tempestade derruba as nossas casas ou quando os rios arrastam tudo, eles nada fazem. Às vezes parece que nos esquecemos que estamos entregues a nós próprios. À nossa classe. E somos bem mais do que eles. 

«E por mais que nos custe, por mais dor que possa causar, fazer greve é um dever de todo o trabalhador. Outros morreram a fazê-la quando amavam a vida tanto ou mais do que tu, quando precisavam do salário tanto ou mais do que tu, num tempo de fome e miséria.»

A cada madrugada, enchemos autocarros, comboios e metros, apinhados como gado, para encher os bolsos do patrão por uma recompensa miserável. Aumenta a renda, aumenta a conta do gás, aumenta o preço das compras do supermercado, aumenta o combustível, aumenta tudo menos os nossos salários.

Se o Governo quer agora, através do pacote laboral, limitar o direito à greve e a intervenção dos sindicatos nos locais de trabalho, o nosso dever é estar na linha da frente. Com coragem. Por isso, a partir desta noite devemos apoiar os nossos, a rapaziada de vermelho. Ou vestir-nos também de vermelho e engrossar os piquetes como a mais bonita das muralhas humanas.

Quando algum dos nossos os insultar ou disser que não querem é trabalhar, lembra-o que quem não quer trabalhar é o patrão. E por mais que nos custe, por mais dor que possa causar, fazer greve é um dever de todo o trabalhador. Outros morreram a fazê-la quando amavam a vida tanto ou mais do que tu, quando precisavam do salário tanto ou mais do que tu, num tempo de fome e miséria.

Provavelmente, os teus pais ou os teus avós eram operários. Talvez elas fossem costureiras e eles sapateiros, talvez trabalhadores agrícolas, quem sabe operárias numa fábrica de conservas ou metalúrgicos. Muitos deles fizeram greve para conquistar alguns dos direitos que temos hoje e que nos querem tirar. A luta de classes é um continuum histórico de avanços e recuos. Porque eles foram, nós somos. E porque nós somos, outros serão.

Viva a greve geral!
Morte ao Pacote Laboral!

2026-06-02

https://abrilabril.pt/trabalho/rapaziada-de-vermelho?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ary dos Santos - A Bandeira Comunista


A Bandeira Comunista

A folha manuscrita aqui reproduzida é a única existente do original de A Bandeira Comunista de José Carlos Ary dos Santos.

Um dos mais conhecidos poemas de Ary e seguramente dos mais queridos dos militantes do PCP, A Bandeira foi escrito em condições que merecem ser recordadas.

Na segunda-feira, 11 de Agosto de 1975 o Centro de Trabalho do PCP em Braga foi destruído e incendiado após um ataque comandado por um grupo operacional do ELP, como mais tarde veio a ser revelado por numerosas investigações e directamente reconhecido por alguns dos membros do comando directamente envolvidos.

O «Avante!» enviara no fim de semana anterior para Braga um seu colaborador fotógrafo, uma vez que corriam insistentes boatos de incidentes em Braga na segunda-feira por (como sucedeu em diversos outros actos terroristas) ser dia de feira. Tendo resolvido pernoitar no Porto, o repórter chegou a Braga a meio da manhã verificando então que os provocadores haviam já desencadeado as agressões e que o Centro de Trabalho (onde se encontravam numerosos militantes) estava já cercado.

Apedrejamentos e tentativas de fogo posto sucederam-se ao longo do dia, tendo – de forma equívoca nunca inteiramente esclarecida – os defensores do Centro acabado por ser retirados por uma força militar que deixou o edifício entregue aos fascistas que completamente o destruíram e incendiaram.

Tomado pelos provocadores como um repórter que lhes era favorável, o fotógrafo do «Avante!» pôde assim obter ao longo do dia as mais extraordinárias imagens da violência fascista à solta, muitas das quais foram publicadas na edição seguinte do «Avante!», a 14 de Agosto.

Para essa mesma quinta-feira, a Direcção da Organização Regional de Lisboa convocara para o hoje Pavilhão Carlos Lopes um comício de solidariedade com os camaradas das organizações atingidas pelo terrorismo e de exigência de medidas de salvaguarda da ordem democrática.

Na redacção do «Avante!» decidimos montar num dos átrios do Pavilhão uma exposição com ampliações das fotos de Braga, de que só uma pequena parte havia sido publicada no jornal. Feitas as ampliações, colocou-se o problema das legendas – que acabou a ser um duplo problema...

A questão era que as imagens tinham uma força tal que qualquer palavra, qualquer frase parecia estar ali a mais. Contudo...

Lembrámo-nos então, telefonou-se ao Zé Carlos para a Espiral, agência de publicidade onde trabalhava, e dissemos-lhe do problema: «Não serias capaz de fazer aí qualquer coisa, uns versos com força, isto não há legendas que resolvam isto...». «Esperem lá um bocado que eu já ligo.»

Meia hora depois o telefone tocava e ouvia-se o vozeirão do outro lado: «Então vejam lá se esta coisa serve.»

Era A Bandeira Comunista. Copiada ao telefone, dactilografada e ampliada, iniciou nessa noite de luta um caminho que não findou jamais.

A bandeira comunista

Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

https://www.pcp.pt/actpol/temas/f-avante/festa2003/bandeira-comunista.htm

90 anos de Ary dos Santos «Poeta da Revolução



Ary dos Santos | "As Portas que Abril Abriu" (1975)


Nota do Gabinete de Imprensa do PCP

27 Maio 2026

O Partido Comunista Português evoca, sob o lema “Poeta da Revolução”, os 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos, nascido a 7 de Dezembro de 1936 em Lisboa.

Poeta da Revolução, Ary dos Santos colocou o seu imenso talento ao serviço dos ideais de justiça, liberdade e progresso social que sempre nortearam a sua criação artística e a sua intervenção política. 

Os seus poemas, traduzindo uma notável criatividade e sensibilidade humanas, acompanharam o caminho e a história da resistência ao fascismo e da Revolução de Abril, de que ele é, incontestavelmente, poeta. 

Ary dos Santos começou a escrever poesia muito novo e em 1953, com apenas 14 anos, é publicado pela família, contra a sua vontade, o seu primeiro livro Asas.

Em 1954 é reconhecida a qualidade da sua escrita com a escolha de alguns dos seus poemas para a Antologia do Prémio Almeida Garret.

Da sua vasta obra publicada constam títulos como A Liturgia do Sangue (1963), Tempo da Lenda das Amendoeiras (1964), Adereços, Endereços (1965), Insofrimento in sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1970), Resumo (1972), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1978), 20 Anos de Poesia (1983) e VIII Sonetos (1984). 

A par da criação literária, desde 1958 trabalhou na área da publicidade onde se destacou pela criatividade nos slogans publicitários. 

Foi um dos grandes declamadores do século XX da sua própria obra e da de outros autores portugueses, como Luís de Camões (com Eunice Muñoz), com uma discografia que inclui Ary por si próprio (1970), Cantigas de Amigos (com Natália Correia e Amália Rodrigues), Bandeira Comunista (1977), Ary por Ary (1979) e Ary 80 (1980).

Ary dos Santos contribuiu ainda decisivamente para a inovação da canção e da música ligeira com a escrita de mais de 600 poemas, de onde constam A Desfolhada, Tourada, Cavalo à Solta, Menina, entre tantas outras que ganharam vida na voz de nomes incontornáveis da música portuguesa como Carlos Mendes, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira ou Tonicha. 

Teve importante ligação ao Fado. Escreveu para grandes nomes da história do fado, nomeadamente, entre outros, Amália Rodrigues (Meu amor, meu amor; Alfama), Beatriz da Conceição (Meu Corpo), Carlos do Carmo (Um homem na Cidade; O homem das castanhas; Os putos), José Manuel Osório (Desespero; Fado do Miradouro) ou Maria Armanda (Mãe solteira; Fado mulher).

A vigorosa actividade e o rasgo criativo e a profundidade política do gesto criador em Ary são inseparáveis. Para a história ficou o episódio da criação de A Bandeira Comunista, esboçada e ditada ao telefone, em Agosto de 1975, para o comício de solidariedade com as organizações atacadas pelos movimentos contrarevolucionários. Este episódio, um dos muitos e que pontuaram a vida do poeta e militante do PCP desde 1969, ilustra o lugar que ocupou a unidade indissolúvel entre a criação e a luta política na sua obra.

Um imponente e intemporal património artístico que, sem abdicar da singularidade das circunstâncias da sua redacção, se tornou parte irrenunciável do nosso legado cultural e de luta. Os seus poemas são uma parte grande do património colectivo do povo e dos comunistas portugueses. Dizê-los e cantá-los, hoje, significa prosseguir esse combate pelos ideais e conquistas de Abril.

O Partido Comunista Português, o seu Partido, comemorará os 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos com um programa de iniciativas a decorrer até Maio de 2027, que será apresentado no dia 2 de Julho, em Alfama, e do qual se destaca a presença na 50.ª edição da Festa do Avante, a realização de uma exposição, novas edições da sua obra, um concerto em Lisboa, abordagens temáticas da sua vida e obra.

O PCP vai comemorar os 90 anos de José Carlos Ary dos Santos, sublinhando o intelectual destacado, o militante de convicções inabaláveis, a qualidade e a actualidade da sua obra poética de grande sensibilidade humana, a superior apreensão da vivência do mundo envolvente, a intensidade política e identificação profunda com os anseios e as aspirações dos trabalhadores e do povo.

https://www.pcp.pt/90-anos-de-ary-dos-santos-poeta-da-revolucao

Carlos Coutinho - [Crianças e pobreza em Portugal]

* Carlos Coutinho
 
 ·
       São largas as dezenas de pessoas atreitas ao ato de virar a casaca – humaníssimos casos de cidadãos que ou conheço ou conheci – já que é determinante a terrível opção de, perante o futuro implacável, apodrecerem ou morrerem se perderam o emprego. 

   Olho para uma imagem inapagável na nossa consciência e no rasto da Humanidade, a do bombardeamento de Guernica, e confirmo que tudo foi deformado, não sei se para sempre. 

   Colho o grito desdentado e humaníssimo do cavalo, o olho deslocado do touro manso com uma lâmina preta a brotar-lhe da sobrancelha, o silenciado brado das crianças e dos adultos, as gradações do negro e a fragmentação da luz, assim como percebo o enigma que Picasso incrustou em cada traço, em cada dedo, em cada perna, em cada fisionomia sugerida, em cada fé, em cada religião, já que uma abarca todas as trevas da ancestralidade e a outra corporiza os complexos rios metafísicos que transformam superstições em religiões.

   Então, não há absurdos que não sejam lógicos, dislates que não sejam teoremas, nem notícias tão dolentes como, por exemplo, a de uma em cada 20 crianças portuguesas já haver sentido fome e ficado sem comer, só porque acabou o dinheiro lá em casa.

   Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da responsabilidade da economista Susana Peralta, académica da Nova School of Business & Economics (Nova SBE), que cita o Instituto Nacional de Estatística (INE), uma em cada 20 crianças, em 2024, não comeu, por falta de recursos financeiros do seu agregado familiar. 

   Em percentagem, esta fatia representa quase 5% do grupo das mais de 301 000 crianças pobres que existem em Portugal, o que remete o meu pensamento para Guernica, dado que, mesmo que fosse apenas 1% eram mais de 3 000 crianças a passar fome.

   Trocando por miúdos este tipo de privação, que tem tradução prática e quotidiana, o INE considera que metade das crianças pobres (49,7%) não tinha meios para participar, por exemplo, numa atividade extracurricular ou de lazer, de forma regular, o que traduz outra forma de pobreza. E isto, quando vemos o que se passa na Saúde, na Educação, na Habitação e nas necessidades básicas dos portugueses, com o País a participar em guerras e o Governo a investir no armamento.

2026 Junho 01

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

domingo, 31 de maio de 2026

Fabrizio De André - "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro")




O poema parcialmente transcrito no mural de Fabrizio De André, em Orsolo, na Sardenha, chama-se "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro").

Como referi, esta obra foi escrita por De André em 1967 para homenagear o seu grande amigo e cantautor Luigi Tenco. Trata-se de uma das letras mais profundas da música italiana, escrita na perspetiva de Alguém que reza a Deus para que acolha no Paraíso aqueles que o dogma religioso da época condenava (os suicidas e os marginalizados).


Aqui tem o texto completo do poema/canção na sua língua original (italiano):

Preghiera in gennaio

Lascia che sia fiorito il tuo lungo viaggio prima di accettare il grande dono l'ultimo regalo del gregge di vedere l'alba che si leva a un nuovo mattino di ascoltare il vento che sussurra tra le foglie del bosco.

Quando attraverserai l'ultimo vecchio ponte lascia che i tuoi occhi si abituino al buio e che le tue orecchie sentano la musica che la terra canta a chi ritorna a lei.

Lascia che i tuoi passi siano leggeri sulla terra bagnata e che la tua anima voli via libera come un uccello che ha ritrovato il suo nido.

Dio di misericordia il tuo bel paradiso lo hai fatto soprattutto per chi non ha sorriso per quelli che han vissuto con la coscienza pura l'inferno esiste solo per chi ne ha paura.

Traditori della vita, di voi non mi importa avete sputato sulla terra che vi ha nutrito avete venduto il vostro fratello per un pezzo di pane e ora piangete sul suo corpo che avete ucciso.

Ma per lui, per il mio amico che ha scelto il silenzio io chiedo una carezza sul suo viso stanco io chiedo un posto dove possa riposare lontano dal vostro rumore, lontano dal vostro fango.

Dio di misericordia il tuo bel paradiso lo hai fatto soprattutto per chi non ha sorriso.

Tradução para Português

Para que possa acompanhar o sentido completo do poema, aqui está a tradução integral:

Oração em Janeiro

Deixa que seja florida a tua longa viagem antes de aceitares o grande dom, a última dádiva do rebanho: ver a alvorada que desponta numa nova manhã, escutar o vento que sussurra por entre as folhas do bosque.

Quando atravessares a última e velha ponte, deixa que os teus olhos se habituem à escuridão e que os teus ouvidos sintam a música que a terra canta a quem a ela regressa.

Deixa que os teus passos sejam leves sobre a terra molhada e que a tua alma voe livre, como uma ave que reencontrou o seu ninho.

Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu, para aqueles que viveram com a consciência pura; o inferno existe apenas perante quem tem medo dele.

Traidores da vida, de vós não quero saber, cuspistes sobre a terra que vos alimentou, vendestes o vosso irmão por um pedaço de pão e agora chorais sobre o corpo que matastes.

Mas para ele, para o meu amigo que escolheu o silêncio, eu peço uma carícia no seu rosto cansado, eu peço um lugar onde ele possa repousar, longe do vosso ruído, longe do vosso lamaçal.

Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu. (Google Gemini)

Francisca Napolitano - [Palestina livre]

* Francisca Napolitano 

"Não se pode continuar na indiferença. O fascismo só tem um nome ,  fascismo .O capital sionista e os oligarcas do império não podem tudo. 

Amputar um braço ou uma perna de uma criança palestina não é um "dano colateral". Massacrar pessoas inocentes em Khan Younis ou Beit Jala não é uma "resposta ao Hamas". Um jornalista ou um médico não é um "militante disfarçado". Uma ocupação-anexação — e a expulsão de centenas de milhares de habitantes de Gaza, e agora de um milhão de libaneses, de suas casas — não é a criação de uma "zona tampão , mas sim um crime de guerra punível pelo direito internacional.

No Ocidente as palavras formais de condenação dos hipócritas objectivamente coniventes equivalem a um cheque em branco emitido para a injustiça, o sofrimento, a destruição e o indizível!

O ministro fascista que, há apenas algumas semanas, invadiu a cela de Marwan Barghouti para cuspir no seu rosto — e para mandar espancá-lo e atacá-lo com cães — não é meramente um provocador... Ele é uma engrenagem central na maquinaria colonialista e genocida israelita atualmente em ação na Palestina violentamente ocupada.

Juntamente com seus patronos trumpistas em Washington, eles são os agentes brutais de um projeto para subjugar os povos da região a um capitalismo predatório e extrativista — um projeto que visa construir um "Grande Oriente Médio" o grande Israel , no qual o poder israelita serviria como guardião para os senhores da Casa Branca.

Nestas circunstâncias, a honra não reside em governos que fecham os olhos ou em ministros que chamam diplomatas para a comunicação  social noticiar

.Pelo contrário, ela  encontra se nas ações dos ativistas das "Flotilhas ",  nas manifestações e marchas organizadas por associações que apoiam a causa palestina — nas inscrições  murais, lutas respaldadas por deputados e por forças democráticas e progressistas comprometidas com a defesa da lei, da democracia ,do direito internacional. Dos direitos humanos. Do direito à vida do povo palestiniano. Da luta pelos direitos pelos salários , que se deve expressar numa grande greve geral, pois o êxito da luta dos trabalhadores portugueses é também o êxito da luta dos povos oprimidos."

31 Maio 2026

https://www.facebook.com/ 

Margarida Davim - Os ricos também choram

 


 Opinião Tudo é política

* Margarida Davim

No lobby da festa apareceram pequenas garrafinhas, daquelas que costumam ser usadas para servir bebidas, cheias de urina, com a cabeça calva de Bezos no rótulo, numa alusão às regras da Amazon que tornam um inferno uma simples ida à casa de banho durante um turno. Junto à passadeira vermelha, os manifestantes gritaram uma frase que resume bem o momento em que as descidas de impostos aos mais ricos se traduzem diretamente na falta de cuidados a todos os outros. “We need healthcare, not a another billionaire.”

Os vestidos de caudas impossíveis, os corpetes ao estilo de armaduras, as maquilhagens exageradas e os cabelos meticulosamente penteados ficaram subitamente expostos ao seu ridículo vazio. Era possível vê-lo nas caras dos convidados, que tentavam fugir rapidamente ao protesto que se desenrolava à porta. “Devias ter vergonha, Jeff Bezos”, lançava, com uma dignidade atordoante, uma mulher negra de 72 anos, que continua a ter de trabalhar num armazém da Amazon para viver, apesar da idade avançada. “Nós merecemos essa festa, nós merecemos muito mais do que recebemos”, avisava Mary Hill, projetada no arranha-céus, sem medo de ameaçar um dos senhores do mundo. “Há força nos números e há muitos mais de nós do que de vocês, bilionários.” Na rua, as pessoas comuns passavam e olhavam com um sorriso de admiração para aquela mulher franzina que subitamente tinha alcançado o tamanho de um gigante e, com a sua força, reduzia o multimilionário à sua imensa fragilidade de homem sozinho, capaz de ser esmagado pelos mesmos que oprime e explora.

O protesto não mudou o mundo. Um protesto sozinho nunca muda nada. Mas alguma coisa tremeu. E a prova disso chegou, pouco depois, quando o milionário CEO da empresa americana Vornado, Steven Roth, mostrou o quão temida e poderosa é esta mensagem ao comparar o slogan “tax the rich” a – imagine-se – um “discurso de ódio”. Roth teve a infelicidade de denunciar este ódio de classe na mesma semana em que saiu nos Estados Unidos um estudo que mostra que cerca de metade dos americanos não ganha, trabalhando, o suficiente para viver. “Os ricos”, disse ele ao New York Times, “são o epíteto do sonho americano. Estão no topo da pirâmide económica americana por uma razão. Deviam ser louvados e alvo de gratidão”, defendeu o milionário, para quem a simples ideia de que a sua riqueza deve ser taxada é semelhante a uma “tirada racista”.

A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce. A última década foi a era da pornografia da riqueza. Os média e as redes sociais encheram-se de imagens a que chamaram “aspiracionais”, ao mesmo tempo que as marcas de luxo encontravam formas de vender produtos aos menos abonados para que de alguma maneira eles se sentissem parte de um clube no qual nunca iriam verdadeiramente entrar. Os restaurantes passaram a ser gourmet. Os hotéis transformaram-se em boutiques. E uma massa de gente da classe trabalhadora ganhou assim a ilusão de estar mais perto de ser rica.

Esse é o truque. Que penses que és rico porque compraste um Tesla ou um BMW, porque foste de férias para um resort qualquer, porque podes dar-te ao luxo de ir aos restaurantes da moda, porque tens um salário de diretor, seguro de saúde e regalias. Isso não é ser rico. Parece que é, sobretudo quando há tanta gente que mal chega ao final do mês, tanta gente a adiar consultas médicas porque não pode pagá-las, tanta gente sem ter como pagar uma casa. Mas este truque é tão bem feito que até esses, tantas vezes muito perto de serem pobres, se sentem quase ricos, porque esgotaram as poupanças num iPhone ou andaram a amealhar o ano inteiro para uma semana em regime de “tudo incluído”.

E esse truque é importante precisamente por aquilo que nos disse Mary Hill, a trabalhadora que arrasta a sua velhice num armazém da Amazon para viver. “Porque há força nos números.” Porque há milhões e milhões de trabalhadores e apenas 12 pessoas que concentram mais de metade da riqueza da Humanidade. Repitam comigo: 12 pessoas. E pensem sobre isso de cada vez que acharem que são ricos ou que um dia vão ser ricos. Porque essa ideia é o que vos tem empobrecido. É graças a essa ideia que todos os dias perdemos direitos no trabalho, na saúde, na educação, na habitação. É essa ideia que permite que mais de metade da riqueza do mundo esteja nas mãos de uma dúzia.

O algoritmo do Instagram começou a mostrar-me memes sobre como os níveis de desigualdade regressaram a um ponto só comparável com o período antes da Revolução Francesa. Lembram-se da Revolução Francesa da “igualdade, liberdade, fraternidade” e das guilhotinas? O tal CEO americano deve ter-se lembrado e, por isso, tremeu. E por isso acusou de racismo quem só pede um mundo um pouco mais justo, quem só pede que haja uma maior distribuição da riqueza que existe e é criada todos os dias por quem trabalha. Quando pela primeira vez em décadas alguém aparece e os desafia de frente, a primeira reação é gritar “crime de ódio”, sem se lembrarem das vezes que escarneceram os “wokes” que lutavam contra a discriminação de minorias. Afinal, não existe minoria mais minoritária do que a dos milionários.

Na TVI, passa agora uma telenovela com o título Os Ricos Também Choram. É uma versão de um drama mexicano que se estreou em 1979, precisamente quando começou no mundo a onda que há mais de 40 anos tenta desmantelar as políticas públicas de redistribuição da riqueza. O título é comovente. Mas talvez o “também” esteja a mais. Afinal, humanos são só aqueles que ascendem ao topo da pirâmide. Louvemos o seu mérito e estejamos gratos pela sua existência. 

22.05.2026  

https://visao.pt/opiniao/tudo-e-politica/2026-05-22-os-ricos-tambem-choram-cronica-de-margarida-davim/

Ana Sá Lopes entrevista Carmen Garcia: “Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos”

 Entrevista Podcast O que fazer quando tudo arde

Conversa com a enfermeira e colunista do PÚBLICO Carmen Garcia sobre envelhecimento e de como a sociedade trata os mais velhos: “Em Portugal, a entrada no lar é sinónimo da saída da sociedade”.

* Ana Sá Lopes

31 de Maio de 2026

Contrariando os seus pseudónimos “mãe imperfeita” e “enfermeira imperfeita”, Carmen Garcia, colunista do PÚBLICO, é perfeita a falar daquilo a que tem dedicado a sua vida: cuidar de idosos. No seu sotaque doce e alentejano, diz tudo o que está errado nesta sociedade idadista, em que “todos queremos chegar a velhos, mas [em que] ninguém quer ser velho”. E aponta a patologia de uma sociedade animalizada, em que a vida de um humano perdeu o valor face à vida de um animal.

O que é que hoje suscita mais compaixão à maioria das pessoas? Um idoso abandonado num lar ou um cão abandonado num canil?

Um cão abandonado num canil. O cão, obviamente. Ainda bem que temos leis que protegem os animais, mas ainda mal que não temos leis que protegem os mais velhos, porque na verdade não temos. Temos agora um estatuto, mas eu olho para esse estatuto quase como um apanhado de boas vontades. O estatuto, por enquanto, ainda é só uma ideia. Mas entre um velho e um cão eu não tenho nenhuma dúvida que a esmagadora maioria das pessoas escolhe o cão.

Há uma desumanização em curso.

Há uma desumanização em curso e uma animalização. Acho que estamos já um bocadinho dentro do campo da patologia. Há aqui uma parte em que acho que isto já não é normal, nem saudável. Tenho uma gata que adoro. Mas a minha gata não é a minha filha — é a minha gata. Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos.

Há pouco tempo, numa discussão com uma colega, ela dizia que se houvesse um incêndio, não tinha dúvidas nenhumas, que entre uma pessoa que ela não conhecia de lado nenhum e o cão dela, ia tirar de lá o cão. Sou incapaz de compreender isto. Quer dizer, eu teria muita pena se acontecesse uma coisa destas à minha gata, mas, bolas, primeiro iria sempre tirar a pessoa.

Agora, isto piora muito se a pessoa, ainda por cima, for uma pessoa mais velha. Há uns anos, houve na minha cidade, Vendas Novas, no mesmo dia, à porta dos supermercados, duas campanhas. Uma era para angariar comida para os animais lá do canil e a outra tinha a ver com uma iniciativa para ajudar a população mais idosa. Foi uma coisa esmagadora, a diferença de adesão entre as duas coisas. A velhice não é sexy. A velhice é uma coisa que a gente arruma na gaveta, naquela gaveta que está fechadinha ao lado da nossa própria mortalidade.

Nós todos queremos viver muito e todos queremos chegar a velhos, mas ninguém quer ser velho. Vivemos presos nesta dualidade — queremos muito chegar lá, mas não queremos ser. Eu não sei se as pessoas ficam assustadas quando são confrontadas com a velhice dos outros, porque aquilo obriga-as a abrir a gaveta e a pensarem na sua.

Não somos uma sociedade que goste de velhos, e isso é notório para quem trabalha com estas pessoas todos os dias. E são pessoas que não têm voz. Apesar de tudo, os jovens têm alguma voz; apesar de tudo, enfim, alguns reformados que não sejam muito velhos também…

Os idosos que estão em lares não têm voz nenhuma. Até porque em Portugal a entrada no lar é quase sempre sinónimo da saída da sociedade. Eu às vezes tenho a sensação de que as portas dos lares de idosos só têm um sentido, que é o sentido da entrada.

A Carmen defende que os idosos devem ser cuidados em casa o máximo de tempo possível. Porque é que o Estado não coloca isto como prioridade?

Não percebo. Há idosos que objectivamente não podem ficar em casa. Mas a maioria dos idosos em Portugal, cerca de 96%, quando questionados, dizem querer envelhecer na sua casa, na sua rede de vizinhança. É o “aging in place”. Há sempre aqui dois ministérios ao barulho, esse é outro problema, o Ministério da Segurança Social e o Ministério da Saúde. Nós vivemos muitos anos, mas não vivemos assim com tanta saúde. Portanto, começa a ser impossível dissociar o que é segurança social do que é saúde.

Estas coisas têm de caminhar juntas. Só que eu acho que há um problema nestes ministérios; que estas pessoas, no fundo, gostavam mesmo era de trabalhar na IKEA. Gostavam, porque eles gostam mesmo é de gerir camas. Gerir camas, gerir camas, camas, camas. Se as camas fossem um problema real, não é?

Acha que o Governo prefere gerir camas?

Tenho de acreditar nisso, porque nós estamos todos os dias a ouvir: “Há não sei quantos internamentos sociais nos hospitais portugueses que custam não sei quantos milhões por ano ao SNS.” E depois a solução é sempre: “Vamos tirá-los deste internamento para outro.” Vamos abrir mais camas em lares, vamos abrir residências assistidas, vamos criar vagas daqui e dali.

Camas, camas, camas. Em vez de pensarmos “o que é que eu posso fazer para que estas pessoas possam voltar para a sua casa”, que foi o sítio de onde elas vieram?

Por exemplo, esta ideia de pagarmos 1800 euros por cama às instituições. Se calhar, se pegarmos nesses 1800 euros e os entregarmos às famílias, muitas delas conseguem parar de trabalhar, por exemplo. Porque também é esse o problema, não é? Infelizmente, em Portugal temos um longo histórico de não confiar nas famílias. Portanto, a gente prefere entregar o dinheiro às instituições.

Até daria para pagar a um cuidador privado.

Isso é a outra solução que eu defendo, que é um bocado intermédia — a criação dos vouchers. Ou seja, os vouchers poderem ser usados, esses 1800 euros não serem entregues em dinheiro, mas poderem ser descontados em serviços que tivessem sido aprovados previamente, por exemplo, de apoio domiciliário. Um cuidador diurno no horário de trabalho, uma cama articulada, um colchão antiescaras, serviços de reabilitação, de fisioterapia… Portanto, haver um conjunto de serviços previamente aprovados. E, se calhar, não precisavam de ser esses 1800 euros. Se calhar, se o Estado entregasse às famílias 1000, 1500 euros, já ficava a poupar e as pessoas voltavam para o sítio onde elas querem estar e onde deveriam estar, que é a sua casa.

Se calhar, não resolvíamos 100% dos casos, mas resolveríamos muito mais de 50%, seguramente. Mas a gente gosta mais de camas, de criar vagas. Camas, vagas, camas, vagas. É terrível. IKEA, a mentalidade IKEA.

Se a Carmen tivesse poder executivo, quais seriam as suas três primeiras prioridades?
A primeira era a promoção do Aging in Place. Não criava mais comissões. Ouvia quem está no terreno. A minha primeira medida era: criar aqui uma política nacional a sério de promoção do envelhecimento em casa, reforço daquilo que é o serviço de apoio domiciliário. E reforçar a dotação financeira, reforçar estas equipas, obrigar a que estas equipas tenham muito mais valências e garantir uma rede de teleassistência. Trabalho numa coisa dessas, não quero falar em causa própria.

Mas eu quero. Sei que está envolvida num projecto de Inteligência Artificial. Explique como é que a IA se pode adaptar ao cuidado de pessoas mais velhas.

Vou dizer o que é que nós fazemos no Alice, que é um acrónimo: Aging Longer Intelligent Care Environment. Por exemplo, a pessoa usa um relógio que é feito cá em Portugal, foi desenhado por nós. As funcionalidades foram desenhadas por mim. Aquele relógio, por exemplo, avisa a pessoa de que ela já está há muito tempo sem beber água. Avisa cada vez que a pessoa tem medicação para tomar. E a Inteligência Artificial aprende com os dados.

A pessoa anda com um sensor deste tipo, e aquilo, ao fim de duas semanas, já percebeu qual é o padrão de mobilidade da pessoa.

A pessoa tem um movimento qualquer que é incompatível com esse padrão. Ele dá alarme de uma queda. Sempre que a pessoa autoriza, nós damos o local onde a pessoa está e mais quatro coordenadas para trás.

Isto permite-nos o quê? Não só perceber onde é que a pessoa está, mas o trajecto que ela está a fazer. Há um tempo tivemos, por exemplo, um senhor que fugiu do sítio onde estava —​ ele não fugiu, tinha o portão aberto e saiu, na verdade. Era um senhor já demente. E percebeu-se logo, pelo movimento, que ele estava a ir em direcção ao monte onde tinha nascido e onde não vivia há 60 e tal anos.

O nosso call center tem enfermeiros 24 horas. Há um ponto em que a Inteligência Artificial não substitui o humano. Mas o interessante da Inteligência Artificial é isto: ela consegue ir aprendendo com a pessoa, vai-se alimentando dos dados e vai percebendo, acaba por ser muito mais seguro e muito mais personalizado.

Nós sabemos que aquela pessoa é alguém com um grande padrão de mobilidade. De repente, o relógio percebe que aquele padrão do dia não é bem igual.

A gente recebe um alarme, a enfermeira liga. Mas ainda assim tivemos de criar uma coisa chamada SOS Solidão, que tem imensa utilização, eu não esperava que tivesse tanta. Lá está, a tecnologia é muito importante e é uma grande ajuda, mas a parte humana conta.

Eu tornaria estes sensores obrigatórios. A gente fala de muita coisa, pensa em muita coisa e tem muito boa vontade, mas depois, na hora de avançar, criamos mais um gabinete, mais uma comissão, vamos nomear mais não sei quem, e as coisas não andam.

Portanto, se eu mandasse, as minhas três primeiras medidas eram todas direccionadas para o envelhecimento em casa, para permitirmos que as pessoas envelhecessem, as que o desejassem, com o máximo de condições possíveis na sua própria casa.

Como é que consegue fazer tanta coisa? Teve recentemente uma filha, já tem dois filhos, tem dois enteados, escreve para o PÚBLICO, trabalha, faz comida, publica livros...
Estou a escrever um agora, já devia ter acabado a semana passada.

Podemos saber o tema?

É uma história baseada numa história real. Este não fala de velhice, é baseado na história de um burlão, de um português que burlou imensas pessoas muito conhecidas, nomeadamente uma que não é muito conhecida, mas que sou eu, também caí lá. Foi uma burla pequenina, porque a burla também é proporcional à carteira de cada um. Mas vou contar essa história, sim.

Com tanta criança e tanta comida para fazer, caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequenina.

Não, não há poção mágica nenhuma, vou tentando, com a consciência de que não consigo sempre. Devia ter acabado o livro há uma semana e não está, ainda me faltam três capítulos, e depois o processo todo de voltar a ler, de edição. As coisas todas que faço são coisas que me fazem feliz. O que eu já deixei cair há muito tempo — acho que deixei cair quando nasceu o Pedro, que é o meu filho mais velho, o meu filho que é surdo —, foi aquela ideia de tentar ser perfeita.

Não me interessa já. Não me interessa se os meus filhos estão com nódoas nas camisolas, não me interessa se a minha casa… eu adorava já ter feito obras na casa… Ou seja, interessa, mas não é prioritário, não me consome, não me tira o sono. Houve muitas coisas que antes me importavam e deixaram de me importar.

E daí a “mãe imperfeita”, o blogue que criou e se tornou um sucesso. Ficou admirada com o sucesso que criou?

Quando comecei a escrever aquilo, achava que estava a escrever para a minha irmã, para a minha outra irmã e para mais três ou quatro amigas. Aquilo foi crescendo mesmo sozinho, de verdade. E percebi que havia mais gente que, tal como eu, estava farta daquelas imagens de influencer, aquelas casas onde é tudo bege, aqueles tons de terra, tudo neutro, as crianças sempre todas vestidas de igual. E depois viajam imenso; eu não sei se consigo ir de férias para Armação de Pêra e aquela gente sempre nas Maldivas e... E o que eu percebi foi que começava a haver um sentimento de identificação do género: “A nossa vida é como a tua, não é como aquelas.”

Tento aproveitar as minhas redes para falar sobre as áreas que domino: para fazer educação para a saúde; para falar sobre envelhecimento; para contrariar a falsa ciência, que é uma praga. Portanto, para combater a desinformação.

Mas a maioria do conteúdo é o dia-a-dia, e o meu dia-a-dia não tem nada de especial: não tenho uma casa muito bonita; não faço comidas daquelas que a gente tem de ir buscar amores-perfeitos e pinças, não... Mas, de alguma forma, as pessoas identificaram-se.


https://www.publico.pt/2026/05/31/sociedade/entrevista/carmen-garcia