terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Natália Correia e Marcelo de Sousa





MARCELO E AS TÁGIDES (1) (3)

Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso – ó bacanal! –
ao leito húmido das Tágides daninhas.

Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
Jogou-se ao verso o épico? Ilusões!…
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.

E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.

Outros prodígios – dizem – congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.

Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.”

O FADO DO COVEIRO (2)

Das artes mágicas campeão audaz
tira Marcelo da manga a outra faceta:
por su dama Lisboa, o Galaaz
faz à viela e ginga à lisboeta.

Calça à boca de sino de sino e cachené
ao marialva senil metendo inveja,
fidalgo edil que canta para a ralé
o faduncho finório gargareja.

Estremece Aníbal com o pardal fadista
que aquilo é treino para o último regalo:
escaqueirar o reinado cavaquista
e sobre a tumba, por fim, cantar de galo.



(1) https://observador.pt/2019/02/05/o-poema-de-natalia-correia-que-arrasou-marcelo-por-visitar-bairros-de-lata/
(2) http://folhadepoesia.blogspot.com/2013/09/o-fado-do-coveiro-natalia-correia.html
(3) https://ponteeuropa.blogspot.com/2019/02/de-como-natalia-previu-ida-de-marcelo.html

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Nuno Pacheco - Não escreveu, não disse, mas ...

* Nuno Pacheco

OPINIÃO

Não escreveu, não disse, mas teimam em atribuir-lhe a autoria. Porquê?

Circulam na Internet milhares de textos apócrifos atribuídos a autores célebres. Um triunfo da mediocridade, num crime imune a castigos.

7 de Fevereiro de 2019, 7:30

É um jogo pérfido e nem sequer é novo. Mas a Internet, que também já não é nova, deu-lhe o adubo ideal e o cenário perfeito. Já leram este lindo texto de fulano? E este poema de sicrano? E esta citação, tão bela, de beltrano? Leram? Pois não são deles. Os vivos ainda se revoltam, furiosos, quando reparam. Como Gabriel García Márquez, quando insistentemente lhe atribuíam a autoria de uma “carta de despedida” que muito circulou na net e provocou comentários emocionados e tristes. O escritor estaria a morrer, coitado, e a despedir-se do mundo. Só que o texto era tão bizarro que ele (hospitalizado nesse ano de 1999 em que surgiu tal texto, por complicações que viriam a revelar um cancro linfático que mais tarde superou, morrendo 15 anos depois, em 2014) afirmou que “mais valia morrer com um cancro linfático do que ter escrito aquilo”. Soube-se depois que o texto, intitulado La Marioneta, foi na verdade escrito mesmo para uma marioneta pelo humorista e ventríloquo mexicano Johnny Welch, para o espectáculo El Mofles.

Como foi, então, parar a pretensa autoria a García Márquez? Do mesmo modo que, às centenas ou até aos milhares, surgem na Internet textos apócrifos atribuídos a autores célebres, obrigando (quem se dá a tal trabalho) a um complicado processo de busca e confirmação, para evitar o logro. Sophia de Mello Breyner, como o PÚBLICO noticiou há dias, é uma das vítimas de tais enganos. Há um poema medíocre chamado O mar dos meus olhos que, usando palavras e imagens de outros escritos por ela, se tornou viral na rede como se fosse de Sophia. Está em portais com marca de fiabilidade e já foi traduzido para alemão. Há até um site, Nanoterapia, que o coloca à cabeça na lista dos 15 melhores poemas de Sophia!

Um desvario sem barreiras, tal como o seu hóspede sem fronteira ou limite (excepto nas ditaduras, mas essa é outra conversa), a Internet. Como se resolve isto, na era do “copia e cola”? Com sabedoria. Um leitor de García Márquez não o vê autor de La Marioneta, tal como quem leia habitualmente Sophia passará ao lado das lamechices que povoam o tal Mar onde ela jamais mergulhou. Porque há, nestes textos apócrifos, uma bitola comum: o uso do choradinho, da frase enfática, do gongorismo despropositado; quem os escreve quer atingir um alvo fácil, o gosto popular mais básico, sem lhe interessar particularmente o autor ou autora vítima da fraude. Mas se assinassem com os seus nomes, desconhecidos, quem os leria? É mais fácil assinar Sophia, Pessoa, Drummond, Neruda.

Sim, porque todos eles já “escreveram” coisas que jamais imaginaram ou viram. Andam por aí, pela Internet, com o falso “carimbo” da sua identidade. Um jornalista brasileiro, Emílio Pacheco, dedica-se a descobrir textos apócrifos. Em 2006, escreveu: “Os textos apócrifos da Internet é um dos temas recorrentes neste blog. No entanto, nunca publiquei aqui a lista de ‘falsos Quintanas’ que sempre divulgo no Orkut, tanto na comunidade ‘O verdadeiro Mário Quintana’ como em qualquer outra em que o assunto vier à baila. Como aqui não existe a limitação de tamanho de mensagem do Orkut, terei espaço para fazer mais comentários. Atenção: os textos que serão citados abaixo não são de Mário Quintana! Não importa onde você os tenha visto com a autoria atribuída ao poeta.” E vinha, a seguir, uma longa lista. Mas há mais, para citar o exemplo do Brasil. Um outro site, no capítulo “Falsas autorias”, publica uma longa lista onde se incluem textos “bastantes disseminados” erradamente atribuídos: de Bruna Lombardi atribuído a Clarice Lispector, de Artur da Távola atribuído a Carlos Drummond de Andrade, de Fernando Sabino atribuído a Fernando Pessoa, de Eduardo Alves da Costa atribuído a Maiakovski, de Martha Medeiros atribuído a Pablo Neruda ou de Helenita Scherma atribuído a Cecília Meireles. Há mais, muitos mais. E idêntico fenómeno existirá noutros idiomas.

Os mortos não podem defender-se, os vivos indignam-se (Eduardo Prado Coelho lutou, durante muito tempo, contra um texto publicado online que insistiam em atribuir-lhe). Em 2009, a Folha de São Paulo publicou um texto reflectindo reacções de repúdio de “escritores consagrados” contra textos falsos a circular na rede. Luís Fernando Veríssimo (hoje com 82 anos) recebeu até um telefonema de uma senhora a dizer-lhe que odiava tudo o que lia dele até ver, na net, “um texto que adorara”. “Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece.” Ora o tal poema “dele” era Quase, escrito por uma estudante de Florianópolis, e, segundo a Folha, chegou até a ser traduzido e publicado em França numa colectânea de escritores brasileiros.

Já o humorista Millôr Fernandes (1923-2012), à data ainda bem vivo, comentou: “É isso que pensam de mim?! Quer dizer que acham que eu escreveria uma babaquice dessas?!” O problema é mesmo esse: acham. E até ficam tristes quando percebem que não escreve tão mal. Assim vai triunfando a mediocridade, à custa de um crime imune a castigos.




terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Ricardo Reis - Prefiro rosas, meu amor, à pátria

* Ricardo Reis

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis, in "Odes"

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Victor Jara - El arado



* Victor Jara


Aprieto firme mi mano
Y hundo el arado en la tierra
Haré años que llevo en ella
¿Cómo no estar agotado?
Aprieto firme mi mano
Y hundo el arado en la tierra
Haré años que llevo en ella
¿Cómo no estar agotado?
Vuelan mariposas, cantan grillos
La piel se me pone negra
Y el sol brilla, brilla, brilla
El sudor me haré surcos
Yo hago surcos a la tierra
Sin parar
Vuelan mariposas, cantan grillos
La piel se me pone negra
Y el sol brilla, brilla, brilla
El sudor me haré surcos
Yo hago surcos a la tierra
Sin parar
Afirmo bien la esperanza
Cuando pienso en la otra estrella
Nunca es tarde me dice ella
La paloma volará
Afirmo bien la esperanza
Cuando pienso en la otra estrella
Nunca es tarde me dice ella
La paloma volará
Vuelan mariposas, cantan grillos
La piel se me pone negra
Y el sol brilla, brilla, brilla
Y en la tarde cuando vuelvo
En el cielo apareciendo
Una estrella
Nunca es tarde, me dice ella,
La paloma volará, volará, volará
Como el yugo de apretado
Tengo el puño esperanzado
Porque todo cambiará

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Adriano Miranda - A casa grande




CRÓNICA

Rodar as chaves do portão de ferro é quase penoso. Já não há vénia. Agora é lento. Pelo pó e pela ferrugem. Abre-se a custo e a medo. O que estará no pátio?

3 de Fevereiro de 2019, 8:00 

JOÃO MIRANDA
Não é fácil lá passar. Quando o sol é forte os azulejos cor de vermelho desmaiado ainda brilham. A casa até fica imponente dentro da decadência. Agora, quando o cinzento domina o céu, aqueles azulejos só me dizem tristeza. Uma tristeza angustiante. Sufocante. Evito lá passar. Já lá vão muitos anos em que não queria de lá sair. Com sol, chuva, frio ou calor, era lá que eu gostava de estar. Sentia-me bem. Feliz. Não existe melhor jeito de estar na vida que não seja amantizado com a felicidade. Que bom. Difícil, mas bom.

Sempre o mesmo ritual. Buzina aguda, dois minutos de espera, que por vezes pareciam anos. Dependia da ansiedade. E o enorme portão de ferro trabalhado dividia-se em dois. Como uma vénia. E o automóvel entrava para o grande pátio. Vinha o cão a dar ao rabo. Felicidade. Vinha o cheiro das uvas americanas. Vinha a liberdade do abraço. Aquela casa era grande. Na volumetria e no afecto. O tempo voava. Existia sempre ocupação. Coisas de adultos. Teimosos. Resilientes. E eu, que lhes dava pela cintura, estava sempre presente. Na rega do milho ou na sementeira da batata. Na apanha das pêras ou no lagar a dar à roda no esmagador. No machado a rachar lenha ou a pregar pregos no novo poleiro do galinheiro. A amassar o pão ou a tirar o galo do forno do fogão de lenha. A ver na Radiola o Tarzan ou a sonhar que um dia subiria a gigante palmeira. A ver o sábio mecânico a desmanchar o motor do carro ou a construir cidades imaginadas em pequenas peças de lego. Ouvir as gargalhadas dos adultos ou acordar em Dezembro para descobrir os presentes no sapatinho da chaminé. Era tão grande aquela casa. Tinha vida. Uma vida temperada no trabalho.

O quintal com as laranjeiras, as macieiras, as pereiras, o diospireiro, o limoeiro, as parreiras. A eira e o tanque  rega. O pátio com a adega, a casa do azeite, a casa das batatas, a oficina, o galinheiro. A casota do cão feita por mim. A cozinha de mesa longa. A sala, os quartos frescos de verão e frios de inverno. Os livros de Jorge Amado, Fernando Namora e Ferreira de Castro. A família e os amigos. Todos os dias aquele chão era pisado ao sabor da amizade. Todos eram bem-vindos. Todos se sentiam ali bem. Na casa do João e da Rosa. Estranhas eram as visitas pela noite escura. Falavam baixo. Trocavam papéis. Bebiam café ou vinho. Depois iam embora. Cautelosos. Numa primavera as visitas nocturnas acabaram. E nunca mais se falou baixinho. A caixa do milho também deixou de ter papéis enterrados no alimento das galinhas.

Tenho saudades. E elas aumentam à mesma velocidade que vou envelhecendo. Porque a casa grande está todos os dias em pensamento. Gosto disso. É um regresso reconfortante, numa espécie de máquina do tempo. Ou pelo cheiro. Pelo sabor. Pelas letras. Pelas imagens. Tudo me liga à casa grande. Porque ainda tenho futuro para desbravar. E promissor é o futuro quando se afirma pelo passado. Não encontrarei bolos de bacalhau iguais. Nem beberei um copo de mosto na adega. Mas posso continuar a martelar como ele me ensinou. A ser resistente como ela sempre quis que eu fosse. Posso e devo.

Rodar as chaves do portão de ferro é quase penoso. Já não há vénia. Agora é lento. Pelo pó e pela ferrugem. Abre-se a custo e a medo. O que estará no pátio? Um vaso caído. Uma telha partida. Um rato esticado. Os passos são lentos, sempre à espera de serem surpreendidos. Os móveis que restaram das partilhas estão cheios de cotão. As paredes escuras. O chão sujo. Silêncio. Um silêncio louco. Ninguém chama o meu nome. Já não existem vozes nem palavras. Muito menos sorrisos. Na terra onde desenhava os meus pés, as ervas tomaram-na como sua. As laranjeiras estão a secar. A pereira espera pelo vento forte para tombar. Só o diospireiro brota vida de esperança.

Fico ali a olhar com vontade de os ver. E consigo falar com eles. E a Venezuela? E o Trump? E o bairro da Jamaica? E o racismo? E a pobreza? E a guerra? E a fome? Ainda oiço, o que tantas vezes ouvi, “temos que continuar a lutar por um mundo melhor. Já não é para nós, mas será para os nossos netos.”

Na casa grande, só o diospireiro brota vida de esperança. Só vos posso prometer, João e Rosa, que os vossos bisnetos gostarão de dióspiros.

https://www.publico.pt/2019/02/03/opiniao/cronica/casa-1860318

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Lúcia Gomes - O outro lado da cortiça




O OUTRO LADO DA CORTIÇA
SEXTA-FEIRA, 1 DE FEVEREIRO DE 2019
PUBLICADO POR LÚCIA GOMES

Nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida em Santa Maria da Feira. Ainda vivo espartilhada entre cidades, sendo que é ali o meu lar. No meu Partido, toda a vida, estive lado a lado com corticeiros. Era fácil saber quem eram mesmo sem lhes falar porque grande parte deles tinha marcado no corpo o seu saber. Literalmente. Uns tinham perdido um dedo na broca, outros parte de dedos.

Desde muito cedo, com eles, estive à porta das muitas corticeiras do nosso concelho. Hoje contam-se as que sobraram porque a maioria foi asfixiada pelo poder do Grupo Amorim. Não é raro ouvir que um pequeno empresário se suicidou por não poder pagar as dívidas. Mais uma família que fecha a sua pequena fábrica, estrangulada com os créditos dos amigos do BES (lembram-se daquela linha de crédito a micro, pequenas e médias empresas liderada pelo BES e apoiada pelo governo Sócrates?).

Foi à porta dessas empresas, onde todos os meses estávamos, que cedo tomei nota em primeira mão da discriminação salarial brutal entre mulheres e homens no sector corticeiro. Eram mais de cem euros para tarefas iguais. Ali, à porta, havia trabalhadores que timidamente aceitavam o papel do PCP e o escondiam para que não fossem vistos. Também muitos nos diziam que nunca iríamos ganhar nada porque o país precisa é dos engenheiros e doutores do CDS e do PSD, que os operários nunca chegariam a lado nenhum.

Eram locais difíceis onde, não raras vezes, os seguranças estavam muito atentos a quem queria receber um papel ou falar connosco.

Fazíamos, contudo, questão de parar os carros de alta cilindrada à saída para lhes entregar os documentos e fazer saber que ali estávamos e ali iríamos voltar.

Foram milhares de distribuições. Foram também milhares de vigílias junto à APCOR de cada vez que uma empresa fechava, deixando trabalhadores meses e meses sem salários e roubando as máquinas do interior da empresa. Marchas à chuva, concentrações ao sol, as ruas de Santa Maria de Lamas iam sempre dar aos patrões da cortiça.

Foi ali também que ouvi as histórias das mulheres que cuidavam dos pais e dos filhos, que trabalhavam desde os 10 ou 12, que não sabiam como iam cuidar da família: nenhuma falava de si. Foi ali que vi os natais (sempre os natais) que lhes anunciavam o desemprego.

Foi ali que conheci o Sindicato dos Operários Corticeiros, o Alírio, o Mota, o Germano (e tantos outros) e que vi como o Sindicato foi crescendo, sempre do lado certo. Como orgulhosamente tornou a igualdade salarial na sua prioridade apesar de, no parlamento, o Bloco de Esquerda insistir em culpar o sindicato acusando-o de assinar um acordo colectivo de trabalho ou a UMAR publicamente atacar estes (e estas!) trabalhadores, incluindo na queixa que apresentaram tendo por base o acordo colectivo. E lembro-me bem do que, à data senti: nunca os tinha visto em nenhuma destas concentrações ou vigílias, em reuniões, à porta de fábricas e, ainda assim, culpavam os próprios trabalhadores por uma desigualdade imposta pelos patrões com total alheamento de como funciona uma negociação colectiva de um acordo. Sem sequer entender porque é que tinham assinado o acordo e ignorado, deliberadamente, a luta de anos que vinham a desenvolver para acabar com as discriminações salariais.

Elas, eventualmente, acabaram no papel, por via do acordo tripartido e faseado celebrado com o Ministério do Trabalho e, escusado será dizer, já sabemos quem chama a si a vitória.

Mais uma vez, os corticeiros caíram no esquecimento porque já não saíam nos jornais.

Mas continuam a trabalhar ao dia, à semana, a perder partes das suas mãos nas brocas, a receber o salário mínimo, a ver empresas a fechar, a concentrarem-se à porta das empresas e da APCOR. O Alírio, o Armando, o Germano, lá continuam. E reencontrei-me com eles, na semana passada, em frente à Câmara Municipal da Feira, onde dezenas e dezenas de trabalhadores estavam em solidariedade com Cristina Tavares, a Cristina que para muitos de nós é a única Cristina de que falamos. A mesma que foi encontrar forças, ninguém sabe bem onde, para ultrapassar os actos violentos, humilhantes e degradantes que lhe infligiram porque insiste, insiste e insiste em manter o seu posto de trabalho.

Já conheço bem a sua história porque não há camarada que não ma conte, não há dirigente sindical que não a saiba, não há um sindicalista que não tenha estado numa acção promovida pela CGTP, não há uma mulher do MDM que não tenha já manifestado a sua solidariedade.

E não, não conheço Cristina pessoalmente nem faço gáudio disso para poder escrever um artigo de jornal apenas para dizer isso mesmo. Não preciso de conhecer porque cresci no meio de muitas Cristinas. Mas admiro-a. Profundamente. Não sei como se resiste a tamanha violência.

Naquela concentração ouvi Arménio Carlos dizer que já lhe ofereceram milhares de euros para que desistisse dos processos e se afastasse. Mas Cristina respondeu sempre a mesma coisa: não quero o vosso dinheiro, quero o meu posto de trabalho.

E sei bem como é difícil esta postura até ao fim. Muitos foram já os que vi não o conseguir fazer e de nenhuma forma critico quem ao fim de anos a ser violentado (há muitas formas de assédio), não aguente mais. Num só dia, já assisti à assinatura de 24 rescisões e despedi-me de um a um com lágrimas nos olhos. Já passaram três anos sobre esse dia e apenas um encontrou trabalho.

Esta postura de Cristina devia ser um exemplo para os governantes. Despedida uma e outra vez, não desiste. Mas o governo não quer saber. Os deputados do PS, do PSD, do CDS, do PAN não querem saber. Nestas concentrações, vejo sempre os «mesmos»: PCP, Bloco de Esquerda, Os Verdes. Sempre.
São os únicos que sabem quem é a Cristina. Ou que querem saber. Cristina não inspira as fotos das deputadas na assembleia da república. Não se juntam para lhe prestar homenagem. Não inspira as associações «feministas» a fazerem concentrações, vídeos para o instagram, posts para as redes sociais. Não inspira o entretainer Marcelo. Como nunca inspiraram as trabalhadoras da Triumph. Para esta gente, as operárias são talvez menores.

Há pouco tempo vi um filme sobre um advogado, activista, que sempre lutou contra o racismo,  pelos direitos civis dos negros. Um desajeitado, mal vestido que andava de autocarro. Não falava a linguagem da modernidade, ainda ouvia cassetes, não se ajeitou numa palestra da nova geração de activistas que rapidamente o descartou. E alguém diz «We stand on his shoulders. We stand on their shoulders».

E é isso que sinto de cada vez que revejo os meus camaradas corticeiros, de cada vez que leio notícias sobre a Cristina. Nós andamos sobre os ombros deles. São eles e a sua luta que nos sustentam, que sustentam a nossa luta. São eles que nos carregam. Eles e tantos outros. Invisíveis aos olhos do governo e da propaganda (sim, propaganda) feminista liberal.

Mas como dizia Big Jim Larkin, sindicalista irlandês, the great only appear great because we are on our knees, Let us rise. E quando o povo se levanta é sempre cedo.

*A 9 de Fevereiro a CGTP convocou nova concentração de solidariedade com Cristina Tavares, em Lourosa, Santa Maria da Feira.

PUBLICADO POR LÚCIA GOMES 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

António Lobo Antunes - O último abraço que me dás



*António Lobo Antunes
12.12.2013 

Para Luís Costa

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/o-ultimo-abraco-que-me-das=f761252

domingo, 13 de janeiro de 2019

Álvaro de Campos - Ode triunfal

* Álvaro de Campos

 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.Escrevo rangendo os dentes, fera
para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

sábado, 5 de janeiro de 2019

Vinícius de Morais - Procura-se um amigo

* Vinícius de Morais 

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Vinícius de Morais - Soneto do amigo

* Vinícius de Morais

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

“The Ballad of Bonnie and Clyde” by Bonnie Parker


To many ordinary citizens during the Great Depression, bank robbers were seen as victims of injustice driven to commit crimes, folk heroes wreaking vengeance on a callous economic system. Thenotoriety of the Barrow Gang (“Bonnie and Clyde”) was bolstered by wild shootouts with police, spectacular car chases, and the romance of two lovers outside the law. In turn, they courted publicity and cultivated the image of misfit-heroes. Bonnie and Clyde’s “aspirations” were low: they preferred raiding small, isolated banks and did not hesitate to prey on modest stores and marginal businesses. Bonnie Parker sent poems and photographs to newspapers, heralding the Barrow Gang’s exploits and defending her honor. This poem, by Parker, depicted the pair as populist desperadoes, misunderstood and star-crossed lovers driven to a life of crime. Bonnie and Clyde remained at large until a Texas posse ambushed them on May 23, 1934. Dying together in a proverbial hail of bullets—the Texas lawmen pumped some 187 rounds into the couple—helped perpetuate the romance surrounding their short, desperate, and destructive lives.


We, each of us, have a good alibi

For being down here in the joint;

But few of them are really justified,

If you get right down to the point.

You have heard of a woman’s glory

Being spent on a downright cur.

Still you can’t always judge the story

As true being told by her.

As long as I stayed on the island

And heard confidence tales from the gals,

There was only one interesting and truthful,

It was the story of Suicide Sal.

Now Sal was a girl of rare beauty,

Though her features were somewhat tough,

She never once faltered from duty,

To play on the up and up.

Sal told me this tale on the evening

Before she was turned out free,

And I’ll do my best to relate it,

Just as she told it to me.

I was born on a ranch in Wyoming,

Not treated like Helen of Troy,

Was taught that rods were rulers,

And ranked with greasy cowboys. . . .

You’ve read the story of Jesse James

Of how he lived and died

If you’re still in need of something to read

Here’s the story of Bonnie and Clyde.

Now Bonnie and Clyde are the Barrow Gang,

I’m sure you all have read

how they rob and steal and those who squeal

are usually found dying or dead.

There’s lots of untruths to these write-ups

They’re not so ruthless as that

Their nature is raw, they hate all law

Stool pigeons, spotters, and rats.

They call them cold-blooded killers

They say they are heartless and mean

But I say this with pride, I once knew Clyde

When he was honest and upright and clean.

But the laws fooled around and taking him down

and locking him up in a cell

'Til he said to me, "I’ll never be free,

So I’ll meet a few of them in hell."

The road was so dimly lighted

There were no highway signs to guide

But they made up their minds if all roads were blind

They wouldn’t give up 'til they died.

The road gets dimmer and dimmer

Sometimes you can hardly see

But it’s fight man to man, and do all you can

For they know they can never be free.

From heartbreak some people have suffered

From weariness some people have died

But all in all, our troubles are small

'Til we get like Bonnie and Clyde.

If a policeman is killed in Dallas

And they have no clue or guide

If they can’t find a fiend, just wipe the slate clean

And hang it on Bonnie and Clyde.

There’s two crimes committed in America

Not accredited to the Barrow Mob

They had no hand in the kidnap demand

Nor the Kansas City Depot job.

A newsboy once said to his buddy

"I wish old Clyde would get jumped

In these hard times we’s get a few dimes

If five or six cops would get bumped."

The police haven’t got the report yet

But Clyde called me up today

He said, "Don’t start any fights, we aren’t

working nights, we’re joining the NRA."

From Irving to West Dallas viaduct

Is known as the Great Divide

Where the women are kin, and men are men

And they won’t stool on Bonnie and Clyde.

If they try to act like citizens

And rent a nice flat

About the third night they’re invited to fight

By a sub-gun’s rat-tat-tat.

They don’t think they’re tough or desperate

They know the law always wins

They’ve been shot at before, but they do not ignore

That death is the wages of sin.

Some day they’ll go down together

And they’ll bury them side by side

To few it’ll be grief, to the law a relief

But it’s death for Bonnie and Clyde.


Source: Bonnie Parker, “The Story of Suicide: The Ballad of Bonnie and Clyde.”
http://historymatters.gmu.edu/d/5061/

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Miguel Torga - Dies Irae

* Miguel Torga

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' 

domingo, 16 de dezembro de 2018

Daniel Filipe - Morna

* Daniel Filipe


É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.
os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
– subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece

domingo, 9 de dezembro de 2018

LINGUAGEM Pregar dois pregos de uma só martelada

ONG internacional quer alterar expressões anti-animal. PAN também sugere alternativas em Portugal

RAQUEL ALBUQUERQUE

Atirar o pau ao gato, matar dois coelhos com uma só cajadada, pegar o touro pelos cornos ou fazer gato sapato são expressões comuns na língua portuguesa. Têm significados diferentes, mas formas de linguagem que incluem com algum tipo de violência contra os animais. A PETA, uma organização não-governamental fundada em 1980 e com sede nos Estados Unidos, lançou esta semana uma campanha controversa que sugere alterações a este tipo de expressões. O PAN vê na iniciativa um “sinal bastante positivo” e dá alguns exemplos de alternativas a expressões portuguesas.

Pegar um touro pelos cornos 
→ Pegar uma flor pelos espinhos

Pregar dois pregos de uma só martelada ou atirar a comida ao gato são duas soluções possíveis que o partido com assento parlamentar tem partilhado nas redes sociais. “Há expressões que usamos desde pequenos e só anos mais tarde nos questionamos sobre o seu conteúdo. Portanto, em causa está uma mudança de linguagem antiviolência contra os animais. Esta campanha é um sinal de evolução e a prova de que a sociedade civil, as organizações e as ONG se movimentam nesse sentido”, defende Francisco Guerreiro, coordenador da comunicação e membro da comissão política do PAN.

Avançar para algum tipo de iniciativa legislativa está, no entanto, fora de causa, garante o responsável. “Achamos que seria contraproducente porque o objetivo não é condicionar a liberdade de expressão ou a criatividade. A evolução que tem existido está baseada em diálogo.” É por isso que as redes sociais, sobretudo o Facebook, são a forma de comunicação ideal: ajudam a manter um tom informal levando as pessoas a questionar o conteúdo de expressões que sempre utilizaram.

Foi também através do Twitter que a PETA (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais, em português) lançou uma campanha apelando a que se deixe de usar linguagem antianimal nas expressões idiomáticas. “As palavras importam e à medida que o nosso entendimento sobre a justiça social evolui o mesmo deve acontecer à nossa linguagem”, escreveu a organização, na passada segunda-feira.

Atirei o pau ao gato mas o gato não morreu → Atirei comida ao gato mas o gato não comeu

O PAN reconhece na sociedade portuguesa uma evolução e uma maior sensibilidade para questões ambientais e para a causa animal. A indignação provocada em 2015 pelo enunciado de um exercício de Físico-Química num caderno de atividades para o 9º ano, que previa que um rapaz atirasse um gato de uma altura de cinco metros, é prova dessa evolução, defende Francisco Guerreiro. “O Diogo largou um gato da varanda do seu quarto a 5 metros do solo. Sabendo que o gato tem de massa 4 quilos, indica qual a intensidade da força aplicada ao gato durante a queda”, lia-se no enunciado. “A própria editora pediu desculpas publicamente e retirou o exercício. Essa evolução tem sido vista nos manuais escolares, nos pais e educadores em Portugal.”

Matar dois coelhos com um só cajadada → Pregar dois pregos de uma só martelada

Nas músicas infantis também têm sido criadas alternativas e o caso mais conhecido é o da canção popular “Atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu”. Em muitas escolas já se canta um verso diferente: “Atirei comida ao gato, mas o gato não comeu”, por exemplo. Francisco Guerreiro rejeita que esteja em causa uma atitude “politicamente correta”. O partido vai mais longe e sugere outras alternativas: “Fruta madura é que dá bom sumo“ (em vez de “Galinha velha é que dá bom caldo”) ou “Mais vale dois pássaros a voar do que um na mão”.

“LÁPIS COR DE PELE”

A violência contra os animais é o ponto de partida desta campanha, mas não é o único problema. Muitas expressões idiomáticas são discriminatórias. “Com um olho no burro e outro no cigano” é um dos exemplos. Segundo Raquel Matias, socióloga e investigadora do ISCTE, é nas escolas, nas aulas de cidadania e através de discussões públicas que se deve despertar a atenção para o conteúdo da linguagem. “Quando se usa uma expressão como essa está a reforçar-se a ideia de haver uma característica específica de uma comunidade. É discriminatório e contra a coesão social”, afirma.

Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar → Mais vale dois pássaros a voar do que um na mão

“Mais do que um policiamento ou moralismo é preciso discutir o assunto. É preciso perceber que a nossa linguagem é feita de história e cultura. As expressões idiomáticas estão repletas de memória social.” Raquel Matias, que se tem debruçado sobre a linguagem e as migrações, lembra que há expressões ou até designações, como “lápis cor de pele”, que transmitem normas sociais. “Deveríamos falar de lápis cores de pele.”

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2406/html/primeiro-caderno/sociedade/Pregar-dois-pregos-de-uma--so-martelada

Miguel Sousa Tavares - A morte dos livros

* Miguel Sousa Tavares

É de bom tom começar pela usual declaração de interesses: Luiz Schwarcz é o meu editor brasileiro. Fundador, presidente, alma e coração da Companhia das Letras, que, para grande orgulho meu, é, não sei se a maior em volume de negócios, mas certamente a mais prestigiada editora brasileira — reunindo, entre os seus autores, os clássicos brasileiros, de Guimarães Rosa a Jorge Amado, e os novos, de Milton Hatoum a Chico Buarque. Há uns anos, juntou ao seu já extenso catálogo o da norte-americana Penguin Books, fazendo com que o acervo de autores sob a chancela da Companhia das Letras constitua uma biblioteca de fazer inveja a qualquer bibliógrafo. O Luiz é um editor que verdadeiramente ama os livros, assim como ama a música (foi um dos fundadores da Orquestra Sinfónica de São Paulo), os cavalos de corrida e a mesa com amigos. Foi com ele que pela primeira vez aprendi o que era “pagar a rolha” num restaurante. Foi no Figueira, em São Paulo, assim chamado porque tinha (ou ainda tem?) um imenso pátio onde se comia debaixo da mais extraordinária e frondosa figueira que alguma vez vi. Jantávamos, a convite do Luiz e, além da sua mulher, a historiadora Lilia Moritz, o já citado Milton Hatoum, autor do notável romance “Dois Irmãos” (mas não só), a Fafá de Belém e eu. O Milton, natural da Amazónia, ficou embevecido e admirado quando me viu, depois de consultar o cardápio, encomendar um filete de tucunaré, da trilogia dos peixes do rio Amazonas — tucanaré, pirarucu e tambaqui, os únicos grandes peixes do Brasil, pois que os de mar não prestam, para nós, portugueses, que desfrutamos do melhor peixe do mundo. Mas eu é que fiquei verdadeiramente espantado quando vi o Luiz sacar de um saco com duas garrafas de vinho que tinha trazido de casa, entregá-las ao empregado e dizer: “Sirva estas”. Grande conhecedor de vinhos, ele inventara, aos meus olhos pelo menos, o sistema da “rolha”, que depois vi replicado noutros lados, em que se leva o vinho de casa e só se paga uma quantia simbólica pelo serviço.



ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Isto para introduzir o personagem, antes da sua mensagem. Na semana passada, o Luiz Schwarcz enviou uma carta aberta a autores, editores, livreiros, leitores, amigos de livros, escrita em inglês e intitulada “Love letters to books”. O pretexto foi a simultânea entrada em processo de catástrofe das duas maiores cadeias de livrarias brasileiras, a Cultura e a Saraiva, uma fechando 40 lojas e a outra abrindo um processo de insolvência judicial, ambas deixando pendentes milhões de dívidas às editoras. Na sua carta aberta, espécie de grito de desespero de credor, mas, acima disso, de amigo dos livros, o Luiz escreve que nos últimos anos o mercado livreiro do Brasil se retraiu em 40% (o mesmo que em Portugal) e que muitas cidades brasileiras estão prestes a ficar sem uma única livraria. E acrescenta este desabafo : “Passei pelo pior momento da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive de deixar partir seis empregados que fizeram parte da Companhia e deram uma contribuição vital para o que fomos construindo dia após dia”. E termina apelando para que todos dêem ideias, sugestões, que ao menos comprem livros neste Natal, “para que mostrem algum amor por uma coisa que nos deu tanto durante tanto tempo: o livro”.

O apelo de Luiz Shwarcz não gerou só likes no Brasil. Em parte porque ele coincidiu com o anúncio de que o Luiz, embora mantendo-se presidente da Companhia das Letras, tinha acabado de vender a maioria do capital à Penguin, agora fundida com outro gigante americano da edição, a Random House. E em parte porque pequenos livreiros de pequenas cidades do interior o acusaram de se preocupar apenas com a falência das grandes cadeias de livrarias — às quais as editoras se submeteram ou foram forçadas a submeter-se. Tal como em Portugal. Mas isso é apenas parte da história da morte em curso dos livros: o estado actual da história. O livricídio começa pela oferta, antes de acabar na procura.

É toda uma cadeia que aos poucos nos vai transportando, leve, levianamente, para um mundo de pesadelo, que sempre foi o sonho de todas as ditaduras: um mundo sem livros

Anos atrás, numa Feira de Frankfurt — uma feira de vendas para editores e agentes literários, onde alguns autores são exibidos como rezes numa feira de gado — uma plateia de acabrunhados editores concordava com a iminente morte do livro, enquanto objecto, face ao aparecimento e inevitável triunfo do livro electrónico, o Kindle. Não havia nada a fazer, o inimigo era imbatível, assentiam aquelas avisadas cabeças, imaginado legiões planetárias de leitores em aeroportos, praias, jardins, autocarros, a sacar do seu Kindle e a devorar livros a 50 cêntimos cada um. Nos tempos seguintes, em cada contrato de edição que me apresentavam para assinar, inevitavelmente, lá vinha uma cláusula incluindo direitos sobre a edição online, o futuro irrecusável, juravam, e eu, inevitavelmente, recusava-a. Uma parte por intuição e talvez nostalgia: cresci com os livros como objecto físico, palpável, visível. Cada edição dos meus autores de cabeceira era como uma edição dos discos dos Beatles: tinha um cheiro próprio, a capa era olhada e apreciada mil vezes, acariciada com a mão, o papel era pesado e alisado, o seu lugar na estante era judiciosamente estudado, a sua lombada era fixada para sempre, nada era em vão. Outra parte tinha que ver com um raciocínio de ética económica: o Kindle da Amazon representava a mais devastadora e amoral destruição de uma cadeia de produção que eu já tinha visto. Começava por destruir os empregos e os investimentos ligados à indústria de papel dos livros; depois à parte da impressão, a gráfica; a seguir, à edição; depois, à distribuição; em seguida, com tudo o que tinha que ver com as feiras dos livros, visto que não haveria livros-objectos para apresentar nem para autografar; e, no fim da cadeia, sacrificaria os próprios autores, a quem pagariam uns miseráveis cêntimos por cada exemplar vendido com o falacioso argumento de que se venderiam muitos mais livros visto que seriam muito mais baratos. No final, feitas as contas, apenas o pirata do senhor Jeff Bezos, dono da Amazon, teria acrescentado a sua incontável fortuna, abrigada em paraísos e esquemas fiscais, à custa do talento e do emprego dos outros.

Mas se, contra as expectativas dos avisados crânios, o livro electrónico felizmente se revelou um fiasco, do lado da oferta a nova ameaça são as grandes superfícies de venda de livros que, de facto, matam as livrarias e impõem aos editores condições de sobrevivência insustentáveis. Se ver livros à venda em supermercados já é penoso, pior ainda é saber que é preciso comprar espaços de exposição e entrar em campanhas de promoção ao nível dos descontos em chouriços e detergentes. Mas é assim que estamos.

Mas é assim que estamos porque é assim que está a procura. Já quase ninguém lê livros. Como quase ninguém lê jornais ou revistas. Isto daria tema para todo um outro artigo, para que me falta espaço. Direi apenas, abreviadamente, que as redes sociais têm nisto, obviamente, uma trágica responsabilidade: elas são a maior fonte de leitura actual e a maior fonte de iliteracia funcional. Mas não são a única: a crítica literária que se faz em Portugal (e eu conheço outras) é também altamente responsável, porque não cumpre a sua função essencial de orientar os leitores para o encontro dos livros que lhes podem criar hábitos de leitura. O desporto favorito dos nossos críticos literários é não dizer do que trata um livro. Quanto mais confusa ou inexistente é a história de um romance, mais rebuscada e exaltante é a sua crítica, para no final se concluir que o autor é um génio, o crítico é brilhante e o leitor é um idiota se não entende a genialidade e o brilhantismo de um e de outro e se na próxima vez não voltar a comprar outro livro do mesmo autor. E, desnorteados, os editores botam as frases laudatórias dos brilhantes críticos nas cintas do próximo livro do genial autor e ficam à espera... acabrunhados com os exemplares por vender, devolvidos ao fim de uma semana, por um supermercado perto de si. É toda uma cadeia feita de suicidárias cumplicidades na mediocridade, de arrogantes sentimentos de superioridade, de desnorte editorial, de falta de senso, de coragem e de imaginação, que aos poucos nos vai transportando, leve, levianamente, para um mundo de pesadelo, que sempre foi o sonho de todas as ditaduras: um mundo sem livros.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2406/html/primeiro-caderno/opiniao/A-morte-dos-livros

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Álvaro Feijó - Varina

 * Álvaro Feijó


Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das linguetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— “Quem merca os camarões” …
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar…
A Senhora dAgonia…
A quentura de Agosto…
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta…
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro…
e. . . “até mais ver” …
Vês! Eu sei a tua história…
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Manuel Freire: intervenção, música e poesia



 
  • Manuel Pires da Rocha 


Manuel Freire

O cantor é a voz dos poetas. Leitor e propagandista, useiro (e vezeiro, quando bom) das habilidades que são as da música, é dele a arte capaz de agitar pensamentos e emoções, ocultando-os (sendo preciso) na vibração das moléculas. Manuel Freire é leitor e é propagandista, mestre também no ofício de fundir palavras em melodias. E é também o timbre e o modo de cantar, grave e cheio, terno e incisivo, único e reconhecível entre a multidão de cantores em que, felizmente, Portugal calhou ser fértil.

Há 50 anos, num dos dias de 1968, entrava nas discotecas um pequeno disco de vinil preto de Manuel Freire que era, afinal, todo um programa de acção. As canções tinham por título Dedicatória (poema de Fernando Miguel Bernardes), Livre (poema de Carlos Oliveira), Eles (poema de Manuel Freire) e Pedro Soldado (poema de Manuel Alegre), mas três delas tomaram o nome que lhes foi dado pelos milhares de vozes que as cantaram. Dedicatória passou a ser Se Poeta SouEles tornou-se Ei-los Que Partem, Livre ficou Não Há Machado Que Corte, e por estes nomes se deu cumprimento às cantigas que foram cantadas mil vezes, nos dias mais sombrios como nos mais luminosos. Só Pedro Soldado assim permaneceu, de tão clara ser a condição dos que se haviam de perder, em corpo ou em alma, nas ravinas da Guerra Colonial.

Manuel Freire trazia os flagelos da guerra e da emigração, a presença do povo e a luta pela liberdade para um palco de canções que ameaçava a compostura radiofónica em que reinavam as melodiosas distracções do nacional-cançonetismo. E levava as suas cantigas pelas colectividades, pelos encontros de democratas, pelas reuniões conspirativas onde marcavam encontro os afinados e os desafinados que, juntando vozes, iam somando cantigas às razões das suas lutas.

Como no Ateneu de Coimbra, no início dos anos de 1970, o salão cheio de gente. Era um tempo em que havia já mais canções do que as quatro daquele primeiro disco: Lutaremos Meu AmorSangue Não Dá FlorMenina dos Olhos TristesDulcineia. À entrada da Pedra Filosofal Manuel Freire dá conta, aos presentes, de um constrangimento que lhe tinha sido comunicado pelos dirigentes da colectividade: o Exame Prévio não lhe permite cantar o poema de Gedeão. É, porém, sabido - e ali se confirmaria -, que as canções grandes reagem com surpreendente facilidade aos impedimentos de ocasião, assim haja quem lhes justifique a função. A ordem censória proibia Manuel Freire de cantar, mas não de tocar. Naquele ajuntamento de insurrectos cantaram os que ali estavam, acompanhados à viola pelo silenciado cantor.

Ao longo dos 50 anos que decorreram desde a publicação do primeiro disco, Manuel Freire nunca foi só-cantor-compositor, repartindo-se por ofícios de outros entendimentos, desde a indústria à Sociedade Portuguesa de Autores. Nada que o tenha impedido de cantar em todo o lado, no Continente e nas Ilhas, nos países africanos por cuja independência também foi combatente, nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Por todo o lado se faz acompanhar por António Gedeão, José Gomes Ferreira, Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Eduardo Olímpio, Sidónio Muralha, José Saramago, Vitorino Nemésio e os que mais virão.

Manuel Freire abre o livro, procura o poema, encontra os sons que o saibam dizer. Mas quando canta «não há machado que corte a raiz ao pensamento», há 50 anos como hoje, não se limita a ser a voz do poeta – é a voz da nossa voz.

http://www.avante.pt/pt/2347/argumentos/152240/Manuel-Freire.htm