D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 27 de julho de 2026
ocage - Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado
Daniel Oliveira ~ Smart Glasses are watching you!
* Daniel Oliveira
Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.
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Dilara,
de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou.
O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o
número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter
homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao
TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma
violação". Kim,
de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores
sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que
a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no
TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se
"como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?
* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Em defesa da língua sarda
Pesquisei especificamente por transcrições do Prologu assu devotu Letore e do Legendariu de 1627.
O resultado é o seguinte:
- Não encontrei uma transcrição integral em acesso livre do prólogo. O que existe é sobretudo o fac-símile da edição original.
- Encontrei, porém, vários estudos académicos que citam e transcrevem passagens importantes do prólogo, sobretudo por causa da defesa da língua sarda feita por Garipa.
Entre as passagens mais citadas estão:
(34) - Giovan Matteo Garipa; língua e cultura sardas
Este mural em Orgosolo é uma exaltação da língua, cultura e história literária sarda, prestando homenagem a uma das figuras intelectuais mais importantes da história da vila: o padre e escritor Giovan Matteo Garipa (século XVII).
O texto nas paredes é uma citação direta retirada do prólogo da obra Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627), escrita por Giovan Matteo Garipa e considerada um marco da literatura em prosa sarda:
Entrevista de Alexandra Lucas Coelho ao jornal Ágora
* Bruna Ribeiro e Lara Viana
“O que aconteceu em Gaza representa o maior colapso do jornalismo internacional”
Entre Gaza, Afeganistão, Líbano e Palestina, Alexandra Lucas Coelho fez da reportagem um modo de atravessar conflitos e compreender o ser humano nos seus extremos. Nesta entrevista, aborda o drama de Gaza e considera que o mundo falhou por não pressionar Israel a favor do jornalismo.
Continuo a ser jornalista isso não desaparece, tal como um médico nunca deixa de o ser. Mantenho a carteira profissional e volto à reportagem quando é preciso, como no Líbano e na Palestina depois de 7 de Outubro. Mas há vários anos que o meu trabalho principal são os livros: tenho romances em andamento e é nisso que concentro o meu tempo. Por isso, hoje sou sobretudo escritora, embora nunca deixe de ser jornalista.
terça-feira, 21 de julho de 2026
(33) - Neo-realismo e pacifismo em Orgosolo: Vittorio de Seta e Charlot
Estes dois murais em Orgosolo (Sardenha) capturam duas vertentes fundamentais da identidade e do muralismo da vila: a valorização da memória cultural e a mensagem pacifista/antimilitarista.
1. O Mural do Cartaz de Cinema: "Banditi a Orgosolo" (À esquerda)
O que está escrito?
Topo: "CINEMA FONTANA"
Cartaz: "BANDITI A ORGOSOLO"
Preço: "INGRESSO L. 150"
Rodapé: "FILM DIRETTO DA VITTORIO DE SETA INTERPRETATO DAI PASTORI DI ORGOSOLO"
O que representa?
O Resgate da Identidade Local: Recreia o cartaz do icónico filme neorrealista de 1961 (Bandidos em Orgosolo), realizado por Vittorio De Seta.
Vittorio De Seta (1923–2011): É o autor e realizador do filme Banditi a Orgosolo (1961). Ele era famoso pelos seus documentários e filmes que retratavam com enorme realismo a vida dos camponeses, pescadores e pastores do sul da Itália e da Sardenha, usando frequentemente as próprias pessoas locais como atores.
A Dignificação dos Pastores: O filme usou os próprios habitantes e pastores da vila como atores (retratados no mural), abordando a dura realidade da região da Barbagia sem cair nos estereótipos pejorativos que o Estado costumava atribuir à população sarda.O filme é um clássico do cinema italiano porque não utilizou atores profissionais; foi protagonizado pelos próprios pastores de Orgosolo (como Michele Cossu e Peppeddu Cuccu, cujos rostos surgem pintados no mural) para contar a história realista de um pastor acusado injustamente que se vê forçado a fugir para as montanhas.
Em vez do estereótipo pejorativo de "povo criminoso" que o Estado italiano frequentemente atribuía à região da Barbagia, o filme (e este mural que o celebra) retrata a dura realidade socioeconómica, a solidão do pastor e as injustiças do sistema judicial, tornando-se um motivo de enorme orgulho comunitário.
2. O Mural do Soldado Charlot: "Un'altra guerra? No grazie." (À direita)
O que está escrito?
No balão de fala da personagem:
"un'altra guerra? no grazie." ("Uma outra guerra? Não, obrigado.")
O que representa?
A imagem de Charlot de capacete de aço, farda militar e espingarda às costas foi inspirada no icónico filme mudo de 1918 "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms), rodado durante a Primeira Guerra Mundial.
Nessa obra-prima da comédia pacifista, Chaplin retrata a vida difícil e absurda do seu lendário Vagabundo recrutado para as trincheiras da Frente Ocidental em França.
Ao transpor essa figura para as paredes de Orgosolo, o pintor Francesco Del Casino usou essa exata imagem de Charlot vestindo a farda militar para criar a poderosa mensagem antagónica de paz: "Un'altra guerra? No grazie." ("Outra guerra? Não, obrigado.").
A Rejeição Absoluta do Militarismo: Com uma expressão melancólica e o olhar direto para o transeunte, a personagem recusa categoricamente novos conflitos. O mural sintetiza o forte sentimento antimilitarista de Orgosolo, marcado pela resistência histórica à ocupação de terras para bases e exercícios militares na Sardenha.
Margarida Davim - Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos
sábado, 18 de julho de 2026
Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]
sexta-feira, 17 de julho de 2026
(32) - Rui Belo - Esta rua alegre
(31) - José Régio - Romance de Vila do Conde
O excerto presente na lápide faz parte do poema "Romance de Vila do Conde", escrito por José Régio, uma composição lírica de tom nostálgico, onde o autor recorda com saudade as paisagens da sua infância e juventude na sua terra natal.
O texto completo do poema é o seguinte:
Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra
* Daniel Oliveira
A polémica dos
chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal
começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível
para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a
praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo
económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias.
Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo
Durante anos,
milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões
privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa
veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição
de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o
mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a
pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma
instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer
outra.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Imigração: foi a economia, estúpido!
* Daniel Oliveira
(Expresso 2026 06 29)
Foi a economia,
mais do que a lei, que determinou as oscilações migratórias. Mesmo assim,
envelhecemos e a população ativa só cresceu graças aos imigrantes. A questão
não é se 14% é demais. É o que seríamos sem eles. Pressionam serviços públicos
porque os preparámos para o deserto demográfico. Recebemos imigração pouco
qualificada e desintegrada porque é isso que o modelo económico extrativista e
com pouco valor acrescentado absorve. A questão não é quem entra. É mudar o que
o país oferece. A eles e a nós
A mudança de
metodologia usada pelo INE pôs fim ao apagão estatístico. Portugal terá
11,4 milhões de residentes, 1,6 milhões estrangeiros — 14% da população total.
Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado. E
atingimos um número de habitantes surpreendente. Como estes números obrigam a
rever indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno,
contribuintes por beneficiário da Segurança Social (sobre o impacto que isto
tem no PIB per capita e a metodologia usada, aconselho a leitura do texto de
Susana Peralta) e toda a política pública, devem ser escrutinados para alem do
mero debate político. Como o presidente do INE explicou, não é fácil
contabilizar as saídas para o espaço Schengen (que terão sido
significativas). Ainda assim, será o estudo mais robusto feito até agora.
domingo, 28 de junho de 2026
(30) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
* Google Gemini
Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_ec8a08.jpg) traz de volta a famosa citação de Don Lorenzo Milani retirada da sua "Carta aos Juízes" de 1965. Curiosamente, esta é a mesma passagem que transcrevemos anteriormente, mas desta vez pintada num formato puramente textual e abstrato.
O que está escrito?
O texto foi pintado em letras maiúsculas pretas e rústicas, ocupando grande parte de um painel branco:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il direito di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri. (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. (DON MILANI)"
(Nota: O pintor cometeu um pequeno erro ortográfico de grafia na palavra "direito", escrevendo-a em português/espanhol com "g" em vez do italiano "diritto", além de trocar a palavra original "diseredati" por "disperati", o que é muito comum em reproduções populares de cariz oral ou de memória).
O que representa este mural?
Esta obra representa o antifascismo, o internacionalismo e a primazia da justiça social sobre as fronteiras geográficas ou o nacionalismo estatal.
1. Elementos Visuais e Simbologia
Estilo Gráfico Abstrato: Ao contrário de outros murais figurativos de Orgosolo que mostram pastores ou cenas históricas, este foca-se na força crua da palavra escrita. O texto assenta sobre manchas de cores primárias vivas — vermelho, amarelo e azul — dispostas de forma fluida no fundo. Estas formas orgânicas e dinâmicas servem para dar destaque e urgência à leitura da mensagem.
A Sombra Projetada: A própria arquitetura do edifício cria uma sombra triangular cortante sobre a pintura, conferindo ao mural uma forte integração com a envolvência urbana da vila.
2. O Significado Político e Humanitário
Ao estampar esta frase de Don Milani no centro da Sardenha, os muralistas recusam a lógica de exclusão baseada na terra de nascimento. A obra afirma que a verdadeira divisão da humanidade não se faz por passaportes ou bandeiras (italianos vs. estrangeiros), mas sim por uma linha de classe e de justiça: os que sofrem (os oprimidos) contra os que abusam do poder (os opressores).
Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marginalizada pelo Estado centralizado, esta frase serve como um lema de solidariedade universal com todos os povos que sofrem pressões semelhantes em qualquer canto do planeta.
VER (28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
sábado, 27 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Memórias da Biblioteca Pública Municipal do Porto
Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas
Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras
Por Redação
26/06/26 •
Resumo da notícia
Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição
“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração”
por Susana Prizendt
(artigo escrito inteiramente
por uma pessoa humana)
Suspensa em um apartamento de um
bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras
milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de
concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar
minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do
crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá,
resistindo a ser dado como morto.
Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra
inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio
acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo
é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a
existência do que chamamos de fertilidade.
Estima-se que um quarto das
espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que
habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e
uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante,
responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o
crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a
população humana.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
João Miguel Tavares - “Grande solidariedade”? Será que a PSP não aprende nada?
Bruno Pinto errou gravemente. A PSP errou horrivelmente. Luís Carrilho preferiu alimentar o mesmo corporativismo que desempenhou um papel trágico em toda esta história.
* João Miguel Tavares
18 de Junho de 2026
Chegou nesta semana ao fim o
julgamento do polícia que matou Odair Moniz. Bruno Pinto foi condenado a três
anos e meio de prisão por homicídio, com pena suspensa. O agente da PSP ficou
ainda obrigado a pagar uma indemnização à família de cerca de 90 mil euros — 30
mil pela perda do direito à vida, 20 mil euros para a viúva e outros 20 mil
para cada um dos dois filhos de Odair —, mais uma pensão de alimentos para a
sua filha menor, no valor de 220 euros mensais, até ela atingir os 18 anos.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...
Este mural em Orgosolo aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.
O que está escrito?
O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:
"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"
Tradução:
"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"
(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).
Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.
Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:
1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu
Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.
Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:
"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."
Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."
2. A atribuição a Jomo Kenyatta
Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:
"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."
Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.
O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.
A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)
Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra
terça-feira, 16 de junho de 2026
«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)
No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?
Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um
dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de
género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do
25 de Abril de 1974).
O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª
Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época
de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a
maternidade.
Bruno Amaral de Carvalho - Relembrando Odair Moniz e tantos outros
Acanção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.
Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.
(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.
O que está escrito?
O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."
O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.
Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.
Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:
Texto Original (Em Italiano)
"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.
Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).
È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.
Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranie
ri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."
Tradução em Português
"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.
Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).
Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.
Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms
Opinião
As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.
Se há cidade europeia que sabe o
que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada
rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens
pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias
arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses
retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas
sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações
da violência sectária. Só mudou o alvo.
domingo, 14 de junho de 2026
Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros
sábado, 13 de junho de 2026
Inês Chaíça - Suíça vota em referendo medida sem precedentes: limitar a população a dez milhões
As sondagens
mostram que a medida está longe de ser consensual. Gera preocupação pela
possível falta de mão-de-obra estrangeira e pela perspectiva de um “Brexit à
suíça”, pondo fim a acordos com a UE.
Inês Chaíça
13 de Junho de
2026
A Suíça vai votar, este domingo, um referendo
que quer limitar o crescimento da população a dez milhões até 2050 e inscrever
esse objectivo na Constituição. O partido que está a apoiar esta iniciativa, o
Partido Popular Suíço (SVP), diz que é uma forma de lidar com a imigração
excessiva, de contornar a falta de oferta de habitação e de aliviar a
sobrecarga das infra-estruturas e dos transportes públicos. Mas há quem
antecipe outras dores de cabeça.
A proposta — a que o SVP chama “Iniciativa de Sustentabilidade”, quase como um eufemismo —
assenta no facto de a população na Suíça ter aumentado de forma exponencial
desde que foram assinados os acordos de livre circulação de pessoas e bens com
a União Europeia, em 2002.
Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?
* Pedro Tadeu
Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD
* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
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