sábado, 27 de junho de 2026

José Pacheco Pereira - Memórias da Biblioteca Pública Municipal do Porto


* José Pacheco Pereira

18 de maio de 2023 

A minha contribuição para a Hemeroteca foi evitar que publicações anarquistas e comunistas dos anos da I República desaparecessem, como tinha acontecido na Biblioteca Nacional, pelas mãos da PIDE e dos seus émulos.

As obras que se vão realizar no edifício da Biblioteca estão a gerar controvérsia pelo óbvio prejuízo dos que precisam de lá ir investigar, e há um abaixo-assinado a circular. Por outro lado, admito que o edifício precise de renovação e ampliação, e ser Souto Moura o arquitecto escolhido para esse projecto é uma garantia de qualidade. Por isso, tenho dificuldade em fazer a ponderação entre vantagens e inconvenientes, e não me pronuncio sobre a polémica. Mas desejo que se faça o possível para melhorar um dos edifícios e uma das instituições a que mais devo na minha vida. Nela “alimentei o monstro”, uma das melhores expressões inglesas para designar os estragos que a obsessão pela leitura faz num adolescente.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
https://www.sabado.pt/opiniao/cronistas/pacheco-pereira/detalhe/memorias-da-biblioteca-publica-municipal-do-porto

Memórias da Biblioteca Municipal do Porto (2)

27 de Junho de 2026

A biblioteca era o centro do meu mundo fora de casa e o lubrificante desse mundo eram os livros, mas, à distância, a minha cidade, o Porto, todo o Porto.

Em 2023 escrevi um artigo com as minhas memórias da Biblioteca Municipal do Porto e prometi continuação. Nunca o fiz, mas como nunca mais vou ver a biblioteca como era –​ sei que há polémica, mas esta afirmação não pretende ser polémica, apenas factual –, está na altura de o completar com a parte da biblioteca propriamente dita. Antes disso, repito o que então escrevi e que se aplica à hemeroteca no andar de baixo e, por maioria de razão, ao andar de cima, onde estava o salão enorme para leitura de livros.

 “Durante vários anos, nos anos sessenta, frequentei a Biblioteca de S. Lázaro todos os dias, literalmente todos os dias, de manhã, de tarde e às vezes à noite. Nela 'alimentei o monstro', feeding the monster , uma das melhores expressões inglesas para designar os estragos que a obsessão pela leitura faz num adolescente.”

A biblioteca era num antigo edifício conventual, com um claustro, as paredes decoradas de uma espécie de museu do azulejo e, no fundo, com uma escada que dava acesso ao andar de cima, o aos livros propriamente ditos. No fim das escadas, à direita, havia as fichas, e, à esquerda, o grande salão encimado por um retrato real. Após tirar a colocação da ficha, pediam-se os livros, cinco no máximo. Os funcionários da recepção, os quais entraram todos por cunha ao então director, António Cruz, que me fazia também a vida negra na Faculdade de Letras, eram do pior que havia. Havia sectores de estantes de que nem valia a pena pedir livros, porque davam muito trabalho e exigiam escada; logo, nunca se encontravam os livros.

Havia alguns frequentadores da biblioteca, presumivelmente investigadores, que ou tinham mesas ou tinham salas próprias e, por isso, podiam deixar os livros e, entre favores e gorjetas, tinham tudo o que queriam. Havia também livros a que se tinha acesso pagando alguma coisa aos funcionários, o mais comum era a Vida Sexual, de Egas Moniz, que estava nos reservados e era um grande sucesso junto dos leitores.

Eram leituras em bruto, um livro chamava o outro e só comecei a ler de forma orientada quando conheci Eugénio de Andrade, a quem devo alguns dos mais influentes livros da minha vida

O grande salão do primeiro andar era particularmente confortável, no Verão as grandes janelas abertas deixavam entrar o ar fresco do claustro e o ruído dos pássaros, e mesmo o barulho dos eléctricos na rua era muito menor do que na hemeroteca. Lia e lia, quase trinta livros por mês, e, quando vejo a lista dos livros lidos na biblioteca, grande parte deles, se me perguntarem hoje, não faço a mínima ideia do que são. Há, no entanto, uma colecção que sei que li toda até ao número 100, e depois muitos mais números soltos: a Colecção Argonauta de ficção científica. Alguns livros nunca mais esqueci e hoje lembro-me em detalhe, como se fosse ontem, do de Rosny Aîné​, A Morte da Terra, a Fundação, de Asimov, o R.U.R., de Karel Capek. Li também muita literatura americana, de Erskine Caldwell, Faulkner e John Dos Passos. Como tinha em casa grande parte da literatura portuguesa e francesa, nunca li nada dessas literaturas, e muito poucos ensaios. Eram leituras em bruto, um livro chamava o outro, e só comecei a ler de forma orientada quando conheci Eugénio de Andrade, a quem devo alguns dos mais influentes livros da minha vida, a começar pela Montanha Mágica, de Thomas Mann. Como o Eugénio me emprestava os seus próprios livros, a frequência diária da biblioteca diminuiu.

O Porto era uma terra de cafés e, por isso, a biblioteca tinha à sua volta dois cafés aonde ia regularmente. Um era o Café do Padrão, que tinha duas entradas e era enorme, uma das entradas junto de um dos melhores alfarrabistas do Porto, o Manuel Ferreira, e era onde tomava café, tomava nota dos livros que ia pedir antes de ir para a biblioteca. O outro, que já desapareceu, era o Café S. Lázaro, onde os professores e artistas da Escola de Belas Artes tinham uma espécie de tertúlia, junto com o Eugénio, e aonde os visitantes literários de Lisboa iam quando chegavam ao Porto. Durante o dia era o Café de S. Lázaro, com o Eugénio, o Zé Rodrigues, o Ângelo de Sousa, o Armando Alves, o João Machado (com quem fiz o texto de uma banda desenhada retratando exactamente o ambiente do café, com os pides vigilantes antes de irem para o edifício sinistro junto do cemitério), à noite ia-se para o Majestic com o Óscar Lopes, o Manuel Dias da Fonseca, o Jorge Peixinho, e numa mesa ao lado o Jorge Lima Barreto.

Para mim, a biblioteca era o centro do meu mundo fora de casa, complemento do meu liceu, o Alexandre Herculano. O lubrificante desse mundo eram os livros, mas, à distância, a minha cidade, o Porto, todo o Porto, do jardim romântico de Lázaro, dos cafés, e dos escritores e artistas, da resistência à ditadura, dura como o granito, sem qualquer hesitação.




Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas

 


Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras

Por Redação

26/06/26 •  

Resumo da notícia ​

Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição 

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração” 


Itamar Vieira Junior, Torto Arado

por Susana Prizendt

(artigo escrito inteiramente por uma pessoa humana)

Suspensa em um apartamento de um bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá, resistindo a ser dado como morto.

Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a existência do que chamamos de fertilidade.

Estima-se que um quarto das espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante, responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a população humana.

Se você tem uma composteira, com certeza já possui familiaridade com o que chamamos de ciclo alimentar. Como nada na natureza é lixo, os resíduos do que comemos são transformados em adubo e podem voltar para os territórios que geraram esses alimentos, enriquecendo seus solos para que sigam férteis. Desse modo, mais cultivos virão, mais comida chegará ao nosso prato e a vida continuará seu curso. 

Quer dizer, ao menos era para ser assim… se nosso modelo produtivo, dominado pelo capital globalizado, não tivesse implodido a circularidade de seus processos. É o que Nêgo Bispo – pensador quilombola que esteve recentemente no centro de uma pendenga acalorada dentro da intelectualidade dita progressista – caracterizava como modelo finito: há um começo, há um meio e há um fim. 

No caso dos resíduos alimentares, este fim (que seria apenas simbólico, já que eles seguirão se decompondo junto aos resíduos não orgânicos, trazendo impactos ambientais pra lá de problemáticos) seria o aterro, como vemos constantemente ocorrer com a maior parte do que é chamado popularmente de lixo. 

Dos quilombos às aldeias

Como um contraponto ao modelo produtivo dominante, Bispo defendia que o modo de vida nos quilombos não pode ser enquadrado nesse tempo linear. Assim, o que há em seus territórios é algo como um “flerte com o infinito”. Ou seja, há um começo, há um meio e há um novo começo; e assim sucessivamente. Essa dinâmica seria, inclusive, uma evidência de que os quilombos não foram colonizados, ideia defendida por ele em suas andanças e escrevinhanças. 

Se levarmos em conta que, ainda hoje, esses territórios, junto aos territórios indígenas, são responsáveis pelas áreas mais protegidas do país, podemos compreender a profundidade das diferenças entre nossas formas ocidentalizadas de viver e as formas de viver dos povos tradicionais – que, em meio à ferocidade do capital, ainda resistem bravamente em todas as regiões. 

E foi seguindo o rastro dessas raízes ancestrais, que pesquisadores como Eduardo Neves nos revelaram que antigos povoados, estruturados de acordo com essa circularidade, não apenas mantinham seus solos férteis, mas foram responsáveis por um aumento expressivo dessa fertilidade, transformando áreas que tinham um solo pobre em manifestações pulsantes de biodiversidade. 

Só a partir dessa descoberta, pudemos perceber que alguns ecossistemas, que eram até então considerados inalterados pela ação humana, na realidade, foram resultado de centenas ou milhares de anos de intervenções de sociedades nativas. 

Um exemplo que instiga nosso campo agroecológico é a existência da chamada Terra Preta de Índio (TPI), presente na região amazônica. Trata-se de um solo de origem antrópica, repleto de minerais, como cálcio, fósforo, magnésio e zinco, fruto do manejo da matéria orgânica e não orgânica que sustentava a vida nas comunidades, ao longo de gerações. 

Um alento para quem, como eu, tantas vezes se indaga – com tristeza – se os seres humanos têm mesmo uma tendência para mudar para pior os lugares em que se estabelecem. 

O que mais impressiona nessa descoberta, é que a produção de um solo fértil, como o encontrado pelos pesquisadores, é algo lento, que depende de condições muito específicas para se viabilizar. A estimativa é que, para formar 1 cm desse tipo de terra sobre uma determinada superfície, é necessário à natureza entre 200 a 400 anos. Ao observar esses dados, podemos nos perguntar: será que as florestas com densas camadas de terra preta de índio teriam algo de mágico? 

Deixando de lado a dimensão sobrenatural (a qual não tenho acesso, mas que está sempre presente nas culturas ancestrais), o que podemos dizer é que esses solos são de um valor incalculável para nossos ecossistemas, sobretudo considerando o bioma amazônico, cujos solos costumam ser arenosos, protegidos somente por uma fina camada de matéria orgânica, que precisa ser sempre renovada pelas florestas – o que traz a possibilidade, a cada dia mais tangível, de que sofram um processo de savanização e até de desertificação. 

Fertilidade à venda?

Entramos no ano de 2026 com um alerta sobre os preços dos fertilizantes industrializados: houve um aumento consistente, que bateu nos 20%. Para quem não vê muito motivo para fazer alarde, vale observar que o tal do Agro brasileiro, baseado em monoculturas envenenadas, depende fortemente desses insumos e que a dificuldade em obtê-los costuma trazer consequências para toda a cadeia produtiva. 

Com esses adubos mais caros, o custo do cultivo fica mais alto e a pressão inflacionária sobre os valores das commodities produzidas aumenta, o que também pode ocorrer com o preço de certos alimentos. Para termos uma noção do grau de vulnerabilidade a que a agricultura convencional nacional está exposta, vejamos que, atualmente, cerca de 90% dos fertilizantes usados por ela são importados e que as principais regiões exportadoras estão envolvidas em conflitos bélicos. Guerra e fome sempre caminham de mãos dadas, não é? 

Por falar em guerra e, neste caso, na inexistência de coincidências, é importante saber qual a matéria prima que está na base desses produtos. Húmus de minhoca, bosta de vaca e titica de galinha, adubos orgânicos tradicionais, passam longe da sua composição. É que, assim como os agrotóxicos, eles são constituídos a partir do petróleo, material que fornece a uréia, onipresente nos chamados compostos nitrogenados, negociados às toneladas no mercado internacional. 

Portanto, é dedutível que as disputas pelo “ouro negro” estejam umbilicalmente ligadas ao modelo produtivo alimentar. Além de adubos e venenos, é ele quem fornece o combustível para transportar, ao redor do mundo, tanto os insumos adquiridos como os alimentos produzidos (sejam in natura, beneficiados ou industrializados). 

É um processo que, ao acelerar o caos climático com a emissão de combustíveis fósseis, também acelera a perda da biodiversidade planetária – que tem, entre seus principais responsáveis, justamente a poluição causada por nitrogênio, bem assentada no terceiro lugar no podium. Perdem-se, inclusive, os microorganismos que garantem a fertilidade dos territórios. Isso mesmo, no idolatrado Agro, a produção e a aquisição de fertilizantes contribui para a infertilidade dos solos, uma das inúmeras contradições que ele coleciona. 

Voltando ao plano financeiro, o impacto dessa dependência de fornecedores estrangeiros para “fertilizar” as monoculturas de commodities, das quais tanto se vangloriam as elites econômicas brasileiras, está no centro da tormenta que abate o setor. Estima-se que os gastos com essa importação equivalem a 40% dos custos da produção agrícola convencional. E, segundo relatório da CONAB, seu volume atingiu um novo recorde da série histórica em 2025: 45,5 milhões de toneladas (frente às 44,28 milhões de toneladas registradas em 2024). Haja grana!

A crise da agricultura exportadora, nutrida por fatores geopolíticos e ambientais, amplia o endividamento e ameaça inviabilizar a produção. Segundo o ex-ministro Roberto Rodrigues, ferrenho defensor do Agronegócio, “o custo financeiro atingiu patamares incompatíveis com a lógica da atividade agrícola”. De fato, culturas como a soja seguem batendo recordes de produção, mas não de lucratividade, o que explica as crescentes queixas de seus representantes. 

Degradados e desnutridos 

Não dá mais para esconder que esse modelo produtivo não pára em pé. Se não fosse o Estado “patrocinando o Agro”, como declarou o ministro Fernando Haddad (o que inclui uma isenção fiscal de 158 bilhões de reais ao ano), a tal potência sustentadora do PIB, anunciada com estrondo pelas propagandas, já teria se estrumbicado de vez. Mas, enquanto não se estrumbica, segue fazendo estragos incalculáveis. 

Rememoremos mais uma vez o que diz Ana Primavesi: “a nutrição humana começa na terra. Solo sadio, plantas sadias, pessoas saudáveis.” Se, para a Agroecologia, esse saber está na base técnica e na prática diária, para o Agronegócio, ele é sumamente pisoteado. 

Os adubos químicos nitrogenados usados em massa nas plantações, somados a outros fatores que caracterizam essas monoculturas, acabam enfraquecendo as plantas e deixando-as vulneráveis a insetos e fungos. Para evitar que sejam “atacadas” por eles, o uso abusivo de agrotóxicos é uma constante. 

Quando chegam ao nosso prato, mesmo depois de passarem por processamento na indústria alimentícia, esses vegetais nos trazem um conjunto de resíduos venenosos que causa danos inquestionáveis à saúde. E são menos nutritivos do que seriam se fossem cultivados segundo princípios agroecológicos. O resultado é a tríade solos doentes, plantas doentes e pessoas doentes – lamentável retrato de nossa sociedade ecocida. 

Aqui, chamo a atenção para uma terrível semelhança entre dois dados: o número de pessoas em situação de insegurança alimentar (moderada e severa) e a quantidade de hectares de terras agrícolas degradadas no mundo. 

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), ambos estão em torno de 2 bilhões! Isso significa 40%, no caso territorial, e 28%, no caso populacional. Falta de terra fértil e falta de comida caminhando conjuntamente. 

Mas a destruição dos solos não anda de braços dados somente com a falta de comida. Ela afeta o acesso a outro elemento, que, se é essencial à agricultura, também é necessário a todas as dimensões da vida: a água. E as mudanças nos ciclos hidrológicos são expressivas, com o agravamento crescente das secas planetárias. Somente de 2000 à 2024, elas se ampliaram em quase 30%. 

Para completar nosso alerta, as previsões não são nada fáceis de digerir: em torno de 7,5 bilhões de pessoas (quase toda a humanidade existente hoje) vão ser impactadas até 2050. A pergunta que não quer calar é: quem seriam as pessoas não afetadas?

Nós, os países do sul global, somos regiões fortemente atingidas pela degradação do solo. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em torno de 10,9 milhões de hectares de florestas são desmatadas a cada ano no planeta. 

Sabemos muito bem como esse processo se dá, não é? É assim que, somente no Brasil, existem mais de 140 milhões de hectares degradados.

Brasil se mexe 

É preciso reconhecer que nosso país, após a implementação de programas de combate à fome pelo governo Lula, conseguiu reduzir a insegurança alimentar grave de cerca de 3,1 milhões para cerca de 2,5 milhões de famílias. Isso significa que atingimos os níveis mais baixos da série histórica, como havíamos feito em 2013, saindo mais uma vez do Mapa da Fome. Mas, como a degradação segue corroendo nossos territórios, a situação está longe de ser estável e é urgente resgatar a fertilidade perdida, sobretudo com a intensificação da emergência climática. 

A urgência do problema esteve em pauta na COP 30 e a própria FAO integra uma iniciativa, lançada pelo Brasil com apoio de outros nove países, chamada RAIZ – Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation (em português, Investimento em Agricultura Resiliente para Degradação Líquida Zero da Terra). Ela se propõe a mapear essas áreas, apresentar propostas de ação, reunir os investimentos e compartilhar as experiências. 

Desse modo, o RAIZ busca colaborar para que a meta da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca seja atingida. Ela propõe a restauração de 250 milhões de hectares de solo agrícola até 2030, sendo 40 milhões em nosso país e grande parte do restante em países africanos.

A previsão é a de que o valor total dos investimentos necessários para se atingir esse objetivo, ao longo desses 5 anos que temos até lá, seja de 2,6 trilhões de dólares. Parece uma fortuna? Pois é mais ou menos o que se gastou com a indústria da guerra apenas no ano de 2023! E, segundo a Declaração de Belém sobre Fertilizantes, acordo feito entre Brasil e Reino Unido durante a COP 30, o uso excessivo deles “causa danos aos ecossistemas e perdas de colheitas que chegam a US$3,4 trilhões anualmente”. 

Além disso, há cálculos de que uma “gestão de nutrientes” mais equilibrada poderia trazer 25 vezes mais benefícios econômicos do que as despesas realizadas para que ela fosse possível. Não é à toa que os adeptos do “capitalismo verde” (expressão que é um contrasenso, já que a busca por crescimento infinito é incompatível com a existência em um planeta materialmente finito) enxergam esse processo como uma “oportunidade econômica”. 

Dela, faria parte o setor de Bioinsumos, que teve um aumento  na quantidade de empresas produtivas de 600% em 10 anos, ganhando até o próprio Fórum no Agro, e acendendo um alerta para nossa rede agroecológica pela ameaça de apropriação de saberes populares e o fortalecimento de mega corporações. A recente parceria entre a Yara fertilizantes e a PepsiCo na produção de batatas, que “chega ao Brasil para promover a agricultura regenerativa” (!!!), dá uma ideia do que virá por aí. 

Se parece um pouco economicista demais, ressaltamos que, no Brasil, a liderança do RAIZ é do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e dialoga com programas já iniciados pela pasta, como o Solo Vivo e o Caminho Verde Brasil. 

Nas palavras do secretário de Desenvolvimento Rural do Mapa, Marcelo Fiadeiro: “produzimos para alimentar um bilhão de pessoas e mostramos que isso é possível com sustentabilidade”. Coelhinho da Páscoa também acha.

Corre-corre tecnológico

Poucos assuntos têm tido tanto destaque nos debates geopolíticos como o das chamadas terras raras. Trata-se de um conjunto de minerais necessários para a fabricação de boa parte das traquitanas tecnológicas associadas ao capitalismo verde. Mesmo não sendo tão raros assim, eles têm alguns pontos de encrenca: estão concentrados em poucos lugares no planeta e sua obtenção e refino implicam em impactos ambientais complexos. 

Na ponta da disputa planetária por esses materiais – e das maravilhas tecnológicas para as quais eles são fundamentais, como carros elétricos, computadores, painéis de energia solar e turbinas eólicas – estão as duas principais potências planetárias: China e EUA. E a vantagem da primeira começa com a posse de quase metade da reserva mundial das terras raras, enquanto a segunda amarga pífios 2%. 

A volta de Donald Trump ao poder, dessa vez com uma agressividade assustadora em relação aos demais países do globo, explicitou de vez e intensificou a guerra pelo controle dos “recursos” naturais que ainda existem no planeta, destacando aqueles chamados de minerais críticos, base do desenvolvimento tecnológico. E é bem nesse imbróglio que o Brasil está inescapavelmente metido, já que possui cerca de um quarto das reservas mundiais de terras raras, ocupando o segundo lugar.

Mais uma vez nos cabe a pergunta: seria esse patrimônio natural uma benção ou uma maldição para o país? O caso do petróleo serve de base para refletirmos, já que ele sempre foi um dos fatores do desencadeamento de guerras assumidas ou veladas. A recente invasão da Venezuela pelos EUA de Trump, bem como todo o boicote de que ela foi alvo nas últimas décadas, não nos deixam margem para dúvidas. O próprio golpe sofrido por Dilma Rousseff e a farsa da Lava Jato, na rabeira da exploração do Pré Sal, botam lenha nessa fogueira. 

A atividade de extrair o petróleo já é em si uma ação predatória, que implica em danos e riscos aos territórios em que ocorre. E o uso dele está associado aos principais dramas socioambientais que vivemos, como a emissão de gases de efeito estufa e a poluição plástica, na qual a indústria de refrigerantes é campeã, sendo a Coca Cola uma unanimidade no ranking. 

Não há um/a pesquisador/a ambientalista minimamente responsável que não diga que é necessário parar de explorar o material, se quisermos impedir a aceleração rumo ao precipício civilizacional. Principalmente porque novos pontos de extração se encontram em locais vitais para o equilíbrio de nossa Pachamama, como a foz do Rio Amazonas. 

O mesmo ocorre com os jazigos de terras raras: eles estão, em parte significativa, sobrepostos ou próximos a territórios de povos tradicionais e reservas naturais. Levantamento do Repórter Brasil revelou que, até outubro de 2025, existiam 1.827 pedidos para explorar terras raras, cobre, lítio e outros 13 minerais em locais que estavam a menos de 40 km de povoados indígenas isolados.

São alguns dos poucos refúgios de fertilidade que nos restam. Oásis em que a fauna e a flora se manifestam em sua plenitude. Bases do que ainda podemos encontrar do nosso equilíbrio hídrico. Se fôssemos seres dotados de um instinto de sobrevivência bem apurado, com certeza nós deixaríamos esses minerais onde estão, não é? 

Mas o garimpo no território yanomami – que pôs em curso um verdadeiro genocídio – nos mostra que, ao menos no que se refere às elites econômicas atuais, faltam muitos parafusos nessas cucas viciadas em dinheiro e poder. Se os povos indígenas dependerem dos “povos da mercadoria”, como bem definiu Davi Kopenawa Yanomami, estão lascados. E, junto com eles, toda a chamada humanidade ou, mais enfaticamente falando, NÓS. 

Rara é a Terra 

Como sabemos que não é possível simplesmente dizer um redondo e definitivo não para a exploração das terras raras, já que estrupícios como Trump e a corja de donos de Big Techs não iriam deixar (o artigo de Edna Aparecida da Silva no Outras Palavras deixa isso explícito), resta-nos encontrar uma forma menos danosa de lidar com essa benção amaldiçoada ou maldição abençoada. E a aproximação das eleições traz uma urgência extra nesse percurso.

O governo Lula 3 tem se comportado de modo ambíguo quanto às questões ambientais. Acenando ora a quem  busca por medidas de combate ao colapso planetário, ora aos interesses do auto-intitulado “mercado verde”, ele tenta lidar com as pressões internas e internacionais, caminhando sobre uma finíssima linha pendurada nas alturas de um abismo. 

Cabe a nós, movimentos sociais, fazer o possível e o mais que possível para trazer o governo para o único caminho que realmente existe, o do respeito às forças da Mãe Terra, se quisermos seguir vivendo em condições viáveis nas décadas que virão. Sem esquecer que, do outro lado, há quem detenha o acesso ao botão do fim do mundo, já que os EUA seguem se engalfinhando internamente quanto à permissão de deixar que um ecossociopata dirija o país. 

Estabelecer uma política brasileira para a exploração mineral, frente à corrida tecnológica em curso e à emergência ambiental que nos atropela, envolve acionar nossas empresas estatais. No caso das terras raras, há a proposta de criação de uma nova empresa, a Terrabras, voltada unicamente para conduzir as políticas a elas relacionadas.

Poderia ser um modo de nos proteger do assédio do capital estrangeiro – algo impossível de ignorar, como mostra a idealização, por parte da Embaixada dos Estados Unidos, de um simpósio sobre minerais críticos, que deverá ser realizado em São Paulo. Ele pretende reunir, no mês de março, as principais mineradoras que atuam no Brasil, dando sequência às conversas que o diplomata dos EUA, Gabriel Escobar, vem tendo com cada uma delas para buscar acordos econômicos. Enfrentar esse lobby é imprescindível.

Mas, seja que caminho formos tomar, é essencial abrir um amplo e sincero debate com a sociedade, sobretudo com os povos tradicionais e campesinos. Na pauta, questões como “para quê?”, “com quem?”, “de que maneira?” e “a que custo?” não podem ser empurradas para baixo do tapete. A ocupação da Cargill pelos movimentos indígenas que lutam contra a privatização do Rio Tapajós não deixa margem para dúvidas quanto ao protagonismo que vêm assumindo nesse debate. A mobilização se espalhou pelo país, chegou até São Paulo, onde houve um protesto em frente à sede da empresa, e conseguiu a revogação do decreto: vitória importantíssima que renova nossa caminhada!

Estamos, inegavelmente, assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras, e sabemos que, sem essa fertilidade, não há água, não há comida, não há vida possível. Não podemos mais seguir nesse modelo linear de produção, esquecendo que, como diz Nêgo Bispo: “a terra dá, a terra quer”. A retomada da circularidade se faz essencial, unindo as cidades, os campos, as águas e as florestas – com harmonia e justiça. 

É imprescindível intensificar as demarcações de territórios indígenas e quilombolas; promover a Reforma Agrária Popular Agroecológica; botar um freio no agro exportador de commodities, seus adubos nitrogenados e seus venenos assassinos; e unir forças com os demais povos latinoamericanos para nos protegermos dos ataques terroristas de um império que agoniza, mas parece disposto a levar o planeta inteiro em seu colapso. 

E tudo isso sem deixar de ter em mente (e no coração) que a maior e mais incrível raridade que temos – em nossas curtas vidas em meio ao tempo-espaço do Cosmos – é mesmo a Terra, nossa Casa Comum, ponto pulsante de vida, girando, girando, girando… entre zilhões de estrelas de fogo. 

Susana Prizendt, arquiteta urbanista, é judárabe (descendente de judeus romenos pelo lado paterno e de árabes libaneses por parte materna). É integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, do Movimento Urbano de Agroecologia (MUDA) e do Coletivo Banquetaço

 https://jornalggn.com.br/artigos/das-terras-raras-as-terras-aridas-por-susana-prizendt-2/#goog_rewarded

quinta-feira, 18 de junho de 2026

João Miguel Tavares - “Grande solidariedade”? Será que a PSP não aprende nada?

Bruno Pinto errou gravemente. A PSP errou horrivelmente. Luís Carrilho preferiu alimentar o mesmo corporativismo que desempenhou um papel trágico em toda esta história.

* João Miguel Tavares

18 de Junho de 2026

Chegou nesta semana ao fim o julgamento do polícia que matou Odair Moniz. Bruno Pinto foi condenado a três anos e meio de prisão por homicídio, com pena suspensa. O agente da PSP ficou ainda obrigado a pagar uma indemnização à família de cerca de 90 mil euros — 30 mil pela perda do direito à vida, 20 mil euros para a viúva e outros 20 mil para cada um dos dois filhos de Odair —, mais uma pensão de alimentos para a sua filha menor, no valor de 220 euros mensais, até ela atingir os 18 anos.

A família de Odair ficou revoltada com a sentença, e não custa perceber porquê: Bruno Pinto saiu em liberdade, e os juízes colocaram nas mãos da PSP a decisão sobre se ele deve ser expulso da polícia ou se lhe deve ser permitido regressar ao serviço. Mas se a revolta da família é compreensível, a decisão dos três juízes também o é. O colectivo que julgou o caso encontrou várias atenuantes na actuação de Bruno Pinto, que, aliás, já estavam assinaladas na acusação do Ministério Público: Odair Moniz conduzia com um nível de embriaguez muito elevado (bem acima do limite para crime), sem carta de condução válida, resistiu à detenção e envolveu-se em confrontos físicos com os agentes (deu uma pancada na face e um pontapé nas costas de Bruno Pinto). Bruno Pinto disparou duas vezes para o ar, mas Odair continuou a resistir. Foi então baleado a muito curta distância, primeiro no tórax e a seguir na virilha.

Terá sido racismo? O colectivo de juízes garante que não: “Não estamos, é importante realçar e deixar claro, perante um crime de ódio.” Os dois polícias não agiram por “preconceito”, mas para “concretizar uma detenção legítima”. A sua actuação foi correcta até ao momento dos disparos fatais, razão pela qual os juízes se decidiram pelo “excesso de legítima defesa”. Em Outubro de 2024, Bruno Pinto tinha 28 anos, mas estava há menos de dois anos ao serviço da PSP. Incapaz de gerir o stress do confronto, a sua acção contra Odair foi considerada pelos juízes como “desproporcional em relação ao mal contra si praticado” — daí a condenação.

Como escrevi nesta página em 2025, esta é uma tristíssima sequência de tragédias individuais. Tragédia, em primeiro lugar, para Odair e para a sua família. Mas tragédia também para Bruno Pinto, que não estava manifestamente preparado para lidar com a situação em que se viu envolvido. Às tragédias individuais seguiu-se a tragédia institucional, e essa não tem desculpa: uma faca plantada no local do crime, um relatório da ocorrência inventado, e um primeiro comunicado da PSP mentiroso. Isso é imperdoável. A PSP não só falhou no treino (ou na selecção) de Bruno Pinto, como alimentou o pior corporativismo policial ao inventar uma agressão “com recurso a arma branca” que nunca existiu para tentar safar um agente.

Esse comunicado e essa desculpa tiveram enormes responsabilidades na violência que alastrou pelos bairros da periferia de Lisboa, e que deram cabo da vida a um motorista da Carris. Ver agora o director nacional da PSP, Luís Carrilho, deixar uma “palavra de grande solidariedade” a Bruno Pinto, considerando que o tribunal provou que ele tentou “fazer o melhor”, dá-me a volta à tripa. Bruno Pinto errou gravemente. A PSP errou horrivelmente. E em vez de pedir desculpas à família de Odair e aos portugueses, Luís Carrilho preferiu exibir “solidariedade” e alimentar o mesmo corporativismo que desempenhou um papel trágico em toda esta história. Será que a PSP não aprende nada?

https://www.publico.pt/2026/06/18/opiniao/opiniao/solidariedade-sera-psp-nao-aprende-nada


quarta-feira, 17 de junho de 2026

(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...

 

2026 06 17 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra o colonialismo

Este mural em Orgosolo   aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.

O que está escrito?

O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:

"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"

Tradução:

"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"

(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).

Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.

Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:

1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu

Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.

Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:

"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."

Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."

2. A atribuição a Jomo Kenyatta

Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:

"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."

Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.

O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.

A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)

Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra

» Daniel Oliveira

Trump chegou ao mesmo sítio onde estava antes da guerra. O Irão sairá com 24 mil milhões desbloqueados, petróleo a fluir, urânio em casa com a promessa que sempre fez, um plano de reconstrução e controlo claro do Estreito de Ormuz. E Trump não tem apoio interno, aliados externos e argumentos para recomeçar a guerra daqui a dois meses. Israel tentou sabotar, não conseguiu e está mais isolado do que em qualquer momento desde a sua fundaçãov

Olhemos para o que parece estar em cima da mesa para ser assinado sexta-feira em Genebra. O Irão congela o programa nuclear no estado atual, mas o urânio altamente enriquecido fica no seu território e mantem-se a promessa genérica de não desenvolver a arma nuclear, que sempre existiu e muito provavelmente terá menos garantias do que Obama tinha conseguido e que Trump rasgou. Os EUA libertam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos bloqueados. Levantam as sanções ao petróleo. Comprometem-se a um plano de reconstrução. O programa de mísseis balísticos não parece estar na agenda. O financiamento ao Hezbollah e aos Houthis também não. E, depois destes meses, fica claro o controlo iraniano do Estreito de Ormuz. Um país que perde uma guerra não sai com estas condições.

O Irão chega a este acordo tem menos infraestrutura militar do que tinha em fevereiro, mas tem mais dinheiro, mais petróleo a vender e o mesmo urânio. Antes desta guerra, já tinha aceitado nas negociações mediadas por Omã nunca desenvolver arma nuclear. Trump rejeitou e atacou. Milhares de mortes e milhares de milhões de dólares depois, chegou ao lugar onde estava. A guerra serviu para quê? Para abrir o Estreito de Ormuz que estava aberto antes dela.

O acordo já favorável ao Irão dá-lhe agora 60 dias para se reorganizar, consolidar posições e tornar qualquer reinício de ataque politicamente inviável. A Europa já se comprometeu a levantar sanções. O Paquistão investiu o seu prestígio na mediação. Os aliados regionais dos EUA querem o petróleo a fluir. Trump não tem opinião pública, aliados e argumentos para recomeçar uma guerra que ele próprio declarou terminada no seu 80º aniversário. A ameaça de voltar a bombardear se não houver acordo em 60 dias não tem credibilidade.

A incógnita é Netanyahu, que puxou Trump para esta aventura, oferecendo-lhe uma derrota política internacional. E ainda tentou sabotar o acordo, atacando o sul do Líbano horas antes do anúncio. O acordo foi feito sem Israel, que não se sente vinculado a ele. Mas Netanyahu pode dar-se ao luxo de continuar a ofensiva no Líbano em rota de colisão com o financiador e aliado de que a sua própria existência depende? Poder, pode. Mas é um caminho perigoso.

Militarmente, Israel atingiu objetivos táticos — infraestrutura nuclear iraniana degradada, Hezbollah enfraquecido. Mas está numa posição política e estratégica que não tem paralelo desde a sua fundação. Fora do acordo que define o futuro do Médio Oriente, isolado da Europa, em tensão com Washington, odiado em quase todo o mundo (o apoio alemão custou a Merz o lugar no Conselho de Segurança da ONU). Nunca, desde 1948, Israel esteve tão só. As vitórias táticas desta guerra custaram-lhe um isolamento político sem precedentes. E isso, a prazo, é mais perigoso do que qualquer acordo nuclear.

https://expresso.pt/opiniao/2026-06-17-trump-perdeu-a-guerra-d1b9f334

terça-feira, 16 de junho de 2026

«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)

No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?

Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do 25 de Abril de 1974).

O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a maternidade.

Aqui tem a transcrição exata desse texto icónico:

O Texto: «A Emília»

A Emília

A Emília é uma menina muito asseada e muito prendada.

Já sabe varrer, já sabe espanar e ajuda a mãe a arrumar a casa.

— O que queres tu ser quando fores grande, Emília? — perguntou-lhe um dia o pai.

— Eu? Quero ser o que a mamã é: uma boa dona de casa.

O pai sorriu e disse-lhe:

— Se fores como a tua mãe, serás uma mulher de valor.

O Contexto da Época

Este texto não era um caso isolado. Nos manuais escolares da Ditadura, a divisão de papéis entre rapazes e raparigas era rigidamente delineada desde o primeiro ano de escolaridade:

  • As Raparigas (como a Emília): Eram representadas a brincar com bonecas, a costurar, a ajudar nas liras da casa e a aspirar a ser como as mães (donas de casa dedicadas e submissas).
  • Os Rapazes: Eram incentivados a ser audazes, a brincar com carrinhos ou ferramentas, e a aspirar a profissões ativas no exterior (médicos, engenheiros, marinheiros), assumindo o papel de "chefes de família".

Como ver a página original?

Se quiser ver a página digitalizada (com as ilustrações originais da Emília, que costumava aparecer com um avental ou uma vassoura na mão), pode fazê-lo de várias formas:

  1. Repositórios Digitais: O RCAAP (Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal) e a Biblioteca Nacional Digital têm teses de doutoramento e estudos sobre os "Manuais Escolares no Estado Novo" que incluem as imagens digitalizadas destas páginas.
  2. Museus da Educação: Locais como o Museu da Escola (em várias regiões do país) ou o Museu do Aljube (em Lisboa) têm exemplares físicos destes livros em exposição ou arquivos digitais para consulta.
  3. Plataformas de Venda/Colecionismo: Em sites como o OLX, CustoJusto ou em alfarrabistas, é muito comum encontrar à venda reedições (ou originais) do "Livro de Leitura da Primeira Classe" daquela época.

´´E possível aceder a uma imagem dessa página?

Sim, é perfeitamente possível ver a imagem dessa página real e das ilustrações que a acompanhavam. Embora eu não consiga exibir imagens diretamente no chat, existem locais exatos na internet onde pode consultá-la com apenas um clique.

A imagem original deste livro de leitura da primeira classe encontra-se amplamente preservada em arquivos históricos e estudos académicos. Pode aceder-lhes através das seguintes opções:

1. Repositórios de Manuais Escolares Antigos

A melhor forma de ver a página digitalizada (geralmente a cores, com o desenho da Emília) é através do projeto Memória de África e do Oriente da Fundação Portugal-África, em parceria com a Universidade de Aveiro. Eles possuem um arquivo histórico monumental de manuais escolares do Estado Novo.

  • Onde procurar: No motor de busca do site deles, pesquise por "Livro de Leitura da Primeira Classe". Conseguirá folhear digitalmente o livro inteiro, página por página.

2. O Arquivo Ephemera (de José Pacheco Pereira)

O Ephemera é o maior arquivo privado de história política e social de Portugal e tem uma secção inteiramente dedicada à educação, infância e propaganda no Estado Novo.

  • Como aceder: No site oficial do Ephemera, pesquise na barra de busca pelos termos: "Livro de Leitura" "1ª classe" ou "Cartilhas Estado Novo". Estão lá dezenas de fotografias e digitalizações em alta resolução das páginas destes livros, incluindo os textos dedicados às "prendas domésticas" das meninas.

3. Dissertações Académicas (Acesso Livre)

Como este texto é um objeto de estudo muito comum em teses sobre a igualdade de género e a história da educação, a página está digitalizada em vários PDFs universitários:

  • Se pesquisar no Google por: Estudo dos Manuais Escolares do Estado Novo género pdf, encontrará teses do RCAAP (Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal) da Universidade de Lisboa ou da Universidade do Minho. Nos anexos destas teses, os autores incluem frequentemente os "scans" exatos destas páginas para provar a tese da doutrinação ideológica da época.

O que vai encontrar na imagem:

Visualmente, a página segue a estética típica desenhada por ilustradores da época (como os célebres Raquel Roque Gameiro ou Maria Keil, que chegaram a ilustrar livros escolares). A Emília surge representada como uma menina de traços doces, vestindo um avental impecável sobre o vestido, frequentemente a segurar uma pequena vassoura ou um espanador de penas, com um ar feliz por estar a realizar as tarefas domésticas ao lado de uma imagem idealizada da mãe. (AI Overview e Google Gemini)

Bruno Amaral de Carvalho - Relembrando Odair Moniz e tantos outros


* Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/06/2026, Revisão da Estátua)

Acanção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.

Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.

Nesta manta de retalhos, os primeiros a viver em barracas ou a construir as primeiras casas clandestinamente foram os portugueses. Se ninguém se atreve a pedir a demolição da Brandoa, que chegou a ser o maior bairro clandestino da Europa, é tão simplesmente porque é habitada maioritariamente por brancos. A Cova da Moura tem as mesmas características e é alvo das campanhas mais miseráveis tão somente porque a maioria da sua população é negra.

Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. É lembrar-me de todos os jovens que foram assassinados pela polícia na Amadora, alguns deles ainda crianças à queima-roupa. Ou de como espancaram Cláudia Simões apenas porque se indignou porque a filha se tinha esquecido do passe em casa. Ou de como levaram vários amigos meus para a esquadra de Alfragide e os torturaram durante dias dizendo que eram macacos e que deviam estar em África.

Também me lembro de como a polícia carregou sobre os operários da Sorefame e da MB Pereira da Costa quando lutavam pelos seus postos de trabalho. Podia andar mais para trás e recordar como a PIDE perseguiu e torturou comunistas e antifascistas que se escondiam na Amadora.

 Ou seja, infelizmente, a polícia tem cumprido o seu papel histórico: defender os interesses dos mais fortes. Muitos chegam à minha cidade vindos de regiões remotas sem nunca terem tido contacto com uma realidade parecida. Geralmente, os piores classificados dos concursos da PSP vêm parar à Amadora.

É aqui que crescem os ‘rambos’ alimentados a esteroides e cocaína com vontade de replicar a violência policial que veem nas séries americanas contra a população local.

Não há dúvida de que todos queremos viver em paz, mas tenho uma má notícia. A criminalidade não acaba com mais polícia. Acaba com mais acesso a educação, cultura, melhores salários, saúde e políticas públicas que promovam a interação social e comunitária.

A polícia devia estar onde se cometem os crimes mais graves: nos gabinetes dos administradores dos grandes grupos económicos e financeiros, nas sedes dos partidos que se deixam comprar pelos interesses dos mais ricos e nos órgãos de comunicação social que promovem o racismo e a discriminação de classe.

https://estatuadesal.com/2026/06/16/relembrando-odair-moniz-e-tantos-outros/

***

O mural presta homenagem a Odair Moniz e a outros três jovens do bairro que faleceram precocemente. Aqui estão os detalhes sobre a obra:

  • Autor: O mural foi pintado pelo artista urbano Das Neves, integrado com o apoio do projeto local ZambujArte.

  • Onde se situa: Está localizado numa das empenas de habitação social no Bairro do Zambujal, na freguesia de Alfragide, concelho da Amadora.

  • Quando foi inaugurado: Foi oficialmente inaugurado no dia 18 de outubro de 2025, numa iniciativa promovida por moradores e pelo movimento Vida Justa que incluiu também concertos e um almoço comunitário.  (Google Gemini)

(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

 


2026 06 16 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - luta de classes e Don Lorenzo Milani

Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.

O que está escrito?

O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:

"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"

Tradução:

"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."

O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.

Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.

Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:

Texto Original (Em Italiano)

"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.

Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).

È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.

Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranieri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."

Tradução em Português

"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.

Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).

Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.

Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

A história da caça às minorias que se viveu na última semana é relativamente simples de contar. Um requerente de asilo sudanês, a quem fora concedida autorização de permanência no Reino Unido, foi responsável por um ataque à faca de rara brutalidade. A vítima, um homem na casa dos 40 anos, perdeu um olho e testemunhas falaram de uma tentativa de decapitação. O crime exige mão rápida e pesada.

É o tipo de crime que a extrema-direita adora para espalhar a culpa e a vingança por associação. Não quer saber da vítima e até ignorou os familiares que pediram para “não se politizar” o ataque. Quer combustível para o ódio. Em poucas horas, foram publicadas listas com moradas de imigrantes e de advogados de imigração nas redes sociais. Homens mascarados arrombaram portas para “libertar” as casas. Enfermeiras de minorias étnicas foram arrancadas dos carros a caminho do trabalho. O ano passado já tinha acontecido algo parecido, depois de uma acusação de violação contra jovens romenos.

Na véspera da oferta pública em Wall Street que o tornou o homem mais rico do planeta — uma fortuna equivalente a tudo o que o nosso país produz em três anos —, o que ocupou o tempo de Elon Musk não foi a SpaceX. Foi Belfast. Mais de cem tweets em quatro dias. Partilhou o apelo a protestos por todo o país, lançado pelo ativista britânico de extrema-direita, Tommy Robinson, sabendo muito bem que acabariam em violência. Continuou a dar palco a Rupert Lowe, líder de um partido sem qualquer exposição até Musk o promover, que defende deportações em massa, a proibição do abate halal kosher e a reposição da pena de morte. Amplificou Matt Goodwin, outra figura marginal. Difundiu listas com dezenas de locais para protestos-relâmpago e acrescentou a sua própria instrução: “só protestando REPETIDAMENTE e RUIDOSAMENTE haverá mudança”.

Segundo o Center for Countering Digital Hate, Musk amplificou as imagens da violência de Belfast até elas somarem mais de 64 milhões de visualizações. Musk não é um nome lateral nestes protestos. É um dos seus maiores instigadores e promotores.

Elon Musk não vive no Reino Unido. O mais certo é não conhecer Belfast e as suas camadas de história. Mas sabe, como Trump, que cada país pode ser usado como cenário para a sua guerra ideológica. O multiculturalismo, os direitos, os tribunais, os requerentes de asilo, a BBC, os governos liberais, tudo é apresentado como prova de uma civilização que se odeia a si própria. Não é por acaso que Ventura partilha um sem número de falsidades internacionais, como a que Amesterdão proibiu a publicidade a carne no espaço público para não ofender muçulmanos. A imagem de caos e dissolução das sociedades é central na propagação do medo e ressentimento que alimenta a sua mensagem.

A violência sectária recuou, mas as estruturas que a alimentaram não desapareceramEm alguns bairros, antigas redes paramilitares protestantes, antes viradas contra católicos, encontraram novos alvos. A organização, a intimidação, o controlo territorial, a capacidade de mobilizar jovens, tudo isso já lá estava. Mudou o inimigo. O imigrante, o muçulmano, o requerente de asilo, o não branco, o advogado que o defende. A violência sectária apenas mudou de alvo para continuar a demonstrar quem manda no bairro.

O que ardeu em Belfast tem um nome que a Europa devia conhecer de cor, porque o escreveu com o seu próprio sangue: pogrom. Casas marcadas, famílias expulsas, multidões a “limpar” bairros, minorias transformadas em ameaça comum.

As redes sociais não inventaram a propaganda do ódio. As máquinas que normalizaram o extermínio dos judeus não precisaram de algoritmos. A diferença é que a mentira viaja à velocidade da luz e não conhece fronteiras. As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional. Representam a concentração sem precedentes históricos dos fluxos informativos, nas mãos de três ou quatro pessoas. São elas que, através do algoritmo, decidem o que vemos, o que se repete, o que parece ameaça e o que é escondido. Sem transparência, sem controlo democrático e com um incentivo estrutural para amplificar o que nos torna piores. O ódio é rentável porque é partilhável. E a violência e o medo do caos são sempre excelentes conteúdos.

As democracias são frágeis quando a desigualdade volta a ser obscena, o custo de vida esmaga classes médias atormentadas por sucessivas crises inflacionistas. É o caldo perfeito para a extrema-direita. O ressentimento nasce de uma vida material em degradação, de instituições desacreditadas, de um sistema de poder onde sentimento que o voto conta cada vez menos nas decisões que efetivamente contam. E tem o mais poderoso dos aliados: a elite das big tech. Os mesmos que, sentados numa concentração sem paralelo, se aliaram a Trump para fazer frente às tentativas de regulação da União Europeia e lhes permitir carta-branca para as suas explorações na nova fronteira tecnológica, a Inteligência Artificial.

O primeiro-ministro britânico fez alusões, mais ou menos veladas, a Musk quando falou na perseguição legal dos autores morais dos distúrbios racistas. O empresário sul-africano respondeu como sempre, dizendo que Starmer “odeia brancos”. Musk é um dos rostos mais perigosos desta convergência entre riqueza extrema, poder tecnológico e autoritarismo cultural. Não é excêntrico ou provocador. É o proprietário de uma máquina global de influência que usa para promover forças interessadas em tornar a democracia ingovernável.

Numa coisa, Musk tem razão: Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Quando um trilionário consegue exportar ódio para um país que desconhece e antigas paramilícias encontram nas redes sociais uma nova logística para os seus pogroms, temos um problema existencial no coração da democracia. Ou os governos europeus tomam a sério a regulação das redes sociais ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

 2026 Junho15

https://expresso.pt/opiniao/2026-06-15-o-trilionario-que-promove-pogrom