sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Do centro-esquerda aos anarquistas: por dentro das Acampadas de Lisboa e do Porto

Além de um protesto pela habitação, as acampadas de Lisboa e do Porto tornaram-se uma experiência quotidiana de organização coletiva. Entre assembleias, grupos de trabalho, cantinas populares, atividades culturais e decisões tomadas em comum, centenas de participantes mantêm vivos espaços que funcionam, ao mesmo tempo, como forma de reivindicação e comunidade~

* André Manuel Correia, Jornalista / Cláudia Monarca Almeida. Jornalista / , Jornalista

É terça-feira, 3 de novembro, e a proposta vai a votos: devem pessoas com cargos políticos, públicos ou partidários integrar a mesa da assembleia popular? Antes de saber a escolha das várias centenas de pessoas reunidas no Rossio, os moderadores, que assumem a função de forma rotativa, convidam a vir à frente os defensores e detratores da ideia. De um lado, argumenta-se que há “conflito de interesses” e que os porta-vozes da mesa devem ser “imparciais”, do outro, que o impedimento pode “criar mais divisões dentro do movimento do que aquelas que o Governo tem criado”. Entre estes últimos está Bruno Cancelinha, “dirigente de um partido pequeno”, o Trabalhadores Unidos, fundado por Renata Cambra. Na hora de votar, os braços erguidos pela possibilidade de qualquer pessoa estar na mesa da assembleia são uma esmagadora maioria.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Manuel da Fonseca - Domingo

* Manuel da Fonseca

Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
‑ porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...

Manuel Gusmão - AO ENCONTRO DO ENCONTRO

* Manuel Gusmão

para que eu pudesse fazer o meu caminho pelo
caminho comum e partilhar o tempo
a invenção, o desejo, o trabalho e a luta por
uma terra sem amos

para que nas histórias lidas desde a infância
eu aprendesse a descobrir os meus
a articular aquelas palavras
sobre as quais o confronto ainda não terminou
e assim nos movem

para que eu pudesse sentir-me esperado sobre
esta terra tão dilacerantemente bela
e tão insuportavelmente devastada

para que tendo aprendido a falar eu tivesse
podido encontrar os outros na minha língua

para que eu pudesse olhar, estender as mãos
e encontrar o corpo do mundo
como a minha tarefa comum

para que eu viesse e pudesse chegar a esta reunião contínua
esta assembleia de homens
explorados e livres, oprimidos e
livres

foi necessário que a convocatória chegasse até mim
foi necessário que eles continuassem reunidos e me esperassem
foi necessário que tu tivesses vindo e chegado antes
que te tivessem acolhido e te tivessem transformado o nome próprio
em nome comum

Manuel António Pina - Como se desenha uma casa


* Manuel António Pina

Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

(109) - Mao Zedong e Ho Chi Minh

 


* Victor Nogueira / Gemini

Este mural retrata a união solidária e a cooperação de trabalho entre as Forças Armadas/Militares e o Povo (Trabalhadores e Camponeses). Escrito em laociano está a frase «ຄວາມສຳພັນລະຫວ່າງທະຫານ ແລະ ປະຊາຊົນປຽບເໝືອນປາກັບນ້ຳ», cuja tradução é «A relação entre o exército e o povo é como a do peixe com a água.»

A inscrição do mural laociano — «A relação entre o exército e o povo é como a do peixe com a água» — recupera uma das metáforas centrais das doutrinas de mobilização popular do Sudeste Asiático e da Ásia Oriental. Formada conceptualmente por Mao Zedong (1937) e adaptada e popularizada no Sudeste Asiático por Hồ Chí Minh (1951), a fórmula expressa a dependência umbilical entre as forças armadas e a população civil, tendo sido absorvida como lema oficial pelo Pathet Lao no Laos.


Esta célebre máxima de guerra popular (originalmente de Mao Tse-Tung, foi adaptada pelas forças revolucionárias do Pathet Lao/Lao PDR): as forças armadas ("peixe") não podem sobreviver nem operar sem o apoio direto do povo ("água").

A metáfora original de Mao Zedong provém do seu clássico ensaio político-militar de 1937, Sobre a Guerra de Guerrilhas (Lun Youji Zhan / On Guerrilla Warfare).

No Capítulo 6 dessa obra («A Relação entre a Guerrilha e o Povo»), Mao desenvolve o conceito da guerra popular e cunha a célebre analogia:

«Existem aqueles que não compreendem por que razão o exército e o povo devem ser um só. Podemos usar a metáfora do peixe e da água para ilustrar essa relação. As forças armadas são o peixe e a população é a água. Como poderia um peixe viver ou mover-se fora da água?

Quando as tropas de guerrilha tentam isolar-se do povo ou desrespeitar os seus interesses, tornam-se como um peixe fora de água — a sua sobrevivência torna-se impossível e a derrota é inevitável. Apenas através de uma disciplina rigorosa, do respeito pelas populações locais e de uma causa comum se garante a simpatia e o apoio ativo das massas, indispensáveis à vitória.»

Hồ Chí Minh utilizou repetidamente esta mesma analogia e princípios semelhantes nos seus escritos políticos e militares dedicados à guerra de guerrilha e à mobilização do povo vietnamita (nos movimentos contra os franceses e, mais tarde, contra os americanos).

Embora a formulação sistemática mais famosa da metáfora «o exército é o peixe e o povo é a água» seja frequentemente atribuída a Mao Zedong (pela proximidade ideológica e estratégica da altura), os líderes vietnamitas — incluindo Hồ Chí Minh e o General Võ Nguyên Giáp — adotaram-na e integraram-na plenamente no vocabulário político do Vietname.

Hồ Chí Minh utilizou repetidamente esta mesma analogia e princípios semelhantes nos seus escritos políticos e militares dedicados à guerra de guerrilha e à mobilização do povo vietnamita (nos movimentos contra os franceses e, mais tarde, contra os americanos).

Em vários discursos, directrizes e escritos reunidos nas suas obras completas (focadas na Guerra do Povo e na Unidade Nacional), Hồ Chí Minh sublinhava constantemente que as forças armadas revolucionárias nascem do povo, lutam pelo povo e só sobrevivem com o apoio incondicional das massas populares, usando exatamente esta imagem orgânica da ligação vital entre combatentes e população. 

Huấn thị (Directiva / Discurso) pronunciado na Conferência de Balanço da Campanha da Rota nº 18, publicado a 4 de Maio de 1951 (Obras Completas de Hồ Chí Minh):

«O povo é como a água e o exército é como o peixe. É preciso agir de forma a que o povo ajude as forças armadas com todas as suas forças; só assim seremos capazes de derrotar o inimigo.

O nosso exército vem do povo e luta pelo povo. O exército e o povo são como o peixe e a água: unidos por um só coração, aprendendo e ajudando-se mutuamente. O povo é a base e o sustento dos soldados. Se o exército se afastar do povo, perde a sua força e a sua razão de ser.»

António Santos - Se isto é uma democracia


* António Santos

Ch­rista Gail Pike tinha 18 anos quando matou uma co­lega. Nunca o negou. Foi há 31 anos e não es­ta­remos a jus­ti­ficar nada se dis­sermos que Ch­rista era uma miúda sem fa­mília, ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada desde os 12 anos, o que não a salvou do abuso se­xual, da po­breza e do aban­dono. Ex­plicar não é jus­ti­ficar, mas há coisas in­jus­ti­fi­cá­veis que também são inex­pli­cá­veis, como o Es­tado do Ten­nessee, nos EUA, mu­nido dos meios in­fi­nitos do país mais rico do mundo e ape­tre­chado de todo o co­nhe­ci­mento dis­po­nível na hu­ma­ni­dade, ter-se de­di­cado a tor­turar Ch­rista Pike du­rante três horas, ten­tando as­sas­siná-la com o me­lhor cock­tail de ve­nenos in­ven­tados pelos me­lhores ci­en­tistas e ad­mi­nis­trado pelos me­lhores mé­dicos (sim, mé­dicos) para, no final, ad­mitir, esse mesmo Es­tado, que fa­lhou no in­tuito de matar uma mu­lher atada a uma cama.

Um mês vol­vido sobre o crime do re­gime, foram di­vul­gados os por­me­nores da ten­ta­tiva de exe­cução de Ch­rista. A equipa mé­dica de­morou quase 50 mi­nutos até en­con­trar uma veia. Es­pe­taram-lhe nos dois braços, pode ler-se no re­la­tório mé­dico, um total de dez agu­lhas. Quando o pen­to­bar­bital co­meçou fi­nal­mente a correr-lhe no sangue, Ch­rista co­meçou a gritar de dores, de­bateu-se vi­o­len­ta­mente contra as cor­reias que a pren­diam, chorou muito, urinou, de­fecou e re­petiu muitas vezes «o meu braço vai ex­plodir», mas também vo­mitou, en­gasgou-se e co­meçou a su­focar, só não morreu. Então, já pas­sadas duas horas de tor­tura, os mé­dicos deram-lhe uma se­gunda in­jecção de ve­neno, que pro­duziu todos os efeitos an­te­ri­ores e ou­tros novos, como for­marem-se-lhe grandes bolbos na pele, san­grar pelos olhos, nariz e boca e ficar com todo o corpo tão in­chado que os mé­dicos cor­reram as cor­tinas para que não se visse mais o es­pec­tá­culo. O ad­vo­gado, que até aqui havia as­sis­tido a tudo, ga­rante que pon­de­raram dar-lhe uma ter­ceira in­jecção, mas os seus pro­testos sur­tiram algum efeito, porque a equipa mé­dica terá te­mido que uma ter­ceira ten­ta­tiva fosse ju­di­ci­al­mente con­si­de­rada «pu­nição cruel ou in­vulgar». Quando chegou a um hos­pital, onde havia mé­dicos dos que salvam e não dos que matam, che­garam a de­clará-la em morte ce­re­bral, mas, em de­safio à sen­tença do Es­tado do Ten­nessee, Ch­rista acordou. Esta se­mana, trans­mitiu ao seu ad­vo­gado estas pa­la­vras: «Ainda não houve um mo­mento desde aquela noite em que não tenha es­tado com dores. Todo o meu corpo dói. Ainda me custa falar. Estou to­tal­mente so­zinha.» Ch­rista Pike, que passou 29 anos se­guidos iso­lada no con­fi­na­mento da so­li­tária, outra forma de tor­tura, foi tor­tu­rada com duas in­jec­ções de ve­neno. Agora, o Es­tado do Ten­nessee pre­para-se para tentar matá-la pela ter­ceira vez.

O que fa­lhou nesta his­tória? Os quí­micos? Os mé­dicos? As ins­ti­tui­ções que há 40 anos não sou­beram pro­teger uma cri­ança aban­do­nada? Um re­gime em que os can­di­datos a go­ver­nador fazem cam­panha com a pro­messa de exe­cutar esta mu­lher? Um sis­tema que dis­cute se se de­veria ou não trans­mitir em di­recto as exe­cu­ções que faz o Es­tado como forma de en­tre­te­ni­mento? Uma so­ci­e­dade que cria as­sas­sinos no vi­veiro da vi­o­lência para de­pois os as­sas­sinar da forma mais cruel pos­sível? Em 2025 exe­cu­taram-se 47 pes­soas nos EUA: o nú­mero mais alto desde 2009. Este ano já vão 33.

Primo Levi per­gun­tava-se, desde Aus­chwitz, «se isto é um homem» e todos sa­bemos o que é «isto». Po­demos per­guntar, com a mesma ur­gência, se isto é uma de­mo­cracia.

Avante n.º 2762 (5/11/2026)

Margarida Botelho - «Só queria os pais menos cansados»


* Margarida Botelho

“Por­tugal a Brincar” é o nome do es­tudo da Es­cola Su­pe­rior de Edu­cação de Coimbra e do “Es­trelas e Ou­riços”, que en­volveu pais de miúdos até aos 12 anos e en­tre­vistou cri­anças do quarto ano de es­co­la­ri­dade sobre como se brinca no nosso país. As res­postas são re­ve­la­doras: me­tade brinca so­bre­tudo so­zinha, porque a mai­oria das fa­mí­lias só tem um filho; 65% brincam sempre em casa, sem acesso ao es­paço ex­te­rior; 40,6% dos pais acusam «falta de energia de­vido à ele­vada carga de tra­balho diária», en­quanto 27,7% dizem ter ho­rá­rios in­com­pa­tí­veis com os das cri­anças.

Também fi­camos a saber como se brinca na es­cola: na creche e no pré-es­colar, 66,6% das cri­anças brincam a tempo in­teiro; 75,8% das cri­anças do pri­meiro ciclo e 87,9% das do se­gundo só brincam no re­creio. Se pen­sarmos que os in­ter­valos no pri­meiro ciclo são meia hora de manhã, que no se­gundo ciclo são de 10 mi­nutos (às vezes cinco), que também devem servir para comer e ir à casa de banho, que os re­creios em geral são es­paços cin­zentos e cheios de proi­bi­ções, fi­camos com a cer­teza que muita coisa está er­rada. Brincar no re­creio não é uma dis­tracção, nem uma re­com­pensa: tem uma função pe­da­gó­gica es­sen­cial, fun­da­mental para manter afiada a fer­ra­menta mais im­por­tante para aprender, que é ter cu­ri­o­si­dade e prazer em des­co­brir.

As cri­anças in­qui­ridas dizem que brincam o dobro do que os pais acham. Não querem mais brin­quedos, nem es­paços es­pe­ciais: «só queria os pais menos can­sados» foi a res­posta que mais se re­petiu. Brincar é um com­por­ta­mento inato, es­sen­cial para o de­sen­vol­vi­mento motor, cog­ni­tivo e emo­ci­onal, e as cri­anças sabem en­con­trar es­paço, cri­a­ti­vi­dade e tempo para brincar. Dizem por ou­tras pa­la­vras que pre­cisam dos pais emo­ci­o­nal­mente bem, sem es­tarem sempre a correr, a pensar nas contas e no fim do mês. Re­solva-se o que é bá­sico – sa­lá­rios, tempos de tra­balho, casa, es­cola, saúde – e as cri­anças brin­carão me­lhor.

Avante n.º 2762 (5/11/2026)

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Prabhat Patnaik - A guerra do neofascismo contra a educação


Prabhat Patnaik [*]



A única área da vida social que o neofascismo procura destruir de forma específica, obstinada e descarada é a educação. Não se trata apenas de ignorar a educação, ou de a privatizar e privá-la de fundos públicos; trata-se de uma destruição deliberada e intencional.

A atitude do neofascismo a este respeito é diametralmente oposta à da Esquerda, especialmente dos comunistas. O país está repleto de inúmeras instituições de ensino fundadas originalmente por líderes comunistas. Havia uma crença sincera entre os comunistas pioneiros de que, se as pessoas fossem educadas, seriam quase naturalmente atraídas para o comunismo, que era visto como a expressão máxima da consciência social. Esta crença, aliada à convicção de que, para apreciar o comunismo, era necessário compreender não só a sociedade burguesa, mas também a teoria burguesa, traduziu-se numa paixão geral pela educação (e não apenas numa promoção sectária da própria ideologia). Esta paixão pela educação em geral distinguiu os comunistas da maioria dos outros durante a luta anticolonial.

Manuel Loff - A “guerra civil”


No dia em que uma vitrina for quebrada, serão todos chamados “ladrões”. Um pouco mais e “terroristas”.   

 * Manuel Loff

Esperar pela madrugada para, enquanto a cidade dorme, soltar os cães e carregar sobre manifestantes. Um clássico. Cerca de cem feridos no somatório das várias cargas policiais em Lisboa e no Porto desde o dia 15. E cada nova carga policial produz mais feridos que a anterior; 38 só no domingo, no Porto. O que percebemos nestes 20 dias é que a violência policial é completamente independente da natureza do protesto e do perfil dos manifestantes pelo direito à habitação. Na madrugada de domingo passado, as primeiras vítimas, no Porto, foram as Mães pela Acampada, “sentadas na linha da frente a cantar”. Duas foram presas, entre as dezenas de detidos que se vêm somando – a tal ponto que a Provedoria de Justiça enviou à última manifestação de Lisboa uma equipa do Mecanismo Nacional de Prevenção para verificar os procedimentos da PSP. Num caso, em Lisboa, só a intervenção dos seus membros permitiu que um manifestante ferido fosse socorrido pela própria acampada.   

domingo, 1 de novembro de 2026

El Hadj Mohamed Brahim - A extrema-direita na Europa: quando a ira social é desviada


– O imigrante não determina os salários. Não decide sobre os despedimentos. Não fecha as fábricas nem deslocaliza as empresas. Não é dono dos grandes grupos industriais nem controla os bancos.
– A extrema-direita não cria necessariamente a raiva. Dá-lhe uma orientação reacionária.

*  El Hadj Mohamed Brahim [*]


Ventura atiça o ódio e procura bodes expiatórios para a crise.

A extrema-direita está a ganhar terreno na Europa. Na Alemanha, o peso eleitoral da AfD é uma das manifestações mais visíveis desse fenómeno. Em vários outros países, forças nacionalistas, xenófobas e autoritárias estão a ganhar terreno, explorando o descontentamento de uma parte crescente da população.

Esta ascensão é frequentemente explicada pelo aumento do racismo, pelo medo da imigração, pelo nacionalismo, pela desinformação ou ainda pela influência de líderes populistas. Estes fenómenos existem, sem dúvida. Mas não bastam para explicar por que razão a extrema-direita encontra hoje um terreno tão favorável. Para compreender esta evolução, é preciso partir da realidade social.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Luís Aguiar-Conraria - Capangas do ministro?

* Luís Aguiar-Conraria

Professor de Economia da Universidade do Minho

Num Estado decente não se agridem manifestantes que não estão a estragar nada, que não representam nenhum perigo relevante
 
29 outubro 2026

Escolha o Expresso como fonte preferida no Google
Oartigo 18º, nº 2, da Constituição estabelece: “A lei só pode restringir os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição.” Os direitos, liberdades e garantias constitucionais estão elencados nos artigos 24º a 57º. O artigo 45º tem apenas dois números: (1) “Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização” e (2) “A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação”. Nenhuma restrição é prevista, pelo que, dita a lógica, uma lei não pode restringir este direito.

Miguel Sousa Tavares - Bloqueados


'Bloqueados' - Ilustração Hugo Pinto

* Miguel Sousa Tavares

Tal como os lenços palestinianos não ajudam em nada a causa palestiniana ou a da habitação, também os discursos contra o “rentismo” soam 
muito bonitos mas só agravarão as coisas

Visto que há 15 dias que o país — ou a imprensa, melhor dizendo — não fala de outra coisa além dos acampados do Porto e Lisboa, vamos lá, então. E serenamente, se é que isso fará alguma diferença.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Vasco Cardoso - As imagens de Paris e Lisboa e o desejo mediático pelo “confronto”

* Vasco Cardoso

Es­tará por provar que as in­ter­mi­ná­veis horas de di­rectos te­le­vi­sivos sejam a forma mais ri­go­rosa e es­cla­re­ce­dora de in­formar os te­les­pec­ta­dores. Re­lembro, entre ou­tros exem­plos, a ine­nar­rável co­ber­tura dada ao “re­fluxo” de André Ven­tura em plena cam­panha elei­toral, acom­pa­nhada a par e passo por todas as te­le­vi­sões com os re­sul­tados que se ima­gina. Mas nestes tempos de de­sin­for­mação, esse tipo de co­ber­tura no­ti­ciosa as­sumiu-se como regra, fa­ci­li­tando não poucas vezes a ma­ni­pu­lação de opi­niões, seja de forma subtil, seja de forma gros­seira. Foi o que acon­teceu no pas­sado sá­bado (já tinha acon­te­cido antes), com os cinco ca­nais de te­le­visão a exi­birem du­rante toda a tarde ima­gens das lutas pela ha­bi­tação que de­cor­riam em Por­tugal e, ao mesmo tempo, ima­gens a partir de Paris, par­ti­cu­lar­mente as que en­vol­viam con­fron­tação e a acção da po­lícia.

A mis­tura destas duas re­a­li­dades bas­tante dis­tintas no mesmo ecrã é tudo menos ino­cente. Visou trans­mitir uma ideia de caos e con­fronto que ob­jec­ti­va­mente não se tem ve­ri­fi­cado nas lutas pelo di­reito à ha­bi­tação em Por­tugal. À falta de me­lhor, os ca­nais de te­le­visão de­ci­diram im­portar ima­gens de França para fa­bricar uma re­a­li­dade pa­ra­lela.

A dis­puta pelas au­di­ên­cias – apa­ren­te­mente ex­ci­tadas pela vi­o­lência – é uma ex­pli­cação de­ma­siado curta para esta bi­zarria. Na ver­dade, há um evi­dente pro­pó­sito po­lí­tico por de­trás destas ima­gens. Desde logo, pre­parar o ter­reno junto da opi­nião pú­blica para in­ter­ven­ções da po­lícia des­pro­por­ci­o­nadas como as que acon­te­ceram na ma­dru­gada de sá­bado no Rossio, e já antes ti­nham acon­te­cido no Porto. Mas so­bre­tudo, des­viar as aten­ções dos pro­blemas da ha­bi­tação e da ne­ces­sária res­posta que o Go­verno se re­cusa a dar, para uma abor­dagem de cariz re­ac­ci­o­nário ques­ti­o­nando o di­reito de ma­ni­fes­tação e ou­tras li­ber­dades de­mo­crá­ticas que o povo con­quistou com Abril. É para aí que o go­verno PSD/​CDS, que o Chega e a IL, querem ar­rastar a dis­cussão. Uma ar­ma­dilha que também in­te­ressa ao grande ca­pital, à banca, aos fundos imo­bi­liá­rios que estão a lu­crar mi­lhões com a crise no acesso à ha­bi­tação.

Avante n.º 2761 (29/10/2026)

Ricardo Araújo Pereira - Os perigosos cabeças-rachada


Cartoon Luís Fazenda - O perigosos cabeças-rachada 



* Ricardo Araújo Pereira

A crise da habitação é tão grave que até no debate sobre habitação falta habitação

A constituição garante o direito de manifestação. Sim, mas há uma lei de 1974 que proíbe as manifestações de continuarem depois da meia-noite e meia. Sim, mas essa lei é provavelmente inconstitucional. Sim, mas nunca foi contestada antes. Sim, mas tem sido ignorada pelas autoridades dezenas de vezes em protestos anteriores, nos quais os manifestantes não foram intimados a desmobilizar apesar de se manterem no espaço público durante a noite. Sim, mas essas eram manifestações de pessoas dignas como bombeiros, polícias e chefes de cozinha, ao passo que nesta os manifestantes não têm profissão definida, além de que alguns usam brincos onde Deus não quis que brincos fossem usados. Sim, mas os protestos têm sido pacíficos, incluindo iniciativas tão perigosas como bordados colectivos, ioga e danças. Sim, mas eu vi uma entrevista a um manifestante em que ele dizia que o objectivo era destruir o sistema. Sim, mas era um no meio dos milhares que se manifestam dormindo em conchinha, além de que esse discurso de destruição do sistema é muito parecido com o de certos partidos sobre cujos dirigentes a polícia não carrega à bastonada, mostrando assim que considera menos ameaçadores os cabeças-rapadas do que os cabeças-rachadas. Sim, mas a polícia actuou para repor a ordem. Sim, mas não havia desordem, tanto que um manifestante que começou uma pichagem sobre o primeiro-ministro numa estátua foi vaiado e forçado a parar pelos outros manifestantes. Sim, mas os manifestantes instalam tendas nas praças sem o licenciamento próprio. Sim, mas as tendas não são verdadeiramente tendas, são símbolos de um protesto que além disso é justo, dado que parece ser consensual que a situação da habitação é insustentável. Sim, mas não se pode dizer que nada esteja a ser feito, até porque no parlamento foi convocado um debate de urgência sobre habitação. Sim, mas nesse debate de urgência discutiu-se sobretudo a legitimidade do debate de urgência, uma vez que o regimento autoriza apenas um debate de urgência por quinzena, e havia discordâncias profundas acerca do significado da palavra quinzena. Sim, mas os jovens também não parecem muito dispostos a fazer os sacrifícios que os nossos pais e avós fizeram para ter habitação. Sim, mas fazendo as contas ao valor do salário médio e da renda média em Portugal não sobra muito dinheiro para comer, pelo que o que se pede aos jovens é de facto um sacrifício, mas não no sentido de abnegação e sim de imolação, como na frase “o cordeiro foi oferecido em sacrifício ao senhorio”.


 
A crise da habitação é tão grave que até no debate sobre habitação falta habitação.

Expresso 29 Outubro 2026

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ricardo Graça - Quem controla a informação em Portugal



*  Ricardo Graça

Todos os dias, milhões de portugueses ligam a televisão, abrem o telemóvel ou folheiam um jornal a pensar que estão a ser informados. Mas não estão! Estão a receber uma versão da realidade escolhida por um punhado de pessoas que a maioria nunca ouviu falar.

Em Portugal, quase toda a informação que chega ao cidadão passa por três ou quatro grupos privados. A Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, detém a SIC e o Expresso. A Media Capital, controlada pelo empresário Mário Ferreira, dono da Douro Azul, detém a TVI e a CNN Portugal. A Medialivre, antigo grupo Cofina, detém o Correio da Manhã, a CMTV, o Jornal de Negócios e a Record. A Global Media, detém o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e a TSF. E depois há a RTP, que é pública, financiada com dinheiro dos contribuintes, e que muda de direcção cada vez que muda o Governo.

E a concentração não pára. Pelo contrário, acelera. A Cofina tentou comprar a Media Capital. A família Berlusconi negociou a compra da Impresa. Os grupos compram-se, fundem-se, absorvem-se. Cada fusão significa menos vozes. Cada aquisição significa menos pluralidade. E cada despedimento numa redacção significa menos olhos a vigiar quem precisa de ser vigiado.

Toda a informação que o país consome é filtrada por meia dúzia de grupos, controlados por meia dúzia de pessoas, com meia dúzia de interesses. Não é teoria. É facto. Está publicado e basta uma simples pesquisa na internet.

Manuel Brito - AGITADORES PROFISSIONAIS. QUEM SÃO E QUEM LHES PAGA?




* Manuel Brito

A propósito das recentes manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, vários responsáveis políticos e comentadores têm recorrido com insistência à expressão «agitadores profissionais» para explicar os momentos de tensão e os confrontos com as forças policiais. Quase sempre, a expressão vem acompanhada de um rótulo: seriam elementos da esquerda radical.

A fórmula merece alguma consideração. Se são profissionais, quem os contrata? Quem lhes paga, e para quem trabalham? Que provas existem de uma atuação organizada? Ou bastará colar-lhes uma etiqueta ideológica para que a suspeita passe a valer como certeza?

Esta associação não é inocente nas suas consequências. Ao atribuir sistematicamente os incidentes a alegados agitadores de esquerda, desvia-se a atenção do que leva milhares de pessoas à rua: rendas incomportáveis, despejos, jovens e famílias empurrados para fora das cidades. Ao mesmo tempo, lança-se a dúvida sobre movimentos legítimos de contestação, e a participação cívica passa a ser tratada como atividade suspeita.

A história conhece bem outra figura: o «agent provocateur», infiltrado em movimentos políticos e sociais para instigar a violência, provocar confrontos ou justificar respostas repressivas. 

Em França, têm circulado vídeos de manifestações em que pessoas à paisana são identificadas como agentes policiais. Isso não prova, por si só, que atuassem como provocadores. Mas recorda uma evidência: apurar quem está por trás de um incidente exige investigação rigorosa, não conclusões apressadas.

O mais preocupante é a facilidade com que uma acusação sem provas, repetida por responsáveis políticos e amplificada pela comunicação social, ganha a aparência de facto indiscutível. A repetição de uma suspeita não a transforma em verdade. E a orientação ideológica de alguém não constitui prova de qualquer comportamento ilícito.

Que fique claro: quem pratica atos violentos deve responder por eles, sejam quais forem as suas convicções políticas ou funções profissionais. Isso vale tanto para manifestantes como para quem tem o dever de garantir a ordem pública. Mas a responsabilidade de quem acusa também não pode ser ignorada. Quem lança suspeitas a partir de uma posição de poder deve apresentar factos ou retirá-las.

Numa democracia, o direito de manifestação, consagrado na Constituição, não pode ficar refém de insinuações, preconceitos ideológicos ou acusações por demonstrar.

Antes de procurar «agitadores profissionais» entre os manifestantes, seria mais útil investigar os factos e ouvir com seriedade aquilo que os cidadãos estão a reivindicar.

Fcebook 2026 Outubro 27 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Manuel Brito - A MANOBRA DE DIVERSÃO E A LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO




* Manuel Brito 

O Governo atravessa um período de evidente desgaste. As sondagens revelam dificuldades, a perceção pública sobre a competência de vários ministros degrada-se e acumulam-se episódios que fragilizam a credibilidade de quem governa. Do primeiro-ministro ao ministro da Administração Interna, não faltam polémicas e suspeitas que exigem esclarecimentos políticos e, quando se justifique, judiciais.
Perante este cenário, nada é mais conveniente do que uma boa manobra de diversão: mudar de assunto e transformar um problema político numa questão de ordem pública.
Foi o que se viu no Porto e em Lisboa. No Porto, uma carga policial de madrugada sobre jovens acampados pacificamente pelo direito à habitação deixou dezenas de feridos. Dias depois, em Lisboa e novamente no Porto, as acampadas foram desmanteladas, com dezenas de detidos no Rossio. Que ameaça representavam estes jovens? Que perigo concreto justificava tamanha demonstração de força?
A justificação invocada foi o Decreto-Lei n.º 406/74, segundo o qual as manifestações não podem prolongar-se para além das 00h30. Trata-se de um diploma de 1974, anterior à própria Constituição. O artigo 45.º da Constituição garante o direito de manifestação pacífica sem necessidade de autorização, e qualquer restrição tem de respeitar os princípios da necessidade, adequação e proporcionalidade. A liberdade não se mede pelo relógio.
Há, porém, um pormenor revelador. Bombeiros, polícias e outros grupos profissionais têm feito manifestações com claros indícios de alteração da ordem pública. Em 2013, milhares de polícias derrubaram as barreiras de segurança e subiram a escadaria da Assembleia da República, perante um Corpo de Intervenção que se limitou a recuar. Mais recentemente, os bombeiros sapadores ocuparam durante horas a mesma escadaria, rebentaram petardos e queimaram pneus. Mais tarde, voltaram a romper um cordão policial junto à sede do Governo. Em nenhum destes casos houve cargas policiais nem dezenas de detidos. Ninguém se lembrou de exibir o decreto de 1974 nem de tratar aqueles profissionais como ameaça.
Não defendo, obviamente, que se carregue sobre polícias ou bombeiros. Defendo que a lei seja igual para todos. Quando o rigor se aplica apenas a jovens que contestam a política de habitação, deixa de ser rigor e passa a ser escolha política.
A autoridade do Estado não se mede pela facilidade com que dispersa cidadãos, mas pela inteligência, prudência e imparcialidade com que protege os seus direitos. O que deveria preocupar o Governo não é a presença de jovens na rua, mas as razões que os levam a protestar.
Confundir contestação com desordem é sinal de fraqueza política, não de autoridade democrática. A democracia exige governantes capazes de ouvir, e não apenas polícias preparados para intervir.
(Foto de Fernando Ricardo)

Facebook 2026 Outubro 26

Ana Sá Lopes - Está em causa o normal funcionamento da democracia

* Ana Sá Lopes
   
Luís Neves já era um destroço, mas um destroço com o poder de mandar a polícia de choque para a rua pode rebentar com o regime. Está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas.   

Não me lembro de ter tido tanto medo como na madrugada deste domingo, 25 de Outubro. O meu filho estava no Rossio, em Lisboa, quando a polícia de choque avançou sobre os manifestantes pacíficos em luta pelo direito à habitação.   

Estava o meu filho, os filhos das minhas amigas e os filhos de tanta gente que se juntaram a uma manifestação legítima, igual a tantas outras acampadas e vigílias que já aconteceram no país sem que a polícia de choque, com os seus bastões e cães, se atirasse aos manifestantes.   

Daniel Oliveira - Brasil: o fator Janones

*  Daniel Oliveira

As redes sociais contam. Sobretudo para baixar a abstenção, que prejudicava Lula. Na primeira volta, a campanha de Lula falou para os seus e esqueceu-se de que os outros não estavam a ouvir. Janones liderava o Exército de Lula e mandava gostar, comentar e partilhar um vídeo antes de o ver e nunca responder aos de Flávio. Ensinou a máquina a mostrar e a esconder. Os democratas brasileiros aprenderam a jogar no tabuleiro desequilibrado

Lula venceu com quase 52% dos votos válidos. Há três semanas, ficou atrás de Flávio Bolsonaro na primeira volta: 45,16% contra 47,03%. Mais de 2,2 milhões de votos de diferença. Não lhe acontecia desde 1998. Assim como nunca acontecera esta reviravolta. Desde 1989, quem ganhou a primeira volta ganhou sempre a segunda. Venceu com o dobro da diferença de votos de 2022. Sabia-se que este milagre dependia de uma coisa: levar os abstencionistas, num país onde o voto é teoricamente obrigatório, a votar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Gorka Castillo - Espanha - Homem criado por lobos mais de uma década morreu aos 80

 

Marcos conservou até ao fim um olhar limpo, quase infantil, e uma capacidade de deslumbramentoFoto D.R.

Marcos Rodríguez Pantoja foi adotado por uma alcateia em criança após a morte do pastor com quem vivia na serra Morena

Gorka Castillo em Madrid

Conhecido como “o menino-lobo da serra Morena”, Marcos Rodríguez Pantoja morreu no domingo aos 80 anos, deixando para trás uma das histórias mais extraordinárias, e dolorosas, da Espanha atual. Foi adotado por uma alcateia em criança e conviveu com os lobos, em completo isolamento da civilização, durante mais de uma década. A sua insólita biografia, marcada pelo abandono familiar, pela sobrevivência numa das zonas mais agrestes da Península Ibérica e pelas enormes dificuldades que teve para se reintegrar socialmente depois de ser encontrado por uma patrulha da Guarda Civil num lugar recôndito, tornou-o um chamariz para o estudo científico e protagonista de reportagens, de documentários e até de um filme.

Nascido a 7 de junho de 1946 na pequena aldeia cordovesa de Añora, chegou ao mundo em pleno pós-guerra espanhol e num ambiente de extrema pobreza. A mãe morreu no parto do oitavo filho e o pai voltou a casar-se com uma mulher que, segundo os testemunhos do próprio Marcos, o submetia a maus-tratos constantes. A parte mais dura da história começou quando, ainda criança, a família se mudou para uma aldeia de Ciudad Real para combater a fome e a penúria impostas pela ditadura. Foi ali que o pai decidiu vendê-lo a uns proprietários da serra Morena, que o enviaram para viver com um velho pastor de cabras numa gruta em plena montanha. Com aquele idoso aprendeu o imprescindível para subsistir em condições extremas: a fazer fogo, a reconhecer plantas, a cuidar de cabras, a procurar água e alimento.


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

NEPE - Debate 'Pensar a Esquerda'



Pedro Nuno e João Ferreira trocam culpas na "pior fase das esquerdas": há caminho comum, mas “há somas que não são de somar”

Pedro Nuno Santos, Isabel Mendes Lopes, João Ferreira e Andreia Galvão participaram em debate que fez autópsia à situação da esquerda, com trocas de culpas entre antigos parceiros na habitação e sobre Lisboa

Cláudia Monarca Almeida (Jornalista)

O debate foi “em família”, mas como em todas as famílias teve os seus arrufos, sobretudo entre os antigos parceiros da “geringonça”. Da habitação aos “constrangimentos” provocados pela União Europeia e à “luta desigual” com os algoritmos, Pedro Nuno Santos (PS), Isabel Mendes Lopes (Livre), João Ferreira (PCP) e Andreia Galvão (BE) estiveram esta quarta-feira na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa para “Pensar a Esquerda” e debater o presente e o futuro de um campo político em “crise profunda”.


terça-feira, 20 de outubro de 2026

José Pacheco Pereira - O VERBO DO ÓDIO

 * José Pacheco Pereira

A melhor maneira de perceber o modo como pensam (embora chamar pensar seja um exagero) os homens e mulheres que hoje empurram a extrema-direita em Portugal são as redes sociais e os comentários não moderados. Respondo já a quem diz que o mesmo se passa do outro lado do espectro político – não é verdade, porque há uma enorme diferença de proporção. Há, de facto, mecanismos se afiguram parecidos, insultos, argumentos ad hominem, agressividade verbal, mas, para cada 100 de extrema-direita, há um da extrema-esquerda, e isso permite caracterizar este fenómeno como sendo um revelador significativo do populismo radical da direita.

José Pacheco Pereira - Os cristãos cruéis

*  José Pacheco Pereira

 «As pessoas deviam ler o programa do Chega. É um documento bem elaborado, consistente entre os seus diversos pontos, e traduz a prática do partido. Ele assenta, nos seus pontos programáticos essenciais, na ideia da “auto-responsabilidade”, uma ideia que tem origem no liberalismo económico, associada a uma interpretação cristã pós-reforma, muito comum nas igrejas evangélicas.

O primeiro ponto do programa, intitulado “primado da moral”, é histórica e ideologicamente falso. Não há nenhuma “tradição civilizacional portuguesa” que pressuponha “que o primado moral da auto-responsabilidade antecede e determina tudo o resto na condição humana”. Nem há, “no campo religioso, a auto-responsabilidade deriva da matriz milenar judaico-cristã e, no campo intelectual, deriva da matriz milenar greco-romana”. Bem pelo contrário.

No segundo ponto, o sujeito é o Chega e, por isso, a declaração programática da “legitimidade moral” da sua posição apenas ao partido responsabiliza. E a frase é mais clarificadora do modo como a direita radical populista vê a sua função.

José Pacheco Pereira - A destruição da Assembleia da República

 "O grau de degradação actual da Assembleia vai ser muito difícil de emendar enquanto o Chega tiver a significativa representação parlamentar que tem. Um dia, vai conseguir arranjar uma cena de confronto físico, dando mais um passo na destruição da instituição parlamentar", escreve José Pacheco Pereira na SÁBADO

* José Pacheco Pereira 

Na Assembleia da República, a táctica do Chega é fazer intervenções provocatórias muitas vezes insultuosas, para gerar incidentes e, depois, armar-se ou de valentão ou de vítima.

Como o Chega não reconhece como válidas as instituições da República (que alguns designam como III República), que considera parte do “sistema”, ou seja da democracia “abrilista”, a sua destruição é um elemento do programa não escrito do partido. Uma das instituições que mais tem sido atingida é a Assembleia da República. As cenas da semana passada são um exemplo desse processo, que se tem repetido vezes de mais com a complacência do Presidente.

Maria J. Paixão - Sobre a violência e a esquerda

* Maria J. Paixão

19 de outubro 2026 -  

Rita Matias quis fazer crer que a forma violenta da intervenção nos espaços da AAC foi um meio para alcançar o fim nobre de defender a liberdade de expressão e a democracia. A verdade é que a invasão foi fim em si mesma: uma demonstração de força perpetrada pelos fortes sobre os mais fracos.

A invasão da sede da Associação Académica de Coimbra e, em particular, dos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra por militantes do Chega foi mais um episódio circense como tantos outros a que o partido já nos foi habituando. Sendo evidente que assistimos a uma manobra de diversão, destinada a obscurecer o conluio do partido de Ventura com o governo a respeito da alteração da lei do arrendamento, a justificação apresentada e algumas reações à esquerda merecem reflexão mais aprofundada.


domingo, 18 de outubro de 2026

(108) Amílcar Cabral - "Libertação Nacional e Cultura"


Mural em Cabo Verde comemorando 50 anos da Independência e homenageando Amílcar Cabral


* Victor Nogueira / Gemini

O mural homenageia Amílcar Cabral, figura central da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, destacando o seu pensamento político-cultural, a soberania nacional e a alegria do povo cabo-verdiano (representado pelas crianças e pelas cores da bandeira nacional).O mural está localizado em Cabo Verde (mais especificamente na cidade da Praia, na ilha de Santiago).  A obra é da autoria do artista urbano cabo-verdiano Helder Cardoso (conhecido artisticamente como Skaz). O mural homenageia Amílcar Cabral, figura central da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, destacando o seu pensamento político-cultural, a soberania nacional e a alegria do povo cabo-verdiano (representado pelas crianças e pelas cores da bandeira nacional). 

Nele figura uma das citações máis célebre de Cabral

«“A Luta de Libertação não é apenas um ato de Cultura, mas também um fator de Cultura” — Amílcar Cabral»

O excerto foi retirado da famosa conferência e ensaio intitulado "Libertação Nacional e Cultura".Neste texto, Cabral teorizou que a dominação colonial e imperialista exige, por natureza, a opressão e negação da cultura do povo dominado. Por conseguinte, a resistência e o processo de libertação nacional são, em si mesmos, um ato de afirmação cultural e, simultaneamente, um fator de transformação/desenvolvimento da própria cultura do país.

O ensaio / conferência "Libertação Nacional e Cultura" (La libération nationale et la culture), proferido por Amílcar Cabral a 20 de fevereiro de 1970 na Universidade de Syracuse, é um texto longo e estruturado. Embora não seja possível reproduzir aqui o ensaio de dezenas de páginas na íntegra, os seus pontos fundamentais e passagens estruturais centrais assentam nas seguintes premissas teóricas fundamentais:

Resumo dos Eixos Centrais de "Libertação Nacional e Cultura"

  1. A Cultura como Fundamento da Resistência:

    • Cabral defende que a dominação colonial visa essencialmente a destruição ou a peiorização da identidade cultural do povo oprimido. O colonialismo só se mantém se conseguir convencer os colonizados da sua inferioridade cultural.

    • Por isso, a luta de libertação nacional só é genuína e duradoura se for um ato de regresso à fonte cultural própria e de afirmação da dignidade histórica do povo.

  2. A Cultura como Força Motriz (Fator de Cultura):

    • A cultura não é apenas um património estático ou um conjunto de tradições folclóricas do passado; é uma força dinâmica em permanente evolução.

    • Durante a luta armada ou o processo político de emancipação, o povo transforma-se, superando divisões tribais ou regionais e criando uma nova cultura nacional unificada.

  3. A Relação entre Movimento de Libertação e as Massas:

    • Amílcar Cabral insiste que os quadros revolucionários e os intelectuais devem "morrer enquanto classe" para renascer com as aspirações reais das massas trabalhadoras (camponeses e operários), que são os verdadeiros portadores e criadores da cultura nacional.


sábado, 17 de outubro de 2026

São José Almeida - Pedro Passos Coelho, a tentativa de golpe interno e o fim do PSD

* São José Almeida

A entrevista feita por Maria João Avillez ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, na SIC Notícias, no domingo passado, não me surpreendeu. Na minha opinião, foi até um momento político confrangedor. Com a convicção com que sempre defende as suas posições, Pedro Passos Coelho deu um passo em frente na possibilidade de se voltar a candidatar à liderança do PSD. Um comportamento que, associado às críticas que teceu ao actual primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, surgiu como um abrir de portas a uma tentativa de golpe de Estado interno no PSD.

Numa surpreendente declaração sobre a sua vontade de voltar ao poder executivo, Pedro Passos Coelho tentou defenestrar o actual chefe do Governo: “Se eu tivesse de equacionar uma possibilidade dessas, isso teria de corresponder a uma situação em que o PSD visivelmente não tivesse a possibilidade de entregar um resultado satisfatório face àquilo que o país precisa e de eu achar que eu o poderia fazer. E, se isso vier a acontecer, eu ponderarei e tomarei uma iniciativa, se for caso disso.”

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Hugo Dionísio - A inteligência artificial que (não) queremos!

 
* Hugo Dionísio

As opiniões dividem-se profundamente sobre o que será o trabalho sob o domínio da Inteligência Artificial. Entre os que dizem que não sobrará trabalho algum e os que dizem o contrário, temos opinião para todos os gostos. Será que a legislação existente está adaptada? Será que o trabalho «tradicional» é compatível com a Inteligência Artificial?

Ora, é opinião consolidada que o modelo de trabalho mais paradigmático nesta matéria será o das «plataformas informáticas». Consequentemente, sabendo que assistimos à expansão deste modelo para a restante actividade económica, talvez seja avisado começarmos, precisamente, por aqui e tomarmos como exemplo a prática, supostamente excepcional, já entre nós instalada.  

Até ver, não nos é difícil constatar que, quanto mais avançado o uso da inteligência artificial, maior a desumanização da relação estabelecida entre «plataforma» e trabalhador. «Plataforma», porque não se conhece o empregador. Nesta relação, o trabalhador apenas conhece acessos, contas, tarefas, preços, rankings, metas, tudo emaranhado num processo cujas variáveis são unilateralmente fixadas e mutáveis, desprovido de interacção humana.

Para já, o paradigma do trabalho entre Inteligência Artificial e hum

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Daniel Oliveira - A barbárie de novo, agora em direto

* Daniel Oliveira

Após a execução falhada de Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam a ser o farol da barbárie

Sónia Sapage - Uma execução em directo é um retrocesso civilizacional

 * Sónia Sapage

“Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreve o republicano Austin Scott nas redes sociais. “A América é melhor do que isso.”

Há uma semana, o Pentágono anunciou que irá transmitir em directo (streaming), no dia 3 de Dezembro, às 13h, a execução por fuzilamento de um militar condenado a pena de morte pelo massacre de Fort Hood, no Texas, do qual resultaram 13 mortos e 32 feridos, em 2009.

Nidal Malik Hasan, major e psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, especialista em stress pós-traumático, tinha 39 anos quando concretizou o ataque. Durante o julgamento, declarou-se culpado e assumiu a sua adesão aos ideais da jihad (guerra santa). “Eu estava no lado errado, mas mudei de campo”, justificou.

Hygo Dionísio - Da plataforma à plataformização do real



* Hugo Dionísio, 
in Denorteasul.eu., 08/10/2026


Um espectro ronda o mundo – o espectro da “Inteligência Artificial”

Um espectro tomou o mundo civilizado. Pretensamente civilizado, digo eu! Pouco a pouco, esse espectro foi-se instalando nos telemóveis, computadores e tablets, não necessariamente por essa ordem. De forma gradual fomos absorvidos como parte de um mundo onde tudo é medido, parametrizado, vigiado, programado, reprogramado, num ciclo interminável de aperfeiçoamento que visa tornar-te cada vez mais parte de um todo que te é mentalmente inalcançável ou escrutinável. A desigualdade de circunstâncias constitui a pedra angular que sustenta o sistema que o promove. Esse espectro é o que convencionámos designar de «Inteligência Artificial».

Sob uma capa de personalização, segurança e protecção da privacidade, o espectro aprimora continuamente os seus instrumentos, fornecendo-nos precisamente o contrário: despersonalização, precariedade e supervigilância. Ninguém o elegeu, negociou a sua velocidade e extensão de implantação. Chegou aclamado por quem o declarou como disruptor e aterrador. Contudo, não obstante o carácter destrutivo com que o apresentam, também o assumem como inevitável.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

(107) Malcom X - «A educação é o passaporte para o futuro»

 

 Mural de Malcolm X em Springfield. (Staasi Heropoulos), executado por Danielle Winters e Richard Johnson


* Gemini

A citação icónica — "O futuro pertence àqueles que se preparam para ele hoje" — está profundamente associada à filosofia de Malcolm X sobre a importância fulcral da educação, do estudo e da emancipação intelectual como ferramentas indispensáveis de libertação e transformação social.

Frequentemente, esta frase surge ligada a outra reflexão célebre sua sobre o papel do saber:

"A educação é o passaporte para o futuro, pois o amanhã pertence àqueles que se preparam para ele hoje."

Este tipo de pensamento reflete-se de forma marcante na sua autobiografia (The Autobiography 

Embora a frase inscrita no mural seja sintética — "For the future belongs to those who prepare for it today" —, o pensamento de Malcolm X sobre a educação e a autoconsciência como bases indispensáveis para a emancipação política desenvolve-se de forma marcante ao longo dos seus discursos e na sua autobiografia:

«A educação é o passaporte para o futuro, pois o amanhã pertence àqueles que se preparam para ele hoje.

Precisamos de reeducar o nosso povo para que este compreenda o valor do conhecimento. Sem educação, somos vitimizados e mantidos à margem das decisões que moldam o nosso destino. O estudo, a leitura e a preparação intelectual não são um luxo; são armas essenciais de libertação.»

«Precisamos de uma nova educação para o nosso povo. Precisamos de lhes ensinar a verdade sobre a história, sobre si mesmos e sobre o mundo em que vivem, para que possam reescrever o seu próprio destino.

O futuro não pertence àqueles que esperam passivamente por ele, mas sim àqueles que se armam com o conhecimento no presente. A verdadeira liberdade exige preparação intelectual, rigor e capacidade crítica. O futuro pertence a quem se prepara hoje para construí-lo com autonomia e justiça.» 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

(106) Malcom X - A Imprensa e a Opressão

 

* Gemini

Este mural localiza-se na Marshall Street, em Birmingham, Reino Unido, com a figura central de Malcolm X e bandeiras associadas à causa palestiniana e à resistência. Dele consta a seguinte citação 

"IF YOU'RE NOT C AREFUL  THE NEWSPAPERS  WILL HAVE YOU HATING THE PEOPLE WHO ARE BEING OPPRESSED & LOVING THE PEOPLE  WHO ARE DOING THE OPPRESSING"

(Tradução: «Se não tiverem cuidado, os jornais far-vos-ão odiar as pessoas que estão a ser oprimidas e amar as pessoas que estão a cometer a opressão»)

Esta é  uma transcrição mais alargada do discurso de Malcolm X proferido a 13 de Dezembro de 1964 na Organization of Afro-American Unity (OAAU), no Audubon Ballroom (Harlem, Nova Iorque), que contextualiza em profundidade a citação presente no mural:

«Uma das primeiras coisas que os africanos e os afro-americanos têm de aprender é que não se pode julgar uma causa pelo que é dito nos jornais. É preciso analisar a causa por si mesma.

A imprensa de massa é a entidade mais poderosa da Terra. Eles têm o poder de transformar o inocente em culpado e de fazer do culpado inocente, e isso é o verdadeiro poder — porque controlam as mentes das massas.

A imprensa manipula a imagem. Se não tiverem cuidado, os jornais far-vos-ão odiar as pessoas que estão a ser oprimidas

Nota Conceptual (A Imprensa e a Opressão): A citação de Malcolm X inscrita no painel provém do seu discurso de 13 de Dezembro de 1964 no Audubon Ballroom (Harlem, Nova Iorque). Enquanto as inscrições dos murais revolucionários asiáticos (Laos, Vietname, China) focam a relação Exército–Povo, este mural britânico invoca a crítica de Malcolm X à manipulação mediática ocidental — advertindo que a imprensa de massa inverte papéis, vitimizando o opressor e criminalizando os oprimidos (enquadramento visual reforçado no mural pelas referências à luta do povo palestiniano).

Carlos Dias - Vereador do PS de Beja critica mural alusivo a Catarina Eufémia


Xilogravura de José Dias Coelho


O mural dedicado a Catarina Eufémia, por Ana Rodrigues, em Beja

 Vereador do PS de Beja critica mural alusivo a Catarina Eufémia porque diz que os tempos mudaram

* Carlos Dias

Autarca alega que o país vive um tempo diferente daquele em que a ceifeira de Baleizão foi assassinada. “Já não há tenentes Carrajolas a disparar impunemente sobre manifestantes.”

Paulo Arsénio foi categórico na reunião do executivo municipal de 23 de Setembro: “Se fôssemos nós (socialistas) a decidir, não autorizaríamos o mural a Catarina Eufémia, digo-o de uma forma muito clara, muito directa e muito objectiva.”

E para justificar o seu posicionamento disse que o país “vive, felizmente, um tempo muito diferente do que se vivia em 1954”, quando Catarina Eufémia foi assassinada em Baleizão no decorrer de uma manifestação por melhores salários para quem trabalhava na ceifa das searas de trigo.

Como tal, mesmo que o propósito expresso na pintura do mural seja o enaltecimento “da luta das mulheres alentejanas pela emancipação, igualdade de oportunidades, salariais e outras, não nos parece que tenha sido de facto o mais adequado nesta altura e em Beja”, sentencia o autarca socialista, convicto de que “já não há tenentes Carrajolas a disparar impunemente sobre manifestantes”.

Em síntese, considera que o mural com a imagem de Catarina “não é o gesto mais adequado para reflectir toda essa luta das mulheres alentejanas e das mulheres do país em 2026”, contrasta Paulo Arsénio, com um reparo: por detrás da pintura “há uma opção ideológica demasiado forte e desadequada aos nossos tempos”, interpretando a iniciativa como um precedente que pode vir a incentivar num futuro próximo a pintura na fachada da biblioteca de Beja de um “mural dedicado a Karl Marx” ou no edifício da câmara municipal “o desenho de Lenine”.