sexta-feira, 1 de julho de 2022

Carlos Coutinho - Biografando

* Carlos Coutinho
  

   TIVE nos tempos de antanho um amigo chamado Mário-Henrique Leiria que conheci no “Montecarlo”, um antigo café de Lisboa, ali ao Saldanha, onde ele às vezes também aparecia, acompanhado por uma jovem meio esgalgada de quem nunca cheguei a saber o nome e que não foi capaz de pronunciar qualquer palavra ao pé de mim. Depois de dar “duas voltas ao mundo”, demorando-se no Brasil, em Macau, em Xangai, por “ligações” que ele definia como “astrológicas”, instalou-se em Carcavelos com “o Tejo inteiro à frente dos olhos”. 

   Já trazia acabado o seu livro mais famoso, “Contos do Gin-Tonic” e, antes de morrer em 1980, com 57 anos, ainda publicou “Novos Contos do Gin”. Se eu quisesse agora escrever a sua biografia em modo surrealista, bastava-me seguir com rigor absoluto os passos tergiversantes da sua vida pluricontinental. 

   Passou pela Escola Superior de Belas Artes, mesmo ao lado do Chiado, donde foi expulso em 1942 “por motivos políticos inconfessáveis”. Participou nas atividades do Grupo Surrealista de Lisboa, entre 1949 e 1951. Em 1962 foi preso, por participação na "Operação Papagaio”, uma intervenção surrealista contra o fascismo que a PIDE facilmente gorou. 

   Na Primavera de 1962, um ano após o início da Guerra Colonial, um grupo de surrealistas do qual faziam parte Virgílio Martinho, António José Forte, Manuel de Castro, Mário-Henrique Leiria e outros, concebeu um plano estapafúrdio: atacar o Rádio Clube Português, prender e amarrar o contínuo de serviço e substituir a bobina com o programa noturno “Companheiros da Alegria” por uma outra contendo o hino nacional, marchas militares e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Terminava convocando a população a deslocar-se à Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos e o advento da democracia. 

   Durante os interrogatórios na PIDE, aconteceu por diversas vezes os beleguins saírem dos “gabinetes de investigação» e virem rir às gargalhadas para o corredor. Não houve torturas nem se formou processo e foram confiscadas as armas reunidas para a execução do golpe. No seu livro “Prazo de Validade” (1998), Luiz Pacheco dá-nos a sua versão destes acontecimentos, não diferindo muito nos pormenores.

   Seguidamente, Mário-Henrique Leiria partiu para o Brasil onde desenvolveu várias atividades, como a de encenador e a de diretor literário da Editora Samambaia, regressando a Portugal em 1970, depois das tais “duas voltas ao mundo” que nunca me foi possível confirmar. Cá, colaborou com pequenos contos no suplemento “Fim-de-Semana” do jornal “República” e no semanário humorístico "Pé de Cabra". Também chefiou a redação de “O Coiso”, um semanário impresso nas oficinas do “República”, durante 13 semanas, em 1975. 

   Em 1976, “cheio de um certo fervor brasileiro”, aderiu de alma e coração ao PRP, talvez porque “já tinham passado uns bons 15 anos” sobre a entrega, em 1961, de um punhado de textos seus, alguns já publicados e outros ainda inéditos, para serem incluídos na “Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito”, organizada por outro Mário e ex-surrealista, o Cesariny de Vasconcelos. 

Os dificílimos últimos anos da sua vida, tolhido pela sua degenerescência óssea e caído na pobreza, foram decisivos na opção pelo clandestinidade da vida. Embora contrariado, viveu finalmente na casa materna, com a mãe e uma tia, ambas muito idosas, mas solícitas 

2022 07 01

Ricardo Araújo Pereira - Agasalhe-te, cidadão


*  Ricardo Araújo Pereira


cartoon de João Fazenda - rap bru

«Quando o Presidente da República disse que, nos próximos meses, “cada qual fará o esforço para não estar doente”, fui obrigado a reflectir e concluí, com vergonha, que nunca antes fiz esse esforço. Tenho vivido de forma inconsciente, sem me empenhar para não adoecer — e por isso tenho tido, como é evidente, algumas doenças. A culpa não é só minha. A ciência, estranhamente, tem dirigido a sua atenção para a cura de doenças, quando seria mais fácil e barato lembrar às pessoas que devem fazer um esforço diário para não adoecer. Se todos fizessem esse esforço, o SNS funcionaria muito melhor, ocupado apenas com os preguiçosos que não se esforçam o suficiente. Alguns levam o desleixo tão longe que até acabam por morrer, o que não deixa de ser justo. Eu tenho padecido de algumas maleitas, e até já fui submetido a operações cirúrgicas mais de uma vez, só para se ter uma ideia do meu desmazelo. Talvez não seja justo, aliás, usar o verbo padecer. Provoquei algumas maleitas, assim é que é. Quando era pequeno, não me esforcei o suficiente para evitar o sarampo, a papeira e a escarlatina. Mas a idade adulta, curiosamente, não dá a ninguém a maturidade suficiente para aperfeiçoar o esforço para evitar doenças. Tenho reparado que os idosos, uma faixa da população com idade para ter juízo, são dos que menos esforço fazem para não adoecer.

Algumas pessoas ficaram exaltadas com as declarações do Presidente, em clara desobediência a essas mesmas declarações. Marcelo pede a todos um esforço para evitar adoecer e imediatamente há gente que fica apopléctica. Mania de contrariar. Para mim, as declarações do Presidente pecam por defeito. Os cidadãos, querendo, podem contribuir para não sobrecarregar outros serviços do Estado. Além de se esforçarem para não adoecer, os portugueses podem fazer outros esforços úteis. Por exemplo, se as crianças fizerem um esforço para se instruir, precisaremos de menos escolas. E se os cidadãos fizerem um esforço para não litigar, acabam-se os atrasos na justiça. O português ideal não precisa de ir à escola, nem ao hospital, nem ao tribunal. Na verdade, o português ideal é um português defunto. Quando pomos os nossos compatriotas no Panteão, não estamos bem a homenageá-los pelo que fizeram quando 

1.7.22

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Carlos Coutinho - Não se pode travar a memória

* Carlos Coutinho
 
   JULGO que toda a gente possui nos subterrâneos da consciência casos insolúveis que, de vez em quando, vêm cá cima fazer doer. Eu, pelo menos, tenho alguns. O mais próximo é o ultimo olhar do meu infinitamente afetuoso Pinguço, quando o entreguei ao veterinário para o ajudar a morrer adormecido e sereno. 

   Já lá vão 5 anos, mas ainda sinto uma enorme compressão no peito sempre que me lembro daqueles dois pontos escuros, aguados, muito abertos para mim, a brilharem tristíssimos, talvez com pena do seu dono que lhe murmurou um adeus muito dorido.            

   Tirei-o do sofrimento incurável em que ele entrara, mas ainda pago um alto preço emocional por essa decisão apenas racional.

   Outro caso é o daquele frio que sinto nos lábios sempre que recordo o beijo que depus na testa marmórea de um tio meu muito querido que tantas vezes me havia pegado ao colo quando eu era menino. Foi na capela funerária de Vila Real. Viajei a noite quase toda para lá chegar. 

   O meu tio Alberto havia sido atropelado na estrada da Cumieira por uma condutora inexperiente. Estava agora à sua volta a nossa família inteira, mas não consigo ver o rosto nem ouvir os murmúrios de qualquer dos nossos parentes ali reunidos pela primeira vez, só que pelas piores razões. Apenas percebo a inumanidade do frio que tocou para sempre os meus lábios.

   Há mais casos assim dolentes e inapagáveis na minha memória, mas um sufocante pudor impede-me agora de os trazer a este apontamento. E, tenho de me refugiar no passado que me moldou e fez a todos nascer e sermos o que somos.

   Há 66 anos, por exemplo, embarquei com mais 15 militares em rendição individual no "Infante D. Henrique”, um paquete de luxo com 300 metros de comprimento e piscina a bordo que me levou a Moçambique. 

   Lisboa estava tão cabisbaixa naquele dezembro gélido que só vejo xailes, samarras de gola peluda, sobretudos grossos e capotes, gente a tiritar em Alcântara com aquele chiasco de cortar orelhas. Também oiço os gritos das gaivotas misturado com os acenos inaudíveis de centenas de pessoas no cais que se acotovelavam nas despedidas desfraldando lenços para quem se apinhava no convés do navio.

   E agora vejo que, afinal, nada disto é compatível ou sequer associável àquele 24 de Julho de 1833 que deu o nome a uma avenida de Lisboa e foi épico quando o Duque da Terceira retomou a capital atravessando o Tejo depois de derrotar os miguelistas na Batalha da Cova da Piedade, em Almada.

   Também acontece que o dia 24 de Julho de 1414 é tido geralmente como a data provável da realização do Conselho Régio de D. João I, em Torres Vedras, para deliberar sobre a expedição destinada à conquista de Ceuta, marcando o início da expansão marítima portuguesa.

   Por outro lado, recordo que em 1810, depois da chegada a Almeida do exército napoleónico comandado por Massena, aconteceu o chamado Combate de Coa, junto a uma ponte que ainda lá estará muito envergonhada e também, 119 anos depois, entrou em vigor um pacto internacional que, como se sabe, nunca foi cumprido, o Pacto Kellog-Briand, em que se renunciava à guerra como um instrumento de política externa, assinado pela primeira vez em Paris, em 27 de agosto de 1928, pela maioria das principais potências mundiais.

   Em 1943, dois meses antes de eu nascer, exatamente a meio da II Guerra Mundial, começou também neste dia a “Operação Gomorra” em que aviões britânicos e canadianos bombardearam Hamburgo de noite e foram diurnamente seguidos pela aviação norte-americana na destruição da cidade. 

   Quando esta operação genocida foi dada por concluída, já em novembro, tinha consumido 9 mil toneladas de explosivos que mataram mais de 50 mil pessoas em casa e destruíram 280 mil edifícios. 

  Dois anos depois, por retaliação assumida como tal por Churchill, os mesmos fizeram o que alguém ainda considera como “holocausto de Dresden”. Aqui foram despejados, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, com Hitler já derrotado e humilhado em todos os teatros de guerra, 3 900 toneladas de novos explosivos que mataram 25 mil pessoas, quase todas civis e de todas as condições sociais, idades e géneros, além de arrasarem completamente uma das cidades mais ricas da Alemanha em património histórico e cultural.  

   Espero que russos e ucranianos não sigam agora este exemplo tão democrático e ocidental, também seguido pelos mesmos de sempre na Coreia, no Vietname, no Iraque, na Síria, etc. E, se o fizerem, ao menos que imitem igualmente a RDA que reconstruiu Dresden fielmente, milímetro a milímetro, em poucos anos, sem dispor de qualquer Plano Marshall. 

   Mas, quem talvez contasse tudo isto muito melhor que eu seria Alexandre Dumas, o de “Os Três Mosqueteiros” e de “O Conde de Monte Cristo” que, se ainda fosse vivo, hoje faria 200 anos.

P. S. Há apenas um problema indisfarçável, mas perdoável, julgo eu: é que estamos hoje no dia 30 de Junho, uma data sem memórias que valha a pena recordar e eu senti que é urgente, mesmo muito urgente, esconjurar o perigo que a Ucrânia está a correr. À falta de melhor recurso, antecipei para hoje o dia 24 do mês que amanhã começa. Estou perdoado?

domingo, 8 de maio de 2022

Filipe - Chinita eu.comunista.

06/05/2022, 17:33
Filipe
Filipe Chinita
eu.comunista.
o meu pensamento sempre foi livre 
mesmo sendo (eu.e ele.pensamento ) 
sempre in.comum/uns
.
fj
17.24
06.05.2022
e
mor liberdade não há
do que 
a de um comunista
que (em tudo) 
o seja
09/05/2022, 00:10
Filipe
Filipe Chinita
urticária.
mental.
de pele
.
atitude 
de (mero) zel.o.
porque não te calas
e salvas o teu povo
?!
.
povo 
ucraniano 
merecia... outra cousa.
pena... que o não vejam! 
pena... que o não saibam sentir
.
des.culpem-me 
as minhas amigas ucranianas... 
por eu ser tão... 
'mau'!
mas 
nem 
consigo já escutar 
(que nem... para ele olho)
a teatral voz do actor zelenski
que comunica tudo
seja o que for...
sempre do 
mesmo...
modo
.
mal 
me chega... aos ouvidos 
logo... mudo... de canal
.
o problema... é que ele 
está representa(n)do 
em todos os canais
ocidentais...
ditos
e
só 
me consigo 
ver livre 
dele
desligando 
o televisor
passando 
para o 
slb 
ou
para os canais
de apenas...
filmes
do
império
mesmo que sempre 
de tiros.guerra.s!
violência e 
morte
que 
outra cousa 
de ficções... 
da vida 
(coitados...)
não sabem 
apresentar
nem
representar
.
fj
20.25
08.05.2022
se não acreditam...
basta... que se sentem comigo 
face ao televisor 
e que vejam
que eu
vo-lo
mostro... 
e demonstro
_______________________________

terça-feira, 3 de maio de 2022

Filipe Chinita - partido comunista português

03/05/2022, 01:55
Filipe
Filipe Chinita
partido comunista
português
.
1.
disseste...
muito bem! 
'miúda':
é 
vergonhoso 
o descabelado ataque ao pcp 
.
2.
pois que ele 
sempre demarcou das guerras
de todas elas.
e não apenas 
desta
.
3.
pois que ele
sempre foi p'la paz
.
4.
e sempre
contra todas as guerras imperialistas
venham de quem venham
onde quer que ocorram
e não apenas... agora
na ucrânia
.
5.
o pcp
sempre.só teve a ver 
com movimentos e lutas de libertação
e todas eles e elas apoiou activamente.na medida das suas forças...
e incluso... durante (toda) a clandestinidade
.
6.
o que o pcp não faz... porque materislista-dialéctico
é simplificar... a leitura a preto e branco 
de causas cousas e problemas 
que são bem mais 
complexos
.
7.
o pcp
é
- disseste bem)
sempre foi 
e será!
um partido determinante
da democracia
portuguesa
.
8.
determinante 
como nenhum 
outro
.
9.
pois... que sem ele
e a sua luta de 48 anos contra o fascismo 
sequer haveria... democracia
.
10.
porque... sem ele
nem... democracia alguma... haverá
.
11.
pois 
no dia 
em que ele não puder... mais existir livremente
a democracia (mesmo 
a dita 'liberal' 
que não sei 
o que... 
seja)
acabará... 
nesse mesmo instante
.
12.
acabará 
(por má ventura) a democracia... 
.
13.
mas nunca! 
o partido comunista.português
.
14.
que continuará sempre resistindo
nem que mais 48 anos... 
.
15.
pela 
liberdade! pela democracia!
pelo socialismo e pelo comunismo
.
16.
como seu fito... último 
e fim... primeiro:
.
17.
que só 
então comecará 
'a juventude de 
um mundo' 
de um humano
(em tudo!)
outro
.
18.
portanto
mui menos...
algum dia acabarão
os seus altos/nobres e in.comuns ideais... humanos.
para todos! os humanos,.humanos
.
19.
que sim! 
- como já atrás explicado foi -
vão muito além
de qualquer 
democracia
burguesa

ou 
'liberal'
do capital
.
20.
que é... 
o que continuamos a ter 
em tudo o mundo (dito) ocidental
.
21.
e pior... 
sem que nunca! 
tenham sido concretizadas em parte alguma
as suas iniciais consignas revolucionárias
de liberdade.igualdade.fraternidade
.
22.
um perfeito
triângulo 
uno
.
23.
em que 
sem o ângulo 
de (cada) uma delas

não existe nenhuma
das outras
.
fj
01.16
03.05.2022
.
24.
e pf
parem! 
- sob pena... de ridículo - 
com a imbecilidade intelectual 
de comparar o heróico 
resistente.digno 
e secular 
pcp

ao 
mais 
do que vergonhoso.neófito
do pontapé na bola
do achega-te 
aqui...
03/05/2022, 17:19
Filipe
Filipe Chinita
o mal
.
o 'mal'... 
é que sofremos 
(quasi... todos) 
de 'mandonite' 
aguda... 
.
mesmo quando
nem um peido... 
como humanos!
valemos
.
sinceramente
não sei 
onde ganhámos 
tal soberba
um 
tal 'estilo 
de trabalho'
.
tão contrário
ao 'aprender
aprender...
sempre!'
que 
o velho... lénine
sempre! nos receitou
.
sim!
precisamos 
de aprender sempre!
mas precisamos...
acima de tudo!
de 
humildade... 
como de 
pão...
para 
a boca...
de esfomeado.s
.
fj
16.49
03.05.2022

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Filipe Chinita - poesia

02/05/2022, 13:46
Filipe
Filipe Chinita
me
ou
(de 
uma 
inteira vida)
desde 
sempre! 
defendendo 
os explorados 
oprimidos 
humilhados
.
(todas 
as minorias.
todos os diferentes
esfomeados e sequiosos.de tudo)
.
ombro com ombro
com (todos) eles.
no sempre
mesmo...
frontal
olhar
.
fj
13.13
02.05.2022
nada... tendo 
de que me 'envergonhar' 
na vida inteira
que nunca.nada!
contra ninguém 
in.tentei

domingo, 3 de abril de 2022

Fernando Pessoa - Anti-Gazetilha

* Fernando Pessoa

 

José Afonso - "No comboio descendente" do disco "Eu vou ser como a toupeira" (1972)

No comboio descendente
Vinha tudo á gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada —
No comboio descendente
De Queluz á Cruz Quebrada…

No comboio descendente
Vinham todos á janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes tréla —
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela…

No comboio descendente
Mas que grande reinação:
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não —
No comboio descendente
De Palmela a Portimão…

sábado, 2 de abril de 2022

Bruno Amaral de Carvalho - Os pássaros não cantam em Lugansk


REPORTAGEM -  Os pássaros não cantam em Lugansk, por Bruno Amaral de Carvalho
(texto e fotos) em Lugansk (Donbass)  31 de Março de 2022

Na Ucrânia, prosseguem os combates no Donbass pelo controlo territorial desta região mineira. Há oito anos debaixo de fogo, as forças separatistas apoiadas pela Rússia tentam avançar na autoproclamada República Popular de Lugansk ante a resistência ucraniana.

Uma antiga igreja ortodoxa aparece no caminho e o motorista benze-se. Depois, acelera. "Bistra, bistra", diz entredentes. "Fast, fast", repete em inglês. O ambientador, pendurado no espelho retrovisor, dança ao ritmo das crateras no asfalto. Em vez do típico pinho perfumado, há a fotografia de Vladimir Putin. No pára-brisas, um “Z” branco a fita adesiva.

O homem que tem o Presidente russo como ídolo chama-se Konstantin e explica que estamos demasiado perto da linha da frente. O “inimigo” está à espreita e pode haver snipers. A poucos quilómetros de Trehizbenka, na autoproclamada República Popular de Lugansk, o carro vai abrandando à medida que as lagartas de vários tanques com a marca “Z” se cruzam no caminho. Sente-se a proximidade das forças ucranianas enquanto se sucedem os postos de controlo. Uma ponte destruída e um autocarro carbonizado são postais de uma guerra que começou em 2014 e que nunca deixou de fazer vítimas. Segundo as Nações Unidas, cerca de três mil civis morreram no conflito que dura há oito anos.

Trehizbenka, sob controlo da Ucrânia desde 2014, passou para as mãos das autoridades separatistas de Lugansk. À entrada desta localidade de cerca de três mil habitantes, vários militares aceitam mostrar as trincheiras e as casas de civis usadas pelo exército ucraniano para proteger as suas posições.

Em frente à primeira casa, pé ante pé, pedem que não toquemos em nada porque há lugares que não foram devidamente verificados e pode haver minas por desactivar. São spetnaz, jovens soldados das forças especiais de Lugansk, e afirmam que este lugar estava ocupado por combatentes do movimento neonazi Pravii Sektor.

Há livros espalhados pelo chão, comida podre na cozinha ao lado de uma garrafa vazia de Jagermeister, cartazes nas paredes e um autocolante de uma emissora militar ucraniana. Numa divisão, junto ao corredor, uma caixa militar com explosivos. O episódio repete-se num pequeno barracão no exterior com centenas de granadas de morteiro, detonadores, um blusão do exército ucraniano e uma bandeira vermelha e preta do Exército Insurgente Ucraniano, liderado por Stepan Bandera, que colaborou com as forças nazis na Segunda Guerra Mundial.

Durante a visita, aparece uma idosa que prefere não responder a perguntas. Os soldados alegam que tem medo que regressem “os fascistas” e fica gorada a primeira entrevista a um civil na localidade.

De súbito, soam ao longe explosões de granadas de morteiro numa cadência que iria durar praticamente toda a visita enquanto um militar revela que foi descoberto ali perto o cadáver de um soldado ucraniano. Junto a uma trincheira, pouco resta de um corpo putrefacto com várias semanas dentro de um uniforme ucraniano desfeito. Vítima do esquecimento, é provável que tenha sido também vítima da matilha de cães esfaimados que povoam Trehizbenka. Quem seria este soldado? Ninguém sabe dizer.

É só na saída da aldeia que encontramos duas civis dispostas a falar sem terem sido escolhidas pelos soldados desta região separatista. Vera Alekseevna, uma das moradoras, acusa militares ucranianos de a terem sequestrado e ameaçado. “Foi o Batalhão Aidar. Diziam que me queriam cortar em pedaços e eu não sabia porquê. Ocuparam casas e terrenos da população. Há meses que não temos gás e electricidade. Imagine o que significa isso no Inverno”, denuncia. Por sua vez, Alexandra Fedorovna mostra alívio pela chegada das forças separatistas. Questionadas sobre as vítimas civis das bombas russas fora de Donbass, lamentam “a morte de qualquer civil”, mas aplaudem a intervenção de Moscovo.

Refugiado em Lugansk
Pela noite, o recolher obrigatório marca o compasso e são poucos os candeeiros acesos. É uma cidade fantasma. Quando amanhece, caem os primeiros mísseis Tochka-U nos arredores de Lugansk. Mesmo assim, as principais avenidas respiram vida e os comércios abrem na capital da autoproclamada República Popular de Lugansk. É uma cidade habituada à guerra desde 2014. Foi nesse ano que Alexei Albu abandonou Odessa rumo a esta região mineira.

Membro do partido da esquerda ucraniana Borotba, estava dentro da Casa dos Sindicatos em Odessa, em 2014, no dia em que centenas de apoiantes dos protestos que levaram à queda do governo de Viktor Yanukovich cercaram a improvisada sede dos que consideravam ser um golpe de Estado e pegaram fogo ao edifício com pelo menos uma centena de pessoas dentro. Alexei Albu escapou das chamas, mas não do ódio. Sentado num café de Lugansk, descreve como o espancaram e aponta para uma cicatriz na cabeça. Nesse dia, morreram 48 pessoas, muitas delas queimadas.

“Poucos dias depois, recebi a informação de uma fonte dentro dos corpos policiais de que o meu nome estava numa lista de pessoas a serem presas”, recorda. Deputado regional no Conselho Regional de Odessa como Alexei, Viacheslav Markin acabou assassinado pouco depois dos acontecimentos na cidade costeira no Mar Negro. Foi então que decidiu fugir para a zona controlada pelos rebeldes em Lugansk.

Hoje, com 36 anos, e apesar das divisões internas no Borotba, mantém-se no partido e apoia a intervenção russa. Quando vê a morte de civis, vítimas de ataques russos, afirma que sente dor, mas ele diz que sabe “quem é o culpado”. Acusa os batalhões de extrema-direita, como o Aidar ou Azov. Na óptica de Alexei, estes grupos “não querem combater em campo aberto” e “escondem-se entre a população em zonas residenciais”.

Oito anos de bombas
A poucos quilómetros da linha da frente, em Donbass, a presidente do município de Kirovsk, Viktoria Ivanovna Sergueeva, mostra uma das casas bombardeadas pelas forças ucranianas numa aldeia dos arredores na última semana. Depois de alguns quilómetros de tanques, carros blindados e camiões, um caminho de terra batida conduz a uma pequena povoação com habitações térreas. É diante desta casa destruída que denuncia o que diz ter sido um ataque das forças ucranianas.

“O bombardeamento aconteceu ao fim do dia quando a família que aqui vivia se preparava para dormir. Felizmente, não morreu ninguém”, afirma. Ao mesmo tempo que responde à pergunta com a ajuda de um intérprete, ouvem-se disparos de morteiros e rockets seguidos de rajadas de metralhadora. Imperturbável, não interrompe a resposta e prossegue o raciocínio como se a guerra fosse parte da sua vida desde sempre.

Numa aldeia com tanto campo à volta, o que mais nos perturba é a ausência de pássaros. Como se a sua falta na paisagem nos alertasse para a ameaça da guerra como os canários mostravam pela sua prostração o perigo das minas.

Serviço especial para o PÚBLICO

https://www.publico.pt/2022/03/31/mundo/reportagem/passaros-nao-cantam-lugansk-2000819

José Pacheco Pereira - Portugal: o país que os portugueses estavam proibidos de conhecer

* José Pacheco Pereira 

2 de Abril de 2022,

“Ah! Se os homens pudessem somente persuadir-se que a força não está na força, mas na verdade! “ (Tolstoi) – Cortado pela Censura  

A Censura durou ininterruptamente 48 anos da ditadura. A PIDE e a polícia atacavam os corpos, a Censura atacava as cabeças. “Fazer” as cabeças necessita de tempo, poder, proibições, ameaças, violências diversas, matilhas de vigilância, medo e autocensura, mas “desfazê-las” é muito mais difícil. Isso significa que a “obra” da Censura ainda está connosco, sem reconhecermos a sua assinatura sinistra, o que a torna mais poderosa. A essa marca inconsciente de 48 anos, que os quase 50 anos de democracia não conseguiram eliminar, somam-se agora novos impulsos censórios vindos também das instituições, mas também “de baixo”, do activismo político à esquerda e à direita, e das redes sociais. É por isso mesmo que falar e mostrar a Censura (na verdade um complexo de censuras para os livros, os periódicos, para a música, o teatro, os filmes, a publicidade, tudo o que podia mexer com as cabeças) é a melhor pedagogia cívica nos nossos dias.

A essa marca inconsciente que os quase 50 anos de democracia não conseguiram eliminar, somam-se agora novos impulsos censórios vindos também das instituições, mas também “de baixo”, do activismo político à esquerda e à direita e das redes sociais

Na verdade, sendo a Censura poderosa pelo rastro de interditos e “inconveniências” que deixou – um exemplo recente é falar das crises estudantis dos anos 60-70 como se fossem apenas movimentos espontâneos de revolta, minimizando o papel decisivo das organizações políticas clandestinas, o PCP e os grupos esquerdistas, acabando por as “despartidarizar” como se o papel dos partidos “manchasse” o valor dos eventos –, é também a mais fácil de denunciar, quando se vai à sua realidade. E isso significa ir muito para além da acção contra o explícito político, e ter uma concepção holística da Censura.

 É o que, integrado nas comemorações de Abril da Câmara Municipal de Lisboa e com o seu apoio, a exposição que será inaugurada na próxima semana em Lisboa com materiais das censuras do Arquivo Ephemera vai tentar fazer. A exposição estará no Edifício do Diário de Notícias, por debaixo das grandes pinturas murais de Almada, incluindo a que ilustra este artigo. A sua citação titular é de Salazar, um activo mentor e legitimador da Censura, mas duas frases, entre milhares produzidas de 1926 a 1974, retratam a “obra” da Censura e pouco importa sobre que livros ou autores foram escritas:

“parece que o autor esteve em qualquer vila, ou aldeia, e escolheu para protagonista do seu romance a família mais asquerosa do povoado”

“as obras destes autores não devem ser consentidas em agremiações operárias, por razões óbvias”

As “razões óbvias” explicam tudo. Visitemos o arranque e a moldagem da Censura nos anos 30 que a fez como existiu até 1974. O conflito entre a Itália e a Etiópia não podia ser comentado, porque isso era “propaganda antifascista”, do mesmo modo que não se podiam fazer “referências menos respeitosas para com o Chefe do Governo Alemão”, Adolfo Hitler. Aliás, condenar a invasão da Etiópia era proibido por “antibelicismo”. Como “propaganda inconveniente” eram cortadas as referências a “António José da Silva (O Judeu)” queimado pela Inquisição. Duarte Nuno de Bragança não podia ser identificado como pretendente ao trono português, mas a restauração da monarquia na Grécia era cuidadosamente protegida de dichotes.

Corrupção não havia e as negociatas da Sociedade dos Açúcares eram “cortadas totalmente”. Em Espanha podia-se falar de “escândalos”, por cá não. Violências também não, o país tinha “brandos costumes”. Por exemplo, não se podia saber que em Peniche um “motim”, provocado por protestos contra a prisão de pescadores que pescavam com dinamite, teve dois mortos. Violência sobre as mulheres, infanticídio, aborto, pedofilia, violações – tudo cortado.~

A religião era intocável e a Censura escondia dezenas de conflitos anticlericais. A queixa de um missionário sobre as dificuldades de ensinar a doutrina cristã aos indígenas, porque estes consideravam que as histórias de “Criador que rege o céu a terra” eram da mesma natureza das suas histórias com “leões, hienas e chacais” – subversivo.

Falar do analfabetismo no exército era antimilitarismo. Falar da lepra em Portugal? Proibido, porque era “assunto fechado”. Um jornalista estivera preso num local com muitos ratos – corte total. A tuberculose como “doença social” era perigosíssima para os censores: não bastavam sanatórios, mas ter vida “sem fome” – corte total. Não podia haver queixas sobre o “caríssimo” serviço telefónico, sobre a falta de assistência aos pescadores do bacalhau na Terra Nova, etc.

Suicídios, como se sabe, não havia. Era um país propício a quedas em poços e a acidentes com armas de fogo. Uma “figura popular” teve um misterioso “desaparecimento” (expressão muito usada para os suicídios) – corte total “por se depreender que é suicídio”. Um tenente em Penacova fez um desfalque e matou-se – corte total. A Greta Garbo chinesa, a atriz Ruan Lingyu que se suicidara em 1935, era objecto de uma atenção detalhada da censura, que suprimia com vigor as “doentias sugestões”.





Pintura de Almada Negreiros no Edifício do Diário de Notícias, em Lisboa. Retrata a sequência da redacção, produção, impressão, e distribuição de um jornal. Tem uma omissão deliberada: falta o envio das provas à Censura para esta poder proibir, cortar ou permitir o que se podia ler DR

A moral e os bons costumes eram, junto com a subversão, real ou imaginada, e o desrespeito o núcleo duro da acção da Censura. E nisso os censores, muitas vezes tratados como pouco inteligentes e ainda menos cultos e “burros” no sentido popular do termo, eram mesmo bons.

Não se podia saber que em Évora uma rapariga tinha desaparecido da “casa da família”, coisa assaz inconveniente. Umas “quadras em que se canta o amor prostituído, totalmente cortadas por imorais”. Uma “versalhada para fadistas” cortada “por porca”…

Quarenta e oito anos assim. O Portugal que aparece nos cortes das censuras não era o Portugal que existia. Esse os portugueses não o podiam conhecer. Alguns saudosistas de Salazar e alguns neo-saudosistas actuais, que arranjam mil pretextos para legitimar a ditadura, lavando-a das suas violências para diminuir a democracia, têm nesta matéria um osso duro de roer. Eles sabem disso, eles sabem como foi, mas fazem de conta.

O autor é colunista do PÚBLICO

 https://www.publico.pt/2022/04/02/opiniao/opiniao/portugal-pais-portugueses-proibidos-conhecer-2001084


sábado, 5 de março de 2022

Filipe Chinita - Contra a guerra

03.03.2022

Sex, 13:11

*  Filipe Chinita


contra a guerra!

.

eu

comunista

(e nunca imperialista)

não suporto mais

ouvir

as 'notícias'

e

mui menos

os 'comentários'

de 'jornalistas' e 'comentadores'

(excepto de alguns militares)

sobre a mesma

que

se revelam

ser de palavra.s!

- sentados nas suas cadeirinhas -

tão ou mais belicistas

do que aqueles

que

se guerreiam

em campo

pois que

só defendem e promovem

- sem responsabilidade alguma -

o acentuar generalizado.

da mesma... de que

todos! poderemos

vir a padecer

senão

mesmo

a morrer

ou

a desaparecer

.

isto

além do histerismo

quasi.generalizado

(quando

não já violência.

física e verbal)

que já reina...

nas mentes

de alguns/

umas

.

um bom dia

para todos

os

que

'almejam' a paz

de palavras

e

de actos

.

fj

12.38

04.03.2022

apago-me e retiro-me

de mais comentários

sobre... esta

des.dita

.

o meu coração está com

todos! os que sofrem

(milhões)

com

a guerra

________________________________________________________

está

em marcha

mais uma grande campanha.propagandística imperial

servindo-se vergonhosamente da guerra

da violência da destruição e da morte

como su.porte... da mesma

.

quem

o não consegue ver

é apenas...

alienadamente

cego!


13:53

'sociologia

política'

.

os

mesmos

(estranhos) seres

que nunca antes

foram solidários

com

outras guerras!

bem mais destruidoras do que até agora... esta

nem com os refugiados das mesmas...

adoptando reaccionárias posições

de qussi.extrema-direita

são agora

mui subitamente

solidárias

com esta guerra

estes refugiados

unindo-se contra

tudo o que é

russo

.

incluso

contra toda a arte

e desporto/istas

daquele

povo

.

porque

será

?!

.

pensem

um pouco

sintam um pouco.

e

estranhem-se...

ou

entrenhem-se

um pouco

mais

.

o sempre

vosso

fj

13.16


05.03.2022

e

nem

já falo

de 'jornalistas'

nem de 'comentadores'

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Filipe Chinita - breve estarei a viver na rua

* Filipe Chinita


breve estarei a viver na rua

Dom, 23:37


nunca

imaginei...

poder haver seres

que tanto nos bajulem...

- pública e privadamente - pela frente...

tão mal nos mal.dizendo... pelas costas

.

fj

22.34

27.02.2022

Qui, 22:00


comunista

.

(eu)

sou comunista

.

não!

vazo o marxismo

para o plástico lixo dos dias

nem para o caixote do lixo da história

.

mui menos

o seu método dialéctico de pensar e agir

que praticamente já quasi.ninguém

sabe usar... e menos ainda...

pratica

.

comunista.

materialista.dialéctico e histórico

portanto o mais in.comum.e rasteiro dos seres

rente ao chão... qual a pene.planície

em que nasci... levantado

da mesma

.

comunista.

alentejano.

e desde sempre!

benfiquista. e

vermelho!

.

comunista.

da

planície

do latifúndio

- de sol a sol -

da quinta dos pretos.escravos!

.

comunista.

da mineral

milenar - de humanos -

proletária e resistente aldeia/vila de escoural

.

comunista.

p'la construção da sociedade socialista

em todo o planeta/terra

tendo como fito último e primeiro...

atingir a civilização

comunista

.

comunista.

nada pois...

tenho a ver com o.s imperialismo.s


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Poesia de Filipe Chinita

20.02.2022

e

ainda

me vêm falar... sem corar

de democracia e

liberdade...

decerto!

que apenas... a dele.s

.

e

o malvado... putin

(com o qual nada tenho a ver)

é que... propagandeia

quando só a favor

da ucrâcia

todos!

falam

sempre!

(os) ucraniamos

de cá e de lá...

ouvindo

.

ah

e claro

ainda é... professor universitário

21/02/2022, 00:40

Filipe

Filipe Chinita

ponto da situação política

.

eu

digo-te... qual 

(é) a 'sublime' diferença:

se... não me desviar.em

da minha paz e silêncio

eu passo um inteiro dia

em plena concentração

de mim... escrevendo

em íntegro labor... de

(s)em horas.sem fim

sem me perder

com nada mais

e

inteiramente

feliz.de mim

e do que

faço:

servir o.s

outro.s

.

fj

23.47

20.02.2022

'talento'

é apenas trabalho

e trans/inspiração

.

ah

e mesmo....

de rabo ferido.em sangue

em

casa alheia.sem nada de meu

completamente paupérrimo

de tudo

a

320 euros mês

cuidando

de minha mãe.de 85 anos

(vai para mais de dois anos)

sem liberdade alguma

sem ternura alguma

sem amor

algum

.

inteiramente

dependente...

da boa vontade

de outros.e de outrem

______________________________

ou

ainda... do 'choro':

nunca

te queiras ver na situação

em que me encontro eu

absolutamente

manietado

pela

realidade

concreta

.

inteira

mente livre...

(apenas)

dentro de mim mesmo

sem já o meu próprio corpo

dominar... na sua totalidade


sábado, 19 de fevereiro de 2022

Xoto - Setubalense - Amo-te Setúbal


* Xoto




Música Livre - Esta música é dedicada a todos os Sadines, aos por cá e aos espalhados pelo mundo. Não se deixem desmotivar pelas chapadas da rotina, a vida é nossa. Obrigado a todos os que ajudaram a fazer o video. Saude, familia, amizade, amor e barriga cheia para todos. Instrumental - Spot Letra - Xoto (rapper setubalense ) Video - Luís Malaia


[Verso 1]

Setubalense
Carrego na alma uma garra uma raiva amarrada a uma corrente irreverente dum rio azul
Cresci a correr nu pela praia da Tróia, que saudades..
Meu refúgio, meu casulo..azul..
Areia fina, tarde em família
Falar na bola deriva que adoptei o grande amor da minha vida
Ri, corri, chorei e cai de bina
Comi o que pesquei c'a cana do meu avô
Explorei dunas, observei luas, apanhei navalhas e conquilhas
Foi o meu pai que me ensinou
Esquilhas no assador
Terra de pescadores
Gente humilde, gente simples, gente boa, bons valores
Poucos ricos, muitos trabalhadores
Poucos mimos, muitos mais malandros e sonhadores
Certinhos aqui, não pagam renda
Cada bairro cada lenda
[?] multibancos, bancos, carrinhas da Prosegur
Não te enganes, aqui os gangs têm guns
Obra não para a conta do Jumbo
Margem Sul é um deserto e aqui a bófia aqui anda de camelo atrás de DTRs e Fiat Unos
Setúbal, Cidade Rebelde!
As nossas paredes gritam aquilo que nos apetece
Adoro andar p'as ruas da minha cidade a ver tudo o que é parede a abarrotar de graffs
Mas sinceramente ultimamente dá muito mais vontade de girar pá' arrancar posters do PNR
A rua é de quem usa não é das varejas atrevidas
Pousam na CMS, amo esta cidade!
E nesta ansiedade não é a festa que me satisfaz e me faz acalmar
É a serra é o Sado
É uma sesta cheia de sal, moura
É 'tar em frente à pedra da Anicha com muito amor
A misturar o luar com sexo à beira mar
Com sexo aproveitar o verso
Em cada voar de conversa a deslizar pelo universo
Confesso que hei-de levar uma becs deste lugar para onde quer que eu viajar
Sei que Setúbal hei-de amar e posso contar com o verso



[Refrão]
Onde é que existe um rio azul igual ao meu?
Onde bué'da dias têm a mesma cor do céu
A sonhar alto libertei a minha Arrábida
Senti no rosto uma lágrima que me escorreu



[Verso 2]
Eu fui criado no Sado
Setúbal cidade de poetas
Rimo Sado com peixe assado, levo a cidade nas veias!
Veias salgadas e cheias de cheiro a amêijoa da caldeira
A tinta que me sai da caneta cheira a sardinhas da praça
Setubalense pa' sempre
Setúbal mentes diferentes
Se tu não sentes não tentes
Se fumas menos entendes
Ardam escolas de hotelaria, servir ricos não é pa' nós
Abram escolas de charroco, o meu povo não quer resorts
Os nossos filhos só verão a Tróia dos seus avós em fotos
A bulir pa' Belmiros nem no verão encherão os vossos bolsos
Maior bode é o preço do ferryboat
Ápá sóce, não te sentes um ganda bobo?
Querem-nos ver longe de lá e não sabem como
Eu dizia-lhes onde é que eu lhes enfiava os tacos de golfe
Revolta-me ver a Arrábida esburacada por uma fábrica de cimento
A fazer publicidade que sustentam a biodiversidade
A apoiar colectividades (para acalmar e calar a cidade)
Não inventem
Toda a gente vê aquele buraco à frente men..
Qualquer dia eu...
Faço uma loucura, o meu coração não se segura
Com uma escura visão mergulha em escuridão insegura
Cuidado, ele procura desculpas
Farto...
De observar abutres a rodear a minha linda cidade


[Refrão]
Onde é que existe um rio azul igual ao meu?
Onde bué'da dias têm a mesma cor do céu
A sonhar alto libertei a minha Arrábida
Senti no rosto uma lágrima que me escorreu

[Outro]
Onde é que existe uma cidade igual à minha?
Assim genuína inspira-me em cada esquina
[?] em cada esquina, em cada praia
Dos Special Ones, desde o Viso à Bela Vista, do Miradouro ao Liceu

Worst comes to worst, my peoples comes first
Por mais que eu esteja longe o feeling é one love

https://genius.com/Xoto-setubalense-lyrics

Poesia de Filipe Chinita - um dia... em vão

19/02/2022, 21:46

* Filipe Chinita

um dia... em vão

.

não aguento...

nada

.

(nem) sequer

uma dose

para mim

(habituado... que estou

a tudo dividir...

por dois)

.

estou já mortal...

a todo o tempo

.

como sempre

aliás.somos

.

mas agora

mui mais

.

cheguei

a morrer...

desta aventura

de máquina.s de café

e (de) torradeira.s

no comercial

colombo...

worten

.

peça

de substuição...

nem pensar...

malgré...

tudo feito

na república popular da china

ao preço... da uva

mijona

ao serviço das 'marcas' todas!

do capitalismo

mundial...

.

para que serve então o capitalismo?!

se quasi.tudo! dele... e delas

é produzido na

china

esses malvados... 'falsos comunistas

vendidos... ao capitalismo'

que querem 'dominar'

o ocidental

mundo...

'livre'

.

fj

20.35

19.02.2022

e

assim

se passou mais um dia

só... estirado no sofá...

recuperando

-me

.

um dia

fora dos meus ritmos

é já de si quasi.mortal

.

então sem o meu café

matinal... que

dizer...

?!

foi um dia...

como se não contasse

para a (minha)

vida...

de

tal forma

mal-disposto... fisicamente

que só a minha mãe janta

(o nosso arroz.de sempre)

com

o folhadinho de carne

que lhe... trouxe

da nobel...

versaille.s

pejada

de jovens empregadas

vindas do outro lado

do atlântico

.

fj

20.40

19.02.2022

então...

boa noite.a todos!

20/02/2022, 21:40

Filipe

Filipe Chinita

o

faz tudo.

da 'democracia'

e 'liberdade' de adão e silva

em toda a televisiva

comunicação

pátria

.

ele

é comemorações

dos 50 anos do 25 de abril.

ele

é canal 1.ao domingo.

ele

é canal 6.à semana

aqui.sempre a favor

do sistema

social-democrata

do capital

ismo

.

ele

é sport tv

(como que representando

o sport lisboa e benfica)

aqui.sempre em discurso

contra

o seu dito clube

decerto que

cor de

rosa

.

fj

21.04


domingo, 13 de fevereiro de 2022

João Ramos de Almeida - A lã e a neve liberais do Estado Novo

* João Ramos de Almeida

Deixem-me contar, de forma sucinta, as primeiras cinquenta páginas de um livro que estou a ler. 

"A Lã e a Neve", do Ferreira de Castro, um "romance proletário" passado na Covilhã - , teve a sua primeira edição em 1947, durante a II Grande Guerra, e lê-lo hoje é uma máquina do tempo: pelo que descreve, pela linguagem usada, pelos sentimentos contidos, pelos personagens que nos ressoam a familiares distantes e - é aí que eu quero chegar! - pela desigualdade social tão fortemente hierarquizada e pelo consequente desamparo em que as pessoas viviam. 

Um desamparo a que nos arriscamos a viver cada vez mais, caso as arcaicas e interesseiras teses liberais se reforcem - ainda mais! - no país. A história começa asssim:

O jovem Horácio volta alegre a casa, a uma aldeia de Manteigas, depois de ter feito a tropa. E vem cheio de ideias. Viu Lisboa e o Estoril, as casas, os jardins, a limpeza das ruas e não lhe agradam mais como se vive na sua terra. O escritor é exímio:
Casas "negregosas, velhentas, colavam-se umas às outras, com a parte inferior de granito escurecido pelo tempo e a parte cimeira com folhas de zinco enferrujadas a revestirem as paredes de taipa, mais baratas do que as de pedra. Este e aquele casebre exibiam apodrecidas varandas de madeira e outros, mais raros, umas escadas exteriores, coroadas por um patamarzito quadrado, logradoiro do mulheredo nas horas do paleio com as vizinhas".
Horácio tenta convencer a noiva Idalina a adiar o casamento para que possam viver o seu sonho. Quer deixar o pastoreio que lhe rende pouco e que o faz estar meses afastado, sozinho pela serra de neve, com os animais. Quer fazer-se empregar numa fábrica de lanifícios da Covilhã para ganhar mais e conseguir juntar dinheiro para terem uma casa, limpa, com quintal, onde possam crescer os filhos saudáveis. Mas Idalina tem medo que o casamento se adie para sempre. Não vê como vai ele arranjar esse dinheiro. Horácio insiste e acha que convenceu a Idalina. Mas o sonho mal limado esbarra em obstáculos. 
Fala com o padre, pede-lhe ajuda, mas as fábricas não estão a abrir as portas. Horácio já tem mais de 20 anos e ser aprendiz não é tarefa de mancebo. Além do mais, as fábricas estão limitadas a contratar até 20% de aprendizes. Está tudo cheio. Sai acabrunhado. Encontra o seu parceiro que o deixa pensativo. Ele não trocaria a liberdade pela fábrica, fechado no fio das horas, sem fim. Mas na arte de pastoreio também não se faz fortuna. Rebanhos próprios pouco se aguentam. É uma dor de alma, mas tem de se vender ovelhas para comprar cabras que tudo comem. 
Horácio vai à Covilhã que já a sente comesinha face a Lisboa, e a sua esperança esvazia-se. A mesma história das fábricas sem empregos. Horácio amaldiçoa a escolha para padrinho feita pelos pais. Outro galo cantaria se fosse aquele outro com os seus terrenos comprados aos camponeses em dificuldades e que montou em toda a região fábricas cheias de operários, onde os seus apadrinhados têm sempre lugar porque quando há greves, os apadrinhados não alinham. Tudo lhe parece afundar-se. E se isso não bastasse, os pais estão contra o seu sonho. Lá muito a custo contam-lhe porquê. 
Na sua ausência, o pai adoeceu e tiveram de pedir dinheiro emprestado para o tratar. Não conseguiram hipotecar a propriedade. E a última pessoa a quem pediram foi ao patrão do Horácio, o dono dos rebanhos, a quem garantiram que o que ele ganhasse era para pagar a dívida contraída. Horácio vê-se assim obrigado a ter de trabalhar sem ganhar. O pai ainda lhe propõe que se venda a pequena courela que os pais tinham: "Assim como assim, era para ti". Horácio não aceita. Mas fica a roer-se. E nada pode dizer por causa desse segredo dos pais. Quer contar a Idalina, mas não pode. 
Idalina faz perguntas, mas a medo. Fica triste, em silêncio. Conta aos pais que intervêm, como se o rapaz quisesse esquecer o casório. Filho e pais prometem que nada se altera, sem explicar o que se passa. Mesmo tendo estado longe de Idalina durante todo o tempo da tropa, Horácio decide regressar quanto antes ao pastoreio. Quanto mais cedo pagar a dívida, melhor. 
Veste o seu capote de pastor, assobia ao cão que vem todo feliz ter com ele. A felicidade do cão agredi-o e Horácio atira-lhe uma pedra à pata que o deixa a mancar. Nunca mais o cão saltará feliz à sua frente. Horácio vai ter com a Idalina ao campo onde ela está a sachar. É uma cena de filme. 
Ela triste porque mal esteve com ele e ele a justificar-se que quer acabar com a dependência do seu patrão, desejoso de lhe dizer o que vai na alma, mas não lhe sai. E o tempo silencioso, de poucas palavras, marcado pelo som ritmado das enxadas na terra, como um relógio a empurrar o encontro para o fim porque ela foi contratada para sachar e não para estar ali a conversar. Ele afasta-se com o cão para meses de invernia.

O que ressalta desta história? Para mim, a ausência do papel interventivo do Estado. 

Um Estado capaz de conceder a justiça social onde reina a primária desigualdade, o regime imperial de classe que advém do domínio da propriedade e da propriedade dos instrumentos de produção. Os pais de Horácio teriam tido uma assistência médica universal e - mesmo que fosse! - "tendencialmente gratuita", paga pelos impostos que incidiriam sobre quem mais tem, e não precisariam de se endividar ou de aprisionar o futuro do seu filho, obrigado agora a trabalhar sem nada receber para si, para pagar uma dívida estúpida. Pugnar hoje pela redução da "carga fiscal", cheira a pedir a desobrigação por parte dos mais ricos de contribuir em prol dos mais pobres. Um regresso à selvajaria.

Para ter um emprego do seu agrado, os trabalhadores pobres não teriam de esperar reverencialmente pelo apoio impotente do padre da aldeia ou do beneplácito interesseiro dos padrinhos da terra, nem ter de condicionar a sua opinião ao emprego garantido pelos padrinhosHoje, os trabalhadores inscrevem-se em agências de trabalho temporário ou em plataformas que os transformam em trabalhadores por conta própria, isolados, trabalhadores desmaterializados, erxplorados até ao tutano, a pensar que estão sozinhos na sua vida. Os serviços públicos de emprego foram privatizados e os empregos deixados ao abandono por uma autoridade pública de regulação ou mesmo judicial que deixam que a lei que não seja aplicada (consultar o Código de Trabalho a partir do artigo 139º sobre as modalidades de contrato de trabalho).

Resta esperar que os representantes do Estado de hoje saibam governar no sentido de impedir que a vida de trabalho não seja uma vida de pobreza e que haja empregos para quem queira trabalhar (no 4º trimestre de 2021, a taxa de subutilização do trabalho ainda rondava os 12%) e ter uma vida que possa garantir uma casa condigna, mesmo que a referência ainda seja a ilusória zona senhorial do Estoril, já reconstruída e reforçada por todos os donos que fingem hoje nada se lembrar do passado em que foram reis de todosao mesmo tempo que apoiam a liberdade sem intervenção do Estado, como se fosse uma moda moderna. 

Depois, conto-lhes o que aconteceu ao Horácio.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Filipe Chinita - partido.comunista.

* Filipe Chinita

 
partido.comunista.
português.
mesmo 
em toda a 'calamitosa' situação 
para o meu heróico e amado 
partido
(aquele 
que vivi eu... 
24 horas/dia no chão do alentejo)
- e até! por isso... mesmo! -
sempre! enquanto 
ele tiver 
nome 
de comunista.
e se propuser 
como seu objectivo... o socialismo
e como seu fito e fim último o comunismo.no planeta terra
devo esclarecer... que 
sendo clara.mente materialista.histórico/dialéctico
sou eu! contra! toda a actividade 
f(r)accionista
mesmo 
em todos os desvios... de esquerda ou de direita 
que possamos ter tido ao longo 
da nossa longa 
história
.
que cousa... triste
exactamente... nos 100 anos do nosso partido
.
em toda 
a minha impotência 
trans.formadora.de práticas concretas

resta-me únicamente a poética.escrita
como forma de intervir
neste processo
.
não!
não me quero separar
de nenhum dos meus camaradas...

excepto.apenas! daqueles que se tornam anti/comunistas
.
com 
o meu obrigado! 
a todos.os que um dia... combateram por nós!
.
fj
21.11
12.02.2022

Filipe Chinita - comunistas/comunismo

* Filipe Chinita

comunistas/comunismo

1.
não.
nós não queremos - apenas - 
estilhaçar o capitalismo 
e construir o 
socialismo
2.
nós 
acometemo-nos o comunismo.
enquanto nova 'civilização' 
- como diz o meu outro -
de um.mesmo.
mas já outro
in.comum
humano
3.
lentamente formado
em novas circunstâncias 
de aprendizagem e vida 
em sociedade
humana
- e não 
desabrochando num ápice
qual varinha de condão... 
num instantâneo 
passe de 
magia -
.
vida
e aprendizagem
educada
sensível
culta
que 
desde 
o nascimento cresça
- sem propriedade.s.nem poder.es.posse.s.inveja.s.ciúme.s.e ódio.s -
em novas circunstâncias.humanas! 
de efectiva igualdade.de todos.
na liberdade maior.e concreta.
na fraternidade.toda.
na talentosa 
diferença 
de cada 
um.
único
4.
senão 
não 
nos chamaríamos 
- desde sempre -  de comunistas
do
- manifesto do partido comunista - 
d(esd)e marx e engels
(nem)... 
ainda lénine 
nada riscava
5.
se  
for o caso 
de havermos desistido de tal....
se 
for o caso 
de já não acreditarmos 
pelo que durante séculos lutámos
deixemos então - como fizeram outros 
com as visíveis... consequências -
de nos auto.designar.mos 
- como sempre nos 
chamámos -
de 
partido 
comunista.(o) português
6.
mas eu 
- e decerto que muitos outros -
comunista... o continuarei sendo.sempre
7.
pois que lutar contra o capitalismo 
para lhe corrigir as desigualdades 
e lhe aplainar '
os defeitos'
nunca foi.
nem 
é.
nem nunca será 
o meu/nem 
nosso... 
único 
fim
8.  
porque isso 
qualquer um outro partido
de um nome outro 
(o) poderá... 
fazer
porque isso 
é e seria (o) absolutamente nada
porque isso
não mobilizaria ninguém... 
para nada... de humanamente grandioso
porque isso 
seria o estúpido e tão proclamado 'fim da história'
9.
no entanto 
ela... nunca parou.nem parará 
de se mover... e para 
diante! 
- malgré 
todos os aparentes passos atrás -
avante! 
pelo social.ismo adiante
rumo ao comunismo
10.
que 
só poderá resultar
da empenhada.lúcida.
inteligente.sensível.individual.culta e colectiva acção humana
bem 
da vida 
no planeta terra
levando atrás de si 
quasi.todos os humanos - todos! os que connosco queiram vir -
e tudo! 
o que de melhor! até então os humanos aprenderam e construíram
11.
comunismo 
é e será o nosso humano céu... na terra!
'a juventude do mundo' como dizia o outro
a 'civilização' de todos os iguais.diferentes.
12
já! 
sem resquícios 
de classe.s nem de deus.es...
porque entretanto 
a propriedade,o poder,a posse.a violência.as guerras.as religiões
e todas demais explicações não cientificas 
da vida.do mundo.e do universo
já se terão - mui
lentamente - 
apagado
e trans.formado numa 
culta e sensível 
inteligência 
cientifica
e
humana!
só de humanos
(ou de outros vivos seres... 
inteligentes e sensíveis
que os haja... p'lo 
espaço/tempo
sideral)
.
fj
07.29
17.01.2021
sem revisões...
Filipe Chinita a cumprir uma suspensão de 30 dias imposta pelo facebook.

Elias Quadros - MENINA DOS OLHOS TRISTES



* Elias Quadros

Foto: Google

— Em nome de Sua Excelência o General Comandante-Chefe das Foças Armadas em Angola, os meus sentidos pêsames! Um bravo que, no campo da honra, tombou ao serviço da Pátria!...

Estas dolorosas missões de condolências às famílias -- impostas ao oficial mais 'moderno' – eram limitadas, porém, a funerais de militares da Província, pois os caixões dos outros eram simplesmente armazenados no Cemitério da Estrada de Catete, aguardando embarque para a Metrópole...

«Menina dos olhos tristes / O que tanto a faz chorar? / O soldadinho não volta / Do outro lado do mar»…

A vida não lhe corria de feição desde que – naquela manhã de 4 de agosto de 1970 – chegara à cidade a que Paulo Dias de Novais dera, em 1575, o nome de São Paulo da Assunção de Luanda. Terra aquela já calcorreada pelos portugueses desde que – 90 anos antes – Diogo Cão por ali andara, a plantar padrões das quinas de Portugal. 

Diretamente do Vera Cruz, um jeep levou-o para o Grafanil. Mas ele – com os distúrbios com que, toda a noite, os presos de Elvas viraram do avesso o quartel – mal pregara olho quando um furriel, muito aflito, o despertou para o acompanhar ao Quartel-General do Exército. 

De facto, desde matinas que o procuravam para entrar de 'oficial-de-dia'. Ora – como lhe haviam dito que a sua especialidade não fazia serviços – ele nem sequer camuflado levara. Porém, logo ali o 'desenrascaram' e o capitão, que ia render, foi tão camarada que nem chegou a 'participar' dele. Pior foi quando lhe passou o serviço – em não mais de cinco minutos – chamando a atenção para os espaços que deviam ser neutralizados pelo fogo, caso viesse o edifício a ser atacado. Mas que não se preocupasse que tudo estava bem claro nas NEPs-Normas de Execução Permanente que lhe entregava. Brochadas como grossas listas telefónicas, sobrepostas bem perfariam um metro de altura. 

Desistiu às tantas de tão cativante leitura que, a bom ritmo, daria para meses. Durante o dia não se registaram ocorrências de monta. Mas, pelas quatro da madrugada, uma mensagem solicitava o envio de quatro caixões que deveriam seguir, por via aérea, para o Leste. Foi o 'oficial de prevenção' que lhe valeu em tal circunstância e a macabra encomenda lá seguiu conforme as NEPs.

De manhã – rendido no posto que tanta angústia lhe causara – recebeu 'guia-de-marcha' para o Comando-Chefe, na Fortaleza de São Miguel. Na secretaria, disseram-lhe que fosse almoçar pois o Coronel Chefe da 5.ª Secção só o receberia da parte da tarde. Porém, mal saído para a parada – dependurado de um 'português suave' – bate pala a um militar com uns vermelhos nos ombros que ele tomou por 'cabo readmitido'. 

Realmente – por não ir à bola com a tropa e, por motivo de altura andar sempre na cauda do pelotão – ele nunca aprendera a acertar passo nas formaturas nem a identificar os postos militares. Assim, não é que o raio do brigadeiro o queria logo mandar prender por desrespeito! Valeu-lhe ter surgido Costa Gomes que interrompeu a cena, pedindo ao tal oficial general que o acompanhasse ao almoço. E ordenou ali mesmo ao alferes que se apresentasse de tarde no seu gabinete. 

Agora, sozinho, em mesa do mesmo restaurante – de toalha branca reservado aos 'senhores oficiais e famílias' e onde a refeição custava 40 paus – dizia mal da vida desde que às pressas arrancara da Figueira da Foz, na véspera de São Tomé. 

Naquela mesma tarde – pago de T/V e abonado de R/R para 𝓧 dias (T/V, 'todos os vencimentos'; R/R, 'ração de reserva') – recebeu no Comando-Chefe a missão de ir aos Dembos proclamar, a todo um batalhão, a importância económica e social das vias de comunicação que o destacamento de engenharia – a que o batalhão de caçadores dava proteção –  rompia por aquelas inóspitas matas.

Matas que, durante séculos, se rebelaram sempre hostis ao Império.B

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Filipe Chinita - ou da liberdade'

* Filipe Chinita 

Sáb, 12:58
2022 02 05

ou
da liberdade'
.
dizem-se 
pela liberdade...
.
(que nós! 
é que somos... pelas 'ditaduras'... do proletariado
que  nem bem sabem... 
o que isso foi 
ou é)
.
mas 
no entanto!
nunca os vimos ao nosso lado
.
quando 
durante uma inteira vida.48 anos!
foi necessário lutar... por ela 
com o corpo a vida 
o sangue e até 
a morte
.
a nossa
.
para que lhes fosse possível
a eles... dela usufruírem
sem sequer... nunca! 
nos dizerem... um 
- obrigado!
.
ignorantes.pesporrentos
(quando não mesmo boçais)
que deveras! foram 
são e continuam
d.esventrados
de qualquer funda
humanidade 
funda!
.
nunca!
por nada!
de transcendente
na (sua) inteira vida... lutando
senão... pela tranquila vidinha... deles.próprios
.
Fj

11.57
05.02.2022

na sua boca... 
nós! é que ainda! somos 
defensores/amantes de ditaduras....