D'ali e D'aqui
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Maria J. Paixão - O estranho caso da cidade-evento
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril
Nazim Hikmet - Dom Quixote
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil
Manuel Cardoso - A inaudita guerra da Serra de Carnaxide
Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...
* Fernando Serrano
14
de abril de 2026
O Sr. Ventura
falou...falou...falou...
Mas negou a
verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...
Primeiro
escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que
fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou
não quis fazer. Salazar falhou.
Mesmo depois do
desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.
Salazar tratou
os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal.
Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de
Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse
sido a ONU ainda hoje ali estariam...
Puniu,
humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão
porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta
impossível de vencer.
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O Sr. Ventura
mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.
O Sr. Ventura
não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na
colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a
estes lugares que concor ressem?!
Só depois de
todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam
direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?
Os portugueses
de Portugal receberam os retornados muito bem.
Tivesse sido o
contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou
Moçambique e a música seria bem diferente.
Basta que se
saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes
defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os
animais domésticos...
Não fazíamos lá
falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam
eles.
O Sr. Ventura
não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem
conhece.
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Uma
descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...
Uma
descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.
Estaria o Povo
Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?
Eu não
estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.
O tempo de ser
negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.
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Quanto aos
presos políticos.
48 anos de
repressão…a PIDE ...de prisões...de
mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...
Catarina
Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…
«A morte saiu à
rua num dia assim...»
Comparar este
tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito
desonesto.
O Sr. Ventura
quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os
Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que
durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25
de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos
grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.
E sabe,
Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem
princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta
ver como se comporta na AR.
Após o 25 de
Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...
Não houve mais
um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos
que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando,
não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero
que não, pois uma vez chega.
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O Sr. André não
viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.
O Sr André não
viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.
O Sr. André não
chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e
desespero.
O Sr.André
Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o
«cacarejar...
Quanto aos
massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...
E o rebola a
bola que a bola é cabeça de preto em Angola?
E o Napalm na
Guiné?!...
E Wiryamu em
Moçambique?
E os
guerrilheiros mortos no momento da rendição?
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Ó senhor
Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...
Se estamos
abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem
sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de
30 meses de guerra, à nova situação...
Um combatente
eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente
com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade
ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.
O médico que
lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o
aceitaram...
Hoje, 50 anos
depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer
hospital militar.
Salazar foi o
tal que abandonou os seus soldados.
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56 anos depois
de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da
guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe
reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber
uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos
estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá,
provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a
nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não
esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.
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O senhor
Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961
recomeçou...
Não esqueça as
campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais
Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime,
onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene…
Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.
Entre 1910 e
1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o
passo, como dizer sói…
Em 1961 a
guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não
avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de
guerrilha…Eu estive nesta guerra.
E sabe por quê?
Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.
Se não fosse
Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha
família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou
exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.
O senhor
Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu
por ignorância ou por maldade?!
Salazar ordenou
a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir
pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…
Eu sei como as
coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.
Leia...informe-se
e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade,
só é ganha, se se exterminar esse Povo.
Recorde-1143-1385-1640…E
Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.
Salazar enganou
os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes
que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram.
Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler
os ventos da História…
Diz o Povo…«Se
vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»
Espanha
descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica
descolonizou…Holanda descolonizou…
Salazar, « O
Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da
Europa Ocidental…
Uma taxa de
analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.
Mas com uma
moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos
mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!
Um Povo
Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos
privilégios- Clero e Nobreza.
O Sr. Ventura
sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em
Portugal?
Salazar
obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a
emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que
para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de
onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.
Salazar
explorava o Povo Português em favor das colónias.
Claro que não
sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…
Esse Abril que
nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.
Respeitosamente,
Um Português de
Portugal, Patriota.
Antigo
combatente que ama o seu país e a liberdade.
25 de Abril sempre…
hélder moura - O Socialismo segundo Albert Einstein
.hélder moura 20.05.26
É sempre recompensador einteressante tentar apercebermo-nos como as inteligências mais reputadas articulam os seus pensamentos. Infelizmente, grande parte dos seus escritos são demasiado técnicos ou especializados, estampados num cânone de si limitativo, o que dificulta essa desejada leitura.
Mas nem sempre é esse o caso, como por exemplo neste artigo de Albert Einstein, por ele intitulado “Why Socialism?”, publicado em maio de 1949 na primeira edição da Monthly Review, que aqui deixo na sua tradução integral:
Será aconselhável que alguém sem conhecimentos em questões económicas e sociais expresse opiniões sobre o socialismo? Acredito que sim, por uma série de razões.
Consideremos em primeiro lugar a questão do ponto de vista do conhecimento científico. Pode parecer que não existem diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos procuram descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenómenos, de modo a tornar a interligação destes fenómenos o mais compreensível possível. Mas, na realidade, tais diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no domínio da economia é dificultada pelo facto de os fenómenos económicos observados serem frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade foi — como é sabido — largamente influenciada e limitada por causas que não são, de modo algum, exclusivamente económicas. Por exemplo, a maioria dos grandes estados da história deve a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram a propriedade da terra e nomearam um sacerdócio entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controlo da educação, transformaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelo qual o povo passou a ser guiado, em grande parte inconscientemente, no seu comportamento social.
Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em momento algum superamos de facto aquilo a que Thorstein Veblen chamou a “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a esta fase e mesmo as leis que deles podemos derivar não são aplicáveis a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar e avançar para além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu estado atual pouco pode esclarecer sobre a sociedade socialista do futuro.
Em segundo lugar, o socialismo está direcionado para um fim socio ético. A ciência, no entanto, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; A ciência, no máximo, pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos e — se esses fins não nascerem mortos, mas antes vitais e vigorosos — são adotados e levados avante por muitos seres humanos que, quase inconscientemente, determinam a lenta evolução da sociedade.
Por estas razões, devemos ter cuidado para não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos presumir que apenas os especialistas têm o direito de se exprimir sobre questões que afetam a organização da sociedade.
Inúmeras vozes têm vindo a afirmar desde há algum tempo que a sociedade humana atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico de tal situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o que quero dizer, permitam-me que registe aqui uma experiência pessoal. Recentemente, conversei com um homem inteligente e bem-intencionado sobre a ameaça de uma outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e observei que só uma organização supranacional ofereceria proteção contra este perigo. Perante isto, o meu visitante, com muita calma e frieza, disse-me: “Porque se opõe tão veementemente ao desaparecimento da raça humana?”
Estou certo de que, há pouco mais de um século, ninguém teria feito uma afirmação deste tipo com tanta leviandade. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar o equilíbrio interior e que, em certa medida, perdeu a esperança de o obter. É a expressão de uma dolorosa solidão e isolamento que afligem tantas pessoas nos dias de hoje. Qual a causa? Existe uma saída?
É fácil levantar tais questões, mas difícil respondê-las com qualquer grau de certeza. Devo, contudo, tentar da melhor maneira possível, embora esteja bem ciente de que os nossos sentimentos e aspirações são frequentemente contraditórios e obscuros, e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.
O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, procura proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são mais próximos, satisfazer os seus desejos pessoais e desenvolver as suas capacidades inatas. Como ser social, procura obter o reconhecimento e o afeto dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Só a existência destas aspirações variadas e frequentemente conflituantes explica o carácter especial de um homem, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destas duas aspirações seja, em grande parte, determinada pela hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é amplamente formada pelo meio em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade e pela sua avaliação de determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa, para o ser humano individual, a soma total das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar por si próprio; mas depende tanto da sociedade — na sua existência física, intelectual e emocional — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que fornece ao homem alimento, vestuário, habitação, instrumentos de trabalho, linguagem, formas de pensamento e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida torna-se possível graças ao trabalho e às realizações de milhões de pessoas, do passado e do presente, que estão todas escondidas por detrás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido — tal como no caso das formigas e das abelhas. Contudo, enquanto todo o processo vital das formigas e das abelhas é determinado, até o menor detalhe, por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos seres humanos são muito variáveis e suscetíveis a mudanças. A memória, a capacidade de fazer novas combinações e o dom da comunicação oral possibilitaram desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas conquistas científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica como, num certo sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste processo, o pensamento e o desejo conscientes podem desempenhar um papel.
O homem adquire, à nascença, por hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, ao longo da vida, o indivíduo adquire uma constituição cultural que adota da sociedade através da comunicação e de muitas outras influências. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita a alterações e que determina, em grande medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensinou-nos, através da investigação comparativa das culturas ditas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode variar muito, dependendo dos padrões culturais predominantes e dos tipos de organização que prevalecem na sociedade. É nisto que aqueles que se esforçam por melhorar a condição humana podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se mutuamente ou a estarem à mercê de um destino cruel e autoimposto.
Se nos interrogarmos sobre a forma como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser alteradas para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar constantemente conscientes de que existem certas condições que não podemos modificar. Como já foi referido anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os efeitos práticos, não está sujeita a alterações. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente densamente povoadas, com os bens indispensáveis à sua sobrevivência, é absolutamente necessária uma divisão extrema do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo — que, olhando para trás, parece tão idílico — passou para sempre, quando indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Não é exagero afirmar que a humanidade constitui, ainda hoje, uma comunidade planetária de produção e consumo.
Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente aquilo que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não vive esta dependência como um ativo positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas da sua natureza são constantemente acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja a sua posição na sociedade, sofrem com este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, solitários e privados do prazer ingénuo, simples e descomplicado da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, dedicando-se à sociedade.
A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma vasta comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente por privar uns aos outros dos frutos do seu trabalho coletivo — não pela força, mas, em geral, em fiel conformidade com as normas legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante perceber que os meios de produção — isto é, toda a capacidade produtiva necessária para a produção de bens de consumo, bem como de bens de capital adicionais — podem ser, e na maioria das vezes são, propriedade privada de indivíduos.
Por uma questão de simplicidade, na discussão que se segue, chamarei “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a propriedade dos meios de produção — embora isso não corresponda exatamente ao uso habitual do termo. O proprietário dos meios de produção está em condições de comprar a força de trabalho do trabalhador. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que passam a ser propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe é pago, sendo ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas em relação à força de trabalho, considerando o número de trabalhadores que competem por vagas. É importante compreender que, mesmo em teoria, a remuneração do trabalhador não é determinada pelo valor do seu produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho incentivam a formação de unidades de produção maiores em detrimento das mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado nem sequer por uma sociedade política organizada democraticamente. Isto acontece porque os membros dos órgãos legislativos são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado do legislativo. A consequência é que os representantes do povo não protegem, de facto, suficientemente os interesses das camadas menos favorecidas da população. Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Assim, torna-se extremamente difícil, e na maioria dos casos praticamente impossível, para o cidadão comum chegar a conclusões objetivas e exercer os seus direitos políticos de forma inteligente.
A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do capital é, portanto, caracterizada por dois princípios principais: em primeiro lugar, os meios de produção (capital) são propriedade privada e os proprietários dispõem deles como bem entenderem; segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. Em particular, é de notar que os trabalhadores, através de longas e árduas lutas políticas, conseguiram garantir uma forma um pouco melhorada do “contrato de trabalho livre” para certas categorias de trabalhadores. Mas, de um modo geral, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.
A produção é realizada com o objetivo de lucro, não para uso. Não há garantia de que todos os capazes e dispostos a trabalhar encontrarão sempre emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador vive constantemente com medo de perder o emprego. Como os trabalhadores desempregados e mal remunerados não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é limitada, resultando em grandes dificuldades. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego do que numa redução da carga de trabalho para todos. A procura do lucro, em conjunto com a competição entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição desenfreada leva a um enorme desperdício de mão-de-obra e ao enfraquecimento da consciência social dos indivíduos, como já referi anteriormente.
Considero este enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude competitiva exacerbada é inculcada no aluno, que é treinado para idolatrar o sucesso material como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido de que só existe uma forma de eliminar estes graves males: o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educativo orientado para os objetivos sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertencem à própria sociedade e são utilizados de forma planificada. Uma economia planificada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho por todos os capazes de trabalhar e garantiria o sustento de todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, para além de promover as suas capacidades inatas, procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade para com os seus semelhantes, em vez da glorificação do poder e do sucesso presentes na nossa sociedade atual.
Contudo, é necessário lembrar que uma economia planificada ainda não é socialismo. Uma economia planificada, por si só, pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A conquista do socialismo exige a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, perante a ampla centralização do poder político e económico, impedir que a burocracia se torne omnipotente e prepotente? Como proteger os direitos do indivíduo e, assim, garantir um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
A clareza sobre os objetivos e os problemas do socialismo é de primordial importância na nossa era de transição. Uma vez que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e desimpedida destes problemas se tornou um forte tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.
https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/
domingo, 17 de maio de 2026
Frederico Duarte Carvalho - Abel Manta em três cartoons
Viveu 98 anos, mas há muito que era eterno. João Abel Manta, que faleceu na sexta-feira, dia 15, nasceu em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1928. Cresceu num ambiente intelectual e artístico ligado à oposição cultural ao Estado Novo, convivendo desde cedo com escritores, artistas e professores universitários.
Licenciou-se em Arquitetura em 1951, mas foi com o desenho, pintura, ilustração e cartoon que se tornou popular. E a sua ‘marca’ artística faz dele um artista maior. A partir do final da década de 1960 tornou-se uma presença regular na imprensa portuguesa, sobretudo no Diário de Lisboa, mas também no Diário de Notícias e mais tarde em O Jornal.
Teve dissabores com a censura, como foi o caso, por exemplo, do cartoon Monumento Nacional, que fez para o Diário de Lisboa, em finais de 1969. A imagem de um enorme rebanho de carneiros em torno de uma televisão, em tamanho monumental, não agradou a um regime que usava aquele meio de comunicação de massas para ‘educar‘ todo um povo.
Em Novembro de 1972, com o poster Festival, dedicado ao festival da canção, onde a bandeira nacional se misturava com a figura de um cantor, Abel Manta foi processado por abuso da liberdade de Imprensa. Julgado por ofensa à bandeira nacional, foi absolvido, mas fez um interregno na carreira. Até que chegou Abril, em 1974.
A revolução será feita também com os cartoons de João Abel Manta. Ficará famoso aquele da campanha de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), com o título Muito Prazer em Conhecer Vocelências. Vemos uma família nuclear portuguesa, com aspecto modesto, de pés descalços, a ser apresentada por um militar aos grande nomes das artes e da ciência. Reconhecemos, facilmente, entre outros, Einstein, Shakespeare, Picasso, Marx, Camões, Chaplin e Freud.
A este cartoon, juntar-se-á ainda o não menos famoso Um Problema Difícil, onde um grupo de famosas personalidades internacionais da filosofia e política, estão sentados a olhar para um quadro perto onde está desenhado o mapa de Portugal.
Vemos na imagem, com o traço único do artista, figuras como Lenine, Marx, Fidel Castro, Che Guevara ou Sartre. Todos com um caderno e lápis na mão, disciplinados a olharem com atenção para Portugal após a revolução, como se estivessem numa escola, perante um “problema difícil” escrito no quadro.
Nesse cartoon, o detalhe de um Henry Kissinger, minúsculo, sentando no fim da fila, à direita, com orelhas de burro, é o toque de génio de Abel Manta.
Outra imagem icónica – e havia tantas e tantas – será ainda a Metamorfose. São dois desenhos, lado a lado. No primeiro, há uma data a identificar o momento: 24 de Abril de 1974, o dia anterior à revolução. Nele, vemos uma funcionário sentado na sua secretária e, na parede, estão os quadros com as fotos do Presidente da República, Américo Thomaz, e do Presidente do Conselho, Marcello Caetano.
Em cima da mesa deste funcionário, de um lado, está uma estatueta de um padrão da época dos Descobrimentos, com a cruz da Ordem de Cristo e o brasão das quinas. Depois, do outro lado, estão os carimbos no devido suporte.
A imagem seguinte, é alusiva a quatro meses depois: 24 de Agosto de 1974, onde a pena, genial, de Abel Manta já registava toda a diferença radical nesse curto espaço de tempo: As fotos dos líderes deram lugar a um poster de Che Guevara. O funcionário, entretanto, deixou crescer o cabelo e bigode, trocou a gravata por um colar com o símbolo da Paz e a estatueta levou com uma imagem de uma guerrlheira em cima. Em vez de carimbos, há cravos.
Com estes três cartoons, podemos encontrar aqui o retrato daquilo que Abril nos deu. São obras maiores de um homem com muito talento. E explicam tanto sobre quem éramos, e o que ainda podemos ser.
A pena de João Abel Manta, sobretudo com a sua visão da época imediata do pós-25 de Abril, há muito que é património de um povo que quer aprender com o mundo, mas também é um problema difícil. E, no fundo, é um povo se adapta a tudo. Por isso, dizemos: Obrigado, João.






