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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Adriano Miranda - O povo ficou feliz

CRÓNICA

* Adriano Miranda

Se Karl Marx fosse vivo, aposto que depressa trocaria a religião pelo futebol – O futebol é o ópio do povo! Talvez a religião e o futebol se toquem. Doses suficientes de fanatismo ou paixão não lhes faltam. Mas se a religião tem bastantes atributos, a começar pelo trabalho desenvolvido nos países pobres, já o futebol tem o atributo de nos meter à volta de uma mesa, regados com tinto e lambidos com entrecosto.

Tudo o resto é negócio, do pior, irracionalidade, pancadaria, very-lights e enxames de políticos submissos. Tenho consciência, caro leitor, que estou a exagerar um pouco. Irracionalidade qb também nos sossega a alma e faz desopilar o fígado. Já políticos submissos vivemos bem sem eles. Vou ao futebol à paisana. Sem bandeira nem cachecol. Apesar de achar que não é necessário puxar muito pela massa encefálica para estabelecer o 4x3x3, gosto de saltar que nem uma mola quando o esférico bate nas malhas. Também gosto de vez em quando de rebaptizar o árbitro.

Acompanhei o Euro 2020 realizado em 2021. Portugal não era o meu favorito. Não gosto de uma equipa que tem o Cristiano Ronaldo e mais dez. A Dinamarca encheu-me as medidas. Pelo círculo construído por verdadeiros camaradas na hora de estabilizar o coração de Christian Eriksen, e bolas, jogavam como ninguém a lembrar o ano de 1992 quando passaram de patinhos feios a campeões europeus. Eles sim, para mim são os campeões.

Mas acabou. O troféu Henri Delaunay sentiu as mãos e o peito dos italianos. Na arena de Wembley uns choraram outros riram. Outros fizeram contas à vida. Mario Draghi esfregou as mãos de contente. O povo vai-se distrair por uns tempos. Regados com Bellini e lambidos com carbonara, o povo, as praças e as ruas encheram-se de gritos, de abraços e de gotículas voadoras. Prognósticos só no fim do jogo. A pandemia segue dentro de momentos. É a vida e o povo ficou feliz.

tp.ocilbup@adnarima  11 de Julho de 2021, 23:50

https://www.publico.pt/2021/07/11/desporto/cronica/povo-ficou-feliz-1970009

sábado, 6 de março de 2021

Adriano Miranda - 100 anos sem perder um dia

* Adriano Miranda 

OPINIÃO -  

Portugal é um país de sorte por ter na sua família política um partido assim, feito de portugueses lutadores e abnegados.

Pelo gradeamento do Jardim da Estrela vi corpos nus deitados na pedra no hospital militar. Era criança. A minha mãe colocou a palma da sua mão sobre os meus olhos. O meu pai ficou por breves minutos agarrado ao gradeamento. Não fiz perguntas, e durante muito tempo aquela imagem assaltou os meus pensamentos na escuridão do meu quarto. Era uma criança feliz. Com uma família aparentemente normal. Julgava eu. Até ao dia em que a telefonia não se desligava e se falava baixinho num nervoso contido. Não fui à escola. Depois, vieram os abraços, o champanhe, a alegria, os novos amigos e as novas palavras. Na curiosidade dos meus oito anos, andei às cavalitas do meu tio para ver a multidão. Liberdade, fim à guerra, democracia, socialismo. E uma bandeira vermelha com uma estrela, uma foice e um martelo.

Chegou depois a hora de perceber porque nunca conheci o meu avô paterno. Foi assassinado pela ditadura. De descobrir porque o meu tio José foi preso — tinha uma tipografia clandestina. O porquê de o meu avô materno não querer que eu mexesse nos embrulhos de papel pardo — eram propaganda clandestina. De sentir homens a sair de casa de madrugada — eram camaradas. E de perceber que corpos eram aqueles deitados na pedra fria. Sentir o aconchego quente dos braços da minha mãe — filho, já não vais para a guerra.


Cresci no Partido. Rodeado de amigos. De talentos. Tanta e tanta coisa boa vivi e aprendi. Principalmente a tenacidade e a audácia. E a solidariedade. Guardo na minha memória e nas minhas convicções, homens e mulheres combativos e íntegros. Guardo o Samy que me ensinou a desenhar. Guardo o Marco que me ensinou francês. Guardo o Tó Zé que se fez pescador e por eles lutou. Guardo o Albino que sempre lutou pelos agricultores. Guardo o João Pereira que só abandonou as fábricas na hora da sua morte. Guardo a Arinda que sempre me viu quando alguma dor me inquietava. Guardo a Eurídice que sempre me visitou no hospital enquanto os pulmões recuperavam. Guardo o António e as viagens loucas na sua Jawa. Guardo o Vasco pela amizade. Guardo o Vidal pela sua combatividade. Guardo tantos e tantas. Gente de coração grande de utopia e realidade.


Vi depois gente a sair que nunca devia ter saído. Vi laivos de falta de democracia interna. Vi também desalento. Vi cristalização no discurso. Mas vi também que um comunista português é coisa ímpar no mundo. Contra ventos e marés, não se desvia um milímetro que seja, na luta em prol dos mais desfavorecidos. E curioso — sabem bem os comunistas portugueses que muitos desses desfavorecidos nunca transformarão o seu voto em agradecimento. É desproporcional a força dos comunistas na sociedade e nas urnas. Mas os comunistas portugueses não se cansam. Dou por mim a pensar de onde vem tanta energia.

São 100 anos de energia. Sem ter encerrado para balanço um dia que seja. Uma vida cheia. Cheia de erros e contradições. Cheia de virtudes e conquistas. Uma história que atravessa os maiores tumultos mundiais e as maiores conquistas civilizacionais. E Portugal é um país de sorte por ter na sua família política um partido assim, feito de portugueses lutadores e abnegados.

No Jardim da Estrela já não se avistam os corpos frios. Há muito tempo. Para todo o sempre. No Jardim da Estrela já não se fala à surdina. No Jardim da Estrela já não se trocam senhas clandestinas. No Jardim da Estrela sente-se a liberdade pela manhã. A manhã de um país livre e democrático. E os comunistas portugueses, entre outros, foram os seus obreiros. E continuam a ser. Como sempre. Sem fechar para balanço.

6 de Março de 2021, 6:32

tp.ocilbup@adnarima


https://www.publico.pt/2021/03/06/politica/opiniao/100-anos-perder-dia-1953215


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Adriano Miranda - A roda gigante do Avante!

* Adriano Miranda -

OPINIÃO - 3 de Setembro de 2020, 10:49

Muitas vezes a roda da vida leva-nos para encontros e desencontros. A Festa que eu sempre frequentei e onde sempre me senti bem. A Festa que não devia acontecer este ano. Estamos desencontrados.

As laranjeiras estão altas. Há também pereiras e uma camélia enorme. Uma carroça de bois, uma adega e uma casa térrea. Ao fundo, a terra sempre cultivada, uma eira e uma casa pequena. José e outros, levantam-se cedo. Deitam a semente à terra. Depois desaparecem. Encerram a porta da casa pequena. Os pássaros pintam o céu. Não há que ter medo. Nunca se ouviu falar que um pássaro fosse bufo. José e os outros, constroem textos com letras de chumbo. Dobram papel fino. Rolam rolos vestidos a tinta negra. As horas passam e o homem da bicicleta descasca uma laranja. Saboreia. Bebe água do poço. A porta abre-se. José abraça o homem da bicicleta. No quadro, com um arame improvisado, um cesto com couves é pendurado. Cai a noite e a bicicleta rola. A lua ajuda.

Ainda o sol não deu os bons dias e já uma matilha de esfarrapados se faz à rua. Trabalhadores de fábrica. Trabalhadores de terra. Pelas pedras espreitam papéis. Saíram clandestinamente do ventre das couves. No adro da igreja espreitam papéis. Nos paralelos da calçada espreitam papéis. São amachucados, escondidos em sapatos ou algibeiras. E quando for possível, longe dos olhares dos abutres, grupos de homens e mulheres rodeiam o papel fino tingido a letras de chumbo. Quem souber juntar letras é o eleito para ler. É necessário aumentos na jorna. Melhores condições na fábrica. Escola para os filhos. Salário igual entre homens e mulheres.

Cidadania e Desenvolvimento: onde os alunos aprendem a “não roubar, não estragar, não andar à pancada”
José e os outros descansam os corpos em colchão de palha. Os cães ladram. A porta é arrombada. A polícia de defesa do estado intervém para bem da nação. Aos socos e pontapés, levam José e os outros para as salas bafientas com Salazar e Carmona a olharem. Sorrisos de hiena estampados em molduras pesadas. José e os outros são espancados, torturados. O hálito do agente é ácido. Quem vos mandou fazer os avantes? Foram vocês que montaram a porra da tipografia clandestina? Aquela merda veio de Moscovo? Quem são os vossos chefes? Quem colocou a merda dos avantes na aldeia? Filhos de uma cabra. Comunas de merda. Não vão ficar cá para contar a história. José e os outros não abriram a boca. Cada soco, cada estalada, cada hora de estátua eram anos de silêncio. Levem os gajos. Só comem daqui a três dias. Odeio comunas.  

Pela manhã os avantes estavam novamente na vila. O agente de hálito ácido volta a espancar José e os outros. Se não falam, mato-vos. Silêncio e silêncio. José e os outros foram libertados para sempre. De vez. Em abril. 

José e os outros continuam a gostar de laranjeiras. Por vezes ainda lançam a semente à terra. Não perderam o jeito nem o gosto. Muito menos a firmeza. José, os outros e tantos outros, lutaram pela liberdade. Combateram como ninguém a escuridão. O medo. A opressão. Lutaram para chegarmos todos até aqui. Um país livre. Livre como o vento ou como um catavento. Um país também de ingratidão. José e os outros resistiram aos socos e à estátua. À fome e à sede. Ao agente de hálito ácido. Também resistem agora. O hálito anda no ar. Cheira-se. Sente-se. Na conversa de café. No comentador limitado. No líder (adoram esta palavra) bafiento. No truque. Na mentira. Na manipulação. Até no pedido de desculpas. Sente-se o agente de hálito ácido a querer pendurar os sorrisos de hiena.

José e os outros, estão cá para os enfrentar. E há muitas pedras para colocar os papéis. Não julgue o agente de hálito ácido que desta vez será fácil. Talvez até seja impossível, enquanto houver quem teime em lutar.

O agente de hálito ácido é todo ele ódio. Tem sede de vingança. José e os outros, pintam letras às cores na Quinta da Atalaia. Não perderam a firmeza. Lutam novamente contra o medo. Pela liberdade. O agente de hálito ácido semeia calhaus em terra de pandemia.

Conheço o José e os outros. A todos eles, dou um abraço de gratidão maior que o mundo. Muitas vezes a roda da vida leva-nos para encontros e desencontros. Como agora. A Festa do Avante. A Festa que eu sempre frequentei e onde sempre me senti bem. A Festa que não devia acontecer este ano. Estamos desencontrados. Mas os dias vão passando e afinal, os socos, as bofetadas, a estátua, as torturas ainda não acabaram. O agente de hálito ácido ainda grita – morte aos comunas! Não posso esquecer o lado da barricada em que estou. Pela amizade e pela solidariedade com homens e mulheres íntegros, José, os outros e tantos outros, estarei na Quinta da Atalaia. No cimo da roda gigante levantarei o punho, em silêncio, como tu José, contra o medo e pela liberdade.

tp.ocilbup@adnarima

https://www.publico.pt/2020/09/03/opiniao/opiniao/roda-gigante-avante-1930191

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Adriano Miranda - A casa grande




CRÓNICA

Rodar as chaves do portão de ferro é quase penoso. Já não há vénia. Agora é lento. Pelo pó e pela ferrugem. Abre-se a custo e a medo. O que estará no pátio?

3 de Fevereiro de 2019, 8:00 

JOÃO MIRANDA
Não é fácil lá passar. Quando o sol é forte os azulejos cor de vermelho desmaiado ainda brilham. A casa até fica imponente dentro da decadência. Agora, quando o cinzento domina o céu, aqueles azulejos só me dizem tristeza. Uma tristeza angustiante. Sufocante. Evito lá passar. Já lá vão muitos anos em que não queria de lá sair. Com sol, chuva, frio ou calor, era lá que eu gostava de estar. Sentia-me bem. Feliz. Não existe melhor jeito de estar na vida que não seja amantizado com a felicidade. Que bom. Difícil, mas bom.

Sempre o mesmo ritual. Buzina aguda, dois minutos de espera, que por vezes pareciam anos. Dependia da ansiedade. E o enorme portão de ferro trabalhado dividia-se em dois. Como uma vénia. E o automóvel entrava para o grande pátio. Vinha o cão a dar ao rabo. Felicidade. Vinha o cheiro das uvas americanas. Vinha a liberdade do abraço. Aquela casa era grande. Na volumetria e no afecto. O tempo voava. Existia sempre ocupação. Coisas de adultos. Teimosos. Resilientes. E eu, que lhes dava pela cintura, estava sempre presente. Na rega do milho ou na sementeira da batata. Na apanha das pêras ou no lagar a dar à roda no esmagador. No machado a rachar lenha ou a pregar pregos no novo poleiro do galinheiro. A amassar o pão ou a tirar o galo do forno do fogão de lenha. A ver na Radiola o Tarzan ou a sonhar que um dia subiria a gigante palmeira. A ver o sábio mecânico a desmanchar o motor do carro ou a construir cidades imaginadas em pequenas peças de lego. Ouvir as gargalhadas dos adultos ou acordar em Dezembro para descobrir os presentes no sapatinho da chaminé. Era tão grande aquela casa. Tinha vida. Uma vida temperada no trabalho.

O quintal com as laranjeiras, as macieiras, as pereiras, o diospireiro, o limoeiro, as parreiras. A eira e o tanque  rega. O pátio com a adega, a casa do azeite, a casa das batatas, a oficina, o galinheiro. A casota do cão feita por mim. A cozinha de mesa longa. A sala, os quartos frescos de verão e frios de inverno. Os livros de Jorge Amado, Fernando Namora e Ferreira de Castro. A família e os amigos. Todos os dias aquele chão era pisado ao sabor da amizade. Todos eram bem-vindos. Todos se sentiam ali bem. Na casa do João e da Rosa. Estranhas eram as visitas pela noite escura. Falavam baixo. Trocavam papéis. Bebiam café ou vinho. Depois iam embora. Cautelosos. Numa primavera as visitas nocturnas acabaram. E nunca mais se falou baixinho. A caixa do milho também deixou de ter papéis enterrados no alimento das galinhas.

Tenho saudades. E elas aumentam à mesma velocidade que vou envelhecendo. Porque a casa grande está todos os dias em pensamento. Gosto disso. É um regresso reconfortante, numa espécie de máquina do tempo. Ou pelo cheiro. Pelo sabor. Pelas letras. Pelas imagens. Tudo me liga à casa grande. Porque ainda tenho futuro para desbravar. E promissor é o futuro quando se afirma pelo passado. Não encontrarei bolos de bacalhau iguais. Nem beberei um copo de mosto na adega. Mas posso continuar a martelar como ele me ensinou. A ser resistente como ela sempre quis que eu fosse. Posso e devo.

Rodar as chaves do portão de ferro é quase penoso. Já não há vénia. Agora é lento. Pelo pó e pela ferrugem. Abre-se a custo e a medo. O que estará no pátio? Um vaso caído. Uma telha partida. Um rato esticado. Os passos são lentos, sempre à espera de serem surpreendidos. Os móveis que restaram das partilhas estão cheios de cotão. As paredes escuras. O chão sujo. Silêncio. Um silêncio louco. Ninguém chama o meu nome. Já não existem vozes nem palavras. Muito menos sorrisos. Na terra onde desenhava os meus pés, as ervas tomaram-na como sua. As laranjeiras estão a secar. A pereira espera pelo vento forte para tombar. Só o diospireiro brota vida de esperança.

Fico ali a olhar com vontade de os ver. E consigo falar com eles. E a Venezuela? E o Trump? E o bairro da Jamaica? E o racismo? E a pobreza? E a guerra? E a fome? Ainda oiço, o que tantas vezes ouvi, “temos que continuar a lutar por um mundo melhor. Já não é para nós, mas será para os nossos netos.”

Na casa grande, só o diospireiro brota vida de esperança. Só vos posso prometer, João e Rosa, que os vossos bisnetos gostarão de dióspiros.

https://www.publico.pt/2019/02/03/opiniao/cronica/casa-1860318

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Adriano Miranda - A estrada

* Adriano Miranda

"Sei que durante muito tempo sentia medo. Até à noite em que acordei ao som do tiro de caçadeira. Na rua, e em frente ao portão de ferro, escrito a tinta branca e letras grandes, ameaçavam o meu avô: “Porco comunista, vais morrer”


3 de Dezembro de 2017, 8:11

Julho de 1975. O pátio era enorme. Alinhadas a régua e esquadro, as modestas casas térreas desenhavam um rectângulo. Duas portas. Uma para um corredor apertado. Outra para a liberdade das dunas de areia. Pequenas, tinham cozinha e quarto. A casa de banho era ao fundo, só uma, para 13 casas. E uma bomba para tirar água. Era ali, que famílias de pobres trabalhadores passavam as férias. Para mim, era uma festa. Um ritual. Um mês na praia. Prevenia as doenças de Inverno e esquecia os deveres da escola. Brincava até o sono vencer. Os amigos eram todos os anos os mesmos. O João, engenhocas, o Paulo, traquina, o Jorge, calmo, e o Francisco, a referência, não fosse ele o mais velho. Era tão boa a praia. Os banhos com a digestão feita, os gelados ao domingo, as mãos sujas dos matrecos, o bronzeador e a bandeira verde. E os livros.
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Depois de almoçar deitava-me no colchão duro da cama de ferro e lia. E foi naquele pátio de gente honrada que um livro me marcou. A Cabana do PaiTomás, de Harriet Beecher Stowe. Tal era a brutalidade do patrão e o sofrimento do escravo, que várias vezes soluçava até que desisti. Nunca consegui terminar as 170 páginas. Foi uma etapa da minha infância. Talvez a linha de partida da minha consciência.

Comecei a interrogar a vida. Porque havia pobres e ricos. Porque não éramos todos felizes. E se o meu pai me ajudava a compreender melhor o mundo, Jorge Amado, com Os Capitães da Areia, colocou-me na estrada que ainda hoje acredito que é a que nos leva ao melhor destino. Ávido, comia as palavras de Pedro Bala e Gato. Depressa terminei. E no mesmo dia voltei à página 1. Até ao fim. Novamente.

O Gamelas era um homem forte. Guarda-redes de andebol. Trabalhador. Um amigo. Naquele dia de sol, foi ele que me fritou o bife, as batatas fritas e o ovo estrelado. Foi ele que me levou à praia. E foi ele também que um dia me salvou de eu morrer afogado. Eu não sabia da minha mãe nem do meu pai. Mas a vida continuava feliz no pátio. Só aos amigos se confiam os filhos. Chegou a noite e a minha mãe e o meu pai continuavam sem aparecer. Chegou o meu avô. Levou-me. Sem grandes palavras. Soube depois que a antiga vivenda de um industrial, que admirava Álvaro Cunhal e que a alugara ao Partido, tinha sido atacada, apedrejada e incendiada. A minha mãe e o meu pai estavam lá. Na vivenda.

Colado ao vidro de trás da carrinha do meu avô, descemos a avenida muito devagar. A bonita vivenda de azulejos únicos e candeeiros de loiça estava quase toda destruída. O passeio desapareceu. Arrancado. As pedras foram lançadas contra as janelas e paredes. As janelas desapareceram. As paredes estavam todas picadas da força das pedras. A mancha negra do cocktail Molotov deixava imaginar o pior. Continuei sem saber da minha mãe e do meu pai.

Agosto de 2017. Num colchão melhor mas numa cama de ferro, combato o calor da serra algarvia. Deixo-me levar pela escrita de Miguel Carvalho em QuandoPortugal Ardeu. Passaram 42 anos. Para mim, não. Estou novamente na carrinha do meu avô a descer a avenida. E Miguel Carvalho leva-me a descobrir outras avenidas. Avenidas e quelhos que eu desconhecia. Todo o terror da direita portuguesa. Os atentados. Os assassinatos. Os negócios. As mentiras. As bombas. Os tiros. A CIA. A impunidade. O branqueamento. Sinto o meu pai e a minha mãe. Tento imaginar as pedradas. A raiva que vinha de fora e a fibra que vinha de dentro. As cabeças partidas. O carro que incendiaram. O soldado que morreu. Já não me lembro como foi o nosso reencontro depois de descer a avenida. Pouco importa. Sei que durante muito tempo sentia medo. Até à noite em que acordei ao som do tiro de caçadeira. Na rua, e em frente ao portão de ferro, escrito a tinta branca e letras grandes, ameaçavam o meu avô: “Porco comunista, vais morrer.”

Tinha oito anos. Percorri a estrada. Sem medo. Fui crescendo. O pátio desapareceu. A vivenda continua na avenida. Carrego o fardo das interrogações. Podia ter sido colega do Milhazes em Moscovo, dirigente, deputado ou outra coisa qualquer. Nunca quis nada. Só um mundo para todos. Mas não existe. Um mundo para todos. Há que continuar pela estrada.

No dia dos meus 50 anos recebi um abraço e um embrulho. Desembrulho e o papel rasgado faz antever O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch. Está desde então na minha mesa-de-cabeceira. Um ano. O tempo que o estou a ler. Devagar. Rouba o sono. E ao lado, Forte de Peniche-MemóriaResistência e Luta. Devagar. Faz chorar. Fico com insónias.

A estrada continua.