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quinta-feira, 4 de abril de 2013

José António Gomes ~ O Óscar, para quem sempre existiu o tu

  • José António Gomes


«Refere Máximo Gorki, não sem espanto, que em Lénine, no meio de tanta preocupação, havia ainda lugar para a bondade – permitam-me que diga o mesmo de Óscar Lopes. E também sem espanto.»
O Óscar, para quem sempre existiu o tu

A seu modo músico e poeta, senhor de um pensamento-feito-prosa, escrita ou oral, que era autêntica poesia, o Óscar pensava e escrevia coisas fulgurantes como esta: «Nós falamos quase sempre como quem usa frases, palavras. Às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos, como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para um certo sentido. As palavras, quando usadas, servem-nos de mãos, mãos de mil dedos invisíveis, que enredam as coisas e de algum modo as manejam. Quando são elas, vivas, a usarem-nos, não há fora delas quaisquer coisas situadas ou a situar: a fala e o mundo consubstanciam-se num mundo só, e parece que renascemos. Trabalha-nos um novo senso do real e do humano» (Óscar Lopes, Uma Espécie de Música).
O Óscar. Todos diziam, todos dizem «o Óscar», naquele centro de trabalho. Todos sabiam que tinham um génio ali à mão, quase do outro lado da rua. Um génio da Língua, da História e da Crítica Literárias, da Filosofia e da Cultura Clássica, da Matemática e até da Física. Um corajoso humanista à antiga, um clássico-moderno de insaciável curiosidade e sede de saber. Alguém com uma superior inteligência do mundo e da linguagem. E que no entanto tratava os camaradas por tu e por tu era tratado. Fossem operários, empregados, sindicalistas, fossem intelectuais, eleitos comunistas, gente com responsabilidades de direcção. Recordo o saudoso Sérgio Teixeira, antigo operário, evocando uma viagem para Lisboa, com o Óscar a falar-lhe de Camões.
Ele era, ele será sempre, para nós, «o Óscar», o intelectual por excelência, incomparável e incapaz de trair – ao contrário de outros – o compromisso que, desde a juventude, desde 1944, o vinculou à classe trabalhadora, aos oprimidos, ao projecto comunista. E pelos quais sofreu, antes de Abril, sem disso vir a fazer gala: a prisão fascista, a perseguição, a apreensão de obras suas pela PIDE, a proibição de ensinar na Universidade, de se deslocar ao estrangeiro para participar em seminários para os quais era convidado, de assinar artigos com o seu nome.
Era, além do mais, um génio da fraternidade, da solidariedade, da empatia com o seu semelhante, da capacidade de escutar o outro. Alguém que olhava a vida, o futuro, a sua própria presença no mundo como uma aventura sem limites. E que, por isso, disse algures: «Nós só conhecemos uma fracção mínima da realidade, estamos no início de uma grande aventura cósmica.»
 
Sempre presente
 
Para todos nós, o Óscar era, será sempre, um exemplo para os dias por vir – e não apenas pelo seu saber imenso. Era-o também para outros, muito distantes de nós. Uma mensagem electrónica, no dia da sua partida: «O ser humano e o intelectual mais brilhante, mais sábio e mais simples que tive o privilégio de ter como Professor na minha vida académica» – palavras de uma colega, de direita, sua antiga aluna de mestrado.
Na última etapa de uma vida de estudo e de luta, na sua casa da Boavista, bem perto do centro de trabalho, já afectado pela crueldade do tempo, da doença e do silêncio em que mergulhara, o Óscar era o camarada despojado e modesto, sempre disponível para a partilha do saber, para a solidariedade, para colaborar na angariação de fundos, para juntar convictamente o seu nome ao nosso, quando necessário: num abaixo-assinado, num manifesto, numa edição do Sector Intelectual. (E há generosidades militantes do Óscar que nem sequer aqui se podem contar.)
Animada de ternura e daquela amizade comunista que é tão sua, a nossa querida Lina visitou-o sempre, prestando o apoio necessário ao Óscar, à família. (Todos te conhecem, Lina, és um esteio, o sorriso e o amparo de que todos precisam nestes dias difíceis.) E, por isso, nesse fim de tarde em que velávamos o camarada, estavas tão triste e comovida, ali, no salão secular da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (de que o Óscar era um dos mais antigos sócios), a urna ladeada por duas coroas belíssimas. Vermelho de flores sobre verde. Vermelho. Sobre verde. E depois contavas como, enquanto os dias lhe permitiam ainda sair de casa e deslocar-se, o Óscar pedia por vezes à senhora que dele cuidava: «Olhe, vamos antes por ali.» E, apoiado no seu braço, «obrigava-a» a atravessar a rua para o passeio do centro de trabalho. E a fazia continuar até chegarem à entrada. E ela dizia: «Ai, que o senhor é um maroto. Queria mas era vir até aqui.» É que o Óscar gostava do centro de trabalho, gostou sempre, enquanto as forças lho consentiram, de rever e conviver com os camaradas.
Por tudo isto – e por todo o resto, que é muito – nos dói muito a partida do Óscar. Que sabíamos ali ao lado, sempre presente nos momentos difíceis, nos momentos necessários, com a sua cortante ciência do mundo, da literatura e da linguagem. O Óscar, para quem sempre existiu o tu. E que por isso escreveu, no único poema seu que até hoje veio a lume, numa antologia organizada pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto:
 
Segunda pessoa
 
Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens

N.º 1824 
13.Novembro.2008


90 anos de Papiniano Carlos
Homenagem ao Arado Luminoso
Heróica Jornada de Lopes-Graça e José Gomes Ferreira entoou no piano de Fausto Neves e na voz das 200 pessoas que encheram o Ateneu Comercial do Porto para homenagear o Poeta Papiniano Carlos pelos seus 90 anos de vida e obra. Uma sentida e justa homenagem onde participaram José Casanova, membro da Comissão Política do PCP, José António Gomes, escritor e membro da DORP do PCP, Ana Margarida Ramos, professora, César Príncipe, jornalista, Júlio Gago, director do TEP, e a Olívia, sua companheira de sempre. 

Muitos outros fizeram questão de estar presentes e se associarem a esta efeméride, como Armando Alves, que artisticamente concebeu a obra publicada a propósito desta data, outros que nela participam com os seus poemas, como Francisco Duarte Mangas, Albano Martins, José Viale Moutinho, Nuno Higino, João Pedro Mésseder, João Manuel Ribeiro, Virgílio Alberto Vieira, entre as dezenas que se associaram na sua promoção e muitos outros intelectuais, de diferentes sensibilidades políticas e expressões artísticas que quiseram estar presentes neste momento. 

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, fez também chegar a sua saudação. Entre as intervenções de homenagem e a poesia lida por actores do Teatro Experimental do Porto, sublinha-se o carinho, a imensa fraternidade, o reconhecimento inevitável de uma vida de militância cultural, cívica e política de um comunista que sempre afirmou, em todas as dimensões da sua intervenção, os mais elevados ideais humanistas e a inabalável convicção na construção de uma sociedade nova.

Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens

● José António Gomes

Papiniano Carlos – o «nosso» Papiniano, em cujo estranho nome há uma ressonância paternal –, o homem delicado, generoso e militante, que quis abrir um amoroso espaço, nos seus versos, um imenso espaço onde coubesse a companheira de todas as horas, Olívia – seu esteio, como ele esteio dela –, este Papiniano que hoje saudamos, nasceu há noventa anos. E aqui está, de pedra e cal, para celebrar connosco uma vida de luta e de escrita, para celebrar também o futuro(1). Porque Papiniano ensina-nos que vale a pena resistir: viver resistindo, e resistir vivendo e escrevendo – actos, atitudes que nele se confundem.

Revisito, em poucas linhas, a sua trajectória de homem de letras. E o que é sintetizar a trajectória de um homem, de um artista, senão ficar aquém, tão aquém!, de captar esse tempo de uma existência a que ele conferiu, e continua e conferir, sentido? – como se viesse lembrar-nos que a vida vale a pena se soubermos dar-lhe esse sentido de que ela, diariamente, carece. 

Hoje como ontem. Ontem, durante os quarenta e oito anos da peste, que Papiniano atravessou com firmeza e coragem, enfrentando a censura e a repressão fascistas, nesses sombrios dias de Salazar e Marcelo Caetano, e dessa minoria de senhores do dinheiro e da terra que eles serviam, como competentes ditadores que eram. Ontem, escutando – como Papiniano escutou –, umas vezes sofridamente, outras vezes com alegria, os ecos da Guerra Civil espanhola, os da Segunda Guerra Mundial, os das guerras da Coreia e do Vietname, os das lutas dos povos pela emancipação do jugo colonial e do imperialismo, em Moçambique, em Angola, na Guiné-Bissau e noutras regiões do vasto mundo.

E hoje, continuando um combate, retomado em 25 de Abril de 1974, após o derrube da ditadura. Um combate sob o signo da esperança, sob o signo de uma convicção alicerçada em valores e ideais: a de que é possível construir um mundo diferente, mais justo e pacífico, igualitário e solidário, um mundo de todos para todos, e não só de alguns e para alguns. E construir um país onde uma democracia avançada, económica e social, cultural e política, seja viável, em vez da «apagada e vil tristeza», de fachada democrática, que mais e mais nos sufoca, trinta e quatro anos volvidos sobre o 25 de Abril, e a que não podemos ficar indiferentes e sem alternativa. Refiro-me à alternativa que estes dias reclamam: a que rompe com a exploração desenfreada das forças do trabalho, a precariedade, o desemprego, a efectiva pobreza, produtos, enfim, da institucionalização da ganância, da corrupção e, claro está, de um sistema cujas armas são a propaganda e a mentira.

Releve-se, então, a modéstia destas palavras que mais não pretendem do que recordar um percurso, um caminho que vale a pena seguir, de mãos dadas com Papiniano Carlos, lendo, relendo, dando a ler os seus livros às novas gerações. 

E esses livros não são poucos: uma dezena de recolhas de poesia, editadas entre 1942 (data da publicação de Esboço) e 1973, o ano em que A Ave sobre a Cidade vem a lume, reunindo composições dos livros anteriores e ainda os vinte e um textos de «Os Ciclistas»; o ano em que é editada também a antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que, sob a epígrafe de um verso de Daniel Filipe, alberga composições de três dos principais dinamizadores dos cadernos de poesia «Notícias do Bloqueio», Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos. Esses que, entre 1957 e 1961, dariam, com outros, novo fôlego a uma escrita herdeira do que de melhor nos legou o tão vilipendiado neo-realismo. Uma poesia, a de Papiniano, que Fernando Lopes Graça e Luís Cília, por vezes, converteram em canção (quem não se lembra da «Canção de Catarina», de Lopes Graça, dedicada à memória de Catarina Eufémia) e a que diversos antologiadores e críticos se referiram, como E. M. de Melo e Castro e Maria Alberta Menéres, Jorge de Sena, Luísa Dacosta ou Fernando J. B. Martinho. Os dois primeiros escreveram: «Papiniano Carlos, superando os limites parassocialistas do neo-realismo, consegue uma poesia fluente e rica de ressonâncias do humanismo integral das massas.»(2) Uma poesia que também Luísa Dacosta comenta nestes termos: «Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e sonho, afirma-se autêntica criação.»

A estas obras, a que vêm somar-se a plaquette Canto Fraternal (2005) e vários poemas dispersos, juntem-se um livro de contos com três edições, Terra com Sede, de 1946 (a primeira edição com capa de Júlio Pomar), e um belo romance, O Rio na Treva (1975), a par de A Rosa Nocturna(1961), «excelente volume de crónicas», no dizer do crítico Serafim Ferreira. Dos livros de ficção desprende-se uma prosa segura, não raro de cariz poético, atenta a diferentes registos de língua – nomeadamente o popular –, uma escrita enraizada no real, capaz de erguer personagens que quase diríamos de carne e osso, em que se destacam as crianças e certos tipos populares como o inesquecível Chico Miana, textos, em suma, que configuram um expressivo retrato de certas franjas da sociedade portuguesa durante os tristes «anos da peste». Recorde-se ainda o livro A Memória com Passaporte: Um tal Perafita na «Casa del Campo», editado em 1998 com o subtítulo Relato de um Prisioneiro na PIDE do Porto, em 1937, testemunho impressivo de quem preza a memória e o companheirismo na luta.

Outra vertente, e uma das mais relevantes, da criação literária de Papiniano Carlos vamos encontrá-la nas suas sete obras para crianças, nas quais descobrimos narrativas em prosa e em verso e alguns poemas: A Menina Gotinha de Água (1963), O Cavalo das Sete Cores e o Navio (1977),Luisinho e as Andorinhas (1977), O Grande Lagarto da Pedra Azul (1989), A Viagem de Alexandra (1989), A Gaivota Branca (in J. A. Gomes (org.), Contos da Cidade das Pontes, 2001) e Era Uma Vez (2001). Algumas destas obras, muito reeditadas, são verdadeiros «clássicos» da nossa literatura para a infância – como A Menina Gotinha de Água, centrado no ciclo da água, e Luisinho e as Andorinhas, inspirado em Beethoven e dedicado a Lopes Graça. Neste conjunto de livros infantis, Papiniano emparceirou com ilustradores de renome, como João da Câmara Leme, João Machado, Henrique Cayatte, Manuela Bacelar e António Modesto, para apenas citar alguns. E soube aliar a poesia a breves relatos emblemáticos da aventura humana, exprimindo uma crença inabalável no engenho dos homens e das crianças, no poder da ciência, mas também na dinâmica renovadora da Natureza, encarada, por vezes, como espelho simbólico da própria inventividade humana – traços que perpassam também a poesia comprometida de Papiniano. O autor de O Rio na Treva contribuiu, deste modo, logo desde os anos 60, para a nova literatura para a infância que, em Portugal, haveria de emergir no início da segunda metade do século XX, pela mão de autores como Aquilino Ribeiro (com O Livro de Marianinha, de publicação póstuma, em 1967), Sidónio Muralha, Alves Redol, Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo, Norberto Ávila, Maria Rosa Colaço e, no seu modo peculiar, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Representado em diversas antologias da poesia portuguesa e da literatura para a infância, editadas em Portugal e no estrangeiro (Espanha, França, Brasil, Argentina); com uma discografia em que podemos ouvi-lo a ler os seus próprios poemas (Papiniano Carlos por Papiniano Carlos, Porto, Orfeu – Arnaldo Trindade) ou escutar a sua Menina Gotinha de Água lida por Carmen Dolores (Lisboa, RR Discos Lda.); com um filme de Alfredo Tropa (produção RTP) a que a mesma Menina Gotinha de Água serve de base, Papiniano Carlos não se devotou apenas à sua própria escrita. A vivência moçambicana (nasceu em 1918 na actual Maputo, antiga Lourenço Marques) – a que se seguiram estudos secundários no Porto e uma frequência universitária do curso de Engenharia – deixou raízes e atraiu-o de novo ao continente africano. Em 1958, contacta artistas, jornalistas e escritores de Angola e Moçambique, entrevistando-os e recolhendo material a que dará divulgação em publicações diversas, como o Jornal de Notícias, o República, a Seara Nova, Bandarra e os cadernos «Notícias do Bloqueio».

A terminar este apontamento biobibliográfico, não resisto a citar um excerto da nota introdutória ao livro A Ave sobre a Cidade, assinado por alguém que fez e continua a fazer da vida e da escrita um voo livre e ininterrupto. E que, talvez por isso, tem como um dos símbolos recorrentes da sua obra a figura da gaivota, em particular, e da ave em geral. Em 1973, decorridas mais de três décadas de produção poética e a um ano do fim da censura fascista, Papiniano Carlos afirmava: «Nestes tempos de silêncio foi difícil cantar. Mas a cigarra nunca pensou que da negrura dos céus o raio podia descer para fulminá-la em pleno canto. Nem os poetas deste país. Quem os não ouviu cantar nesta longa noite? Como poderiam eles deixar de cantar? // Estes poemas são talvez uma obscura e breve nota desse canto. Um vibrante acento talvez. Uma rude mas apaixonada estrofe do cancioneiro destes tempos, que não ouviram elegias cantando as desgraças sofridas ou os companheiros mortos na estrada, mas em que, no barro amassado em suor e sangue, se começou a moldar “o rosto épico” do futuro.» (3)

Aqui estamos nós, Papiniano, a tomar em mãos o testemunho e a continuar a moldar esse rosto por vir. Hoje como ontem – assim o escreveu este poeta – «caminhemos serenos» (4).

Notas

(1) O presente texto foi lido na sessão de homenagem a Papiniano Carlos, realizada no Ateneu Comercial do Porto, em 9 de Novembro de 2008, dia do 90.º aniversário deste poeta e militante comunista.
(2) Cito a partir de uma página de paratexto que abre o livro, de Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos,Sonhar a Terra Livre e Insubmissa (Porto: Inova, 1973). Nesse mesmo local é reproduzida a frase de Luísa Dacosta adiante citada. «Papiniano Carlos e A Menina das Gotas de Água» é o título do artigo de Serafim Ferreira também citado neste texto e publicado no n.º 84 do jornal A Página da Educação, ano 8, Outubro de 1999, p. 29.
(3) A Ave sobre a Cidade. Porto: Paisagem, 1973, p. 7.
(4) Título de um dos livros de poesia de Papiniano Carlos, publicado em Coimbra (Textos Vértice), em 1957.

Uma arma no combate ao fascismo (*)

● José Casanova

Há 90 anos, dois dias depois desse 9 de Novembro de 1918, terminava a I Guerra Mundial – e um ano antes, a Revolução de Outubro, afirmando-se como acontecimento maior da história universal, iniciara o primeiro grande acto de ruptura com o capitalismo, e dera os primeiros passos na construção de uma sociedade nova – nova, porque sem exploradores nem explorados. Enquanto por cá, logo a seguir, correspondendo a uma necessidade histórica da sociedade portuguesa, nascia o PCP e a classe operária portuguesa encontrava a sua firme e segura vanguarda. E cinco anos depois, era implantada a ditadura que durante quase cinco décadas mergulharia o País na longa e negra noite fascista.

(...) No nosso País, o papel dos intelectuais na resistência ao fascismo, assumiu forte expressão. A realidade mostrou que o fascismo não só não atraiu a si como teve contra si, a grande maioria dos escritores e artistas portugueses, entre eles muitas das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX.
E nesses tempos de guerra e de pós-guerra, a literatura, nas suas múltiplas formas, deu voz à luta popular e à realidade do País que a propaganda fascista mistificava.

(...) É nesse vasto conjunto de artistas talentosos e intervenientes que surge Papiniano Carlos – em 1942 com o seu primeiro livro de poemas (Esboço) e, em 1949, aderindo ao PCP.

Assim, a literatura, designadamente a poesia, era uma arma no combate ao fascismo. E os poemas de Papiniano Carlos, entre os de vários outros poetas, eram, naqueles tempos de opressão e repressão, poemas-companheiros dos que resistiam das mais diversas formas, dos que se recusavam a baixar os braços e lutavam e assumiam as consequências dessa luta no Aljube, em Caxias, em Peniche, na Rua do Heroísmo.

Nos convívios antifascistas da minha juventude, esses poemas eram presença certa. Sabíamos de cor poemas da «Estrada Nova»: «Nós estamos rasgando uma estrada nova/ vimos em fúria dos confins do mundo!»; imprimíamos em lentos copiógrafos manuais, poemas de «Mãe Terra», de «As Florestas e os Ventos», de «Caminhemos Serenos»: «Sob as estrelas, sob as bombas/Sob os turvos ódios e injustiças/no frio corredor de lâminas eriçadas/no meio do sangue, das lágrimas/caminhemos serenos». E cantávamos, muitas vezes em surdina, as Heróicas: «Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina».

E esses poemas davam-nos mais força, acrescentavam esperança e confiança, multiplicavam coragens. 

(...) Abro aqui um parêntesis para um «desabafo»: nesses convívios, líamos e aplaudíamos - para além de poetas de nossa eleição como Papiniano Carlos, Luiz Veiga Leitão, Sidónio Muralha, Egito Gonçalves, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, etc., - vários poemas cuja qualidade maior residia no seu conteúdo antifascista, o que não sendo, naqueles tempos, de todo irrelevante, não deixava de fazer deles poemas de curta vida.

No entanto, há vários críticos literários que, com uma pertinácia iniciada nesses tempos e que ainda hoje, certamente por herança, se mantém bem acesa, me obrigam a lembrar-me desses pobres poemas – tantas são as vezes que aludem à má poesia neo-realista...

Contra os tiranos, sempre

(...) E é estranho que esses pobres poemas nos sejam permanentemente lembrados por críticos que, simultânea e curiosamente, ignoram e silenciam os grandes poetas do neo-realismo – ou que, quando os referem, é tão-somente para louvarem aquilo a que chamam «a luta em duas frentes» travada por uns quantos paladinos da liberdade e da pureza literária, nestes casos apresentados como os que (cito) «mais batalharam a dura batalha da liberdade em Portugal», porque teriam lutado contra (cito): «a ditadura salazarista e o monopólio cultural do partido comunista – por interposta corrente literária do neo-realismo – impostos durante décadas aos cidadãos deste país»… E lendo esta prosa é-nos fácil imaginar esses heróicos batalhadores da dura batalha da liberdade, batalhando nas tais «duas frentes»: na primeira frente, varrendo à espadeirada os carcereiros da ditadura fascista e abrindo caminho até ao Aljube, a Caxias, a Peniche, à Rua do Heroísmo – e aí chegados, na segunda frente, estilhaçando portas e grades, entrando nas celas e destroçando implacavelmente quem lá estava: esses sinistros protagonistas do monopólio cultural do partido comunista que eram os poetas neo-realistas… 

Desculpem: o desabafo foi longo, mas não é todos os dias que se proporciona desabafarmos sobre este tema. O que significa que é tempo, talvez, de ensaiar respostas frontais às múltiplas facetas – e esta é, a meu ver, uma delas - de que se reveste a poderosa operação de branqueamento do fascismo em curso – que é, simultaneamente, uma operação de menorização e apagamento da resistência antifascista em todas as suas vertentes.

(...) Os tiranos de hoje – netos e filhos dos de outrora – vestem roupagens diferentes e falam outras linguagens. Mas não diferem tanto como à primeira vista pode parecer nos métodos e práticas adoptados, e em nada diferem quanto a objectivos essenciais. 

Não têm Auschwitz: têm Guantánamo – e, à custa de centenas e centenas de milhares de vidas inocentes, esmagam países e povos.

Não têm pides, nem aljubes, mas têm práticas anti-democráticas e leis dos partidos e do financiamento dos partidos que qualquer tirano de outrora não desdenharia subscrever.

Não prendem, no Aljube ou no Largo Soares dos Reis, os trabalhadores que fazem greve, mas com o emprego precário e com o Código do Trabalho fazem da greve e dos direitos dos trabalhadores actos proibidos – roubando direitos humanos fundamentais e remetendo as relações laborais para o tempo desses tiranos de outrora.

No entanto, a luta continua. E o mundo avança. E, mais importante do que tudo, hoje como outrora, «Os meninos nascem» e «fitam /serenos e terríveis» os tiranos dos tempos actuais.

E a poesia continua: «Os Ciclistas» de hoje, como os de outrora – «rosto baixo, mãos no guiador, pés/ bem firmes nos pedais, geram/o movimento, o ritmo alado/das máquinas frágeis que cavalgam/ao amanhecer» – lutam, certos de que merecerão a voz de Orfeu.
Certos de que vencerão.

(*) Excertos da intervenção na Homenagem a Papiniano Carlos

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

No centenário do nascimento de Manuel da Fonseca




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Nº 313 - Set/Out 2011 • Efeméride

A melhor forma de reviver, hoje, os tempos de exploração, miséria e repressão, mas também de luta no Alentejo, antes de 1974, passa por uma leitura atenta de alguns livros seminais de Manuel da Fonseca – cujo centenário do nascimento se celebra em Outubro de 2011.
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Um intelectual visceralmente ligado ao povo
ou um filho do povo cuja obra o fez um intelectual (1)
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A melhor forma de reviver, hoje, os tempos de exploração, miséria e repressão, mas também de luta no Alentejo, antes de 1974, passa por uma leitura atenta de alguns livros seminais de Manuel da Fonseca – cujo centenário do nascimento se celebra em Outubro de 2011. Além da sua poesia, são de referir, em particular, os contos de Aldeia Nova e de O Fogo e as Cinzas, bem como os romances Cerromaior e Seara de Vento.
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Voz por excelência de um certo Alentejo, que, por vezes, se faz eco ainda dos dias da Primeira República (1910-1926), mas que sobretudo recria as primeiras décadas do chamado Estado Novo salazarista (eram os tempos da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e da II Guerra Mundial (1939-1945)), Manuel da Fonseca conduz-nos mais tarde aos anos sessenta e inícios de setenta através dos saborosos textos de À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café (2000), inicialmente publicados no Diário Popular, entre 1969 e 1971. Textos breves, situados entre o conto e a crónica, desde logo, se distinguem pelo fino sentido de humor, pela capacidade de transfiguração do quotidiano e pelo inigualável talento de contador de histórias do autor, que, neste livro, se manifesta sobretudo nas vozes do narrador e da personagem de Álvaro Montes.
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Porque estes eram, de facto, traços marcantes do carácter de Manuel Lopes da Fonseca. Indissociáveis do seu amor à vida e do gosto pelo convívio franco com os seus semelhantes, deixaram gratas memórias em todos os que tiveram o privilégio de com ele acamaradar, quase sempre em redor de uma mesa onde não podiam faltar o cheiro a tabaco e o sabor do café, do bagaço ou do vinho tinto. Quantos não lamentarão, ainda hoje, que muitas das histórias ouvidas da boca do autor de Rosa dos Ventos, no seu inesquecível sotaque alentejano, se tenham perdido sem nunca chegarem ao papel?
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Um percurso de vida
Personalidade cativante, Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911, no seio de uma família da pequena-média burguesia de província. Originário de Castro Verde, o avô paterno, de raízes camponesas, estabelecera-se como ferreiro nesta vila próxima da costa alentejana, para escapar a perseguições motivadas por razões sociais e políticas. O pai, que se tornaria empresário, era pintor autodidacta, grande conversador e contador de histórias. Oriunda de uma família miguelista com ascendência espanhola, a mãe era filha de farmacêutico. Ambas as casas, a dos avós maternos e a dos paternos, proporcionaram a Manuel da Fonseca o primeiro convívio com os livros. Na biblioteca do avô paterno viria a descobrir obras de Garrett, Victor Hugo, Zola, Eça e mesmo O Capital, de Marx. Após a morte do irmão mais novo, que marcou dolorosamente a sua infância (leia-se o conto «O primeiro camarada que ficou no caminho», de Aldeia Nova), os pais vão viver para Lisboa, ficando Manuel da Fonseca entregue aos avós. Por volta de 1923, e a fim de prosseguir os estudos secundários, junta-se à família em Lisboa, regressando à vila natal por ocasião das férias escolares. Frequenta várias escolas e, em 1926, no Liceu Camões, é colega de Álvaro Cunhal, dois anos mais novo.
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Registe-se, antes de avançarmos, que tanto no primeiro romance, Cerromaior (1943), como, sobretudo, na colectânea de contos com que se estreia em livro na narrativa de ficção, Aldeia Nova (1942) – vejam-se «O sete-estrelo», «Viagem», «Nortada» e outras histórias, protagonizadas quase sempre pela personagem de Rui –, é possível ler a ficcionalização de episódios de uma existência, entre infância e juventude, que, em parte, correspondem a uma projecção, de cunho autobiográfico, da vida de Manuel da Fonseca até finais da década de trinta. Com capas desenhadas por um companheiro de geração, o pintor Manuel Ribeiro de Pavia, ambos os livros nos oferecem, a par da singular paisagem alentejana, a representação de uma geografia humana, sócio-económica e cultural cujo núcleo é Cerromaior, recriação ficcional da vila de Santiago do Cacém nessa época. Como eixos temáticos desta ficção, encontramos, desde logo, a exploração das massas camponesas pelos senhores do latifúndio; a pobreza e a fome decorrentes do trabalho sazonal, das jornas de miséria e do desemprego; o alcoolismo, o analfabetismo e a violência doméstica; além das migrações de trabalhadores vindos do Algarve para servir, em ilusória busca de melhor vida, nos campos e arrozais do Alentejo, sob a impiedosa supervisão dos capatazes. Num cenário cujo horizonte é sempre a bela mas interminável planície sem «horizontes» de vida, assiste-se à ruína dos pequenos proprietários endividados; ao marasmo das vilas e aldeias condenadas ao isolamento pela precariedade dos transportes (alguns dos contos referem ainda a diligência), pela carência de indústria e de vias de comunicação capazes; às tensões sócio-económicas e familiares no seio da burguesia rural, amparada numa administração local ao seu serviço; ou ainda à maledicência, à hipocrisia e ao quotidiano monótono e asfixiante da pequena burguesia e dos funcionários menores, marcados pela estreiteza de vistas em matéria de costumes. Em suma, um rol de problemas sociais, económicos e culturais que os governos burgueses da Primeira República não lograram (ou não quiseram) atalhar e que a ditadura fascista veio exacerbar, recorrendo quer à repressão policial – que se abate sobre o mínimo gesto de resistência ao status quo – quer à aplicação de uma justiça de classe que protegia a violência e as arbitrariedades dos latifundiários e condenava, invariavelmente, trabalhadores agrícolas e malteses.
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Mas tanto Aldeia Nova (nas suas várias reedições aumentadas) como Cerromaior permitem, por outro lado, descobrir tipos sociais e certas figuras individuais de homens e mulheres, que, retratados com talento e poder de observação, matizam a paisagem humana e social do Alentejo, tornando-a quase mítica. Que leitores atentos de Manuel da Fonseca não conservam na memória gente inesquecível como o sapateiro Estróina, o bêbado Zé Limão, Campanelo – o admirável contador de histórias –, o barbeiro Mestre Finezas – actor e músico frustrado num meio que o não entende nem valoriza –, Maria Campaniça, o porqueiro Zé Cardo – sonhando a «Aldeia Nova», símbolo de um mundo diferente e melhor –, a mondadeira algarvia Maria Altinha, os trabalhadores agrícolas, unidos pelo cante, cuja música de fundo escutamos em várias passagens, ou o velho Doninha (o carteiro demente de Cerromaior)? Outros se lhes vêm juntar, mais tarde, com o Fogo e as Cinzas (1953), como o senhor Rodrigo, fotógrafo, o bombeiro Leonel Badanas, o vagabundo Rana, ou as vidas falhadas de André Juliano, Chico Biló e mestre Poupa, já num tempo em que o rádio e os primeiros automóveis chegavam ao Alentejo, e o velho largo da vila deixava de ser o «centro do mundo» (leia-se, a propósito, o «O Largo», mais do que um conto, um poema em prosa, dos mais belos e comoventes da literatura portuguesa).
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Desta galeria de figuras – que por vezes comparecem em vários contos e poemas, conferindo unidade ao universo ficcional – sobressaem, por um lado, o maltês, presença recorrente em Manuel da Fonseca e figuração do marginal andarilho, misterioso e insubmisso (convertido numa das personagens nucleares de Cerromaior); e, por outro, toda uma série de figuras infantis cuja representação se deixa imbuir de lirismo, de graça e de incontida ternura, trazendo à lembrança outros meninos – tantos! – que igualmente povoam os livros de Alves Redol, de Soeiro Pereira Gomes e de outros companheiros de geração do autor.
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Regressemos, porém, ao final dos anos vinte e sobretudo à década de trinta, época em que o criador de todas estas personagens publica os seus primeiros textos literários na imprensa (principalmente em O Diabo, espaço de divulgação por excelência dos neo-realistas) e, em simultâneo, procura garantir a sobrevivência numa capital cujos encantos aprende a descobrir – e cujos dramas retratará, mais tarde, em livros de ambiência urbana como Um Anjo no Trapézio (1968), Tempo de Solidão (1973), O Vagabundo na Cidade (2000, textos inicialmente publicados em 1967-68) e Pessoas na Paisagem (2002, crónicas vindas a lume entre 1963 e 1971). Praticante entusiasta de desporto (chegou a jogar futebol nos iniciados do Sporting; praticou esgrima, ténis, equitação, toureio e automobilismo; venceu, inclusive, um campeonato nacional de pesos médios em boxe (2)), Manuel da Fonseca preza, sobretudo, o convívio com companheiros de boémia – que cultivará como ninguém e lhe franqueará as portas das tertúlias de escritores e artistas que, pelos cafés da baixa de Lisboa, em finais dos anos trinta, estão na origem do movimento neo-realista: Redol, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Pavia, Abel Manta, Lopes-Graça e outros. Mais tarde, relacionar-se-á com o grupo de Coimbra – Joaquim Namorado, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, Fernando Namora – que, em 1941, lhe edita o segundo livro de poesia, Planície, na emblemática colecção «Novo Cancioneiro», com a qual o Neo-Realismo português consubstancia, em poesia, um ideário estético a que subjaz um «novo humanismo», ou seja, um posicionamento ideológico perante o mundo, de raiz marxista e antifascista, solidário com os deserdados da vida.
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Antes, Manuel da Fonseca frequentara a Escola de Belas Artes, mas começa entretanto a trabalhar. Com uma estabilidade laboral problemática, conhecerá, ao longo da vida, os mais diversos empregos. Como escreve Luísa Duarte Santos, «Faz e refaz a sua vida. Muda de lugares. Muda de amores. Muda de empregos. Precisava de ócio, o ócio essencial ao artista e ao processo criativo.» (3). Dos arquivos da PIDE/DGS, já por volta dos anos sessenta, «constam informações de que tem a profissão de escritor e que vive exclusivamente dos rendimentos do seu trabalho» (4).
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O intelectual comunista
Para melhor se entender a personalidade de Manuel da Fonseca – tanto o percurso do intelectual lutador, comprometido com as questões candentes do seu tempo histórico, como a sua condição de protagonista do Neo-Realismo português –, importa no entanto salientar outros traços, no campo da intervenção política, habitualmente relegados para segundo plano por críticos e entrevistadores, designadamente a sua fidelidade ao ideal comunista.
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Os primeiros contactos de Manuel da Fonseca com o PCP datam dos anos trinta, ou seja, de um tempo de juventude em que encetava um convívio, que se tornaria profícuo, com figuras ligadas às artes, às ciências e à vida política, como Bento de Jesus Caraça, o arquitecto Keil do Amaral, os pintores Maria Keil e Pavia, o escritor e crítico musical Manuel de Lima e homens de letras como Ferreira de Castro, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, Redol. Militante comunista desde os anos quarenta, integra o colectivo partidário numa fase decisiva da história do Partido – a da Reorganização de 1940/41 e dos III e IV Congressos (o I e o II ilegais), realizados respectivamente em 1943 e 1946 –, coincidente com o reacender da luta clandestina e da mobilização das massas contra o fascismo, com especial incidência no Alentejo e nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo. Ou seja, um período em que boa parte dos quadros de direcção formados nos anos da Reorganização provinha da classe operária e se forjava na intervenção directa em lutas de massas (5), e no quadro de uma dinâmica que passou igualmente pela juventude e pela intelectualidade comunistas. Como escreve Manuel Gusmão (6), «a primeira metade da década de 40 exemplifica uma tendência que marca a história do PCP: é nos momentos em que cresce (se amplia, se aprofunda) e se renova a influência orgânica na classe operária que cresce também a influência entre os intelectuais. Esta tese pode formular-se também assim: não há qualquer incompatibilidade, antes há uma correlação efectiva, entre influência operária e influência intelectual.»
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Neste contexto, Manuel da Fonseca participa nos célebres passeios de barco, Tejo acima (que, a par da actividade conspirativa longe dos olhares da PVDE/PIDE, propiciavam o convívio entre homens e mulheres das artes, da ciência e da acção política clandestina, como Redol, Soeiro, Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Caraça, Lopes-Graça, Piteira Santos e tantos outros), e, em 1945, adere ao MUD – Movimento de Unidade Democrática. Faz parte, em 1947, da Comissão Distrital do MUD de Lisboa e apoia, dois anos volvidos, a candidatura de Norton de Matos à Presidência da República. Em 1951, integra o Comité Nacional da Defesa da Paz e, em 1958, apoia a candidatura de Arlindo Vicente à Presidência e, na sequência da desistência deste, a de Humberto Delgado. Já na década seguinte, vemo-lo integrar a comissão de apoio à oposição democrática, que, em 1961, se propõe disputar as eleições para deputados da Assembleia Nacional fascista. Adere, em 1969, à CDE – Comissão Democrática Eleitoral, durante a campanha para a eleição de deputados, quatro anos após a Sociedade Portuguesa de Escritores atribuir o Prémio de Novelística a Luuanda, de Luandino Vieira, então preso no Tarrafal. Dado que Manuel da Fonseca integrava o júri, a 22 de Maio de 1965 é preso pela PIDE e acusado de actividades contra a segurança do Estado. Detido em Caxias é submetido a vários interrogatórios.
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A actividade política de Manuel da Fonseca não cessou com o fim da resistência ao fascismo após o 25 de Abril. Continuou a ser um homem e artista interveniente, quer no seio dos intelectuais comunistas, e não só, quer, por exemplo, como candidato da CDU por Setúbal, em 1983, nas eleições legislativas desse ano.
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Um escritor nas encruzilhadas da História
«Visceralmente ligado ao povo», como afirmou Álvaro Cunhal por ocasião da sua morte em 11 de Março de 1993, Manuel da Fonseca é autor de uma escrita indissociável de um tempo histórico e do pano de fundo ideológico e estético do Neo-Realismo português, muito embora a crítica seja unânime em reconhecer a singularidade da sua poesia (poemas que, não raro, desenham inesquecíveis tipos humanos e contam histórias) e da sua prosa, imbuída de lirismo, de sentido do trágico, mas também do cómico (e da consciência, por vezes, do absurdo existencial), rica em diálogos impregnados de sentido dramático – que convidam à adaptação teatral, como aconteceu com Seara de Vento, em 1975. Uma escrita parcimoniosa nos recursos lexicais, mas dúctil e fluente, poética e lírica, que surpreende pela visualidade e sensorialidade. Quase ouvimos esse tão simbólico vento que flagela Seara de Vento e testemunhamos a sua violência sobre um cenário físico e humano de contornos expressionistas, em que sobressaem as extraordinárias figuras da velha Amanda Carrusca e de Palma – o camponês insubmisso, vítima da sanha persecutória de um latifundiário e das forças da Guarda ao seu serviço – sobre um pano de fundo que deixa entrever a acção organizada dos camponeses e em que surge já integrada a filha, Mariana, demonstrando que «Um homem só não vale nada!». Uma escrita de certeira notação descritiva, na captação dos tipos humanos e da paisagem, que, não poucas vezes, se deixou influenciar pelo cinema, como é visível em O Fogo e as Cinzas (1953) e em Seara de Vento (1958).
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Não cabem, no espaço deste texto evocativo, uma problematização, que seria longa e complexa, quer da corrente neo-realista quer das célebres críticas ao «umbilicalismo» do anterior movimento da Presença (subscritas, entre outros, por Álvaro Cunhal), quer das polémicas no interior do próprio Neo-Realismo português. Diremos apenas que a geração de intelectuais e artistas que foi a de Manuel da Fonseca não pôde, nem quis, manter-se indiferente, por um lado, a um contexto histórico marcado pela janela de esperança, aberta aos povos, pelo socialismo soviético e pelos governos de Frente Popular (unidade de socialistas, comunistas e outras forças republicanas e democráticas), tanto em França, como em Espanha. Por outro lado, não lhe foi possível ignorar a ameaça e posterior domínio do nazi-fascismo na Europa, logo concretizados na tragédia da agressão franquista à República espanhola, amparada na capitulação das democracias burguesas europeias, na retaguarda proporcionada por Salazar e no apoio militar de Hitler e de Mussolini. Recorrendo, assim, a uma definição sucinta, demasiado simplificadora, é certo, diremos que, «quando falamos em neo-realismo, estamos a cobrir com esta designação um conjunto de autores e de obras» que, a partir de finais da década trinta do século XX e até à década de sessenta, «inscrevem um projecto de relacionar literatura e história de uma forma empenhada, em função de um desejo de transformação revolucionária da sociedade cujas injustiças são denunciadas» (7). Autores que, contrariamente à opinião dos seus detractores, não ignoraram a renovação das linguagens e das formas promovida pelas vanguardas artísticas do início do século XX, e que, estribados no materialismo histórico, se revelaram, eles próprios, inovadores e modernos em múltiplos aspectos. Para citar um punhado de exemplos dos anos 40-60, e ignorando a segunda geração neo-realista, são vivo testemunho da renovação operada na literatura portuguesa do século XX a poesia e os romances de Carlos de Oliveira, livros como Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e Gaibéus, Avieiros ou Barranco de Cegos, de Alves Redol, a que devemos juntar os melhores romances de Namora, a poesia e a prosa de José Gomes Ferreira, bem como os contos, romances e poemas de Manuel da Fonseca. Poemas – os de Rosa dos Ventos e de Planície – capazes, como nenhuns outros, de transmitir a «realidade trágica» do Alentejo(8) (com ecos de García Lorca e do cancioneiro popular em Planície), mas também toda a sua beleza e a força transformadora do seu povo. Porque, do olhar do poeta, «sai uma estrela voando nas trevas / tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes», e ele sente-se capaz de «destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo. (…) uma das coisas mais belas / que um homem podia fazer na vida!» (9)
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Notas
(1) Álvaro Cunhal (1993), testemunho citado em «Faleceu Manuel da Fonseca», Avante!, 18 de Março de 1993, p. 5.

(3) Luísa Duarte Santos (2011), «Manuel da Fonseca, voz do vento», in David Santos e Luísa Duarte Santos (org.). Manuel da Fonseca: Por Todas as Estradas do Mundo. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo (pp. 33-53), p. 45.
(4) João Machado, texto citado.
(5) Álvaro Cunhal (2007), Prefácio (de 1997) ao Informe Político do Comité Central ao IV Congresso do PCP, in Obras Escolhidas, I (1935-1947). Lisboa: Edições «Avante!», p. 400.
(6) Manuel Gusmão (2011), «O Partido e os intelectuais nos anos 40 – O caso Bento de Jesus Caraça», O Militante, n.º 312, Maio/Junho de 2011, secção Cultura, p. 34.
(7) Nuno Júdice (2009), «Cinza e rosa no eixo do real», in Luísa Duarte Santos (org.). Escrevivendo Urbano, Catálogo da exposição biobibliográfica. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo (pp. 51-56), p. 51.
(8) Alexandre Pinheiro Torres (2002), «Neo-Realismo (1935-1950)», in Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho (dir.). História da Literatura Portuguesa: As Correntes Contemporâneas. Lisboa: Alfa (pp. 183-234), p. 219.
(9) Manuel da Fonseca (1975), Poemas Completos. Lisboa: Forja, pp. 83 e 95.