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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ana Sá Lopes - Está em causa o normal funcionamento da democracia

* Ana Sá Lopes
   
Luís Neves já era um destroço, mas um destroço com o poder de mandar a polícia de choque para a rua pode rebentar com o regime. Está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas.   

Não me lembro de ter tido tanto medo como na madrugada deste domingo, 25 de Outubro. O meu filho estava no Rossio, em Lisboa, quando a polícia de choque avançou sobre os manifestantes pacíficos em luta pelo direito à habitação.   

Estava o meu filho, os filhos das minhas amigas e os filhos de tanta gente que se juntaram a uma manifestação legítima, igual a tantas outras acampadas e vigílias que já aconteceram no país sem que a polícia de choque, com os seus bastões e cães, se atirasse aos manifestantes.   

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Marta Martins Silva entrevista Óscar Cardoso, da PIDE/DGS

* Marta Martins Silva

28 de Abril de 2024

Se estiver na rua e alguém disser "inspector" ainda se vira?

Sim. Muitas pessoas tratam-me assim.


Incomoda-o que definam a sua vida pelos dez anos na PIDE-DGS?

Foram os anos mais felizes da minha vida. Pelo contrário, tenho muito orgulho nisso.


Lembra-se da primeira vez em que teve noção do que era a PIDE?

Diziam que eram uns tipos muito duros. Mas como nunca me meti em manifestações não tive preocupação de saber. Depois do Exército servi na Guarda Republicana. Surgiu a oportunidade de ingressar na PIDE num quadro permanente de oficial miliciano. O futuro era mandarem-me embora quando não precisassem de mim.


Que funções desempenhou antes de ir para Angola?

Fui colocado na investigação. Conheci pessoas extraordinárias, nomeadamente José Barreto Sachetti, meu primeiro director. Vi como se faz um interrogatório, e depois estagiei nos vários serviços.


Há o mito de que se usava o método de interrogatório 'PIDE bom, PIDE mau'...

Isso até existe nos livros da Agatha Christie. Há sempre um mau e um bom.


E era o bom ou o mau?

Normalmente não interrogava. Assistia e coordenava. O meu papel era de inspector, que instruía o processo, e os chefes de brigada é que faziam os interrogatórios.


Muitas pessoas dizem que foram torturadas na PIDE.

Todos dizem que foram.


Nega que tenha havido tortura?

Nego. Estavam horas em pé até dizerem a verdade. Isso não era muito agradável, mas não havia tortura física. Sob palavra de honra: nunca vi torturar ninguém. Mas também devo dizer que o pavor que eles criaram sobre a PIDE facilitava o trabalho. Ficavam tão aterrorizados que contavam a história toda desde pequeninos. Só que quando vinham cá para fora tinham de dizer que foram torturados.


Quando foi para Angola levava directrizes de Lisboa para criar os Flechas?

Não. Vigorava lá a teoria de, com a Rodésia, África do Sul e Moçambique, constituir uma confederação antiterrorista. Em Portugal sabia-se disso e em Luanda havia um director muito inteligente que estaria dentro do complô, onde Angola se afastaria de Portugal. Disseram-me para ir lá ver o que se passava. Fui com essa missão, mas a versão oficial da transferência foi aplicar os conhecimentos de guerrilha num sítio onde havia. O director São José Lopes apercebeu-se e não me tratou bem. Andei por Angola toda, e depois pôs-me numa coisa de que não gostava nada: os Reservados.


Tinha de fazer o quê?

Se alguém precisava de uma licença, íamos ver os antecedentes. Em Luanda, onde vivia com a minha mulher, conheci o administrador Manuel Pontes, que passara a maior parte da vida nas terras do fim do Mundo. Falou-me do paraíso da caça que era o Cuando-Cubango, e de um povo extraordinário, os bosquímanos, dos quais tinha ouvido falar na cadeira de Etnografia. Pensei que era interessante aproveitá-los. Propus ao director, que arranjou uma maneira airosa de se ver livre de mim. Deu-me um Land Rover, e fui com a minha mulher e com o velhote. Só que o jipe não estava em boas condições.


Se calhar escolheram-vos o Land Rover pior...

Acredito [risos]. Comecei por recrutar oito, que pareciam múmias, deste tamanho [faz um gesto equivalente a metro e meio], e usavam arcos e flechas. Fizeram uma razia em acampamentos dos ‘turras’. Usavam flechas envenenadas, em arcos pequeninos. Quem apanhava uma flechada daquelas não tinha chance nenhuma. Começámos os flechas bosquímanos, com muito sucesso. Nas terras em que não há nada, descobriam água e o que comer. Raramente traziam alguém vivo, mas limpavam o terreno.


Foram usados contra missões que davam apoio a independentistas?

Que eu saiba, a única pessoa que fez isso fui eu, duas vezes. À missão de Xamavera, de padres franceses que davam apoio logístico aos bandidos, mandámos uns que não eram bosquímanos, fardados com camuflados da UNITA. Beberam a garrafeira, deram palmadas, mas não mataram ninguém. Foram-se embora. A outra foi numa missão da Catota, no Bié, da qual enviavam relatórios para a CIA. Foram lá uns tipos e o missionário resolveu partir.


Nessa altura também ficou a conhecer Jonas Savimbi.

Sim.


Que impressão tinha dele?

A pior. Era o mais traiçoeiro. Entendeu-se dar apoio à UNITA, com o compromisso de fazer tampão ao MPLA, e o Savimbi ficou malvisto com os países africanos. Houve uma altura em que foi preciso fazer um contacto na mata, no Moxico. Eu representava Portugal e da parte deles seria o próprio Savimbi. Fomos ao local, num helicóptero sul-africano, e apareceu-nos um preto de tanga. Mas com brilhantina no cabelo.


Não combinava muito...

E tinha unhas mais bem tratadas do que as minhas. Não gostei quando ele disse que o encontro era mais adiante. Avançámos 50 metros, mas voltámos para o helicóptero, para sobrevoar a zona. O piloto disse que não tinha combustível, e fomos à base encher o depósito. No regresso, chovia torrencialmente. Decidi que voltávamos na manhã seguinte. À noite, o nosso radiotelegrafista, que estava no acampamento da UNITA, comunicou que havia notícias de que os Flechas tinham sido massacrados. Disse-lhe para destruir o rádio e meter-se num buraco. De manhã começámos a ver corpos dos Flechas cortados aos bocados. A operação estava feita para o Savimbi se lavar perante os africanos.


Os Flechas não resultaram em Moçambique?

Aquilo estava tão bem feito que nem o director provincial de Moçambique sabia. Disse-me assim: "Não precisamos de flechas, não queremos flechas e temos raiva a quem quer. Portanto, a partir de agora, considere-se turista". Acabei por voltar para Angola e depois para Portugal, onde apanhei o 25 de Abril e fiquei 733 dias preso.


Onde é que esteve preso?

Caxias, Peniche e Alcoentre.


Pensou que podia morrer?

Tinham a amabilidade de nos dizer em Peniche que nos iam fuzilar. Também tive um plano de fuga. Consegui que a minha mulher me trouxesse uma granada e andei semanas com aquilo junto ao braço. No dia de ir à consulta externa de otorrino, meteram-me no Mercedes, abriu-se o portão e quando olhei pelo retrovisor tinha um Unimog atrás, com uma metralhadora e uma secção de atiradores. Não tinha chance nenhuma.


Quando é que foi julgado?

Estava em Alcoentre quando fizeram a acareação. Fui acusado de torturar um homem, mas eis um pormenor: quando ele disse que eu ia torturá-lo à cela, comandava uma companhia nos Açores e ainda não estava na PIDE. Outro era um lingrinhas, que me acusou de, com 50 homens, lhe ter dado uma surra. Bastava um para dar cabo dele.


Qual foi a primeira coisa que fez ao ser libertado?

Fui ter com os meus pais, a minha mulher e os meus filhos. Depois tentei arranjar emprego. Andei a vender margarina, mas não era o meu estilo. Tinha de me apresentar no posto de Oeiras, de 15 em 15 dias, e o sargento avisou que tinha lá um mandado de captura com o meu nome.


A que se devia o mandado?

Punham-se bombinhas nas sedes comunistas e eu ia a Badajoz buscar material para as fazer. Houve um tipo que estava a fabricar um dispositivo em casa, fez aquilo mal e ia ficando sem um pé. Foi para o hospital e começou a falar, sob efeito da anestesia.


Eram acções do ELP ou do MDLP?

Do ELP, com o Santos e Castro, com quem estive num subúrbio de Madrid. Foi lá que fiz o passaporte e apanhei o avião para a Rodésia


Ainda pensava que Portugal voltaria à situação anterior?

Estava tão desiludido que pensei esquecer-me de Portugal. Quando fui para a África do Sul, era ali que queria ficar, mas entretanto vi o país ceder – e não queria ser preso outra vez.


É procurado por pessoas do seu passado?

Muitas.


Que lhe querem bem ou que lhe querem mal?

Uma vez, à entrada desta propriedade, alguém escreveu "PIDE, vamos-te matar". Tive a tentação de escrever "venham à hora de almoço que há comida", mas pessoas daqui caiaram aquilo. Hoje, é aqui que quero viver.


Costuma votar?

De vez em quando voto, para que não seja um pior a vencer.


Entre os políticos actuais há alguém que se destaque?

O Rui Rio ou o Paulo Morais. Não vejo mais, até porque vivo atrás do sol-posto e evito a televisão. As raparigas do Bloco de Esquerda dizem coisas com piada, mas não vão a lado nenhum.


Oliveira Salazar foi o último político que respeitou?

Nunca respeitei políticos. Respeitei Salazar como estadista, e estabeleço a diferença entre uma coisa e outra.


Se Portugal fosse ainda pluricontinental teríamos um Presidente ou um primeiro-ministro africanos?

Poderia haver. Mais antiga é a ideia de Norton de Matos, em que a capital era Nova Lisboa e aqui seria o escritório na Europa. Era brilhante.


Se não tivesse acontecido o 25 de Abril chegaria a director-geral da PIDE?

A minha ambição era, quando visse o terrorismo acabado, ir para o Cuando-Cubango. Arranjava uma fazenda de gado, vivia lá, com os meus pretos e bosquímanos, e que ninguém me chateasse.


Como é que pensa que irá ser recordado no futuro?

Um português sem Portugal. Mas não me preocupo muito com isso.


ENTREVISTA  realizada em (2016)  

https://www.facebook.com/UniaoNacionalSalazar/posts

domingo, 30 de outubro de 2022

Luís Reis Torgal: - “A ditadura não foi branda, foi um fascismo à portuguesa”

* Luís Reis Torgal

Numa obra compilada pelo historiador, prova-se que os tentáculos da polícia portuguesa iam às colónias e passavam o Atlântico para vigiar a actividade dos exilados.

O título da obra parte de uma referência irónica, a uma entrevista de António Ferro a António de Oliveira Salazar no início dos anos 30 do século passado. Contudo, Brandos Costumes, o Estado Novo e os Intelectuais, coordenado por Luís Reis Torgal, desfaz esta visão. A ditadura tinha polícia política, prisões sem culpa formada, censura, tribunais plenários especiais, interrogatórios, as matracas da força de choque da Legião Portuguesa, torturas e informadores visando as oposições. Havia falsas eleições das quais saía sempre vitorioso o partido único nas suas duas versões — União Nacional e Acção Nacional Popular —, o sindicalismo livre era reprimido naquele Estado de corporações e aos funcionários públicos exigido um juramento de fidelidade ao regime. “Activo repúdio ao comunismo e a todas as ideias subversivas”, proclamava.

As prisões eram várias e, algumas, coexistiram no tempo: do Aljube ao Campo do Tarrafal, em Cabo Verde; da ilha de Ataúro, em Timor, ao forte de São Sebastião, em Angra do Heroísmo, nos Açores; da fortaleza de Peniche ao forte de Caxias. A polícia teve várias declinações de cosmética mantendo o essencial da sua função. Em 1933, nasceu a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), sucedeu-lhe a partir de 1945 a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), para terminar na Direcção-Geral de Segurança, assim baptizada por Marcelo Caetano, que caiu com o 25 de Abril de 1974.

“É uma referência irónica, a ditadura não foi branda”, avança, ao PÚBLICO, o coordenador que reúne investigações suas e de outros seis estudiosos — Heloísa Paulo, Julião Soares Sousa, Luís Filipe Torgal, Paulo Marques da Silva, Renato Nunes e Vítor Neto.

“A violência, o processo directo e constante da ditadura fascista não são aplicáveis, por exemplo, ao nosso meio, não se adaptam à brandura dos nossos costumes”, respondera com paternalismo Salazar a António Ferro, dando origem ao mito de uma lusa benignidade do regime de excepção. Ou seja, não há lugar para revisionismos, branqueamentos ou negacionismos.

“A ditadura não foi branda, defendo que o regime foi um fascismo à portuguesa, se utilizarmos a palavra totalitarismo não estamos errados e não há totalitarismos brandos”, acentua Luís Reis Torgal. “Claro que a PIDE não era infalível, nem podia ser, uma coisa é a vigilância, outra a prisão, mas os pides observavam tudo ou, pelo menos, tentavam”, refere.

“O início deste projecto data dos anos 90 do século passado, quando comecei a trabalhar com alunos sobre os arquivos da PIDE”, explica. “Agora, foi pegar em artigos publicados, em sínteses de doutoramento, em livros pouco lidos”, prossegue o professor da Universidade de Coimbra e membro da Academia Portuguesa de História.

Dos dois lados do Atlântico
No entanto, no volume há espaço para novidades: são três. Se era conhecida a militância comunista e a história da repressão do Estado Novo a Soeiro Pereira Gomes, também Miguel Torga e Jorge de Sena sofreram as vicissitudes da vigilância da polícia política. Este último, do outro lado do Atlântico, no exílio brasileiro, através da articulação da PIDE com o Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Brasil, e da presença de enviados especiais da polícia política portuguesa. O Brasil tinha tradição de terra de exílio das oposições, desde o advento do Estado Novo, sujeitas a vigilância. O que foi determinante para que Jorge de Sena partisse para os Estados Unidos.

O historiador Luís Reis Torgal coordena a obra Brandos Costumes, o Estado Novo e os Intelectuais 

Nos relatórios dos arquivos da PIDE, Miguel Torga constava como “escritor desafecto com ideias avançadas” e Fernando Namora estava “sob vigilância”. Aquilino Ribeiro também estava na mira. Fundador da Seara Nova, exilado em França pelo seu envolvimento na revolta de 1927, aderiu à frente oposicionista do Movimento Unitário Democrático (MUD) e teve um processo-crime pela edição de Quando os Lobos Uivam.

O republicano Tomás da Fonseca, um dos mais tenazes escritores anticlericais do século XX português, foi classificado pela polícia política como “radical e perigoso” e “raivoso anti-situacionista”. Esta classificação teve consequências, pela sua expulsão da Escola do Magistério Público de Coimbra e na proibição pela censura de 17 dos seus livros. Ferreira de Castro, outro “desafecto ao regime” no crivo da polícia política, não teve nenhum livro censurado nem foi preso, o que Luís Reis Torgal justifica pelo seu prestigio internacional.

Na selecção dos estudos de 12 escritores, “meramente simbólica” como assinala o coordenador, destaque para Natália Correia, que, ainda antes de ser processada pela direcção literária das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, um dos episódios do ocaso da ditadura, teve censurada a sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica.

Outros dois intelectuais acompanhados pela PIDE aparecem nesta obra, ambos residentes na Casa dos Estudantes do Império, Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Do dirigente guineense, agrónomo, nada consta nos arquivos, apesar da sua actividade nacionalista. Quanto ao médico e primeiro Presidente de Angola, o seu envolvimento em acções políticas, como o abaixo-assinado a Craveiro Lopes para que Portugal abandonasse a NATO, o apoio à campanha presidencial de Norton de Matos e a sua adesão ao Movimento Nacional Democrático levaram-no às prisões do Aljube e de Caxias.

30 de Outubro de 2022
Público 2022 10 29

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Angola | CRIME E TRAIÇÃO NA ALTERNÂNCIA POLÍTICA – Artur Queiroz

 terça-feira, 9 de agosto de 2022

Artur Queiroz*, Luanda

No ano de 2014 tive a oportunidade de entrevistar, algures em Portugal, o antigo inspector da PIDE/DGS Óscar Cardoso, fundador dos Flechas e profundo conhecedor da UNITA de Jonas Savimbi. Um dia inesquecível. Saí de Luanda no voo da noite e à chegada a Lisboa liguei o telefone. Encontrei uma mensagem de minha irmã: “Vem que a Mamã faleceu”.  Minha querida Mãe tinha falecido ao fim da tarde do dia em que parti. 

No aeroporto de Lisboa estava à nossa espera alguém da confiança de Óscar Cardoso, que nos levaria ao local da entrevista. Face à tragédia, o José Ribeiro quis abortar o trabalho. Recusei. Fomos ao encontro do entrevistado. Já com tudo concluído (texto mais gravação de som e imagens) ainda tive tempo de me recolher uns minutos ante o caixão da Mamã. Não houve tempo para mais, porque tive de seguir logo para o aeroporto e regressar a Luanda.

Hoje mando o texto da entrevista que nunca foi para o ar na RNA e na TPA, por razões que desconheço. Mas saiu no Jornal de Angola. Leiam que vale a pena. Para que todos saibam qual é a alternância que a UNITA oferece às angolanas e aos angolanos.

O 25 de Abril em Portugal pôs fim à tenebrosa PIDE que perseguiu e assassinou milhares de lutadores pela liberdade, mas pouco se sabe para onde foram muitos dos chefes e agentes da polícia política fascista e colonial portuguesa. Numa quinta algures em Portugal o Jornal de Angola entrevistou aquele que foi o segundo homem da hierarquia da PIDE em Angola e que fundou os “Flechas”, Óscar Cardoso.

Diamantes e Marfim Fizeram Muitos Amigos à UNITA

Óscar Cardoso foi inspector-adjunto da PIDE/DGS. Era o número dois da organização em Angola. Nas savanas do Cuando Cubango fundou os Flechas para lutarem contra os guerrilheiros do MPLA, que ameaçavam levar a guerrilha ao Planalto Central. Em 1976, Óscar Cardoso foi para a Rodésia de Ian Smith onde criou forças especiais para enfrentar os guerrilheiros da ZANU, comandados por Robert Mugabe. Um ano depois foi para a África do Sul organizar as forças de Savimbi na guerra contra Angola. Pela primeira vez, depois da “Revolução dos Cravos” em Portugal e a extinção formal da polícia política portuguesa, um alto responsável da PIDE fala do percurso de Savimbi ao serviço de Portugal e do apartheid.

Jornal de Angola - Foi para Angola como militar ou já ao serviço da PIDE?

Óscar Cardoso - Eu era um homem de confiança do regime e a PIDE soube que o director da polícia em Angola, São José Lopes, estava metido numa conspiração com a Rodésia e a África do Sul para proclamarem a independência do território. Com São José Lopes estavam pessoas com grande poder económico na província. Era preciso travar aquilo. Fui para Luanda com essa missão. Nessa altura já era inspector.

JA - Conseguiu travar essa conspiração?

OC - A minha missão era secreta, mas São José Lopes soube tudo ainda eu não tinha desembarcado em Luanda. Por isso, quando cheguei, mandou-me para o Cuando Cubango alegando que havia movimentos subversivos na região que era preciso travar. Quis ver-se livre de mim, rapidamente. Na verdade, as forças do MPLA usavam o norte do Cuando Cubango para se infiltrarem no planalto central. Eu estudei antropologia na Escola Colonial e interessei-me pelos khoisan, os chamados bosquímanos. Conheci-os ao vivo. Quanto à conspiração, eles pararam na altura, mas nunca abandonaram o projecto. Logo a seguir ao 25 de Abril, retomaram-no.

JA - O que concluiu com os seus estudos?

OC - Os bosquímanos foram empurrados para os locais mais inóspitos e por isso odiavam todos os que não eram da tribo. Verifiquei que eram pisteiros espantosos. Liam os rastos como nós lemos um livro. Sabiam se as pegadas eram de homem ou mulher, se iam carregados ou não. Um dia até me disseram que a pista era de uma mulher grávida. O administrador Amaral Pontes tinha uma grande paixão pelos bosquímanos. Chamavam-lhe Tata Kun. Um dia decidimos fazer deles uma força armada no Cuando Cubango. Como as suas armas eram os arcos e flechas, pus-lhes o nome de “Flechas”.

JA - Como conseguiam enfrentar forças armadas só com arcos e flechas?

OC - As flechas eram armas terríveis. Eles conhecem um tubérculo altamente venenoso que fica uns dias em infusão. Depois embebem as pontas das flechas naquele líquido e quando acertam nas presas, elas ficam paralisadas. Nem os elefantes resistem ao veneno. Os bosquímanos conhecem a noite tão bem como o dia e atacavam o inimigo quando estava a dormir. Seguiam o lema do general chinês Sun Tse Wu, que existiu há mais de 3500 anos: sejam mais rápidos que o vento e tão misteriosos como a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão.

JA - Os Flechas no Leste também eram bosquímanos?

OC – Não. Dado o êxito dos Flechas no Cuando Cubango, decidimos criar unidades em todos os postos situados no teatro de guerra. Em Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) foram recrutados os antigos guerrilheiros que se entregaram ou foram feitos prisioneiros. Depois também recebemos um grande reforço dos guerrilheiros da UNITA comandados pelo major Sachilombo, formado na academia militar de Nankin e que na época era o número dois da UNITA.

JA - A UNITA foi criada pela PIDE?

OC - Não, a UNITA foi criada pelo Savimbi e mais alguns companheiros, que receberam treino político e militar na China. Nós conhecíamos o perfil de todos e quando se instalaram na Frente Leste fomos estabelecendo contactos. Eles estavam a ser muito úteis, porque combatiam as forças do MPLA. Mas depois infiltraram-se na zona do Munhango e começaram a incomodar a actividade dos madeireiros. Nessa altura fizemos o que qualquer força de inteligência militar faz: estabelecemos contactos com Savimbi e os seus oficiais.

JA - Está a falar da “Operação Madeira”?

OC- Exactamente. O pessoal da PIDE e do comando da Frente Militar Leste começou a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Conseguimos resolver o problema dos madeireiros. Logo nos primeiros contactos verificámos que o Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater ao lado das tropas portuguesas.

JA - Quem fez os contactos com a UNITA no Munhango?

OC - Alguns nomes são públicos, mas eu não vou repeti-los. Por uma questão de ética só dou eu a cara. E refiro o senhor general Bettencourt Rodrigues porque ele nunca escondeu o seu papel na Operação Madeira. O Savimbi estava cheio de vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade.

JA - Savimbi fez alguma exigência para lutar ao lado das tropas portuguesas e dos Flechas da PIDE?

OC - Fizemos um acordo, ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em troca armas, apoio logístico e médico. O Savimbi esteve várias vezes internado no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais tarde. Recebeu tratamento várias vezes num hospital da África do Sul que tinha uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA.

JA - Depois da “Operação Madeira” a UNITA fez operações contra a tropa portuguesa?

OC - Fez algumas, para limpar a imagem. Quando se soube que Savimbi estava do nosso lado, perdeu prestígio em África. E ele queria mostrar que eram mentiras para o prejudicar. Fez uma operação que quase me custou a vida. Mas Deus salvou-me.

JA - Não me diga que Deus estava ao lado da PIDE?

OC - Pensem o que quiserem, mas eu fui salvo por Deus. Quando os comandantes Sachilombo e Pedro foram para Gago Coutinho, algum tempo depois começaram a circular notícias que davam a UNITA como uma organização ao serviço da PIDE. Então o Savimbi, que era muito traiçoeiro, resolveu fazer uma operação para limpar a imagem negativa. Armou-me uma cilada. Queria matar-me, matar um coronel da Força Aérea da África do Sul e o major Sachilombo.

JA - O que aconteceu?

OC – O Savimbi mandou dizer que queria enviar um grupo grande de guerrilheiros para nos ajudar na III e na IV Região do MPLA. Disse que o comandante Nzau Puna ia comandar esses grupos. Montámos a Operação Viragem e tratámos de todos os pormenores. O ponto de encontro era perto de Cangamba. Nós mandámos Flechas por terra em direcção ao local. Eu e o major Sachilombo fomos num helicóptero sul-africano, pilotado por um coronel. Aterrámos a cinco quilómetros do objectivo, num pequeno planalto, como estava previamente combinado. Veio ao nosso encontro um homem andrajoso, mas com as mãos e as unhas bem tratadas. Fiquei desconfiado com isso.

JA - Retiraram da zona?

OC - Desconfiei e manifestei as minhas desconfianças ao major Sachilombo. Mas decidimos acompanhar aquela figura estranha. Dois quilómetros à frente, encontrámos os nossos Flechas. Estavam todos sem armas. Disseram que os oficiais da UNITA lhes pediram para guardarem as armas porque estávamos numa operação de amizade e não fazia sentido andarem armados. Fiquei ainda mais desconfiado. O guia indicou-nos um morro a cerca de dez quilómetros. Era lá que estavam os homens da UNITA e o Savimbi. Nesse momento o major Sachilonmbo chamou-me à parte e disse para sairmos imediatamente dali. Dissemos aos homens para se dispersarem e esperarem a chegada do helicóptero.

JA - Como escaparam?

OC - Partimos apressadamente para o helicóptero e quando levantámos voo pedi ao piloto para sobrevoar o morro onde estava Savimbi e os seus homens. Mas o piloto disse que tinha pouco combustível e era melhor regressar a Cangamba para abastecer. Chegámos a uma hora que já não dava para regressar. No dia seguinte, ao nascer do sol, partimos para o local. Estava tudo limpo, mas sobre o morro caía uma chuva torrencial. Não se via nada. Demos algumas voltas até que o nosso radiotelegrafista em terra nos disse que quase todos os Flechas tinham sido mortos pela UNITA. Disse-lhe para desligar o rádio e esconder-se. Montámos uma operação de resgate. Os Flechas em terra tinham sido esquartejados. Foi horrível. Se não fosse aquela chuva hoje não estava aqui.

JA - Acabaram aí as relações com a UNITA?

OC - Continuaram, mas quisemos saber o que tinha acontecido. Os seus homens disseram que o Savimbi decidiu montar a Operação Baile para limpar a imagem da UNITA. Queria apresentar a minha cabeça, as do major Sachilombo e do coronel sul-africano. Além disso ficava com o helicóptero como troféu. Assim provava que nada tinha a ver com a PIDE e ainda acusava os portugueses de estarem aliados à África do Sul. Dizer ao mundo que tinha morto em combate o fundador dos Flechas era um grande trunfo. E fazia o papel de justiceiro em relação ao major Sachilombo.

JA - Essa foi a única operação contra as forças portuguesas?

OC - Ainda fizeram mais uma ou duas operações contra as forças armadas portuguesas, sempre para mostrar que a UNITA lutava contra nós. Eu alertei para este comportamento, mas nada pude fazer quando, depois do 25 de Abril, a inteligência apresentou Savimbi como o “muata da paz” e a UNITA como o “movimento dos brancos”.

JA - Ninguém o quis ouvir?

OC - Não, eu estava de licença graciosa em Portugal e apanhei lá os acontecimentos do 25 de Abril. Perdi os contactos e não pude agir. Aquela ideia de fazer do Savimbi o grande dirigente angolano da paz foi um erro trágico. Perderam os angolanos e os portugueses. Depois fui preso no Forte de Peniche. Estive lá dois anos. Comandei o forte e depois fui prisioneiro. Mas nunca ninguém me tocou com um dedo. Só quiseram destruir-me psicologicamente. Resisti.

JA - O senhor era considerado da linha dura da PIDE?

OC – O que é isso da linha dura? Nunca torturei ninguém. Nunca toquei com um dedo num preso. Havia um dirigente estudantil que andava a fazer asneiras. Foi preso. Quando o interroguei percebi que ele não valia nada. Telefonei à mãe para ir buscá-lo à sede da PIDE. No dia seguinte todos os estudantes souberam o que aconteceu e ele perdeu o prestígio. Depois do 25 de Abril reapareceu e hoje é um grande político. Mas confesso que, por vezes, era preciso dar uns calores.

JA - A PIDE tinha infiltrados nos movimentos de libertação?

OC - Sim, nós tínhamos e eles também tinham pessoas infiltradas nos nossos serviços.

JA - Depois do 25 de Abril foi julgado em Tribunal Militar?

OC - Fui julgado e no meu processo pessoal constavam relevantes serviços prestados à pátria, no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Apanhei dois meses de prisão por não me ter apresentado semanalmente no posto da GNR, como tinha sido determinado pelo Tribunal civil. Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril soube que a UNITA tinha torturado e assassinado o Soba Matias no Cuando Cubango. Fiquei em choque. Ele era um valioso combatente ao serviço de Portugal.

JA - Quem era o Soba Matias?

OC - Um grande homem. Um dia foi ter comigo ao posto da PIDE em Serpa Pinto (Menongue) e disse que andavam homens da UNITA a fazer mal ao povo. Pediu-me oito armas para ir apanhá-los. Confiei nele e entreguei-lhe as armas. Apanhou os guerrilheiros da UNITA. Desde então, foi um combatente extraordinário. Depois do 25 de Abril os homens da UNITA foram à sua aldeia e mandaram-no arriar a bandeira portuguesa. Ele recusou. Torturaram-no até à morte e esquartejaram-no para servir de exemplo ao povo. Foi terrível.

JA - Mesmo sabendo disso, foi trabalhar com Savimbi na África do Sul?

OC - Eu tive de fugir de Portugal. Passei 730 dias preso em Peniche e quando saí em liberdade condicional, participei em algumas operações do ELP e do MDLP. Fui denunciado e os revolucionários queriam prender-me outra vez. Quando o autocarro se atrasa 15 minutos ficamos logo nervosos. Eu passei 730 dias da minha vida no Forte de Peniche. Não queria ficar preso nem mais um minuto. Contactei os meus amigos da Rodésia e fui para lá. Saí de Portugal clandestinamente e em Madrid os meus amigos do MDLP arranjaram-me um passaporte. Eles tinham muitos passaportes, em branco. Tive que arranjar um nome falso.

JA - Como passou a chamar-se?

OC - Rogério Ramon Pinto de Castro. Cada nome destes correspondia ao meu pseudónimo nas organizações a que pertencia: Exército de Libertação de Portugal (ELP), Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), Frente de Libertação dos Açores (FLA) e Frente de Libertação da Madeira (FLAMA). Preenchemos o passaporte e um amigo fez um carimbo com uma batata para parecer verdadeiro. Assim embarquei para Salisbúria (actual Harare, capital do Zimbabwe).

JA - Em Portugal participou nos atentados do MDLP e do ELP?

OC - Ajudei a fazer atentados. Mas só atacámos as sedes do Partido Comunista. Ainda tentámos salvar Portugal, mas quando precisámos de um presidente, o general Spínola fugiu para Espanha. Percebi logo que aquilo não ia dar nada.

JA - António Spínola não era o vosso chefe?

OC - Nunca foi. O ELP foi fundado pelo coronel Santos e Castro. O MDLP foi criado pelo comandante Alpoim Calvão. A FLAMA tinha pouco peso e a FLA não ia a lado nenhum. A CIA pediu-me para ir aos Açores ver se havia possibilidades da independência do arquipélago. Mas isso só era possível se derrotássemos os comunistas. Moscovo estava por trás do 25 de Abril. Eles queriam Portugal na órbita comunista por causa das colónias. Mas percebi logo que não íamos a lado nenhum. Então decidi oferecer os meus préstimos à Rodésia.

JA - Trabalhou com a CIA?

OC - Sim, trabalhei, mas só depois do 25 de Abril. Fui aos Açores ver se havia possibilidade de declarar a independência do arquipélago. Os meus contactos foram muito importantes, mais tarde. O meu amigo Daniel Chipenda foi abandonado pelos americanos depois da independência de Angola e eu meti-o na CIA.

JA - Antes de irmos à Rodésia: qual foi o papel de Mário Soares no Verão Quente?

OC - Serviu-se de nós. Ele queria poder a todo o custo. Apoiou os operacionais do ELP e do MDLP, trabalhou com a CIA, fez tudo o que Carlucci lhe mandou fazer. Quando conseguiu o que queria, abandonou os amigos. É muito parecido com o Savimbi. Por isso, sou capaz de me sentar à mesa com todos, menos com os socialistas.

JA - Qual foi o seu papel na Rodésia de Ian Smith?

OC - Organizei as forças especiais, para enfrentarem os guerrilheiros da ZANU. Eu ganhei muita experiência em Angola e acabei por criar “Flechas” na Rodésia. Um ano depois, fui-me embora. Eles tratavam-me como se fosse um criado. Nunca fui tão maltratado. Meti-me num avião e aterrei em Joanesburgo. Viram o apelido Castro no meu passaporte, o meu rosto barbudo e disseram que era um espião cubano. Pedi um rand para telefonar ao brigadeiro Ben Roos. Recusaram. Ofereci dez dólares rodesianos por um rand. Nada. Depois veio um oficial, ouviu a minha história e deu-me um rand para telefonar. Falei com o brigadeiro e ele mandou logo os seus homens tirar-me do aeroporto.

JA - Foi assim que ficou a trabalhar com os sul-africanos?

OC - A minha ideia era essa. Ben Roos disse-me que a África do Sul estava a preparar a batalha final contra Angola e que iam ganhar. Convidou-me para ser o oficial superior de ligação com os homens da UNITA e do Batalhão Búfalo. Aceitei. Mas alertei imediatamente o brigadeiro para a personalidade do Savimbi. Ele já sabia tudo. Foi assim que fui parar a Oshakati, onde montei o comando. E comecei a trabalhar com o pessoal da UNITA.

JA - Quem era o seu contacto?

OC - Era o senhor Isaías Samakuva, um homem muito apagado e extremamente limitado. Tinha pouco rasgo. Não é fácil trabalhar com pessoas que não percebem nada do que lhes dizemos. Expliquei-lhe que a África do Sul queria que a UNITA servisse de tampão aos avanços da SWAPO. Mas o Savimbi tinha-lhe dito que a UNITA estava a lutar contra os cubanos e os russos e ele repetia esse discurso por tudo e por nada. Mas não tomava qualquer decisão. 

JA - Nessa altura falou com Jonas Savimbi?

OC - Muitas vezes. Mas ele nada tinha a ver com as operações, os sul-africanos não lhe davam confiança para isso. Em Oshakati e no Rundu só tratávamos de inteligência, de operações militares e de sabotagens. O Savimbi era o político, nada tinha a ver com estas coisas. A base militar principal era na Jamba. Os sul-africanos e os americanos criaram ali aquela estrutura, grande em qualquer parte do mundo. Lá nada faltava. Mas eu estava mais ligado à inteligência e às operações. No início, o objectivo era travar a SWAPO. O Savimbi aceitou as regras, mas cedo mostrou que o seu único pensamento estava no combate ao MPLA para um dia chegar ao poder em Angola. Além de traiçoeiro, ele era de uma ambição sem limites.

JA - Qual era a sua missão?

OC - Fazia tudo. Vezes sem conta fui levar armas e munições à fronteira. Transportei dezenas de feridos. Eles eram retirados de Angola em bicicletas e chegavam à fronteira num estado lastimável. Quase sempre tinham que ser mandados para o Rundu. Quando o Hospital de Ondângua não respondia à gravidade dos feridos, iam para Pretória, para o Hospital Voortekerhoogte. Ali os serviços secretos criaram uma área só para o pessoal da UNITA. Ninguém tinha acesso a essa zona. Médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio eram todos credenciados pelos serviços secretos.

JA - A UNITA usava armas sul-africanas?

OC - Nem pensar. A África do Sul não podia arriscar tanto. Montámos um esquema perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões carregados de material. Nesta altura, também estava activo o Batalhão Búfalo, treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por todos.

JA - Na Jamba encontrou aqueles políticos portugueses que iam ver Savimbi?

OC - A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases. Os portugueses iam mais para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos à UNITA.

JA - Sabe o que aconteceu com o avião de João Soares?

OC - Claro que sei. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto, comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado. Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido. A minha mulher foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer exames de Raios X. Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis.

JA - Como soube que um dos feridos era João Soares?

OC - A minha mulher soube que os feridos eram todos portugueses. No dia seguinte já encontrou no hospital a mãe e a esposa de João Soares. Ele estava gravemente ferido. O nosso amigo Augusto, também. O tráfico de diamantes e de marfim daquela vez correu mal.

JA - João Soares diz que isso é invenção do Jornal de Angola.

OC - O avião estava cheio de marfim e diamantes. Perguntem ao nosso amigo Augusto, que ele confirma tudo. A UNITA roubava os diamantes em Angola e matava os elefantes. Depois os amigos iam à Jamba buscar o material.

JA - É verdade que os sul-africanos pediram a Mário Soares apoio à UNITA, em troca de lhe salvarem o filho?

OC - Desconheço. O Mário Soares não foi à África do Sul ver o filho ao hospital. Maria Barroso esteve lá muitos dias. A esposa de João Soares também. É uma situação interessante. Eu trabalhava com os sul-africanos na ligação com a UNITA. E Mário Soares apoiava a UNITA em Portugal. Estávamos unidos no mesmo objectivo. Mas para mim, esse homem foi o que de pior aconteceu à minha querida pátria.

JA - Pertencia às Forças Armadas Sul-Africanas?

OC - Trabalhei sempre com a inteligência militar. E sou coronel na reforma da Força Aérea da África do Sul. Fui condecorado. Quando chegou a altura de ir para casa perguntaram-me se queria uma pensão mensal ou se queria receber tudo de uma vez. Preferi o dinheiro todo. Deram-me 100.000 euros. Fui muito bem tratado na África do Sul. Participei nas negociações que conduziram à retirada das nossas tropas de Angola.

JA - Como oficial das forças sul-africanas?

OC - Sim, nessa condição. Era perito em inteligência militar. Reuni-me com os oficiais angolanos e tratámo-nos todos com respeito. Do lado angolano estava gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de reconhecer que foram heroicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém. São os vencedores.

JA - Tem alguma pensão do Estado Português?

OC - Tenho uma pensão, porque servi Portugal no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Fui condecorado e louvado. Mas agora andam a cortar-me a pensão. Estou muito triste com o presente de Portugal e apreensivo quanto ao futuro. Há demasiada corrupção. Deve ser o país mais corrupto do mundo. Depois as manobras do super capitalismo estão a lançar as pessoas na pobreza.

*Jornalista

à(s) agosto 09, 2022 

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domingo, 13 de março de 2016

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir

17/01/09



Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos... 


Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à“Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
 


“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.” 

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.

Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro”e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte”também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).

 


O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.

Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.

De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.

Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.

 


A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.

Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).

Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”. 

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.

Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.

Publicada por Alexa à(s) 20:06 

http://mercadodebemfica.blogspot.pt/2009/01/livrarte-40-anos-resistir.

António Cotrim - 50 anos depois, Livraria Espaço Ulmeiro em risco de fechar

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A livraria Espaço Ulmeiro, em Lisboa, corre o risco de encerrar, ao fim de quase 50 anos de atividade, e tenta agora os últimos esforços para reverter a situação, realizando esta semana uma feira do livro.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA

 A livraria Espaço Ulmeiro, em Lisboa, corre o risco de encerrar, ao fim de quase 50 anos de atividade, e tenta agora os últimos esforços para reverter a situação, realizando esta semana uma feira do livro.

José Antunes Ribeiro, fundador da editora Ulmeiro e da livraria que mantém desde 1969, no bairro de Benfica, impôs a si próprio uma decisão, até ao começo da primavera, porque são mais as despesas do que as receitas e os clientes não abundam. É tudo uma questão de dinheiro.
Os últimos quatro anos foram absolutamente desastrosos. Quando a classe média perdeu poder de compra, aquilo que já era difícil tornou-se insustentável”. E a isso juntou-se o aumento das rendas, contou o livreiro, em entrevista à agência Lusa, no espaço Ulmeiro.
Muitos dos livros estarão com preços reduzidos, a partir desta semana, para reunir as verbas que talvez evitem um encerramento definitivo da livraria.
Sou de origem camponesa, não tenho muito esse feitio de estender a mão. Não gosto, não está no meu caráter. Há pessoal que me tem dito ‘fazemos isto e aquilo’. Eu jamais aceitaria qualquer coisa do estilo de esmola. A única coisa que estamos disponíveis é para vender barato. Isso não me importo, para ajudar a resolver o problema”, contou.
Há cerca de um ano, José Antunes Ribeiro começou a fazer leilões dos livros através do Facebook, para espevitar as vendas e divulgar a livraria. Se o Espaço Ulmeiro fechar portas, o livreiro manterá os leilões. “Hei de encontrar um cantinho em qualquer lado, de preferência sem renda, porque foram as rendas que me tramaram”.
José Antunes Ribeiro passa grande parte dos dias na livraria, acompanhado da mulher, Lúcia, e de Salvador, um gato de pelo ruivo que se passeia entre livros e dormita na montra. Aos três juntam-se mais de 200.000 livros e publicações, repartidos por dois pisos.
No fundo da livraria, atrás de um muro de livros, José Antunes Ribeiro ocupa-se dos leilões e da gestão do espaço, enquanto Lúcia organiza, põe e dispõe os livros. O gato tem um papel fundamental, diz José Antunes Ribeiro, é “o diretor de marketing”, que faz com que muita gente pare na livraria.
José Antunes Ribeiro, nascido em 1942 numa aldeia perto de Ourém, passou pelas edições Itaú, pela livraria Obelisco, fundou a editora Ulmeiro e depois a Assírio & Alvim, escreveu para o Diário de Lisboa e para O Tempo e o Modo. Se o Espaço Ulmeiro tem 47 anos, José Antunes Ribeiro já soma mais de 50 anos ligado aos livros.
Um puto que nasceu numa aldeia onde não se lia, como era o meu caso, numa casa onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas [itinerantes] da Fundação Gulbenkian e teve uma professora primária, que teve uma influência enorme, opta por ir para Lisboa para ser livreiro, editor. E assim foi”, resumiu.
A editora Ulmeiro está praticamente inativa – recentemente foi reeditado o primeiro título, “Isto anda tudo ligado”, de Eduardo Guerra Carneiro -, e a livraria de Benfica foi-se especializando em alfarrabista.
José Antunes Ribeiro recorda, com saudade, os tempos em que se faziam projeções de cinema para crianças, em que havia um clube juvenil “com cartão e tudo”, e sessões de poesia e de música. Por lá passaram Agostinho da Silva, editado pela Ulmeiro, José Afonso, Carlos Paredes, António Lobo Antunes.
Foi uma editora e uma livraria de resistência, no final do Estado Novo, onde foram apreendidos milhares de livros. “Houve as conspiratas, [estive] ligado a algumas iniciativas dos católicos progressistas; assinei o manifesto contra a guerra colonial, pela liberdade de expressão, em 1972”, contou.
A PIDE nunca foi… Era, evidentemente, um obstáculo, uma chatice. Mas não foi pela PIDE. Na altura até se vendiam mais livros [risos], havia aquela coisa dos livros que as pessoas sabiam que nós tínhamos. A PIDE nunca descobriu coisas várias. O esconderijo onde tínhamos livros nunca foi descoberto”, afirmou José Antunes Ribeiro.
Em meio século, José Antunes Ribeiro faz um “mea culpa” a propósito das fragilidades financeiras da livraria e fala em várias metamorfoses do negócio livreiro, da própria Ulmeiro e da dinâmica de vida do bairro.
“Eu não estou a ver muito bem o dia em que eu desço e afinal não tenho a chave da porta, e afinal a luz está apagada. Vai ser um choque maior para mim. E, para esta avenida [avenida do Uruguai], é uma perda que esta livraria vá por água abaixo”, lamentou.
Texto de Agência Lusa.

Lucinda Canelas - Os livros não têm prazo de validade

A vida da Livrarte e da Ulmeiro confunde-se com a de José Antunes Ribeiro há quase 50 anos. Entramos nesta livraria/editora de Lisboa que corre o risco de fechar à procura dos seus autores e encontramos um bocadinho da história do país. Os livros ainda podem ser uma forma de resistir.

 Há milhares de livros por toda a parte, em estantes, amontoados em balcões estreitos e cadeiras ou empilhados no chão. Pelo meio há vinis, pinturas, desenhos emoldurados, vidros decorativos e outros objectosvintage, a lembrar que a Livrarte não é só uma livraria e não é, sobretudo, uma livraria qualquer. Quem quer chegar às prateleiras da “Arte”, onde é possível encontrar grande álbuns de pintura francesa, roteiros muito antigos do Louvre e de Arte Antiga e biografias de El Greco, Fragonard ou Delacroix, precisa de contornar uma mesa com ficção portuguesa e estrangeira, uma mala de viagem em cartão, e caixotes e caixotes de livros de bolso e revistas dos anos 1960 e 70. Um pequeno labirinto que deixará a muitos saudades se as portas deste espaço no bairro de Benfica, em Lisboa, abertas há quase 50 anos, vierem a fechar. 
José Antunes Ribeiro, o proprietário e editor da Ulmeiro (as duas casas confundem-se, sempre se confundiram), tudo fará para que esta livraria, misto de loja de “coisas antigas” e alfarrabista, se mantenha em actividade. E isso passa por dar entrevistas a jornais e revistas, por receber “clientes ilustres” como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o poeta e crítico Pedro Mexia ou o humorista Ricardo Araújo Pereira, e por atender os “amigos de sempre”, que nunca deixam de aparecer para comprar livros. Isso passa, inclusive, por reuniões com o ministro da Cultura, João Soares, com quem ficou de voltar a conversar sobre eventuais apoios aos livreiros independentes.
“O negócio mudou muito nos últimos tempos e os portugueses perderam poder de compra, o que não é novidade para ninguém. Aquilo que já era difícil de segurar tornou-se nos últimos três, quatro anos, impossível de manter”, diz ao PÚBLICO, numa tarde de semana em que são muitos os que entram na loja, de estudantes africanos de Economia a professores de Direito que procuram poesia, passando pela Carminho e a avó, que vêm à procura de Salvador, o grande gato ruivo que costuma dormir na montra. “Esta é uma livraria de bairro que se orgulha muito de ser uma livraria de bairro. Muitos dos que entram na porta são nossos vizinhos, nossos amigos”, assume José Antunes Ribeiro, garantindo que naquele espaço “os livros não são coisa sagrada” que só se visita às vezes.
“Para muitas pessoas parece que o livro está numa espécie de capela onde só entram os fiéis, os eleitos. E a pensar assim não vamos lá. O livro tem de ser uma coisa que nos faz falta no dia-a-dia, é preciso dessacralizá-lo, dinamizar o acesso, baixar os preços. É preciso mostrar que os livros não mordem e não têm prazo de validade. Temos a vida toda para ler um grande romance ou um grande poeta.”
Foi no início de Fevereiro que se tornou pública a difícil situação da Livrarte, indissociável da Ulmeiro, e desde aí as manifestações de apoio têm-se sucedido, na Internet e fora dela. Pessoas do Algarve e do Alentejo que nunca tinham estado na livraria deslocaram-se de propósito a Lisboa para as feiras que o editor tem organizado – não foi só Marcelo Rebelo de Sousa que comprou dezenas de livros, embora seja bem provável que só o chefe de Estado tenha juntado num mesmo lote antigos volumes de Direito Constitucional, folhetos políticos dos anos 1960 e 70 e clássicos juvenis intemporais de Enid Blyton – e até a Câmara de Lisboa já enviou um técnico para tentar perceber como se pode associar aos esforços para salvar aquele espaço ou, pelo menos, o que ele representa, diz José Antunes Ribeiro.
Na análise da situação a que a Livrarte chegou, o editor não poupa críticas à sua própria gestão nem à forma como os pequenos livreiros, “os poucos independentes que ainda restam”, trabalham: “Eu não sou o último dos livreiros, sou apenas um dos últimos. E o que vejo é que, mesmo sendo uma comunidade pequenina, cada um cultiva o seu quintal, sem olhar para os outros, o que não ajuda. Numa altura em que os livros praticamente desapareceram das televisões, em que já não há suplementos especializados nos jornais, e em que nós não temos dinheiro para anunciar como fazem os grandes conglomerados de editoras, temos de nos juntar para criar um circuito alternativo.”
Desse circuito alternativo fariam parte, por exemplo, feiras espalhadas pelo país – “há tanta pequena cidade que não tem uma livraria…” –, com livros “a bons preços”, que poderiam incluir leituras com os autores e concertos. “Tenho a certeza de que cada um dos milhares de livros que aqui estão têm no mundo um interessado. Tenho a certeza de que com livrarias e editores independentes teremos um mercado do livro que arrisca mais.”
Uma casa sem livros
José Antunes Ribeiro tem 73 anos e uma vida dedicada aos livros, com uma passagem breve pela propaganda médica, “um engano” que só teve a vantagem de lhe trazer um amigo, o compositor e guitarrista Carlos Paredes. A escolha de carreira, reconhece, não foi a mais óbvia para quem nasceu numa aldeia entre Tomar e Ourém, numa casa muito humilde, educado por uma mãe austera de fortes convicções religiosas, que o obrigava a rezar o terço todos os dias e que não sabia ler. “O meu pai, que trabalhava para a CP, lia alguma coisa, mas nós só tínhamos três livros lá em casa: um com uma ida à lua, que naquela altura só podia ser ficção, outro do Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra, e um outro, que nunca compreenderei como lá foi parar de tão erudito, Décadas da Ásia, de João de Barros [considerado um dos primeiros historiadores portugueses, nascido ainda no século XV]. O do Júlio Verne, claro, era o meu favorito.”

Foi graças à professora Maria dos Anjos e às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que apareciam na aldeia de Alburitel de 15 em 15 dias, que se apaixonou pela leitura. “Ficava à espera que a carrinha da Gulbenkian chegasse a saltava logo lá para dentro. Eles traziam livros de propósito para mim e tudo.”
O percurso nos livros começou na livraria Obelisco, na Amadora, e passou também pela fundação da Assírio & Alvim, no início da década de 1970, embora hoje o seu nome nem sempre apareça associado à história desta editora que tanto tem feito pela divulgação dos grandes nomes da poesia portuguesa e que desde 2012 integra o Grupo Porto Editora.
“No começo, a Assírio era uma editora muito contestatária”, diz, recordando que os primeiros comunicados que saíram da intersindical foram lá impressos. A contestação era, aliás, algo que partilhava com a Ulmeiro, que José Antunes Ribeiro cria em 1970. A edição, diz, via-a – parece vê-la ainda – como uma forma de militância.
Assumindo-se como um homem claramente de esquerda, nunca foi filiado em partido algum, mas sempre deixou claras as suas convicções, assinando em 1965, por exemplo, o manifesto contra a guerra colonial, em que o grupo dos chamados católicos progressistas, de que também faziam parte Nuno Teotónio Pereira, João Bénard da Costa ou Luís Salgado de Matos, denunciavam a cumplicidade entre a Igreja e o regime no que dizia respeito à guerra em África.
Por isso a Livrarte, que começou por ser o Espaço Ulmeiro, foi, desde que abriu, em 1969, um território de debate e de encontro entre escritores, artistas, poetas, críticos e outros intelectuais que se opunham ao Estado Novo. Nas suas tertúlias, onde se podiam encontrar músicos como Carlos Paredes, José Afonso e Vitorino, autores como Luiz Pacheco e Agostinho da Silva, discutia-se política “sem limitações”, conta.
A sua aposta na edição – “a militância contra a guerra colonial orientou muitas das escolhas”, diz – passava por autores africanos que considerava fundamentais para pensar a relação Europa-África, numa altura em que o governo português insistia “na ideia de um império ultramarino, contra tudo e contra todos”.
Esta atitude de resistência fazia com que, no final dos anos 1960, início dos 70, a PIDE, a polícia política do Estado Novo, entrasse com frequência na Ulmeiro e levasse edições inteiras, muitas vezes sem sequer um auto de apreensão. “Era uma coisa completamente abusiva e sem critérios minimamente lógicos. Eu costumava dizer que a trindade era sempre a mesma – Lenine, Estaline e Racine”, brinca José Antunes Ribeiro, garantindo que a terminação dos nomes dos autores e os títulos das obras, por mais inócuo que fosse o seu conteúdo, contava muito. A prová-lo, exemplifica, estão dois dos livros que a polícia do regime apreendeu: A Vida de Nijinsky e O Betão Armado. “Podia ser um livro técnico, de Engenharia, mas tinha 'armado' no título. E, para eles, o Nijinsky [bailarino e coreógrafo russo de origem polaca que foi um dos maiores e mais trágicos nomes da dança do século XX] só poderia ser um perigoso comunista, assim como o Racine [poeta e dramaturgo francês do século XVII]. A censura não olhava para o que lá estava escrito.”
Nesses anos, explica, a Ulmeiro era relevante em termos de “resistência e contestação” pelo que editava, mas também pelo que distribuía na língua original, sobretudo no que toca à literatura em castelhano, de autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar.
Em tribunal por um livro
José Antunes Ribeiro, que colaborara com jornais e revistas como oComércio do Funchal, O Tempo e o Modo e O Diário de Lisboa,publica o primeiro livro na Ulmeiro em Janeiro de 1970. Isto Anda Tudo Ligado, do jornalista e poeta Eduardo Guerra Carneiro, foi o título inicial da colecção Cadernos Peninsulares, que haveria de continuar com A Poesia Deve Ser Feita por Todos, obra de Carlos Loures que viria a figurar na extensa lista de obras da editora que foram apreendidas.

Entre os livros que editava e os que vendia na livraria, títulos houve, no entanto, que a PIDE terá considerado como ainda mais desafiadores do regime e dos seus valores, como Portugal Sem Salazar, de Mário Mesquita, O Casamento dos Padres, do padre Felicidade Alves, eAntologia das Mulheres-Poetas Portuguesas, organizada pelo também poeta António Salvado, que neste volume tinha a “veleidade” de mostrar, diz José Antunes Ribeiro, “que o lugar da mulher portuguesa não era a cozinha, ao contrário do que defendia o Estado Novo”.
A polícia chegava a levar 2500 livros, o que acaba por afectar economicamente a editora, recorda. “Queriam acabar com a editora e a livraria. E depois levavam-me também. A minha mulher ficava em pânico, mas a conversa era sempre a mesma: ‘Você é um comunista disfarçado de comerciante’, diziam-me eles.” Numa das vezes, “só para desafiar”, recusou-se a assinar o relatório da sua detenção, justificando-se com o facto de o português em que estava escrito ser mau de mais.
As apreensões foram muitas, mas nenhum dos livros da Ulmeiro, ou por ela distribuídos, teve tanta exposição mediática como o que levou o editor a tribunal militar. E já no pós-25 de Abril. Massacres na Guerra Colonial: Tete, um exemplo, volume com organização, introdução e notas de José Amaro, poeta e jornalista, foi publicado em 1976 e reúne um conjunto de documentos marcados como “secretos” e que dizem respeito a operações das tropas portuguesas na província de Tete, na região central de Moçambique, em Dezembro de 1972. Massacres “desde sempre negados e dissimulados pelo Governo português”, lê-se nas primeiras páginas, e que deixaram para trás centenas de mortos, muitos deles mulheres e crianças.
“Ainda hoje me orgulho de ter editado esse livro. Ainda hoje me lembro bem de algumas passagens dos relatórios dos padres que deram conta dos massacres, da crueldade dos militares… É muito difícil esquecer as imagens que esses relatórios nos obrigam a criar na nossa cabeça”, acrescenta José Antunes Ribeiro, lembrando que o processo em tribunal acabou com ele amnistiado porque o que era preciso, diz, era tirar o livro e o que nele se mostrava das páginas dos jornais. “A imprensa pegava muito naquilo para responsabilizar os militares que tinham sido coniventes com o regime e o que interessava era calar-nos. Irritado, na altura, eu cheguei a dizer que queria ser absolvido ou condenado – que uma amnistia não era nada.”
Teotónio Pereira e frei Bento Domingues estavam entre as suas testemunhas de defesa, num julgamento que foi militar porque os documentos que a edição reproduzia deviam ter permanecido secretos. “Ainda hoje há muita coisa por discutir dessa guerra”, defende, com o espírito inquieto e insatisfeito que diz ser uma das marcas da sua personalidade. “Mas se calhar há quem ainda não esteja pronto para essa discussão.”
A Ulmeiro continua
Só “dentro de uma ou duas semanas” é que José Antunes Ribeiro saberá se tem condições para manter a livraria aberta em Benfica. Tem propostas para a levar para outras paragens, mas preferia ficar no bairro. Para já, a única certeza é a de que a editora, que publicou o seu título mais recente há já cerca de seis anos, vai continuar. Com ela gostaria de publicar ainda alguns dos seus autores de sempre, como Antero de Quental, Hélia Correia, Marguerite Duras e Ruy Belo.

Para fazer um bom livro, diz, o escritor não precisa de ter apenas uma boa história – “os melhores livros não têm só uma história, têm muitas, mesmo quando não parece” –, precisa de dominar a sua gramática, que não é só a da língua. O que é a gramática do livro? “Uma série de recursos, de conhecimentos, que o autor vai sedimentando depois de ter lido muitos outros. Não conheço nenhum grande escritor que não seja um grande leitor.”
Para já, José Antunes Ribeiro tem praticamente pronta uma nova revista, dirigida pelo poeta e pintor Hugo Beja, “homem de ciência que Portugal infelizmente não conhece como devia”, e que reúne poesia, conto, ensaio e desenho, tendo neste primeiro número colaboradores como Lídia Martinez, Juan Carlos Mestre, António Serra e Mário Rui Cordeiro.
Esta publicação, cujo lançamento não está ainda marcado, vai chamar-se O Voo da Coruja, a lembrar uma casa no meio da floresta, onde durante mais de 20 anos José Antunes Ribeiro criou estas rapinas que, diz ele, não se podem domesticar. “São como eu, sempre inquietas.” 
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