Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Ana Sá Lopes - Está em causa o normal funcionamento da democracia
segunda-feira, 13 de maio de 2024
Marta Martins Silva entrevista Óscar Cardoso, da PIDE/DGS
28 de Abril de 2024
Se estiver na rua e alguém disser
"inspector" ainda se vira?
Sim. Muitas pessoas tratam-me
assim.
Incomoda-o que definam a sua vida
pelos dez anos na PIDE-DGS?
Foram os anos mais felizes da minha
vida. Pelo contrário, tenho muito orgulho nisso.
Lembra-se da primeira vez em que
teve noção do que era a PIDE?
Diziam que eram uns tipos muito
duros. Mas como nunca me meti em manifestações não tive preocupação de saber.
Depois do Exército servi na Guarda Republicana. Surgiu a oportunidade de
ingressar na PIDE num quadro permanente de oficial miliciano. O futuro era
mandarem-me embora quando não precisassem de mim.
Que funções desempenhou antes de ir
para Angola?
Fui colocado na investigação.
Conheci pessoas extraordinárias, nomeadamente José Barreto Sachetti, meu
primeiro director. Vi como se faz um interrogatório, e depois estagiei nos
vários serviços.
Há o mito de que se usava o método
de interrogatório 'PIDE bom, PIDE mau'...
Isso até existe nos livros da
Agatha Christie. Há sempre um mau e um bom.
E era o bom ou o mau?
Normalmente não interrogava.
Assistia e coordenava. O meu papel era de inspector, que instruía o processo, e
os chefes de brigada é que faziam os interrogatórios.
Muitas pessoas dizem que foram
torturadas na PIDE.
Todos dizem que foram.
Nega que tenha havido tortura?
Nego. Estavam horas em pé até
dizerem a verdade. Isso não era muito agradável, mas não havia tortura física.
Sob palavra de honra: nunca vi torturar ninguém. Mas também devo dizer que o
pavor que eles criaram sobre a PIDE facilitava o trabalho. Ficavam tão
aterrorizados que contavam a história toda desde pequeninos. Só que quando
vinham cá para fora tinham de dizer que foram torturados.
Quando foi para Angola levava
directrizes de Lisboa para criar os Flechas?
Não. Vigorava lá a teoria de, com a
Rodésia, África do Sul e Moçambique, constituir uma confederação
antiterrorista. Em Portugal sabia-se disso e em Luanda havia um director muito
inteligente que estaria dentro do complô, onde Angola se afastaria de Portugal.
Disseram-me para ir lá ver o que se passava. Fui com essa missão, mas a versão
oficial da transferência foi aplicar os conhecimentos de guerrilha num sítio
onde havia. O director São José Lopes apercebeu-se e não me tratou bem. Andei
por Angola toda, e depois pôs-me numa coisa de que não gostava nada: os
Reservados.
Tinha de fazer o quê?
Se alguém precisava de uma licença,
íamos ver os antecedentes. Em Luanda, onde vivia com a minha mulher, conheci o
administrador Manuel Pontes, que passara a maior parte da vida nas terras do
fim do Mundo. Falou-me do paraíso da caça que era o Cuando-Cubango, e de um
povo extraordinário, os bosquímanos, dos quais tinha ouvido falar na cadeira de
Etnografia. Pensei que era interessante aproveitá-los. Propus ao director, que
arranjou uma maneira airosa de se ver livre de mim. Deu-me um Land Rover, e fui
com a minha mulher e com o velhote. Só que o jipe não estava em boas condições.
Se calhar escolheram-vos o Land
Rover pior...
Acredito [risos]. Comecei por
recrutar oito, que pareciam múmias, deste tamanho [faz um gesto equivalente a
metro e meio], e usavam arcos e flechas. Fizeram uma razia em acampamentos dos
‘turras’. Usavam flechas envenenadas, em arcos pequeninos. Quem apanhava uma
flechada daquelas não tinha chance nenhuma. Começámos os flechas bosquímanos,
com muito sucesso. Nas terras em que não há nada, descobriam água e o que
comer. Raramente traziam alguém vivo, mas limpavam o terreno.
Foram usados contra missões que
davam apoio a independentistas?
Que eu saiba, a única pessoa que
fez isso fui eu, duas vezes. À missão de Xamavera, de padres franceses que
davam apoio logístico aos bandidos, mandámos uns que não eram bosquímanos,
fardados com camuflados da UNITA. Beberam a garrafeira, deram palmadas, mas não
mataram ninguém. Foram-se embora. A outra foi numa missão da Catota, no Bié, da
qual enviavam relatórios para a CIA. Foram lá uns tipos e o missionário
resolveu partir.
Nessa altura também ficou a
conhecer Jonas Savimbi.
Sim.
Que impressão tinha dele?
A pior. Era o mais traiçoeiro.
Entendeu-se dar apoio à UNITA, com o compromisso de fazer tampão ao MPLA, e o
Savimbi ficou malvisto com os países africanos. Houve uma altura em que foi
preciso fazer um contacto na mata, no Moxico. Eu representava Portugal e da
parte deles seria o próprio Savimbi. Fomos ao local, num helicóptero
sul-africano, e apareceu-nos um preto de tanga. Mas com brilhantina no cabelo.
Não combinava muito...
E tinha unhas mais bem tratadas do
que as minhas. Não gostei quando ele disse que o encontro era mais adiante.
Avançámos 50 metros, mas voltámos para o helicóptero, para sobrevoar a zona. O
piloto disse que não tinha combustível, e fomos à base encher o depósito. No
regresso, chovia torrencialmente. Decidi que voltávamos na manhã seguinte. À
noite, o nosso radiotelegrafista, que estava no acampamento da UNITA, comunicou
que havia notícias de que os Flechas tinham sido massacrados. Disse-lhe para
destruir o rádio e meter-se num buraco. De manhã começámos a ver corpos dos
Flechas cortados aos bocados. A operação estava feita para o Savimbi se lavar
perante os africanos.
Os Flechas não resultaram em
Moçambique?
Aquilo estava tão bem feito que nem
o director provincial de Moçambique sabia. Disse-me assim: "Não precisamos
de flechas, não queremos flechas e temos raiva a quem quer. Portanto, a partir
de agora, considere-se turista". Acabei por voltar para Angola e depois
para Portugal, onde apanhei o 25 de Abril e fiquei 733 dias preso.
Onde é que esteve preso?
Caxias, Peniche e Alcoentre.
Pensou que podia morrer?
Tinham a amabilidade de nos dizer
em Peniche que nos iam fuzilar. Também tive um plano de fuga. Consegui que a
minha mulher me trouxesse uma granada e andei semanas com aquilo junto ao
braço. No dia de ir à consulta externa de otorrino, meteram-me no Mercedes,
abriu-se o portão e quando olhei pelo retrovisor tinha um Unimog atrás, com uma
metralhadora e uma secção de atiradores. Não tinha chance nenhuma.
Quando é que foi julgado?
Estava em Alcoentre quando fizeram
a acareação. Fui acusado de torturar um homem, mas eis um pormenor: quando ele
disse que eu ia torturá-lo à cela, comandava uma companhia nos Açores e ainda
não estava na PIDE. Outro era um lingrinhas, que me acusou de, com 50 homens,
lhe ter dado uma surra. Bastava um para dar cabo dele.
Qual foi a primeira coisa que fez
ao ser libertado?
Fui ter com os meus pais, a minha
mulher e os meus filhos. Depois tentei arranjar emprego. Andei a vender
margarina, mas não era o meu estilo. Tinha de me apresentar no posto de Oeiras,
de 15 em 15 dias, e o sargento avisou que tinha lá um mandado de captura com o
meu nome.
A que se devia o mandado?
Punham-se bombinhas nas sedes
comunistas e eu ia a Badajoz buscar material para as fazer. Houve um tipo que
estava a fabricar um dispositivo em casa, fez aquilo mal e ia ficando sem um
pé. Foi para o hospital e começou a falar, sob efeito da anestesia.
Eram acções do ELP ou do MDLP?
Do ELP, com o Santos e Castro, com
quem estive num subúrbio de Madrid. Foi lá que fiz o passaporte e apanhei o
avião para a Rodésia
Ainda pensava que Portugal voltaria
à situação anterior?
Estava tão desiludido que pensei
esquecer-me de Portugal. Quando fui para a África do Sul, era ali que queria
ficar, mas entretanto vi o país ceder – e não queria ser preso outra vez.
É procurado por pessoas do seu
passado?
Muitas.
Que lhe querem bem ou que lhe
querem mal?
Uma vez, à entrada desta
propriedade, alguém escreveu "PIDE, vamos-te matar". Tive a tentação
de escrever "venham à hora de almoço que há comida", mas pessoas
daqui caiaram aquilo. Hoje, é aqui que quero viver.
Costuma votar?
De vez em quando voto, para que não
seja um pior a vencer.
Entre os políticos actuais há
alguém que se destaque?
O Rui Rio ou o Paulo Morais. Não
vejo mais, até porque vivo atrás do sol-posto e evito a televisão. As raparigas
do Bloco de Esquerda dizem coisas com piada, mas não vão a lado nenhum.
Oliveira Salazar foi o último
político que respeitou?
Nunca respeitei políticos.
Respeitei Salazar como estadista, e estabeleço a diferença entre uma coisa e
outra.
Se Portugal fosse ainda
pluricontinental teríamos um Presidente ou um primeiro-ministro africanos?
Poderia haver. Mais antiga é a
ideia de Norton de Matos, em que a capital era Nova Lisboa e aqui seria o
escritório na Europa. Era brilhante.
Se não tivesse acontecido o 25 de
Abril chegaria a director-geral da PIDE?
A minha ambição era, quando visse o
terrorismo acabado, ir para o Cuando-Cubango. Arranjava uma fazenda de gado,
vivia lá, com os meus pretos e bosquímanos, e que ninguém me chateasse.
Como é que pensa que irá ser
recordado no futuro?
Um português sem Portugal. Mas não
me preocupo muito com isso.
ENTREVISTA realizada em (2016)
https://www.facebook.com/UniaoNacionalSalazar/posts
domingo, 30 de outubro de 2022
Luís Reis Torgal: - “A ditadura não foi branda, foi um fascismo à portuguesa”
terça-feira, 9 de agosto de 2022
Angola | CRIME E TRAIÇÃO NA ALTERNÂNCIA POLÍTICA – Artur Queiroz
terça-feira, 9 de agosto de 2022
Artur
Queiroz*, Luanda
No ano de 2014 tive a
oportunidade de entrevistar, algures em Portugal, o antigo inspector da
PIDE/DGS Óscar Cardoso, fundador dos Flechas e profundo conhecedor da UNITA de
Jonas Savimbi. Um dia inesquecível. Saí de Luanda no voo da noite e à chegada a
Lisboa liguei o telefone. Encontrei uma mensagem de minha irmã: “Vem que a Mamã
faleceu”. Minha querida Mãe tinha falecido ao fim da tarde do dia em que
parti.
No aeroporto de Lisboa estava à
nossa espera alguém da confiança de Óscar Cardoso, que nos levaria ao local da
entrevista. Face à tragédia, o José Ribeiro quis abortar o trabalho. Recusei.
Fomos ao encontro do entrevistado. Já com tudo concluído (texto mais gravação
de som e imagens) ainda tive tempo de me recolher uns minutos ante o caixão da
Mamã. Não houve tempo para mais, porque tive de seguir logo para o aeroporto e
regressar a Luanda.
Hoje mando o texto da
entrevista que nunca foi para o ar na RNA e na TPA, por razões que
desconheço. Mas saiu no Jornal de Angola. Leiam que vale a pena. Para que todos
saibam qual é a alternância que a UNITA oferece às angolanas e aos angolanos.
O 25 de Abril em Portugal pôs fim
à tenebrosa PIDE que perseguiu e assassinou milhares de lutadores pela
liberdade, mas pouco se sabe para onde foram muitos dos chefes e agentes da
polícia política fascista e colonial portuguesa. Numa quinta algures em
Portugal o Jornal de Angola entrevistou aquele que foi o segundo homem da hierarquia
da PIDE em Angola e que fundou os “Flechas”, Óscar Cardoso.
Diamantes e
Marfim Fizeram Muitos Amigos à UNITA
Óscar Cardoso foi
inspector-adjunto da PIDE/DGS. Era o número dois da organização em Angola.
Nas savanas do Cuando Cubango fundou os Flechas para lutarem contra os
guerrilheiros do MPLA, que ameaçavam levar a guerrilha ao Planalto Central. Em
1976, Óscar Cardoso foi para a Rodésia de Ian Smith onde criou forças especiais
para enfrentar os guerrilheiros da ZANU, comandados por Robert Mugabe. Um ano
depois foi para a África do Sul organizar as forças de Savimbi na guerra contra
Angola. Pela primeira vez, depois da “Revolução dos Cravos” em Portugal e a
extinção formal da polícia política portuguesa, um alto responsável da PIDE
fala do percurso de Savimbi ao serviço de Portugal e do apartheid.
Jornal de Angola - Foi para Angola como militar ou já ao serviço da PIDE?
Óscar Cardoso - Eu era um homem de confiança do regime e a PIDE soube que o
director da polícia em Angola, São José Lopes, estava metido numa conspiração
com a Rodésia e a África do Sul para proclamarem a independência do território.
Com São José Lopes estavam pessoas com grande poder económico na província. Era
preciso travar aquilo. Fui para Luanda com essa missão. Nessa altura já era
inspector.
JA - Conseguiu travar essa conspiração?
OC - A minha missão era secreta, mas São José Lopes soube tudo ainda eu não
tinha desembarcado em Luanda. Por isso, quando cheguei, mandou-me
para o Cuando Cubango alegando que havia movimentos subversivos na região que
era preciso travar. Quis ver-se livre de mim, rapidamente. Na verdade, as
forças do MPLA usavam o norte do Cuando Cubango para se infiltrarem no planalto
central. Eu estudei antropologia na Escola Colonial e interessei-me pelos
khoisan, os chamados bosquímanos. Conheci-os ao vivo. Quanto à conspiração,
eles pararam na altura, mas nunca abandonaram o projecto. Logo a seguir ao 25
de Abril, retomaram-no.
JA - O que concluiu com os seus estudos?
OC - Os bosquímanos foram empurrados para os locais mais inóspitos e por isso
odiavam todos os que não eram da tribo. Verifiquei que eram pisteiros
espantosos. Liam os rastos como nós lemos um livro. Sabiam se as pegadas eram
de homem ou mulher, se iam carregados ou não. Um dia até me disseram que a
pista era de uma mulher grávida. O administrador Amaral Pontes tinha uma grande
paixão pelos bosquímanos. Chamavam-lhe Tata Kun. Um dia decidimos fazer deles
uma força armada no Cuando Cubango. Como as suas armas eram os arcos e flechas,
pus-lhes o nome de “Flechas”.
JA - Como conseguiam enfrentar forças armadas só com arcos e flechas?
OC - As flechas eram armas terríveis. Eles conhecem um tubérculo altamente
venenoso que fica uns dias em infusão. Depois embebem as pontas das
flechas naquele líquido e quando acertam nas presas, elas ficam paralisadas.
Nem os elefantes resistem ao veneno. Os bosquímanos conhecem a noite tão bem
como o dia e atacavam o inimigo quando estava a dormir. Seguiam o lema do
general chinês Sun Tse Wu, que existiu há mais de 3500 anos: sejam mais rápidos
que o vento e tão misteriosos como a mata. Sejam destruidores como o fogo e
silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como
o trovão.
JA - Os Flechas no Leste também eram bosquímanos?
OC – Não. Dado o êxito dos Flechas no Cuando Cubango, decidimos criar unidades
em todos os postos situados no teatro de guerra. Em Gago
Coutinho (Lumbala Nguimbo) foram recrutados os antigos guerrilheiros que
se entregaram ou foram feitos prisioneiros. Depois também recebemos um grande
reforço dos guerrilheiros da UNITA comandados pelo major Sachilombo, formado na
academia militar de Nankin e que na época era o número dois da UNITA.
JA - A UNITA foi criada pela PIDE?
OC - Não, a UNITA foi criada pelo Savimbi e mais alguns companheiros, que
receberam treino político e militar na China. Nós conhecíamos o perfil de todos
e quando se instalaram na Frente Leste fomos estabelecendo contactos. Eles
estavam a ser muito úteis, porque combatiam as forças do MPLA. Mas depois infiltraram-se
na zona do Munhango e começaram a incomodar a actividade dos madeireiros. Nessa
altura fizemos o que qualquer força de inteligência militar faz: estabelecemos
contactos com Savimbi e os seus oficiais.
JA - Está a falar da “Operação Madeira”?
OC- Exactamente. O pessoal da PIDE e do comando da Frente Militar Leste começou
a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Conseguimos resolver o
problema dos madeireiros. Logo nos primeiros contactos verificámos que o
Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt
Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater
ao lado das tropas portuguesas.
JA - Quem fez os contactos com a UNITA no Munhango?
OC - Alguns nomes são públicos, mas eu não vou repeti-los. Por uma questão de
ética só dou eu a cara. E refiro o senhor general Bettencourt Rodrigues porque
ele nunca escondeu o seu papel na Operação Madeira. O Savimbi estava cheio de
vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade.
JA - Savimbi fez alguma exigência para lutar ao lado das tropas portuguesas e
dos Flechas da PIDE?
OC - Fizemos um acordo, ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em
troca armas, apoio logístico e médico. O Savimbi esteve várias vezes internado
no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais
tarde. Recebeu tratamento várias vezes num hospital da África do Sul que tinha
uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA.
JA - Depois da “Operação Madeira” a UNITA fez operações contra a tropa
portuguesa?
OC - Fez algumas, para limpar a imagem. Quando se soube que Savimbi estava do
nosso lado, perdeu prestígio em África. E ele queria mostrar que eram mentiras
para o prejudicar. Fez uma operação que quase me custou a vida. Mas Deus
salvou-me.
JA - Não me diga que Deus estava ao lado da PIDE?
OC - Pensem o que quiserem, mas eu fui salvo por Deus. Quando os comandantes
Sachilombo e Pedro foram para Gago Coutinho, algum tempo depois começaram a
circular notícias que davam a UNITA como uma organização ao serviço da PIDE.
Então o Savimbi, que era muito traiçoeiro, resolveu fazer uma operação para
limpar a imagem negativa. Armou-me uma cilada. Queria matar-me, matar um
coronel da Força Aérea da África do Sul e o major Sachilombo.
JA - O que aconteceu?
OC – O Savimbi mandou dizer que queria enviar um grupo grande de guerrilheiros
para nos ajudar na III e na IV Região do MPLA. Disse que o comandante Nzau Puna
ia comandar esses grupos. Montámos a Operação Viragem e tratámos de todos os
pormenores. O ponto de encontro era perto de Cangamba. Nós mandámos Flechas por
terra em direcção ao local. Eu e o major Sachilombo fomos num helicóptero
sul-africano, pilotado por um coronel. Aterrámos a cinco quilómetros do objectivo,
num pequeno planalto, como estava previamente combinado. Veio ao nosso encontro
um homem andrajoso, mas com as mãos e as unhas bem tratadas. Fiquei desconfiado
com isso.
JA - Retiraram da zona?
OC - Desconfiei e manifestei as minhas desconfianças ao major Sachilombo. Mas
decidimos acompanhar aquela figura estranha. Dois quilómetros à frente,
encontrámos os nossos Flechas. Estavam todos sem armas. Disseram que os
oficiais da UNITA lhes pediram para guardarem as armas porque estávamos numa
operação de amizade e não fazia sentido andarem armados. Fiquei ainda mais
desconfiado. O guia indicou-nos um morro a cerca de dez quilómetros. Era lá que
estavam os homens da UNITA e o Savimbi. Nesse momento o major Sachilonmbo
chamou-me à parte e disse para sairmos imediatamente dali. Dissemos aos homens
para se dispersarem e esperarem a chegada do helicóptero.
JA - Como escaparam?
OC - Partimos apressadamente para o helicóptero e quando levantámos voo pedi ao
piloto para sobrevoar o morro onde estava Savimbi e os seus homens. Mas o
piloto disse que tinha pouco combustível e era melhor regressar a Cangamba para
abastecer. Chegámos a uma hora que já não dava para regressar. No dia seguinte,
ao nascer do sol, partimos para o local. Estava tudo limpo, mas sobre o morro
caía uma chuva torrencial. Não se via nada. Demos algumas voltas até que o
nosso radiotelegrafista em terra nos disse que quase todos os Flechas tinham
sido mortos pela UNITA. Disse-lhe para desligar o rádio e esconder-se. Montámos
uma operação de resgate. Os Flechas em terra tinham sido esquartejados. Foi
horrível. Se não fosse aquela chuva hoje não estava aqui.
JA - Acabaram aí as relações com a UNITA?
OC - Continuaram, mas quisemos saber o que tinha acontecido. Os seus homens
disseram que o Savimbi decidiu montar a Operação Baile para limpar a imagem da
UNITA. Queria apresentar a minha cabeça, as do major Sachilombo e do coronel
sul-africano. Além disso ficava com o helicóptero como troféu. Assim provava
que nada tinha a ver com a PIDE e ainda acusava os portugueses de estarem
aliados à África do Sul. Dizer ao mundo que tinha morto em combate o fundador
dos Flechas era um grande trunfo. E fazia o papel de justiceiro em relação ao
major Sachilombo.
JA - Essa foi a única operação contra as forças portuguesas?
OC - Ainda fizeram mais uma ou duas operações contra as forças armadas
portuguesas, sempre para mostrar que a UNITA lutava contra nós. Eu alertei para
este comportamento, mas nada pude fazer quando, depois do 25 de Abril, a
inteligência apresentou Savimbi como o “muata da paz” e a UNITA como o
“movimento dos brancos”.
JA - Ninguém o quis ouvir?
OC - Não, eu estava de licença graciosa em Portugal e apanhei lá os
acontecimentos do 25 de Abril. Perdi os contactos e não pude agir. Aquela ideia
de fazer do Savimbi o grande dirigente angolano da paz foi um erro trágico.
Perderam os angolanos e os portugueses. Depois fui preso no Forte de Peniche.
Estive lá dois anos. Comandei o forte e depois fui prisioneiro. Mas nunca
ninguém me tocou com um dedo. Só quiseram destruir-me psicologicamente.
Resisti.
JA - O senhor era considerado da linha dura da PIDE?
OC – O que é isso da linha dura? Nunca torturei ninguém. Nunca toquei com um
dedo num preso. Havia um dirigente estudantil que andava a fazer asneiras. Foi
preso. Quando o interroguei percebi que ele não valia nada. Telefonei à mãe
para ir buscá-lo à sede da PIDE. No dia seguinte todos os estudantes souberam o
que aconteceu e ele perdeu o prestígio. Depois do 25 de Abril reapareceu e hoje
é um grande político. Mas confesso que, por vezes, era preciso dar uns calores.
JA - A PIDE tinha infiltrados nos movimentos de libertação?
OC - Sim, nós tínhamos e eles também tinham pessoas infiltradas nos nossos
serviços.
JA - Depois do 25 de Abril foi julgado em Tribunal Militar?
OC - Fui julgado e no meu processo pessoal constavam relevantes serviços
prestados à pátria, no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Apanhei dois meses de
prisão por não me ter apresentado semanalmente no posto da GNR, como tinha sido
determinado pelo Tribunal civil. Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril soube
que a UNITA tinha torturado e assassinado o Soba Matias no Cuando Cubango.
Fiquei em choque. Ele era um valioso combatente ao serviço de
Portugal.
JA - Quem era o Soba Matias?
OC - Um grande homem. Um dia foi ter comigo ao posto da PIDE em Serpa
Pinto (Menongue) e disse que andavam homens da UNITA a fazer mal ao povo.
Pediu-me oito armas para ir apanhá-los. Confiei nele e entreguei-lhe as armas.
Apanhou os guerrilheiros da UNITA. Desde então, foi um combatente
extraordinário. Depois do 25 de Abril os homens da UNITA foram à sua aldeia e
mandaram-no arriar a bandeira portuguesa. Ele recusou. Torturaram-no até à
morte e esquartejaram-no para servir de exemplo ao povo. Foi terrível.
JA - Mesmo sabendo disso, foi trabalhar com Savimbi na África do Sul?
OC - Eu tive de fugir de Portugal. Passei 730 dias preso em Peniche e quando
saí em liberdade condicional, participei em algumas operações do ELP e do MDLP.
Fui denunciado e os revolucionários queriam prender-me outra vez. Quando o
autocarro se atrasa 15 minutos ficamos logo nervosos. Eu passei 730 dias da
minha vida no Forte de Peniche. Não queria ficar preso nem mais um minuto.
Contactei os meus amigos da Rodésia e fui para lá. Saí de Portugal
clandestinamente e em Madrid os meus amigos do MDLP arranjaram-me um
passaporte. Eles tinham muitos passaportes, em branco. Tive que
arranjar um nome falso.
JA - Como passou a chamar-se?
OC - Rogério Ramon Pinto de Castro. Cada nome destes correspondia ao meu
pseudónimo nas organizações a que pertencia: Exército de Libertação de Portugal
(ELP), Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), Frente de
Libertação dos Açores (FLA) e Frente de Libertação da Madeira (FLAMA).
Preenchemos o passaporte e um amigo fez um carimbo com uma batata para parecer
verdadeiro. Assim embarquei para Salisbúria (actual Harare, capital do
Zimbabwe).
JA - Em Portugal participou nos atentados do MDLP e do ELP?
OC - Ajudei a fazer atentados. Mas só atacámos as sedes do Partido Comunista.
Ainda tentámos salvar Portugal, mas quando precisámos de um presidente, o
general Spínola fugiu para Espanha. Percebi logo que aquilo não ia dar nada.
JA - António Spínola não era o vosso chefe?
OC - Nunca foi. O ELP foi fundado pelo coronel Santos e Castro. O MDLP foi
criado pelo comandante Alpoim Calvão. A FLAMA tinha pouco peso e a FLA não ia a
lado nenhum. A CIA pediu-me para ir aos Açores ver se havia possibilidades da
independência do arquipélago. Mas isso só era possível se derrotássemos os
comunistas. Moscovo estava por trás do 25 de Abril. Eles queriam Portugal na
órbita comunista por causa das colónias. Mas percebi logo que não íamos a lado
nenhum. Então decidi oferecer os meus préstimos à Rodésia.
JA - Trabalhou com a CIA?
OC - Sim, trabalhei, mas só depois do 25 de Abril. Fui aos Açores ver se havia
possibilidade de declarar a independência do arquipélago. Os meus contactos
foram muito importantes, mais tarde. O meu amigo Daniel Chipenda foi abandonado
pelos americanos depois da independência de Angola e eu meti-o na CIA.
JA - Antes de irmos à Rodésia: qual foi o papel de Mário Soares no Verão
Quente?
OC - Serviu-se de nós. Ele queria poder a todo o custo. Apoiou os operacionais
do ELP e do MDLP, trabalhou com a CIA, fez tudo o que Carlucci lhe mandou
fazer. Quando conseguiu o que queria, abandonou os amigos. É muito parecido com
o Savimbi. Por isso, sou capaz de me sentar à mesa com todos, menos com os
socialistas.
JA - Qual foi o seu papel na Rodésia de Ian Smith?
OC - Organizei as forças especiais, para enfrentarem os guerrilheiros da ZANU.
Eu ganhei muita experiência em Angola e acabei por criar “Flechas” na Rodésia.
Um ano depois, fui-me embora. Eles tratavam-me como se fosse um criado. Nunca
fui tão maltratado. Meti-me num avião e aterrei em Joanesburgo.
Viram o apelido Castro no meu passaporte, o meu rosto barbudo e disseram
que era um espião cubano. Pedi um rand para telefonar ao brigadeiro Ben Roos.
Recusaram. Ofereci dez dólares rodesianos por um rand. Nada. Depois veio um
oficial, ouviu a minha história e deu-me um rand para telefonar. Falei com o
brigadeiro e ele mandou logo os seus homens tirar-me do aeroporto.
JA - Foi assim que ficou a trabalhar com os sul-africanos?
OC - A minha ideia era essa. Ben Roos disse-me que a África do Sul estava a
preparar a batalha final contra Angola e que iam ganhar. Convidou-me para ser o
oficial superior de ligação com os homens da UNITA e do Batalhão Búfalo.
Aceitei. Mas alertei imediatamente o brigadeiro para a personalidade do
Savimbi. Ele já sabia tudo. Foi assim que fui parar a Oshakati, onde montei o
comando. E comecei a trabalhar com o pessoal da UNITA.
JA - Quem era o seu contacto?
OC - Era o senhor Isaías Samakuva, um homem muito apagado e extremamente
limitado. Tinha pouco rasgo. Não é fácil trabalhar com pessoas que não percebem
nada do que lhes dizemos. Expliquei-lhe que a África do Sul queria que a UNITA
servisse de tampão aos avanços da SWAPO. Mas o Savimbi tinha-lhe dito que a
UNITA estava a lutar contra os cubanos e os russos e ele repetia esse discurso
por tudo e por nada. Mas não tomava qualquer decisão.
JA - Nessa altura falou com Jonas
Savimbi?
OC - Muitas vezes. Mas ele nada tinha a ver com as operações, os sul-africanos
não lhe davam confiança para isso. Em Oshakati e no Rundu só tratávamos de
inteligência, de operações militares e de sabotagens. O Savimbi era o político,
nada tinha a ver com estas coisas. A base militar principal era na Jamba. Os
sul-africanos e os americanos criaram ali aquela estrutura, grande em qualquer
parte do mundo. Lá nada faltava. Mas eu estava mais ligado à inteligência e às
operações. No início, o objectivo era travar a SWAPO. O Savimbi aceitou as
regras, mas cedo mostrou que o seu único pensamento estava no combate ao MPLA para
um dia chegar ao poder em Angola. Além de traiçoeiro, ele era de uma
ambição sem limites.
JA - Qual era a sua missão?
OC - Fazia tudo. Vezes sem conta fui levar armas e munições à fronteira.
Transportei dezenas de feridos. Eles eram retirados de Angola em bicicletas e
chegavam à fronteira num estado lastimável. Quase sempre tinham que ser
mandados para o Rundu. Quando o Hospital de Ondângua não respondia à gravidade
dos feridos, iam para Pretória, para o Hospital Voortekerhoogte. Ali os
serviços secretos criaram uma área só para o pessoal da UNITA. Ninguém tinha
acesso a essa zona. Médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio eram
todos credenciados pelos serviços secretos.
JA - A UNITA usava armas sul-africanas?
OC - Nem pensar. A África do Sul não podia arriscar tanto. Montámos um esquema
perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que
aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram
soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o
centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões
carregados de material. Nesta altura, também estava activo o Batalhão Búfalo,
treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos
Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por
todos.
JA - Na Jamba encontrou aqueles políticos portugueses que iam ver Savimbi?
OC - A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como
operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não
tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases. Os portugueses
iam mais para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos
à UNITA.
JA - Sabe o que aconteceu com o avião de João Soares?
OC - Claro que sei. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto,
comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os
porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não
conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado.
Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era
enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido. A minha mulher
foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer
exames de Raios X. Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis.
JA - Como soube que um dos feridos era João Soares?
OC - A minha mulher soube que os feridos eram todos portugueses. No dia
seguinte já encontrou no hospital a mãe e a esposa de João Soares. Ele estava
gravemente ferido. O nosso amigo Augusto, também. O tráfico de diamantes e de
marfim daquela vez correu mal.
JA - João Soares diz que isso é invenção do Jornal de Angola.
OC - O avião estava cheio de marfim e diamantes. Perguntem ao nosso amigo
Augusto, que ele confirma tudo. A UNITA roubava os diamantes em Angola e matava
os elefantes. Depois os amigos iam à Jamba buscar o material.
JA - É verdade que os sul-africanos pediram a Mário Soares apoio à UNITA, em
troca de lhe salvarem o filho?
OC - Desconheço. O Mário Soares não foi à África do Sul ver o filho ao
hospital. Maria Barroso esteve lá muitos dias. A esposa de João Soares também.
É uma situação interessante. Eu trabalhava com os sul-africanos na ligação com
a UNITA. E Mário Soares apoiava a UNITA em Portugal. Estávamos unidos
no mesmo objectivo. Mas para mim, esse homem foi o que de pior aconteceu à
minha querida pátria.
JA - Pertencia às Forças Armadas Sul-Africanas?
OC - Trabalhei sempre com a inteligência militar. E sou coronel na reforma da
Força Aérea da África do Sul. Fui condecorado. Quando chegou a altura de ir
para casa perguntaram-me se queria uma pensão mensal ou se queria receber tudo
de uma vez. Preferi o dinheiro todo. Deram-me 100.000 euros. Fui muito bem
tratado na África do Sul. Participei nas negociações que conduziram à retirada
das nossas tropas de Angola.
JA - Como oficial das forças sul-africanas?
OC - Sim, nessa condição. Era perito em inteligência militar. Reuni-me com os
oficiais angolanos e tratámo-nos todos com respeito. Do lado angolano estava
gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo
determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito
Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de
reconhecer que foram heroicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém. São
os vencedores.
JA - Tem alguma pensão do Estado Português?
OC - Tenho uma pensão, porque servi Portugal no Exército, na GNR e na PIDE/DGS.
Fui condecorado e louvado. Mas agora andam a cortar-me a pensão. Estou muito
triste com o presente de Portugal e apreensivo quanto ao futuro. Há demasiada
corrupção. Deve ser o país mais corrupto do mundo. Depois as manobras do super
capitalismo estão a lançar as pessoas na pobreza.
*Jornalista
à(s) agosto 09, 2022
https://paginaglobal.blogspot.com/2022/08/angola-crime-e-traicao-na-alternancia.html#more
domingo, 13 de março de 2016
"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir
17/01/09
Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto
de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir,
depois de 40 anos...
Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou,
formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta
de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria
(...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.
A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que
alguns anos mais tarde viria a dar origem à“Livrarte”) poderia
ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na
medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter
político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.
Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era
uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo
palavras da D. Lúcia.
Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de
carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um
papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as
suas vozes contra o governo.
“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da
política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e
na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais
de cariz político-informativo.
Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer
quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as
sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos
Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das
outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui
culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na
voz.
Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum
movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a
Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos
refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos
conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que
(...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam
que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não
sei quê, diziam que éramos de direita.”
O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro
(marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na
história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de
Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como
pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca
Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião
de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas
Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...)
uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida
(...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.
Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários
acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...)
aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a
ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que
só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e
de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma
Editora/Livraria.
Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas
diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui
(...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de
“Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”.
A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o
seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro”e
ao ramo editorial.
Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de
literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há
cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original,
começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.
A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi
pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito
mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente,
há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.
1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de
Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este
local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em
termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas
concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que
terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo
de comércio mais tradicional em que a “Livrarte”também
estava incluída.
Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio
a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o
“Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir
do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte
Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós
tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.
E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e
enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao
livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).
O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois
nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na
zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito
gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.
Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial,
o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona
(...)”.
Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de
Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria
Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de
fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em
detrimento do novo Centro Comercial.
De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz
(devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial
é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e
video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.
Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto
de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”.
De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em
nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.
Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus
clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra
justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus
“Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...)
Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha
nada!”.
Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC,
na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente
é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é
aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os
seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai
estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal
para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito
gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se
as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque
senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja,
com quem conversámos.
Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo
de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais
Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura
tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas
vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também
ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um
pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.
A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e
um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os
livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são
os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros
de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que
nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de
Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros
antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e
antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no
piso superior, na montra.
No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que
fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.
Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente,
por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”,
estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre
um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um
dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".
No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de
particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão
díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta
parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em
relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro
planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto
nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são
mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as
pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos
transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e
uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.
Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas
gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem
procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro
ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas
ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como
tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).
Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do
panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos
especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos
diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo
daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”.
Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro
novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão
pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja,
entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com
coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só
alfarrabistas (...)”.
De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta
profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...)
De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda
e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma
grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter
gosto naquilo que se faz (...)”.
Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos
faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta
“porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última
alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as
casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser
compradas por Bancos, para aí se instalarem.
Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais
uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender
obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira
e pouco conhecidos.
Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse
a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há
muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.
Publicada por Alexa à(s) 20:06
http://mercadodebemfica.blogspot.pt/2009/01/livrarte-40-anos-resistir.
A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à“Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.
Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.
Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.
Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.
Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.”
O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.
Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.
Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro”e ao ramo editorial.
Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.
A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.
1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte”também estava incluída.
Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.
E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).
O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.
Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.
Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.
De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.
Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.
Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.
Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.
Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.
A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.
No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.
Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".
No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.
Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).
Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.
De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”.
Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.
Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.
Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.
Publicada por Alexa à(s) 20:06
António Cotrim - 50 anos depois, Livraria Espaço Ulmeiro em risco de fechar
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Os últimos quatro anos foram absolutamente desastrosos. Quando a classe média perdeu poder de compra, aquilo que já era difícil tornou-se insustentável”. E a isso juntou-se o aumento das rendas, contou o livreiro, em entrevista à agência Lusa, no espaço Ulmeiro.
Sou de origem camponesa, não tenho muito esse feitio de estender a mão. Não gosto, não está no meu caráter. Há pessoal que me tem dito ‘fazemos isto e aquilo’. Eu jamais aceitaria qualquer coisa do estilo de esmola. A única coisa que estamos disponíveis é para vender barato. Isso não me importo, para ajudar a resolver o problema”, contou.
Um puto que nasceu numa aldeia onde não se lia, como era o meu caso, numa casa onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas [itinerantes] da Fundação Gulbenkian e teve uma professora primária, que teve uma influência enorme, opta por ir para Lisboa para ser livreiro, editor. E assim foi”, resumiu.
A PIDE nunca foi… Era, evidentemente, um obstáculo, uma chatice. Mas não foi pela PIDE. Na altura até se vendiam mais livros [risos], havia aquela coisa dos livros que as pessoas sabiam que nós tínhamos. A PIDE nunca descobriu coisas várias. O esconderijo onde tínhamos livros nunca foi descoberto”, afirmou José Antunes Ribeiro.




