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quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

 


Manuela Vieira da Silva

O namoro de Fernando Pessoa e Ofélia. Belíssimo trabalho de Victor Barroso Nogueira!

«Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas...» Se fosse hoje com messenger e outras facilidades, como seria entre eles? Histórias de amor que não se repetem nem a poesia será a mesma. .
 
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Uma delícia conhecer a ofélia ! Um encanto ... de pessoa e para mim ! Vale a pena ler até ao fim
🙂
~~~~~~~~~~~~~~~
CARTA XLI
Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós:
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.a considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) que V. Ex.a está proibida de:

(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
Cumprimenta V. Ex.a
Álvaro de Campos
eng. Naval
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carta de Ofélia Queiroz a Álvaro Campos
Ex.mo Senhor Engenheiro Álvaro de Campos
Permita-me que discorde por completo com a primeira parte da sua carta, porque, nem posso consentir que Vª Exª trate o Ex.mo Sr. Fernando Pessoa, pessoa que muito prezo, por abjecto e miserável indivíduo nem compreendo que, sendo seu particular e querido amigo o possa tratar tão desprimosamente. Como vê estamos sempre em completa desarmonia, nem podia deixar de ser, pedindo-lhe por especial fineza, que não volte a escrever-me. Quanto às observações que me faz, como foram ditadas pelo Sr. Fernando Pessoa, farei quanto em mim caiba por lhe ser agradável. Agradeço o conselho que me dá, mas já que me puxa pela língua, deixe-me dizer-lhe que quem eu de boa vontade há muito tempo teria, não deitado na pia, mas debaixo dum comboio, era Vª Exª. Esperando não o tornar a ler, subscreve-se com respeito a 26-09-1929
Ofélia Queiroz
~~~~~~~~~~~~~
CARTA 59
Meu querido amor
Que triste ideia teve em encarregar o Sr Engenheiro Álvaro de Campos de escrever-me? Ele afinal não é seu amigo, trata-o tão mal! E não sendo seu amigo também o não é meu, e não sendo meu amigo eu também não sou amiga dele, portanto não gosto dele, detesto-o pronto. Peço-lhe meu querido Fernandinho que não volte a encarregá-lo de me escrever, e que por fineza lhe entregue a minha carta, que por não saber a sua direcção junto à sua. Ele afinal só pretende desacreditá-lo, mas eu não o poupo, e decerto não me escreverá mais.
Agora outra coisa: Gosto tanto que me telefone à noite! Já que nos não podemos ver, ao menos sempre é mais agradável falar assim um pouco mais intimamente. Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas... Que grande me vai parecer a noite de hoje e parte do dia de amanhã. Quase que fazia oito dias sem o ver. O Fernandinho não lhe custa estar tantos dias sem ver a sua Ofelinha? Gosta muito dela, gosta[,] amor? Então seu maroto, eu na minha carta d'hoje mostrava um princípio de afeição? Só princípio? E acho-me eu exigente mas ainda bem que também o é, entender-nos-emos assim melhor, porque sentimos da mesma forma, não é Fernandinho? Mas não me disse se lhe agrado para sua mulherzinha. Se lhe agrado Fernandinho? Se lhe agrado, e agradando-me o meu querido amor tanto para maridinho (parecia-me um sonho eu um dia vir a tratá-lo assim) não retardemos uma felicidade tão grande e tão desejada, pelo menos da minha parte. Mas estou convencida que Fernandinho, também há-de gostar muito de ter um dia o seu lar, com uma mulherzinha muito ao seu gosto e que torne o lar alegre e o Fernandinho feliz. Diga-me, não são estes os seus desejos? A não ser que não seja eu a mulherzinha (porque eu não chego a ser mulher) muito a seu gosto...
A mim encanta-me só a ideia de o vir a ser, de viver consigo uma vida inteira, sempre muito amigos e carinhosos! Mas não receberei de boa vontade na nossa casinha o tal Senhor Engenheiro, isso não. Sobre o assunto do meu encontro, escreveria muito, mas receio maçá-lo. Só lhe digo que tenho ânsia de ser sua esposa, e o Fernandinho, não tem, de ser meu esposo? Se gostar tanto de mim como eu de si, tem a mesma.
É isto que me tira o sono! Fica agora sabendo?
Adeus, meu amor, eu não lhe roubo mais tempo com as minhas cartas sempre tão mal redigidas, mas o Fernandinho já me conhece, em deixando escrito o que sinto é o principal, não é? Góta de mim? Góta munto? Góte chim?
Manda-lhe muitos beijinhos a sempre muito sua
Ofélia
26-9-929
Cartas De Amor
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Caixa Postal 147
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a OPHÉLIA)
Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender
Nota: Relato da Exma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.
Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»
Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.
Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:
Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.
Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.
Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.
Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.
Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.
Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.
Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.
Assim começámos o «namoro».
Confira a primeira carta de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz, clique aqui.
Carta - 01/03/1920
Ophéliazinha:
Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.
Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.
Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…
Ahi fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.
01/03/1920
Fernando Pessoa

terça-feira, 3 de março de 2020

Catarina Reis - Primeira carta de amor de Pessoa faz 100 anos





"A Ophelinha pode preferir quem quiser". Primeira carta de amor de Pessoa faz 100 anos

O poeta português escreveu a sua primeira carta de amor há um século. No destinatário, um nome: Ofélia Queiroz - ou, nas suas palavras, "Ophelina".

A vida amorosa de Fernando Pessoa é uma incógnita, além de Ofélia Queiroz, a namorada que manteve em 1920

01 Março 2020 — 19:08

"Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas". Quem o escreve é Álvaro Campos, o heterónimo do português Fernando Pessoa. E "se há amor", dizia, então "tem de ser". A primeira escrita pelo poeta foi a 1 de março de 1920, dirigida a "Ophelina", uma menina de 19 anos, Ofélia Queiroz, e celebra este domingo 100 anos de existência.

Apesar do diminutivo que a evoca inicialmente, é magoado, ofendido até, que Pessoa se dirige ao seu amor na primeira destas cartas. "Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de 'razões' tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu", lê-se. Falava de um outro "rapaz" na vida da sua Ofélia, pelo qual demonstra um forte ciúme, mas que diz aceitar, pelo amor que lhe guarda. "Como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelina pode preferir quem quiser", remata.

Os restantes versos do documento são um tratado de lições em que o poeta lembra, afinal, o que é amar.

Leia a carta na íntegra:

Ophelinha
Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.
Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém -, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.
Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer cm causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...
Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.
1.3.1920
Fernando Pessoa

Pouco se sabe sobre a vida amorosa de Fernando Pessoa. Os seus textos são transparentes, os seus heterónimos bem definidos, com traços de fácil caracterização, mas aquilo que é Pessoa permanece uma incógnita, mesmo além da sua vida. A incerteza foi alimentando diversas teorias ao longo dos anos, com alguns biógrafos a caracterizá-lo como um homossexual reprimido Uma tese justificada, em parte, pelo heterónimo Álvaro Campos, que Pessoa imaginou como um homem homossexual, satírico e insatisfeito, lembra o El Mundo que neste domingo assinala o centenário da primeira carta de amor do escritor. Contudo, nada conseguiu provar a ligação que este facto teria com a vida do autor.

A única certeza dada por aqueles que se dedicaram a escrever sobre a vida de Pessoa é a namorada Ofélia Queiroz, sua colega de trabalho num escritório comercial em Lisboa. Ele 32 anos e ela com 19, separava-os 14 anos. O poeta apaixonou-se e, daí, seguiram-se várias cartas de amor. Cartas que a própria decidiu tornar públicas na década de 1970, quase 40 anos após a morte do poeta, em 1935.
Depois destas, seguiram-se outras, onde é possível decifrar a cumplicidade de ambos e como a mesma se deteriorou. "Meu bebé travesso", escrevia numa carta de 5 de abril de 1920. Lembra-a que sentia "a boca estranha por não beijar há tanto tempo". E evocava, no mesmo manuscrito: "Meu bebé, para sentar no colo! Meu bebé, para te mordiscar!". As cartas são uma viagem pelo que esta relação entre o poeta e a jovem adulta, se transformou com o decorrer do tempo, distanciando-os quase definitivamente em novembro deste ano.

Fernando Pessoa nunca casou, embora tenha tido pelo menos mais dois amores na sua vida antes de morrer, segundo os biógrafos. Tudo o mais continua ainda por descobrir.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

O último desencontro entre Ofélia e Fernando Pessoa



14.02.2016 às 9h5828

Restos mortais do único amor do poeta deixam vala comum e vão para o cemitério dos Prazeres. Ofélia namorou Pessoa quando tinha 19 anos, mas só viria a casar aos 38, três anos depois do seu carismático namorado

CRISTINA FIGUEIREDO
Escreveu ele: “Gosto muito, mesmo muito, da Ofelinha. Aprecio muito, muitíssimo, a sua índole e o seu carácter. Se casar não casarei senão consigo.” Respondeu ela: “Agradeço muito os teus beijos e envio-te também muitíssimos e muitos chi-corações apertados. Da tua, sempre mesmo muito tua, Ofélia.”

Ofélia Maria Queiroz Soares, que a história reconhece como a única namorada de Fernando Pessoa, vai ser homenageada este domingo, às 14h, numa cerimónia organizada pela Câmara Municipal de Lisboa no cemitério dos Prazeres. Morreu em julho de 1991, com 91 anos, sem nunca ter querido tirar benefício da relação discretíssima que manteve no início do século XX com aquele que viria a ser considerado um dos maiores génios da literatura portuguesa.

Os seus restos mortais julgavam-se perdidos no Alto de São João, mas a autarquia localizou-os em 2014 e trasladou-os esta semana para os Prazeres, onde ficará não muito longe do jazigo onde esteve Pessoa desde o ano da sua morte (1935) até 1985, quando foi para o Mosteiro dos Jerónimos.

PREDESTINADOS A NUNCA SE ENCONTRAREM
“Vai estar junto da ausência dele. Como de resto estiveram em vida”, resume José Manuel dos Santos, antigo conselheiro cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio e atual administrador da Fundação EDP, a quem coube a escolha das frases retiradas das cartas entre ambos (reproduzidas no início deste texto) que decoram a pedra da campa de Ofélia. Uma ideia de desencontro que é confirmada ao Expresso pelo escritor e investigador pessoano Richard Zenith: “É uma ironia: ela está lá e ele não está. Talvez por isso faz ainda mais sentido [esta homenagem]”. Bem escrevera o filósofo Eduardo Lourenço (num texto publicado no “Jornal de Letras” em maio de 2013): a relação entre Fernando e Ofélia foi “um encontro/desencontro entre dois seres predestinados para nunca se encontrarem”.

Ofélia e Fernando conheceram-se em finais de 1919 (ela com 19 anos, ele com 31) e namoraram até novembro de 1920; afastaram-se nos nove anos seguintes para retomarem a relação, por poucos meses, no verão de 1929. Teria sido “um namoro simples, até certo ponto igual ao de toda a gente” (na descrição da própria, num depoimento recolhido em 1978 por uma sobrinha-neta) não fosse dar-se o caso de um dos dois protagonistas ser tudo menos um homem comum. Ele dizia-lhe isso mesmo quando se desculpava por nunca querer ir a sua casa: “Sabes, é preciso compreender que isso é de gente vulgar, e eu não sou vulgar”. E pedia-lhe que omitisse o relacionamento entre ambos: “Não digas a ninguém que nos namoramos, é ridículo. Amamo-nos”.

“Pessoa não amou Ofélia”, corrige Richard Zenith. “Mas quis. Tentou amá-la, por duas vezes. Ela era uma pessoa importantíssima para ele”. Já Ofélia, não tem dúvidas, “amou-o completamente”. Sabe-se agora, depois de conhecida a totalidade da correspondência entre os dois (348 documentos, entre cartas, postais, telegramas e bilhetes, publicados em 2013 pela editora brasileira Capivara), que “mesmo depois de ele lhe ter deixado de escrever, em 1930, ela continuou a fazê-lo assiduamente. Ele telefonava-lhe e às vezes encontravam-se, em doses homeopáticas, para grande frustração dela”.

Ofélia só se casaria três anos após a morte de Pessoa, já com 38 anos, com Augusto Eduardo Soares, homem do teatro, administrador da produtora Tobis. Não tiveram filhos. Ofélia dedicou-se aos sobrinhos e aos filhos destes, nutrindo uma afeição especial por Maria da Graça Queiroz (filha do poeta Carlos Queiroz, amigo de Pessoa). Esta retribuiu dedicando boa parte da sua vida a reconstituir a biografia da tia-avó — finalmente pronta para publicação, que espera concretizar no próximo 14 de junho, dia de aniversário de Ofélia. Conta ao Expresso que recebeu com “uma alegria enorme” a notícia de que os restos mortais da tia, que julgara perdidos para sempre, repousam agora nos Prazeres, ponto de partida e de chegada do 28, o elétrico que Fernando e Ofélia costumavam usar para passear pela cidade.

Tem a certeza de que Ofélia, apesar de nunca ter reclamado em vida o estatuto de namorada do poeta, apreciaria a homenagem que a Câmara entendeu fazer-lhe: “Não era nada vaidosa, mas era muito assumida.” Foi, de resto, ela própria quem decidiu, aos 86 anos, que era altura de tornar públicas as cartas que Fernando lhe escrevera: “Tinha saído um artigo a dizer que Pessoa era homossexual e ela ficou irritadíssima”.

Não por acaso, a evocação, ainda que sob fúnebre pretexto, realiza-se no dia dos namorados. Um só aparente paradoxo (como paradoxal foi esta relação) que para José Manuel dos Santos tem até “uma certa graça terna”. Explica: na esperança (vã) que alimentou de um dia vir a casar com Fernando, “Ofélia viveu uma espécie de sonho impossível. Como Pessoa também entendia que a vida era.”

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-02-14-O-ultimo-desencontro-entre-Ofelia-e-Fernando-Pessoa

sábado, 19 de janeiro de 2013

algumas cartas entre pessoa e ofélia






Uma delícia conhecer a ofélia !  Um encanto ... de pessoa e para mim !
Vale a pena ler até ao fim :-)

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CARTA XLI 

Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós: 

Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.a considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) que V. Ex.a está proibida de: 
(1) pesar menos gramas, 
(2) comer pouco, 
(3) não dormir nada, 
(4) ter febre, 
(5) pensar no indivíduo em questão. 
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo. 
Cumprimenta V. Ex.a 

Álvaro de Campos 

eng. Naval 

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carta de Ofélia Queiroz a Álvaro de Barão CamposEx.mo Senhor Engenheiro Álvaro de Campos Permita-me que discorde por completo com a primeira parte da sua carta, porque, nem posso consentir que Vª Exª trate o Ex.mo Sr. Fernando Pessoa, pessoa que muito prezo, por abjecto e miserável indivíduo nem compreendo que, sendo seu particular e querido amigo o possa tratar tão desprimosamente. Como vê estamos sempre em completa desarmonia, nem podia deixar de ser, pedindo-lhe por especial fineza, que não volte a escrever-me. Quanto às observações que me faz, como foram ditadas pelo Sr. Fernando Pessoa, farei quanto em mim caiba por lhe ser agradável. Agradeço o conselho que me dá, mas já que me puxa pela língua, deixe-me dizer-lhe que quem eu de boa vontade há muito tempo teria, não deitado na pia, mas debaixo dum comboio, era Vª Exª. Esperando não o tornar a ler, subscreve-se com respeito a 26-09-1929 


Ofélia Queiroz

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 CARTA 59 

Meu querido amor 

Que triste ideia teve em encarregar o Sr Engenheiro Álvaro de Campos de escrever-me? Ele afinal não é seu amigo, trata-o tão mal! E não sendo seu amigo também o não é meu, e não sendo meu amigo eu também não sou amiga dele, portanto não gosto dele, detesto-o pronto. Peço-lhe meu querido Fernandinho que não volte a encarregá-lo de me escrever, e que por fineza lhe entregue a minha carta, que por não saber a sua direcção junto à sua. Ele afinal só pretende desacreditá-lo, mas eu não o poupo, e decerto não me escreverá mais. 

Agora outra coisa: Gosto tanto que me telefone à noite! Já que nos não podemos ver, ao menos sempre é mais agradável falar assim um pouco mais intimamente. Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas... Que grande me vai parecer a noite de hoje e parte do dia de amanhã. Quase que fazia oito dias sem o ver. O Fernandinho não lhe custa estar tantos dias sem ver a sua Ofelinha? Gosta muito dela, gosta[,] amor? Então seu maroto, eu na minha carta d'hoje mostrava um princípio de afeição? Só princípio? E acho-me eu exigente mas ainda bem que também o é, entender-nos-emos assim melhor, porque sentimos da mesma forma, não é Fernandinho? Mas não me disse se lhe agrado para sua mulherzinha. Se lhe agrado Fernandinho? Se lhe agrado, e agradando-me o meu querido amor tanto para maridinho (parecia-me um sonho eu um dia vir a tratá-lo assim) não retardemos uma felicidade tão grande e tão desejada, pelo menos da minha parte. Mas estou convencida que Fernandinho, também há-de gostar muito de ter um dia o seu lar, com uma mulherzinha muito ao seu gosto e que torne o lar alegre e o Fernandinho feliz. Diga-me, não são estes os seus desejos? A não ser que não seja eu a mulherzinha (porque eu não chego a ser mulher) muito a seu gosto... 

A mim encanta-me só a ideia de o vir a ser, de viver consigo uma vida inteira, sempre muito amigos e carinhosos! Mas não receberei de boa vontade na nossa casinha o tal Senhor Engenheiro, isso não. Sobre o assunto do meu encontro, escreveria muito, mas receio maçá-lo. Só lhe digo que tenho ânsia de ser sua esposa, e o Fernandinho, não tem, de ser meu esposo? Se gostar tanto de mim como eu de si, tem a mesma. 

É isto que me tira o sono! Fica agora sabendo? 

Adeus, meu amor, eu não lhe roubo mais tempo com as minhas cartas sempre tão mal redigidas, mas o Fernandinho já me conhece, em deixando escrito o que sinto é o principal, não é? Góta de mim? Góta munto? Góte chim? 
Manda-lhe muitos beijinhos a sempre muito sua 

Ofélia 

26-9-929 

http://www.astormentas.com/din/poema.asp?key=839&titulo=CARTA%20XLI


Cartas De Amor
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Caixa Postal 147
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a OPHÉLIA)

Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender

Nota: Relato da Exma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.


    Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
    Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…

    Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»

    Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.

    Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.

Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.

Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.

Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.

    Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.

    Assim começámos o «namoro».

Confira a primeira carta de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz, clique aqui.


http://www.pessoa.art.br/index.php?paged=301

Carta - 01/03/1920

Ophéliazinha:

   Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.

   Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

   Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».

   Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

   Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.

   Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…

   Ahi fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.

01/03/1920

Fernando Pessoa 

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz





logoAssirioAlvim

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz
Última edição: 2012
ISBN: 978-972-0-79310-2


Sinopse
Pela primeira vez, as cartas de amor de Fernando Pessoa e de Ofélia Queiroz são apresentadas em edição conjunta.

Uma edição conjunta é a forma mais adequada para dar a ler uma correspondência, que pressupõe sempre um diálogo, uma interação, a existência concreta de dois interlocutores. Cada carta é, em si mesma, ou a resposta a outra carta ou pretexto para ela. Até quando o destinatário opta por não responder, de algum modo, o seu silêncio se inscreve na carta seguinte. Assim, uma relação amorosa, sustentada epistolarmente, como a de Pessoa e Ofélia, só é, na verdade, entendível quando os dois discursos se cruzam e mutuamente se refletem.



Neste livro a ideia comum de que estaríamos perante um namoro platónico, sem réstia de erotismo, desfaz-se por inteiro. Vemos, enfim, surgir um Pessoa diferente do outro lado do espelho. Um Pessoa não só sujeito e manipulador da escrita, mas um Pessoa indefeso, objeto do discurso (e do afecto) de outrem, personagem de uma história real.





Sobre os Autores




Ophélia Queiroz nasceu em Lisboa, na Rua das Trinas, no dia 14 de junho de 1900. Filha de pais algarvios, de Lagos, é a mais nova de oito irmãos. Concluiu o primeiro grau da instrução, embora desejasse ser professora de matemática, mas procurou estar sempre atualizada estudando Francês e Inglês. Gostava de ler, de ir ao teatro e de conviver. Passava muitas horas em casa do sobrinho, o poeta Carlos Queirós, a conviver com grandes artistas como Carlos Botelho, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Olavo d'Eça Leal, Teixeira de Pascoaes, José Régio e outros. Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de maio a 29 de novembro de 1920 e de 11 de setembro de 1929 a 11 de janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta. A primeira fase, marcada por uma paixão sincera, termina com uma carta em que Pessoa afirma que o seu destino pertence a outra lei. O reencontro, motivado por uma fotografia do Poeta a beber no Abel Ferreira da Fonseca, oferecida a Carlos Queirós, inicia-se quando esta mostra vontade de possuir uma igual e ele lhe envia uma com a dedicatória: Fernando Pessoa em flagrante delitro. Nesta segunda fase, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e perturbação psíquica.


A partir de 1936 até 1955 trabalhou no SNI (Secretariado Nacional da Informação). Nesse ano, na Tobis, conhece Augusto Soares, um homem de Teatro, com quem casa em 1938.


Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz de Ofélia Queiroz , Fernando Pessoa

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