Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Hygo Dionísio - Da plataforma à plataformização do real
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Pedro Tadeu - O futebol profissional é um veneno?
terça-feira, 16 de junho de 2026
Bruno Amaral de Carvalho - Relembrando Odair Moniz e tantos outros
Acanção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.
Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Eduardo Maltez Silva - Que belos cromos à pala do orçamento
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Edward Curtin - A espontaneidade cuidadosamente calculada da divulgação “chocante” dos ficheiros de Epstein
Sempre que um “escândalo” com o impacto dos arquivos de Epstein domina as notícias, podemos ter certeza de que se trata de uma manobra para desviar a atenção de algo mais sinistro que está para vir.
Os arquivos de Epstein estão na posse do FBI há oito anos ou mais. Então, por que é que os arquivos, com trechos censurados, foram apenas divulgados recentemente? Cui bono ?
E quem está por detrás da divulgação que não ocorreu durante o primeiro mandato de Trump e o primeiro mandato de Biden? Cui bono ?
O genocídio em Gaza e a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, ambos apoiados por Biden e Trump, encaixam-se no cronograma e nas omissões, visto que podemos presumir que o Mossad, a CIA, a NSA e o MI6 também tiveram acesso aos arquivos por muito tempo? Um ataque dos EUA/Israel ao Irão? Porque, como nos filmes, toda a propaganda e encobrimentos têm datas de divulgação cuidadosamente escolhidas.
Última pergunta: por que é que alguém ficaria chocado com o conteúdo dos ficheiros de Epstein, embora muitas pessoas pareçam estar? Sim, mais nomes foram adicionados à lista de elites degeneradas que, alegremente, faziam parte da organização criminosa de Epstein, mas a revelação de mais nomes apenas confirma o quanto ela era extensa.
Há muito tempo que sabemos das atividades criminosas do degenerado Epstein, dos financiadores, celebridades, políticos e figuras públicas que se juntaram a ele. Chantagem sexual, cooperação entre agências de serviços secretos e o submundo, acordos financeiros secretos, planeamento de guerras em nome da paz, etc., são formas de como, há muito, o capitalismo tem operado. Embora aqueles que investigam estas coisas já há muito soubessem da sua existência (ver, por exemplo, One Nation Under Blackmail, de Whitney Webb, em dois volumes), as pessoas comuns podem estar, finalmente, a compreender; mas chocante não é. E o “podem” deve ser enfatizado. Todos nós vivemos há muito tempo numa cultura de crescente «choque», onde as notícias e o entretenimento mais grotescos são elementos básicos dos meios de comunicação social, desde Washington D.C. a Hollywood e em toda a Internet, o macaco perseguiu a doninha. Os macacos pensaram que era tudo uma brincadeira, e então Pop! lá se foi a doninha.
Ficar chocado parece estar na moda; apimenta a vida, induz aquele calafrio que só o sexo, a morte e o tempo podem trazer às conversas diárias. “Dá para acreditar?” e “Inacreditável!” ouvem-se a toda a hora e brotam dos lábios, dos ecrãs e dos sites em toda a parte, convidando-nos a vir até àquele sítio para ficarmos estupefactos e com a cabeça a girar vertiginosamente. Pessoas comuns tornaram-se Regan MacNeil, a jovem possuída por um demónio em O Exorcista.
Se os meios de comunicação social mainstream alguma vez aprofundassem o assunto a fundo, teriam que expor-se como agentes das mesmas forças que se encontram por detrás da ascensão de Epstein ao poder. Com que frequência é que esses meios de comunicação ligam Epstein a Israel, ao Mossad, à CIA, etc.? Não são só indivíduos malvados que governam, mas uma estrutura do mal, um sistema, se quiserem, um sistema social profundamente enraizado, atualmente administrado publicamente pelo idiota malvado Trump que, numa entrevista recente ao The New York Times, quando questionado se achava que havia limites para o seu poder global, disse: “Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode deter-me”.
Essa declaração revelou o segredo. É o credo do niilista, fundamental para o ethos atual. Sem honra, sem padrões éticos tradicionais, sem Deus, sem amor pela humanidade, apenas notícias falsas e enganosas destinadas a chocar e um presidente dos EUA falando como um punk adolescente. Sim. Inacreditável! «Eu conheço as palavras. Tenho as melhores palavras. Tenho as… – mas não há palavra melhor do que estúpido.» (Entra a banda sonora.)
O cineasta francês da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, disse certa vez: “Para fazer um filme, tudo o que é preciso é uma garota e uma arma“. Bem, temos o filme sobre Epstein, no qual ele e os seus amigos venais e sórdidos tinham as garotas, mas quem detinha as armas, e não os pénis, por trás dos seus empreendimentos criminosos, é algo que permanece sem resposta.
Quando apanhados em flagrante, os meios de comunicação social adoram expor certos indivíduos que baixam as calças para fins de abuso sexual, mas consideram impossível derrubar aqueles vilões depravados que cometem atrocidades contra pessoas comuns, dia após dia, em todo o mundo. Vamos chamá-los os produtores. Eles moldam e pagam pelas notícias.
O presidente do reality show, Donald Trump — o rosto do imperialismo explícito e do regime ditatorial interno, um brutamontes grosseiro cuja máxima fundamental é “o poder faz a justiça” e cujo nome aparece várias vezes nos arquivos de Epstein —, sabe bem como o jogo é jogado. Após a sua briga televisionada com Zelensky no ano passado (ou foi antes do conflito?), disse: “Isto vai dar um excelente programa de televisão”. O mesmo se poderá dizer do filme sobre Epstein. Talvez até dê uma série.
E, como no passado, ninguém envolvido nessa atividade deplorável e criminosa – com exceção de Epstein e Ghislaine Maxwell – irá provavelmente cumprir qualquer pena de prisão. O que não é surpresa nenhuma.
Quanto a choques, é melhor assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e ficar «chocado» com os atletas favoritos a caírem no gelo e na neve. Pelo menos essas quedas são reais.
Há uma pintura numa casa de campo ainda visível na entrada da Casa dos Vettii, nas ruínas de Pompeia, que nos diz muito sobre os arquivos de Epstein, o poder e a riqueza. Ela simboliza perfeitamente um aspecto da diferença entre as classes dominantes internacionais – ou seja, os detalhes obscenos nos documentos de Epstein, sem a resposta de quem tem conduzido a operação de chantagem e porquê – e o resto de nós. Ela retrata o deus Príapo pesando o seu pénis numa balança de moedas de ouro, como se dissesse: ouro, Deus, riqueza e poder – nós governamos. Vão-se foder! É uma velha história contada por homens niilistas desesperados para provar a sua potência dominando meninas e mulheres vulneráveis e o mundo inteiro.
Muitos têm perguntado como é possível que Epstein e todos os outros, nomeados ou não, tenham feito coisas tão más e criminosas? O mal parece deixar os intelectuais modernos muito perplexos. Será que eles acham que El Diablo é uma marca de molho de salsa?
A explicação de Hannah Arendt para o comportamento de Adolf Eichmann – a banalidade do mal – é uma das explicações que agora estão a ser usadas para dissecar o comportamento de Epstein. Outros dizem que ele não tinha consciência ou não conseguia raciocinar como um adulto; que não era muito inteligente, mas que era um excelente vigarista. Que era narcisista. Todas elas são explicações superficiais. Nenhuma delas chega ao cerne da questão. Como de costume, e de forma completamente errada, alguns culpam Nietzsche e a ideia do ubermensch (o super-homem). Nietzsche (tal como a Rússia) é frequentemente culpado por todos os males modernos por aqueles que interiorizaram noções falsas acerca da sua obra. Na verdade, Nietzsche alertou que, visto que os homens mataram Deus, “algo extraordinariamente desagradável e maligno está prestes a ocorrer”. Ele não estava nada contente com isso.
O brilhante e subestimado escritor Edward Dahlberg, num ensaio sobre Nietzsche – “O Verdadeiro Nietzsche ” – diz o seguinte sobre o filósofo: “Ele denunciou a política racial, outro termo para antissemita, chamando-se a si mesmo de ‘bom europeu’, ‘anti-antissemita’… Nada adiantou; os anti-judeus do Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) apresentaram-no ao público como um político teutónico. E é assim ele que ele é apresentado até hoje, distorcido para fins ideológicos. É de se perguntar quem é que ainda lê hoje em dia.
A propósito do uso da linguagem e da degradação da compreensão, Dahlberg acrescenta: “Tornámos a linguagem tão comum que deixámos de ser leitores simbólicos. A menos que examinemos o intelecto total do poeta como o seu texto, interpretaremos mal Blake ou Shakespeare, da mesma forma tola em que Nietzsche tem sido distorcido”.
Compreender as palavras simbolicamente é entender como os bons escritores as usam nos seus múltiplos significados, não apenas literalmente, não como lascas de pedra desprendidas de uma encosta pedregosa que atravancam uma estrada que não leva a lugar nenhum; mas como eles as fazem vibrar e brilhar, mergulhar profundamente e voar alto como pássaros luminescentes, para que outros possam contemplar profundamente e pensar uma, duas ou talvez mais vezes.
Pense no uso grosseiro da linguagem por parte de Trump; pense no de Epstein; pense na cultura em geral. Mergulhámos numa época de ignorância grosseira e a nossa decadência cultural reflete-se na decadência da nossa linguagem. Trump e Epstein refletem a cultura em geral nesse aspecto. Claramente, uma das razões para isso é a internet e os média digitais, particularmente o telemóvel com a sua câmara e mensagens de texto. É também uma razão importante para a comunicação vasta e constante entre Epstein e os seus «amigos», bem como a facilidade com que a chantagem poderia ser efetuada. Isso não é por acaso.
Alguns de nós tivemos a sorte de vivenciar, ainda jovens, a corrupção no âmago do sistema. Penso no grande jornalista Michael Parenti, falecido recentemente, que por causa de suas opiniões pacifistas, foi excluído da carreira académica, mas que usou essa experiência para se tornar um professor livre para o mundo.
Na minha ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu trabalhava à noite na 42ª Delegacia do Bronx, entrevistando detidos nas celas de detenção. Lá, descobri que muitos eram incriminados por polícias à paisana que colocavam drogas neles; que a delegacia tinha um stock de drogas ilegais para esse fim. Pensando que eu era seu aliado, um polícia contou-me isso e disse que «temos que tirar esses malditos bastardos das ruas» (referindo-se aos homens negros e porto-riquenhos). Isso foi quatro ou cinco anos antes de o honesto e corajoso polícia à paisana do Departamento de Polícia de Nova York, Frank Serpico (que mais tarde se tornou meu amigo), ser incriminado por outros polícias e ser baleado no rosto. Alguns anos depois, foi feito sobre ele o filme Serpico, interpretado por Al Pacino.
Há sempre um filme.
Numa escola onde eu lecionava, um homem que ocupava um cargo importante e que eu respeitava, sabendo que eu estava envolvido em atividades contra a guerra, tentou – para meu grande choque – recrutar-me para a Inteligência do Exército. Esses e muitos outros exemplos fizeram-me adotar desde cedo uma postura cética em relação às figuras de autoridade. Estou grato por essas lições iniciais.
Como todas as histórias, o filme de Epstein passa-se dentro de um sistema simbólico cultural mais amplo, que é mítico nas suas dimensões. De que outra forma se pode explicar o ódio quase inerradicável dos americanos por tudo o que é russo? Nos EUA, o grande mito é chamado Sonho Americano, no qual, segundo o falecido George Carlin, é preciso estar adormecido para acreditar, mas que, mesmo assim, existe, embora possa estar a desmoronar-se. Todas as sociedades têm um sistema simbólico desse tipo. Através das suas histórias e símbolos, são transmitidos significados e valores. E as pessoas vivem de histórias, histórias dentro de histórias. Mito significa história.
Durante muitas décadas, temos passado por uma enorme transformação simbólica, na qual a ordem simbólica controladora (do grego: juntar) está a ser substituída pelo seu oposto, uma ordem diabólica (do grego: separar, o diabo, el diablo) com novas histórias para confundir as mentes das pessoas, dissociar as suas personalidades, colocá-las umas contra as outras e criar uma sensação geral de incerteza. Deus contra o diabo.
Todo o poder é, fundamentalmente, poder para negar a mortalidade. Isso é verdade quer se trate do poder do Estado ou da Igreja, quer de grupos secretos como o de Epstein. E é sempre um poder sagrado. Sagrado ou pervertido.
Muitos perguntam por que os super-ricos e poderosos sempre querem mais. É simples. Eles desejam transcender a sua mortalidade humana e tornar-se deuses – imortais. Eles acreditam estupidamente que, se puderem dominar os outros, matar, dominar, violar, alcançar status, tornar-se bilionários, presidentes, magnatas, celebridades, etc., eles viverão de alguma forma numa estranha eternidade. Assim são Epstein e o seu círculo.
Num processo que se estendeu por, pelo menos, cento e cinquenta anos, os nossos sistemas simbólicos culturais/religiosos tradicionais foram radicalmente minados, principalmente pela criação faustiana de Lord Nuke (1). Todas as formas de imortalidade simbólica (teológica, biológica, criativa, natural e experiencial) que antes proporcionavam uma sensação de continuidade foram severamente ameaçadas. Este é o espectro assustador que paira sobre o pano de fundo da vida atual.
O que é a morte? Como derrotá-la ou transcendê-la? Qual é o número do telemóvel de Deus? Rápido. Improvise.
Homens pequenos como Epstein e aqueles que se deixaram capturar voluntariamente na sua teia, todos aqueles desesperados com as mãos nas calças, mentindo descaradamente enquanto iam com Pinóquio e o Cocheiro para a Ilha do Prazer…
Corte!
Esqueça o guião.
Ainda não vimos nada.
(1) «Lord Nuke» não é um título muito conhecido, mas o autor refere-se, provavelmente, a Nuke (Frank Simpson), um supervilão da Marvel Comics. Ele é um soldado altamente cibernético e aprimorado, com um segundo coração, frequentemente usado pelo governo, conhecido pelas suas elevadas aptidões de combate e que aparece nos quadrinhos do Demolidor.
(2) Edward Curtin é um escritor — difícil de classificar. O seu novo livro é “At the Lost and Found: Personal & Political Dispatches of Resistance and Hope” (Clarity Press).
https://estatuadesal.com/2026/02/22/a-espontaneidade-cuidadosamente-calculada-da-divulgacao-chocante-dos-ficheiros-de-epstein/
https://countercurrents.org/2026/02/the-carefully-contrived-spontaneity-of-the-shocking-epstein-files-release/
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Susana Peralta - Chega e o seu financiamento
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Ricardo E. Rubenstein - As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial
Ricardo E. Rubenstein
Pouco depois da
primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum
público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador
ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer
ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que
dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um
deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações
“inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era
a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo
descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de
Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.
Esses dois
aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As
Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de
conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras
imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se
ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam,
dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois,
fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.
Na minha
opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados
Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das
políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a
militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra
a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O
ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é
um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução
gera guerras globais.
O que obscurece
essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a
invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina
Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo.
Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos,
declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e
tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da
Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também
interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e
noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de
Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano
dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem
como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.
Essa versão
autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que
querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa
original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre
alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais.
Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a
história e para a dinâmica do imperialismo.
História.
No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de
Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as
guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria
pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na
Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente.
Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de
curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica
regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras
limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas
hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra
mundial.
Por quê? Por
que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em
vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções
visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da
Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África,
a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as
maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos.
Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de
Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam
Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo
principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China
(e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.
Dinâmica. Deixando
de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque
à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival
obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo
polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial
bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto,
mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva
“guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa
polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América
Latina, África e Ásia Oriental.
Mas isso não é
tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais
essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar
tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em
1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o
regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se
apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os
imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para
garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais
monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até
então era considerado o quintal da Europa.
Qual é a moral
da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais
não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por
desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os
povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do
capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas
industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas
a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as
suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando
viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria
viabilidade), vão armadas até aos dentes.
Comentadores
liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine
sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem
ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios
podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses
períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os
problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam
– problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas
pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria
guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia
a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império
em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.
O facto de a
guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em
massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não
altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações
Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos
inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um
prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que
qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser
capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de
deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto
Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um
tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta.
Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma
guerra global iminente.
O
intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa
guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não
apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de
liberais do establishment, centristas de ambos os partidos,
especialistas em política externa e pela grande mídia.
Devotados ao
dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e
Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump,
exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes,
age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New
York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser
ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo
venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um
novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz”
colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de
ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores
da “liderança mundial” dos EUA.
Sejam
anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros
corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da
sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a
má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado
e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes.
Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e
conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de
Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de
intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.
Enquanto isso,
os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender
o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do
ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar
a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso
despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a
violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.
Para citar a
faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A
Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.
21 de janeiro de 2026
https://www.counterpunch.org/2026/01/21/trumps-ignoble-interventions-how-regional-imperialism-leads-to-world-war/
https://estatuadesal.com/2026/01/22/as-intervencoes-ignobeis-de-trump-como-o-imperialismo-regional-leva-a-guerra-mundial




