Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 1 de junho de 2026
90 anos de Ary dos Santos «Poeta da Revolução
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Jaime Nogueira Pinto - Camilo, nos 200 anos de um escritor genial
* Jaime Nogueira Pinto
Camilo
escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais,
trabalhava como “um remador de Ben-Hur”, qual escravo dos editores amarrado à
produção em massa para ganhar a vida
22 mar. 2025
No Domingo
passado, 16 de Março, completaram-se dois séculos sobre o nascimento em Lisboa,
na Rua da Rosa, de um dos melhores escritores portugueses, Camilo Castelo
Branco – ou Camilo, tout court.
É um
conhecimento de infância. Tive um tio camilianista fanático, bibliófilo e
bibliómano, pesquisador por alfarrabistas de primeiras edições do romancista.
Não tinha filhos e eu passava muitos fins-de-semana em casa dele, em Vila do
Conde. Era ali que ele juntava outros da mesma tribo, também devotos do
escritor, para falarem interminavelmente de edições antigas, primeiras ou
segundas, e das histórias dessas edições, do seu tempo de escrita e publicação,
das anedotas à volta de raridades e falsas raridades.
Porque Camilo
foi um fenómeno de produção e de qualidade na produção. Mais de duzentos
títulos – romances, novelas, História, teatro, polémicas, até poesia. Coisas
que eu, miúdo, com nove ou dez anos, à mesa dos mais velhos, ia ouvindo,
juntamente com as histórias da sorte e do azar de romances como A
Infanta Capelista – sobre uma Maria José, bastarda de El-Rei D. Miguel
–, que Camilo teria mandado destruir antes da edição em livro, constava que a
pedido do imperador D. Pedro II do Brasil, e que teria ido parar à Salsicharia
Francesa, para embrulhar artigos de mercearia. Um cliente, um tal António
Rebelo, teria dado pelo achado e adquirido as “folhas de embrulho” que
restavam, salvando alguns, poucos, exemplares, dos quais mais tarde se
publicariam duas edições fac-simile, fazendo da Infanta
Capelista uma preciosa raridade camiliana.
(Há anos, a
propósito de um livro de futurologia política sobre uma Administração americana
que não veio a acontecer, lembrei-me deste episódio camiliano e dos presumíveis
destinos, mais ou menos úteis, mais ou menos nobres, das obras malogradas.)
Mais tarde,
Camilo reescreveu e reeditou o tema da infanta capelista em O carrasco
de Victor Hugo José Alves, tornando-o menos ofensivo para a família
real de Portugal e do Brasil.
Camilo ou
Eça?
Os grandes
poetas, como Camões e Pessoa, são quase sempre os grandes conhecedores da
pátria, da nação, do colectivo histórico, da comunidade política, da herança e
identidade de um povo entre os povos; conhecem-na, (re)constroem-na e
exprimem-na nos seus altos e baixos, no seu modo peculiar de absorver e
exprimir o universal. Já os grandes escritores apanham mais as pessoas. E os
grandes escritores do seculo XIX que retrataram os portugueses, o seu modo de
ser, a sua identidade ou as suas identidades, são incontornavelmente Camilo e
Eça de Queirós.
Eça, como
confessaria numa carta ao seu amigo conde de Arnoso, conhecia sobretudo Lisboa;
e, de Lisboa, a “sociedade”, a “classe alta”; talvez por isso continuemos a
descobrir nas nossas “elites” – e na classe político-empresarial-futebolística
deste último meio século não faltam exemplares – Gouvarinhos, Dâmasos Salcedos,
Acácios. Já Camilo dá-nos outros portugueses, mais rústicos, os das terras de
Portugal, mesmo que vindos para a capital; e, entre eles, mais os do Norte, os
das “novelas do Minho”, os da Samardã, os das invasões francesas e das guerras
civis, os que, quando ofendidos, vão a casa buscar o bacamarte e voltam com ele
para lavar a honra com o sangue do ofensor.
E há a
quantidade e a qualidade. Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha
tempo de corrigir os originais, trabalhava que nem “um remador de Ben-Hur”
(para usar a imagem do inigualável Nelson Rodrigues), ou qual escravo dos
editores, amarrado à produção em massa e em série para ganhar a vida, correndo
sempre atrás do prejuízo. Bem ao contrário de Eça de Queirós, funcionário
diplomático e bem casado. Embora gastador e devedor e, curiosamente,
também “filho de mãe incógnita”, Eça nunca viveu o trágico sorvedouro das
dívidas e da angústia que daí vem. Camilo passou por essa e por outras
desgraças.
Por isso, na
cadeia da Relação do Porto, em 10 de Agosto de 1861, quando cumpria pena por
adultério com Ana Plácido, depois da queixa-crime do marido traído, escrevia ao
seu primeiro biógrafo, Vieira de Castro: “A página mais crível e instrutiva da
minha biografia será aquela em que escreveres que a desgraça é
a pedra de toque onde se aquilatam os amigos.” Vira “os muitos em que se fiava”
a desaparecer; mas não deixara de ver “em redor aqueles com quem não contava”.
As
mulheres e a “mulher fatal”
Fora assim a
sua vida – trágica, desde o berço. Fruto de uma aventura do pai, Manuel Joaquim
Botelho Castelo Branco, irmão do Simão Botelho que ele havia de imortalizar
em Amor de Perdição – o Romeu e Julieta português,
escrito em duas semanas, na prisão.
Antes do
encontro com a sua mulher fatal, Camilo entregou-se a amores jovens,
aventureiros e mal-aventurados, seduções e paixões rústicas e freiráticas,
relações inominadas e ambíguas… Bernardina Amélia, Fanny Owen, a “costureira do
Candal” … até que, num baile na Assembleia Portuense, em 1848, conheceu a
mulher da sua vida, Ana Plácido, casada com o “brasileiro” de torna-viagem
Pinheiro Alves. Ana, nesse dia, “vestia de branco, com enfeites de fitas
escarlates nos cabelos, como escreveria o apaixonado em Cenas Inocentes
da Comédia Humana.
Paixão
verdadeira desde o primeiro instante, com o desajeitado Romeu a passarinhar-se
pela rua do Almada, onde morava a sua Julieta, que estaria à janela, com alguma
provocação. Porque a acreditar em Mestre Aquilino, um entre a dúzia de
biógrafos de Camilo – dos seus contemporâneos Vieira de Castro, Freitas
Fortuna, Alberto Pimentel, até Pascoaes, Agustina, Alexandre Cabral –, Ana
Plácido já teria sido amante de António Ferreira Quiques, um portuense amigo de
Camilo, possível pai biológico de “Manuelinho”, que no registo apareceria como
filho do marido da mãe, do propriamente dito Pinheiro Alves.
Camilo foi para
Lisboa, mas voltou ao Porto e voltou a vê-la, dez anos depois, em Braga, no Bom
Jesus do Monte. Ana Plácido, que tivera uma boa educação, em família burguesa e
numerosa, descrevia o marido, o “brasileiro” Pinheiro Alves, como “mau homem e
repelente” e acabaria por fugir com Camilo. Os amantes seriam condenados.
Mais tarde, depois de livres, mas sempre perseguidos pela desgraça, viveram
juntos em S. Miguel de Seide, onde tiveram dois filhos.
Foi este homem
de vida atribulada e até trágica que contou admiravelmente o Portugal do seu
tempo em folhetos e romances com títulos curiosíssimos, como Maria não
me mates que sou tua mãe, O parente dos cinquenta e três monarcas, Mistérios
de Lisboa, Doze casamentos felizes, Novelas do Minho, Noites
de Insónia, Eusébio Macário, e a sua continuação, A
Corja. E A Brasileira de Prazins.
É uma obra
extraordinária, um retrato de Portugal do século XIX, das invasões francesas ao
fontismo. Além da verdade e realidade das personagens e dos enredos, fica um
estilo e uma linguagem únicos, expressivos e variados: do romantismo de Maria
Moisés, das Novelas do Minho, ao verrinoso dos panfletos
contra inimigos literários e existenciais, a quem não poupava, como o poeta
brasileiro Tomás Filho.
Romancista
histórico?
De certo modo,
os romances e novelas de Camilo são romances “históricos” que nos dão, não só a
História e a evolução política no tempo e na língua, como Maria Helena
Carvalhão Buescu demonstrou a propósito de Amor de Perdição e
de A Queda de um Anjo, mas que nos mostram, através das personagens
e das histórias, o tempo, bem agitado, que vai do miguelismo e da guerra civil
ao final do rotativismo. Por isso a Teresa do Amor de Perdição diz
ao pai que não casa com quem ele quer, e Mariana, plebeia, apaixona-se pelo
fidalgo Simão Botelho, que é tio de Camilo, irmão de Manuel Joaquim, pai do
escritor.
A teia
romanesca camiliana apanhou todos estes protagonistas do seu tempo, um tempo
que faz a transição das oligarquias tradicionais, noblesse de sang e noblesse
de robe (nas famílias de Simão Botelho e de Camilo) para as classes
novas do constitucionalismo, do Porto burguês e liberal, dos “brasileiros”, dos
“eleitos” deputados e barões de que o Calisto Elói de A Queda de um
Anjo é um fidelíssimo retrato, um irmão próximo do Abranhos de Eça,
retratos ainda vivos e actuais da nova oligarquia liberal-democrática.
Camilo era
assim. Pintou o século XIX como ele foi em Portugal e na Europa, um filho das
guerras da Revolução e do Império – primeiro das invasões francesas e da guerra
miguelistas-liberais; depois do liberalismo convulso até à Regeneração, pelo
golpe militar de Saldanha.
Em Eusébio
Macário e na Brasileira de Prazins quis mostrar-se à
vontade na nova religião do romance realista. Mas Camilo não era só capaz de
realismo literário; era um realista existencial, que entendia a continuidade da
natureza humana e a continuidade dos portugueses. Os mestres do liberalismo,
Garrett e Herculano, antigos voluntários e combatentes da nova fé,
desiludiram-se da nova ideia com a prática; Herculano, retirando-se para Vale
de Lobos e dizendo que o estado da pátria lhe dava vontade de morrer, Garrett
fazendo a crítica ao materialismo dos barões e agiotas do liberalismo,
lembrando nas Viagens na minha Terra que Jesus lhes faria o
mesmo que aos vendilhões do Templo.
Camilo, crítico
do absolutismo português, no Perfil do Marquês de Pombal, crítico
da oligarquia liberal, em A Queda de um Anjo, autor de uma charge ao
miguelismo nortenho nessa saga burlesca que é A Brasileira de Prazins,
em que um sósia do príncipe exilado mobiliza para a contra-revolução a reacção
do Portugal Velho, parece não ter tido nem ilusões nem desilusões políticas.
Talvez porque a todos visse como homens, protagonistas e figurantes do seu
tempo e da sua pátria na grande comédia ou tragédia humana. Um som e uma fúria
que contou com humor e sentido do trágico em mais de duas centenas de títulos,
alguns milhares de personagens, dezenas de milhares de páginas – de boa
literatura, acrescente-se.
Pena que o
tenham trocado por moeda mais nova e mais barata; e logo num tempo em que a
consciência crítica de si, dos outros, do país e do mundo está tão em falta.
https://observador.pt/opiniao/camilo-nos-200-anos-de-um-escritor-genial/
domingo, 28 de setembro de 2025
Jaime Nogueira Pinto - Claudia Cardinale (1938-2025)
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema e damos graças pelo dom
da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca
neste mundo
27 set. 2025
Quando comecei a ver cinema (a
“ir ao cinema”, como se dizia), o cinema italiano era um grande cinema, para
não dizer o grande cinema. A começar pelos realizadores, os Visconti, os
Fellini, os Pasolini, os Antonioni, os Monicelli, os Risi, os Rossellini, os De
Sica, criadores admiráveis em todos os géneros, da comédia mais divertida à
tragédia mais shakespeariana.
Mas para nós, miúdos, muito mais
do que os realizadores, que até à adolescência nos passavam relativamente
despercebidos, impressionavam-nos os actores – um cómico admirável, como
Antonio de Curtis, Totó, um actor genial para papéis mais sérios,
como Marcelo Mastroianni, ou alguém preparado para todos os géneros, como
Vittorio Gassman. E mais ainda que os actores, fascinavam-nos as actrizes.
Estávamos no Portugal dos anos
1960, a sair da Igreja pré-conciliar de Pio XII, e as nossas “referências
artísticas” eram americanas (como a Marilyn Monroe, a Rita Hayworth ou a Ava
Gardner, que víamos nos filmes e nas páginas do Século Ilustrado),
francesas (como a Brigitte Bardot de Et Dieu créa la
femme ou a Catherine Deneuve de Belle de Jour) e
italianas (como a Silvana Mangano, a Sofia Loren, a Gina Lollobrigida, a
Monica Vitti… e a Claudia Cardinale).
Claudia Cardinale era uma
italiana nascida na Tunísia, então um domínio francês, onde, com 19 anos,
ganhara um concurso de beleza. O primeiro prémio dava direito a uma semana em
Veneza com acompanhante. Claudia levou a mãe e voltou para a Tunísia. Estávamos
em 1957. Não passou um ano até que saísse da Tunísia para o grande écran,
com I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli.
Era o começo. Em 1960, estava
em Rocco e i Suoi Fratelli, de Visconti, com Alain Delon, em
61 era La Ragazza con la Valigia no filme de Valerio Zurlini,
e em 63 dava corpo à Ragazza di Bube, de Luigi Comencini. No
mesmo ano, Visconti voltava a escolhê-la, desta vez para desempenhar o papel de
Angelica em Il Gattopardo. Angelica era a bela filha do
burguês Dom Calogero Sedara, parte do exercício de transição política e social
que “o Leopardo”, o príncipe de Salina (Burt Lancaster), vai protagonizar para
que a estrutura social não sofra muitos abalos com a passagem da monarquia
tradicionalista dos Bourbon-Duas Sicílias para a monarquia liberal e
revolucionária dos Saboia.
São raros os grandes filmes de
grandes livros, ou da adaptação de grandes livros, vá-se lá a saber porquê…
Talvez porque os livros falem outra linguagem, mais intimista, centrada na
palavra e deixando a imaginação visual à solta, e o cinema encontre o seu
encanto sobretudo na imagem, no movimento, na acção, num apelo mais directo aos
sentidos. Por alguma razão nem as adaptações francesas de Le
Rouge et le Noir ou de La Chartreuse de Parme, de
Stendahl, resultaram em grandes filmes, nem os livros que serviram de guião aos
geniais tratados do poder e da condição humana que são Os Padrinhos de
Coppola eram obras-primas.
Il Gattopardo, de
Lampedusa, é uma excepção. É um romance admirável que, pela mão de Visconti,
inspira um filme admirável. Livro e filme são obras diferentes e assumem essa
diferença. Visconti, ao sabor do seu tempo, da sua arte e da sua condição de
aristocrata-comunista, faz uma leitura marxista do romance de Lampedusa, a
narrativa nostálgica da viagem à Sicília do aristocrata Giuseppe Tomasi de
Lampedusa à procura de um tempo perdido.
Claudia Cardinale veste bem a
pele de Angelica, a filha de Dom Calogero (Paolo Stoppa), o burguês em ascensão
social que, nas terras feudais dos Salina, ajuda a evitar a revolução que a
sucessão dos “homens novos” aos aristocratas e o fim do Ancien Régime podia
provocar. Visconti encerra o filme com Claudia Cardinale a rodopiar no salão
dos Salina nos braços do patriarca, um Burt Lancaster que nos tínhamos
habituado a ver nas fitas americanas como trapezista, pirata, cowboy ou
até índio (no Último Apache), mas que o realizador italiano se
atreve a transformar no aristocrata nostalgicamente maquiavélico que muda o que
for preciso (o acessório) para que o essencial (a propriedade dos meios de
produção – segundo Visconti, conde de Lonate Pozzolo, com casa em Milão, cheia
de criadagem e dois chefs de cozinha, segundo o amigo e rival
Fellini) continue na mesma. E sim, o filme é diferente do livro também no
essencial.
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A versatilidade de Claudia
Cardinale não será menor do que a do trapezista, pirata, cowboy, índio e
príncipe, Burt Lancaster. Em 1968, em Hollywood, vai protagonizar entre
vaqueiros, caminhos-de-ferro, maus muito maus (Henry Fonda) e um bom com cara
de mau (Charles Bronson) Aconteceu no Oeste, um filme de Sergio
Leone, que trabalhara com mestres como Vittorio de Sica e Luigi Comencini e se
lançara nos chamados Western Spaghetti com fitas como Por um Punhado
de Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão.
Contrastando em quase tudo com a
Angélica de O Leopardo, Claudia é, em Once Upon a Time in
the West, Jill McBain, uma mulher de vida fácil (ou difícil) de Nova
Orleães que vem para a terra onde se passa a acção porque casa com o homem que
é assassinado, com a família, logo no princípio da história. E desce, linda e
feliz, do comboio, para enfrentar o que der e vier.
Vi este Aconteceu no
Oeste num dia que é sempre inesquecível: o dia seguinte ao do último
exame da época; o dia ou a noite em que, pela primeira vez depois de um tempo
de grande azáfama e sofrimento, em pleno Verão, estamos livres, soltos e
podemos jantar bem e ir ao cinema.
Pude, por isso, apreciar mais
ainda a beleza da Cardinale, ajudado pela música de Ennio Morricone e por
aqueles desfechos típicos dos Westerns, com os maus a serem
punidos e tudo a acabar bem.
E vi-a em muitas outras fitas –
como Claudia, no 8 ½ de Fellini, como dona de uma casa de
passe, no Fitzcarraldo de Werner Herzog, como chefe de
quadrilha em Les Petroleuses, de Christian-Jacques (que
juntava na mesma quadrilha Bardot e Cardinale, BB e CC). Vi-a sempre
bela, como princesa Dala na Pantera Cor de Rosa sempre bem,
ainda na tela ou já a sair de cena e a envelhecer.
Dizem que em 1967, na Basílica de
S. Pedro (Paulo VI quisera receber um grupo de actrizes italianas), o
Papa conversou alguns minutos a sós com ela e Claudia saiu a chorar.
Especula-se que teriam falado do que lhe acontecera aos 17 anos: a violação, a
hesitação em abortar e a decisão de ter o filho, o seu Patrick, que o futuro
marido, Franco Cristaldi, iria perfilhar.
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema, a sua forma única de
passar pelo tempo. E lembra-nos também aquilo de que muitas vezes nos
esquecemos: de dar graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente
se cruza connosco e nos toca neste mundo. Que descanse em paz.
segunda-feira, 7 de abril de 2025
Manuel Durand Clemente - “O 25 de Abril que Novembro traiu"
quinta-feira, 11 de janeiro de 2024
Nuno Gomes dos Santos - Ruy Mingas: o bom camarada
* Nuno Gomes dos Santos
Ruy Mingas foi desportista,
professor, músico, político e diplomata
Um dia apareceu no programa
Zip-Zip (de Carlos Cruz, Raul Solnado, Fialho Gouveia e José Nuno Martins,
RTP, 1969), que foi inovador na televisão portuguesa e revelou talentos
(Manuel Freire, Francisco Fanhais, José Manuel Osório, Introito, Pedro Barroso
e José Barata Moura, por exemplo, juntando-lhes Tonicha ou Lenita Gentil)
da canção que por cá se praticava. Ruy Mingas estava lá, atento ao conselho
que Carlos «Liceu» Vieira Dias, seu tio e grande percursor da nova canção angolana,
lhe dera: «cultiva o teu ouvido musical.» Grande êxito e, desde logo, uma
carreira de cantor e grande divulgador da canção de raízes angolanas, que
caminhavam de braço dado com ideias políticas progressistas e empenhadas
na denúncia do colonialismo e na luta do povo angolano, no seu caso a
luta do MPLA.
Mingas musicou e interpretou,
num exemplo que sintetiza o que se acaba de escrever, o poema Monangambé (em
kimbundu, «filho de escravo», que trabalha no duro e leva «porrada se refilar»),
de António Jacinto («Naquela roça grande / não tem chuva / é o suor do meu
rosto / que rega as plantações (…). Quem faz o branco prosperar? Monangambé!»).
Pode dizer-se que Ruy Mingas, enquanto
músico, escreveu as suas próprias canções e musicou poemas de grandes poetas
angolanos, como Agostinho Neto e Viriato da Cuz, para além do já citado António
Jacinto. O que culminou na canção heróica que compôs com base num poema de
Manuel Rui Monteiro – Angola Avante! – e que foi escolhida
como Hino da Angola.
Sempre muito ligado a Portugal,
Mingas deu aulas de Educação Física na Escola D. António da Costa, em Almada.
Era, por alturas do 25 de Abril, o principal membro do corpo diplomático
do MPLA, desempenhando importante papel nas negociações pela independência
angolana com os oficiais do MFA.
Em Angola foi secretário de Estado
para a Educação Física e Desporto, com estatuto de ministro, e acabou por
ser ministro durante dez anos, após os quais foi nomeado embaixador de Angola
em Portugal, cargo que exerceu entre 1989 e 1995 e que esteve na origem da
condecoração – Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique – com que foi agraciado.
Em 2014 a Sociedade Portuguesa
de Autores distinguiu-o com o Prémio Autor Internacional.
Durante as suas andanças pelo
nosso país, longe ainda de sonhar atingir o topo da sua carreira profissional,
que na música quer na política, o Ruy Mingas era um amigo divertido, talentoso,
dono de uma voz profunda e de uma não menos profunda determinação em lutar
pelos seus ideais.
No Zip-Zip e nos tempos que se lhe
seguiram, tocando e cantando sozinho ou, como no seu segundo álbum, por
exemplo, acompanhado pelo seu irmão André, pelo percussionista francês Daniel
Louis, com o brasileiro Marcos Resende ao piano e a direcção musical de
Thilo Krasmann, era um foco de alegria e boa disposição, excelente conversador
e amigo do seu amigo.
Digamos que Ruy Mingas era,
também na intimidade, o que sempre foi na vida, em todas as acepções da palavra:
um bom camarada!
https://avante.pt/pt/2615/argumentos/174261/Ruy-Mingas-o-bom-camarada.htm
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
Hipatia de Alexandria, por Helena Vasconcelos
quarta-feira, 25 de outubro de 2023
Rachel Corrie
24.10.23 | Manuel
Discurso escrito pela família de Rachel Corrie e lido no dia 12 de Abril, 2003, em numerosas realizações levadas a cabo em todo o mundo, em memória desta lutadora da paz.
Em 16 de Março, a nossa filha e irmã Rachel Corrie foi morta por um bulldozer militar israelita, quando tentava impedir a demolição de uma casa palestiniana na Faixa de Gaza. Rachel escolheu ir para Rafah, uma cidade a sul da Faixa de Gaza, porque acreditava que o mundo tinha abandonado este lugar. Durante a sua permanência, Rachel tornou-se nos nossos olhos e ouvidos, como nos disse sobre os tanques e bulldozers que passavam, sobre as casas com os seus buracos nas paredes, e da sua multiplicação rápida, sobre as torres do exército israelita com atiradores perscrutando ao longo do horizonte, sobre os helicópteros, e os seus zumbidos invisíveis sobrevoando a cidade durante horas e horas, sobre os poços, as estufas e os olivais destruídos, sobre o muro gigantesco de metal, em construção em torno de Gaza.
Ela disse-nos da ajuda que recebeu de um soldado israelita, que lhe enviou por e-mail frases em hebreu, para usar quando confrontada com soldados israelitas dos tanques e dos bulldozers. Ela falou-nos também de Ali, o rapaz palestiniano de dezoito anos, abatido dois dias antes da sua chegada, dos grandes grupos de homens palestinianos capturados e retidos durante todo o tempo, dos estudantes palestinianos e trabalhadores que não podem ir para a universidade ou para os seus empregos, porque os pontos de controlo se encontram fechados, dos trabalhadores municipais palestinianos da água, enfurecidos enquanto tentam fazer as reparações. Ela disse-nos, também, do dormir no chão e do compartilhar de um cobertor com uma família de cinco pessoas, de ajudar o jovem Nidal, que, com o seu inglês, a ajudou no seu árabe, das famílias palestinianas que lhe deram as suas limonadas para curar a gripe. Ela escreveu-nos: “Eu descobri um grau de força e de capacidade básicas de humanos permanecerem humanos em circunstâncias extremas. Penso que a palavra é dignidade.”
Rachel tinha sonhos. Ela acreditava que a sua cidade natal de Olympia, Washington, poderia irmanar-se com a cidade irmã de Rafah. Ela visionou trocas de e-mails entre crianças das duas cidades. Ela escreveu: “Muitos palestinianos querem que as suas vozes sejam ouvidas e penso que precisamos de usar alguns dos nossos privilégios, como internacionais, para fazer com que as suas vozes sejam ouvidas directamente nos Estados Unidos, em vez do filtro de internacionais bem-intencionados, como eu”. Rachel acreditava que poderia ver um estado palestiniano ou um estado israelo-palestiniano democrático durante a sua vida. Ela escreveu: “penso que a liberdade para a Palestina poderia ser uma fonte incrível de esperança para os povos em luta de todo o mundo”. Rachel alinhava com activistas pela paz palestinianos não-violentos, com activistas pela paz israelitas, também não-violentos, e com todos os activistas internacionais a trabalharem corajosamente para fazer com que todos os seus sonhos se tornem realidade.
Ela perdeu a sua vida naquele esforço pela paz, quando foi esmagada por um bulldozer israelita, há quatro semanas atrás. Isto agora leva-nos, a cada um de nós, a erguermo-nos com a mesma convicção e coragem e, dos nossos púlpitos, dos nossos pódios e das nossas ruas, através das nossas cartas para o Congresso, para a secretaria de Estado e Presidente, gritarmos juntamente com Rachel: “Isto é para parar! É uma boa ideia para nós todos, abandonar tudo e devotar todas as nossas vidas para fazer parar isto. Não penso em extremismos para fazer algo mais. Eu até quero na verdade dançar para Pat Benetar e ter namorados e ser cómica para os meus companheiros. Mas eu também quero que isto pare!
*
BIOGRAFIA
Rachel Corrie era uma jovem activista cuja vida, aos 23 anos, terminou abruptamente a 16 de Março de 2003, enquanto trabalhava como manifestante na Faixa de Gaza. Ela cresceu em Olympia, Washington, estudou na Capital High School e depois no Evergreen State College. Enquanto estava na faculdade, Corrie juntou-se ao Movimento Olympia pela Justiça e Paz e, mais tarde, ao Movimento de Solidariedade Internacional, ou ISM.
O ISM, fundado em 2001, procura pessoas em todo o mundo para ajudar nos seus protestos não violentos contra os militares israelitas na Cisjordânia. A organização procura pressionar Israel e a sua Força de Defesa Israelense (FDI) a acabar com a ocupação de terras palestinas, usando uma série de táticas de resistência não violentas, como violar o toque de recolher israelense imposto em áreas palestinas, remover bloqueios de estradas colocados pelas FDI para isolar uma aldeia de outro, e bloqueando tanques militares e escavadeiras.
Rachel Corrie foi para Rafah, na Faixa de Gaza, em Janeiro de 2003 e recebeu dois dias de treino de resistência não violenta para ajudar nas actividades do ISM. Ela ficou horrorizada com a destruição que encontrou lá. Casas foram destruídas e pessoas detidas e mortas diariamente. Rachel registrou o que observou e sentiu em cartas e e-mails para sua família. Num e-mail, ela escreveu: “Agora, o exército israelita escavou a estrada para Gaza e ambos os principais pontos de controlo estão fechados. Isto significa que os palestinianos que queiram inscrever-se para o próximo trimestre na universidade não podem. As pessoas não conseguem chegar aos seus empregos e aqueles que estão presos do outro lado não conseguem voltar para casa; e os internacionais, que têm uma reunião amanhã na Cisjordânia, não conseguirão.”
Em outro e-mail, Corrie escreveu: “Sinto muito mal do estômago por ser mimada o tempo todo, muito docemente, por pessoas que estão enfrentando a desgraça… Honestamente, muitas vezes a pura bondade das pessoas aqui, juntamente com a evidência esmagadora da destruição intencional de suas vidas, faz com que isso pareça irreal para mim.”
Os esforços de Rachel Corrie para ajudar o movimento de resistência custaram-lhe a vida em 16 de março de 2003. Ela se colocou entre uma escavadeira Caterpillar e uma casa local, tentando impedir que as FDI a demolissem. Ela foi atropelada duas vezes pelo veículo e morreu.
Após a sua morte, a Fundação Rachel Corrie para a Paz e Justiça foi fundada para “apoiar programas que promovam conexões entre as pessoas, que construam a compreensão, o respeito e a apreciação pelas diferenças, e que promovam a cooperação dentro e entre as comunidades locais e globais”. O ator Alan Rickman e a escritora Katherine Viner montaram uma peça baseada nas cartas, diários e e-mails de Corrie chamada “Meu nome é Rachel Corrie”. Foi exibido em Londres em 2005 e, após um adiamento inicial nos Estados Unidos, teve uma exibição limitada na Off-Broadway em Nova York.
e
*
CARTA DA PALESTINA
Uma das cartas de Rachel, “Carta da Palestina” (7 de fevereiro de 2003), é lida abaixo por sua mãe, Cindy Corrie.
Rachel Corrie: “Carta da Palestina” (2003)
https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/rachel-corrie-127969?
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
António Guerreiro - Contra as biografias
Crónica Acção Paralela
* António Guerreiro
10 de Fevereiro de 2023,
A ilusão biográfica consiste em
fazer do biografado um indivíduo coerente que se vai tornando naquilo que é.
Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos nos
jornais.
Nos últimos anos, talvez por
influência da cultura anglo-americana, começaram a proliferar as biografias nas livrarias
portuguesas e algumas até já as acomodam numa secção exclusiva devidamente
assinalada, construindo assim um pequeno museu das grandes individualidades.
Outrora, a biografia era um género que devia quase tudo à erudição; actualmente
deve uma boa parte ao jornalismo e outra parte à edição, pois a biografia é
sobretudo um “género editorial”. Partilha essa condição com o romance, tal como
ele hoje é produzido, difundido e “encorajado” (um eminente crítico literário
italiano escreveu um livro a exortar: “Não encorajar o romance”).
Chamo “género editorial” a um
género que deve muito do seu sucesso e hegemonia à máquina editorial, por mais
emperrada que ela esteja. Isto não significa que todos os romances publicados
actualmente possam ser incluídos neste género. Mas tinha alguma razão um
avisado crítico, ou até hipercrítico, especialista em diagnósticos, que
escreveu: “o romance é o cancro da literatura”. Orientados pelo seu olhar
clínico, podemos dizer que as biografias produzidas para responder às
exigências do género editorial são metástases.
O volumoso caudal de matéria
biográfica com que estamos confrontados merece que mencionemos um ensaio,
publicado em 1930, por um génio da Alemanha de Weimar, que iniciou o
adolescente Adorno na leitura de Kant, andou por vezes na proximidade da Escola
de Frankfurt e atravessou diversas disciplinas sem obedecer aos protocolos de
qualquer uma delas. Esse génio chama-se Siegfried Kracauer e, em
1930, escreveu um texto a que deu o título: A Biografia — Forma de Arte da
Nova Burguesia.
Também ele começa por verificar
que a biografia se tornou, no seu tempo, uma produção literária muito
difundida. E sete anos mais tarde dará o seu contributo para alimentar o
fenómeno, escrevendo uma biografia de Jacques Offenbach. Em boa verdade,
apontar-lhe esta incoerência é um pouco injusto porque Offenbach é, para ele,
apenas um pretexto: Paris do Segundo Império é o grande protagonista desse
livro.
O texto de Kracauer é denso e
complexo. Simplificando, digamos que ele entende que a ilusão biográfica
fornece o sossego e bem-estar de que a “nova burguesia” carece. A ilusão
biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente, consciente,
unitário, soberano, que se vai tornando progressivamente naquilo que é.
Uma caricatura desta atitude é a
das curtas biografias dos políticos que às vezes os jornais publicam: aí, a
história do biografado, desde a infância, torna-se quase sempre um destino.
Trata-se sempre de personagens fadadas desde a infância para se tornarem, sem
falhas, naquilo que são. Os biógrafos entendem quase sempre como obrigatória a
passagem da vida do biografado para a sua obra. Ora, partir da obra para a vida
é não apenas muito mais interessante, mas também mais próximo da verdade que toda
a biografia visa.
Kracauer escreve numa altura em
que a ideia da “morte do romance” era glosada convictamente, e ele também não
evita esse tema sem derrames lutuosos. Ora, sendo o romance o género burguês
que veio substituir a epopeia numa época em que já não era possível dar sentido
a um herói épico, a biografia conserva, mesmo que com baixo teor, uma
componente épica, uma positividade heróica.
O discurso de Kracauer sobre a
biografia tem um aspecto histórico e outra sociológico. Há nele uma forte resistência
ideológica à biografia que se deve essencialmente ao facto de se tratar de uma
forma de literatura que satisfaz plenamente quem não quer arriscar um único
passo para além do seu limite individual e para além da sua própria classe. É
verdade que a forma literária da biografia, escreve Kracauer, é o signo de uma
fuga, ou antes, de uma esquiva. Mas de uma esquiva muito conservadora, que só
serve para dar algum suplemento de frescura ao lugar que se habita em
segurança.
A elite da nova burguesia que concede
tempo e privilégios à forma biográfica não se compromete seriamente em qualquer
tipo de dialéctica e sente-se confortada com um género que tem a pretensão de
erigir monumentos, mesmo que efémeros, aos grandes heróis. Heidegger, num
célebre curso de 1924 sobre Aristóteles, resolveu de maneira categórica, como
um epitáfio, a questão da monumentalização biográfica, dizendo que a única
coisa a registar na biografia de um filósofo é que nasceu em tal época,
trabalhou e morreu.
Livro de recitações
“[Héctor Bellerín] É um
futebolista improvável: defensor de causas progressistas como a luta LGBTQIA+ e
a luta antirracismo”
Carmo Afonso, in PÚBLICO, 6/2/2023
É possível vislumbrar um
pressuposto ou mesmo um princípio ideológico no modo como se declina aquela
série de letras maiúsculas que começam com um L e acabam com o sinal + . Há
quem só escreva LGBT, há quem acrescente a contragosto mais umas letrinhas, há
quem se sinta exausto quando chega ao + e reclame contra a perniciosa
“ideologia do género”. Carmo Afonso, pelo contrário, é tão generosa na
declinação que parece pertencer à categoria de quem cumpre sem protestos a
longa justaposição de letras maiúsculas, com um + a rematar. A quem acha que há
ali letras a mais, é preciso dizer que o que é próprio do género é a
proliferação e a invenção. O sinal + serve para dizer que a série tende para o
infinito e não há letras maiúsculas que cheguem, haverá sempre quem fica fora
da representação. Isto é novo? Não, foi sempre assim. Só que era quase tudo sem
nome.
https://www.publico.pt/2023/02/10/culturaipsilon/cronica/biografias-2038081
quinta-feira, 19 de janeiro de 2023
Trazer nos versos a «consciência do mundo» - Evocação de Eugénio de Andrade (1923/2005) no centenário do seu nascimento
ª Domingos LoboEugénio de Andrade, pseudónimo literário de José Fontinhas Neto, nasceu em Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão, a 19 de Janeiro de 1923. Filho de camponeses, o pai abandonou a família era Eugénio ainda criança. Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Castelo Branco, numa passagem breve, fixando-se em Lisboa a partir de 1932. Na capital frequentará o liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro.
A vocação literária de Eugénio de Andrade foi precoce, começa a manifestar-se por volta dos seus doze, treze anos. O gosto pela leitura leva-o a frequentar as bibliotecas públicas de Lisboa, a descobrir o mundo vasto e fantástico da leitura dado que, diz-nos ele em Rosto Precário, «em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia». Jack London, Júlio Verde, todo o Eça, Alexandre Dumas, Tolstoi, Gorki, Junqueiro e Aquilino, fazem parte do roteiro das suas leituras de adolescente.
Inicia a escrita dos seus primeiros poemas por volta dos treze anos, arriscando enviar alguns deles a António Botto, ao tempo um poeta famoso quer pelo estilo quer pelo modo transgressor dos conteúdos, sobretudo a partir da publicação do seu livro Canções. Botto gosta dos poemas do jovem José Fontinhas e incentiva-o a escrever mais e a publicar. É a partir deste incentivo que publicará, em 1939, aos dezasseis anos, o seu primeiro poema, quase pueril, intitulado Narciso, poema «sobre a beleza que se contempla e se compraz em si mesma», confessará em Rosto Precário, poema em que a influência de Botto, as suas coordenadas estéticas, está muito presente.
Passará, a partir da publicação desse poema, a assinar os seus textos com o pseudónimo Eugénio de Andrade, com o qual passará a cunhar todos os títulos da sua vasta e poliédrica obra. Em 1942 publicará Adolescente, o seu livro de estreia. Mais tarde retirará este livro da sua bibliografia, considerando que a sua verdadeira voz poética ainda não estava nele presente. A verdade é que a influência de Botto, e de Pessoa, cuja poesia conheceu através do poeta de Baionetas da Morte, está, nesse livro inicial, muito vincada.
Uma voz própria e inconfundível
Eugénio procurava a sua identidade, uma voz que fosse sua e inconfundível, e essa voz começa a definir-se nos seus Primeiros Poemas (1940), que ele, simbolicamente, dedica a Fernando Pessoa. Esses magníficos versos transportam já os sinais da sua voz plena e futura, como em Canção, que se transformará num dos seus mais famosos e antologiados poemas: Tinha um cravo no meu balcão;/veio um rapaz e pediu-mo/- mãe, dou-lho ou não?//Sentada, bordava um lenço de mão;/veio um rapaz e pediu-mo/- mãe, dou-lho ou não?//Dei um cravo e dei um lenço,/só não dei o coração;/mas se o rapaz mo pedir/-mãe, dou-lho ou não?
Essa voz madura e ressonante, surge, já definida e vigorosa, no livro As Mãos e os Frutos, de 1948, livro que o tornará um poeta reconhecido e singular, aplaudido pela crítica e pelos leitores que, a partir deste, o descobrem. As Mãos e os Frutos é ainda hoje um dos seus títulos mais emblemáticos, ao qual se juntará, já nos anos 1960, essa obra-prima da nossa poesia contemporânea que é Ostinato Rigore.
Os temas e o léxico que farão parte constante do seu modo poético, estão já plenamente definidos e presentes em As Mãos e os Frutos, como o amor sem sombra de amargura, os madrigais, que ele vai buscar a Pêro Meogo, a natureza, as árvores, os pássaros, a água, os barcos, a noite, o fascínio pelo corpo, pelos corpos, a que José Saramago chamará «poesia do corpo, a que chega mediante uma depuração contínua», o amor pela mãe, o lirismo próximo da matéria dos sonhos, como neste belíssimo poema de amor ao qual Luís Cília daria música e voz, transformando-o numa das nossas canções dos anos sombrios, onde a vida e a esperança se misturam e vibram: Fecundou-te a vida nos pinhais./Fecundou-te de seiva e de calos. /alargou-te o corpo pelos areais/onde o mar se espraia sem contorno e cor.//Pôs-te sonho onde havia apenas/silêncio de rosas por abrir,/e um jeito nas mãos morenas/de que sabe que o fruto há-de surgir.//Brotou água onde tudo era secura./Paz onde morava a solidão/E a certeza de que a sepultura/é uma cova onde não cabe o coração.
No seu livro seguinte, Os Amantes Sem Dinheiro (1949), Eugénio escreve num texto introdutório, referindo-se à sua terra de nascimento e aos anos que aí viveu, revelador de alguns dos aspectos, das memórias afectivas e das relações mais fecundas e perenes, a relação de amor/libertação com a progenitora é paradigmática, presentes na sua obra poética: Da casa da Eira só me lembro do quartito que se seguia à cozinha. Um tabique separava-nos da casa da Ti Ana, uma velhota a quem minha mãe às vezes me deixava a guardar. […] Uma manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. – Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fechada. […] E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos.
Em Os Amantes Sem Dinheiro, Eugénio inscreve uma série de poemas intemporais, que são ainda hoje referenciais do seu universo poético. Poemas como Os Amantes Sem Dinheiro, que dá título ao livro, Poema à Mãe e Adeus, constituem-se na sua vasta obra poética momentos raros e sublimes, que levaram Óscar Lopes a considerá-lo o mais perfeito dos poetas portugueses, sendo também o de maior público, e Eduardo Lourenço a referir a sua obra como A primeira e a mais pura expressão da poesia como arquitectura do real, a mais límpida manifestação da entrega sem reservas aos sortilégios do “puro poético”.
Coordenadas poéticas
A negação do luxo, da superficialidade, do egoísmo da vida contemporânea, a denúncia do acessório, da futilidade e dos horrores da guerra, são outras das coordenadas que a sua poesia também manifesta. No livro de 1951, As Palavras Interditas, escreve no poema Não é Verdade, a sua indignação: Não é verdade tanta loja de perfumes, não é verdade tanta rosa decepada,/tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,/tanto relógio, tanta pomba assassinada//Não quero para mim tanto veneno,/tanta madrugada varrida pelo gelo,/nem olhos pintados onde morre o dia,/nem beijos de lágrimas no meu cabelo. No poema que dá título ao livro, gritará a revolta e a solidão do nosso flutuante e amargo modo de estar vivo, numa linguagem que veicula o que é humano, como bem o entendeu Óscar Lopes: Dói-me esta água, este ar que se respira,/ dói-me esta solidão de pedra escura,/estas mãos nocturnas onde aperto/os meus dias quebrados na cintura.//E a noite cresce apaixonadamente./Nas suas margens nuas, desoladas,/cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas.
Já profissional do Ministério da Saúde, teve uma breve passagem por Coimbra (1943/1946), onde estabelece amizade com Miguel Torga e convive com outros poetas e críticos de gerações e opções estéticas diversas, como Carlos de Oliveira, Paulo Quintela, Afonso Duarte e Eduardo Lourenço. No entanto, a sua filiação literária, depois das influências iniciais de Botto, Pessoa e Casais Monteiro, mais Rimbaud, Lorca, Walt Whitman, estabelece-se com os poetas do denominado grupo dos independentes, ou seja, dos poetas que não pertenciam às duas correntes literárias então dominantes: o neorrealismo e o presencismo. Poetas como Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Natália Correia e António Ramos Rosa, nascidos entre 1919 (Sena e Sophia), 1923 (Natália) e 1924 (Ramos Rosa), terão pertencido a esse inorgânico grupo, tendo apenas em comum, com maior ou menor expressão, a sua preclara oposição ao regime fascista. As produções poéticas destes autores não deixaram, a espaços, de reflectir esse posicionamento cívico de um modo genérico, embora, e por vezes, ideologicamente confuso.
Colocado profissionalmente no Porto, como inspector administrativo do Ministério da Saúde, será nessa cidade que parecia um sindicato de viúvas, na expressão de João Villaret, que irá estabelecer-se a partir de 1950, aí vivendo até ao final dos seus dias, sendo considerado um dos seus mais ilustres habitantes. Aí conhecerá José da Cruz Santos, esse mestre das edições exemplares, seu editor e cúmplice, tendo grande parte da sua obra sido publicada pela mítica editora Inova.
Poeta como pedreiro
Em várias entrevistas, Eugénio fala-nos da revolução dos cravos e do País em que muita coisa mudou e assume no livro Epitáfios, o seu posicionamento político, em belos e simbólicos poemas, como este O Comum da Terra, tocante tributo a Vasco Gonçalves, recordando também os dias altos e fulgurantes de Abril, mas já a denunciar as margens que o incendiavam: Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas/Quem conheça o sul e a sua transparência/também sabe que no verão pelas veredas/da cal a crispação da sombra caminha devagar./De tanta palavra que disseste algumas/se perdiam, outras duram ainda, são lume/breve arado ceia de pobre roupa remendada./Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão/era morada e instrumento de alegria.//Esse eras tu: inclinação da água. Na margem/vento areias mastros lábios, tudo ardia.
Neste mesmo livro, mais um dos seus poemas antológicos, escrito ainda nos dias sombrios do caetanismo, mas já inundado pelas águas inquietas do porvir, anunciador das palavras que é urgente semear, palavras que aguardam na noite o sol e o vinho que haveríamos de beber em redor do fogo: Elegia das Águas Negras Para Che Guevara – Olhos apertados pelo medo/aguardam na noite o sol onde cresces,/onde te confundes com os ramos/de sangue do verão ou o rumor/dos pés brancos da chuva nas areias.//A palavra, como tu dizias, chega/húmida dos bosques: temos que semeá-la;/chega húmida da terra: temos que defendê-la;/chega com as andorinhas/que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.//Cada palavra tua é um homem de pé,/cada palavra tua faz do orvalho uma faca,/faz do ódio um vinho inocente/para bebermos contigo/no coração em redor do fogo.
Um outro poema ainda, intenso e magoado, que nos fala de José Dias Coelho e de Catarina, da morte de ambos às mãos do puro ódio fascista: […] dizias: espaço diurno onde o rumor/do sangue é um rumor de ave -/repara como voa, e poisa nos ombros/da Catarina que não cessam de matar.//Sem vocação para a morte, dizíamos. Também/ela, também ela a não tinha. Na planície/ branca era uma fonte: em si trazia/um coração inclinado para a semente do fogo.//Catarina ou José – o que é um nome?/Que nome nos impede de morrer,/quando se beija a terra devagar/ou uma criança trazida pela brisa?
Ao lermos estes poemas de Eugénio, e os significantes que os estruturam, apetece-nos dizer como Ramos Rosa: Rei Midas do verbo: palavra que tocasse virava ouro de lei.
Tradutor de Lorca, das Cartas Portuguesa, atribuídas a Mariana Alcoforado, dos poemas de Safo; organizador de diversas antologias; Prémio Camões, em 2001, Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, prémios da Crítica e da APE; poeta da plenitude e da esperança, poeta maior de um firmamento de notáveis, Eugénio de Andrade considerava que o seu trabalho de poeta seria um ofício equiparado ao de um pedreiro, profissão que fora a do seu avô: Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo.
Quando as palavras de um poeta nos tocam, esse acto em construção, primordial do ser, o poema é substância e argila. Pode moldar a nossa forma de entender e de habitar o mundo e dar-nos consciência do modo como o podemos transformar. Eugénio de Andrade é um desses raros poetas. Por isso, connosco caminha. Para sempre.
Bibliografia: Obras de Eugénio de Andrade; Prefácio de Óscar Lopes para Antologia Breve – Inova, 1972; A Poesia Portuguesa nos Meados do Século XX, de Maria de Fátima Marinho, Caminho, 1987; Incisões Oblíquas, de António Ramos Rosa, Caminho, 1987; Cifras do Tempo, de Óscar Lopes, Caminho, 1990.
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