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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Churchill - Discurso da 'Guerra fria', em Fulton (1946)

 

Em 5 de março de 1946, a presença de Winston Churchill e do presidente Harry Truman transformou o ginásio de uma faculdade em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano em um palco mundial, quando Churchill proferiu seu discurso mais famoso do pós-Segunda Guerra Mundial: "Os Nervos da Paz".

O fato de Churchill e Truman terem viajado até Fulton, no Missouri, é a história de um reitor universitário com a audácia de pedir o aparentemente impossível; de um ex-aluno do Westminster College com acesso ao Presidente dos Estados Unidos; de um Presidente dos Estados Unidos disposto a aceitar o convite; e de um primeiro-ministro britânico recém-derrotado com a perspicácia de reconhecer uma oportunidade.

É uma história de coincidência e de um momento aproveitado com ousadia — uma combinação que Churchill explorou ao longo de toda a sua vida.

~~~~~~õoo0oo~~~~~~

 
Fico feliz em vir ao Westminster College esta tarde e me sinto honrado por me concederem um diploma. O nome "Westminster" me é familiar. Parece que já ouvi falar dele antes. De fato, foi em Westminster que recebi grande parte da minha formação em política, dialética, retórica e mais algumas disciplinas. Aliás, ambos estudamos na mesma instituição, ou em instituições semelhantes, ou, pelo menos, em instituições afins.

É também uma honra, talvez quase única, para um visitante particular ser apresentado a uma plateia acadêmica pelo Presidente dos Estados Unidos. Em meio aos seus pesados ​​encargos, deveres e responsabilidades — não solicitados, mas dos quais não se esquiva — o Presidente viajou milhares de quilômetros para dignificar e abrilhantar nosso encontro aqui hoje e para me dar a oportunidade de me dirigir a esta nação irmã, bem como aos meus compatriotas do outro lado do oceano, e talvez também a alguns outros países. O Presidente disse-lhes que é seu desejo, como tenho certeza que é o de vocês, que eu tenha plena liberdade para oferecer meu conselho sincero e leal nestes tempos de ansiedade e incerteza.

Certamente aproveitarei esta liberdade e sinto-me ainda mais no direito de fazê-lo porque quaisquer ambições pessoais que eu possa ter nutrido na minha juventude foram satisfeitas para além dos meus sonhos mais ousados. Deixe-me, no entanto, deixar claro que não tenho qualquer missão ou posição oficial e que falo apenas por mim. Não há nada aqui além do que você vê.

Posso, portanto, permitir que minha mente, com a experiência de uma vida inteira, reflita sobre os problemas que nos afligem no dia seguinte à nossa vitória absoluta nas armas, e tentar garantir, com toda a força que me resta, que o que foi conquistado com tanto sacrifício e sofrimento seja preservado para a glória e segurança futuras da humanidade.

Os Estados Unidos encontram-se, neste momento, no auge do poder mundial. É um momento solene para a democracia americana, pois a primazia no poder vem acompanhada de uma responsabilidade inspiradora para com o futuro. Ao olhar ao redor, é preciso sentir não apenas a sensação de dever cumprido, mas também a ansiedade de não ficar aquém do nível de realização alcançado.

A oportunidade está aqui agora, clara e brilhante para ambos os nossos países. Rejeitá-la, ignorá-la ou desperdiçá-la trará sobre nós todas as longas reprovações do futuro.

É necessário que a constância de espírito, a persistência de propósito e a grande simplicidade de decisão guiem e regulem a conduta dos povos de língua inglesa em tempos de paz, assim como o fizeram em tempos de guerra. Devemos, e acredito que iremos, provar que estamos à altura dessa exigência rigorosa.

Quando militares americanos se deparam com alguma situação grave, costumam escrever no cabeçalho de suas diretrizes as palavras "Conceito Estratégico Geral". Há sabedoria nisso, pois leva à clareza de pensamento. Qual é, então, o conceito estratégico geral que devemos adotar hoje? Nada menos que a segurança e o bem-estar, a liberdade e o progresso de todos os lares e famílias de todos os homens e mulheres em todas as nações.

E aqui me refiro particularmente às inúmeras casas ou apartamentos onde o assalariado se esforça, em meio aos acidentes e dificuldades da vida, para proteger sua esposa e filhos da privação e criar a família no temor do Senhor, ou segundo concepções éticas que muitas vezes desempenham um papel importante.

Para garantir a segurança dessas inúmeras casas, elas devem ser protegidas dos dois saqueadores impiedosos: a guerra e a tirania.

Todos nós conhecemos os terríveis distúrbios em que a família comum mergulha quando a maldição da guerra se abate sobre o provedor e aqueles para quem ele trabalha e sustenta.

A terrível ruína da Europa, com todas as suas glórias desaparecidas, e de grandes partes da Ásia, nos encara de frente. Quando os desígnios de homens perversos ou o ímpeto agressivo de Estados poderosos dissolvem, em vastas áreas, a estrutura da sociedade civilizada, as pessoas humildes se veem diante de dificuldades insuperáveis. Para elas, tudo está distorcido, tudo está destruído, tudo está reduzido a pó.

Ao estar aqui nesta tarde tranquila, estremeço ao imaginar o que está realmente acontecendo com milhões de pessoas agora e o que acontecerá neste período em que a fome assola a Terra. Ninguém consegue calcular o que tem sido chamado de "a soma incalculável da dor humana". Nossa tarefa e dever supremos são proteger os lares do povo comum dos horrores e misérias de outra guerra. Todos concordamos com isso.

Nossos colegas militares americanos, após terem proclamado seu "conceito estratégico geral" e calculado os recursos disponíveis, sempre passam para a próxima etapa — ou seja, "o método". Aqui também há amplo consenso. Uma organização mundial já foi criada com o objetivo primordial de prevenir a guerra. A ONU, sucessora da Liga das Nações, com a adição decisiva dos Estados Unidos e tudo o que isso implica, já está em funcionamento.

Devemos garantir que seu trabalho seja frutífero, que seja uma realidade e não uma farsa, que seja uma força para a ação e não apenas uma enxurrada de palavras, que seja um verdadeiro templo da paz onde os escudos de muitas nações possam um dia ser erguidos, e não apenas uma arena na Torre de Babel.

Antes de descartarmos as sólidas garantias do armamento nacional em nome da autopreservação, devemos ter certeza de que nosso templo não está construído sobre areias movediças ou pântanos, mas sobre a rocha. Qualquer um pode ver, com os olhos bem abertos, que nosso caminho será difícil e longo, mas se perseverarmos juntos como fizemos nas duas guerras mundiais — embora não, infelizmente, no intervalo entre elas — não tenho dúvidas de que alcançaremos nosso objetivo comum no final.

Tenho, no entanto, uma proposta concreta e prática para ação. Tribunais e magistrados podem ser criados, mas não podem funcionar sem xerifes e agentes da lei. A Organização das Nações Unidas deve começar imediatamente a ser equipada com uma força armada internacional.

Em tal assunto, só podemos proceder passo a passo, mas devemos começar agora. Proponho que cada uma das potências e estados seja convidada a dedicar um certo número de esquadrões aéreos ao serviço da Organização Mundial. Esses esquadrões seriam treinados e preparados em seus respectivos países, mas se deslocariam em sistema de rodízio entre eles. Usariam o uniforme de seus países, porém com distintivos diferentes.

Eles não seriam obrigados a agir contra a própria nação, mas, em outros aspectos, seriam orientados pela Organização Mundial. Isso poderia começar em pequena escala e cresceria à medida que a confiança aumentasse. Eu desejava ver isso realizado após a Primeira Guerra Mundial e confio sinceramente que possa ser feito imediatamente.

Seria, contudo, errado e imprudente confiar o conhecimento secreto ou a experiência com a bomba atômica, que os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Canadá agora compartilham, à Organização Mundial enquanto esta ainda está em seus primórdios. Seria uma loucura criminosa lançá-la à deriva neste mundo ainda agitado e desunido. Ninguém em nenhum país dormiu menos tranquilo por esse conhecimento, o método e as matérias-primas para aplicá-lo estarem, atualmente, em grande parte, em mãos americanas.

Não creio que teríamos dormido tão tranquilamente se as posições fossem invertidas e algum Estado comunista ou neofascista monopolizasse, temporariamente, essas agências temíveis. O mero medo delas poderia facilmente ter sido usado para impor sistemas totalitários ao mundo livre e democrático, com consequências assombrosas para a imaginação humana. Deus quis que isso não aconteça, e temos pelo menos um respiro para colocar a casa em ordem antes de enfrentarmos esse perigo, e mesmo assim, se não pouparmos esforços, ainda possuiremos uma superioridade tão formidável que nos permitirá impor dissuasões eficazes contra o seu uso, ou a ameaça de seu uso, por outros.

Em última análise, quando a fraternidade essencial da humanidade estiver verdadeiramente incorporada e expressa em uma organização mundial com todas as salvaguardas práticas necessárias para torná-la eficaz, esses poderes serão naturalmente confiados a essa organização mundial.

Agora, passo ao segundo perigo desses dois invasores que ameaça o lar e o cidadão comum: a tirania. Não podemos ignorar o fato de que as liberdades desfrutadas pelos cidadãos em todo o Império Britânico não são válidas em um número considerável de países, alguns dos quais muito poderosos.

Nesses Estados, o controle é imposto ao povo comum por diversos tipos de governos policiais abrangentes,  a um grau opressivo  e contrário a todos os princípios da democracia . O poder do Estado é exercido sem restrições, seja por ditadores, seja por oligarquias coesas que operam por meio de um partido privilegiado e uma polícia política. Não é nosso dever, neste momento, em que as dificuldades são tão numerosas, interferir à força nos assuntos internos de países que não conquistamos em guerra.

Mas jamais devemos deixar de proclamar, em tom destemido, os grandes princípios da liberdade e dos direitos do homem, que são herança comum do mundo anglófono e que, por meio da Magna Carta, da Declaração de Direitos, do Habeas Corpus, do julgamento por júri e do Direito Comum Inglês, encontram sua expressão mais famosa na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Tudo isso significa que o povo de qualquer país tem o direito e deve ter o poder, por meio de ações constitucionais, através de eleições livres e irrestritas com voto secreto, de escolher ou mudar o caráter ou a forma de governo sob o qual vive; que a liberdade de expressão e de pensamento deve prevalecer; que tribunais de justiça, independentes do executivo, imparciais a qualquer partido, devem administrar leis que receberam a ampla aprovação de grandes maiorias ou que foram consagradas pelo tempo e pelo costume. Eis os títulos de propriedade da liberdade, que deveriam estar presentes em cada lar. Eis a mensagem dos povos britânico e americano para a humanidade. Preguemos o que praticamos, pratiquemos o que pregamos.

Já mencionei os dois grandes perigos que ameaçam os lares do povo: a guerra e a tirania. Ainda não falei da pobreza e da privação, que em muitos casos são a principal preocupação. Mas se os perigos da guerra e da tirania forem eliminados, não há dúvida de que a ciência e a cooperação poderão trazer ao mundo, nos próximos anos, e certamente nas próximas décadas, com o conhecimento adquirido na escola da guerra, uma expansão do bem-estar material que ultrapasse qualquer coisa já vista na experiência humana.

Agora, neste momento triste e sufocante, estamos mergulhados na fome e na angústia que são as consequências de nossa luta colossal; mas isso passará, e poderá passar rapidamente, e não há razão, a não ser a insensatez humana ou o crime desumano, que negue a todas as nações a inauguração e o desfrute de uma era de abundância. Muitas vezes usei palavras que aprendi há cinquenta anos com um grande orador irlandês-americano, um amigo meu, o Sr. Bourke Cockran: "Há o suficiente para todos. A terra é uma mãe generosa; ela proverá em abundância alimento para todos os seus filhos, se eles cultivarem seu solo com justiça e paz."

Até o momento, acredito que estamos em total acordo. Agora, enquanto ainda buscamos o método para concretizar nosso conceito estratégico geral, chego ao ponto crucial que me trouxe até aqui.

Nem a prevenção segura da guerra, nem a ascensão contínua da organização mundial serão alcançadas sem o que chamei de associação fraterna dos povos de língua inglesa. Isso significa uma relação especial entre a Comunidade Britânica e o Império Britânico e os Estados Unidos. Não é hora para generalidades, e ousarei ser preciso.

A associação fraterna exige não apenas o crescimento da amizade e da compreensão mútua entre nossos dois vastos, porém afins, sistemas sociais, mas também a continuidade da estreita relação entre nossos conselheiros militares, levando ao estudo conjunto de potenciais perigos, à similaridade de armamentos e manuais de instruções, e ao intercâmbio de oficiais e cadetes em escolas técnicas. Deveria incluir a manutenção das atuais facilidades de segurança mútua por meio do uso conjunto de todas as bases navais e aéreas de ambos os países ao redor do mundo. Isso talvez dobrasse a mobilidade da Marinha e da Força Aérea americanas.

Isso ampliaria consideravelmente as Forças do Império Britânico e poderia muito bem levar, se e quando a situação mundial se acalmar, a importantes economias financeiras. Já utilizamos em conjunto um grande número de ilhas; outras poderão ser confiadas aos nossos cuidados conjuntos num futuro próximo.

Os Estados Unidos já possuem um Acordo de Defesa Permanente com o Domínio do Canadá, que é tão devotamente ligado à Comunidade Britânica e ao Império. Este Acordo é mais eficaz do que muitos dos que foram frequentemente firmados no âmbito de alianças formais.

Este princípio deve ser estendido a todas as comunidades britânicas, com plena reciprocidade. Assim, aconteça o que acontecer, e somente assim, estaremos seguros e aptos a trabalhar juntos pelas causas nobres e simples que nos são caras e que não representam nenhum mal para ninguém. Eventualmente, poderá surgir — e acredito que surgirá — o princípio da cidadania comum, mas talvez nos contentemos em deixá-lo ao destino, cujo braço estendido muitos de nós já conseguimos vislumbrar claramente.

No entanto, há uma questão importante que devemos nos fazer. Uma relação especial entre os Estados Unidos e a Comunidade Britânica seria incompatível com nossa lealdade primordial à Organização Mundial? Respondo que, pelo contrário, é provavelmente o único meio pelo qual essa organização alcançará sua plena estatura e força.

Já existem as relações especiais dos Estados Unidos com o Canadá, que acabei de mencionar, e existem as relações entre os Estados Unidos e as repúblicas sul-americanas. Nós, britânicos, temos o nosso Tratado de Vinte Anos de Colaboração e Assistência Mútua com a União Soviética.

Concordo com o Sr. Bevin, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, que, no que nos diz respeito, bem poderia ser um Tratado de Cinquenta Anos. Nosso objetivo é apenas a assistência e a colaboração mútuas. Os britânicos têm uma aliança com Portugal ininterrupta desde 1384, que produziu resultados frutíferos em momentos críticos da guerra recente. Nada disso entra em conflito com o interesse geral de um acordo mundial ou de uma organização mundial; pelo contrário, contribui para isso. "Na casa de meu Pai há muitas moradas."

Associações especiais entre membros das Nações Unidas que não têm qualquer propósito agressivo contra outro país, que não abrigam qualquer desígnio incompatível com a Carta das Nações Unidas, longe de serem prejudiciais, são benéficas e, a meu ver, indispensáveis.

Falei anteriormente sobre o Templo da Paz. Trabalhadores de todos os países devem construir esse templo. Se dois desses trabalhadores se conhecem particularmente bem e são velhos amigos, se suas famílias estão interligadas e se eles têm "fé no propósito um do outro, esperança no futuro um do outro e benevolência para com as falhas um do outro" — para citar algumas belas palavras que li aqui outro dia — por que não podem trabalhar juntos na tarefa comum como amigos e parceiros? Por que não podem compartilhar suas ferramentas e, assim, aumentar a capacidade de trabalho um do outro?

Na verdade, eles devem fazê-lo, caso contrário o templo poderá não ser construído, ou, sendo construído, poderá ruir, e todos nós seremos novamente considerados incapazes de aprender e teremos que ir e tentar aprender novamente pela terceira vez em uma escola de guerra, incomparavelmente mais rigorosa do que aquela da qual acabamos de ser libertados.

A Idade das Trevas pode retornar, a Idade da Pedra pode retornar nas asas brilhantes da ciência, e aquilo que agora pode derramar bênçãos materiais imensuráveis ​​sobre a humanidade, pode até mesmo trazer sua destruição total.

Cuidado, eu digo; o tempo pode ser curto. Não deixemos que os acontecimentos se prolonguem até que seja tarde demais.

Se houver uma associação fraterna do tipo que descrevi, com toda a força e segurança adicionais que ambos os nossos países podem obter dela, asseguremo-nos de que esse grande fato seja conhecido pelo mundo e que desempenhe o seu papel na consolidação e estabilização dos alicerces da paz. Esse é o caminho da sabedoria. Prevenir é melhor que remediar.

Uma sombra paira sobre os cenários tão recentemente iluminados pela vitória dos Aliados. Ninguém sabe o que a Rússia Soviética e sua organização internacional comunista pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites, se é que existem, de suas tendências expansionistas e proselitistas. Tenho grande admiração e respeito pelo valente povo russo e pelo meu camarada de guerra, o Marechal Stalin. Há profunda simpatia e boa vontade na Grã-Bretanha — e não duvido que também aqui — para com os povos de todos os russos e uma determinação em perseverar, apesar de muitas diferenças e rejeições, no estabelecimento de amizades duradouras. Compreendemos a necessidade russa de ter segurança em suas fronteiras ocidentais, eliminando toda possibilidade de agressão alemã.

Damos as boas-vindas à Rússia ao seu devido lugar entre as principais nações do mundo. Saudamos o hasteamento de sua bandeira nos mares. Acima de tudo, saudamos os contatos constantes, frequentes e crescentes entre o povo russo e o nosso povo em ambos os lados do Atlântico. É meu dever, porém, pois tenho certeza de que desejariam que eu lhes apresentasse os fatos como os vejo, expor-lhes certos fatos sobre a situação atual na Europa.

De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha encontram-se todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas cidades famosas e as populações ao seu redor estão no que eu chamaria de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas também a um controle muito elevado e, em muitos casos, crescente por parte de Moscou.

Somente Atenas — a Grécia com suas glórias imortais — tem a liberdade de decidir seu futuro em uma eleição sob a supervisão britânica, americana e francesa. O governo polonês, dominado pela Rússia, foi incentivado a fazer incursões enormes e injustas na Alemanha, e expulsões em massa de milhões de alemães, em uma escala terrível e inimaginável, estão ocorrendo agora. Os partidos comunistas, que eram muito pequenos em todos esses Estados do Leste Europeu, ascenderam a uma preeminência e a um poder muito além de sua representatividade e buscam, em todos os lugares, obter o controle totalitário.

Governos policiais prevalecem em quase todos os casos e, até agora, com exceção da Checoslováquia, não há verdadeira democracia. A Turquia e a Pérsia estão profundamente alarmadas e perturbadas com as exigências que lhes são feitas e com a pressão exercida pelo governo de Moscou. Os russos em Berlim estão tentando construir um partido quase comunista em sua zona da Alemanha ocupada, concedendo favores especiais a grupos de líderes alemães de esquerda.

Ao final dos combates em junho passado, os exércitos americano e britânico recuaram para oeste, de acordo com um acordo prévio, até uma profundidade de 150 milhas em alguns pontos, numa frente de quase quatrocentas milhas, a fim de permitir que nossos aliados russos ocupassem essa vasta extensão de território que as democracias ocidentais haviam conquistado.

Se agora o governo soviético tentar, por meio de ações isoladas, construir uma Alemanha pró-comunista em seus territórios, isso causará novas e sérias dificuldades nas zonas britânica e americana, e dará aos alemães derrotados o poder de se colocarem em leilão entre os soviéticos e as democracias ocidentais. Quaisquer que sejam as conclusões que se possam tirar desses fatos — e são fatos —, certamente esta não é a Europa Libertada pela qual lutamos. Nem é uma Europa que contenha os elementos essenciais para uma paz duradoura.

A segurança do mundo exige uma nova unidade na Europa, da qual nenhuma nação seja permanentemente excluída. É das disputas entre as principais potências europeias que surgiram as guerras mundiais que testemunhamos, ou que ocorreram em tempos passados.

Duas vezes em nossa própria geração vimos os Estados Unidos, contra a sua vontade e as suas tradições, contra argumentos cuja força é impossível não compreender, serem arrastados por forças irresistíveis para essas guerras a tempo de garantir a vitória da boa causa, mas somente depois de terem ocorrido terríveis massacres e devastação.

Por duas vezes os Estados Unidos tiveram que enviar milhões de seus jovens através do Atlântico para combater a guerra; mas agora a guerra pode encontrar qualquer nação, onde quer que esteja entre o crepúsculo e o amanhecer. Certamente devemos trabalhar com propósito consciente por uma grande pacificação da Europa, dentro da estrutura das Nações Unidas e de acordo com a nossa Carta. Considero essa uma causa política aberta de suma importância.

Diante da Cortina de Ferro que se estende por toda a Europa, existem outros motivos de preocupação. Na Itália, o Partido Comunista enfrenta sérias dificuldades por ter que apoiar as reivindicações do Marechal Tito, formado no comunismo, sobre o antigo território italiano na cabeceira do Adriático. Contudo, o futuro da Itália permanece incerto.

Mais uma vez, não se pode imaginar uma Europa regenerada sem uma França forte. Toda a minha vida pública trabalhei por uma França forte e nunca perdi a fé em seu destino, nem mesmo nos momentos mais sombrios. Não perderei a fé agora. No entanto, em um grande número de países, longe das fronteiras russas e em todo o mundo, quintas colunas comunistas estão estabelecidas e atuam em completa unidade e absoluta obediência às diretrizes que recebem do centro comunista. Exceto na Comunidade Britânica e nos Estados Unidos, onde o comunismo está em sua infância, os partidos comunistas ou quintas colunas constituem um desafio e um perigo crescentes para a civilização cristã.

São fatos sombrios para qualquer um ter que recitá-los no dia seguinte a uma vitória conquistada por tanta camaradagem em armas e pela causa da liberdade e da democracia; mas seríamos muito insensatos se não os encarássemos de frente enquanto ainda há tempo.

A situação também é preocupante no Extremo Oriente, especialmente na Manchúria. O Acordo de Yalta, do qual participei, foi extremamente favorável à União Soviética, mas foi firmado num momento em que ninguém podia afirmar que a guerra com os alemães não se estenderia por todo o verão e outono de 1945, e quando se previa que a guerra com os japoneses duraria mais 18 meses após o fim da guerra com os alemães. Neste país, vocês são todos tão bem informados sobre o Extremo Oriente e tão dedicados amigos da China, que não preciso me alongar sobre a situação naquela região.

Senti-me na obrigação de retratar a sombra que, tanto no Ocidente quanto no Oriente, paira sobre o mundo. Eu era ministro na época do Tratado de Versalhes e amigo íntimo do Sr. Lloyd-George, que chefiava a delegação britânica em Versalhes. Eu mesmo não concordava com muitas das coisas que foram feitas, mas guardo uma forte impressão daquela situação, e acho doloroso contrastá-la com a que prevalece agora. Naqueles dias, havia grandes esperanças e uma confiança ilimitada de que as guerras haviam terminado e que a Liga das Nações se tornaria onipotente.

Não vejo nem sinto essa mesma confiança, nem mesmo as mesmas esperanças, no mundo devastado que se encontra atualmente.

Por outro lado, repudio a ideia de que uma nova guerra seja inevitável; e muito menos que seja iminente. É porque tenho certeza de que nosso destino ainda está em nossas próprias mãos e que detemos o poder de salvar o futuro, que sinto o dever de me manifestar agora que tenho a ocasião e a oportunidade de fazê-lo. Não acredito que a Rússia Soviética deseje a guerra. O que eles desejam são os frutos da guerra e a expansão indefinida de seu poder e doutrinas.

Mas o que temos de considerar hoje, enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento de condições de liberdade e democracia o mais rapidamente possível em todos os países. Nossas dificuldades e perigos não serão eliminados se fecharmos os olhos para eles. Não serão eliminados simplesmente esperando para ver o que acontece; nem serão eliminados por uma política de apaziguamento. O que é necessário é um acordo, e quanto mais se adiar esse acordo, mais difícil ele será e maiores serão os nossos perigos.

Pelo que observei de nossos amigos e aliados russos durante a guerra, estou convencido de que nada os encanta tanto quanto a força, e nada inspira menos respeito do que a fraqueza, especialmente a fraqueza militar. Por essa razão, a antiga doutrina do equilíbrio de poder é falha. Não podemos nos dar ao luxo, se pudermos evitar, de trabalhar com margens estreitas, cedendo à tentação de uma demonstração de força. Se as democracias ocidentais se mantiverem unidas, em estrita observância aos princípios da Carta das Nações Unidas, sua influência na promoção desses princípios será imensa e ninguém ousará perturbá-las.

Contudo, se eles se dividirem ou vacilarem no cumprimento do seu dever, e se estes anos tão importantes forem deixados escapar, então, de fato, uma catástrofe poderá nos atingir a todos.

Da última vez, eu vi tudo isso se aproximando e clamei aos meus compatriotas e ao mundo, mas ninguém me deu ouvidos. Até o ano de 1933, ou mesmo 1935, a Alemanha poderia ter sido salva do terrível destino que a atingiu e todos nós poderíamos ter sido poupados das misérias que Hitler desencadeou sobre a humanidade.

Nunca houve na história uma guerra mais fácil de prevenir com uma ação oportuna do que aquela que acaba de devastar vastas áreas do globo. Acredito que ela poderia ter sido evitada sem que um único tiro fosse disparado, e a Alemanha poderia ser hoje poderosa, próspera e honrada; mas ninguém quis ouvir e, um a um, fomos todos tragados pelo terrível turbilhão. Certamente não podemos deixar que isso aconteça novamente.

Isso só poderá ser alcançado se, agora, em 1946, chegarmos a um bom entendimento em todos os pontos com a Rússia, sob a autoridade geral da Organização das Nações Unidas, e se esse bom entendimento for mantido ao longo de muitos anos de paz, por meio do instrumento mundial, apoiado por toda a força do mundo anglófono e todas as suas conexões. Eis a solução que respeitosamente lhes apresento neste discurso, ao qual dei o título "Os Nervos da Paz".

Que ninguém subestime o poder duradouro do Império Britânico e da Commonwealth. Porque vocês veem os 46 milhões de habitantes da nossa ilha afligidos com a falta de alimentos, dos quais produzem apenas metade, mesmo em tempos de guerra, ou porque temos dificuldade em reativar nossas indústrias e o comércio de exportação após seis anos de intenso esforço de guerra, não suponham que não superaremos estes anos sombrios de privação, assim como superamos os gloriosos anos de agonia, ou que, daqui a meio século, vocês não verão 70 ou 80 milhões de britânicos espalhados pelo mundo, unidos na defesa de nossas tradições, nosso modo de vida e das causas mundiais que vocês e nós defendemos.

Se a população dos países de língua inglesa for somada à dos Estados Unidos, com tudo o que essa cooperação implica no ar, no mar, em todo o globo, na ciência, na indústria e na força moral, não haverá um equilíbrio de poder instável e precário que ofereça a tentação da ambição ou da aventura. Pelo contrário, haverá uma garantia de segurança inabalável.

Se aderirmos fielmente à Carta das Nações Unidas e avançarmos com força serena e sóbria, sem buscar as terras ou os tesouros de ninguém, sem tentar exercer controle arbitrário sobre os pensamentos dos homens; se todas as forças e convicções morais e materiais britânicas se unirem às suas em fraternidade, os caminhos do futuro estarão claros, não apenas para nós, mas para todos, não apenas para o nosso tempo, mas para o século vindouro.

Winston Churchill

5 de março de 1946

Faculdade Westminster, Fulton, Missouri

https://www.nationalchurchillmuseum.org/sinews-of-peace-iron-curtain-speech.html

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O discurso de Lídia Jorge, Prémio Pessoa 2026

  

"O mundo de hoje, descomposto, está à beira do estado de alucinação global"

A escritora Lídia Jorge recebe hoje o Prémio Pessoa 2025. Na cerimónia marcam presença o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o CEO da Impresa, Francisco Pedro Balsemão. O Expresso publica na íntegra o discurso de Lídia Jorge

  • Face

10 fevereiro 2026 

Receber o Prémio Pessoa, pela sua natureza e pelo nome do seu patrono, intimida. Não sei se os meus antecessores mais próximos na área da Literatura, os poetas João Luís Barreto Guimarães e José Tolentino Mendonça o sentiram. Eu, sim, e para tanto, preciso de imaginar que o anjo do bom humor se encontra pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.

No mundo da Literatura, o poeta Pessoa é mais do que um rei, é o maior poeta do Século XX. Tudo na sua obra, de que a sua vida é um capítulo, e não contrário, é poderoso e tocante. Até mesmo as suas contradições colossais. Richard Zenith, na extraordinária biografia que escreveu sobre Pessoa, define-o a dado passo como aquele que diante do visível, fosse de que género fosse, e de forma absoluta, procurava o invisível.

Claro que o que ele buscava, como é próprio de quem se move no domínio da Literatura e das Artes, é do domínio do invisível, alguma coisa que se aproxima da demanda pela alma do mundo. Mas nenhuma das outras disciplinas que este Prémio abarca, mesmo que ande longe dessa finalidade última, dispensa a escada íngreme da busca de alguma coisa que transcende o facilmente alcançável. Pessoa foi selectivo, contante, obsessivo, fez de si mesmo uma entrega total. Para todos os ramos da Ciência, das Artes, da Cultura e do Pensamento reflexivo que são contemplados, a referência ao nome de Pessoa funciona como uma cúpula e um arco-botante.

Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo. E esse é um legado extraordinário.

 Devo dizer que a minha aproximação à obra de Pessoa conheceu vários capítulos e começou muito antes de o poeta se ter transformado em mito. Ainda não tinha dado o nome a ruas e praças, nem a sua efígie andava na capa dos chocolates. Eu tinha treze anos quando me compraram a primeira “Selecta Literária”. O século XX vinha no fim. Vivia hospedada na casa de um casal de vegetarianos que lia muito. O Senhor Ferreira começou a folhear a selecta e disse – “Olha, tens aqui um poema para ti”. O poema dizia assim – “Vem Sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio/Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas… Enlacemos as mãos…” O Senhor Ferreira leu em voz alta, depois li eu. O Senhor Ferreira achava que o poema era muito triste, eu não achava. Para mim, a tristeza até era boa, era um triunfo, estava lá o meu nome. Quem o tinha escrito chamava-se Ricardo Reis. É extraordinário o que se pensa quando se tem treze anos. O mundo inteiro ainda é o prolongamento de nós mesmos, e nós, uns pirralhos, somos um centro totalitário absoluto, aos treze anos. Mas entre os treze e os dezasseis, esse poema deixou de ser um recado melancólico que um jovem distante me enviava e passou a ser o que deveria ser, literatura. Contudo, o imbroglio da heteronomia só se me desembrulhou quando Maria Aliete Galhoz começou a convidar-me para sua casa na praia.

Era na Praia dos Olhos de Água, entre o barlavento e o sotavento algarvio. Com ela vivia também o seu sobrinho, o actor José Manuel Mendes, e por lá passava Michel Giacometti, o musicólogo corso, que se apaixonou pela música popular portuguesa e andava a salvar canções. Maria Aliete Galhoz descia de tarde à praia e levava consigo um cesto. Dentro do cesto, cadernos, e dentro dos cadernos, fitas de papel com letras miúdas manuscritas. Um dia mostrou-me uma dessas fitas. Não sabia se era um E ou um C. Andava a decifrar palavras de Fernando Pessoa. Nunca irei esquecer. Mas Maria Aliete esqueceu. Nos últimos encontros em Lisboa, quando evoquei esses passeios à beira-mar, ela negou, disse que nunca tinha decifrado nada de Pessoa. Ou ela ou eu estávamos enganadas. Naquele momento, eu senti que não éramos verdade, que ela, a primeira grande pessoana, e eu sua admiradora juvenil, companheira de passeio à beira-mar, nós duas, não passávamos de dois sonhos pessoanos evasivos.

O que significa que, a pouco e pouco, como leitora comum, a obra de Pessoa foi-se instalando, no seu formato de irradiação fragmentada, e naturalmente que passei a escolher a máscara que mais me dizia respeito e onde ainda permaneço imaginando-me aparentada. Uma fantasia, mas na verdade é Álvaro de Campos quem me diz respeito. Não vale a pena explicar porquê. Mas talvez valha a pena referir que em 1966, na Revista “O Tempo e o Modo”, Eduardo Lourenço publicou aquele célebre ensaio com o título de “Uma Literatura Desenvolta ou os filhos de Álvaro De Campos”, associando a geração dos anos sessenta à ambição do engenheiro naval que andou por Glasgow. Posteriormente, Eduardo não voltaria mais a fazer essa associação entre o autor das Odes e da Tabacaria, às gerações que depois, nos anos oitenta e noventa ele viu surgir. Possivelmente, não encontrou em nós, narradores surgidos com a Democracia, nem o cosmopolitismo, nem a dinâmica técnica e subjectividade caótica do poeta futurista, que ele mesmo, Eduardo Lourenço, gémeo fraterno de Pessoa, reconhecia como a verdadeira lava ardente criadora.

Nós, os que viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser. Só que eu, provavelmente, não serei filha de Álvaro de Campos, serei quanto muito uma trineta afastada, embora me identifique, no Cartão de Cidadão da fantasia literária, como uma sua parente.

Com a liberdade que a ficção permite, a Ode Marítima, esses quase mil versos que falam do grande pirata europeu que levou algum bem aos outros continentes, mas de que a actualidade só evoca os males, a partir dessa ode, escrevi um livro. E a minha obsessão, partilhada com milhões de leitores em Portugal e à volta do mundo, não fica por aí. Os fragmentos que são conhecidos como a Ode à noite, constituem uma outra parte da minha obsessão. Comos seria a ode se estivesse completa? Será legítimo tentar completá-la? - Não vou contar tudo o que se passa entre essa ode e a minha pessoa, só alguma coisa. É que ultimamente tenho pedido a poetas que tentem completá-la e ninguém ousa. Então virei-me para os chats. Pedi à minha amiga Dora Gago que procurasse nos Chats GPT e Gemini esse continuado, e o resultado foi do mais interessante que há. Com a limpidez do vidro e a desenvoltura dos relâmpagos, os chats ofereceram gratuitamente duas soluções acabadas. Acabadas, mas falsas. A antiga retórica ensinava que num texto havia três componentes distintas, a invenção, a composição e a elocutio, isto é a linguagem. Os chats em questão imitaram o que era possível imitar, o tipo de linguagem. O chat, como um ladrão furtivo, roubou daqui e dali e no escuro da imaterialidade, criou uma falsidade. No entanto, não é fácil desmontá-la.

Nós, os que viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser.

 Talvez tudo o que eu tenha estado a dizer, nesta circunstância, tenha sido para chegar até aqui. É que para avaliar o que se passa com o mundo de hoje, descomposto, à beira do estado de alucinação global, é bom usar a Poética como campo de pesquisa. A Poesia corresponde à articulação mais sofisticada das línguas, a metáfora corresponde a uma engenharia alquímica da linguagem, ela serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso. Um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos. Na realização da poesia, instrumento de liberdade que a cada poema inaugura um mundo, prova-se os ilimites da nossa invenção. Nela a linguagem surge como o reduto mais importante da nossa condição de sujeitos autónomos, um recanto do ser que se deixarmos violar determinará a nossa capitulação. É uma meta preciosa para nos balizarmos. Cedendo, a partir daí, tudo será pós, pós-palavra, pós- ciência, pós- literatura, pós- humano, pós-História e pós-humanidade. Miguel Bastos Araújo, o biogeógrafo que venceu o Prémio Pessoa em 2018, alertando para o desequilíbrio entre alterações climáticas e a sobrevivência das espécies, a dado momento da entrevista que na altura dava ao Expresso, dizia – “Se olharmos para o que fizemos no passado, o que estamos a fazer e o que projectamos para o futuro, vemos que não vamos a tempo”. Em relação os seres humanos a mesma pergunta é legítima. Nós somos uma espécie no meio das outras espécies. No ecossistema do pensamento, estaremos a tempo?

Na realização da poesia, instrumento de liberdade que a cada poema inaugura um mundo, prova-se os ilimites da nossa invenção. Nela a linguagem surge como o reduto mais importante da nossa condição de sujeitos autónomos, um recanto do ser que se deixarmos violar determinará a nossa capitulação

O início do excerto dessa ode incompleta de Álvaro de Campos de que falávamos começa por esses versos que muitos portugueses sabem de cor – “Vem, Noite antiquíssima e idêntica/ Noite rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio. Noite/ Com as estrelas lantejoilas rápidas/ No teu vestido franjado de infinito…” Sabe-se como é. Continua-se, e diante dos nossos olhos, não fica só a Noite, fica o Cosmos. Não o Cosmos físico, o das forças que só se conhecem porque resultam do cálculo matemático e da ideação física, mas o Cosmos como nosso irmão da Criação, o relacional, aquele cujo sentido nos interpela enquanto pedaço que somos dele. Quando esses versos foram escritos por Pessoa, Álvaro de Campos, ainda Einstein andava a remoer a Lei da Relatividade. Stephen Hawking ainda demoraria a nascer, e faltaria quase um século para Peter Higgs revelar as imagens que representam ao bosão de Deus, mas Pessoa, que não era nem físico nem astrofísico, antes de todos eles, falou do sentimento de sideração e espanto, aniquilamento e elevação suprema que um ser humano experimenta diante da magnitude e dos segredos calculáveis, mas indizíveis, do Espaço, tal como se nos apresenta hoje em dia. Pessoa disse o que é possível dizer com palavras nossas, personificados no afecto maternal – “Noite, Vem e embala-nos,/ Vem e afaga-nos,/ Beija-me silenciosamente na fronte/ Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beija/ E um vago soluço…/ Talvez porque a alma é grande e a vida é pequena..”

A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse. Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado. Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim enquanto formos donos dela.

Por isso, eu desejo, como recém chegada, que este Prémio, que tem uma genealogia de 37 edições tão assinalável, continue a ir de vez em quando à procura dos que se entregam a manter o mundo humano, humano, pelo poder das palavras.

Obrigada.

 https://expresso.pt/cultura/2026-02-10-o-discurso-de-lidia-jorge-premio-pessoa-2025-o-mundo-de-hoje-descomposto-esta-a-beira-do-estado-de-alucinacao-global-e06c4cd7

Lídia Jorge, Marcelo de Sousa e o Prémio Fernando Pessoa

 * Christiana Martins, Jornalista~

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”

Pouco a pouco, o Presidente da República vai-se despedindo dos portugueses. No final desta tarde, apesar da chuva e do tempo cinzento, no átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, a audiência, repleta de figuras da política, da economia e das letras, marcou presença para o ouvir. E a vencedora do Prémio Pessoa de 2025 não o poupou à emoção

10 fevereiro 2026   

O átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos encheu-se esta terça-feira para ouvir a escritora agraciada com o Prémio Pessoa 2025 e para, mais uma vez, abraçar, cumprimentar o ainda chefe de Estado. Desde a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, a Leonor Beleza, Guilherme D'Oliveira Martins, Pedro Abrunhosa e à reitora da Universidade Católica, Isabel Capeloa Gil, bem como vários banqueiros, empresários e premiados das edições anteriores.

“Querida premiada”, foi como Marcelo Rebelo de Sousa se dirigiu a Lídia Jorge. E, depois de recordar Francisco Pinto Balsemão e "o seu contributo para a projeção da língua portuguesa no mundo", o Presidente da República falou de literatura com o à vontade de quem navega na Cultura como quem nada no mar de Cascais.

Fez uma digressão diacrónica e detalhada sobre a obra da autora, sublinhando a presença do Algarve, de África, o papel da mulher e dos feminismos e “o registo que se aproxima da auto-ficção de ‘Misericórdia’” e a atenção à população mais velha. Nem a coluna de Lídia Jorge no jornal “El País” foi esquecida.

Por fim, falou do controverso discurso do 10 de Junho do ano passado. "Um escritor é um estilo e uma linguagem e todos conhecemos o estilo e a linguagem da nossa homenageada", disse o Presidente, para acrescentar, “mas é justo dizer que este discurso alargou a nossa percepção quanto à sua figura e o seu empenhamento”.

“O lugar do escritor enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz ‘preocupem-se’”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa sobre a comunicação da escritora. “Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros”, concluiu. Sem deixar de lembrar que os portugueses têm sabido recusar “divisionismos”, numa achega subtil e indireta à última eleição Presidencial.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Depois de longos aplausos, Lídia Jorge respondeu ao discurso do chefe de Estado. “Chamam-lhe o Presidente dos afectos, mas é pouco. O Senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo.” Foi assim, com a delicadeza do agradecimento, que Lídia Jorge deu a Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República que se despede do cargo, um estatuto nobre, para lá da emoção a ele continuadamente associada.

Pinto Balsemão evocado
A edição de 2025 também ficou marcada por ter sido este o primeiro Prémio Pessoa a ter sido decidido sem a presença ou a orientação do seu criador, Francisco Pinto Balsemão, falecido no ano passado. Por isso mesmo, a cerimónia começou por render uma homenagem ao fundador do grupo Impresa. Mas, mesmo após o seu desaparecimento, a iniciativa da Caixa Geral de Depósitos e da Impresa resistiu.

As primeiras palavras da escritora foram para o chefe de Estado: “Se o admirava à distância, os últimos anos fizeram com que o pudesse admirar na proximidade.” Mas a resistência do Prémio Pessoa foi também assinalada pela escritora. E, por isso, a Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo a que pertence o Expresso, desejou: “O seu pai entregou este prémio a 37 premiados. Desejo que o entregue a 77. Seria sinal de que o futuro, para além das coisas boas que irá criar, manterá algumas das que são louváveis do presente.”

A Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos, Lídia Jorge reconheceu, mais do que um gestor, um leitor. “A primeira vez que nos encontrámos foi na feira do Livro de Lisboa. Alguém me disse ‘Vem aí o Presidente da Caixa Geral dos Depósitos’ e as pessoas na minha pequena fila desviaram-se. Eu olhei e só vi um homem. Um homem que falava de livros. É assim que o vejo.”

E, antes de encerrar o capítulo dos agradecimentos, na presença de vários premiados em edições anteriores, Lídia Jorge permitiu-se um espaço a ela mesma, ao recordar o instante em que foi informada de que tinha conquistado a última edição do Prémio Pessoa. “Num primeiro momento, a pessoa pergunta 'Porquê eu?'. Num segundo momento, já formula a questão de modo diferente 'Porque não eu?'. É neste segundo momento, que já implica uma certa acomodação, que me encontro.”

Em tom de improviso, dirigiu-se à ministra da Cultura, dizendo que devia ser mesmo apenas ministra da Cultura, desejo que mereceu o aplauso dos presentes.

A força da poesia
Voltando ao discurso da escritora, ficou evidente que a relação entre Lídia Jorge, também conselheira de Estado, e Marcelo Rebelo de Sousa recebeu um impulso fundamental quando, também no ano passado, o Presidente a escolheu para proferir o discurso do 10 de Junho. Um discurso polémico, que tanto feriu como agradou, que tanto incomodou como incentivou, com frases marcantes, como a que vaticina que “por aqui ninguém tem sangue puro” e que “a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma”. Houve quem a aplaudisse, houve que a quisesse calar definitivamente.

Ditos os obrigadas, Lídia Jorge falou de si, da literatura, e do futuro. Começou por falar do sentimento de intimidação em receber um prémio com o nome de Fernando Pessoa. E disse que, para conseguir aceitar, prefere pensar na presença de um anjo benfazejo e bem humorado, um trocista. “O anjo do bom humor encontra-se pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei.”

A sétima mulher e a primeira romancista premiada contou a sua relação com “o maior poeta do Século XX”. Lembrou-se da infância, de quando tinha apenas 13 anos e começou a lê-lo, antes de Pessoa ser para ela um mito.

Nos dias de despedida de Marcelo, Lídia Jorge agradeceu-lhe: "Foi o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo”
Recordou também Eduardo Lourenço, “gémeo fraterno de Pessoa”, que no poeta reconhecia “o cosmopolitismo, a dinâmica técnica e subjectividade caótica" e ”a verdadeira lava ardente criadora".

É quando a escritora toca no presente, que diz ser um tempo “descomposto, à beira do estado de alucinação global”. Um tempo em que a poesia, que “corresponde à articulação mais sofisticada das línguas”, “serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso”. Uma poesia humana, para lá dos artefactos e artifícios da inteligência artificial, que tem de funcionar como “um paredão que não pode ceder, porque se ceder, cede a hipótese de verdade, de liberdade, de comunicação fiável e de paz entre os povos”.

Não sendo poeta, Lídia Jorge exaltou a poesia. “A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse.”

Para lamentar - “Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado” - e alertar: “Em nome do futuro convém ficar vigilante. Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios.”

Ao despedir-se, a escritora preferiu apostar no otimismo. “A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim, enquanto formos donos dela.” A audiência gostou e a ela se associou, num aplauso reconhecido.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Discurso de Marco Rubio na Conferência de Segurança de Munique



* Marco Rubio

14 Fevereiro 2026

Muito obrigado. Estamos reunidos aqui hoje como membros de uma aliança histórica, uma aliança que salvou e transformou o mundo. Quando esta conferência começou em 1963, ela ocorreu em uma nação – na verdade, em um continente – que estava dividido internamente. A linha divisória entre o comunismo e a liberdade atravessava o coração da Alemanha. As primeiras cercas de arame farpado do Muro de Berlim haviam sido erguidas apenas dois anos antes. 

E apenas alguns meses antes daquela primeira conferência, antes que nossos predecessores se reunissem aqui pela primeira vez, em Munique, a Crise dos Mísseis de Cuba havia levado o mundo à beira da destruição nuclear. Mesmo enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda viva na memória de americanos e europeus, nos vimos diante de uma nova catástrofe global – uma com potencial para um novo tipo de destruição, mais apocalíptica e definitiva do que qualquer outra antes na história da humanidade.  

Na época daquele primeiro encontro, o comunismo soviético estava em expansão. Milhares de anos da civilização ocidental estavam em jogo. Naquele momento, a vitória estava longe de ser certa. Mas éramos movidos por um propósito comum. Estávamos unidos não apenas por aquilo contra o que combatíamos, mas também por aquilo que defendíamos. E juntos, a Europa e a América prevaleceram e um continente foi reconstruído. Nossos povos prosperaram. Com o tempo, os blocos do Leste e do Oeste se reuniram. Uma civilização tornou-se novamente inteira.  

Aquele infame muro que havia dividido esta nação em duas partes caiu, e com ele um império maligno, e o Oriente e o Ocidente se tornaram um só novamente. Mas a euforia desse triunfo nos levou a uma ilusão perigosa: a de que havíamos entrado, entre aspas, “no fim da história”; que todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados pelo comércio e pelas trocas comerciais, por si só, substituiriam a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras – um termo banalizado – substituiria o interesse nacional; e que passaríamos a viver agora em um mundo sem fronteiras, no qual todos se tornariam cidadãos do mundo.  

Essa foi uma ideia insensata que ignorou tanto a natureza humana quanto as lições de mais de 5 mil anos de história humana registrada. E isso nos custou caro. Nessa ilusão, abraçamos uma visão dogmática de comércio livre e irrestrito, mesmo enquanto algumas nações protegiam suas economias e subsidiavam suas empresas para prejudicar sistematicamente as nossas – fechando nossas fábricas, resultando na desindustrialização de grande parte de nossas sociedades, na transferência de milhões de empregos da classe trabalhadora e da classe média para o exterior e na entrega do controle de nossas cadeias de suprimentos essenciais tanto a adversários quanto a rivais. 

Cada vez mais, terceirizamos nossa soberania para instituições internacionais, enquanto muitas nações investiam em enormes estados de bem-estar social, em detrimento de manter a capacidade de se defender. Isso enquanto outros países investiram na mais rápida expansão militar de toda a história da humanidade e não hesitaram em usar a força para perseguir seus próprios interesses. Para apaziguar um culto climático, impusemos a nós mesmos políticas energéticas que estão empobrecendo nosso povo, enquanto nossos concorrentes exploram petróleo, carvão, gás natural e tudo o mais – não apenas para impulsionar suas economias, mas também para usá-las como forma de pressionar a nossa. 

E na busca por um mundo sem fronteiras, abrimos nossas portas a uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão de nossas sociedades, a continuidade de nossa cultura e o futuro de nosso povo. Cometemos esses erros juntos e, agora, juntos, devemos ao nosso povo encarar esses fatos e seguir em frente, para reconstruir. 

Sob a liderança do presidente Trump, os Estados Unidos da América assumirão mais uma vez a tarefa de renovação e restauração, impulsionados por uma visão de um futuro tão orgulhosa, soberana e vital quanto o passado de nossa civilização. E embora estejamos preparados, se necessário, para fazer isso sozinhos, é nossa preferência e nossa esperança fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos aqui na Europa. 

Para os Estados Unidos e a Europa, pertencemos uns aos outros. Os Estados Unidos foram fundados há 250 anos, mas suas raízes começaram aqui, neste continente, muito antes. O homem que colonizou e construiu a nação onde nasci chegou em nosso território trazendo consigo as memórias, as tradições e a fé cristã de seus antepassados como uma herança sagrada, um elo indissolúvel entre o velho mundo e o novo. 

Fazemos parte de uma única civilização – a civilização ocidental. Estamos unidos pelos laços mais profundos que as nações podem compartilhar, forjados por séculos de história comum, fé cristã, cultura, herança, idioma, ancestralidade e pelos sacrifícios que nossos antepassados fizeram juntos pela civilização comum da qual somos herdeiros. 

E é por isso que nós, americanos, às vezes podemos parecer um pouco diretos e insistentes em nossos conselhos. É por isso que o presidente Trump exige seriedade e reciprocidade de nossos amigos aqui na Europa. A razão, meus amigos, é porque nos importamos profundamente. Nós nos importamos profundamente com o futuro de vocês e com o nosso. E se, por vezes, discordamos, nossas discordâncias decorrem de nossa profunda preocupação com uma Europa com a qual estamos conectados – não apenas economicamente, não apenas militarmente. Estamos conectados espiritual e culturalmente. Desejamos que a Europa seja forte. Acreditamos que a Europa deve sobreviver, porque as duas grandes guerras do século passado servem para nós como um lembrete constante da história de que, em última análise, nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o de vocês, porque sabemos – (aplausos) – porque sabemos que o destino da Europa jamais será irrelevante para o nosso. 

Segurança nacional, tema central desta conferência, não se resume a uma série de questões técnicas – quanto gastamos em defesa ou onde, como a utilizamos, são questões importantes. Sem dúvida. Mas não são a questão fundamental. A questão fundamental que devemos responder desde o início é: o que exatamente estamos defendendo? Porque os exércitos não lutam por abstrações. Os exércitos lutam por um povo; lutam por uma nação. Exércitos lutam por um modo de vida. E é isso que estamos defendendo: uma grande civilização que tem todos os motivos para se orgulhar de sua história, estar confiante em seu futuro e almejar sempre ser dona de seu próprio destino econômico e político.  

Foi aqui na Europa que nasceram as ideias que plantaram as sementes da liberdade que transformaram o mundo. Foi aqui, na Europa, que surgiram as ideias que deram ao mundo o Estado de Direito, as universidades e a revolução científica. Foi este continente que produziu o gênio de Mozart e Beethoven, de Dante e Shakespeare, de Michelangelo e Da Vinci, dos Beatles e dos Rolling Stones. E é aqui que a abóboda da Capela Sistina e as torres imponentes da grande catedral de Colônia testemunham não apenas a grandeza de nosso passado ou a fé em Deus que inspirou essas maravilhas. Eles prenunciam as maravilhas que nos aguardam no futuro. Mas somente se não nos desculparmos pela nossa herança e nos orgulharmos dessa herança comum, poderemos juntos começar o trabalho de imaginar e moldar nosso futuro econômico e político. 

A desindustrialização não foi inevitável. Foi uma escolha política consciente, um empreendimento econômico de décadas que privou nossas nações de sua riqueza, de sua capacidade produtiva e de sua independência. E a perda de nossa soberania sobre nossas cadeias de suprimentos não foi consequência de um sistema de comércio global próspero e saudável. Foi insensata. Foi uma transformação insensata, porém voluntária, de nossa economia, que nos deixou dependentes de outros para suprir nossas necessidades e perigosamente vulneráveis a crises. 

A migração em massa não é, nunca foi, nem é uma preocupação marginal de pouca importância. Foi e continua sendo uma crise que está transformando e desestabilizando sociedades em todo o Ocidente. Juntos, podemos reindustrializar nossas economias e reconstruir nossa capacidade de defender nosso povo. Mas o trabalho dessa nova aliança não deve se concentrar apenas na cooperação militar e na recuperação das indústrias do passado. Deve também se concentrar em, juntos, promover nossos interesses mútuos e novas fronteiras, libertando nossa engenhosidade, nossa criatividade e o espírito dinâmico para construir um novo século para o Ocidente. Viagens espaciais comerciais e inteligência artificial de ponta; automação industrial e manufatura flexível; criação de uma cadeia de suprimentos ocidental para minerais críticos que não seja vulnerável à extorsão de outras potências; e um esforço unificado para competir por participação de mercado nas economias do Sul Global. Juntos, podemos não apenas retomar o controle de nossas próprias indústrias e cadeias de suprimentos, como também prosperar nas áreas que definirão o século 21. 

Mas também precisamos retomar o controle de nossas fronteiras nacionais. Controlar quem e quantas pessoas entram em nossos países não é uma expressão de xenofobia. Não é ódio. É um ato fundamental de soberania nacional. E deixar de fazê-lo não é apenas uma abdicação de um dos nossos deveres mais básicos para com o nosso povo. É uma ameaça urgente ao tecido de nossas sociedades e à própria sobrevivência de nossa civilização. 

E, finalmente, não podemos mais colocar a chamada ordem global acima dos interesses vitais de nossos povos e nações. Não precisamos abandonar o sistema de cooperação internacional que criamos, nem precisamos desmantelar as instituições globais da antiga ordem que construímos juntos. Mas elas precisam ser reformadas. Precisam ser reconstruídas. 

Por exemplo, as Nações Unidas ainda têm um enorme potencial para ser uma ferramenta para o bem no mundo. Mas não podemos ignorar que hoje, nas questões mais prementes que enfrentamos, não têm respostas e praticamente não desempenham nenhum papel. Não conseguiram resolver a guerra em Gaza. Em vez disso, foi a liderança americana que libertou prisioneiros de bárbaros e estabeleceu uma trégua frágil. Não resolveram a guerra na Ucrânia. Foram necessárias a liderança americana e a parceria com muitos dos países aqui presentes para levar os dois lados à mesa de negociações em busca de uma paz ainda difícil de alcançar.  

Os EUA foram impotentes para conter o programa nuclear de clérigos xiitas radicais em Teerã. Isso exigiu 14 bombas lançadas com precisão por bombardeiros B-2 americanos. E também foram incapazes de lidar com a ameaça à nossa segurança representada por um ditador narcoterrorista na Venezuela. Em vez disso, foi necessária a intervenção das Forças Especiais americanas para levar esse fugitivo à justiça.  

Em um mundo ideal, todos esses problemas e muitos outros seriam resolvidos por diplomatas e resoluções redigidas em termos firmes. Mas não vivemos em um mundo perfeito e não podemos continuar permitindo que aqueles que ameaçam aberta e descaradamente nossos cidadãos e colocam em risco nossa estabilidade global se escondam atrás de abstrações do Direito Internacional que eles próprios violam rotineiramente. 

Este é o caminho que o presidente Trump e os Estados Unidos trilharam. É o caminho que pedimos que vocês, aqui na Europa, se juntem a nós para percorrer. É um caminho que já percorremos juntos e que esperamos percorrer juntos novamente. Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão – seus missionários, seus peregrinos, seus soldados, seus exploradores partindo de suas costas para cruzar oceanos, colonizar novos continentes, construir vastos impérios que se estendiam por todo o globo.  

Mas em 1945, pela primeira vez desde a época de Colombo, a Europa estava em retração. A Europa estava em ruínas. Metade dela vivia atrás de uma Cortina de Ferro e o resto parecia destinado a seguir o mesmo caminho. Os grandes impérios ocidentais haviam entrado em declínio terminal, acelerado por revoluções comunistas ateias e por levantes anticoloniais que transformariam o mundo e estampariam a foice e o martelo vermelhos em vastas extensões do mapa nos anos seguintes.  

Diante desse cenário, então como agora, muitos passaram a acreditar que a era de domínio do Ocidente havia chegado ao fim e que nosso futuro estava fadado a ser um eco fraco e pálido do nosso passado. Mas juntos, nossos predecessores reconheceram que o declínio era uma escolha, e uma escolha que se recusaram a fazer. Foi isso que fizemos juntos uma vez antes, e é isso que o presidente Trump e os Estados Unidos querem fazer novamente agora, junto com vocês. 

E é por isso que não queremos que nossos aliados sejam fracos, pois isso nos torna mais fracos. Queremos aliados que possam se defender, para que nenhum adversário jamais se sinta tentado a testar nossa força coletiva. É por isso que não queremos que nossos aliados estejam acorrentados pela culpa e pela vergonha. Queremos aliados que se orgulhem de sua cultura e de sua herança, que compreendam que somos herdeiros da mesma grande e nobre civilização e que, juntamente conosco, estejam dispostos e sejam capazes de defendê-la. 

E é por isso que não queremos que nossos aliados racionalizem o status quo fracassado em vez de enfrentar o que é necessário para corrigi-lo, pois nós, nos Estados Unidos, não temos interesse em sermos guardiões educados e ordeiros do declínio administrado do Ocidente. Não buscamos a separação, mas sim revitalizar uma antiga amizade e renovar a maior civilização da história da humanidade. O que queremos é uma aliança revigorada que reconheça que o que aflige nossas sociedades não é apenas um conjunto de políticas equivocadas, mas um mal-estar de desesperança e complacência. Uma aliança – a aliança que desejamos é aquela que não fica paralisada pelo medo – medo das mudanças climáticas, medo da guerra, medo da tecnologia. Em vez disso, queremos uma aliança que avance audaciosamente rumo ao futuro. E o único medo que temos é o medo da vergonha de não deixarmos nossas nações mais orgulhosas, mais fortes e mais ricas para nossos filhos. 

Uma aliança pronta para defender nosso povo, salvaguardar nossos interesses e preservar a liberdade de ação que nos permite moldar nosso próprio destino – não uma aliança que exista para operar um estado de bem-estar social global e expiar os supostos pecados das gerações passadas. Uma aliança que não permita que seu poder seja terceirizado, restringido ou subordinado a sistemas fora de seu controle; uma aliança que não dependa de outros para as necessidades essenciais de sua vida nacional; e uma aliança que não mantenha a pretensão polida de que nosso modo de vida é apenas mais um entre muitos e que peça permissão antes de agir. E, acima de tudo, uma aliança baseada no reconhecimento de que nós, o Ocidente, herdamos juntos – aquilo que herdamos juntos é algo único, distinto e insubstituível, pois essa é, afinal, a própria base do vínculo transatlântico. 

Agindo juntos dessa forma, não apenas ajudaremos a recuperar uma política externa sensata. Isso nos devolverá uma compreensão mais clara de quem somos. Restituirá a nós um lugar no mundo e, ao fazê-lo, repreenderá e dissuadirá as forças de apagamento civilizacional que hoje ameaçam tanto a América quanto a Europa.  

Então, em tempos de manchetes anunciando o fim da era transatlântica, que fique claro para todos que esse não é nosso objetivo nem nosso desejo – porque, para nós, americanos, nosso lar pode estar no Continente Americano, mas sempre seremos filhos da Europa. (Aplausos.) 

Nossa história começou com um explorador italiano cuja aventura rumo ao grande desconhecido, em busca de um novo mundo, levou o cristianismo para as Américas – e se tornou a lenda que definiu o imaginário de nossa nação pioneira. 

Nossas primeiras colônias foram construídas por colonos ingleses, aos quais devemos não apenas o idioma que falamos, mas também todo o nosso sistema político e jurídico. Nossas fronteiras foram moldadas pelos escoceses-irlandeses – aquele clã orgulhoso e aguerrido das colinas do Ulster que nos deu Davy Crockett, Mark Twain, Teddy Roosevelt e Neil Armonstrong. 

Nossa grande região central do Meio-Oeste foi construída por agricultores e artesãos alemães que transformaram planícies vazias em uma potência agrícola global – e, aliás, melhoraram drasticamente a qualidade da cerveja americana. (Risos.) 

Nossa expansão para o interior seguiu os passos de comerciantes de peles e exploradores franceses, cujos nomes, aliás, ainda adornam placas de rua e nomes de cidades por todo o Vale do Mississippi. Nossos cavalos, nossos ranchos, nossos rodeios – todo o romantismo do arquétipo do caubói que se tornou sinônimo do Oeste americano – tudo isso nasceu na Espanha. E nossa maior e mais icônica cidade se chamava Nova Amsterdã antes de se chamar Nova York. 

E vocês sabiam que, no ano em que meu país foi fundado, Lorenzo e Catalina Geroldi viviam em Casale Monferrato, no Reino do Piemonte-Sardenha? E José e Manuela Reina viviam em Sevilha, na Espanha? Não sei o que, se é que sabiam algo, eles sabiam sobre as 13 colônias que haviam conquistado sua independência do Império Britânico, mas eis de uma coisa tenho certeza: jamais poderiam imaginar que, 250 anos depois, um de seus descendentes diretos estaria de volta aqui, neste continente, como o principal diplomata daquela jovem nação. E, no entanto, aqui estou eu, lembrado pela minha própria história de que tanto nossas histórias quanto nossos destinos sempre estarão interligados. 

Juntos, reconstruímos um continente devastado após duas guerras mundiais catastróficas. Quando nos vimos novamente divididos pela Cortina de Ferro, o Ocidente livre uniu forças com os corajosos dissidentes que lutavam contra a tirania no Leste para derrotar o comunismo soviético. Lutamos uns contra os outros, depois nos reconciliamos, depois lutamos, e depois nos reconciliamos novamente. E sangramos e morremos lado a lado em campos de batalha de Kapyong a Kandahar. 

E estou aqui hoje para deixar claro que os Estados Unidos estão traçando o caminho para um novo século de prosperidade e que, mais uma vez, queremos fazer isso junto com vocês, nossos estimados aliados e nossos amigos de longa data. (Aplausos.) 

Queremos fazer isso juntos com vocês, com uma Europa orgulhosa de sua herança e de sua história; com uma Europa que tenha o espírito criador da liberdade que enviou navios a mares desconhecidos e deu origem à nossa civilização; com uma Europa que tenha os meios para se defender e a vontade de sobreviver. Devemos nos orgulhar do que conquistamos juntos no século passado, mas agora precisamos enfrentar e abraçar as oportunidades de um novo século – porque o ontem já passou, o futuro é inevitável e nosso destino juntos nos aguarda. Obrigado. (Aplausos.) 

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PERGUNTA: Sr. secretário, não tenho certeza se o senhor ouviu o suspiro de alívio que ecoou por este salão quando acabamos de ouvir o que interpreto como uma mensagem de tranquilização, de parceria. O senhor falou sobre as relações entrelaçadas entre os Estados Unidos e a Europa – isso me lembra declarações feitas décadas atrás por seus predecessores, quando a discussão era: os Estados Unidos são realmente uma potência europeia? Os Estados Unidos são uma potência na Europa? Agradeço por transmitir essa mensagem de tranquilização sobre nossa parceria.    

Na verdade, esta não é a primeira vez que Marco Rubio está aqui na Conferência de Segurança de Munique – ele já esteve aqui algumas vezes, mas é a primeira vez que ele vem como palestrante na qualidade de secretário de Estado. Então, obrigado novamente. Temos apenas alguns minutos agora para algumas perguntas e, se me permitem, coletamos algumas perguntas da plateia.  

Uma das questões-chave aqui ontem, e hoje, é, claro – e continua sendo – como lidar com a guerra na Ucrânia. Muitos de nós, nas discussões ao longo do último dia, das últimas 24 horas, expressamos a impressão de que os russos – para usar uma expressão coloquial – estão ganhando tempo, não estão realmente interessados em uma solução significativa. Não há indicação de que estejam dispostos a ceder em nenhum de seus objetivos maximalistas. Se possível, gostaria que nos apresentasse sua avaliação de onde estamos e para onde o senhor acredita que podemos ir. 

SECRETÁRIO RUBIO: Bem, acho que onde estamos neste momento é que as questões em jogo que precisam ser enfrentadas foram delimitadas. Essa é a boa notícia. A má notícia é que elas foram reduzidas às questões mais difíceis de responder, e ainda há trabalho a ser feito nesse sentido. Entendo seu ponto de vista – a resposta é que não sabemos. Não sabemos se os russos estão falando sério sobre acabar com a guerra; eles dizem que sim – e sob quais termos estariam dispostos a fazê-lo, e se podemos encontrar termos aceitáveis para a Ucrânia que a Rússia sempre aceitará. Mas vamos continuar testando isso. 

Enquanto isso, tudo o mais continua acontecendo. Os Estados Unidos impuseram sanções adicionais ao petróleo russo. Em nossas conversas com a Índia, obtivemos o compromisso deles de interromper compras adicionais de petróleo russo. A Europa tomou suas medidas para seguir em frente. O Programa PURL continua, por meio do qual armamentos americanos estão sendo vendidos para o esforço de guerra ucraniano. Portanto, tudo isso continua. Nada foi interrompido nesse ínterim. Logo, não há como ganhar tempo nesse sentido. 

O que não podemos responder – mas continuaremos a testar – é se há um desfecho com o qual a Ucrânia possa conviver e que a Rússia aceite. E eu diria que tem sido elusivo até o momento. Fizemos progresso no sentido de que, pela primeira vez, acredito que em anos, pelo menos no nível técnico, houve autoridades militares de ambos os lados que se reuniram na semana passada, e haverá novas reuniões na terça-feira, embora talvez não com o mesmo grupo de pessoas. 

Vejam, vamos continuar fazendo tudo o que pudermos para desempenhar esse papel de pôr fim a esta guerra. Não creio que alguém nesta sala seja contra uma solução negociada para esta guerra, desde que as condições sejam justas e sustentáveis. E é isso que pretendemos alcançar, e vamos continuar tentando alcançar, mesmo enquanto todas essas outras medidas continuem acontecendo na frente das sanções e assim por diante. 

PERGUNTA: Muito obrigado. Tenho certeza de que, se tivéssemos mais tempo, haveria muitas perguntas sobre a Ucrânia. Mas me permitam-me concluir com uma pergunta sobre algo completamente diferente. O próximo orador, daqui a alguns minutos, será o ministro das Relações Exteriores da China. Quando o senhor era senador, era considerado um crítico ferrenho da China. 

SECRETÁRIO RUBIO: Eles também. 

PERGUNTA: E foi mesmo? 

SECRETÁRIO RUBIO: Sim. 

PERGUNTA: Sabemos que haverá, daqui a cerca de dois meses, uma reunião de cúpula entre o presidente Trump e o presidente Xi Jinping. Quais são as suas expectativas? O senhor está otimista? Pode haver um, entre aspas, “acordo” com a China? O que o senhor espera? 

SECRETÁRIO RUBIO: Bem, eu diria o seguinte. As duas maiores economias do mundo, duas das grandes potências do planeta, temos a obrigação de nos comunicar e dialogar, assim como muitos de vocês fazem bilateralmente. Quero dizer, seria um erro geopolítico grave não manter conversas com a China. Eu diria o seguinte: como somos dois grandes países com enormes interesses globais, nossos interesses nacionais muitas vezes não estarão alinhados. Os interesses nacionais deles e os nossos não estarão alinhados, e devemos ao mundo tentar administrar isso da melhor maneira possível, obviamente evitando conflitos, tanto econômicos quanto piores. E isso – portanto, é importante para nós mantermos comunicação com eles nesse sentido. 

 Nas áreas em que nossos interesses estejam alinhados, acredito que podemos trabalhar juntos para gerar um impacto positivo no mundo, e buscamos oportunidades para isso com eles. Portanto, precisamos manter uma relação com a China. E qualquer um dos países aqui representados hoje terá de manter uma relação com a China, sempre entendendo que nada do que acordarmos pode ocorrer às custas de nosso interesse nacional. E, francamente, esperamos que a China aja em seu interesse nacional, assim como esperamos que todos os Estados-nações ajam em seu interesse nacional. E o objetivo da diplomacia é tentar navegar os momentos em que nossos interesses nacionais entram em conflito, sempre buscando fazê-lo de maneira pacífica. 

Penso que também temos uma obrigação especial, porque tudo o que acontece entre os EUA e a China em matéria de comércio tem implicações globais. Portanto, existem desafios de longo prazo que enfrentamos e que teremos de enfrentar e que serão fontes de tensão em nossa relação com a China. Isso não se aplica apenas aos Estados Unidos; aplica-se a todo o Ocidente. Mas acredito que precisamos tentar administrar isso da melhor forma possível a fim de evitar atritos desnecessários, se possível. Ninguém, no entanto, está sob ilusões. Existem alguns desafios fundamentais entre nossos países e entre o Ocidente e a China que persistirão em um futuro previsível por uma série de razões, e são algumas das questões em que esperamos trabalhar em conjunto com vocês.  

PERGUNTA: Muito obrigado, Sr. secretário. Nosso tempo se esgotou. Lamento não poder atender a todos que desejavam fazer perguntas. Sr. secretário de Estado, agradeço por esta mensagem tranquilizadora. Creio que ela foi muito bem recebida aqui no salão. Vamos oferecer uma salva de palmas. (Aplausos.) 

https://www.state.gov/translations/portuguese/secretario-de-estado-marco-rubio-na-conferencia-de-seguranca-de-munique