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quinta-feira, 26 de março de 2026

Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia

* Daniel Oliveira

Desvinculações do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas não é um voto de exigência, é um voto de desistência

Em várias autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja difícil falar de estratégia.

Em apenas cinco meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra, Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela, Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato, o que é um pouco diferente.

Em poucos meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.

Em São Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o orçamento é bom. Permitam-me duvidar.

Em Lisboa, o vereador que não abandonou o partido queimou-se com a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora. Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.

Onde não há debandada há balbúrdia.

Tudo contrasta com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.

Nada disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça, há dirigentes e deputados do partido da “lei e da ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de pedofilia.

Não é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto. Alguns estarão de tal forma fanatizados que ou justificarão o injustificável ou encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.

Mas a maioria apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema, aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles em quem votam.

2026 03 26

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-chega-nas-autarquias-sorria-foi-enganado-outra-vez-e-sabia

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Eduardo Maltez Silva - “Reclusos vão limpar florestas”



* Eduardo Maltez Silva

“Reclusos vão limpar florestas.” Vendido como se fosse uma mudança revolucionária, quando na verdade é apenas mais um episódio clássico de populismo punitivo e inútil, embrulhado como “novidade” para agradar aos cheganos.
A ideia é simples — não porque funcione, mas porque excita um certo reflexo emocional: alguém tem de ser punido, alguém tem de sofrer, alguém tem de “pagar” pela minha vida frustrada.
Décadas de investigação em psicologia social mostram que uma parte das marionetas do populismo tem forte adesão à crença do “mundo justo”: a necessidade quase visceral de acreditar que quem está mal alguma coisa fez para o merecer.
Quando essa crença é ativada — por medo, insegurança económica ou ansiedade social — cresce o apoio a soluções punitivas, mesmo quando são contraproducentes e até inúteis.
Não é racional. É emocional.
E emoções dão votos.
É por isso que estes partidos perdem mais tempo a falar de punir quem comete crimes do que a falar em prevenir o crime.
Porque prevenir o crime exige mais Estado, melhores escolas, melhor polícia, melhor justiça, melhor apoio social, melhor saúde mental, menos guetos, menos desigualdade… e isso incomoda as elites económicas.
O populismo sabe isto de cor. Qualquer manual de propaganda dos anos 30 já o sabia.
Por isso repetem esta coreografia moral: reclusos, beneficiários de RSI, desempregados, imigrantes — tudo embrulhado na mesma narrativa de suspeição e punição.
O objetivo não é resolver problemas estruturais. É oferecer catarse barata a quem precisa de sentir que alguém está a ser posto “no lugar”.
Mas vamos aos factos, porque a propaganda vive da ignorância.
Em Portugal, os reclusos sempre puderam trabalhar e ter formação.
Sempre. Vou repetir: SEMPRE.
Está na lei há anos. Faz parte do modelo de reinserção social.
Existem oficinas prisionais, serviços internos, cantinas, programas profissionais e até trabalho no exterior em regimes específicos.
Não, não estavam proibidos de trabalhar. Nunca estiveram.
Aliás, no final de 2024 havia perto de 43% da população prisional em actividade laboral. (fora os que estavam em formação)
O que existe — e existe há décadas — é um sistema onde a maioria dos reclusos que trabalha dentro da prisão recebe valores na ordem dos 2 a 3 euros por dia. Sim, por dia.
Quando se converte isto em horas de trabalho, estamos a falar de cêntimos por hora.
Isto não nasceu ontem.
Isto não foi agora descoberto.
A possibilidade sempre existiu.
O que mudou foi outra coisa: a propaganda.
De repente, vender trabalho prisional como se fosse uma invenção musculada rende cliques e rende votos num eleitorado que vibra com soluções simplistas servidas em tom de taberna.
Mas há um pequeno problema que o marketing político esconde.
Trabalho exterior de reclusos não é apenas mandar pessoas para o mato com uma enxada para apaziguar o instinto punitivo.
Para colocar reclusos fora dos muros é preciso:
– guardas prisionais
– transporte
– logística
– alimentação
– seguros
– formação para operar maquinaria
– segurança permanente
– protocolos formais com empresas e associações
Tudo isto custa dinheiro. Muito dinheiro.
E, na prática, o impacto nas florestas é altamente discutível.
Reparem: estamos a falar de um sistema onde o próprio sindicato do setor aponta para uma falta estrutural próxima dos 1.500 guardas prisionais.
Ou seja, enquanto se vende a imagem bonita da “limpeza das matas”, o custo real é empurrado para debaixo do tapete... mais recursos de segurança desviados para operações de impacto estrutural reduzido.
Mas isso é detalhe técnico.
E detalhe técnico não ganha votos.
Há outro ponto ainda mais incómodo neste populismo de taberna.
Quando o Estado começa a disponibilizar mão-de-obra prisional em larga escala, o risco — já observado noutros países — é criar pressão em baixa sobre os custos laborais e abrir espaço a modelos de negócio dependentes de trabalho ultra-barato supervisionado pelo erário público.
O mecanismo é perverso:
– o Estado paga a vigilância
– o Estado assume o risco
– o Estado mobiliza recursos escassos
– e terceiros beneficiam de custos mais baixos
Isto não é teoria da conspiração.
A literatura internacional sobre economias prisionais mostra precisamente este risco: o foco pode deslizar da reinserção para a utilidade económica do trabalho barato.
E é aqui que o populismo revela o truque.
Não é política pública séria.
Não é reforma estrutural.
Não é estratégia florestal.
É ilusionismo político.
Pega-se numa medida que já existia, dá-se verniz musculado, vende-se como novidade,
esconde-se os custos e a utilidade real da ação.
Ao mesmo tempo, alimenta-se a narrativa moral de que o problema do país são sempre os de baixo — o recluso, o beneficiário, o desempregado — nunca as falhas estruturais que dão muito mais trabalho resolver.
Convém relembrar o óbvio.
Quem recebe RSI já tem obrigações legais.
Quem está desempregado já tem deveres de procura ativa de trabalho.
Reclusos já trabalham no sistema prisional.
O Estado social moderno não funciona à base de chicote.
Funciona criando condições, incentivos e percursos de reinserção com racionalidade económica e social.
Tudo o resto é teatro punitivo...é performance...é maquilhagem, cabeleireiro e chuva digital.
Há trabalho prisional que pode e deve existir com dignidade, formação real e verdadeiro valor público — trabalho para reintegrar, não para alimentar oportunismos.
O que não precisamos é de políticas desenhadas para provocar aplausos fáceis enquanto desviam recursos escassos, colocam em causa a nossa segurança e vendem soluções simplistas a quem confunde punição com reinserção.
O país já paga caro demais por políticas feitas ao som de berros de taberna… e ainda assim votámos nesta porcaria.
Resultado? O que estava mal piorou.
O que estava bem, conseguiram estragar.
Por isso a distração faz parte do plano.
Não se distraiam...Não se deixem enganar.

2026 02 24

https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Edward Curtin - A espontaneidade cuidadosamente calculada da divulgação “chocante” dos ficheiros de Epstein


(Edward Curtin, in Contercurrents.org, 19/02/2026, Trad. Estátua)

Sempre que um “escândalo” com o impacto dos arquivos de Epstein domina as notícias, podemos ter certeza de que se trata de uma manobra para desviar a atenção de algo mais sinistro que está para vir.

Os arquivos de Epstein estão na posse do FBI há oito anos ou mais. Então, por que é que os arquivos, com trechos censurados, foram apenas divulgados recentemente?  Cui bono ?

E quem está por detrás da divulgação que não ocorreu durante o primeiro mandato de Trump e o primeiro mandato de Biden?  Cui bono ?

O genocídio em Gaza e a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, ambos apoiados por Biden e Trump, encaixam-se no cronograma e nas omissões, visto que podemos presumir que o Mossad, a CIA, a NSA e o MI6 também tiveram acesso aos arquivos por muito tempo? Um ataque dos EUA/Israel ao Irão?   Porque, como nos filmes, toda a propaganda e encobrimentos têm datas de divulgação cuidadosamente escolhidas.

Última pergunta: por que é que alguém ficaria chocado com o conteúdo dos ficheiros de Epstein, embora muitas pessoas pareçam estar? Sim, mais nomes foram adicionados à lista de elites degeneradas que, alegremente, faziam parte da organização criminosa de Epstein, mas a revelação de mais nomes apenas confirma o quanto ela era extensa.

Há muito tempo que sabemos das atividades criminosas do degenerado Epstein, dos financiadores, celebridades, políticos e figuras públicas que se juntaram a ele. Chantagem sexual, cooperação entre agências de serviços secretos e o submundo, acordos financeiros secretos, planeamento de guerras em nome da paz, etc., são formas de como, há muito, o capitalismo tem operado. Embora aqueles que investigam estas coisas já há muito soubessem da sua existência (ver, por exemplo, One Nation Under Blackmail, de Whitney Webb, em dois volumes), as pessoas comuns podem estar, finalmente, a compreender; mas chocante não é. E o “podem” deve ser enfatizado. Todos nós vivemos há muito tempo numa cultura de crescente «choque», onde as notícias e o entretenimento mais grotescos são elementos básicos dos meios de comunicação social, desde Washington D.C. a Hollywood e em toda a Internet, o macaco perseguiu a doninha. Os macacos pensaram que era tudo uma brincadeira, e então Pop! lá se foi a doninha.

Ficar chocado parece estar na moda; apimenta a vida, induz aquele calafrio que só o sexo, a morte e o tempo podem trazer às conversas diárias. “Dá para acreditar?” e “Inacreditável!” ouvem-se a toda a hora e brotam dos lábios, dos ecrãs e dos sites em toda a parte, convidando-nos a vir até àquele sítio para ficarmos estupefactos e com a cabeça a girar vertiginosamente. Pessoas comuns tornaram-se Regan MacNeil, a jovem possuída por um demónio em O Exorcista.

Se os meios de comunicação social mainstream alguma vez aprofundassem o assunto a fundo, teriam que expor-se como agentes das mesmas forças que se encontram por detrás da ascensão de Epstein ao poder. Com que frequência é que esses meios de comunicação ligam Epstein a Israel, ao Mossad, à CIA, etc.? Não são só indivíduos malvados que governam, mas uma estrutura do mal, um sistema, se quiserem, um sistema social profundamente enraizado, atualmente administrado publicamente pelo idiota malvado Trump que, numa entrevista recente ao The New York Times, quando questionado se achava que havia limites para o seu poder global, disse: “Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode deter-me”.

Essa declaração revelou o segredo. É o credo do niilista, fundamental para o ethos atual. Sem honra, sem padrões éticos tradicionais, sem Deus, sem amor pela humanidade, apenas notícias falsas e enganosas destinadas a chocar e um presidente dos EUA falando como um punk adolescente. Sim. Inacreditável! «Eu conheço as palavras. Tenho as melhores palavras. Tenho as… – mas não há palavra melhor do que estúpido.» (Entra a banda sonora.)

O cineasta francês da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, disse certa vez: “Para fazer um filme, tudo o que é preciso é uma garota e uma arma“. Bem, temos o filme sobre Epstein, no qual ele e os seus amigos venais e sórdidos tinham as garotas, mas quem detinha as armas, e não os pénis, por trás dos seus empreendimentos criminosos, é algo que permanece sem resposta.

Quando apanhados em flagrante, os meios de comunicação social adoram expor certos indivíduos que baixam as calças para fins de abuso sexual, mas consideram impossível derrubar aqueles vilões depravados que cometem atrocidades contra pessoas comuns, dia após dia, em todo o mundo. Vamos chamá-los os produtores. Eles moldam e pagam pelas notícias.

O presidente do reality show, Donald Trump — o rosto do imperialismo explícito e do regime ditatorial interno, um brutamontes grosseiro cuja máxima fundamental é “o poder faz a justiça” e cujo nome aparece várias vezes nos arquivos de Epstein —, sabe bem como o jogo é jogado. Após a sua briga televisionada com Zelensky no ano passado (ou foi antes do conflito?), disse: “Isto vai dar um excelente programa de televisão”. O mesmo se poderá dizer do filme sobre Epstein. Talvez até dê uma série.

E, como no passado, ninguém envolvido nessa atividade deplorável e criminosa – com exceção de Epstein e Ghislaine Maxwell – irá provavelmente cumprir qualquer pena de prisão. O que não é surpresa nenhuma.

Quanto a choques, é melhor assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e ficar «chocado» com os atletas favoritos a caírem no gelo e na neve. Pelo menos essas quedas são reais.

Há uma pintura numa casa de campo ainda visível na entrada da Casa dos Vettii, nas ruínas de Pompeia, que nos diz muito sobre os arquivos de Epstein, o poder e a riqueza. Ela simboliza perfeitamente um aspecto da diferença entre as classes dominantes internacionais – ou seja, os detalhes obscenos nos documentos de Epstein, sem a resposta de quem tem conduzido a operação de chantagem e porquê – e o resto de nós. Ela retrata o deus Príapo pesando o seu pénis numa balança de moedas de ouro, como se dissesse: ouro, Deus, riqueza e poder – nós governamos. Vão-se foder! É uma velha história contada por homens niilistas desesperados para provar a sua potência dominando meninas e mulheres vulneráveis e o mundo inteiro.

Muitos têm perguntado como é possível que Epstein e todos os outros, nomeados ou não, tenham feito coisas tão más e criminosas? O mal parece deixar os intelectuais modernos muito perplexos. Será que eles acham que El Diablo é uma marca de molho de salsa?

A explicação de Hannah Arendt para o comportamento de Adolf Eichmann – a banalidade do mal – é uma das explicações que agora estão a ser usadas para dissecar o comportamento de Epstein. Outros dizem que ele não tinha consciência ou não conseguia raciocinar como um adulto; que não era muito inteligente, mas que era um excelente vigarista. Que era narcisista. Todas elas são explicações superficiais. Nenhuma delas chega ao cerne da questão. Como de costume, e de forma completamente errada, alguns culpam Nietzsche e a ideia do ubermensch (o super-homem). Nietzsche (tal como a Rússia) é frequentemente culpado por todos os males modernos por aqueles que interiorizaram noções falsas acerca da sua obra. Na verdade, Nietzsche alertou que, visto que os homens mataram Deus, “algo extraordinariamente desagradável e maligno está prestes a ocorrer”. Ele não estava nada contente com isso.

O brilhante e subestimado escritor Edward Dahlberg, num ensaio sobre Nietzsche – “O Verdadeiro Nietzsche ” – diz o seguinte sobre o filósofo: “Ele denunciou a política racial, outro termo para antissemita, chamando-se a si mesmo de ‘bom europeu’, ‘anti-antissemita’… Nada adiantou; os anti-judeus do Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) apresentaram-no ao público como um político teutónico. E é assim ele que ele é apresentado até hoje, distorcido para fins ideológicos. É de se perguntar quem é que ainda lê hoje em dia.

A propósito do uso da linguagem e da degradação da compreensão, Dahlberg acrescenta: “Tornámos a linguagem tão comum que deixámos de ser leitores simbólicos. A menos que examinemos o intelecto total do poeta como o seu texto, interpretaremos mal Blake ou Shakespeare, da mesma forma tola em que Nietzsche tem sido distorcido”.

Compreender as palavras simbolicamente é entender como os bons escritores as usam nos seus múltiplos significados, não apenas literalmente, não como lascas de pedra desprendidas de uma encosta pedregosa que atravancam uma estrada que não leva a lugar nenhum; mas como eles as fazem vibrar e brilhar, mergulhar profundamente e voar alto como pássaros luminescentes, para que outros possam contemplar profundamente e pensar uma, duas ou talvez mais vezes.

Pense no uso grosseiro da linguagem por parte de Trump; pense no de Epstein; pense na cultura em geral. Mergulhámos numa época de ignorância grosseira e a nossa decadência cultural reflete-se na decadência da nossa linguagem. Trump e Epstein refletem a cultura em geral nesse aspecto. Claramente, uma das razões para isso é a internet e os média digitais, particularmente o telemóvel com a sua câmara e mensagens de texto. É também uma razão importante para a comunicação vasta e constante entre Epstein e os seus «amigos», bem como a facilidade com que a chantagem poderia ser efetuada. Isso não é por acaso.

Alguns de nós tivemos a sorte de vivenciar, ainda jovens, a corrupção no âmago do sistema. Penso no grande jornalista  Michael Parenti, falecido recentemente, que por causa de suas opiniões pacifistas, foi excluído da carreira académica, mas que usou essa experiência para se tornar um professor livre para o mundo.

Na minha ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu trabalhava à noite na 42ª Delegacia do Bronx, entrevistando detidos nas celas de detenção. Lá, descobri que muitos eram incriminados por polícias à paisana que colocavam drogas neles; que a delegacia tinha um stock de drogas ilegais para esse fim. Pensando que eu era seu aliado, um polícia contou-me isso e disse que «temos que tirar esses malditos bastardos das ruas» (referindo-se aos homens negros e porto-riquenhos). Isso foi quatro ou cinco anos antes de o honesto e corajoso polícia à paisana do Departamento de Polícia de Nova York, Frank Serpico (que mais tarde se tornou meu amigo), ser incriminado por outros polícias e ser baleado no rosto. Alguns anos depois, foi feito sobre ele o filme Serpico, interpretado por Al Pacino.

Há sempre um filme.

Numa escola onde eu lecionava, um homem que ocupava um cargo importante e que eu respeitava, sabendo que eu estava envolvido em atividades contra a guerra, tentou – para meu grande choque – recrutar-me para a Inteligência do Exército. Esses e muitos outros exemplos fizeram-me adotar desde cedo uma postura cética em relação às figuras de autoridade. Estou grato por essas lições iniciais.

Como todas as histórias, o filme de Epstein passa-se dentro de um sistema simbólico cultural mais amplo, que é mítico nas suas dimensões. De que outra forma se pode explicar o ódio quase inerradicável dos americanos por tudo o que é russo? Nos EUA, o grande mito é chamado Sonho Americano, no qual, segundo o falecido George Carlin, é preciso estar adormecido para acreditar, mas que, mesmo assim, existe, embora possa estar a desmoronar-se. Todas as sociedades têm um sistema simbólico desse tipo. Através das suas histórias e símbolos, são transmitidos significados e valores. E as pessoas vivem de histórias, histórias dentro de histórias. Mito significa história.

Durante muitas décadas, temos passado por uma enorme transformação simbólica, na qual a ordem simbólica controladora (do grego: juntar) está a ser substituída pelo seu oposto, uma ordem diabólica (do grego: separar, o diabo, el diablo) com novas histórias para confundir as mentes das pessoas, dissociar as suas personalidades, colocá-las umas contra as outras e criar uma sensação geral de incerteza. Deus contra o diabo.

Todo o poder é, fundamentalmente, poder para negar a mortalidade. Isso é verdade quer se trate do poder do Estado ou da Igreja, quer de grupos secretos como o de Epstein. E é sempre um poder sagrado. Sagrado ou pervertido.

Muitos perguntam por que os super-ricos e poderosos sempre querem mais. É simples. Eles desejam transcender a sua mortalidade humana e tornar-se deuses – imortais. Eles acreditam estupidamente que, se puderem dominar os outros, matar, dominar, violar, alcançar status, tornar-se bilionários, presidentes, magnatas, celebridades, etc., eles viverão de alguma forma numa estranha eternidade. Assim são Epstein e o seu círculo.

Num processo que se estendeu por, pelo menos, cento e cinquenta anos, os nossos sistemas simbólicos culturais/religiosos tradicionais foram radicalmente minados, principalmente pela criação faustiana de Lord Nuke (1). Todas as formas de imortalidade simbólica (teológica, biológica, criativa, natural e experiencial) que antes proporcionavam uma sensação de continuidade foram severamente ameaçadas. Este é o espectro assustador que paira sobre o pano de fundo da vida atual.

O que é a morte? Como derrotá-la ou transcendê-la? Qual é o número do telemóvel de Deus? Rápido. Improvise.

Homens pequenos como Epstein e aqueles que se deixaram capturar voluntariamente na sua teia, todos aqueles desesperados com as mãos nas calças, mentindo descaradamente enquanto iam com Pinóquio e o Cocheiro para a Ilha do Prazer…

Corte!

Esqueça o guião.

Ainda não vimos nada.


    (1) «Lord Nuke» não é um título muito conhecido, mas o autor refere-se, provavelmente, a Nuke (Frank Simpson), um supervilão da Marvel Comics. Ele é um soldado altamente cibernético e aprimorado, com um segundo coração, frequentemente usado pelo governo, conhecido pelas suas elevadas aptidões de combate e que aparece nos quadrinhos do Demolidor.

    (2) Edward Curtin é um escritor — difícil de classificar. O seu novo livro é “At the Lost and Found: Personal & Political Dispatches of Resistance and Hope” (Clarity Press).

    https://estatuadesal.com/2026/02/22/a-espontaneidade-cuidadosamente-calculada-da-divulgacao-chocante-dos-ficheiros-de-epstein/

    https://countercurrents.org/2026/02/the-carefully-contrived-spontaneity-of-the-shocking-epstein-files-release/


    sábado, 21 de fevereiro de 2026

    Robert Reich - O caso Epstein

    Robert Reich
     ·
    Amigos,

    A polícia no Reino Unido prendeu Andrew Mountbatten-Windsor, o antigo Príncipe Andrew e Duque de Iorque, sob suspeita de má conduta no cargo público - após a divulgação de emails entre Mountbatten-Windsor e o falecido banqueiro desgraçado Jeffrey Epstein.

    Ainda não sabemos as cobranças específicas. Mas sabemos que a falecida Virginia Giuffre, uma vítima de Epstein, acusou Mountbatten-Windsor de a violar.

    Sabemos também que Mountbatten-Windsor foi o enviado comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011 e parece ter enviado ao Epstein relatórios confidenciais do governo de visitas ao Vietname, Singapura e China, incluindo oportunidades de investimento em ouro e urânio no Afeganistão.

    O primeiro-ministro Keir Starmer diz: "Ninguém está acima da lei. ” A família de Virginia Giuffre diz: “Ninguém está acima da lei, nem mesmo da realeza. ” diz o promotor-chefe da Grã-Bretanha: “Ninguém está acima da lei. ”

    Tudo isso levanta perguntas estranhas sobre as pessoas implicadas deste lado do lago, incluindo a pessoa na Sala Oval que adora ser tratada como um rei, e que aparece nos arquivos Epstein 1.433 vezes (isto é, nos arquivos que foram divulgados para longe). O Príncipe Andrew aparece neles 1.821 vezes.

    A América gosta de acreditar que desistimos de reis há quase 250 anos e adoptamos um sistema em que "ninguém está acima da lei. ”

    Mas a política externa de Trump tornou-se uma ferramenta pessoal para ele canalizar dinheiro e status para si mesmo e para os seus associados mais próximos. Desde as eleições de 2024, a riqueza pessoal da família Trump aumentou em pelo menos 4 bilhões de dólares de acordo com uma estimativa do The New Yorker.

    Tal como acontece com a realeza britânica do século XVI, é tudo pessoal com Trump - tudo sobre expandir o seu poder e aumentar a sua riqueza e a da sua família. Receitas da venda de petróleo venezuelano? “Esse dinheiro será controlado por mim”, diz ele. O presente de um avião do Qatar? “Meu. ” Investimentos dos reinos do Oriente Médio na raquete criptográfica da sua família? “Perfeitamente bem. ”

    Tal como a realeza britânica de antigamente, o Rei Trump tem poder arbitrário. Ele aumenta a tarifa da Suíça de 30 para 39 por cento porque a sua ex-presidente Karin Keller-Sutter "apenas me esfregou da maneira errada. ” Ele impõe uma tarifa de 50 por cento ao Brasil porque o Brasil se recusou a interromper a acusação de um aliado político de Trump, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que foi considerado culpado de tramar um golpe. O Vietnã acelera a aprovação de um campo de golfe da família Trump de 1,5 bilhão de dólares, ao mesmo tempo que procura reduzir a sua taxa de tarifa.

    Trump afirma que a Gronelândia é "psicologicamente necessária", embora os Estados Unidos já tenham uma presença militar lá e um convite aberto para expandir as suas bases. Ele pensa sobre fazer do Canadá o “51.o estado. ” Estes são recordações da era do império do século XVI.

    Entretanto, Trump criou um sistema de tributo e lealdade que faria com que Henrique VIII ficasse com inveja.

    Tim Cook da Apple entrega uma placa baseada em ouro e uma doação para o salão de baile planeado de Trump. Bilionários suíços trazem uma barra de ouro e um relógio de mesa Rolex para a Sala Oval. Jeff Bezos apoia um filme vapido de Melania e entrega-lhe um cheque de 28 milhões de dólares.

    Trump perdoa Changpeng Zhao, o magnata bilionário que se declarou culpado de violações de lavagem de dinheiro em 2023, depois disso, a plataforma de negociação de moedas digitais Binance da Zhao torna-se o motor do negócio de criptografia da família Trump, a World Liberty Financial.

    A enorme contribuição de Elon Musk para a campanha de 2024 de Trump rendeu a Musk um ducado - um "departamento de eficiência governamental" - e as chaves para o reino na forma de sistemas sensíveis do Departamento do Tesouro dos EUA utilizados para gerir pagamentos federais.

    Mas quando o Duque de DOGE começa a tornar-se mais visível do que o Rei Trump, o rei bani-o e revoga o seu ducado. Quando o Musk banido começa a criticar abertamente Trump, o rei ameaça cortar a cabeça de Musk na forma de cortá-lo e à sua SpaceX de contratos governamentais valiosos. Isto acaba com a impertinência de Musk.

    O novo TikTok (no qual Trump tem mais de 16 milhões de seguidores) continuará a operar nos Estados Unidos - mas agora com o apoio financeiro da Oracle, aliada de Trump, Larry Ellison, a empresa de investimento aliada da Emirati de Trump, MGX (que já investiu na empresa de criptomoedas da família Trump), e Silver Lake, juntou-se à firma de capital privado fundada pelo genro de Trump, Jared Kushner.

    Trump permite que a Nvidia venda fichas para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita e estende garantias militares para o Qatar - todos eles investiram no império da família Trump. (Investidores apoiados pela Emirati lançaram 2 bilhões de dólares no World Liberty Financial. )

    Em vez de glória nacional, Trump exige glória pessoal - para obter o Prémio Nobel da Paz, para colocar o seu nome no Kennedy Center, na Estação Penn e noutros grandes monumentos e edifícios.

    Se os seus comandos não forem cumpridos, ele castiga. Como a Noruega não lhe deu um Nobel (não era da Noruega para dar de qualquer forma), ele "já não se sente obrigado a pensar apenas em paz. ” Porque os artistas se recusam a aparecer no Centro “Trump-Kennedy”, ele fecha-o.

    Em vez de burocracias, a América agora tem uma comitiva real. Em vez de instituições, agora temos prerrogativa real. Em vez de legitimidade baseada na vontade do povo, existe um direito divino (“Eu tinha Deus ao meu lado”, “Deus estava a proteger-me”, “Deus está ao nosso lado”).

    Marcharemos contra o Rei Trump no próximo Dia Sem Reis em 28 de março - espero que seja o maior protesto da história americana.

    Mas a prisão do antigo Príncipe Andrew levanta uma questão que vai muito além de protestar e marchar. O Rei Trump estava evidentemente envolvido nos feitos nefastos de Jeffrey Epstein. Não sabemos exatamente como porque não houve investigação criminal. Não deveria haver?

    Trump também vem enriquecendo a si mesmo e à sua família através do seu cargo público, violando múltiplas leis sobre conflitos de interesses.

    Se o Reino Unido pode prender o antigo Príncipe Andrew com provas deste tipo de de crime, porque é que a América não deveria prender o Rei Trump? Se ninguém está acima da lei no Reino Unido, nem mesmo da realeza, presumivelmente ninguém está acima da lei nos EUA, nem mesmo um presidente.

    Pam Bondi obviamente não vai investigar Trump, porque ela faz parte da corte do Rei Trump. Mas e um grupo de procuradores-gerais do estado?

    Quase 250 anos depois de rompermos com George III, a questão deve ser enfrentada agora: Somos uma monarquia ou uma nação de leis?

    Bem, o que é que achas?

    2026 02 20

    https://www.facebook.com/RBReich

    Robert Reich - O caso Epstein

     * Robert Reich
     

    Amigos,

    Aqui está como o Congressista Republicano de Kentucky Thomas Massie respondeu no domingo, durante o "This Week" da ABC a uma pergunta sobre o tratamento dos ficheiros Epstein pelo regime Trump:

    "Isto é sobre a aula de Epstein... Eles são bilionários que eram amigos destas pessoas, e é isso que eu enfrento em Washington, D.C. Donald Trump disse-nos que, apesar de ter jantado com este tipo de pessoas, em Nova Iorque e West Palm Beach, ele seria transparente. Mas ele não é. Ele ainda está na aula de Epstein. Esta é a administração Epstein. E estão a atacar-me por tentar libertar estes ficheiros. ”

    A aula de Epstein. Não apenas as pessoas que se divertiram com o Jeffrey Epstein ou o subconjunto que abusava de raparigas jovens. É um mundo interligado de homens extremamente ricos, proeminentes, intitulados, presunçosos, poderosos, auto-importantes (principalmente) homens. Trump é presidente honorário.

    Trump ainda está sentado em dois milhões e meio de ficheiros que ele e Pam Bondi não vão divulgar. - Porquê? Presumivelmente porque eles implicam Trump e ainda mais da classe Epstein.

    Os ficheiros que foram divulgados até agora não pintam um quadro bonito.

    Trump aparece 1.433 vezes nos arquivos Epstein até agora. Seus patrocinadores bilionários também são membros. Elon Musk aparece 1.122 vezes. Howard Lutnick está lá. Assim como o Trump-backer Peter Thiel (2.710 vezes) e Leslie Wexner (565 vezes). Tal como Steven Witkoff, agora enviado de Trump para o Médio Oriente, e Steve Bannon, consigliere de Trump (1.855 vezes).

    A Classe Epstein não se limita aos doadores Trump. Bill Clinton é um membro (1.192 vezes), assim como Larry Summers (5.621 vezes). Assim como o fundador do LinkedIn Reid Hoffman (3.769 vezes), o Príncipe Andrew (1.821 vezes), Bill Gates (6.385 vezes) e Steve Tisch, co-proprietário do New York Giants (429 vezes).

    Se não é política, então o que liga os membros da Classe Epstein? Não são apenas riquezas. Alguns membros não são particularmente ricos, mas estão ricamente conectados. Eles negociam com a sua proeminência, com quem conhecem e quem retornará os seus telefonemas.

    Eles trocam dicas internas sobre ações, sobre movimentos de moedas, sobre IPOs, sobre novos mecanismos de evasão fiscal. Sobre entrar em clubes exclusivos, reservas em restaurantes chiques, hotéis exuberantes, viagens exóticas.

    A maioria dos membros da Classe Epstein separou no seu próprio mundo pequeno e auto-suficiente, desligado do resto da sociedade. Eles voam nos jatos privados de um outro. Eles divertem-se nas casas de hóspedes e villas de um outro. Algumas dicas de troca sobre como obter certas drogas ou sexo pervertido ou obras de arte valiosas. E, claro, como acumular mais riqueza.

    Muitos não acreditam particularmente na democracia; Peter Thiel (lembre-se, ele aparece 2.710 vezes nos ficheiros Epstein) disse que "já não acredita que a liberdade e a democracia são compatíveis. ” Muitos estão colocando suas fortunas em eleger pessoas que farão suas ordens. Portanto, eles são politicamente perigosos.

    A Classe Epstein é o subproduto de uma economia que emergiu ao longo das últimas duas décadas, da qual esta nova elite desviou vastas quantidades de riqueza.

    É uma economia que quase não tem nenhuma semelhança com a da América de meados do século XX. As empresas mais valiosas nesta nova economia têm poucos trabalhadores porque não fazem coisas. Eles desenham-no. Eles criam ideias. Eles vendem conceitos. Eles movem dinheiro.

    O valor dos negócios nesta nova economia não está nas fábricas, edifícios ou máquinas. Está em algoritmos, sistemas operacionais, padrões, marcas e vastas redes de usuários auto-reforçando.

    Lembro-me de quando a IBM era a empresa mais valiosa do país e entre os seus maiores empregadores, com uma folha de pagamento na década de 1980 de quase 400.000. Hoje, a Nvidia é quase 20 vezes mais valiosa do que a IBM era então e cinco vezes mais rentável (ajustada para a inflação), mas emprega pouco mais de 40.000. A Nvidia, ao contrário da antiga IBM, desenha mas não faz os seus produtos.

    Nos últimos três anos, a receita do Google parent Alphabet cresceu 43% enquanto a folha de pagamento permaneceu fixa. A receita da Amazon subiu, mas está eliminando empregos.

    Os membros da Classe Epstein são compensados em ações. À medida que os lucros corporativos subiram, o mercado de ações rugiu. À medida que o mercado de ações rugiu, a compensação da Classe Epstein chegou à estratosfera.

    Eles não pagam muito em impostos de renda porque não têm muito rendimento comum. A maioria das vezes, eles gostam de ganhos de capital. E uma coisa em que o Epstein era particularmente bom foi ajudá-los a evitar até mesmo impostos sobre ganhos de capital.

    Entretanto, a maioria dos americanos estão presos numa economia antiga onde dependem de cheques salariais que não estão a crescer, e da qual têm de pagar impostos de renda, e empregos com escassez de oferta. A maioria vive de salário em salário e está a um ou dois salários de distância da pobreza. O Federal Reserve Bank of New York acaba de informar que as taxas de delinquência hipotecária para famílias com rendimentos mais baixos estão a aumentar.

    Habitação acessível não é um problema que ocorre na Classe Epstein. Nem a desigualdade de renda. Nem a perda da nossa democracia. Nem os efeitos prejudiciais das redes sociais nos jovens e nas crianças.

    Quando o maior proponente tecnológico do Vale do Silício no Congresso - o Rep. Ro Khanna - anunciou recentemente o seu apoio a um imposto sobre os bilionários da Califórnia, para ajudar a preencher o vazio criado pelos cortes de Trump na Medicare e Medicaid (que, por sua vez, abriu caminho para a segunda enorme redução de impostos de Trump para os ricos), A Turma Epstein explodiu uma junta.

    Vinod Khosla, um dos mais proeminentes capitalistas de risco do Vale do Silício, com um património líquido estimado em mais de 13 mil milhões de dólares (e que é mencionado 182 vezes nos ficheiros Epstein mas não é amigo de Trump), chamou Khanna de "camarada comunista. ”

    Khosla, a propósito, é mais conhecida pelo público por comprar 89 acres de propriedade à beira-mar da Califórnia em 2008 por 32,5 milhões de dólares, e depois tentar bloquear o acesso público ao oceano com um portão trancado e placas. Apesar de perder várias decisões judiciais, incluindo um recurso da Suprema Corte de 2018, ele continua com a disputa.

    Não tem classe, mas, digamos, um movimento típico da Classe Epstein.

    Quais são os seus pensamentos?

    2026 02 19
    https://www.facebook.com/RBReich

    segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

    António Gil - Os porcos estão no poder


    * António Gil


    E eles são muito mais animais que os outros

    Considerando o número de políticos, membros de famílias envolvidos em relações sinistras com Epstein e além disso jornalistas, intelectuais e artistas, a única hipótese que restaria ao ‘Ocidente’ era vassourada total no topo das várias hierarquias (as de sangue, hereditárias, as de conluio intelectual, as de cumplicidade criminosa de políticos) e recomeçar do zero.

    Falemos de uma grande cama, onde todos promiscuamente conviviam, no bordel que Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, por esta ordem, já que ela era a madame patroa, ele era o ‘segurança’ do bordel. A prova desta hierarquia é que ele foi suicidado ela nunca o será porque está bem protegida como acontece sempre com quem está no topo.

    Nessa grande cama, dormiram tantos, tantos, dos ditos ‘líderes ocidentais’ dos dois sexos e seus derivados genéricos, acompanhados por todos os seus asseclas: os escribas, os roteiristas, os realizadores de cinema, as estrelas pop da música e das artes performativas e -é claro – os produtores, os que fianaciaram todo aquele filme hardcore.

    Uma prova, se ainda necessitássemos de tal coisa, que milhares de pessoas podem guardar longamente um segredo, protegendo-o dos rumores, da má língua, mesmo dos ‘teóricos da conspiração,’ essa ‘raça’ sempre tão desconfiada à qual desde sempre me orgulhei de pertencer.

    É muita gente, é gente muito poderosa. Não são pessoas como nós, ninguém os censura, ninguém os cancela, ninguém os desmonetariza e ninguém os castiga da forma como mereceriam. Já viram alguém preso? Algum julgamento marcado, além da madame Maxwell?

    Não admira que muitos deles e delas se vejam no papel de deuses e deusas, com poderes exclusivos para disporem de corpos alheios, sejam eles crianças impúberes ou humanos maduros ou anciãos, todos dispensáveis.

    Estamos diante disso, agora. E não importa se acreditamos ou não em deuses e deusas, importa sim saber que há humanos arrogando-se tal estatuto e agindo como se tivessem criado o Universo ou mesmo os multiversos.

    Não se trata já de resistir a estas criaturas, o desafio é mais radical: ou nos livramos de tais monstros ou, nalgum ponto elas se livrarão de todos os que consideram humanos excedentários. E decerto a maioria esmagadora de nós está nessa categoria, para tais seres aberrantes.

    E os que não estão, se não pertencerem a esse clube exclusivo e desapiedado, servirão enquanto tiverem corpos apetecíveis ou produzam prosápia envenenada, para enganar os leitores mais crentes. Depois disso, esgotarão seus prazos de validade e serão jogados no lixo, como todos os outros.

    Se a impunidade prevalecer e -como prevejo – não houver outra punição para estas criaturas aberrantes senão o breve embaraço e a ligeira maçada de verem seus nomes publicamente expostos, a mensagem desse laxismo jurídico será clara mas incomodará pouca gente: os poderosos não estão sujeitos às leis que eles mesmos impõem aos outros, não sofrem as legítimas punições e podem, portanto, continuar alegremente a executar suas presas para satisfação de seus mais baixos instintos.

    2026 02 02

    https://antoniojfgil.substack.com/p/the-pigs-are-in-power?

    segunda-feira, 10 de novembro de 2025

    Marcelo Tavares de Santana - IAs copiando estilos de escrita e fala

    Diante das novas ameaças o que precisamos parece ser amadurecer nossas práticas atuais.

    10/11/2025  

    Por Marcelo Tavares de Santana*

    Os algoritmos de inteligência artificial (IA) trouxeram novas possibilidades para a humanidade assim como também para golpes. Numa breve pesquisa por golpes novos nomes apareceram e num primeiro momento pode parecer precisarmos de mais ferramentas de proteção, o que aumentaria a complexidade de segurança e tornaria mais difícil manter um ambiente seguro; mas diante das novas ameaças o que precisamos parece ser amadurecer nossas práticas atuais. Estamos cada vez mais acostumados com a ideia do deepfake, onde nossas vozes e até mesmo nossas imagens são modificadas e animadas por IA, porém agora essas técnicas estão presentes até o nosso modo de escrever e falar, ou seja, pode-se até copiar o estilo de escrita de um poeta.

    Já abordamos nesta coluna os ataques do tipo phishing, ou seja, tentativas de enganar o usuário para que ele entregue informações de acesso às suas contas bancárias, de e-mails, etc. A título de exemplo vamos falar de dois tipos de phishing que podem ser utilizados por IA: smishing e vishing.

    O smishing é um golpe feito por SMS, portanto pode ser aplicado a qualquer tipo de comunicação via mensagem de texto. Com o uso de IA, esse tipo de ataque pode ser sofisticado aprendendo o modo de escrever das pessoas, as expressões idiomáticas que mais usam e quando gostam de inserir um pouco de humor nas conversas. Ou seja, todo o estilo de uma pessoa escrever pode ser copiado dando mais confiabilidade às mensagens falsas. Naturalmente isso só é possível se a IA for alimentada com mensagens originais para que ela possa “aprender” o estilo de escrita.

    O vishing é um golpe por chamada de voz que, como vimos na matéria anterior, pode ser copiada e associada ao estilo da pessoa, tornando uma conversa por voz ainda mais convincente. Observe que estamos no momento em que nossa voz já está gravada em diversos serviços digitais de diversas empresas e além disso, nosso jeito de escrever também está copiado e apresentado publicamente nas redes sociais, portanto, os ingredientes para construírem a receita da nossa voz e do nosso estilo de escrever e falar são praticamente públicos.

    Contra essa sofisticação dos golpes auxiliados por IA valem as recomendações de sempre: usar senhas fortes, chaveiro digital, autenticação multifatorial, manter programas atualizados, fazer backups regulares, não anotar senhas de banco, etc. Para complementar é sempre importante manter a calma e não permitir que outras pessoas nos coloquem em estado de urgência, principalmente quando o assunto é dinheiro. Por exemplo, se alguém disser que tem uma emergência, simplesmente basta dizer que não tem condições de atender a não ser o que se encontre pessoalmente ou dizer para ela pedir metade para alguém que não existe apenas a fim de testar se essa pessoa vai continuar a conversa ou não, se continuar é golpe.

    Novos nomes de ameaças vão surgir o tempo todo, mas os alvos serão os mesmos, como obter senhas e acessos, conseguir transferências bancárias e colocar pessoas em situação de urgência. Independente das técnicas, os alvos precisam das mesmas proteções. Como falamos algumas vezes, é importante não entrar em paranóia, pois isso acaba se tornando uma falha de segurança.

    Seria melhor se nós tivéssemos uma sociedade altamente escolarizada para que as pessoas fossem menos vulneráveis, no entanto isso depende mais de ações governamentais que de nós mesmos e no momento esses esforços pela educação brasileira vão mal, ainda mais agora que temos no Congresso um projeto para reduzir o investimento em educação em relação ao PIB de 10% para 7,5%, o que também do ponto de vista de segurança é péssimo pois em vez de termos uma população mais escolarizada e menos vulnerável a golpes caminha-se no caminho contrário, digamos, tornando o mercado de golpes mais viável.     

    Uma tática bastante interessante numa situação de golpes por smishing, vishing e ataques similares de hoje e de amanhã, é encerrar qualquer conversa dizendo que vai retornar em outro momento por outro canal de confiança, outro aplicativo ou diretamente por telefone, principalmente quando houver algum apelo emocional pela urgência de ajuda. Pode-se também solicitar mudar a conversa para chamada de vídeo a fim de identificar, além da pessoa, se o ambiente que ela está é um lugar familiar; caso coloque aqueles filtros de fundo na conversa, questione. Em outras palavras, devemos manter nosso controle emocional em qualquer comunicação e fazer verificações sobre ela, trabalhando melhor aspectos comportamentais como por exemplo:

    manter a calma diante de mensagens ou ligações urgentes;
    desconfiar de pedidos de dinheiro ou situações emergenciais;
    encerrar a conversa e dizer que retornará por outro canal confiável;
    confirmar o pedido pessoalmente ou por chamada de vídeo;
    fazer um teste simples: pedir que contate alguém inexistente e ver se insiste (indício de golpe).

    A imprensa e redes sociais provavelmente sempre trarão notícias de novos golpes, e até mesmo desinformação sobre eles; sem falar nas fake news. É importante não deixar essa sobrecarga de informações atrapalhar a qualidade de nossas práticas de segurança, pois não adianta fazer coisas mais complexas se o básico não está sendo cuidado. Com a sofisticação dos golpes com IAs, pode ser mais importante a nossa percepção das comunicações a adquirir e mais programas que nunca serão mais criativos que os golpistas. Alguns desses golpes precisam ser rápidos (cinco minutos ou menos) para serem efetivados, portanto, não deixem o golpista dominar o tempo, que diferença faz atender um pedido de ajuda em cinco ou quinze minutos? Creio que nenhuma, e ainda dá tempo para verificar o contato por outros meios. Como recomendação final, procure estudar mesmo através de notícias os golpes digitais mais recentes, sempre refletindo em como se comportar em situações parecidas.

    Bom estudo a todos!

    *Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo

    https://passapalavra.info/2025/11/158076/