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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Boaventura de Sousa Santos - O Impensável acontece?

* Boaventura de Sousa Santos
 

A história moderna é abundante em acontecimentos de tal modo extraordinários, aberrantes, revoltantes e surpreendentes que apetece exclamar: como é possível!? Normalmente, esta exclamação, enquanto fenómeno generalizado, não surge no momento em que tais acontecimentos têm lugar, mas anos ou séculos depois: como foi possível!? O espanto é de tal ordem que, muitas vezes, o que aconteceu ultrapassa, não só os limites do que é possível, como também os limites do que é pensável: como acontece ou aconteceu o impensável!?

Quando o grande historiador de arte, E. H. Gomrich, se dispôs a escrever (em seis semanas) o livro Uma Pequena História do Mundo para Jovens Leitores (Eine Kurze Weltgeschichte für junge Leser), publicado em Viena em 1935, o seu objectivo era ensinar história aos jovens. O livro teve um enorme êxito e foi depois várias vezes actualizado. Um dos leitmotivs da narrativa é precisamente mostrar aos jovens o modo como na história acontecem frequentemente coisas que parecem estar para além do possível, ou mesmo do pensável. E o mais estranho é que tais acontecimentos só são conhecidos muitos anos depois. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, nem ele (que emigrara para a Inglaterra em 1936 e trabalhava na BBC) nem a grande maioria dos alemães ou dos europeus sabia ou podia imaginar o horror dos crimes que estavam a ser cometidos contra os judeus (o Holocausto). Como é evidente, os exemplos poderão multiplicar-se. Como se poderia pensar que cristãos convictos (fossem eles portugueses, espanhóis ou peregrinos do Mayflower) se pudessem entregar ao horrível extermínio dos povos originários das Américas entre os séculos XVI e XIX? E quem saberia do que se passava no momento em que se passava? Claro que houve testemunhos contemporâneos muito eloquentes, como o de Bartolomé de las Casas, mas a sua voz era uma excepção e pouco ouvida. Quem poderia imaginar, e quantos belgas saberiam, que o civilizadíssimo Rei Leopoldo II organizava o extermínio de 50 a 75% da população do Congo em pouco mais de duas décadas (1885-1908)?

Hoje tudo parece diferente no que respeita ao conhecimento, mas não no que respeita à ocorrência do que se considera impossível ou sequer impensável. Devido à revolução nas tecnologias de informação e de comunicação, hoje sabemos em tempo real o que acontece no mundo. E o que acontece também nos leva muitas vezes a exclamar: é possível? É pensável?  Genocídios no Ruanda, Sudão e Palestina; propostas de compra de países (Gronelândia); captura por potência estrangeira de Presidentes em pleno exercício de funções de países soberanos (Venezuela); invasão e ocupação de países estrangeiros para segurança dos cidadãos do país invasor (Vietname, Iraque, Afeganistão); alegados criminosos de guerra condenados pela justiça internacional viajando livremente no espaço aéreo de países signatários dos tratados e instituições da justiça internacional (Netanyahu, Putin); fragmentação de países como estratégia de dominação (Líbia, Síria, Sudão, Somália); regresso da pirataria no alto mar.

Este elenco levanta três questões. Porque é que o que parece impossível ou mesmo impensável acontece? Saberemos tudo o que está a acontecer, apesar de ser considerado impossível ou impensável? O facto de podermos saber que acontece o que parece ser impossível ou impensável é relevante?

Porque é que o impensável acontece

O impensável acontece porque em cada período histórico se cria uma ideia dominante de natureza humana que não permite conceber e muito menos prevenir que o impensável aberrante ou catastrófico aconteça porque precisamente não se considera o que acontece nem aberrante nem catastrófico. Desde o século XVII, a sociedade eurocêntrica moderna desenvolveu a ideia de que é próprio da natureza humana lutar pela evolução positiva e irreversível da sociedade. Chamou-se a esta ideia: progresso. Mas o progresso tem um custo porque não há progresso sem luta. Esta ideia está tão presente em Malthus como em Darwin e Marx. A luta e o custo do progresso significam que não é possível realizar os ideais do progresso sem cometer acções que contrariam esses ideais.

Para que essa contradição não seja politicamente visível é fundamental desumanizar os grupos sociais que perdem nessa luta e sofrem os custos correspondentes. Assim construída, a ideia do progresso não tem nada a ver com o bem-estar das populações. É que só contam como populações dignas de bem-estar as que têm poder para impor custos sem os sofrer. Essas populações podem ser cada vez mais minoritárias, mas isso em nada afecta a ideia de progresso. Aliás, haverá tanto mais progresso quanto mais selectivo ele for. Os bilionários de hoje são a melhor ilustração disso mesmo. A ideia do progresso não pode pensar a ideia do retrocesso. Só os grupos que perdem na luta e sofrem os custos é que podem questionar o progresso.  O império, quando se vê ao espelho, nunca vê o seu declínio.

Se atentarmos, por exemplo, no discurso do actual representante máximo do máximo progresso em máximo declínio, Donald Trump, é fácil concluir que a dicotomia que orienta o seu pensamento (se pensar for igual a falar) não é a de amigo/inimigo, nem sequer a de cidadão/estrangeiro. É a dicotomia humano/sub-humano. Quem discordar dele, por mais amigo ou cidadão que seja, passa de imediato à categoria de sub-humano.

O impensável acontece porque quem tem poder para que ele aconteça tem também o poder para que ele não seja considerado impensável. O impensável acontece abruptamente, mas é sempre lentamente gerado e preparado. A sua gestação tem várias componentes.

A primeira componente é o trabalho ideológico que tem uma forte componente semiótica. Trata-se, por exemplo, de eliminar certas palavras e substituí-las por outras que neutralizem a carga política ou ética e naturalizem o novo normal. Assim se substitui capitalismo por economia de mercado. Flexibilidade laboral tem uma carga ideológica oposta a precariedade laboral e, no entanto, significam o mesmo na vida dos trabalhadores. Outro procedimento ideológico tem o sentido oposto: magnificar ou demonizar o alvo de modo a justificar uma reacção extrema:  a queda do dólar convertida em apocalipse; o político hostil convertido em ditador ou terrorista para que o político amigo pareça o contrário sem deixar de ser ditador ou terrorista; usar recorrentemente a expressão “sem precedentes” para magnificar agressões repetidamente praticadas.

A segunda componente consiste na informação selectiva de modo a fazer crer que a ponta do iceberg é o iceberg todo. Assim se fez, no domínio da energia atómica, até ao impensável das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Assim se fará com a inteligência artificial.

A terceira componente consiste em substituir tragédias humanas por estatísticas. A vida humana é uma qualidade enquanto um número de vidas ou de mortes é uma quantidade. Mas, neste caso, a chave consiste em ter poder para não deixar converter a quantidade numa nova qualidade. Depois da Segunda Guerra Mundial, os judeus, em colaboração com todos os democratas do mundo, conseguiram converter a quantidade numa nova qualidade: os seis milhões de mortos converteram-se no Holocausto. Pelo contrário, o povo palestiniano pode vir a ser eliminado sem que os palestinianos e os democratas do mundo tenham poder para transformar os milhares de crianças intencionalmente assassinadas em política de extermínio.

Finalmente, a quarta componente consiste em baixar progressivamente as expectativas de paz, de convivência democrática ou de bem-estar até que se torne irrelevante prescindir delas. Quando os cidadãos e as cidadãs apenas foram livres para ser miseráveis estaremos perante a miséria da liberdade.

Podemos concluir que o impensável só é impensável para a generalidade da população que é confrontada com a sua abrupta ocorrência. Mas foi paulatinamente pensado e por isso acontece.

Porque não sabemos tudo

Em cada período histórico, o contexto político-cultural dominante impõe limites ao que se determina ser a natureza humana. Na nossa época, o contexto dominante é o cientismo. Da etologia à biologia, da psicologia às neurociências é a ciência contemporânea que determina o que é a natureza humana, suas potencialidades e seus limites. O que a ciência não vê, não se vê. Como no actual contexto a ciência determina o que é a natureza humana, torna-se impossível pensar o contexto que torna possível esta ciência, e não outra. Tinha razão Kropotkin quando dizia: “Sim, sem dúvida, devemos basear a nossa teoria social na teoria biológica, mas então olhemos de novo para a teoria biológica”. Ora, enquanto na biologia do biólogo Darwin havia luta e competição, na biologia do biólogo Kropotkin havia cooperação e solidariedade.

Tendo isto em vista, muita monstruosidade pode estar a ser gerada ou já a acontecer sem sabermos e bem perto de nós, nos laboratórios das nossas universidades e das grandes empresas. Os monstros familiares parecem-se muito com a normalidade.

A ocultação tende a ser maior na medida em que se confundirem três conceitos: verdade, inverdade e mentira. A verdade é, de facto, a busca da verdade. São muitos os caminhos, mas o objectivo é um só, mesmo que nunca se alcance. A inverdade é a falsidade ou alta improbabilidade que se profere pensando que é verdade. O contexto político e financeiro em que a ciência é hoje produzida faz com que a inverdade ocorra frequentemente. Pelo contrário, a mentira é a falsidade que se diz sabendo-se que não é verdade. A mentira está fora do campo do cientismo, mas a promiscuidade do cientismo com a política faz com que esta recorra à mentira e a faça passar credivelmente por verdade ou inverdade.

É por esta razão que, ao ouvir certos políticos, um cidadão avisado pense num conselho de Santo Agostinho que Montaigne cita no nono ensaio (sobre os mentirosos): “estamos melhor na companhia de um cão que conhecemos do que na companhia de um homem cuja linguagem não entendemos”

Porque pensar o impensável é hoje irrelevante

O cientismo assenta numa ideia central: a ciência não é política nem ética. As aplicações da ciência podem ter implicações políticas ou éticas, mas a ciência em si não as tem. Para o cientismo só há duas categorias de pensamento: o pensado e o ainda não pensado. O impensável é irrelevante. Tudo isto porque a ciência só pode responder a perguntas formuladas cientificamente. Ora a categoria do impensável, tal como a da espiritualidade, da felicidade ou da transcendência, não pode ser formulada cientificamente. Logo, tal como a espiritualidade, a felicidade ou a transcendência, o impensável não existe como pergunta.

Se contra a corrente olharmos para a realidade numa perspectiva política ou ética, verificamos que o impensável de que até agora falei – o acontecimento extremamente aberrante, repugnante, catastrófico – é apenas um dos impensáveis. De facto, há dois tipos de impensáveis: o positivo e o negativo. O primeiro acciona a esperança e o segundo acciona o medo. Parecem excluir-se mutuamente, mas um não existe sem o outro. O impensável negativo é o que me tem ocupado neste texto. O impensável positivo é o de uma sociedade ideal ou de uma vida individual idealmente plena onde os problemas que a sociedade e os indivíduos hoje enfrentam estejam superados sem que outros novos e graves venham ocupar o seu lugar. No contexto da modernidade eurocêntrica o impensável positivo é a utopia. A ideia da utopia realista é uma contraditio in adjecto.

 O contexto do cientismo actual torna impossível imaginar o impensável positivo. Kropotkin perdeu a batalha. Não sei se perdeu a guerra. Política, cultural e eticamente tornou-se impossível imaginar uma sociedade alternativa onde os impensáveis negativos do nosso tempo (tanto os conhecidos do público como os desconhecidos) não pudessem acontecer. O cientismo dominante naturalizou tanto a natureza humana como o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.

O problema é que a impossibilidade do impensável positivo naturaliza o impensável negativo, ocultando a sua negatividade. É a sempre nova e sempre velha normalidade. Lutar contra esta torna-se impossível e utópico precisamente porque a possibilidade de utopias realistas é … utópica.

Não se trata de uma fatalidade histórica. Trata-se antes de um contexto específico que António Gramsci designou como interregno: o mundo velho em que os horrores mais impensáveis são cada vez mais frequentes e “naturais” ainda não morreu totalmente enquanto o mundo novo de alternativas solidárias, pacíficas, justas entre seres humanos e entre estes e a natureza ainda não nasceu plenamente. É um contexto trágico em que a liberdade se confunde com a necessidade e em que o risco do destino funesto está em acreditar que forças ocultas e invencíveis controlarão para sempre as nossas vidas. Faltam-nos coveiros do velho e parteiras do novo.

17 de Janeiro de 2026
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ORLANDO CARVALHO  19 de Janeiro de 2026 às 12:24
Boaventura Sousa Santos coloca com ligeireza em pé de igualdade Netanyahu e Putin, como criminosos de guerra, quando todos os analistas honestos consideram o caso de Putin uma falsidade perpetrada pelos do costume. Quanto a Netanyahu todos vemos à vista desarmada as atrocidades cometidas em Gaza.

A justiça não nos deixa ser juízes dum caso antes da sua tramitação em julgado, que se requer seja feito por juízes que não estejam comprados.

Faz-me lembrar uma pessoa digna que foi acusada de assédio sexual e julgada e condenada na comunicação e nas redes sociais.

Boaventura de Sousa Santos 19 de Janeiro de 2026 às 17:09
O comentário de Orlando Carvalho, que muito agradeço, fez-me pensar. Como é possível que uma pessoa como eu, que há quase três anos era considerado “um homem de Putin” num editorial insultuoso escrito pelo então director do Público, Manuel Carvalho, pode pôr ao mesmo nível dois políticos sobre os quais tem posições políticas tão distintas?

Antes de mais, dou a mão à palmatória. Peço ao administrador do blog, o Antonio Gomes Marques, que faça uma correcção no meu texto. No plano da justiça internacional estão ambos na mesma situação, tanto quanto sei: há um mandado de captura, não há julgamento nem muito menos condenação. Em face disso, onde escrevi “criminosos de guerra” devo escrever “alegados criminosos de guerra”.

Isto não resolve a objecção de OC porque continuo a pôr os dois políticos ao mesmo nível no plano da justiça internacional. Ambos conhecemos a pressão dos EUA para que o TPI actuasse rapidamente no caso Putin e tanto que o TPI terá eventualmente cometido alguma ilegalidade processual, tal era a pressa. No caso Netanyahu, passou-se o oposto e conhecemos as ameaças feitas ao procurador e as sanções aplicadas contra ele e sua família.

Por mais objecções que tenha à actuação prática do TPI, eu quero acreditar que ainda há uma ténue justiça internacional em vigor. Assim sendo, a menos que tenha havido um erro processual no caso Putin, eu terei de considerar válido o mandato de captura contra ele como única condição para exigir a captura de Netanyahu. O que eu posso dizer ao OC é que se eu fosse juiz do TPI e o julgamento fosse hoje, eu não teria dúvidas em votar pela condenação de Netanyahu.

António Gomes Marques 19 de Janeiro de 2026 às 17:28
A pedido de Boaventura de Sousa Santos, a sua resposta ao comentário de Orlando Carvalho foi inserida por António Gomes Marques.

https://aviagemdosargonautas.net/2026/01/17/o-impensavel-acontece-por-boaventura-de-sousa-santos/

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Jonathan Cook - Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre


US President Donald Trump and Ukraine's President Volodymyr Zelensky meet in the Oval Office of the White House in Washington, DC on 28 February, 2025 (AFP)

 

Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre
por Jonathan Cook, MEE.

Se há uma coisa pela qual podemos agradecer ao Presidente dos EUA, Donald Trump, é esta: ele eliminou de forma decisiva a noção ridícula, há muito cultivada pelos media ocidentais, de que os EUA são um bom polícia global que impõe uma "ordem baseada em regras". Washington é melhor entendido como o chefe de um império de gangsters, com 800 bases militares em todo o mundo. Desde o fim da Guerra Fria, tem procurado agressivamente o "domínio global de espetro total", como define a doutrina do Pentágono educadamente.

Ou se presta fidelidade ao Don ou se é atirado ao rio. Na sexta-feira passada [28fev2025], o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi presenteado com um par de botas de betão de marca na Casa Branca. A novidade foi que tudo aconteceu em frente ao corpo de imprensa ocidental, na Sala Oval, e não numa sala das traseiras, fora das vistas. Foi ótimo para a televisão, disse Trump.

Os especialistas apressaram-se a tranquilizar-nos, dizendo que a cena de gritos foi uma espécie de número estranho de Trump. Como se a inospitalidade para com os líderes de Estado e o desrespeito para com os países que lideram fossem exclusivos desta administração. Veja-se apenas o exemplo do Iraque. A administração de Bill Clinton achou que "valia a pena" - como disse a sua secretária de Estado, Madeleine Albright, de forma infame - matar cerca de meio milhão de crianças iraquianas, impondo sanções draconianas durante a década de 1990. Sob o comando do sucessor de Clinton, George W Bush, os EUA desencadearam uma guerra ilegal em 2003, com base em argumentos totalmente falsos, que matou cerca de meio milhão de iraquianos, de acordo com as estimativas pós-guerra, e deixou quatro milhões de desalojados.

Aqueles que se preocupam com o facto de a Casa Branca humilhar publicamente Zelensky talvez devessem guardar a sua preocupação para as centenas de milhar de homens, na sua maioria ucranianos e russos, mortos ou feridos numa guerra totalmente desnecessária - uma guerra que, como veremos, Washington planeou cuidadosamente através da NATO nas duas décadas anteriores.

Capanga Zelensky

Todas essas baixas serviram o mesmo objetivo que no Iraque: lembrar ao mundo quem é que manda. Só que o público ocidental não compreende isto porque vive dentro de uma bolha de desinformação, criada para ele pelos media ocidentais.

Henry Kissinger, o antigo diretor da política externa dos EUA, afirmou: "Pode ser perigoso ser inimigo da América, mas ser amigo da América é fatal." Zelensky acabou de descobrir isso da maneira mais difícil. Os impérios de gangsters são tão inconstantes como os gangsters que conhecemos dos filmes de Hollywood. Durante a anterior administração de Joe Biden, Zelensky tinha sido recrutado como um capanga para fazer as vontades de Washington à porta de Moscovo. O pano de fundo - aquele que os media ocidentais mantiveram em grande parte fora de vista - é que, após o colapso da União Soviética, os EUA rasgaram tratados cruciais para tranquilizar a Rússia quanto às boas intenções da NATO. Do ponto de vista de Moscovo, e tendo em conta o historial de Washington, o guarda-chuva de segurança europeu da NATO deve ter parecido mais uma preparação para uma emboscada.

Embora Trump esteja agora empenhado em reescrever a história e apresentar-se como pacificador, ele foi fundamental para a escalada de tensões que levou à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Em 2019, ele retirou-se unilateralmente do Tratado de 1987 sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio. Isso abriu a porta para que os EUA lançassem um potencial primeiro ataque contra a Rússia, usando mísseis estacionados nas proximidades dos membros da NATO, Roménia e Polónia. Também enviou armas anti-tanque Javelin para a Ucrânia, uma medida evitada pelo seu antecessor, Barack Obama, por recear que fosse vista como uma provocação.

A NATO prometeu repetidamente trazer a Ucrânia para o seu seio, apesar dos avisos da Rússia de que esse passo era visto como uma ameaça existencial, de que Moscovo não podia permitir que Washington colocasse mísseis na sua fronteira, tal como os EUA não aceitaram os mísseis soviéticos estacionados em Cuba no início da década de 1960. Washington avançou na mesma, chegando mesmo a apoiar um golpe ao estilo da revolução colorida em 2014 contra o governo eleito em Kiev, cujo crime foi ser demasiado simpático a Moscovo.

Com o país em crise, Zelensky foi eleito pelos ucranianos como candidato da paz, para pôr fim a uma guerra civil brutal - desencadeada por esse golpe - entre forças anti-russas e "nacionalistas" no oeste do país e populações de etnia russa no leste. O Presidente ucraniano quebrou rapidamente essa promessa.

Trump acusou Zelensky de ser um "ditador". Mas se o é, é apenas porque Washington assim o quis, ignorando a vontade da maioria dos ucranianos.

A mais vermelha das linhas vermelhas

A função de Zelensky era fazer um jogo da galinha com Moscovo. O pressuposto era que os EUA ganhariam qualquer que fosse o resultado. Ou o bluff do Presidente russo, Vladimir Putin, seria desfeito. A Ucrânia seria acolhida na NATO, tornando-se a mais avançada das bases avançadas da aliança contra a Rússia, permitindo que mísseis balísticos com armas nucleares ficassem estacionados a minutos de Moscovo. Ou então Putin iria finalmente concretizar as suas ameaças de anos de invasão do seu vizinho para impedir que a NATO ultrapassasse a mais vermelha das linhas vermelhas que ele tinha estabelecido sobre a Ucrânia.

Washington poderia então alegar "auto-defesa" em nome da Ucrânia, e ridiculamente simular receio perante o público ocidental de que Putin estaria a seguir a Polónia, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha. Foram estes os pretextos para armar Kiev ao máximo, em vez de procurar um acordo de paz rápido. E assim começou uma guerra de atrito por procuração contra a Rússia, utilizando homens ucranianos como carne para canhão. O objetivo era desgastar a Rússia militar e economicamente, e provocar o derrube de Putin.

Zelensky fez exatamente o que lhe foi pedido. Quando, no início, pareceu vacilar e considerou assinar um acordo de paz com Moscovo, o primeiro-ministro britânico da altura, Boris Johnson, foi despachado com uma mensagem de Washington: continuem a lutar. Este é o mesmo Boris Johnson que agora admite, sem qualquer problema, que o Ocidente está a travar uma "guerra por procuração" contra a Rússia. Os seus comentários não geraram qualquer polémica. O que é muito estranho, uma vez que os críticos que chamaram a atenção para este facto óbvio há três anos foram imediatamente denunciados por espalharem "desinformação sobre Putin" e "pontos de discussão" do Kremlin.

Pela sua obediência, Zelensky foi festejado como um herói, o defensor da Europa contra o imperialismo russo. Todas as suas "exigências" - exigências que tiveram origem em Washington - foram satisfeitas. A Ucrânia recebeu pelo menos 250 mil milhões de dólares em armas, tanques, jatos de combate, treino para as suas tropas, informações ocidentais sobre a Rússia e outras formas de ajuda. Entretanto, centenas de milhares de homens ucranianos e russos pagaram com as suas vidas - tal como as famílias que deixaram para trás.

Etiqueta da máfia

Agora o velho Don em Washington foi-se embora. O novo Don decidiu que Zelensky foi um fracasso caro. A Rússia não está ferida de morte. Está mais forte do que nunca. É hora de uma nova estratégia. Zelensky, imaginando ainda ser o capanga favorito de Washington, chegou à Sala Oval apenas para receber uma dura lição de etiqueta mafiosa.

Trump está a interpretar a sua punhalada nas costas como um "acordo de paz". E, em certo sentido, é-o. Com razão, Trump concluiu que a Rússia ganhou - a menos que o Ocidente esteja pronto para travar a Terceira Guerra Mundial e arriscar uma potencial guerra nuclear. Trump enfrentou a realidade da situação, mesmo que Zelensky e a Europa ainda estejam a lutar para o fazer.

Mas o seu plano para a Ucrânia é, na verdade, apenas uma variação do seu outro plano de paz - o de Gaza. Ali, quer limpar etnicamente a população palestiniana e, sobre os corpos dos muitos milhares de crianças mortas no enclave, construir a "Riviera do Médio Oriente" - ou "Trump Gaza", como lhe chamam num vídeo surrealista que partilhou nas redes sociais. Da mesma forma, Trump vê agora a Ucrânia não como um campo de batalha militar, mas como um campo económico onde, através de acordos inteligentes, pode obter riquezas para si e para os seus amigos bilionários.

Ele apontou uma arma à cabeça de Zelensky e da Europa. Façam um acordo com a Rússia para acabar com a guerra, ou estão por vossa conta contra uma potência militar muito superior. Vejam se os europeus podem ajudar-vos sem um fornecimento de armas de Washington.

Não surpreende que Zelensky, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron se tenham reunido no fim de semana para encontrar um acordo que apaziguasse Trump. Tudo o que Starmer revelou até agora é que o plano vai "parar os combates". Isso é positivo. Mas os combates podiam ter sido travados, e deviam ter sido travados, há três anos.

Dinheiro, não paz

É profundamente insensato deixarmo-nos embalar pelo tribalismo - o mesmo tribalismo que as elites ocidentais procuram cultivar entre os seus públicos para que continuemos a tratar os assuntos internacionais como se fossem um jogo de futebol de alto risco. Ninguém aqui se comportou, ou está a comportar-se, de forma honrada.

O cessar-fogo na Ucrânia não é uma questão de paz. É uma questão de dinheiro, tal como foi a guerra anterior. Como todas as guerras são, em última análise. Um cessar-fogo aceitável para Trump, bem como para Putin, envolverá uma divisão dos bens da Ucrânia. Os minerais de terras raras, a terra e a produção agrícola serão a verdadeira moeda de troca do acordo. Zelensky compreende agora este facto. Ele sabe que ele e o povo da Ucrânia foram enganados. É o que tende a acontecer quando nos aconchegamos à máfia. Se alguém duvida da insinceridade de Washington em relação à Ucrânia, que olhe para a Palestina para ficar esclarecido.

No início da sua presidência, Trump tentou concretizar aquilo a que chamou o "acordo de paz do século", cuja peça central era a anexação de grande parte da Cisjordânia ocupada. A esperança era que os Estados do Golfo acabassem por financiar um programa de incentivo - a cenoura para o pau de Israel - para encorajar os palestinianos a fazer uma nova vida numa gigantesca zona industrial construída para o efeito no Sinai, junto a Gaza. Esse plano ainda está a fervilhar nos bastidores. No fim de semana, Israel recebeu luz verde de Washington para reavivar a sua fome genocida da população de Gaza, depois de Israel se ter recusado a negociar a segunda fase do acordo de cessar-fogo original. A administração Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, estão agora a fazer passar a sua própria má fé por "rejeição" do Hamas.

Eles e a câmara de eco que são os media ocidentais estão a culpar o grupo palestiniano por se recusar a ser enganado numa "extensão" do que nunca passou de um falso cessar-fogo - o fogo de Israel nunca cessou. Israel quer todos os reféns de volta, sem ter de sair de Gaza, para que o Hamas não tenha qualquer influência para impedir Israel de reativar o genocídio total.

O povo de Gaza continua a ser alimentado no moinho de carne da máfia de Washington, tal como o povo ucraniano tem sido. Trump quer tirá-los do caminho para poder desenvolver um parque de diversões mediterrânico para os ricos, pago com o dinheiro do petróleo do Golfo e com as reservas de gás natural, até agora inexploradas, ao largo da costa de Gaza. Ao contrário dos seus antecessores, Trump não finge que a Ucrânia e Gaza são mais do que bens imobiliários geoestratégicos para Washington.

O grande abalo

A extorsão de Zelensky não surgiu do nada. Trump e os seus funcionários tinham-na assinalado com bastante antecedência. Há duas semanas, o correspondente industrial do jornal britânico Daily Telegraph escreveu um artigo intitulado "Eis porque Trump quer fazer da Ucrânia uma colónia económica dos EUA". A equipa de Trump acredita que a Ucrânia pode ter minerais de terras raras debaixo do solo no valor de cerca de 15 biliões de dólares - um tesouro que será fundamental para o desenvolvimento da próxima geração de tecnologia. Na sua opinião, o controlo da exploração e extração desses minerais será tão importante como o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente foi há mais de um século.

E o mais importante de tudo é que os EUA querem que a China, o seu principal rival económico - se não mesmo militar - seja excluída da pilhagem. A China detém atualmente o monopólio efetivo de muitos destes minerais críticos. Ou, como diz o Telegraph, os "minerais da Ucrânia oferecem uma promessa tentadora: a possibilidade de os EUA quebrarem a sua dependência dos fornecimentos chineses de minerais críticos que são utilizados em tudo, desde turbinas eólicas a iPhones e caças furtivos". Um rascunho do plano visto pelo Telegraph, nas suas palavras, "equivaleria à colonização económica da Ucrânia pelos EUA, com perpetuidade legal". Washington quer ter preferência em todos os depósitos no país.

No seu confronto na Sala Oval, Trump reiterou este objetivo: "Por isso, vamos utilizá-los [os minerais de terras raras da Ucrânia], tirá-los e utilizá-los para todas as coisas que fazemos, incluindo a IA, as armas e as forças armadas. E isso vai realmente satisfazer as nossas necessidades". Tudo isto significa que Trump tem um grande incentivo para que a guerra termine o mais rapidamente possível e para que o avanço territorial da Rússia seja travado. Quanto mais território Moscovo conquistar, menos território restará para os EUA pilharem.

Auto-sabotagem

A batalha contra a China por causa dos minerais de terras raras também não é uma inovação de Trump - e acrescenta uma camada adicional de contexto para explicar por que razão Washington e a NATO têm estado tão empenhados, nas últimas duas décadas, em afastar a Ucrânia da Rússia.

No verão passado, uma comissão restrita do Congresso sobre a concorrência com a China anunciou a formação de um grupo de trabalho para contrariar o "domínio de minerais críticos" de Pequim.

O presidente da comissão, John Moolenaar, observou que a atual dependência dos EUA em relação à China para estes minerais "tornar-se-ia rapidamente uma vulnerabilidade existencial no caso de um conflito". Outro membro da comissão, Rob Wittman, observou: "O domínio das cadeias de abastecimento mundiais de minerais críticos e de elementos de terras raras é a próxima fase da competição entre grandes potências".

O que Trump parece apreciar é o facto de a guerra por procuração da NATO contra a Rússia na Ucrânia ter, por defeito, levado Moscovo a aproximar-se ainda mais de Pequim. Tem sido uma auto-sabotagem em grande escala. Juntos, a China e a Rússia são um adversário formidável, que está no centro do crescente grupo Brics - composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Têm procurado expandir a sua aliança, acrescentando potências emergentes, para se tornarem um contrapeso à agenda global intimidatória de Washington e da NATO.

Mas um acordo com Putin sobre a Ucrânia daria a Washington a oportunidade de construir uma nova arquitetura de segurança na Europa - mais útil para os EUA - que colocasse a Rússia dentro da tenda e não fora dela. Isso deixaria a China isolada - um objetivo de longa data do Pentágono. E também deixaria a Europa menos central para a projeção do poder dos EUA, razão pela qual os líderes europeus - liderados por Keir Starmer - têm parecido e soado tão nervosos nas últimas semanas.

O perigo é que a "pacificação" de Trump na Ucrânia se torne simplesmente um prelúdio para o desenvolvimento de uma guerra contra a China, usando Taiwan como pretexto, da mesma forma que a Ucrânia foi usada contra a Rússia. Como Moolenaar sugeriu, o controlo dos EUA sobre minerais críticos - na Ucrânia e noutros locais - garantiria que os EUA deixariam de ser vulneráveis, no caso de uma guerra com a China, a perder o acesso aos minerais de que necessitariam para continuar a guerra. Isso libertaria a mão de Washington.

Trump pode estar a comportar-se de uma forma ordinária. Mas o império de gangsters que ele agora dirige está a liderar a mesma extorso global de sempre.

Posted by OLima at quarta-feira, março 05, 2025 

https://onda7.blogspot.com/2025/03/leituras-marginais_01749339301.htm
https://www.middleeasteye.net/opinion/trump-vulgar-us-global-shakedown-same-one-everl

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Miguel Cardina - Os estrategas do cinismo

* Miguel Cardina

 «As televisões estão cheias de estrategas do cinismo. Compreendem quem se indigna com o que se passa em Gaza, mas acham que é preciso “prudência” (adoram esta palavra). Referem o direito internacional, mas concluem que quem manda, pode mesmo. Acham que tudo é “complexo” (também adoram esta), mas têm muito pouca consideração pelos sinuosos trajetos da história.   


Num passado muito recente, os estrategas do cinismo contestavam a utilização do termo "genocídio", porque uma coisa é dizimar um povo e outra é *querer* dizimar um povo. Ontem ouvimo-los de novo: "a flotilha não é humanitária porque não vai resolver o problema da fome em Gaza", disse o cínico moderado. "Tudo aquilo é simbólico", determinou o cínico literal. "Pior: é um frete ao Hamas!", vociferou o cínico radical. "Ou uma estratégia para arranjar um emprego futuro", escreveu o cínico empreendedor. "É preciso não ver o mundo a preto e branco e contemplar toda a sua intrigante palete de cinzentos", afirmou o cínico ponderado.

Ontem de manhã, Luís Montenegro vestiu a pele de cínico retórico. Temendo que a palavra “missão” lhe queimasse o sorriso sibilino, falou de uma – breve pausa dramática – “intervenção”, de uma – outra micro-pausa dramática – “iniciativa”. À noite, o ministro Rangel assumiu a pose do cínico dissimulado: foi às televisões dizer que os serviços consultares estão a seguir o assunto com proximidade, polemizou com Mariana Mortágua, falou da democracia em Israel e afirmou que a flotilha “optou” por chegar na véspera do feriado religioso do Yom Kippur. Só lhe faltou mesmo dizer que os atrasos a que a flotilha foi sujeita, com ataques de drones e avarias várias, foram autoinfligidos e que toda a operação não passa, no fundo, de uma disfarçada ação antissemita.

Na Grécia Antiga, os velhos cínicos desprezavam a opinião pública, as convenções e o poder. O mundo dá voltas e as palavras mudam de significado. Hoje, os estrategas do cinismo são os apóstolos do poder realmente existente e a voz gourmetizada de muito do que se escreve nas redes sociais. Se agora o vemos melhor, devemo-lo também à ação corajosa de quem integra a flotilha humanitária. Gente que combate a resignação e a hipocrisia e que merece, por isso, toda a nossa mobilização para exigirmos a sua libertação imediata e todo o nosso empenho - mesmo em pequeníssima escala - para que se pare o genocídio e se ajude a concretizar o velho sonho de uma Palestina livre.»   

Miguel Cardina no Facebook
https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2025/10/os-estrategas-do-cinismo.htm 

domingo, 10 de agosto de 2025

Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada - Hiroshima, Nagasaki e o genocídio em Gaza


 



Por Rebecca Martin Goldschmidt e Seiji Yamada

O Holocausto, o genocídio dos judeus europeus pelos nazis, serve de justificação ideológica para o projecto sionista de apartheid, limpeza étnica e agora a Solução Final do genocídio.

À medida que o projecto sionista transita do apartheid e da limpeza étnica para a solução final para o genocídio que durou décadas, comemoramos também o 80º aniversário dos bombardeamentos nucleares de 6 e 9 de Agosto em Hiroxima e Nagasáqui. Consideremos as implicações de recordar o genocídio nuclear neste momento actual de tecnogenocídio em Gaza.

A 24 de outubro de 2023, Omar El Akkad, jornalista e romancista egípcio-americano, publicou no X: "Um dia, quando for seguro, quando não houver incómodo pessoal em chamar as coisas pelos seus nomes, quando for tarde demais para responsabilizar alguém, todos dirão que foram contra isso o tempo todo." O tweet, visualizado mais de 10 milhões de vezes, foi transformado num livro, One Day, Everyone Will Have Always Been Against This , publicado no início deste ano. Intercaladas com reflexões sobre o genocídio dos palestinianos em Gaza, estão pensamentos sobre a sua própria história e a da sua família. Como árabe e muçulmano, El Akkad reflete sobre como responderia se lhe dissessem: "Volta para onde vieste". Pensa para si: "Se gosta tanto de governos autoritários, porque não vai para onde eu vim?"

Até que ponto se pode ser contra os bombardeamentos atómicos? E como evoluíram as atitudes em relação aos bombardeamentos desde então? Em 1945, a opinião pública americana era favorável à vingança de Pearl Harbor e à destruição do Império Japonês. As representações dos japoneses como vermes ou macacos despertaram o apoio ao bombardeamento da população civil em todas as principais cidades japonesas (excepto Quioto). O bombardeamento de Tóquio, a 9 e 10 de março de 1945, fez cerca de 100.000 mortos. Combinados, os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki fizeram entre 150.000 e 246.000 mortos até ao final de 1945 (muitos outros morreram ao longo dos anos). Dado o secretismo em torno do Projecto Manhattan para desenvolver as bombas atómicas, muito poucas pessoas se opuseram à sua utilização antes de serem lançadas. Entre eles estava Leó Szilárd, um físico húngaro que fez circular uma petição durante o Verão de 1945, principalmente entre cientistas do Laboratório Metalúrgico de Chicago, na qual se opunha ao uso de tais armas sem dar ao Japão a oportunidade de se render.

Em 1942, no continente americano, sob uma ordem executiva assinada por Franklin D. Roosevelt, os nipo-americanos foram despojados das suas terras e propriedades e aprisionados em campos de concentração. Nada de semelhante foi perpetrado contra descendentes de alemães ou italianos. Não deveríamos chamar a isto limpeza étnica? É complicado interpretar a história através de categorias modernas? Embora Harry Truman tenha sugerido que, ao evitar a necessidade de invadir o território japonês, os bombardeamentos atómicos salvaram a vida de talvez meio milhão de soldados americanos, a maioria dos historiadores afirma que o Império Japonês sabia que estava acabado e pronto para se render.

O objectivo declarado dos bombardeamentos atómicos era pôr fim à guerra. Outras razões não declaradas incluíam a demonstração da nova arma ao futuro inimigo da Guerra Fria, a União Soviética, e a justificação do custo de desenvolvimento dessa arma para os contribuintes americanos. Embora o resultado final tenha sido a morte de muitos japoneses, o objetivo declarado não era genocida, pelo que não lhe chamamos oficialmente genocídio. (Deve notar-se, no entanto, que a etimologia de "holocausto" é "queimar tudo", e Hiroshima e Nagasaki foram certamente isso.)

Em 2025, toda a pessoa racional opõe-se à guerra nuclear, pois mesmo uma guerra nuclear "limitada" poderia desencadear um inverno nuclear, levando potencialmente à extinção da espécie humana. No entanto, o Boletim de Cientistas Atómicos está a mover o seu Relógio do Juízo Final cada vez mais para perto da meia-noite.

Faltam 89 segundos para a meia-noite. Os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), agora na sua maioria na casa dos 80 anos, gritam: "Basta de Hiroshima! Chega de Nagasaki! Não às armas nucleares! NÃO À GUERRA!". À medida que se aproxima o 80º aniversário, os activistas palestinianos em Hiroxima tentam destacar este momento não só nos milhares de japoneses, coreanos e outros que morreram e ficaram feridos no genocídio nuclear, mas também assinalá-lo como um dia de protesto contra o genocídio em curso em Gaza e a limpeza étnica em toda a Palestina.

Ao comemorarmos o 80º aniversário do bombardeamento, devemos também incluir a história do imperialismo japonês, que foi apagada da Cerimónia Memorial da Paz, sancionada pelo Estado, em Hiroshima. A derrota do Império Japonês deve ser vista como a libertação dos povos da Ásia e do Pacífico do brutal domínio colonial japonês. Os ecos do imperialismo japonês perduram sob diversas formas neocoloniais por toda a Ásia, através da exploração económica, territorial e laboral, do turismo e da indústria do sexo, para não falar da ocupação contínua das terras Ainu em Hokkaido e das terras Ryukyu em Okinawa. De facto, consideramos a cerimónia em si um ritual que reforça a mitologia nacional japonesa e o sistema nacionalista do imperador, que "exige" armas nucleares.

Até a forma como a "paz" é imposta em Hiroxima através da "oração silenciosa" é uma manipulação fascista das expressões de pesar e raiva das pessoas. A cidade de Hiroshima convenceu o público de que dobrar tsurus de papel e levar crianças a visitar o Parque da Paz é suficiente para alcançar a "paz".

 

Em 2024, com o genocídio palestiniano em pleno andamento, a cidade de Hiroshima, vergonhosamente, convidou um delegado israelita a participar na Cerimónia do Memorial da Paz de Hiroshima, sem convidar qualquer representante palestiniano. Por sua vez, as autoridades da cidade de Nagasaki retiraram o convite ao delegado israelita. Este ano, Hiroshima enviou "notificações" em vez de "convites" para tentar evitar controvérsias sobre quais os países que foram convidados e quais não foram. Esta atitude de "lavagem da paz" é partilhada pela maioria da sociedade japonesa, que também desconhece as atrocidades cometidas pelos seus antepassados em nome do imperador.

Em "O Mundo Depois de Gaza", Pankaj Mishra oferece uma visão geral de como o Holocausto, o genocídio dos judeus europeus pelos nazis, passou a servir de justificação ideológica para o projeto sionista de apartheid, limpeza étnica e, agora, a Solução Final do genocídio. Da mesma forma, Hiroshima e Nagasaki são as histórias de vitimização definitivas que os nacionalistas japoneses utilizam para justificar a militarização, o desenvolvimento tecnológico e de armamento, e a colaboração contínua com o regime israelita.

O programa Aichi-Israel Matching, que liga as startups israelitas de tecnologia de armamento com o coração industrial do Japão, é um exemplo perfeito. O fundo de pensões japonês (o maior do mundo!) investe fortemente em títulos israelitas, bem como em fabricantes de armas como a Elbit Systems (Israel), a Lockheed Martin (EUA) e a BAE Systems (Reino Unido). Empresas japonesas como a Kawasaki compram drones a Israel, enquanto a Mitsubishi Heavy Industries fabrica peças para a cadeia de abastecimento do F-35.

Entretanto, nas últimas eleições, o partido Sanseito, de Trump, conquistou 14 lugares no governo graças à sua retórica xenófoba transmitida no YouTube, que explorou os receios japoneses de contaminação estrangeira e da perda da cultura japonesa "pura". Este renovado foco no racismo explícito, aliado ao rápido desenvolvimento da indústria de armas de inteligência artificial em colaboração com um regime genocida, é o que nós, japoneses, consideraríamos " abunai " — perigoso!

O nosso ponto mais urgente do Ground Zero de Hiroshima é este: a Palestina é uma questão nuclear. Israel possui mais de 100 armas nucleares e é, na prática, um depósito de armas nucleares dos EUA na Ásia Ocidental. Vários dos seus responsáveis governamentais têm defendido o uso de armas nucleares em Gaza. A recente guerra semi-clara com o Irão danificou instalações de produção de combustível nuclear, causando potencialmente uma contaminação química e radioactiva que ninguém está disposto a reconhecer. Demonstrou o quão preparado Israel, com o apoio dos EUA, está para arrastar a região para uma guerra nuclear, mesmo tendo sido obrigado a pedir um cessar-fogo face à resposta do Irão.

As alegações de Hiroshima de ser uma "cidade internacional da paz", comprometida com a abolição das armas nucleares, soam egoístas e vazias, pois a cidade permanece em completo silêncio sobre a realidade nuclear da Palestina e continua a ocultar os próprios crimes de guerra do Japão. Como luta de libertação indígena, a Palestina também está ligada ao movimento #LandBack, que se cruza com a luta contra o colonialismo nuclear, desde as Ilhas Marshall a Semipalatinsk, no Cazaquistão, à Nação Navajo, a Shinkolobwe no Congo, aos povos aborígenes australianos e muitos outros.

A dor de Hiroshima, Nagasaki e de todos os massacres e atrocidades dos últimos 80 anos são reais e ainda hoje nos assombram. Tanto o movimento antinuclear como os movimentos de libertação palestinianos surgiram e desenvolveram-se também durante esses mesmos 80 anos. Os activistas palestinianos no Japão vêem para além da fachada do 80º aniversário de Hiroshima e percebem que o sistema imperial japonês, bem como os sistemas britânico, americano, alemão e outros, não mudou realmente; apenas mudou de forma.

Há quase dois anos, assistimos a um genocídio em Gaza, em que os perpetradores juraram eliminar os amalecitas, ou "animais humanos". Como se Israel estivesse a experimentar uma mistura de métodos de extermínio, vimos crianças dilaceradas por bombas, baleadas por atiradores furtivos e agora mortas de fome. Os contribuintes americanos financiam isso. Os participantes do plano de pensões japonês financiam isso. Os nossos governos e os seus parceiros corporativos fornecem as armas e fornecem cobertura diplomática.

Não devemos permitir que os nossos governos se apropriem das nossas histórias de dor e sofrimento para justificar mais dor e sofrimento. Não devemos esperar até que seja seguro, até que não haja mais inconvenientes pessoais em chamar as coisas pelos seus nomes, até que seja tarde demais para responsabilizar alguém. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos opormos ao apartheid, à limpeza étnica e ao genocídio. Devemos lutar pela libertação da Palestina e pela libertação de todos os povos da dominação, da militarização e das economias de guerra.

CounterPunch.org e FONTE  

https://www-lahaine-org.translate.goog/mundo.php/hiroshima-nagasaki-y-el-genocidio-en-gaza?

Publicado Yesterday por obarbaro

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/08/hiroshima-nagasaki-e-o-genocidio-em-gaza.html

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Domingos Lopes - O Armagedão, tempo de ódio e de guerra


16 de Junho de 2025

*  Domingos Lopes 

Vivemos um tempo de guerras. Para vivermos um tempo desta natureza é necessário que os humanos organizados em sociedades aceitem que têm inimigos que os querem aniquilar e, portanto, só resta a guerra. A guerra é a confissão autorizada pelo Estado de que o assassinato dos outros é uma conduta heroica e como tal a glorificar.

Na nossa cultura judaico-cristã deve ser tido em conta a narrativa no último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, sobre o fim da Humanidade, o Armagedão, ou seja, a batalha final entre Deus e os governos humanos. Deus escolherá poucos para que na Terra impere a sua vontade. Essa guerra seria no Médio-Oriente. Jeremias falava dessa guerra a ter lugar perto do rio Eufrates.

 A guerra, nestes dias de chumbo e sucessivas injeções de anestesia das consciências acerca da sua inevitabilidade, mantém os humanos como seres incapazes de raciocinar e de agir pelos impulsos mais primários oriundos do tempo em que, como animais a fugir uns dos outros, se matava ou se morria.

A linguagem dos principais dirigentes do mundo está atolada de mortandade. Oferecem aos inimigos o inferno e aos seus a messiânica vitória.

Netanyahu e Trump atingiram o supremo patamar da ignomínia. Trump sempre que algum dirigente tem coluna vertebral ameaça-o com o inferno.

No passado os negociadores da paz eram tratados com respeito, o que não significa que tenha havido condutas ominosas de tratamento de enviados e negociadores.

Estamos em 2025 e no “Ocidente” esta regra passou a ser a da traição absoluta. Através da espionagem assassinam-se negociadores sejam palestinianos, sejam iranianos. Deve ser a perfídia maior entre Estados, um deles aproveitar e matar os negociadores e apresentar a façanha como uma ação de defesa.

Trump, que tinha dado como data limite o dia 15 de junho para se chegar ao fim das negociações, assistiu ao assassinato dos negociadores no ataque ao Irão com, “Todos mortos” disse ele, enquanto decorria ainda o prazo para negociar.

O ataque de Israel ao Irão insere-se nessa linha de um primarismo absoluto, fanático, messiânico de lançar o mundo num dilúvio de fogo, seja ele de que tipo for, desde que possa vencer.

Netanyahu sabe que só poderá eventualmente derrotar o Irão se os EUA entrarem na guerra, sem que o resultado seja certo. Mas também sabe que se os EUA participarem a Rússia e a China não vão ser espectadores. E nesse caso o mundo pode estar à beira do Apocalipse, não como obra de Deus, mas de demónios sem alma como Netanyahu e Trump.

Tal como no Iraque não havia armas de destruição massiva, também no Irão não há armas nucleares e foi Trump quem saiu do Acordo quando foi pela primeira vez Presidente.

Israel e os EUA conhecem esta realidade. Mas apesar disso, querem na região o caminho totalmente livre para fazer o que quiserem e desde logo exterminar os palestinianos.

Quem tem armas nucleares é Israel que não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ocupa ilegalmente os territórios palestinianos. O verdeiro Estado fora da lei tem um nome – Israel.

Ambos entregaram a Síria à Alqaeda e à Turquia, deixando-a refém de ambos e do sultão turco. Invadiram o Líbano a ferro e fogo e destruíram em boa medida o Hezbolah. Continuam o extermínio dos palestinianos e Trump sonha sobre o mar de sangue de Gaza construir um complexo turistico… A Jordânia não passa de um peão de Israel, talvez porque o Rei tenha medo dos milhões de palestinianos a viverem deportados pela Naqba. O Iraque está ainda destruído. Resta o Irão que querem destruir a ferro e fogo.

Esta Europa incapaz de se libertar do complexo de serventuária nada mais tem para fazer que não seja deixar-se conduzir por estes dois seres cuja bestialidade é a cada dia que passa mais evidente.

As palavras têm sentido, representam o que há de mais elevado na comunicação entre os humanos. A palavra nojo é dura, mas que palavra usar para qualificar Ursula von der Leyen, Macron, Starmer e Merz ao proclamarem frente ao extermínio dos palestinianos e aos ataques do Irão que Israel tem direito a defender-se? Eles e elas sabem que a Palestina está ocupada ilegalmente. Sabem que invadir ou atacar outro país é ilegal e, no entanto, do mais alto da hipocrisia e da ignomínia declaram que Israel pode fazer o que entender porque …tem direito a defender-se…

Só Israel tem direito a defender-se e mais ninguém no mundo em que vivemos tem direito a defender-se porque estas fornadas de dirigentes europeus já perderam toda a vergonha e honradez. Para manter os seus privilégios e as suas regalias venderam a alma ao diabo e a Trump. Por isso, quando este último os ameaça com a ocupação da Gronelândia metem o rabo entre as pernas ou correm a apoiar o filho predileto dos EUA, Netanyahu. Era difícil imaginar que a UE chegasse a este servilismo e a este estado de degradação.

Quando von der Leyen, naquele tom de voz pseudo-imperial, num vestuário saído de alguma máquina de liofilização e com um cabelo onde nenhum se solta mesmo que se acenda um temporal, declara que Israel tem o direito a defender-se outra palavra surge, a palavra ira porque sendo um pecado é da condição humana revoltar-se.  Mas acaso alguém neste mundo entende, à exceção de Israel e dos EUA, que defender-se é atacar os outros porque assim estando em guerra permanente só há uma lei, a do mais forte.   

Vivemos rodeados de guerras. Um tempo de guerras. Um tempo de ódios. Só o ódio, só apelidar de animais os palestinianos permite fazer guerras. Só o ódio e a loucura messiânica permitem ao Estado enviar negociadores que em vez de negociarem fazem espionagem para matar os que cumprimentam à nessa mesa de perfídia e de má-fé.

Pode o mundo e a Humanidade ficar refém desta camarilha de loucos que estão a empurrar o mundo para o Armagedão onde por causa dessas loucuras todos perecemos não por causa de um Deus, mas sim destes demónios cegos de ódio, arrogância e malvadez? Só se deixarmos.

https://ochocalho.com/2025/06/16/o-armagedao-tempo-de-odio-e-de-guerra/

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alexandra Lucas Coelho - Gaza voltou a casa, estropiada, épica. A Europa perdeu a II Guerra em Gaza





* Alexandra Lucas Coelho

Dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas.» Para um “ocidente” em plena miséria moral, nem gente serão. Tal como para Trump são empecilhos a remover de vez, para construir uma “nova riviera” sobre os seus cadáveres. Mas o heroísmo palestiniano não será vencido, nem a solidariedade dos povos do mundo o abandonará.


1. Precisamos de ir à Bíblia, ao que só imaginamos ou nos assombra, para dar conta do que aconteceu esta segunda-feira, 27 de Janeiro de 2025, em directo nos nossos ecrãs, na nossa mão. Um povo —os palestinianos — a caminhar ao longo do Mediterrâneo, naquela faixa litorânea que todos os antigos povos do Mediterrâneo percorreram, e está na Bíblia com o nome que tem até hoje: Gaza. Não era mais uma réplica do Êxodo. Nem do êxodo mítico de Israel, nem do êxodo que vimos com os nossos olhos em Outubro de 2023, quando esse mesmo povo— os palestinianos — foram forçados por Israel a deixar o Norte de Gaza com crianças, bebés, grávidas, velhos, doentes, estropiados, incluindo o meu amigo W, como contei no primeiro texto a seguir ao 7 de Outubro. Um êxodo que retomou a Nakba (Catástrofe) de 1948, desdobrando-se em deslocações sucessivas nos últimos 15 meses e meio.

O que se deu agora foi o contra-êxodo. Meio milhão de palestinianos dentro de carros, carrinhas, carroças mas sobretudo apeados. Eram eles mesmos, com os seus corpos, a Faixa de Gaza — ou a nossa mais épica Faixa Humana —, caminhando de volta a casa, quilómetros. E levavam a chave ao pescoço, levavam lenços, bandeiras, tambores, pandeiretas. Cantavam de alegria, beijavam o chão. Agradeciam ter vivido para voltar. Muitos não tinham água nem comida, nem pernas para muito. Nem pernas, alguns. Infinitamente mais estropiados do que há 15 meses e meio. Todos viveram um holocausto, ficaram órfãos de alguém, e sabiam que voltavam para a ruína, da própria casa ou do que havia em volta. Mas uma mulher dizia: a nossa alegria é mais importante do que a casa. E uma menina que perdera o pai: hoje é o dia mais importante da história do mundo. E aquele futebolista que nasceu para ser pai: é o mais belo regresso a casa. Vi, no último ano, pelo Instagram, as filhas dele crescerem dentro da tenda. A mais nova a gatinhar, depois a andar, de repente dois dentes. Sempre a rir, incrivelmente a rir. Até ao dia em que o pai desencantou uns dinossauros pequeninos, e ela chorou aterrorizada porque nunca vira um boneco. Então ali estava ela, radiante às cavalitas do pai, a subir a Faixa de Gaza a pé, entre trincheiras e arame farpado. E Bisan Owda, que aos vinte e tal anos atravessou um genocídio a falar connosco, a levantar os humanos do chão porque víamos Gaza com ela, e porque a víamos a ela, Bisan disse: eu estava a sobreviver para este momento. Ela cruzara o Corredor de Netzarim com que Israel dividira o Sul e o Norte, matando quem se aproximasse. Cruzara de sul para norte com meio milhão de pessoas. Que talvez amanhã não possam dizer: ainda estou viva. Mas hoje podem, dizem, abrem a porta da ruína, montam uma tenda onde era a casa, respondem a Trump. Não serão “limpos”.

2. Egipto e Jordânia não querem dois milhões de palestinianos. Nem um milhão, nem nenhum. Trump garante que os dobra, aos egípcios, aos jordanos (“Vão fazê-lo.”). Não sabemos até onde isto pode ir, mas nos últimos dias Steve Witkoff — o magnata do imobiliário que Trump transformou em negociador tipo máfia (assina o cessar-fogo, para teu bem) — já foi à Arábia Saudita, a Israel e a normalização está aí a apitar. Trump vai receber Netanyahu, e mandou-lhe as bombas de destruição máxima que Biden embargara para não dar estrilho, enquanto continuava a mandar outras. Trump é a própria patente do estrilho para os próximos quatro anos. O seu novo embaixador em Israel diz que não há palestinianos, nem ocupação. A sua nova embaixadora na ONU diz que Israel tem direito bíblico à Cisjordânia.

E, a propósito de Cisjordânia, enquanto15 reféns já foram libertados em Gaza (incluindo cinco soldadas israelitas), felizmente muito mais saudáveis do que o mundo imaginava, Israel aproveitou para arrasar o campo de refugiados de Jenin. Não sem uma ajuda miserável da Autoridade Palestiniana. Milhares de desalojados. Mas além de Jenin, as forças de Israel têm atacado outras partes da Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Enquanto os colonos tratam de muitas outras, incendiando aldeias, casas, carros. Tudo isto desde o cessar-fogo. Que também vigora no Líbano, que também é bombardeado. Ao mesmo tempo, dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas. Aquela organização que Israel ia extinguir mas tem exibido milhares de homens armados a cada libertação de reféns. Quem conhece a Palestina sabe que o Hamas não vai ser extinto à bomba. Só é possível esvaziá-lo: se a Palestina for livre. Familiares de reféns israelitas imploram, entretanto, a Trump e ao Governo de Israel que a guerra não recomece até ao último refém ser libertado. Como se em Gaza os únicos humanos fossem os reféns. Famílias israelitas amorosas dos seus (e dos restantes israelitas), bravas lutadoras pelos seus (e pelos restantes israelitas). Israel é um país dividido, convulso. Mas destes 15 meses e meio emergiu uma grande maioria, mais clara do que nunca: a dos que não vêem, ou não querem ver, os palestinianos. Desumanizaram-nos. Viram que Israel pode fazer o que quer, matar com inteligência artificial, negar as evidências de genocídio, torturar nas cadeias, colonizar mais, anexar e safar-se sem sanções. E nos próximos quatro anos Israel tem Trump. Está em velocidade de cruzeiro na alienação.

Mas qualquer judeu consciente, em Israel ou no mundo, sabe que os últimos 15 meses e meio marcam a história dos judeus para sempre. O Estado de Israel fortaleceu-se contra a vergonha de os judeus não terem resistido quando eram perseguidos (ou, pior, terem colaborado). Mas há a vergonha em curso, de se continuar a fortalecer à custa de ser o mais forte, enquanto destrói outro povo.

3. Essa é uma das razões por que a Europa perdeu, simbolicamente, a Segunda Guerra em Gaza. Perdeu-a por ter deixado Israel fazer tudo o que fez desde 7 de Outubro, e por ter colaborado no genocídio mesmo. A Europa que foi gerando o Estado de Israel, pelo anti-semitismo de séculos, pelo sionismo desde o fim do século XIX e enfim pela sua culpa no Holocausto, é a mesma Europa que perdeu a guerra nas ruínas de Gaza. Como se a Segunda Guerra nunca tivesse acabado até agora.

Pensei nisto há dias, ao ouvir poemas de Primo Levi no lançamento da tradução portuguesa (A Uma Hora Incerta, Edições do Saguão). Primo Levi é aquele sobrevivente de Auschwitz que a maioria hoje no poder em Israel vê (ou ignora) como se ele não tivesse continuado a pensar. Mas ele continuou por mais de 20 anos, o bastante para ter dito coisas que hoje seriam chaves para Israel ver o seu próprio buraco, se fosse capaz.

Os 80 anos da libertação de Auschwitz celebraram-se justamente na segunda-feira em que meio milhão de palestinianos voltavam a casa —mas não para a liberdade. Os polacos estenderam a passadeira a Netanyahu, mas ele não esteve para isso (além de que tinha um julgamento). E o que seria preciso dizer nesse dia em relação a Gaza não foi dito pela Europa, mais uma vez.

Salvam-se as excepções do costume. Como a Espanha, que anunciou 50 milhões extras para a UNRWA, essa agência criada depois da Segunda Guerra para assistir os palestinianos que o mundo abandonara. Ontem Alemanha, França, Reino Unido fizeram uma declaração de apoio à UNRWA, banida por Israel desde quinta-feira, e apelando a Israel para que isso nãose concretize. Com que pressões? Que sanções?

Pior só a última declaração de Rangel, a dizer que Portugal se mantém na sua posição “tradicional” dos dois Estados, mas não é oportuno reconhecer a Palestina. Para o poço sem fim da vergonha. O contrário da coragem palestiniana.

Fonte: “Público”, 1.02.2025 
https://www.odiario.info/gaza-voltou-a-casa-estropiada-epica/

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Chris Hedges - O caminho ocidental do genocídio

 

* Chris Hedges

Gaza é um deserto com  50 milhões de toneladas  de entulho e detritos. Ratos e cães  vasculham  as ruínas e as fétidas poças de esgotos brutos. O fedor pútrido e a contaminação de cadáveres em decomposição elevam-se debaixo das montanhas de betão partido. Não há  água limpa. Pouca comida. Uma grave escassez de serviços médicos e quase nenhum abrigo habitável. Os palestinianos correm o risco de morrer devido a munições não detonadas, deixadas para trás após mais de 15 meses de ataques aéreos, barragens de artilharia, ataques de mísseis e explosões de tanques, bem como uma variedade de substâncias tóxicas, incluindo poças de esgotos brutos e  amianto.

A hepatite A, provocada pela ingestão de água contaminada, é  galopante , assim como as doenças respiratórias,  a sarna, a subnutrição, a fome e as náuseas e vómitos generalizados provocados pela ingestão de alimentos rançosos. Os vulneráveis, incluindo crianças e idosos, juntamente com os doentes, enfrentam uma sentença de morte. Foram deslocadas cerca de 1,9 milhões de pessoas  , o que representa 90% da população. Vivem em tendas improvisadas, acampados no meio de lajes de betão ou ao ar livre. Muitos foram obrigados a mudar-se mais de uma dúzia de vezes. Nove em cada dez casas foram  destruídas ou danificadas . Blocos de apartamentos, escolas, hospitais, padarias, mesquitas, universidades — Israel  fez explodir  a Universidade Israa, na Cidade de Gaza, numa demolição controlada — cemitérios, lojas e escritórios foram  destruídos. A taxa de desemprego é de 80% e o produto interno bruto foi reduzido em quase 85%, de acordo com um relatório de outubro de 2024  emitido  pela Organização Internacional do Trabalho.

A proibição por parte de Israel   da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente — que  estima  que a limpeza de Gaza dos escombros deixados para trás demore 15 anos — garante que os palestinianos em Gaza nunca terão acesso a mantimentos humanitários básicos, alimentação adequada e serviços.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento  estima  que custará entre 40 mil milhões e 50 mil milhões de dólares para reconstruir Gaza e levará, se os fundos forem disponibilizados, até 2040. Seria o maior esforço de reconstrução pós-guerra desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Israel, abastecido com milhares de milhões de dólares em armas dos EUA, Alemanha, Itália e Reino Unido, criou este inferno. Pretende mantê-lo. Gaza permanecerá cercada. Após uma explosão inicial de entregas de ajuda no início do cessar-fogo, Israel  reduziu mais uma vez severamente  a assistência enviada por camião. A infra-estrutura de Gaza não será restabelecida. Os seus serviços básicos, incluindo estações de tratamento de água, electricidade e redes de esgotos, não serão reparados. As suas estradas, pontes e quintas destruídas não serão reconstruídas. Os palestinianos desesperados serão forçados a escolher entre viver como moradores de cavernas, acampados no meio de pedaços irregulares de betão, morrendo de doenças, fome, bombas e balas, ou exílio permanente. Estas são as únicas opções que Israel oferece.

Israel está convencido, provavelmente correctamente, de que, eventualmente, a vida na faixa costeira se tornará tão onerosa e difícil, tanto mais que Israel encontra desculpas para violar o cessar-fogo e retomar os ataques armados à população palestiniana, que um êxodo em massa será inevitável. Mesmo com o cessar-fogo em vigor, o governo  recusou-se a permitir a entrada de imprensa estrangeira em Gaza, uma proibição criada para prejudicar a cobertura do terrível sofrimento e morte.

A segunda fase do genocídio de Israel e a expansão do “Grande Israel” — que  inclui  a tomada de mais território sírio nas Colinas de Golã (bem como apelos à expansão para Damasco), sul do Líbano,  Gaza  e a Cisjordânia ocupada — está a ser consolidada no local. As organizações israelitas, incluindo a organização de extrema-direita Nachala, realizaram  conferências  para preparar a colonização judaica de Gaza assim que os palestinianos forem sujeitos a uma limpeza étnica. As colónias exclusivamente judaicas existiram em Gaza durante 38 anos, até serem desmanteladas em 2005.

Washington e os seus aliados na Europa não fazem nada para impedir o massacre transmitido em directo. Não farão nada para impedir que os palestinianos de Gaza sofram com a fome e as doenças e o seu eventual despovoamento. São parceiros neste  genocídio. Permanecerão parceiros até que o genocídio chegue ao seu terrível fim.

Mas o genocídio em Gaza é apenas o início. O mundo está a desmoronar-se sob o ataque da crise climática, que está a desencadear migrações em massa, Estados falhados e incêndios florestais catastróficos, furacões, tempestades, inundações e secas. À medida que a estabilidade global se desfaz, a máquina aterradora de violência industrial, que está a dizimar os palestinianos, tornar-se-á omnipresente. Estes ataques serão cometidos, como em Gaza, em nome do progresso, da civilização ocidental e das nossas supostas “virtudes” para esmagar as aspirações daqueles, principalmente pessoas pobres de cor, que foram desumanizadas e rejeitadas como animais humanos.

A aniquilação de Gaza por Israel marca a morte de uma ordem global orientada por leis e regras acordadas internacionalmente, frequentemente violadas pelos EUA nas suas guerras imperiais no Vietname, Iraque e Afeganistão, mas que foi pelo menos reconhecida como uma visão utópica. Os EUA e os seus aliados ocidentais não só fornecem o armamento para sustentar o genocídio, como também obstruem a reivindicação da maioria das nações pela adesão ao direito humanitário.

A mensagem que isto passa é clara:  você e as regras que pensava que o poderiam proteger não importam. Temos tudo. Se tentar tirá-lo de nós, nós matamo-lo .

Os drones militarizados, os helicópteros de combate, os muros e barreiras, os postos de controlo, os rolos de arame farpado, as torres de vigia, os centros de detenção, as deportações, a brutalidade e a tortura, a recusa de vistos de entrada , a existência de apartheid que advém da situação de indocumentado, a perda de direitos individuais e a vigilância electrónica.

Israel, que como Ronen Bergman observa em “Rise and Kill First” “assassinou mais pessoas do que qualquer outro país no mundo ocidental”, usa o Holocausto Nazi para santificar a sua vitimização hereditária e justificar o seu estado colonial de povoamento, o apartheid, as campanhas de assassinato em massa e versão sionista do  Lebensraum.

Primo Levi, que sobreviveu a Auschwitz, viu a Shoah, por esta razão, como “uma fonte inesgotável de mal” que “é perpetrada como ódio nos sobreviventes e surge de mil maneiras, contra a vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação.”

O genocídio e o extermínio em massa não são domínio exclusivo da Alemanha fascista. Adolf Hitler, como escreve Aimé Césaire em “Discurso sobre o colonialismo”, só pareceu excepcionalmente cruel porque presidiu “à humilhação do homem branco”. Mas os nazis, escreve, tinham simplesmente aplicado “procedimentos colonialistas que até então tinham sido reservados exclusivamente aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros de África”.

O massacre alemão dos  Herero e Namaqua, o  genocídio arménio, a  fome de Bengala  de 1943 — o então Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill desvalorizou levianamente as mortes de três milhões de hindus na fome,  chamando-lhes “um povo bestial com uma religião bestial ” — juntamente com o lançamento de bombas nucleares sobre alvos civis de Hiroshima e Nagasaki, ilustram algo fundamental sobre a “civilização ocidental”. Como Hannah Arendt entendeu, o anti-semitismo por si só não levou à Shoah. Era necessário o potencial genocida inato do estado burocrático moderno.

“Na América”, disse o poeta Langston Huges, “os negros não precisam de ouvir o que é o fascismo em acção. Nós sabemos. As suas teorias de supremacia nórdica e supressão económica são realidades para nós há muito tempo.”

Dominamos o globo não por causa das nossas virtudes superiores, mas porque somos os assassinos mais eficientes do planeta. Os milhões de vítimas de projectos imperiais racistas em países como o México, a China, a Índia,  o Congo,  o Quénia e o Vietname são surdos às alegações insensatas dos judeus de que a sua vitimização é única. O mesmo acontece com os negros, os pardos e os nativos americanos. Também sofreram holocaustos, mas estes holocaustos continuam a ser minimizados ou não reconhecidos pelos seus perpetradores ocidentais.

“Estes acontecimentos que ocorreram na memória viva minaram o pressuposto básico tanto das tradições religiosas como do Iluminismo secular: que os seres humanos têm uma natureza fundamentalmente ‘moral’”, escreve Pankaj Mishra no seu livro “O Mundo Depois de Gaza”. “A suspeita corrosiva de que não é assim é agora generalizada. Muitas outras pessoas testemunharam de perto a morte e a mutilação, sob regimes de insensibilidade, timidez e censura; reconhecem com choque que tudo é possível, recordar atrocidades passadas não é garantia contra repeti-las no presente, e os fundamentos do direito internacional e da moralidade não são de todo seguros.”

O massacre em massa é tão essencial ao imperialismo ocidental como a Shoah. São alimentados pela mesma doença da supremacia branca e pela convicção de que um mundo melhor se constrói sobre a subjugação e erradicação das raças “inferiores”.

Israel personifica o Estado etnonacionalista que a extrema-direita dos EUA e da Europa sonha criar para si, um Estado que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas jurídicas, diplomáticas e éticas. Israel é admirado por estes protofascistas, incluindo os nacionalistas cristãos, porque virou as costas ao direito humanitário para usar força letal indiscriminada para “limpar” a sua sociedade daqueles que são condenados como contaminantes humanos.

Israel e os seus aliados ocidentais, viu James Baldwin, estão a caminhar para a “terrível probabilidade” de que as nações dominantes “lutando para manter o que roubaram aos seus cativos, e incapazes de olhar para o seu espelho, irão precipitar um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo nunca viu.”

O que falta não é o conhecimento — a nossa perfídia e a de Israel fazem parte do registo histórico — mas a coragem de nomear as nossas trevas e de nos arrependermos. Esta cegueira deliberada e amnésia histórica, esta recusa em sermos responsáveis perante o Estado de direito, esta crença de que temos o direito de usar a violência industrial para exercer a nossa vontade marca o início, e não o fim, das campanhas de matança em massa do Norte Global.

2 de fevereiro de 2025

Imagem de destque: Explore Gaza – por Mr. Fish

FONTE https://scheerpost-com.translate.goog/2025/02/02/chris-hedges-the-western-way-of-genocide/?  

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/02/o-caminho-ocidental-do-genocidio.html 


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Manuel Loff - Gaza e Auschwitz, 80 anos depois

É hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.

 * Manuel Loff 

22 de Janeiro de 2025 

Ironia da história, o cessar-fogo foi declarado em Gaza quase 80 anos depois da libertação de Auschwitz (27 de janeiro de 1945) pelos soldados soviéticos. Confirmadas pelo Tribunal Penal Internacional as acusações de crimes de guerra e contra a humanidade praticados por Israel, emitidos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro Yoav Gallant, aberta a investigação pelo Tribunal Internacional de Justiça sobre o crime de genocídio, é hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.

O TPI acusou a cúpula do Estado de Israel de crimes de guerra (provocar a “fome como método de guerra” e “intencionalmente dirigir um ataque contra a população civil”) e dos crimes contra a humanidade de “assassinato, perseguição e outros atos desumanos”. Pelos registos das autoridades sanitárias de Gaza, julgava-se que estaríamos a chegar aos 50 mil palestinianos mortos desde outubro de 2023, 40% deles crianças e adolescentes. “É como se uma sala de aulas cheia de crianças fosse bombardeada todos os dias, (…) e todas essas crianças são mortas”, dizia há meses Marta Lorenzo, da UNRWA, ao PÚBLICO. Ora os dados estão subestimados. Um estudo publicado na The Lancet estima em 64 mil os mortos só até 30 junho de 2024, isto é, 41% mais do que o registado (“Traumatic injury mortality in the Gaza Strip from Oct 7, 2023, to June 30, 2024: a capture–recapture analysis”, 9/1/2025). Se compararmos apenas os números oficiais (isto é, dos corpos encontrados e registados, excluindo, portanto, todos aqueles desaparecidos que possam estar sob as ruínas) com os dos períodos mais mortíferos de outras guerras, os palestinianos mortos pelos israelitas em Gaza no 1.º ano da invasão são o triplo dos ucranianos mortos em 2022 (cálculos do Uppsala Conflict Data Program, El País, 19/1/2025). A intenção genocida amplamente documentada nos relatórios do Conselho de Direitos Humanos da ONU foi passada à prática “numa das campanhas de bombardeamentos mais devastadoras da história” (Robert Pape, Foreign Affairs, 6/12/2023).

Limpeza étnica: 90% da população foi deslocada à força, “várias vezes, para territórios cada vez mais reduzidas, sem infraestruturas básicas, obrigando as pessoas a viver em condições que as expunham a uma morte lenta e calculada. [Israel] obstruiu ou negou deliberadamente a importação e a entrega de ajuda humanitária para salvar vidas. Restringiu o fornecimento de eletricidade (…), levando ao colapso dos sistemas de água, saneamento e cuidados de saúde. Submeteu centenas, senão milhares, de palestinianos de Gaza a detenção em regime de incomunicabilidade e a atos de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes que”, só esses, “terão causado pelo menos 53 mortes até agosto de 2024.” (Amnistia Internacional,‘You Feel Like You Are Subhuman’. Israel’s Genocide Against Palestinians in Gaza, 2024)

Que os responsáveis por tudo isto invoquem a memória do Holocausto, isto é, do genocídio judeu (e cigano, e de populações eslavas) perpetrado pelos nazis até 1945, está a impedir, como diz Marianne Hirsch, que o “Holocausto possa voltar a servir como 'referência moral universal', se é que alguma vez o foi" (Rethinking Holocaust Memory After October 7, Public Books, 15/7/2024). Um dos sobreviventes de Auschwitz, Primo Levi, recordava-se de como os SS, cientes da derrota próxima, diziam aos prisioneiros: “Seja qual for o fim desta guerra, nós ganhámos; (...) mesmo que algum de vocês escape, o mundo não acreditará em vocês. Talvez haja suspeitas, discussões, investigação de historiadores, mas mas não haverá certezas (...). [A]s pessoas dirão que os factos que vocês contam são demasiado monstruosos para serem acreditados: dirão que são exageros da propaganda (...), e acreditarão em nós, que negaremos tudo. Nós é que da UE face ao genocídio, é que sejam os israelitas a contar a história do que aconteceu em Gaza.  vamos ditar a história dos campos [de extermínio]” (Os que sucumbem e os que se salvam, 1986). O que nos arriscamos hoje, depois de ano e meio de cumplicidade e/ou silêncio dos EUA e

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico  

https://www.publico.pt/2025/01/22/opiniao/ 


quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Alfredo Barroso - OS INCÊNDIOS ATEADOS PELO "OCIDENTE" NA "ERA DOS EXTREMOS"


* Alfredo Barroso 

(que se limitou a actualizar de 140 para 160 anos a 1ª linha do texto publicado originalmente no 'Expresso' há 20 anos*)

Há 160 anos, em Setembro de 1864, no decurso da Guerra da Secessão americana (ou «Civil War», se preferirem), o general «nortista» William Sherman (que deu o nome a carros de combate) conquistou a cidade de Atlanta e mandou incendiá-la. Tal como faria em Savannah, no final de 1864, depois de ter devastado a Geórgia. Mas o incêndio de Atlanta é o mais conhecido e popular, por ter sido reconstituído em uma cena aterradora do filme «E Tudo o Vento Levou». 

A Guerra da Secessão americana (1861-1865), uma das mais brutais de todos os tempos, custou para cima de um milhão de mortos, embora só se saiba, com precisão, quantos militares morreram de ambos os lados. Ao todo, 617 mil mortos (359 mil entre os «nortistas» vitoriosos; 258 mil entre os «sulistas» derrotados). Quanto a vítimas civis, não é apresentado um número exacto, mas todos os especialistas concordam em apontar para «centenas de milhares» de mortos e feridos. 

O mesmo se passa em relação ao genocídio dos índios americanos [os ameríndios], que começou ainda antes da Guerra Civil e atingiria o auge bastante depois, em Dezembro de 1890, com o célebre «massacre de Wounded Knee», onde os soldados do famoso «7º de Cavalaria» se vingaram da derrota que os Sioux (chefiados por Crazy Horse e Sitting Bull) tinham infligido ao regimento (então comandado pelo general Custer) em Little Big Horn, no Verão de 1876. Além de ser um «castigo», a chacina dos amerindios foi um genocídio institucional (uma «sanção política do conquistador») e utilitário (uma «exploração da conquista colonial») no contexto da corrida para conquistar o Oeste («Go West»), apresentada, paradoxalmente, como um exemplo da «modernidade». Assim se consolidou, no século XIX («A Century of Dishonor», como escreveu Helen Hunt Jackson, em 1881), o país que hoje se considera  «farol» da «civilização ocidental» e «campeão» da liberdade contra a «barbárie».

Mas seria durante todo o século XX - «A Era dos Extremos», como lhe chamou Eric Hobsbawm - que a «civilização ocidental» revelaria toda a sua capacidade para praticar genocídios, crimes de guerra, massacres e carnificinas. Em suma: destruição e morte a uma escala nunca antes imaginada. Hitler - com o genocídio de judeus (holocausto), ciganos e opositores - e Estaline - com o genocídio pela fome na Ucrânia e com o Arquipélago do Gulag (entre o Estreito de Behring e o Mar Negro, atravessando as regiões mais inóspitas da Sibéria) - assassinaram milhões de seres humanos, em nome da «civilização», do «homem novo» e da «modernidade». Um e outro ocupam, indiscutivelmente, lugares no topo da escala do «terror». 

Mas aparecem depois, a uma distância que não é assim tão grande quanto se julga, os «Aliados», sobretudo os EUA e a Grã-Bretanha, com os «crimes de guerra» que cometeram, quer na na Alemanha equer no Japão, durante a II Guerra Mundial. As duas bombas atómicas largadas pelos bombardeiros americanos B-29 «Enola Gay» e «Great Artist» (que belos nomes!) sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e em 9 de Agosto de 1945, mataram, imediatamente e a curto prazo, mais de 200 mil civis. Isto é, mais do dobro dos civis chacinados pelos 279 bombardeiros americanos que arrasaram Tóquio no dia 19 de Março de 1945. Mas estas carnificinas não constituíram excepções. Durante cinco anos, mais de mil cidades, vilas e aldeias alemãs foram alvos de bombardeamentos brutais e constantes. Milhares de toneladas de bombas explosivas e incendiárias atingiram 30 milhões de civis - sobretudo velhos, mulheres e crianças- matando mais de um milhão, numa série de ataques planeados e executados com minúcia, e de forma sistemática, por «peritos» norte-americanos e britânicos. O objectivo foi o de causar a maior devastação possível, provocando o terror entre a população civil. As bombas foram especialmente aperfeiçoadas para atear incêndios e matar civis, não só pelo impacto, mas também pelo calor asfixiante, pela compressão do ar e pelos gases tóxicos.

É isto que o historiador berlinense Jörg Friederich descreve, num livro aterrador, intitulado «O Incêndio, a Alemanha sob as bombas, 1940-1945». Autor insuspeito, também se distinguiu a investigar os crimes de guerra nazis e foi colaborador da «Enciclopédia do Holocausto». Em complemento, vale a pena ler o ensaio do escritor alemão W.G. Sebald «Sobre a História Natural da Destruição», em que o autor reflecte sobre a tragédia alemã, concluindo que, nem por ter sido merecido, o castigo infligido à Alemanha foi menos brutal. A decisão de incendiar cidades alemãs, reduzindo-as a cinzas, provocando o que tecnicamente se chama «tempestade de fogo», leva-nos a concluir que «todos perderam a razão, porque o indivíduo desapareceu sob o horror em massa». A tecnologia foi posta ao serviço do terror com uma precisão implacável.

Sobre as origens desse terror e sua actualidade neste «mundo globalizado», de cuja «modernidade» o «Ocidente» tanto se orgulha, convém ler o livro de John Gray, «A Al-Qaeda e o significado de ser moderno», já publicado em Portugal. Chega-se à conclusão de que não foram os «ocidentais» a aprender os métodos de terror com os «bárbaros». É bem mais provável que tenham sido os «bárbaros» a aprender a praticar o «terror» com os «ocidentais». O pretenso «choque de civilizações» só serve para alimentar «guerras santas» e «vinganças de Deus». Noutro ensaio notável, «A Fractura Imaginária», sobre «as falsas raízes do confronto entre Oriente e Ocidente», o libanês Georges Corm critica o «discurso narcisista do Ocidente», que se fecha sobre si próprio e que faz da pretensa «excepcionalidade ocidental» um absoluto, condenando os outros à «barbárie». Como se vivêssemos num mundo maniqueu, dividido entre o Céu e o Inferno, entre o Bem e o Mal, entre um Ocidente exemplar - «racional, laico, técnico, materialista e democrático» - e um Oriente abominável - «místico, irracional e violento». São mitos perigosos.  

É essa «fractura imaginária» - já denunciada por Edward Said no seu magnífico ensaio sobre o «Orientalismo» (só agora publicado em Portugal) - que é preciso refutar. Porque é ao abrigo de tais mitos que florescem os apelos ao autoritarismo e se invoca o terrorismo como pretexto para limitar as liberdades e condicionar a democracia. Não é com «democracias musculadas» e «guerras preventivas» baseadas em mentiras que se combate o terrorismo. Com as «bombas inteligentes» só se ateiam mais incêndios! 

(*) O texto original foi publicado no 'Expresso" de 18/Setembro/2004


2024 12 26
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