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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Os Últimos do Estado Novo, por José Pedro Castanheira

 

 


 * Mário Beja Santos


O jornalista José Pedro Castanheira, com uma notável carreira profissional, explica de forma meridiana na apresentação deste seu livro a essência de Os Últimos do Estado Novo, Tinha da China, 2023:

“Já reformado, a organizar o meu arquivo, verifiquei, com algum espanto, que tivera oportunidade de conhecer e fazer um trabalho jornalístico com e sobre alguns dos principais derrotados do 25 de Abril – o último diretor da Censura, o último presidente do Partido Único, o último responsável pelo campo de concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último secretário particular de Marcello Caetano, o seu último porta-voz. Paralelamente, tivera o ensejo de fazer reportagens em torno de episódios e acontecimentos marcantes, precisamente por terem sido os últimos do género a ocorrer durante a ditadura: o último deportado, os últimos presos políticos, a última entrevista concedida por Oliveira Salazar. E pensei que faria sentido reunir todos estes trabalhos e publicá-los em livro.” E faz comentários sobre a natureza de entrevistas e entrevistados, ficam algumas pontas de mistério, seguramente não haverá resposta para o conteúdo da documentação que Alexandre Carvalho Neto, secretário pessoal de Marcello Caetano, destruiu na residência de S. Bento, no cumprimento das instruções dadas pelo deposto presidente do Conselho de Ministros. E o leitor que se prepare para uma viagem que tem pouco de nostálgica, permite um sem número de clarificações e, impressão minha, da própria sensibilidade manifestada pelos entrevistados, há mais reconciliação que ressabiamento pelo fim do regime ditatorial.

Eduardo Vieira Fontes, diretor do “campo de trabalho” do Tarrafal, abre as hostilidades, um cabo-verdiano que nunca quis a nacionalidade cabo-verdiana, que guarda recordações amenas de Amílcar Cabral e do seu trabalho em Angola, que considera ter agido com elevado sentido do dever no Tarrafal, reaberto em 1961, a PIDE criticava muitos dos seus procedimentos para com os presos, durante a entrevista mostra testemunhos de detidos, francamente favoráveis para a maneira como conduzia a vida no campo. “Nunca mais voltou a Cabo Verde, mas vinha quase todos os anos a Portugal. Faleceu nos EUA, em East Providence, em 9 de novembro de 2021, escassos meses após a morte da mulher. Tinha 99 anos.”

Não menos interessante é a reportagem sobre os últimos presos políticos, tudo se passou em abril de 1974, ficamos a saber quem e porquê foi detido. O mesmo se dirá do último Governo da ditadura, há para ali aspetos curiosos de escolhas de ministros e secretários de Estado, e há o depois do 25 de Abril. Pedro Feytor Pinto, que teve uma intervenção direta nos acontecimentos do 25 de Abril dá-nos as suas impressões sobre aspetos da governação de Marcello Caetano, o seu relacionamento com os liberais, os bastidores da oposição ao Governo dentro do regime, o que se passou depois da queda da ditadura. Não deixa de causar estranheza certas afirmações de Alexandre Carvalho Neto, foi secretário particular de Marcello Caetano e antes ocupara um cargo semelhante junto de Spínola na Guiné, não só diz inverdades como destrata quem não se pode defender, isto quanto à Guiné. Que antes de Spínola havia a iminência de uma derrota militar, que Schulz foi destituído e que ainda regressou a Bissau para empacotar os serviços de prata do Palácio de Bolama. Acontece que a guerra não estava perdida nessa época (1968), que Schulz não foi demitido, cumprira quatro anos na governação e como comandante-chefe e interrogo-me como era possível um governador trazer pratas de um palácio que estava em ruínas, fora abandonado em 1941, impensável deixar ali pratas, enfim, tricas com uma pontinha de maledicência, resta saber para quê. E ficamos a saber que ajudou Marcello Caetano a instalar-se no Rio de Janeiro.

O leitor jamais ficará dececionado com este repositório de entrevistas onde iremos ver discorrer Elmano Alves, o presidente da última comissão executiva da Ação Nacional Popular, Mário Bento Soares, o último diretor da Censura, o autor entrevistará o jornalista francês Roland Faure que entrevistou Salazar quando este já não era o homem todo-poderoso e vivia debilitado em S. Bento, a Censura cortou a entrevista, para o regime marcelista era totalmente inaceitável que os nostálgicos ouvissem Salazar dizer coisas como: “Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família; é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo.”

O leitor será confrontado com o relacionamento de Salazar com o major Silva Pais, o último diretor da PIDE, as matérias que tratavam, as informações que a PIDE fazia chegar a Salazar não só sobre acontecimentos internos como internacionais, fica perfeitamente claro que o ditador soube do assassinato do general Humberto Delgado com todos os pormenores, dando depois em discurso uma versão totalmente descabelada, atribuindo a tensões entre oposicionistas, atribuindo à oposição o crime. Iremos ler os acontecimentos da deportação de Mário Soares em S. Tomé e Príncipe. E o livro termina com uma reportagem de acontecimentos muito pouco conhecidos e praticamente não tratados pela historiografia, os sindicatos corporativos, afetos por natureza ao regime, mas que estavam em ebulição e mesmo em rutura com o então subsecretário das Corporações não só dado o agravamento do custo de vida, como os penosos horários de trabalho e salários bloqueados. Iremos viajar ao último plenário destes sindicatos, haverá reuniões com Salazar e uma reunião desse plenário no Coliseu dos Recreios. É nesse plenário que os dirigentes sindicais divulgarão o teor de uma mensagem entregue a Salazar a que o ditador fez 23 cortes e alterações no texto que lhe entregaram. O ditador será sócio honorário de 300 sindicatos. E diz-se no último plenário dos sindicatos corporativos por que a máquina corporativa sofrerá alterações de fundo com o fim da Segundo Guerra Mundial e com a agitação política trazida pelo Movimento de Unidade Democrática. Gota a gota, elementos de oposição irão infiltrando-se nos sindicatos, a aliança com a governação irá desaparecer.

Esta coletânea de entrevistas é uma preciosidade, ajuda a compreender mentalidades dominantes do salazarismo e do marcelismo e como a ditadura não ofereceu resistência a quem vinha trazer as liberdades, o desejo de viver em democracia e pôr fim à inconsequente guerra colonial.

 

                                                                                    Mário Beja Santos

Publicada por Malomil à(s) 12.1.24 

 

https://malomil.blogspot.com/2024/01/os-ultimos-do-estado-novo-por-jose.html 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Rui Nabeiro. “Nasci numa terra pobre, por isso sou socialista”


Aos 84 anos e com a 4ª classe, Manuel Rui Azinhais Nabeiro é um exemplo do self made man. Militante do PS, o maior empresário português do café está no 12º lugar do ranking dos mais ricos. O comendador de Campo Maior recorda a sua vida, que começou na pobreza e no contrabando

19 FEVEREIRO 2016 13:00

José Pedro Castanheira Jornalista Carolina Reis Texto Jornalista  Nuno Botelho  Fotos Fotojornalista

O império de Rui Nabeiro começou a ser construído cedo. As suas raízes encontram-se na época em que via o tio Joaquim saltar a fronteira para fazer contrabando. Desde aí soube que queria estar ligado ao comércio. Nas páginas do livro da vida que agora abre, o Comendador, como é chamado em Campo Maior, relembra a infância de pobreza e os sacrifícios do pai, que o levaram a ser de esquerda. Duas vezes nomeado presidente de Câmara na ditadura, e eleito outras quatro pelo PS (de 1976 a 1985), fez da vila onde nasceu e de onde sempre recusou a sair uma terra próspera. Raramente diz que não a quem lhe pede ajuda e, apesar de considerar que a Delta continuará a ser o que é hoje, recusa a reforma. “Quero sentir o palpitar do coração”.

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Fecha em: 28s

Lembra-se de quando bebeu o primeiro café a sério, que não fosse cevada nem chicória?
A partir dos meus 14 ou 15 anos, até porque para o aprender a conhecer tem de se experimentar. Em nossa casa já havia um café diferente, o torrefacto que fabricávamos na altura.

Começou a beber café com ou sem açúcar?
Nessa altura, confesso que era com açúcar.

E hoje?
Não ponho nada. Nem no café nem no chá. Tenho um provador, mas sempre que entro na fábrica há um lote à minha espera para eu próprio fazer a prova. Para isso não posso pôr açúcar nem qualquer aditivo.

O açúcar e os doces faziam-no salivar quando era miúdo?
A nossa família era muito humilde e em casa não havia bolos. A minha mãe vinha do campo e nesses tempos quem era a pessoa do campo que fazia bolos? Só por altura do Natal e pouco mais.

Diz que a sua família era humilde. Pode acrescentar-se pobre?
Os meus avós maternos viviam praticamente no sítio onde temos hoje a fábrica, mas numa barraquinha. Viviam os dois do campo. Os meus pais já tiveram uma mercearia proporcionada pelo patrão do meu pai, um lavrador e médico de quem foi motorista durante anos e anos. Chamava-se “Alimentação e Salsicharia Srª Maria Azinhais”. Os meus pais foram extraordinariamente eficazes no equilíbrio da vida da família e puderam proporcionar aos filhos a escola. Muitos não iam — e esses é que eram os verdadeiros pobres.

Os seus pais não tinham ido à escola?
A minha mãe morreu analfabeta, mas era uma pessoa muito inteligente. O meu pai, Manuel, aprendeu a escrever o nome dele na tropa. Foi um oficial que o ajudou, para poder tirar a carta de condução e, assim que saísse da tropa, ir trabalhar para casa do tal médico, cunhado do oficial. Melhor ou pior, nós já tínhamos o nosso sapatinho, mas perto de nós havia muita gente descalça. O meu pai era um sacrificado em casa desse patrão. De noite ficava de guarda a um filho que tinha problemas do foro psiquiátrico, totalmente descontrolado. Havia semanas e meses que não víamos a sombra do meu pai; durante o dia estava com o patrão e à noite tinha aquela responsabilidade.

Fez a quarta classe. Teve pena de não ter continuado?
Ainda hoje tenho. Na nossa terra só tínhamos os quatro anos da instrução primária. Se tivéssemos algumas condições teríamos de ir para Portalegre, Elvas ou Évora. Em casa chegámos a ser sete — cinco filhos mais os pais. Não havia hipóteses de continuar a estudar: nem o mais velho pôde e eu era só o terceiro. Ficámos todos com a quarta classe. Todos fomos bons na escola, mas depois tivemos de parar. As irmãs começaram a fazer um bocado de costura no lar. Mas nenhum de nós foi trabalhar para casa de alguém, nem para o campo. Na minha turma só houve um rapaz que foi para engenharia, em Coimbra, porque tinha lá uns tios professores a viver.

Se lhe fosse dada a hipótese, que curso seguiria?
Fui sempre um homem do comércio, mesmo sem ser comerciante. Quando me iniciei, foi sempre com a ambição do comércio, devido ao pequeno estabelecimento que os meus pais tinham. A indústria só veio a seguir.

Tem alguma recordação da Guerra Civil de Espanha?
Tenho muitas, e não boas. Lembro-me das pessoas que eram capturadas na fronteira. Vinham, eram entregues, presas, e depois transportadas para Espanha, sabendo que iam para o suicídio [sic]. Durante a Guerra Civil, já tentava fazer comércio de produtos, porque havia racionamento de açúcar, arroz, massas, bacalhau. Como tínhamos um estabelecimento, adquiríamos e vendíamos a quem procurava e levava até à fronteira.

Lidou com alguns refugiados?
Nasci numa travessa que vai dar à Praça da República, onde está a Câmara Municipal. A esquadra da polícia estava ligada ao edifício da Câmara e nós ouvíamos os gritos das pessoas quando lhes era anunciado que iam ser retornadas para Espanha. Eram de arrepiar. Foi uma guerra extraordinariamente má e dura. Até as próprias autoridades vinham buscar café à fábrica e levavam para ganhar mais algum e reforçar o salário, que na altura era miserável.

Sempre houve uma certa ambição na sua família? O seu pai quis ser mais do que camponês...
O meu pai sempre foi muito conservador, respeitando a pessoa que lhe arranjou trabalho e o patrão, ficando sempre a seu lado. O meu tio Joaquim sempre disse que não ia trabalhar para o campo e aos 13 anos já estava fora de casa dos pais. Correu Espanha e nunca fez outra coisa senão trabalhar para ele próprio, a transportar café. Era um homem de confiança na fronteira e conhecia bem os seus meandros.

Porque é que não fala em contrabando?
Falo, é uma coisa sobre a qual não tenho qualquer problema. O nosso contrabando foi sempre um contrabando de força, de tapar buracos. Trabalhámos sempre a vender café para os espanhóis.

Legal e menos legal...
Eles é que encaravam o que era legal ou não, o que interessava a um governo e a outro, dado que os espanhóis precisavam de um produto que não tinham. Não precisavam de divisas, trocavam-nas pelo café e deixavam cá pesetas. Era um negócio que aqui se fez em contrabando. Na altura, houve problemas com trocas de lã, tecidos, um pouco com o tabaco. Em Campo Maior, as pessoas mexiam era com o café: arranjavam o seu saquinho, punham-no às costas e marchavam...

Uma vila de contrabandistas... [risos]
Sem dúvida. E foi isso que nos deu alguma identidade. Depois conseguimos que fosse um produto fabricado em Campo Maior, porque esse meu tio o que levava para Espanha era café verde.

Porque é que Espanha precisava de café?
Nessa época, as colónias deles não o tinham. Levavam daqui o café verde, que vinha de Angola, Timor, São Tomé e Cabo Verde, para as fábricas de Madrid. O meu tio levava o café dentro do carro e depois passava a fronteira a salto.

Nunca o mandaram parar?
Não. O meu tio levava um saco de 30 quilos de café às costas e passava. Eu já fui mais felizardo, tinha uma técnica diferente, mais conhecedora. Ainda bem que existiu contrabando em Campo Maior, porque quando interessava aos dois países, acertavam-se e deixavam os contrabandistas passar a fronteira livremente. Quando havia pouco trabalho, lá e cá, levar café para Espanha era uma profissão. As pessoas capazes e sérias neste negócio eram conhecidas das próprias autoridades e, se tivesse de ser, até serviam para transportar qualquer coisa no plano diplomático. O café foi a arma aqui da nossa terra. Foi por isso que o meu tio percebeu que podia montar uma fábrica. Um dia, trouxe de Madrid um encarregado de uma torrefação que costumava visitar.

A primeira fábrica foi construída por um espanhol?
Foi construída pelo meu tio mas com a ajuda de um espanhol, com o know how dele. Chamava-se Nicolás. Começou numa tasquinha, dentro de um quintalzinho no meio da vila.

Às escondidas?
Não, estava tudo legalizado. Já havia zonas industriais. Começou por ser pequena, mais ou menos artesanal, passou por várias fases e tamanhos e ainda hoje tem pessoas a trabalhar.

Começou com a marca Camelo.
A primeira marca foi a Cubana. O meu tio Joaquim trouxe a ideia de Espanha. Depois, outro tio, João — que gostava muito de imitar e lutar com o irmão — criou a Cubano, que ainda existe. A Cubana foi perseguida pela [Inspeção das] Atividades Económicas e vendeu a marca, mas nós já tínhamos a Camelo na retaguarda. A Cubana entretanto abriu falência, mas já tenho essa marca em meu poder, para matar saudades e em homenagem ao meu tio Joaquim. Ainda não está a ser comercializada, mas vai ser.

Porquê o nome Camelo?
O meu tio era um homem de grande risco e fez a Camelo olhando um pouco para o tabaco Camel. A Camelo ainda hoje é quase uma fotografia da Camel. Houve alguns problemas com a companhia, a Philip Morris, mas conseguimos fazer um acordo entre as partes, garantindo que só fazíamos café. A Cubano nasceu assim de dois irmãos: um que já tinha a indústria de café e fazia o tal contrabando; o outro, que era guarda-fiscal e deixou de o ser e foi fazer o Cubano para atacar o irmão, que estava a viver melhor do que ele. Foi uma concorrência familiar, agressiva, mas a providência é grande. A Cubana trabalhava mais a parte norte de Espanha, de Cáceres até Salamanca; a Camelo estava mais pela Estremadura; e o Cubano, quando se infiltrou, foi mais para a zona de Cáceres.

Nessa altura a maior parte do mercado era Espanha.
Era a cem por cento. Vivíamos somente para o mercado espanhol. Eu até estava interessado no mercado interno, mas o meu comando ainda não era suficientemente forte para o poder impor.

Quando começou a interessar-se pelo mercado português?
Em 1961, quando arranquei e criei a Delta. Comecei com três empregados, mas continuei a trabalhar para a Camelo: levantava-me às 3h30 da manhã e ia para lá. Os três empregados eram reformados, dois da GNR e um da Guarda Fiscal. Um era familiar, outro conhecido e o terceiro vizinho; pagava-lhes pouco porque tinha pouco e eles também ganhavam da reforma.

Porquê Delta?
Nessa altura as marcas e patentes já eram reguladas pelas empresas e agências ligadas à propriedade industrial. Pedi para nos arranjarem uma marca para registar. Os senhores da J. E. Dias Costa, uma firma de patentes e marcas, deram-nos duas ou três referências. Uma delas era Delta, que tem uma acústica boa e uma expressão natural. Qualquer pessoa o diz, até os chineses.

Não é uma criação sua.
É, porque a soube trabalhar e orientar. Soube esperar, não tinha pressa. E já tinha um salário na Camelo, que era a minha segurança — não precisava de estar a correr para vender e ter o meu dia a dia seguro.

Quanto era?
Chegou a ser mil e quinhentos escudos. Ao pé de quem ganhava 500 já era muito bom.

E agora?
São dez mil euros, mas com o que o Governo leva, a parcela fica quase a metade [risos].

Arrancou com que dinheiro?
Tinha uns depósitos a prazo de um ano e fui a um banco de Elvas, Francisco da Silva Brás, uma pequena casa bancária e de câmbios, que me antecipou 50% sem ter prejuízo. Ainda fiz um empréstimo no Banco Nacional Ultramarino. Comecei assim a minha vida com empréstimos e dinheiro meu, jogando as coisas muito certinhas.

A matéria-prima ia buscá-la a Angola?
Sim, sobretudo a Angola.

Agora, aonde é que vai buscar o melhor café?
A vários países. Ao Brasil, Guatemala, Costa Rica, Colômbia, Uganda, Camarões, Costa do Marfim. Angola, hoje em dia, produz pouco ou quase nada. Era o segundo maior produtor e hoje quase não aparece nas estatísticas, é zero. Importamos desses países todos.

Daí que veja, todos os dias, as cotações da bolsa?
A várias horas do dia. Logo que chego ao escritório é a primeira coisa que faço. Acompanhei sempre o mercado. Fui buscar café a Angola na altura certa. Quando houve condicionamento eu tinha o armazém cheio. Depois da revolução, fui outra vez a Angola e trouxe todo o café que podia comprar. Foi essa a minha audácia. Não tive dificuldades em ir para a frente de batalha. Em 1975, quando estava tudo a vir para Portugal, não mandei ir outros — fui para lá eu. Passei dificuldades, queríamos comer e não havia...

Como é que o receberam?
Bem, porque sempre tratei bem as pessoas. Dormi muitas vezes em fazendas de café, sempre ao pé da rapaziada toda. Isso conta bastante. Antes do 25 de Abril não nos era permitido fazer importação direta, porque havia uma cooperativa e estava tudo controlado por um grupo.

Que grupo era?
Era uma cooperativa criada pela maior parte dos fazendeiros, a Copeca. Na altura eu já vinha a dar passos. Essa gente grande, que tinha grande marcas, dizia: “O Nabeiro está a vender umas coisas, mas não vale nada, é um alentejano...” Quando deram conta, já eu estava à frente deles. A certa altura eu tinha produto e eles não, e todos me queriam comprar, proporcionando-me um lucro bastante razoável. Respondia-lhes: “Não, eu posso dispensar um saco ou outro, mas não vendo. Vender, vendo as minhas embalagens, para fazer a minha marca”. E consegui. Os principais concorrentes eram a Chave d’Ouro, a Nicola, A Caféeira, a Sical, A Brasileira...

Nada disso existe...
Nada. A Nestlé comprou a Tofa, a Sical e outra do norte. Duas outras financeiras têm a Chave d’Ouro, a Nicola e mais três ou quatro empresas do norte.

Vocês foram uns resistentes, que não foram comprados…
Fomos nós e, no Porto, a Torrié.

Também apostou em Timor depois da independência.
O jornalista da “Visão”, quando me viu lá, até me disse: “Pensava que era o primeiro a chegar mas o senhor já cá está”. Um moço que trabalhou no BNU, em Campo Maior, telefonou-me uma noite, já tarde. Tinha saído de uma reunião com o Xanana Gusmão e disse-me que ele tinha café, queria vendê-lo, mas não sabia como. Pedi-lhe umas amostras, mas ele não tinha condições para as fazer sair. “Então vou eu aí”, respondi. Falei a quatro ou cinco empregados e chegámos uns dias antes do Carnaval. Em Díli estava tudo a deitar fumo. Eu e o Xanana pisámos pelo ar Timor completo, fizemos reuniões por todo o lado, em zonas de cooperativa e aglomerados de gente, fazíamos um discurso ‘esperançativo’.

Bolsa. 
Todos os dias, Rui Nabeiro consulta, no telemóvel 
e no iPad, as cotações internacionais do café

Comprou o café a um preço muito generoso...
Comprei. É pena que seja longe.

Mas as coisas não correram bem...
Não, porque logo ao primeiro desequilíbrio foi tudo assaltado e maltratado. Depois da independência, quando o Ramos-Horta era ministro dos Negócios Estrangeiros, levámo-lo a duas feiras, a Barcelona e Paris, para promover o café. Apliquei-me com emoção.

Onde é que estava no 25 de Abril?
Em Campo Maior, era uma terra “agressiva”, toda a gente era trabalhadora do campo e dentro das pessoas havia uma intranquilidade e revolta. Havia muita gente voltada para o comunismo, mas também muitos socialistas. Fui para a rua com as outras pessoas. Caminhei, gritei e fizemos a nossa marcha.

Alguma vez esteve ligado à oposição?
Não. Como campo-maiorense e homem nascido na humildade, fui o que nunca ninguém na terra tinha sido, a não ser os homens ricos: presidente de Câmara, em 1962 e 1972. Numa altura vim-me embora, na outra mostraram-me a porta.

Presidente de Câmara, mas nomeado!
Nomeado, claro, na altura não havia eleições. Nomeado e posto na rua da primeira vez, porque eles queriam que eu trabalhasse devagar e eu trabalhava mais à pressa. Na segunda fui eu que me vim embora. Fui convidado por um senhor que vinha da Assembleia Nacional; era de Trás-os-Montes (Vila Real) e ouvira falar de mim. Fui para a presidência da Câmara em fevereiro de 1972 e saí em setembro. Quando se fizeram as Festas do Povo, lançadas por mim, consegui que o Marcello Caetano me recebesse em São Bento, através dos homens da Câmara Corporativa que também trabalhavam no café. Mas o Marcello entretanto foi ao Brasil e não pôde vir. O governador civil não sabia de nada e quando se apercebeu de que o Marcello esteve quase para vir a Campo Maior, passou a perseguir-me e fui-me embora. Logo a seguir ao 25 de Abril fui nomeado para fazer parte da comissão administrativa da Câmara.

Era socialista na altura?
Nasci socialista.

Quando é que ganhou consciência política?
O meu pai era um homem que trabalhava tudo e não ganhava nada — e queria que houvesse mudança. Não digo que fosse socialista, mas ouvia-o dizer à minha mãe que não tinha visto os filhos naquele mês, e que estava cansado de ficar em casa com aquele senhor com problemas psiquiátricos. Isto era uma terra muito pobre, tão pobre como qualquer terra do Alentejo. É daí que sou socialista.

Quando aderiu ao PS?
Logo após o 25 de Abril.

Porque escolheu o PS e não o PCP?
Eu defendia mais o ideal do PS do que do PC. Mas no PC também tenho amigos. Na primeira festa do “Avante!” o meu produto também lá estava. Eu sinto quem está carente, tenho dor de quem sofre na saúde e nos custos. Vivo para fazer o melhor e isso dá-me uma leitura de esquerda. Há pessoas boas na direita? Há. Mas eu vim para o PS, estou no PS e jamais pensei sair.

Quem foi a primeira pessoa importante que recebeu na Câmara?
O pai do Marcelo Rebelo de Sousa, o Baltasar Rebelo de Sousa, quando era ministro das Corporações. Depois recebi muita gente, mas nessa altura não era fácil. Trazer um governador civil era um achado. Quem veio cá muitas vezes foi o Álvaro Cunhal. Não o recebi, mas esteve cá.

E Mário Soares?
Logo após o 25 de Abril. Em 1976 fez-se uma reunião aqui em Campo Maior entre ele e Felipe González [líder socialista espanhol]. Fui um pouco o anfitrião, porque tínhamos uma cooperativa, Progresso Campo-Maiorense, onde moravam os trabalhadores agrícolas ligados ao PS. Nas instalações dessa cooperativa, que era um lagar, fizemos a receção, o convívio e almoço. Já tinha havido eleições locais e eu era o presidente da Câmara.

Foi no tempo de Mário Soares que teve um problema com o fisco e até um mandado de captura. Esteve uns anos fora, em Badajoz.
Anos não, meses. São coisas que acontecem na vida das pessoas. Até desmontar todo um sistema foi difícil e levou tempo.

Como é se sente um industrial, um homem do café como gosta de se definir, com um mandado de captura? Ainda por cima quando o Presidente da República era seu camarada...
O camarada a mim não me podia dizer se estava bem ou mal. Soube reagir às circunstâncias. A razão estava deste lado e as coisas depois correram com a maior normalidade. Logo que passou o prazo, entrei como tinha de entrar e tive a adesão de toda a gente e de todo o povo. Se fosse acusado, teria de ser julgado — e nunca fui a tribunal.

Pagou alguma coima?
Não.

Tratou-se de um equívoco, de uma perseguição?
Já passou tanto tempo...

Por isso pode falar à vontade.
Há coisas que tenho dificuldade em comentar. A minha intenção foi servir, não foi servir-me a mim. Acho que não me acusaram porque viram que não havia material para me acusar, e a coisa acabou aí. Não deixei de fazer a minha vida normal, aqui ao lado, e as pessoas sabiam-no. A nossa empresa trabalhou normalmente e cresceu.

Vinha a Campo Maior de vez em quando?
Não. Sou muito respeitador das circunstâncias, da verdade e do caminho. Não é que não tivesse condições para cá vir, porque quem conhece a fronteira e as pessoas, como eu conhecia, não teria dificuldade. Mas não o faria nunca.

Acha que foi um erro por parte da justiça e do fisco?
Já o interpretei na altura e acho que não o devo fazer novamente. Sou uma pessoa feliz, sinto-me bem com a minha consciência, diária e permanentemente. Quero continuar assim. Só essa minha atitude, de saber viver e estar com as pessoas e os amigos, me deu uma tranquilidade total.

A Nestlé tentou comprar o seu grupo várias vezes. Nunca pensou nessa hipótese?
Estava e estou mais do que comprometido com a sociedade em geral. Temos um percurso de vida no âmbito social elevadíssimo e nunca poderia vender. Mas não foi só a Nestlé que apareceu.

Quem mais?
Por exemplo, a Philip Morris, a Kraft, a Pepsi.

Alguma vez pensou em transformar a empresa numa sociedade por ações?
Não. Mas não sei se é falta de arte ou falta de querer. Nunca pensei e nunca o discutimos porque a família sabe bem qual é a minha orientação. É possível que quem é mais jovem e tenha mais preparação académica possa pensar num cenário diferente.

Os filhos e netos herdaram o seu modelo de gestão?
Ainda não morri, só nesse dia é que herdam. Ou concordam ou respeitam, não estou dentro deles.

Tem receio de que queiram mudar a filosofia da Delta?
Não. Tenho o filho, a filha, os netos, e há um respeito por aquilo que se tem feito, pelo trabalho e luta. Eles têm orgulho. Não é por a pessoa ir-se embora que se mudam as coisas.

Tem a noção deque tem empregados a mais para aquilo que necessitaria?
É natural que sim. Mas até hoje também não tive dificuldades em lhes pagar, e isso é uma grande vantagem.

Encara isso como uma responsabilidade social?
Encaro, porque, no regresso, quem semeia colhe e quem distribui recebe. E eu faço muito isso.

Estes últimos quatro anos foram difíceis e nunca despediu ninguém. Pelo contrário, até aumentou salários.
Foram anos mais trabalhosos. Na nossa casa, o termo crise não tinha lugar. Mesmo em reuniões. Falávamos, sim, em como íamos trabalhar melhor.

Assustou-se com o sucesso das cápsulas Nespresso?
Não. A Nestlé trouxe as cápsulas mas nós criámos a nossa própria cápsula e mais ninguém em Portugal, mesmo multinacionais, tem uma com tanta força.

Em sua casa usam cápsulas?
Não, mas no escritório já usamos.

Qual é o café que bebe em casa?
Usamos o Delta Diamante, moído numa máquina na altura. Para mim, é o melhor.

Quantos cafés toma por dia?
Quatro é garantido. Bebo ao jantar e não me tira o sono, até me dá.

A revista “Exame” colocou-o como o 12º empresário mais rico do país. Onde é que tem os 400 milhões de euros que lhe atribuem?
Eu trabalho para a empresa e a empresa trabalha para mim. As nossas máquinas, os nossos departamentos são pagos com o dinheiro da empresa, isso representa um património beneficiado e calculado através das nossas contas. Às vezes começo a rir, porque no dia a dia só preciso de ter o que tenho aqui no bolso, sempre aqui no bolso direito e todo contado.

E é quanto?
Duzentos euros. Dá para muitos dias. Se vou ao restaurante pago com o meu cartão, que é da empresa. Mas não vou a restaurantes assim de qualquer maneira. [No dia em que a entrevista foi feita, uma sexta-feira, ainda tinha 150 euros no bolso]

Ainda recorre à banca?
Quando é necessário, sim. Agora, comprar coisas, com o dinheiro da banca para ter rendimento, nem pensar.

Reformar-se está nos seus planos?
Reformar-me era uma grande desgraça para mim. Depois não tinha mais nada que fazer, morria mais depressa e eu quero viver mais anos. Quero sentir o palpitar do coração.

Passam a vida a pedir-lhe emprego...
Ah, sim, valha-me Deus! Todos os dias.

Já alguma vez disse que não?
Não posso dizer a todos que sim. Onde há esperança, também temos de dar esperança. Não digo a ninguém que não. Muitas vezes afirmo: “O lugar tu é que o vais conquistar” — e quem o quer conquistar tem de trabalhar para ele. Por isso é que digo que não é o dar, é o distribuir. Quando uma pessoa diz que não, também fica comprometida, um pouco menos saudável.

 https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2527/html/economia/opiniao/a-fulgurante-degradacao-da-lideranca-europeia


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Poemas de Sophia no funeral de Nuno Teotónio Pereira


22.01.2016 às 19h50

 A última homenagem ao arquitecto foi numa igreja com a sua assinatura
O funeral do arquitecto Nuno Teotónio Pereira começou ao som da “Cantata da Paz”. “Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”, assim reza o refrão do célebre poema de Sophia de Mello Breyner, musicado por Francisco Fernandes, e que foi suavemente entoado por algumas centenas de pessoas que quiseram prestar a última homenagem ao cidadão arquitecto, cuja vida se confundiu com o catolicismo progressista dos anos sessenta e setenta. O poema, aliás, fora cantado pela primeira vez numa vigília contra a guerra colonial realizada na igreja de São Domingos, na passagem de 1968 para 1969, e organizada clandestinamente por Teotónio Pereira e pela amiga Sophia. Voltou a ser cantado ao princípio da tarde de hoje na igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, obra da autoria do arquitecto, que lhe valeu um dos quatro prémios Valmor e onde quis que o seu corpo ficasse em câmara ardente.

“CAPACIDADE DE REUNIR E ENVOLVER PESSOAS”

A cerimónia, muito simples, foi presidida pelo frei Bento Domingues, que conheceu Teotónio Pereira em 1962 e de quem também era grande amigo. O dominicano saudou a assistência, dizendo que lhe fazia lembrar “os encontros dos terceiros sábados”, como ficaram conhecidas as reuniões, promovidas por Teotónio Pereira e a primeira mulher, Natália Duarte Silva, perto do Campo Pequeno, e que há mais de 40 anos constituíam um habitual ponto de encontro de numerosos católicos progressistas. Bento salpicou a sua intervenção com várias leituras, incluindo uma crónica de 1995 do próprio arquitecto no Público, as bem-aventuranças do evangelho de São Mateus (numa velha versão do movimento Metanóia) e até uma frase de Raul Solnado, que lhe ouvira pouco antes de morrer: “Deus do amor, livra-me de um deus sem humor…” Socorrendo-se de numerosas citações do Papa Francisco, o sacerdote estabeleceu um certo paralelismo entre Jorge Bergoglio e Teotónio Pereira, em termos de irrequietude, inconformismo e alegria. Deste, elogiou a “sua capacidade de reunir e envolver pessoas”, de “inventar” e de “não fazer juízos de valor”. Bento Domingues quis terminar com mais um texto de Sophia, extraído da sua “Carta aos amigos mortos”: “E eu vos peço por este amor cortado/ Que vos lembreis de mim lá onde o amor/ Já não pode morrer nem ser quebrado./ Que o vosso coração que já não bate/ O tempo denso de sangue e de saudade/Mas vive a perfeição da claridade/ Se compadeça de mim e de meu pranto/ Se compadeça de mim e do meu canto.”
Da família, falou um dos netos, para um muito terno e comovido elogio do avô, que, disse, viveu os últimos tempos na obsessão de completar 94 anos – o que aconteceria no próximo dia 30 – e sobretudo de vir a conhecer o primeiro bisneto, nascido no longínquo Equador.

QUATRO PRÉMIOS VALMOR

Nuno Teotónio Pereira ficou em campa rasa no cemitério do Lumiar. Na igreja, o Estado português esteve presente através da sua segunda figura, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e do primeiro-ministro, António Costa. À cerimónia compareceram inúmeras figuras do catolicismo progressista, mas também do extinto Movimento de Esquerda Socialista (MES), um pequeno partido de que Teotónio Pereira foi um dos principais dirigentes. Em termos políticos, viam-se personalidades de todos os quadrantes políticos, com destaque para o PS.
“As pessoas são mais importante que a obra”, afirmou Bento Domingues na sua intervenção, garantindo que essa fora sempre a perspectiva de Teotónio Pereira. A sua obra como arquitecto é vastíssima. Para além da igreja que o acolheu (feita em colaboração com o grande amigo Nuno Portas, que também esteve presente), foram distinguidos com o prémio Valmor três outros trabalhos seus: o edifício “Franjinhas”, na Rua Braamcamp (com João Braula Reis); um prédio de habitação na freguesia dos Olivais Norte (com António Pinto Freitas); e a estação de metropolitano do Cais do Sodré (com Pedro Botelho). Mas um dos trabalhos em que mais se revia esteticamente é o Bloco das Águas Livres, também em Lisboa, desenhado em colaboração com Bartolomeu da Costa Cabral.
Casado em segundas núpcias com a artista plástica brasileira Irene Buarque, Nuno Teotónio Pereira tinha três filhos e faleceu em Lisboa no passado dia 20.

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-01-22-Poemas-de-Sophia-no-funeral-de-Nuno-Teotonio-Pereira