A crítica de televisão escrita por Mário Castrim (1920 / 2002) no Diário de Lisboa, dia-após-dia, ano-após-ano era uma janela aberta por onde passava a brisa do mar ou da montanha, uma lúcida e por vezes corrosiva visão do país cinzento, agrilhoado, espartilhado, oprimido, estilhaçado pela censura e pela repressão. A sua crónica era a 1ª secção a ler por muitos de nós, como hoje se procura a tira do "Calvin e Hobbes" ou o "Bartoon"
Para além de jornalista, Mário Castrim foi escritor, de poesia e de livros para a infância. Dele ficam estes dois poemas:
No retrato velho hoje cinzento
estava toda a família reunida.
– Este aqui és tu.
Este tu era eu – três anos, caracóis, calções
colete, botas.
Este sou eu.
É preciso guardar as provas. Os documentos.
Se um dia me fecharem as cancelas e
não me deixarem passar, aponto logo:
– Este sou eu.
– Passe – dirá o guarda que deve haver
na eternidade – e boa viagem, sim?
– Claro – dirá o menino
que entretanto busca em mim
as sete diferenças
como costuma fazer no desenho
do suplemento do jornal
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Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamenhte ocidental o mais
ocidental possível.
Mais do que ele, só os nossos olhos.
Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.
Mário
A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.
"Pois foi assim mesmo, camarada. A Noémia ia visitar-me a Peniche. Quando se aproximava encostava os lábios ao vidro do parlatório. Eu encostava os meus ao vidro do lado de dentro. Se alguém alguma vez te disser que o vidro é frio, diz que não,camarada, diz que não. Às vezes o frio também queima. Podes crer,camarada."
O nosso camarada Mário Castrim, escritor, jornalista e crítico televisivo, faleceu na madrugada de terça-feira, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde estava internado desde o início de Agosto. Com 82 anos, Mário Castrim encontrava-se nos cuidados intensivos do Hospital dos Capuchos, sofrendo de pneumonia.
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Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, foi o primeiro crítico de televisão em Portugal. Militante do PCP, era o mais antigo e regular colaborador do Avante!, enviando os seus poemas semanalmente e até ao fim. .
O Secretariado do Comité Central do PCP manifestou de imediato o seu pesar. Compartilhando a dor da família e enviando um abraço fraternal de solidariedade à esposa do jornalista, a escritora Alice Vieira, e aos seus filhos, André e Catarina Fonseca, o Secretariado «presta homenagem a esta destacada figura da vida cívica e cultural do país nos últimos 50 anos, ao militante comunista com muitas décadas de corajosa e coerente intervenção, ao crítico de televisão, escritor e intelectual que tanto contribuiu para a formação democrática e humanista de muitas gerações». .
O Secretariado apelou aos militantes comunistas e a todos os cidadãos progressistas para participar no funeral do jornalista, que teve lugar ontem de manhã, no Cemitério de Benfica. Carlos Carvalhas, secretário-geral do PCP, José Casanova e Vítor Dias, ambos membros da Comissão Política, estiveram presentes.
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Carlos Carvalhas enviou, anteontem, um telegrama de condolências à família. «Recebendo com grande tristeza a notícia do falecimento do Mário, envio-vos a expressão do meu profundo pesar, evocando com respeito e admiração a figura de Mário Castrim como comunista com muitas décadas de acção dedicada e coerente, como homem bom, vertical e generoso, como cidadão com uma relevante contribuição para a formação cívica e política de várias gerações, como um artista e criador solidamente vinculado aos ideais humanistas», lê-se no telegrama.
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Também o Sindicato dos Jornalistas manifestou o seu pesar, salientando que o desaparecimento de Mário Castrim «empobrece o panorama da comunicação social portuguesa na dupla vertente dos que aproduzem e dos que a interpelam».
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«Mário Castrim há-de permanecer como referência histórica do género e exemplo a considerar por sucessivas gerações de críticos, mas também ficará na nossa memória como homem culto e lúcido, cidadão comprometido com o seu tempo e fiel às suas convicções», sublinha o sindicato.
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Até sempre!
Desculpa, Mário, mas nesta hora triste, ao evocar-te, lembro-me de mim. É assim, presumo, que os amigos são mais fortemente lembrados. Pelo que eles pesaram na vida de cada um de nós, pelo rumo a que nos solicitaram, pelas perspectivas que abriram. Lembro-me de um dia assim em Outubro, já lá vão uns quarenta e cinco anos, subia eu as velhas escadas do Diário de Lisboa, na Luz Soriano, com uns papéis na mão (desenhos, poemas, um conto?). E no patamar vou encontrar-te sorrindo ao puto que subia entre os azulejos que forravam as paredes, mostrando tesouras e rolhas, os objectos torturantes da censura que, logo aprendi, não escolhia idades mas ideias para cortar. E tu, a sorrir por detrás dos óculos, paciente e bondoso, disposto a mostrar como era o mundo aos jovens desse tempo que contigo aprenderam que a palavra não era vã, a ideia não era de somenos. Nesse Diário de Lisboa Juvenil uma geração inteira fez pelo menos essa aprendizagem. Que deu frutos. Alguns povoam hoje outros pomares, bem sei, mas tu construías apenas uma coisa bem grande - a de ter opinião contra o silêncio, a de exercer a liberdade em tempo de prisões, a de tomar a responsabilidade. Lembro-me dos teus textos, dos teus nomes, da prosa ágil, do largo espaço que, com o Augusto da Costa Dias e com o Tossan, abriste, não sem risco, nesse jornal. Lembro-me do teu gosto pela poesia, da conversa ao café, quando disseste que andavas apaixonado pela poesia do Fernando Pessoa. Mais tarde, muito mais tarde, e já no exílio, da crítica de televisão, uma voz a convidar o leitor a que pensasse com independência em frente ao pequeno ecrã. E, apesar de hoje e com justiça, te chamarem crítico de televisão - afinal o primeiro, a referência em relação à qual os outros todos, bem ou mal, achavam lugar e voz - sabemos de ti muito mais. O pedagogo, o poeta, o crítico, o jornalista, o escritor. E, finalmente, talvez primeiro que tudo: o camarada e o amigo que só não perdemos porque persistes nas nossas memórias e nos nossos corações.
Mário Castrim (pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca) nasceu em Ílhavo, em 1920, e morreu em Lisboa, em Outubro de 2002.
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Professor, escritor e jornalista, fez crítica de televisão diária, desde 1965, no Diário de Lisboa. Depois do encerramento deste jornal, em 1990, passou a assinar a crítica de televisão no semanário Tal & Qual.
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Em 1963 criou, com Augusto da Costa Dias, o Diário de Lisboa – Juvenil, que sempre considerou a sua obra mais importante. Escreveu no jornal Avante! e, nos últimos dez anos da sua vida, trabalhou na revista Audácia, dos Missionários Combonianos. Dos textos dessa revista saíram três volumes para crianças, intitulados "O Lugar do Televisor".
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Escreveu ainda livros infantis e juvenis: "Histórias com Juízo", "Estas são as Letras", "As Mil e Uma Noites", "A Moeda do Sol", a série "As aventuras da girafa Gira Gira", "O Cavalo do Lenço Amarelo é Perigoso", "A Caminho de Fátima", "O Caso da Rua Jaú" e "Váril, o Herói"; peças de teatro: "Com os Fantasmas não se Brinca" e "Contar e Cardar". É também autor das obras "Televisão e Censura", "Histórias da Televisão Portuguesa" e de dois livros de poesia: "Nome de Flor" e "Viagens".
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Está representado em diversas antologias, nomeadamente, "Um Homem na Cidade", de 1968, que reuniu crónicas de dez jornalistas do Diário de Lisboa.
Apresentação do III volume no dia em que o autor faria 83 anos
Foi mais do que uma apresentação de um livro. Foi a homenagem ao seu autor que, neste dia 31 de Julho de 2003 completaria 83 anos. A sua ausência emocionou editores, leitores e amigos. Um deles, Mário Zambujal, declarou, mal pôde, que se tornava embaraçoso apresentar um livro de um “amigo íntimo” quando ele já não está entre nós. Arlindo Pinto que, recordou, recebeu a notícia do seu falecimento em Nampula, onde actualmente é missionário, não escondeu as emoções incontornáveis do momento.
Trata-se do Terceiro Volume de “O lugar do Televisor”. São crónicas, escritas a pensar na juventude, pelo autor que fundou o “DL Juvenil” (Diário de Lisboa Juvenil). Eram aliás desses tempos muitos dos amigos que se reuniram no auditório dos missionários combonianos para recordar “o amigo”.
“A todos tratava por amigos”. A garantia é do Pe. Arlindo Pinto. Foi, aliás, nos tempos em que ele era director da Audácia e da Além-Mar que Mário Castrim começou a publicar as crónicas, agora editadas em livro (já lá vão três volumes). E se a decisão de o fazer “colaborador” da revista Audácia foi clara e rápida (bastou um encontro com o autor), já a sua aceitação não foi tão pacífica: o Pe. Arlindo lembrou comentários que lhe fizeram confrades e amigos, que viam apenas o crítico de tudo e todos.
Os textos publicados desde Setembro de 1993, todos os meses na Revista Audácia, demonstram, no entanto, que Mário Castrim sabe estar atento também à vida dos homens e mulheres, apontando valores necessários à educação das novas gerações. Prova disso é outro livro de Mário Castrim que, adiantou o actual director das revistas dos missionários combonianos, Pe. José Rebelo, era para ser publicado também neste dia. São comentários aos salmos da Bíblia, elaborados pelo mesmo autor de muitas críticas a quem aparecia na televisão.
Mário Zambujal tem dúvidas se é o escritor ou o jornalista que escreve estas crónicas. Garantiu, no entanto, que Mário Castrim agrupa a beleza e a nobreza do trato com a língua portuguesa, qual grande escritor, com a atenção ao realismo da vida, próprio dos grandes repórteres.
“O lugar do televisor - III Volume” revela “o talento e a ternura de um contador da vida” – escreve Mário Zambujal na apresentação – que todos os amigos presentes faziam questão de afirmar, seja durante a sessão formal de apresentação do livro, seja durante o convívio informal que se lhe seguiu. Por parte dos missionários combonianos, palavras de muito reconhecimento ao Mário Castrim, que escreveu e “ainda não fez contas”. Disse, após as primeiras crónicas escritas ao director da altura: “eu vou escrevendo; vocês publicam, se assim o entenderam. Depois veremos quem deve a quem”.
A homenagem estendeu-se à família, que estava presente. Com filhos e netos, Alice Vieira, sua mulher, agradeceu. Agradeceu também o apoio que os missionários combonianos lhe continuam a prestar.
Agora, é ela a colaboradora mensal da Audácia.
Nacional | Paulo Rocha | 2003-07-31 | 23:05:00 | 2932 Caracteres | Combonianos
«Se tenho mãos injustas. /Se traí meu amigo. /Se o opressor poupei /pagarei com a vida. /Mas julgai-me segundo o meu direito /segundo a inocência que possuo.». Assim, puro e cristalino, Mário Castrim desvelava-se no seu barro humano, na sua forma de vida.
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Na madrugada de 15 Outubro de 2002, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, sucumbia a uma pneumonia. Tinha 82 anos e todos o conhecíamos por Mário Castrim, porém pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca. Partia, deixava-nos a saudade e uma imensa obra manuscrita. Lançando mãos a esse espólio, a Campo das Letras editou «Do livro dos Salmos»: são 150 poemas inéditos de Mário Castrim, escritos nos últimos anos de vida, ilustrados com belos desenhos de Rogério Ribeiro, artista plástico que nos deixou recentemente, pelo que este texto é uma homenagem aos dois grandes nomes que contribuíram para o enriquecimento da cultura portuguesa.
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Todos o conhecíamos pela sua dedicação enquanto escritor, jornalista e crítico televisivo. Também foi manifesta a sua preocupação pelas novas gerações. «Na boca das crianças /está a nossa fortaleza», escreve nestes salmos. Para o público jovem criou a revista Audácia, onde se ensinavam valores e atitudes de vida, editou livros infantis, fundou o suplemento «Diário de Lisboa Juvenil». . Com «particular significado literário e religioso», segundo a escritora Alice Vieira, viúva de Mário Castrim, este «O Livro dos Salmos» foi escrito quando Castrim colaborava nas revistas «Além-Mar e Audácia» dos Missionários Colombianos, e «é-lhes dedicado.». Assumidamente ateu, Castrim revela nestes salmos um compromisso religioso que se prende com a condição existencial – revelando os enredos, os becos e as escolhas que fez na vida – e a procura do aperfeiçoamento espiritual: . «Os bons de coração estão faltando /entre os filhos dos homens. /Sobra a mentira, o engano, a dupla palavra. /E os humildes que sofrem? /E os gemidos dos pobres? /Eis nos levantaremos. /Prata fina sete vezes depurada.»;
. «Por minha perfeição vou caminhando. /Põe-me à prova, se queres. /Aqui estão os meus rins, meu coração. /Não estou com os homens falsos /com os que têm as mãos sujas /de infâmia e de suborno. /Sigam eles assim. Sigam, perversos. /Sigam. Pois eu /por minha perfeição vou caminhando.» .
Outros poemas: .
A erva secou no telhado.
Não dá pão.
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As minhas costas estão em carne viva.
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Encham agricultores
o celeiro!
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Calquei as minhas culpas, meus pecados.
Fugi para o silêncio. E entretanto
de mim, calado, o pranto todo o dia
jorrava, e este corpo esmorecia
ossos roídos de suor e febre.
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– Não sejas – me disseste –
como aqueles cavalos dominados
somente pelo freio e pela mordaça:
eles só se aproximam, se confiam.
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Entendi. Este canto bem o mostra.
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***
Prometo que só ficarei atento
os séculos que forem necessários.
Atento nas promessas
que fazem os amigos
atento na justiça
com a paz na pista dos seus passos.
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Vejam só que de frutos se enche a Terra!
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Porque és eterno é que criaste o dia.
Porque és eterno é que me criaste a mim.
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DoLivro dosSalmos, Mário Castrim; Editorial Campo das letras, Porto, 2007
"Só gosto da minha vida a partir dos 20 e tal anos"
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Público - 16.12.2009 - 16:22 Por Rita Pimenta
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Começou no jornalismo e entrou pela literatura. Primeiro para crianças e jovens, depois para os outros. Poesia incluída. Diz-se "amigodependente", recebe e faz chamadas às três da manhã. Já foi menos católica, pensa por frases e fala sozinha na rua. Não entra em cemitérios e tem poucas memórias de infância. Hoje vai a uma festa temática: 30 Anos de Livros
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Enric Vives-Rubio
Alice Vieira
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Há 30 anos que escreve livros. Mas foi há mais tempo que Alice Vieira enviou o primeiro texto para um jornal. Não o publicaram. Tinha 14 anos e recebeu uma carta do "Diário de Lisboa" a pedir que não desistisse. Assinatura: Mário Castrim. Tentou uma e outra vez e viu muitos textos serem impressos. Casou com ele, o remetente.
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Uma paixão de 40 anos. "Mas paixão mesmo", diz Alice quando fala do jornalista e escritor. Tinham 23 anos de diferença de idades e só se conheceram "ao vivo" depois de muitos telefonemas e cartas, quando a escritora foi trabalhar, como jornalista, para o "Diário de Lisboa". Pouco depois, iria para o Diário Popular. "As pessoas, quando têm um relacionamento, não devem trabalhar no mesmo sítio. Seja marido e mulher, pai e filho. Por isso, atravessei a rua e fui para o Diário Popular." Seguiu-se o Record e o Diário de Notícias.
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Castrim foi a pessoa mais importante da sua vida. Toda a gente a desaconselhou a viver com ele, pela diferença de idades e pelos problemas de saúde que lhe adivinhavam. "Vais ser a enfermeira toda a vida", diziam-lhe. "Afinal", conta, "quando tive o "cancro da praxe" e fui operada, ele é que foi o meu enfermeiro. A quimioterapia custou-me muito. Há 20 anos, os produtos eram mais agressivos e eu vomitava bastante. Ele obrigava-me a ir imediatamente para o jornal trabalhar. Acho que nem estive um mês de baixa. E ainda bem que me obrigou. Se não fosse isso, eu podia ter ido abaixo. Assim, tinha mais que fazer do que estar infeliz."
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E recorda como sempre a estimulou a escrever, nunca deixando de ser muito crítico. "Não tenho dúvida de que aquilo que sou, aquilo que faço, aquilo que escrevo, foi muito obra dele. Sinto, no entanto, algum remorso por ele se ter afastado da escrita por minha causa. Para eu poder fazer a vida que fiz, ele não publicou tanto como devia. Escrever escrevia (tenho muitos inéditos), mas não publicava."
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E repete várias vezes: "Tive sorte, tive sorte". E ele? "Acho que sim. Ele também teve."
"Não me lembro de mim"
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Alice Vieira, de 66 anos, passou a infância com tias velhas e não gostou. A memória decidiu poupá-la a recordações e não a deixa lembrar-se de quando era criança. "Recordo-me de muito pouca coisa da minha infância. Lembro-me assim de momentos do género: eu estou aqui sentada ao pé de alguém. Mas não me lembro de mim. Acho que é uma defesa."
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No entanto, quando se pergunta se era maltratada, responde: "Não. Eu era super bem tratada. Mas maltratar não é só andar ao estalo às crianças. Eu vivi sempre com pessoas que me diziam (e era verdade) que não eram nem o meu pai nem a minha mãe. E portanto eu não era filha deles e não tinham nada de fazer aquilo que estavam a fazer. Foi sempre um relacionamento um bocado frio, uma coisa entre velhos. Eu só encontrei miúdos da minha idade quando entrei para o liceu. Até aí, nunca tinha tido gente da minha idade ao pé de mim. Roubarem-me essa parte, foi complicado. Isso pode dar cabo de uma pessoa". Não deu.
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Depois de conseguir ter amigos, tornou-se, como diz, numa verdadeira "amigodependente". E alguns até a fizeram ser de novo mais católica. Porque são padres, poetas ou missionários. "É impossível não se ficar tocado por estas pessoas." Pode telefonar a um amigo "às três da manhã". Mas também os atende a todos e a qualquer hora. Eles sabem que os acompanha até ao fim. Só não entra no cemitério. "Eu tinha uma tia muito mórbida. Todas as quartas-feiras, íamos para o Alto de São João limpar as campas. E logo ela, que era má para as pessoas e lhes fazia a vida negra. Depois de mortos é que eram bons." Esta é das suas poucas memórias claras de infância. "Isso [o passado] serviu-me para ser a pessoa que sou hoje, para ser profundamente optimista, acreditar que as coisas se resolvem desde que queiramos. Não podemos estar à espera que as soluções caiam do céu, do céu só cai a chuva. Mas só gosto da minha vida a partir dos vinte e tal anos."
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Depois do curso tirado, Germânicas, como se designava na altura a actual licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Inglês e Alemão, a escolha de ser jornalista não foi lá muito bem vista pela família. "Quando acabei o curso, já era maior e vacinada. Jurei e cumpri que fazia a faculdade. Tinham de aceitar a minha escolha, mas nunca foi profissão de que gostassem muito. Nós ainda hoje rimos porque, quando se falava das sobrinhas, as tias diziam: a fulana é médica, a outra é advogada e a Alice, essa, lá anda na vida que ela escolheu... Parecia que eu era uma perdida", diz, no meio de uma gargalhada.
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Mas o jornalismo era, desde cedo, uma paixão, não o escolheu para contrariar as tias. "Ver as coisas publicadas, com o nome cá em baixo. Eu assinava Alice Vassalo Pereira. E, depois, o cheiro do chumbo conquistou-me definitivamente." Até hoje. Continua a escrever crónicas para o Jornal de Notícias e para as revistas Activa, Audácia e Tempo Livre. "E ainda adoro fazer entrevistas."
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Os livros vieram mais tarde, em resultado do prémio da Gulbenkian, em 1979, de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança pela obra Rosa, Minha Irmã Rosa. Na altura, ganhou 75 contos (375 euros) e levou os filhos a Atenas: Catarina, hoje com 40 anos, e André, com 39.
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"Às vezes, penso: eu comecei a escrever tarde, podia ter começado mais cedo. Mas depois penso que não. Se eu tivesse começado antes... mas eu não sou nada a favor de quem começa muito cedo. As pessoas têm de viver um bocadinho, têm de crescer. Quando digo que podia ter começado uns anos antes, se calhar não podia. Ou tinha começado pior, não sei."
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Em 30 anos, já publicou mais de 70 livros, vendeu perto de 2 milhões de exemplares e ganhou dez dos mais significativos prémios literários da literatura infantil e juvenil. Foi nomeada este ano para o Astrid Lindgren Memorial Award, um dos mais importantes prémios nesta área, com o valor de 500 mil euros.
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Não escreve por dinheiro, mas gosta de ser paga pelo seu trabalho. Irrita-se que lhe digam que a escrita é um hobby. "Vou a escolas quase todos os dias e durante as horas em que estou lá não estou a desenvolver o meu trabalho de escrita. Estou a trabalhar no horário de outras pessoas. Vou porque gosto, porque vejo satisfação nos olhos dos miúdos e isso é bom. Mas não tenho obrigação de fazer com que os meninos gostem de ler. Noventa por cento das escolas nem sequer compram os meus livros. E pagam as minhas visitas a contragosto. Quando eu quiser dar o meu trabalho, dou, mas sou eu que escolho."
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No entanto, tem muita dificuldade em dizer "não" quando a convidam, mesmo se o pagamento não está previsto. "Agora, felizmente, a Leya trata disso. Gere a minha agenda e eu já não tenho de andar a negociar com as escolas. O ano de 2010 já está completo. A Leya foi o melhor que me aconteceu." Mas não só por isto.
. Romance em Porto Santo
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A escritora divide-se entre quatro editoras (Caminho, Texto, Casa das Letras, Oficina do Livro e Dom Quixote) e o facto de pertencerem todas ao mesmo grupo facilita-lhe a vida. "No outro dia, o patrão da Leya dizia-me: quer trabalhar em mais alguma editora? Diga, que a gente compra. Eu dou-me bem com eles porque sou muito profissional e cumpridora. Eu preciso de prazos. Se não me põem prazos, não faço nada. E trabalho muito mais e até melhor se tiver muitas coisas para fazer ao mesmo tempo. Isso vem do jornalismo. Há uma sobrecarga de trabalho e a gente despacha tudo (jornalismo diário, claro).
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Há autores que me dizem: "Como é que tu podes saber que daqui a uns dias tens um livro pronto? E se não consegues?" Tenho de conseguir. Essa relação de trabalho para mim é boa. Por exemplo, agora sei, mas sei rigorosamente que até dia 16 [hoje], mesmo dia 16, tenho de entregar um romance." Chama-se Meia Hora para Mudar a Minha Vida, "como a cantiga da Adriana Calcanhotto".
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Será mais um romance juvenil com uma rapariga de 16 anos como protagonista. Uma actriz de teatro amador. Passa-se em Lisboa, sempre Lisboa. "Sou muito lisboeta e não gosto de escrever sobre coisas que não conheço. Não dá para chegar a um sítio, estar lá dois dias e escrever uma história. Ou é um romance histórico ou então não consigo. Só tenho um romance juvenil que é metade em Lisboa, metade na zona das Gafanhas, Aveiro, que é donde eu sou: Viagem à Roda do Meu Nome."
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Hoje, depois da festa (e de entregar o livro), ficará mais liberta para pensar num romance de base histórica que lhe anda a passear na cabeça há uns tempos. "Passa-se na ilha de Porto Santo, no séc. XVI. Fui à Madeira e aproveitei para recolher umas informações que faltavam. Em 1533, houve uma heresia, a heresia dos profetas, que pôs a ilha a ferro e fogo. Só no Porto Santo, nem chegou à Madeira. Quando estava a escrever sobre os Açores, sobre uma heroína de Angra do Heroísmo, descobri esta história. Por isso, a palavra "profeta" é um bocado pejorativa na ilha. E não digo mais nada." Não é preciso.
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Alice Vieira tem quatro netos (Adriana, de 14 anos; Diogo, 10; Pedro, nove; Isabel, cinco), muitos amigos, muitos leitores e um namorado. Às 17h, têm encontro marcado no Jardim de Inverno do Teatro de São Luiz, em Lisboa. Porque está de parabéns
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Alice Vieira
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Alice Vieira (Lisboa, 1942) é uma escritora e jornalista portuguesa. Licenciou-se em Filologia Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas dedicou-se desde cedo ao jornalismo, dirigindo os suplementos Juvenil e Catraio no Diário de Notícias. Também trabalhou em vários programas de televisão para crianças e é considerada uma das mais importantes autoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.
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As suas obras foram traduzidas para várias línguas, como o alemão, o búlgaro, o basco, o castelhano, o galego, o francês, o húngaro, o holandês, o russo e o servo-croata. Foi casada com o também jornalista e escritor Mário Castrim.