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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fernanda de Castro - Não Fora o Mar!

* Fernanda de Castro


Não fora o mar, 
e eu seria feliz na minha rua, 
neste primeiro andar da minha casa 
a ver, de dia, o sol, de noite a lua, 
calada, quieta, sem um golpe de asa. 

Não fora o mar, 
e seriam contados os meus passos, 
tantos para viver, para morrer, 
tantos os movimentos dos meus braços, 
pequena angústia, pequeno prazer. 

Não fora o mar, 
e os seus sonhos seriam sem violência 
como irisadas bolas de sabão, 
efémero cristal, branca aparência, 
e o resto — pingos de água em minha mão. 

Não fora o mar, 
e este cruel desejo de aventura 
seria vaga música ao sol pôr 
nem sequer brasa viva, queimadura, 
pouco mais que o perfume duma flor. 

Não fora o mar 
e o longo apelo, o canto da sereia, 
apenas ilusão, miragem, 
breve canção, passo breve na areia, 
desejo balbuciante de viagem. 

Não fora o mar 
e, resignada, em vez de olhar os astros 
tudo o que é alto, inacessível, fundo, 
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros, 
iria de olhos baixos pelo mundo. 

Não fora o mar 
e o meu canto seria flor e mel, 
asa de borboleta, rouxinol, 
e não rude halali, garra cruel, 
Águia Real que desafia o sol. 

Não fora o mar 
e este potro selvagem, sem arção, 
crinas ao vento, com arreio, 
meu altivo, indomável coração, 

Não fora o mar 
e comeria à mão, 
não fora o mar 
e aceitaria o freio. 


Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas" 

OUTROS POEMAS EM http://www.citador.pt/poemas/a/maria-fernanda-teles-de-castro-e-quadros-ferro
http://fernanda-decastro.blogspot.pt/p/poemas.html

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Asa no Espaço - Fernanda de Castro

Assunto: A ESCOLHA...
Data: 2/Fev 15:47
DORMIR É O FIM DE TODOS MEUS TORMENTOS... SIGO PARA LONGE DA VIDA E FUNDO MERGULHO NO ESQUECIMENTO. PODE SER QUE SONHE, QUE EMBARQUE LIGEIRA RUMO A UM JARDIM E SINTA O PERFUME DE CADA FLÔR...QUE ME LEVE UM BARCO Á ILHA PERDIDA, ONDE AMAR É LEI E FONTE DA VIDA...POSSO SER OLHAR DE ÁGUIA ALTANEIRA, VOANDO BEM ALTO SEM O RUMO PERDER...QUE EM MIM SINTA A ALMA DE UMA CRIANÇA E PARA TUDO OLHE PELA PRIMEIRA VEZ...OU AQUELA AMANTE QUE SORRINDO ESPERA O MOMENTO BELO QUE ESTÁ PARA CHEGAR...POSSO SER A BRISA, OU NUVEM, OU MAR,OU CAMPO DE TRIGO,OU FASE DE LUA, OU TODOS OS SONHOS AINDA A SONHAR...SÓ NÃO É POSSÍVEL ESTAR SEMPRE DORMINDO E A VENTURA TERMINA COM O ACORDAR...NEGO A REALIDADE COM TODO O MEU SER...SE O VIVER ME OBRIGA ENQUANTO ACORDADA, A TANTO SOFRER, EU,PORQUE AMO A VIDA, ESCOLHO MORRER...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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ASA NO ESPAÇO
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Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!

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Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.

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Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
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Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
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FERNANDA DE CASTRO 
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Se os Poetas Dessem as Mãos - Fernanda de Castro

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Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.
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Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.
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Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas"
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escuta, creio que gostarás do que aqui te deixo ... :)
beijo para ti Victor
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Flor do Oásis (hii5)
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Alma serena - Fernanda de Castro


ALMA SERENA
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Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.
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Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.
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Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.
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Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.
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FERNANDA DE CASTRO
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From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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terça-feira, 17 de março de 2009

ALEGRIA - Fernanda de Castro

ALEGRIA

De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguino Pereira (hi5)
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UM PÁSSARO A MORRER - Fernanda de Castro

UM PÁSSARO A MORRER

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se já não me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha mão,

sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

FERNANDA DE CASTRO
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nviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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segunda-feira, 16 de março de 2009

SE TUDO QUANTO EXISTE... - Fernanda de Castro

SE TUDO QUANTO EXISTE...

Se tudo quanto existe
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
— que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do inferno?

E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,

que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sábado, 14 de março de 2009

NÃO FORA O MAR! - Fernanda de Castro

NÃO FORA O MAR!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sexta-feira, 13 de março de 2009

ONDE O HOMEM NÃO CHEGA - Fernanda de Castro

ONDE O HOMEM NÃO CHEGA

Onde o Homem não chega tudo é puro,
dessa pureza da primeira infância.
Tudo é medida, ritmo, concordância,
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro.

E nem o vendaval é dissonância
mas promessa de sol e de futuro.
Quem levantou esse primeiro Muro
que do perto fez longe, ergueu distância?

Foi o Homem, com suas mãos de barro,
com suas mãos perjuras, fel e sarro
de inútil sofrimento e vil prazer.

Não é tarde, porém: sacode a lama,
ergue o facho, levanta a Deus a chama
e recomeça: acabas de nascer.

FERNANDA DE CASTRO
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JÁ NÃO VIVI, SÓ PENSO - Fernanda de Castro

JÁ NÃO VIVI, SÓ PENSO

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

FERNANDA DE CASTRO
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Enviada por Moranguinho Pereira (hi5)
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