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quarta-feira, 15 de abril de 2026

José Cid - Tenho a Força de Mil Homens


Foto victor nogueira - Setúbal - Avenida 5 de Outubro, com as buganvílias em flor. (Canon 180_05 2020 05 31 IMG_1505)

"Todo o mundo / há-de ouvir / Todo o mundo / há-de sentir / Tenho a força / de mil homens / para o que há-de vir." "Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos."

Tenho a Força de Mil Homens

Autor: José Cid

Tenho a Força de Mil Homens

Autor: José Cid

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir

 

Tudo o que eu sofri

Tudo o que eu chorei

Ninguém sabe, ninguém viu

Mas eu sei que não errei

 

Vou gritar ao vento

Vou gritar ao mar

Que o amor é um momento

Que não pode acabar

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir

 

Nas noites de solidão

Nas horas de amargura

Eu sinto no coração

Uma força que perdura

 

E quando o sol brilhar

E a paz nos envolver

Nós vamos todos cantar

E o medo vai morrer

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir


Nota: A frase final que referiste anteriormente ("Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos") foi um aditamento pessoal feito pelo próprio José Cid num vídeo viral gravado durante o confinamento de 2020, adaptando a sua música ao contexto da pandemia. Não faz parte da letra original da canção de 1989. Embora a canção seja um clássico da sua carreira, o texto ganhou uma nova vida e um significado emocional profundo durante a pandemia de COVID-19, em 2020. (Google Gemini)

segunda-feira, 11 de março de 2024

A Economia em estado comatoso, o fascismo brando e o PS em fim de linha

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

 

cartoon de João Abel Manta 

O alarme, o medo, o estado de emergência, com a mentira e a manipulação pelo meio, têm sido a estratégia do governo PS/Costa neste segundo mandato para impôr uma segunda vaga de austeridade, agora em dose maciça. Para atingir o objectivo há que amedrontar o povo e os trabalhadores e atirar com a responsabilidade para uma falsa pandemia, por sua vez, amplificada por uma imprensa subserviente, paga por muitos milhões de euros através de contratos de publicidade institucional e que agora, em final de Novembro, serão renovados, para continuar a propagar a mentira e induzir o medo. A declaração de estado de emergência, com o apoio servil da Assembleia da República, cada vez mais secundarizada para o papel de caixa de ressonância do executivo, e sob o alto patrocínio do PR Marcelo, que em segundo mandato irá mostrar os dentes, tal como o faz presentemente o Costa, e a explicitação em reunião extraordinária de ministros das medidas concretas que enformam a situação de suspensão de algumas liberdade e direitos dos cidadãos foram antecedidas, acompanhadas e seguidas por números manipulados e até falsos com um único fito de lançar o pânico e levar à aceitação de uma inevitabilidade, como se a vida de cada português estivesse em causa com uma virose que não mata mais do que qualquer outra patologia de causa infecto-contagiosa já existente em Portugal.

Os números apresentados são para isso mesmo, para aterrorizar, os títulos da imprensa o dizem: “Nunca em Portugal se registaram tantos casos em 24 horas: mais 5.550 infetados, a maioria no Norte (3.006)“ (DN, 06), “Pico de 6500 casos por dia de covid-19 esperado para o fim de Novembro” (JN, 07), “COVID-19: Portugal com novo recorde de óbitos. Mais 63 mortes e 4.096 infetados em 24 horas” (DN, 09), “Portugal ultrapassa as 3 mil mortes, com mais 62 nas últimas 24 horas” (DN,11), contudo a imprensa passa ao de leve ou não fala de todo que se em Março se começou a testar 800 pessoas se passou em Novembro (dia 05) a testar mais de 40 mil por dia, o que prova que a letalidade é pequena (1,7%), mas o medo devido ao matraquear constante dos números fica. Números que afinal até serão falsos, como denunciam os 12 investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em estudo publicado que aponta que os dados do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE) que têm sido fornecidas à comunidade científica, nos últimos meses, sobre os casos de Covid-19, “têm uma qualidade baixa, erros, inconsistências e muita informação em falta”, onde são encontrados “casos de um doente com 134 anos e três homens classificados como 'grávidos', bem como 19 doentes que supostamente teriam tido a doença antes do primeiro caso que se sabe que foi diagnosticado em Portugal”, colocando por terra a fiabilidade de todos os dados. O governo pode mentir uma vez e mais vezes, mas não conseguirá mentir sempre de molde a continuar com a intimidação, os factos são a contraprova da mentira e o povo mais cedo ou mais tarde abrirá os olhos e enviará o PS para o sítio onde já deveria estar, a história do lixo político.

A economia nacional encontra-se em estado comatoso

Por que é que o governo do Costa e do PS se encarniça na mentira e decretou o estado de emergência, não foi para “controlar e reprimir a pandemia” ou “apoiar os profissionais de saúde”, como Costa não se cansa de afirmar? Por uma simples razão, é que a economia nacional se encontra em estado comatoso, se em 2010 eram os bancos que se encontravam à beira da falência, agora são as empresas em geral que vêem os lucros a estagnar, muitas delas estão descapitalizadas e com o mercado a não conseguir consumir o excesso de produção do capitalismo devido à diminuição dos rendimentos dos trabalhadores – uma das contradições do capitalismo. As medidas que irão ser aplicadas daqui para frente, na continuidades das que foram no quadro do primeiro estado de emergência, serão para salvar as grandes empresas, os grandes capitalistas e patrões, não os pequenos e mesmo médios, como diz Costa: “"as medidas... não são alternativas ao layoff, somam-se ao layoff", reforçando que "o layoff continua a existir, quer o geral como a medida de apoio à retoma que substituiu o layoff simplificado", e já foram 1.550 milhões de euros, para além da “bazuca” que já está a caminho, são 750 milhões em subsídios a fundo perdido para as ditas “micro e pequenas empresas” que apresentem uma quebra de facturação de pelo menos 25% nos primeiros nove meses deste ano. Ora, iremos ver muitas empresas a apresentar subfacturação sem necessitar de ajudas e outras já com a corda ao pescoço a falirem inapelavelmente. Costa não acredita que seja possível "impedir a insolvência de todas as empresas" e assim estaria a pensar, já depois do estado de emergência em vigor e com o seu ar de hipócrita crónico, nas medidas mais adequadas, que irão sobretudo para os grandes hoteleiros e cadeias de restauração... um dia destes quem quiser tomar uma refeição pouco mais terá para além de um McDonald's ou de um Burger King e em centros comerciais. O pequeno comércio de rua terá desaparecido por força da prisão domiciliária dos portugueses , e em especial aos fins de semana!

Não será só o pequeno comércio ligado ao turismo, mas serão todas as pequenas e empresas que terão de fechar, no processo pandémica acelerado da concentração do capital, e é entidade insuspeita, agência Moody's, que o revela de forma insofismável: “Portugal é dos países que poderá ter maior destruição económica”. E em função disso, e não só, será um dos países que terá mais dificuldade em sair da crise económica e se alguma vez o conseguir fazer, porque economia dependente e subsidiária dentro da UE, onde faz 70% das suas trocas comerciais. E, mais importante ainda, a dívida pública que irá subir para os 135,1% do PIB, segundo perspectiva da Comissão Europeia, acima dos 134,8% previstos pelo Governo no OE 2021 – uma dívida cada vez mais impagável. E não será apenas Portugal, como todos os países do sul, Grécia e Itália, a que se pode acrescentar Espanha, com a maior quebra do PIB neste momento, devido ao grande número de pequenas empresas e, por essa razão, “de reduzida dimensão, possuem menores alternativas de financiamento e menores horizontes”. Uma perspectiva de uma situação que, segundo o relatório “Perpectivas Mundiais dos Soberanos (estados)”, que se irá estender por 12 a 18 meses. Será ainda mais grave no nosso país porque não há indústria nem o país se poderá reindustrializar no quadro da União Europeia, como a emigração, escape para a mão-de-obra excedentária, se encontra bloqueada na justa medida em que os países mais ricos e industriais, Alemanha e França, ou tradicionais destinos da emigração portuguesa, se encontram igualmente em crise (o Reino Unido já não faz parte da UE) e as suas necessidades de mão-de-obra barata e dócil já foram supridas pela imigração de refugiados.

Daqui para a frente será mais desemprego e mais miséria sem que o sistema económico consiga dar solução, já que a reorganização e possível recuperação do capitalismo será sempre com menos mão-de-obra e salários mais baixos, a robotização anunciada, tal como a introdução da máquina a vapor nos primórdios do capitalismo, será feita com mais desemprego (espera-se que um robot faça o trabalho de pelo menos três trabalhadores) e miséria para os trabalhadores, agora para todos e não apenas para os operários, daí a proletarização da pequena-burguesia que vai dando terreno para o medrar dos populismos e da extrema-direita. E os números não metem: a diferença do rendimento médio bruto por agregado entre aquele com maior rendimento (IRS) e o com menor rendimento era, em 2011, de 171 vezes, em 2015 de 174 vezes e, em 2018, era já de 182 vezes; no 4º trimestre de 2019 havia 522.300 desempregados, no 3º trimestre de 2020 são já 655.100, sendo o desemprego é a causa mais importante da pobreza no país; antes da pandemia, 47,5% dos desempregados estavam no limiar da pobreza e a maioria dos desempregados não recebe o subsídio de desemprego porque a lei os exclui; no fim do 3º trimestre de 2020, o teletrabalho já abrangia 681.900 trabalhadores, segundo o INE, e a partir da imposição do segundo estado de emergência com a sua obrigatoriedade, irá disparar, o que significa menos rendimentos para os trabalhadores e mais lucros para os patrões. A pandemia traz mais pobreza e miséria enquanto permite aos ricos ficarem cada vez mais ricos.

A pandemia do medo como distracção

A pandemia do medo tem outra finalidade, além do resultado de justificar a miséria, o de distrair os trabalhadores e o povo de assuntos que neste momento são questões de primordial importância para a sobrevivência de quem trabalha e produz, como é a discussão e aprovação do Orçamento de Estado para 2021. Em artigo anterior já denunciáramos o facto da disputa entre as diversas cliques da classe dominante e outras clientelas dependentes dos dinheiros públicos era o pote não ser suficiente, para mais em tempo de vacas magras, e não é que, sem surpresa para nós, que o incontornável advogado dos negócios e ministro da Economia veio desabafar para a opinião pública que “Ninguém está satisfeito; à mesa do Orçamento, todos acham que é insuficiente aquilo que lhes toca". O homem, para além de verberar que “todos acham que é insuficiente aquilo que lhes toca”, deixa claro que “o Governo tem de gerir aquilo que tem” e será neste cuidado que o governo e o ministro não deixarão de dar às grandes empresas, onde se inclui a banca, o maior quinhão, abrangendo todos aqueles que à mama da pandemia vão enchendo os bolsos: 496 milhões de euros para testes, equipamentos e outros serviços.

Perante a pressão dos lóbis, foi dado como garantido pela ministra da Saúde, e já orçamentado, mais 35 milhões de euros para os hospitais privados pela ocupação de umas, por enquanto, largas centenas de camas para doentes não só covid-19, como para de outras patologias, tendo ordenado o fecho, alegando caso de necessidade, dos serviços do SNS no atendimento dos casos não covid-19, o que irá engrossar as listas já de si enormes para cirurgias, consultas, exames complementares de diagnóstico e outros cuidados de saúde, incluindo os de enfermagem. Não deixa de ser curioso assistir ao perorar de um Marques Mendes, o conhecido recadeiro de Marcelo, na televisão do sócio nº1 do PSD, contra as dificuldade do SNS, já que o homenzinho é responsável máximo de um dos mais importantes grupos económicos privados da saúde, a Lenitudes! No entanto, os cuidados prestados no privado não serão de qualidade e haverá sempre o risco de o sector também estourar como o público, porque a maior parte dos enfermeiros e médicos que ali trabalham ser constituída por funcionários públicos que acumulam os dois lados. É todo o SNS que está a ser degradado e sem haver uma resposta de qualidade e à altura por parte do sector privado ou social, estando aí outros casos a comprová-lo: "desde 29 de outubro foram detetados 64 casos de legionella no norte do país", com 6 mortes, não se conhecendo exactamente qual a fonte do contágio. Outros casos surgirão, o concentrar de meios no pretenso combate à pandemia irá fazer com que outras patologias atinjam números que não existiam até agora, estando aí o número de mortes a mais para o atestar.

A pandemia como meio para endurecer as medidas de controlo e de repressão dos trabalhadores

A pandemia é, a par do espantalho do terrorismo, um bom pretexto para endurecer as medidas de controlo e de repressão dos trabalhadores e do cidadão em geral, é com o recolher obrigatório, ainda circunscrito a 121 concelhos em Portugal, mas que facilmente se prevê que será estendido a todo o território continental, visto que o número de infectados aumentará em proporção ao número de testes diários e de mortes, que poderão atingir as 100 por dia, e não será preciso ser matemático para ver isto, já que não se está a proteger os grupos mais vulneráveis, idosos e doentes crónicos que agora vêm as portas do SNS a fechar, e se testa inclusivamente os mortos suspeitos de terem tido contacto com alguém com teste positivo apesar de não sintomático, chegando-se ao cúmulo de se considerar “paciente assintomático” as pessoas saudáveis.

Mais liberdades, direitos e garantias reprimidas pelo governo a nível interno e mais limitação de entrada de imigrantes é a política que vai prevalecer em todos os estados da UE, e as medidas estão aí a começar por alguns países: o presidente francês Macron anunciou reforço de patrulhas fronteiriças e quer reforma de Schengen e o chefe da diplomacia italiana, Luigi Di Maio, propôs um `Patriot Act` europeu, semelhante à lei antiterrorista nos EUA. Qualquer indivíduo pode ser detido por tempo indeterminado desde que acusado de “terrorismo”, sabendo nós que estes grupos de mercenários foram criados pelos países do Ocidente para fazerem o trabalho sujo das suas forças armadas, como ficou bem provado na Síria. Como se acaba com a democracia, sob pretexto de se querer defender a vida dos cidadãos a nível da saúde e da segurança física! Costa já o afirmou, o estado de emergência poderá ir até ao fim da pandemia, e a Ordem dos Médicos concorda com o estado de emergência. Os portugueses ficarão em prisão domiciliária até quando calhar!

A par da repressão pelo cacete, a repressão sobre aqueles que pensam diferente, independentemente de ser por boas ou más razões, há muito, ainda antes da pandemia, se faz sentir: são os facebook ou twitter que fazem censura sobre as opiniões politicamente incorrectas, estejam mais à esquerda ou mais à direita, ou os artigos de opinião pagos a milhares de euros para descredibilizar quem contesta os dados e o discurso apresentados pelo governo, taxando de nagacionistas e de ignorantes e de outros impropérios mais violentos os que desalinham, ou são as televisões do império que cortam a palavra ao candidato que se pretende derrotado. O dito quarto poder cada vez com mais força para controlar a mente e o comportamento dos cidadãos. São as televisões que anunciam oficialmente o candidato vitorioso, ainda antes da instituição do estado que tem essa missão, são as televisões que vendem um candidato Marcelo que ganha sem precisar de fazer campanha no tempo próprio, são as televisões que lançam o impedimento de presidentes democraticamente eleitos quando deixam de ser convenientes para o sistema, são as televisões que amplificam os números deturpados da DGS, são as televisões de difundam o medo e criam o alarmismo, são as televisões que promovem a bufaria, sendo frequente ver pessoas na rua a olhar desconfiadas para outras que não usam a máscara, ou a telefonar para a polícia porque há um grupo de jovens em alegre farra em casa ou em bar já fora de horas. As televisões, nas mãos de grandes grupos económicos financiados com dinheiros públicos ou públicas dirigidas por ex-deputados e dirigentes do partido da oposição são os olhos do Big Brother. Em Dezembro irão receber outros 15 milhões de euros.

A democracia parlamentar burguesa está suspensa e dará lugar ao fascismo brando

É toda uma política económica de impôr a austeridade sobre os trabalhadores, uma política de repressão e de silenciamento, atentatória dos mais elementares direitos individuais, sobre o povo em geral, políticas impostas por um governo, cingindo-nos agora ao nosso país, por um governo que se diz de esquerda e que fará com que o próximo governo seja um governo aberta e formalmente de direita, aproveitando demagogicamente de uma política que facilmente terá sido identificada de “esquerda”, na medida em que foi aplicada por um governo também dito de “esquerda” e apoiado por toda a esquerda bem comportada do regime, pese toda a desculpabilização pela pandemia. Ninguém se admire que este governo PS/Costa não chegue ao fim de mandato por diversas razões, porque a mentira não dura sempre e Costa será escorraçado pela falsidade e pelo agravamento inaudito das condições de vida do povo português e porque Marcelo já em segundo mandato fará a este governo bem pior que o seu antecessor fez ao governo Sócrates/PS e não descansará de pôr na governação o seu partido e mais uns acrescentos. A democracia parlamentar burguesa está suspensa, dará lugar ao fascismo brando, porque o capitalismo se encontra falido.

Os resultados das eleições para a Assembleia Regional dos Açores marcam o princípio do fim de linha do PS,

porque já deixaram indício do que poderá acontecer no Continente, quando a miséria aqui igualar a miséria no arquipélago, esta agora ainda a vários pontos acima no que concerne a privação material severa, beneficiários do RSI e taxa de desemprego, será uma geringonça de direita, com o ainda principal partido da burguesia nacional a aliar-se com a extrema-direita; extrema-direita essa que apenas teve o trabalho de se mostrar porque sempre esteve lá dentro, desde que o PPD foi fundado. E ninguém se admire com a participação do partido de extrema-direita no governo, que irá sendo entretanto normalizado, quer pelo PR Marcelo quer por toda a imprensa de referência, com o seu dirigente-comentador-desportivo-televisivo a sobraçar alguma pasta mais importante, género Administração Interna ou Defesa. Se isto vier a acontecer, a exemplo do que está a suceder por essa Europa fora, devemos agradecer a um PS, com a sua política de direita a destruir a sua base de apoio, e aos partidos de dita “esquerda”, BE, ansioso em ir para o governo, e PCP, com as suas oportunistas abstenções e votos contras a pensar no próximo acto eleitoral, aplanaram o caminho para o fascismo - como já aconteceu no passado. De nada valerão as lágrimas de crocodilo dos falsos democratas nem os abaixo-assinados-cordões-sanitários... porque é da sobrevivência do capitalismo, e da burguesia, que se trata.

À medida que os campos se extremam, a luta de classes se intensifica, a revolução comunista surge como iminente e necessária.

Postado por O BÁRBARO às 10:42 
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2020/11/a-economia-em-estado-comatoso-o.html? 

sábado, 18 de dezembro de 2021

José Gameiro - Natal sem pandemia

DIÁRIO DE
UM PSIQUIATRA

 José Gameiro 


Apesar de há um ano a maior parte das famílias se ter reunido, decidimos ficar sozinhos

“Se calhar o que eu lhe vou dizer vai chocá-lo. Não me leve a mal, isto é apenas um desabafo e um pedido de absolvição.” Pensei, será que ao fim de tantos anos desta profissão já me olham como se fosse um padre? Reconheço que alguns que são bem mais eficazes do que nós. Compreendem, fazem pensar, discutem alternativas e absolvem, ou pelo menos as pessoas sentem-se menos culpadas depois de conversarem. Não precisei de a esclarecer, era obviamente uma metáfora.

— Confesso, desculpe retiro o confesso, mas não consigo encontrar outra palavra. Os Natais para mim nunca foram grande coisa. Na infância eram bons, a excitação dos presentes, a família toda reunida, a noite em quase não se dormia. Depois vieram as confusões. Mãe para um lado, pai para outro. Lembro-me perfeitamente de pensar que não queria crescer, depois claro que compreendi, mas dizia aos meus pais que mais valia terem estado quietos, porque é que casaram? Mas pela boca morre o peixe e casei-me. Não me venho queixar do meu marido, mas quando o conheci vinha com brindes. Sabe o que é?

Acenei com a cabeça e um sorriso, mas não lhe disse que atualmente uma parte significativa do trabalho com famílias e casais tem a ver com “os meus, os teus e os nossos” e as confusões inerentes a estas dinâmicas.

— Nem sempre foi fácil a relação com as minhas enteadas, ainda por cima sempre viveram mais connosco do que a mãe e o padrasto. Mas quando começou a pandemia a situação inverteu-se. A mãe vive fora da cidade, numa casa grande, cheia de espaço, foi mais fácil estarem lá e terem aulas virtuais. Ficámos os dois sozinhos, nunca tivemos filhos e não estou arrependida, pelo que vejo à minha volta, só dão chatices. Essa coisa do instinto maternal é uma grande treta.

Penso que a senhora não se apercebeu, mas qualquer coisa me incomodou na frase dela, apesar de nunca se falar do instinto paternal. Já é tempo de os homens terem algum instinto, além do sexual...

— Mas onde é quero chegar é ao Natal. Nunca consegui convencer o meu marido a irmos embora, só os dois para qualquer lado quentinho. Já não tenho pais, ele também não, mas sempre me disse que não conseguia estar sem as filhas. Eu até posso perceber, mas sempre foi uma grande seca. Ir levar as meninas, ir buscar as meninas, fazer centenas de quilómetros em dois dias, só para comemorar um dia do ano... Não lhe sei explicar, mas nunca consegui ter uma ligação forte com as minhas enteadas. Deve ser a falta de laços biológicos, vocês é que sabem explicar.

Não respondi a esta afirmação/pergunta, mas sei que nem sempre é assim, algumas destas famílias até criam laços fortes, mas não podem ter o progenitor que está do outro lado a dificultar-lhes a vida.

— Com a pandemia, e apesar de no último Natal a maior parte das famílias se ter reunido, decidimos que era mais prudente ficarmos sozinhos. Ajudou muito o ter feito uma surpresa. Um dos poucos países que continuava aberto era o México. Uns dias de sonho, uma verdadeira lua de mel, só os dois. O meu maior desejo era que voltasse a haver confinamento. Não desejo mal a ninguém, mas foi tão bom.

Estava na altura de voltar a falar na absolvição.

— O meu papel não é culpar as pessoas, bem basta a culpa que carregam, tantas vezes injusta. Penso que é mais tentar compatibilizar os seus desejos com a realidade, com o menor sofrimento possível.

Enganei-me na “deixa” que lhe dei.

— Bem me parecia que me iria ajudar. Qual é a sugestão que me faz para ter uma boa desculpa para convencer o meu marido a ir para o calor?

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2564/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/natal-sem-pandemia

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Florbela Sebastião e Silva - Sobre a ditadura sanitária


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Florbela Sebastião e Silva [*]

APOCALIPSE I (28 de Julho de 2021)  (palavra grega para REVELAÇÃO)

Tenho vindo a assistir a um atropelo, sem paralelo, neste País, quer da Constituição da República Portuguesa, que ainda está em vigor, quer dos direitos humanos absolutamente fundamentais para qualquer sociedade que se preze poder progredir e desenvolver toda a sua plenitude, quer a nível intelectual, quer a nível físico e moral.

Já não bastava o facto dos direitos fundamentais, as liberdades e as garantias expressamente consagrados na Constituição da República Portuguesa (CRP) terem sido alvo de forte ataque nestes últimos meses, com medidas legislativas que não só violam, em termos da sua estrutura, ou seja, em termos orgânicos, a CRP, porque o Governo não pode através de uma Resolução de Conselho de Ministros, nem mesmo através de um Decreto-Lei produzir normas que limitam, suspendem ou eliminam os direitos, liberdades e garantias, como violam materialmente a CRP, ou seja, violam o seu coração e razão de ser ao incidir directamente sobre normas que, nem mesmo em sede de um Estado de Emergência, alguma vez poderiam ser atacadas.

Refiro-me, por exemplo, ao disposto no artº 13º nº 1 subordinado ao princípio da igualdade que diz claramente que:
"Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei."

Refiro-me, ainda, ao disposto no artº 16º da CRP que dispõe que:
"Os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem."

Declaração essa que diz, no seu Artº 7º que:
"Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação."

Ou ainda no disposto no artº 24º da CRP que expressamente determina que:
"A vida humana é inviolável."

Ou no disposto no artº 25º da CRP que diz que:
"A integridade moral e física das pessoas é inviolável."

E, por fim, no artº 26º da CRP que determina, entre outras coisas, que:
"A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação."

Eis senão quando, após uma reunião – que ao que tudo indica não está documentada em acta e foi realizada à porta fechada – com a Infarmed, anunciam-se ainda mais limitações aos já muito debilitados direitos dos cidadãos.

Pasme-se, por uma entidade que, no seu próprio site, define o seu raio de actuação da seguinte maneira:
"O Infarmed é a autoridade competente do Ministério da Saúde, com atribuições nos domínios da avaliação, autorização, disciplina, inspecção e controlo de produção, distribuição, comercialização e utilização de medicamentos de uso humano, incluindo os medicamentos à base de plantas e homeopáticos, e de produtos de saúde (que incluem produtos cosméticos e de higiene corporal, dispositivos médicos e dispositivos médicos para diagnóstico in vitro) em Portugal."

Eu pergunto com que legitimidade a Infarmed pode aconselhar, sugerir ou até mesmo sussurrar aos nossos governantes que quem não tiver o certificado sanitário, que obriga à toma de duas doses da vacina covid, não poderá ir a um supermercado comprar comida para a sua própria sobrevivência e a dos seus filhos?

Desde quando é que uma doença – ainda que contagiosa – pode impedir o acesso das pessoas a bens essenciais?

E desde quando é que o Infarmed tem o direito de vaticinar o que as pessoas podem e não podem fazer?

Já o disse e volto a dizer, em termos legais, quer na nossa legislação, quer na internacional, a administração de uma vacina é um acto médico que tem de ser consentido, sendo que todas as pessoas têm o inalienável direito de decidir – especialmente quando o que está em causa é uma "vacina" experimental que provoca alterações genéticas e que ainda não se mostra testada em toda a sua plenitude – se querem ou não ser vacinadas.

Há, inclusive, uma Resolução, com nº 2383, do Parlamento do Conselho da Europa que diz expressamente, nomeadamente nos nºs 4, 6, 10 e 13.3.8, que as vacinas covid não podem tornar-se obrigatórias.

No entanto, as Resoluções do Conselho de Ministros que, fora de qualquer Estado de Emergência, e sem passar pelo Parlamento Português, sendo elaboradas apenas no seio dos Ministros do Governo, têm implementado, medidas altamente restritivas dos direitos mais básicos dos portugueses que não pretendem ser vacinados.

E agora, do que já vem sendo anunciado na comunicação social – também paga principescamente pelo erário público – prevêem-se ainda mais restrições, nomeadamente a impossibilidade de uma pessoa comprar comida e bens essenciais, estando o seu acesso a um supermercado condicionado a um passaporte sanitário que não passa de um certificado do apartheid.

Tudo para OBRIGAR o que por força da lei, de tratados internacionais e da legislação da humanidade não pode ser obrigado.

Ou seja, com as medidas já em vigor e as que se preveem ser aprovadas por instrumentos jurídicos fora de qualquer legitimidade constitucional, os nossos governantes pretendem que entre pela janela aquilo que não pôde entrar pela porta.

E não se venha com a defesa da saúde pública, que ainda ninguém no nosso Parlamento definiu até hoje qual seja em cada momento, e que jamais foi alvo de verdadeiro debate democrático, não sendo, seguramente, o Infarmed a entidade própria para, à porta fechada e sem actas, determinar o que é benéfico para a saúde pública dos portugueses.

Então o Infarmed, que não aprova medicamentos perfeitamente inócuos para a saúde, que às vezes estão anos a ser alvo de testes e experiências, e perante uma "vacina" experimental, que não tem autorização definitiva, cujos efeitos secundários só agora se começam a verificar quão graves e potencialmente mortais são, entende que a mesma deve ser imposta – sob pena de ninguém poder comer neste País – em especial a crianças?

Quando a própria OMS – lembrem-se que foi ela quem declarou a pandemia – afirma que não se justifica a administração a jovens com menos de 18 anos por não serem um grupo de risco e não estarem estudados de forma eficaz os respectivos resultados.

Vão-se vacinar crianças e jovens perfeitamente saudáveis por causa de uma gripe quando dos próprios dados da DGS as mortes registadas – e vou fazer de conta que não sei que são apenas os 152 óbitos que a DGS comunicou ao Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa no âmbito do processo nº 525/21.4BELSB , que correu termos no Juízo Comum, e cujo número aqui cito porque parece que há pessoas que duvidam que este processo judicial seja verdadeiro – ocorreram na sua esmagadora maioria em pessoas acima dos 80 anos, não tendo sido registada qualquer morte infantil?!

Como Juíza de um Tribunal Superior, que aplica diariamente a Lei e deve obediência a ela, desde que essa lei seja conforme com a Constituição da República Portuguesa, não consigo ficar de olhos fechados, até porque me incluo, como sempre o fiz, na população portuguesa que também se sente afectada e lesada com as medidas orwellianas que estão a ser impostas.

Como foi afirmado no Compromisso Ético dos Juízes Portugueses:
"Os juízes, actuando em nome do cidadão, afirmam e fazem respeitar a sua independência e manifestam-na, tanto no exercício das suas funções como fora delas."

Há regras constitucionais específicas que definem a chamada reserva de lei, ou seja, a definição das matérias em relação às quais só a Assembleia da República (AR) pode legislar e decidir, as matérias que estão reservadas ao Governo e ainda aquelas que, sendo da competência da AR podem ser delegadas no Governo mediante lei que autorize e expressamente preveja essa delegação e os seus limites.

Uma Resolução do Conselho de Ministros não é uma Lei, nem um Decreto-Lei.

Por outro lado, mesmo os Decretos-Leis que o Governo pode produzir não podem nunca entrar na reserva dos direitos fundamentais previstos na CRP, porque matéria que se lhe mostra subtraída, por razões óbvias, porque só o conjunto do Parlamento é que pode legislar sobre matérias que visam afectar os cidadãos nos seus direitos mais básicos.

Ora, o direito à vida e à integridade física são direitos invioláveis e com chancela constitucional.

Por isso, obrigar uma pessoa, que, após devidamente informada, não deseja ser vacinada e, mais grave ainda, impedir que essa pessoa se alimente a si e à sua família se não se vacinar, é violar o mais básico dos direitos humanos e é fazê-lo de forma que uma sociedade que se diz democrática e se auto-proclama como Estado de Direito jamais pode consentir.

Podendo eventualmente estar em causa, no seu extremo, a prática de um crime de coacção, previsto e punido no artº 154º do Código Penal Português numa pena que pode ir até 3 anos de prisão.

É talvez importante lembrar que nos termos do artº 9º da CRP uma das funções do Estado é:
"b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático; e
d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais…"

Sendo que, nos termos do artº 22º da nossa CRP:
"O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrem."

Que Deus nos ajude.

"Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa, "para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome.

"Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis." (Apocalipse 13:16-18)

28/Julho/2021

 



APOCALIPSE II (29 de Julho de 2021)

No post de ontem, subordinado ao título "Apocalipse", não fiz menção directa aos testes PCR (e testes rápidos) e à sua imposição para se aceder a certos locais públicos, incluindo – pasme-se – os supermercados que vendem bens de primeira e absoluta necessidade.

Não fiz essa referência para não tornar o texto muito denso e porque me parecia que a questão das vacinas – que têm efeitos muito mais graves e permanentes – era mais premente.

Aproveito agora este novo post para me focar um pouco mais sobre os testes PCR tendo por assente toda a legislação que citei em posts anteriores.

Assim, e simplificando, qualquer teste, seja ele de sangue, de muco, de saliva, de urina, de fezes com o intuito de obter uma "leitura" bio-química do estado físico de uma pessoa é um método de diagnóstico clínico que além de ter de ser consentido – pois implica a invasão do corpo e/ou a extracção de matéria que pode conter material genético – só pode ser praticado por pessoas autorizadas, mormente os médicos.

Ou seja, o acto de diagnosticar uma doença compete ao médico – conforme resulta claramente do Regulamento n.º 698/2019, de 5.9 (regulamento que define os actos próprios dos médicos), publicado em Diário da República.

O que significa que só um médico pode determinar a necessidade ou não de se fazer um diagnóstico com recurso a testes, biopsias, raios-x, TAC's, etc. em face do quadro de SINTOMAS e de QUEIXAS que o doente diante de si apresenta.

Isto, por sua vez, significa que um teste, seja ele qual for, não pode ser imposto por legislação porque não compete ao Estado determinar o que cada pessoa pode e não pode fazer com o seu corpo e a sua integridade física.

E muito menos terá competência para administrar ou sequer exigir um teste PCR, ainda que sejam os "testes rápidos", ou qualquer outro tipo de diagnóstico, um comerciante, um segurança, um polícia, um empregado de mesa, etc. etc. sob pena de incorrerem todos na prática de um crime de usurpação de funções, previsto na al. b) do artº 358º do Código Penal Português punível com pena até 2 anos de prisão.

Significa ainda que, mesmo para um médico determinar a necessidade ou não de se realizar um teste de diagnóstico – seja ele qual for – tem o doente de apresentar alguma sintomatologia que obrigue a que se investigue mais o respectivo quadro clínico.

Assim, uma pessoa que não tem sintomas alguns, e portanto, que não está doente – ser portador de um vírus de entre os milhões de vírus e bactérias que todos nós transportamos diariamente connosco não significa que estamos doentes – não faz qualquer sentido ser testada.

Argumentam os mais preocupados que o facto de uma pessoa não apresentar sintomas não significa que não possa transmitir o vírus à mesma e, nessa medida, ser "perigosa" para a saúde pública.

Bem, esse argumento é válido para a gripe sazonal, para a tuberculose, para a ébola, para a lepra e para toda e qualquer doença socialmente contagiosa e, no entanto, não vejo legislação nem preocupação da parte do Infarmed, nem da DGS, em sujeitar as pessoas a testes diários, como acontece em alguns casos a certas pessoas, ou sempre que querem ir a um restaurante ou supermercado, em virtude daquelas doenças que são seguramente muito mais perigosas para a saúde pública.

E não se venha com o argumento de que no que tange à tuberculose a mesma é tratada à nascença com a administração da vacina BCG, pois é a própria classe médica que afirma, há anos, que a BCG não previne a doença durante a vida, tendo um raio de acção limitado.

Aliás, pergunto porque motivo então se continua a impor o uso de máscara às pessoas sempre que têm de aceder aos espaços públicos fechados? Se a máscara visa impedir a transmissão do vírus então uma pessoa sem sintomas também não vai conseguir contagiar seja quem for.

Voltando à questão dos testes, e sem entrar na questão da sua falta total de eficácia no diagnóstico da doença (dito por especialistas na matéria) dependente do número de ciclos que, até hoje, ninguém da DGS, nem do Infarmed, veio publicamente informar qual seja, a verdade é que um teste rápido, seja de zaragatoa, seja de sangue, efectuado à entrada de um restaurante ou supermercado, além de ofender a integridade física da pessoa e por isso ter de ser consentido, além de implicar a prática de um acto médico de diagnóstico que só pessoal clínico habilitado pode determinar em face de sintomatologia concretamente apresentada, traduz, a meu modesto ver, a violação de todas as regras de saúde pública por implicar a aquisição e exposição de detritos biológicos fora dos locais próprios e fora de qualquer contentor apto a resguardá-los.

Então estão os arautos da saúde pública tão preocupados com a disseminação do Covid e não se preocupam com o facto da doença se poder espalhar através dos detritos das zaragatoas e recolhas de sangue fora de qualquer hospital ou centro de saúde?

Ou pior ainda, espalhar-se uma outra doença não declarada mas potencialmente muito mais perigosa?

E qual o fundamento para impedir uma pessoa de aceder a bens de primeira necessidade, nomeadamente comida, para sobreviver?

Se nem mesmo em plena fase aguda da pandemia, no ano passado, em sede de um Estado de Emergência, as pessoas foram algumas vez impedidas de aceder aos supermercados para comprar comida para si e para os seus filhos, qual o motivo que justifica condicionar agora, de forma a meu ver absolutamente inaceitável, o acesso das pessoas a locais de fornecimento de alimentos, quer sejam os supermercados, quer seja a restauração?

Ou seja, se não morremos da doença, nem da vacina, morremos à fome?

É agora o Continente ou o Pingo Doce que vai fixar um estaminé à entrada para condicionar as pessoas a se auto-testarem ou a serem testadas por quem não tem legitimidade legal democrática para o fazer?

Porque muito bem explicado e porque tem força de decisão judicial, que a todos vincula nos termos do artº 205º nº2 da CRP, deixo aqui citado uma pequena mas importante parte do Acórdão da Relação de Lisboa de 11-11-2020, proferido no procº nº 1783/20.7T8PDL.L1 (acessível em www.dgsi.pt), cuja Relatora é a minha Exmª Colega, Srª Desembargadora Drª Margarida Ramos de Almeida:

"15. Assim, qualquer diagnóstico ou qualquer acto de vigilância sanitária (como é o caso da determinação de existência de infecção viral e de alto risco de exposição, que se mostram abrangidas nestes conceitos) feitos sem observação médica prévia aos requerentes, sem intervenção de médico inscrito na OM (que procedesse à avaliação dos seus sinais e sintomas, bem como dos exames que entendesse adequados à sua condição), viola tal Regulamento, assim como o disposto no artº 97 do Estatuto da Ordem dos Médicos, sendo passível de configurar o crime p. e p. pelo artº 358 al. b) (Usurpação de funções) do C. Penal, se ditado por alguém que não tem tal qualidade, isto é, que não é médico inscrito na Ordem dos Médicos.

Viola igualmente o nº1 do artº 6º da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, que Portugal subscreveu e se mostra interna e externamente obrigado a respeitar, uma vez que se não mostra junto aos autos nenhum documento comprovativo de ter sido prestado o consentimento esclarecido que essa Declaração impõe.

Mostra-se assim claro que a prescrição de métodos auxiliares de diagnóstico (como é o caso dos testes de detecção de infecção viral), bem como o diagnóstico quanto à existência de uma doença, relativamente a toda e qualquer pessoa, é matéria que não pode ser realizada por Lei, Resolução, Decreto, Regulamento ou qualquer outra via normativa, por se tratarem de actos que o nosso ordenamento jurídico reserva à competência exclusiva de um médico, sendo certo que este, no aconselhamento do seu doente, deverá sempre tentar obter o seu consentimento esclarecido. (…)

17. Na verdade, o único elemento que consta nos factos provados, a este respeito, é a realização de testes RT-PCR, sendo que um deles apresentou um resultado positivo em relação a uma das requerentes.

i. Ora, face à actual evidência científica, esse teste mostra-se, só por si, incapaz de determinar, sem margem de dúvida razoável, que tal positividade corresponde, de facto, à infecção de uma pessoa pelo vírus SARS-CoV-2, por várias razões, das quais destacamos duas (a que acresce a questão do gold standard que, pela sua especificidade, nem sequer abordaremos):
Por essa fiabilidade depender do número de ciclos que compõem o teste;
Por essa fiabilidade depender da quantidade de carga viral presente.

ii. Efectivamente, os testes RT-PCR (Reacção em cadeia da polimerase), testes de biologia molecular que detectam o RNA do vírus, comumente utilizados em Portugal para testar e enumerar o número de infectados (após recolha nasofaríngea), são realizados por amplificação de amostras, através de ciclos repetitivos.
Do número de ciclos de tal amplificação, resulta a maior ou menor fiabilidade de tais testes.

iii. E o problema é que essa fiabilidade se mostra, em termos de evidência científica (e neste campo, o julgador terá de se socorrer do saber dos peritos na matéria) mais do que discutível. (…)
«Qualquer teste de diagnóstico deve ser interpretado no contexto da possibilidade efectiva da doença, existente antes da sua realização. Para Covid-19, essa decisão de realização do teste, depende da prévia avaliação da existência de sintomas, história médica anterior de Covid 19 ou presença de anticorpos, qualquer potencial exposição a essa doença e não verosimilhança de outro possível diagnóstico.»"

Que Deus nos ajude.

"We have now sunk to a depth at which the restatement of the obvious is the first duty of intelligent men."
"Afundámo-nos ao ponto em que a declaração do óbvio é a primeira obrigação do homem inteligente."
George Orwell

29/Julho/2021

[*] Juíza Desembargadora do Tribunal da Relação de Lisboa
O original encontra-se em bit.ly/2V5edSN

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/


http://paginaglobal.blogspot.com/2021/07/sobre-ditadura-sanitaria.html

 

domingo, 27 de junho de 2021

Carmen Garcia - O avô é imortal

CRÓNICA

Eu queria levá-los à feira como o meu pai me fazia. Queria dar-lhes um churro cheio de gordura e chocolate e comprar-lhes senhas para que pudessem andar de carrossel até se sentirem tontos.

Carmen Garcia

27 de Junho de 2021, 8:06

"Mas no meio daquela noite tão estranha achei, por alguma razão, que ir comprar as farturas era uma coisa que fazia imenso sentido" NELSON GARRIDO

Em circunstâncias normais, estas palavras estariam a ser escritas ao mesmo tempo que a brisa me impregnava o quarto com o cheiro enjoativo das farturas e que uma voz cheia de efeitos me adentrava a casa enquanto anunciava o preço dos bilhetes para a pista de carrinhos de choque. Mas este é o segundo ano em que as circunstâncias não são normais e em que a cidade que me viu nascer não vê a Feira de São João tomar conta do Rossio.

Cresci com esta feira, sabem? Mesmo antes de viver em Évora, era certo e sabido que o Rossio, em Junho, era local de visita obrigatória. A minha mãe aproveitava para comprar facas de cabo de madeira, daquelas que cortam bem de verdade, e eu delirava com os carrosséis que me pareciam enormes e tão divertidos. O meu pai, que na verdade sempre gostou pouco de ajuntamentos, fazia o frete para nos ver felizes e conseguia-o. E talvez por perceber desde cedo que fazer 50 quilómetros para passear numa feira era uma coisa que ele só fazia porque nos amava, nunca deixei de o associar a estes dias.

Quando o meu pai fez 60 anos, menos de duas semanas após uma cirurgia cardíaca para colocação de uma válvula aórtica mecânica e de um bypass coronário, depois de um episódio de vómito em casa, o coração dele decidiu deixar de bater. E se não sabem o que é angústia, eu digo-vos que angústia é estar do lado de fora de uma sala de emergência depois de o vosso pai ter estado em paragem cardiorrespiratória, saberem que ele está a lutar pela vida lá dentro e não poderem fazer mais do que rezar ao Deus em que o vosso coração quer acreditar, mas que o vosso cérebro teima em gritar alto não existir.

Já era noite quando o meu pai estabilizou e foi levado para o bloco operatório. Apesar da intervenção recente ao coração, o problema estava na vesícula e tinha-se instalado uma inflamação da membrana que envolve a nossa cavidade abdominal. O quadro era grave e a cirurgia tinha tudo para ser complexa, não só pela medicação que tinha iniciado depois da cirurgia cardíaca, mas pelos valores analíticos que, nas palavras de um dos médicos que o assistiu na urgência, eram um autêntico descalabro. A cirurgiã, preocupada, veio falar comigo antes do procedimento e disse-me que o quadro era demasiado complexo e o prognóstico tão reservado que era melhor preparar a minha mãe para o pior e não acalentar grandes esperanças.

Faltou-me o ar. Juro que me faltou o ar. Queria respirar e não conseguia. Queria falar e não encontrava as palavras. Mas lá encontrei uma réstia de força e, depois de atabalhoadamente pedir à médica que fizesse o melhor possível, saí a correr do hospital e sentei-me num passeio escuro perto de um parque de estacionamento. Era dia 18 de Junho. E apesar de ter esquecido tal facto durante quase todo o dia, o cheiro a fritos dominava o ar e a música pimba sobrepunha-se a todos os ruídos. De repente, o ar voltou aos meus pulmões. Levantei-me e comecei a caminhar. Fui à feira.

Passeei pela feira durante as quatro horas que o meu telemóvel demorou a tocar. Mas soube antes de o atender que tinha corrido tudo bem. Não me perguntem como nem porquê e saibam que sou a pessoa menos mística deste mundo. Mas eu soube. E a voz da minha colega, do outro lado, confirmou. “Correu melhor do que o previsto”, disse-me ela. “Eu sei”, respondi.

Se ela achou que eu tinha enlouquecido, teve o mérito de disfarçar bem e, de forma muito profissional, informou-me que o meu pai iria seguir para os cuidados intensivos, mas que, muito provavelmente, seria ainda extubado durante a noite. E eu desliguei o telemóvel, dei mais uma volta pela feira, fui comprar duas farturas cheias de gordura, açúcar e canela como o meu pai costumava comer e levei-as para casa. Ninguém as comeria, é certo. Mas no meio daquela noite tão estranha achei, por alguma razão, que ir comprar as farturas era uma coisa que fazia imenso sentido.

Este é o segundo ano em que as circunstâncias não são normais e em que a cidade que me viu nascer não vê a Feira de São João tomar conta do Rossio

E se a feira de São João já era importante para mim, depois deste 18 de Junho, tornou-se ainda mais. Não falhei uma única edição, ainda que em 2018, a “rebentar pelas costuras” de grávida, tenha demorado menos do que 15 minutos no meu passeio anual. Mas tinha de lá ir, percebem? Tinha de ir respirar aquele vento frio (por incrível que pareça, faz sempre frio nas noites do São João), tinha de ir percorrer aquelas ruas de sempre, tinha de entrar nos pavilhões que parecem montados a papel químico de uns anos para os outros, porque uma parte da história da minha vida foi escrita ali.

Este ano estou em casa. A creche dos miúdos está fechada porque uma criança testou positivo à covid-19 e eles estão em isolamento profiláctico há 11 dias. Não houve feira pelo segundo ano consecutivo. Estamos em Junho, é noite, não ouço o barulho dos megafones onde se anunciam três cuecas de algodão por cinco euros e as ruas estão tão desertas que mais parecem assombradas. A pandemia continua a roubar-nos partes da vida. E estas pequenas partes são as que mais me têm doído.

Este isolamento dos pequenos tem sido mais difícil do que os longos períodos de confinamento que vivemos. Cada dia parece durar um século. Eles arrastam-se pela casa, perguntam quando podem ir ao parque e a casa dos avós, e eu arrasto-me atrás deles enquanto vou torcendo para que as horas passem mais depressa. Sinto que fomos os três apanhados por uma espécie de letargia que colocou a nossa vida em pausa. Eles são meninos pouco habituados a estar presos.

E eu queria levá-los à feira como o meu pai me fazia. Queria dar-lhes um churro cheio de gordura e chocolate e comprar-lhes senhas para que pudessem andar de carrossel até se sentirem tontos.

"Este isolamento dos pequenos tem sido mais difícil do que os longos períodos de confinamento que vivemos. Cada dia parece durar um século" MIGUEL NOGUEIRA

Queria que a infância deles fosse tão normal quanto possível. Sem máscaras, com festas de aldeia, com feiras e romarias. Acho que o meu mais novo nem tem noção de que é possível andar na rua de cara destapada e saber isso parte-me o coração. No outro dia, depois de lhes dar banho, fui dar com o Pedro a enfiar o cotonete com que lhe limpei os pavilhões auriculares dentro do nariz do irmão enquanto lhe dizia “sossegado que isto é para testar se tens o coronavírus”. E eu quase chorei.

Quase chorei porque de alguma forma sinto que estamos a roubar a estas crianças muitas oportunidades que não voltam, porque sei que um dia vou amaldiçoar cada hora que eles passaram longe do colo dos avós, porque sinto que esta pandemia, que teima em manter-se viva, depois de todas as contas feitas, nos vai sair demasiado cara em afectos e experiências.

É claro que nada disto vale uma vida e, por aqui, mais ou menos cansados, continuamos e continuaremos sempre a cumprir. Mas caramba, tanto que quero pegar nestes dois e levá-los pela mão a passear nas ruas da feira. E um dia, quando eles já tiverem capacidade para entender, u dizer-lhes que foi ali, naquelas ruas empedradas e naquela terra batida do Rossio, que tive a certeza de que o avô Januário estava vivo e que é ali e só ali, naquela feira, que a cada ano comprovo que o avô é imortal.

https://www.publico.pt/2021/06/27/impar/cronica/avo-imortal-1967590


quarta-feira, 12 de maio de 2021

Diogo Hoffbauer- Não são só eles que sabem porque não ficam em casa

*  Diogo Hoffbauer 

“Daqui a 15 dias, quero ver. Por mim, nem tinham direito a ventilador!”

Para começar, são 14 dias. Duas semanas são 14 dias, não 15. Sete mais sete. Mas mais relevante ainda é que, quando a poeira da insanidade assentar, o chavão dos 15 dias irá figurar no nosso anedotário. É um prazo de validade intimidante, um macabro vaticínio de morte e, portanto, perfeitamente enquadrado na narrativa apocalíptica. Carece, no entanto, de qualquer validação factual.

Não é a genuína preocupação com a saúde pública que os mobiliza a apregoar a condenação de gente que só quis usufruir do merecido festejo. É, isso sim, um impulso onanístico e inquisitório. Observar aquilo que aos nossos olhos são condenáveis meliantes representa para muitos a oportunidade perfeita para se distanciarem da sua malvadeza. Faz sentido que o queiram fazer: como reivindicam punições e musculada intervenção policial e militar, é importante deixar claro que não é a eles que devem ser dadas as cacetadas, é naturalmente aos outros. Arrogando-se o papel de protetor de vidas e ciência, quando contribuem diariamente para destruir ambas, fazem da menina d’A Lista de Schindler que vocifera “Goodbye, Jews!” sem saber o que são judeus, só porque toda a gente à volta a ensinou a odiar.

Seria expectável que, perante a sucessão de situações em que este prognóstico da catástrofe iminente em 15 dias não se verificou, o medo em que nos afogaram começasse a dar lugar à dúvida. É dela que nasce a ciência, e não do dogma.

Mas há uma pedra pesada no caminho da lógica: o orgulho. Custa demasiado engolir o amargo   paladar do reconhecimento de um erro. Desconfiamos das nossas informações, embaraçam-nos as nossas próprias palavras e abalam os alicerces das nossas convicções. E, com a dimensão deste assunto e com a convicção emocional por trás das tomadas de posição, vemo-nos sujeitos a vexame alheio. Transformaram isto numa guerra de dois lados e qualquer cedência intelectual é encarada como humilhante derrota. A este preço, vai ser muito difícil que as pessoas, mesmo vendo a hipocondria desvanecendo-se nos ventos curandeiros da racionalidade, venham a admitir que foram enganadas. É essa resistência egotística – aliada a uma perversa inclinação autoritária e alergia a felicidade alheia – que prende a opinião pública a uma posição que neste momento não passa de um delírio coletivo.

12/05/2021


https://aventar.eu/2021/05/12/nao-sao-so-eles-que-sabem-porque-nao-ficam-em-casa/


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Manuel Augusto Araújo - Um caminho de trevas


Gravura «Um amante zeloso», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975. Créditos/ Bartolomeu Cid dos Santos

OPINIÃO|DIREITOS E LIBERDADES -  Um caminho de trevas
 - POR MANUEL AUGUSTO ARAÚJO - QUINTA, 22 DE OUTUBRO DE 2020

O bastonário da Ordem dos Médicos aproveita os graves problemas que o SNS enfrenta com a epidemia não para defender o seu robustecimento, mas o negócio dos privados na saúde.

Gravura «Um amante zeloso», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975. Créditos/ Bartolomeu Cid dos Santos
Ocoronavírus é uma espécie invasora da vida. Uma ameaça que, pela densidade e velocidade da sua propagação, introduziu uma perturbação universal que promoveu alterações substanciais nas movimentações na superfície da terra, com uma travagem desmedida na actividade económica e brutais restrições nos direitos e liberdades, que exploram o natural instinto de sobrevivência de todos para que as aceitem sem resistências significativas.

A actividade económica, com desiguais solavancos, vai sendo retomada. Uma retoma que tem tornado evidente a falência do receituário neoliberal e a importância do Estado definir políticas públicas de investimento e de defesa dos trabalhadores, se realmente quer menorizar os inevitáveis impactos que uma crise com esta extensão provoca no tecido económico de qualquer país, maior ainda quando esse tecido tem sido puído por dezenas de anos de governos de centro-direita e de direita, como é o caso de Portugal. Uma evidência que alarma os neoliberais de vários matizes que, controlando os meios de comunicação social e estando bem ancorados no chamado serviço público dos media, tentam por todos os meios desvalorizar as evidências quando as não podem negar.

O real perigo é que algumas das medidas de emergência para conter a propagação do contágio, que têm sido adoptadas e aceites, passem a fazer parte do quotidiano. Instalou-se um clima de medo potenciado pela comunicação social corporativa com os relatórios diários e atemorizantes sobre as vagas de Covid-19, em que as estatísticas das vítimas são apresentadas de forma abstracta, em que as taxas e os picos de mortalidade não são sujeitas a nenhum crivo elucidativo das razões dos óbitos atribuindo-os por atacado ao vírus, mesmo quando os óbitos dos grupos etários mais elevados, ainda que influenciados pela presença do vírus, não podem ser exclusivamente explicados pela sua presença. O que está em curso é um processo de instauração de medo generalizado, em que mesmo o negacionismo científico imbecil dos bolsonaros ou os ziguezagues trumpistas, que se atropelam na sua irracionalidade, contribui para a sua persistência.

O mundo é varrido pelos turbilhões do medo. Medo de se ser contagiado, medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de não se sobreviver por perca de capacidade económica e social que impossibilite o dia seguinte que não se sabe como e quando acontecerá.

«A actividade económica, com desiguais solavancos, vai sendo retomada. Uma retoma que tem tornado evidente a falência do receituário neoliberal e a importância do Estado definir políticas públicas de investimento e de defesa dos trabalhadores, se realmente quer menorizar os inevitáveis impactos que uma crise com esta extensão provoca no tecido económico de qualquer país, maior ainda quando esse tecido tem sido puído por dezenas de anos de governos de centro-direita e de direita, como é o caso de Portugal»

Não é um acaso a tipologia das notícias dos media, em que a liberdade, as liberdades no seu relativismo e desde sempre ameaçadas, são colocadas em causa, com a exploração de toda a panóplia conducente ao isolamento social, ao confinamento, ao teletrabalho, aos espectáculos on-line, à educação digital, às vendas on-line, à quebra do isolamento pelo recurso às redes sociais, que são apresentados como instrumentos de combate à pandemia sem uma réstia de preocupação com o aprofundamento das desigualdades existentes e com o impacto da crise sobre os que já tinham os seus direitos fragilizados, muitos deles sem direito ao isolamento social, e que são a parte dos grupos sociais mais afectados pela crise.

O medo sempre foi um poderoso instrumento de governação e a comunicação social estipendiada tem, ao longo dos anos, construído uma insidiosa narrativa instalando o pavor com relatos da violência, nos mais diversos formatos e com periodicidades variáveis. Delinquência, assassinatos, violações, acidentes, incêndios de vários calibres fazem parte dessa paisagem a que se agregam ameaças mais persistentes como o aquecimento global, o buraco de ozono, a contaminação ambiental, os desastres naturais e os que podem advir da queda de detritos cósmicos ou da aproximação de um meteorito, atraídos pela força da gravidade, mais os relatos direccionados dos terrorismos e das guerras que justificam outras guerras, etc. Notícias intercaladas com frivolidades mas sempre sem perder o norte de discriminar as forças políticas e sociais que se opõem frontalmente ao estado de sítio imposto pelo neoliberalismo, sempre dando destaque aos seus porta-vozes, que o maior interesse que têm pela pandemia, por cá e nos quatro cantos do mundo, é explorá-la enquanto negócio. Bill Gates e a sua máfia estão na linha da frente desse paradigma, criando alianças globais que impõem prescrições para os problemas da saúde que procuram impor a todo o mundo. É o filantrocapitalismo, em que se injecta dinheiro num sistema em que a democracia, a biodiversidade e a cultura são erodidas num processo em que ele e os seus pares ficam mais ricos.

Por cá, à nossa escala, o caso mais exemplar é o do bastonário da Ordem dos Médicos, que aproveita a situação dos graves problemas que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) terá para enfrentar uma previsível expansão da epidemia – «que não está a disparar, mas a crescer», como afirma a ministra da Saúde – não para defender o seu robustecimento, depois de anos de desinvestimento feitos pelos governos de centro-direita e direita, mas o negócio dos privados na saúde – um dos negócios mais lucrativos, depois das armas e da droga (Isabel Vaz, administradora da Luz Saúde, SA dixit) – opinando que o Estado deve contratar os privados, isto depois de os privados, no início da crise, se terem demitido de acorrer ao pico da pandemia por não dar dinheiro. Diz isto com a inefável, insuportável e hipócrita máscara de cruzado recacho pelo bem da saúde pública com que aparece nos inúmeros tempos de antena que lhe são concedidos para inocular o medo. É bem acolitado pela comunicação social mercenária, que nunca refere que os privados muito têm lucrado através do Estado e dos impostos cobrados aos cidadãos: 41% da sua facturação é assegurada pela captura de 47% do que o Estado gasta na saúde, à pala das ineficiências artificialmente criadas em décadas ao SNS. Esse alcoviteiro da saúde faz parte da camarilha dos abutres que assaltam a saúde pública para com ela fartamente lucrarem. Estão sempre muito atentos a estas janelas de oportunidade de negócio.


Gravura «Este nunca está satisfeito», de Bartolomeu Cid dos Santos, ponta seca/água tinta, 1975 Créditos Bartolomeu Cid dos Santos /

Os nossos dias, desde que foi declarada a pandemia, são bombardeados com notícias e propaganda em formato noticioso que engrossam as pesadas nuvens que chovem pavores sem detença. O planeta está envolvido por uma espessa camada atmosférica carregada de medos sem que se entreveja um anticiclone que a limpe. O medo empurra para o silêncio da aceitação de medidas restritivas à normalidade, por mais anormal que seja, da circulação da vida. Medidas que são aceites praticamente sem oposição e que as forças reaccionárias pretendem, em primeiro lugar, impor às liberdades constitucionais, às lutas dos trabalhadores, às lutas sociais e políticas, o que explica a sua fúria contra o 1.º de Maio, a Festa do Avante!, os lances que foram usados, os meios que foram mobilizados. O medo, como Maquiavel teorizou, foi desde sempre uma das mais poderosas armas das forças dominantes. É uma ferramenta multiusos que percorre todo o arco, da mais feroz repressão à mais ligeira persuasão.

Adquire novas valências quando aos medos que se têm instalado enquanto conta-corrente dos poderes dominantes se associa o medo universal catapultado pela pandemia. O seu combate é uma necessidade e urgência real que não pode ser adiada, o que facilita a aceitação de medidas restritivas na luta contra as tipologias de contágio que facilitam a sua propagação, paralisando e silenciando vozes críticas mesmo as mais sensatas, serenas e competentes.

O grande alerta que tem que ser feito neste estado de emergência é para o perigo que muitas das medidas hoje adoptadas se perpetuem depois de o termos ultrapassado. Há que no imediato pensar nesse perigo. Nos usos e abusos das tecnologias de controlo, para que o que hoje é urgente e necessário não ultrapasse essas fronteiras e configure políticas futuras, para que a legalidade agora justificada não se torne numa ilegalidade instituída, sabendo-se que o desarmamento político foi desde sempre um dos grandes objectivos da burguesia dominante que, ao longo dos tempos, foi apurando as suas formas de actuação, enriquecendo o seu arsenal com ferramentas que visam atingir sempre o mesmo alvo: reduzir a influência ou mesmo anular os instrumentos organizados de luta das massas populares, partidos e sindicatos. Um alerta plenamente justificado, se se atentar no que tem sido preparado nos últimos decénios pela comunicação corporativa que, como tem alertado Noam Chomsky, tem funcionado num sistema em que «os media de referência estabeleceram um padrão dentro do qual opera o resto», em que os media dos países periféricos, desenvolvidos, em vias de desenvolvimento ou do terceiro mundo replicam o que é emitido por esses media ditos de referência e pelas grandes agências informativas dominadas e controladas pela plutocracia altamente beneficiária com as políticas neoliberais.

«O que está em curso é um processo de instauração de medo generalizado, em que mesmo o negacionismo científico imbecil dos bolsonaros ou os ziguezagues trumpistas, que se atropelam na sua irracionalidade, contribui para a sua persistência.

O mundo é varrido pelos turbilhões do medo. Medo de se ser contagiado, medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de não se sobreviver por perca de capacidade económica e social que impossibilite o dia seguinte que não se sabe como e quando acontecerá»

A essa forma, que agora se pode classificar como mais tradicional, surgiram outras mais sofisticadas através das redes sociais que promovem a fusão da vida profissional com a pessoal num gigantesco e global reality show em que cada um tem a ilusão de liberdade total que na realidade está apertadamente controlada pelos algoritmos alinhados com o totalitarismo democrático, com o pensamento único dominante orientado pelo lucro. Os milhões de pessoas que por todo o mundo viajam pelas redes sociais deixam voluntariamente o seu rasto, que está a ser vigiado pelo olhar panóptico dos guardiões do neoliberalismo. Rasto que já existia com o uso dos cartões multibanco, das localizações nos smartphones, com as pesquisas nos motores de busca, em que as grandes agências secretas em paralelo com as de marketing lêem e traçam os perfis do nosso estado de espírito a partir do que se partilha online. Tornamo-nos em utilizadores e consumidores sem escolhas nem diferenciações no universo digital. Somos voluntariamente colonizados por esses novos colonizadores, amantes zelosos do império digital.

Hoje vive-se num gigantesco campo de concentração virtual em que o neoliberalismo comanda a história reaccionária em curso, conseguindo mesmo o grande feito de provocar a desorientação ideológica de muitas esquerdas, promovendo movimentos activistas que acabam por fazer parte da sua narrativa.

O totalitarismo democrático, que tem a sua expressão mais acabada na democracia espectacular dos Estados Unidos da América, em que dois partidos se alternam para prosseguir políticas similares, persegue sem pausas a implantação de uma sociedade uniforme, inerte, portadora de um mesmo conjunto de opiniões, comandada pelo domínio integral das formas de comunicação tradicionais e das novas formas proporcionadas pela comunicação e interacção digital. O estado de excepção que agora se vive dá-lhe um novo impulso. Muitas das restrições têm um efeito negativo na vida dos cidadãos, com a consequência, que nunca pode ser subestimada, de tornar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, uma realidade que as crises tem vindo a acentuar como se pode ler aqui e aqui.

Para a esquerda consequente os desafios são ainda maiores porque, participando natural e conscientemente nos combates contra a crise instalada pela pandemia, tem que continuar a batalhar seriamente contra as opressões daí derivadas sem nunca perder a mão das lutas por uma possível transformação social.


domingo, 19 de julho de 2020

José Gameiro - Quo Vadis

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA, POR JOSÉ GAMEIRO

Era o que faltava que impedissem a nossa liberdade de circulação. Acabámos detidas

Puseram-me aqui. Parece que há por aí muitos vírus, já vão em 19... Que disparate, sempre existiram vírus. Porque é que agora lhes dão um número? Devem achar que aparece um todos os dias. São uns ignorantes. Fecharam tudo, cafés, restaurantes, até cabeleireiros... Como é que eu vou arranjar o cabelo? A única coisa que acho bem que tenham fechado são as fronteiras. Nunca deviam ter sido abertas, não ouviram dizer que de Espanha nem bom vento nem bom casamento?

No meu tempo, alguém tinha medo de um vírus? Um bicho tão pequenino, temos cá dentro aos milhões. Ninguém me tira da cabeça que fizeram isto para acabar com os velhos. Toda a gente pensa que morrem por causa do vírus, mas não é verdade. Morrem de tristeza. Ficaram isolados, sem poderem ver os filhos e os netos. Falam com eles através daquelas coisas modernas, as crianças mais pequenas têm medo e fogem.

Estou aqui há três meses, disseram-me que tinham de fazer obras lá em casa. Pedi para a Maria vir comigo, mas não deixaram. Que aqui teria tudo, era só pedir. Isto é só velhos e velhas. Querem-me dar beijos, era o que faltava, depois de o meu marido morrer mais ninguém me tocou. E ele tocava-me tão bem. Mas fiz aqui uma amiga. Já não é muito nova, tem 94, menos três do que eu, mas está um bocado acabada. Parece minha mãe.

Começámos a conversar e descobri que ainda somos primas afastadas, tivemos o mesmo bisavô. As duas, muito fartas de aqui estar, congeminámos uma aventura. Uma noite fingimos que tomávamos os comprimidos que nos dão para dormir e ficámos acordadas até ao silêncio total. Sabíamos que a empregada passava pelas brasas num dos sofás da sala. Vestimos a melhor roupa que tínhamos e esgueirámo-nos para a rua. Sem máscaras — já não temos idade para andar mascaradas —, fomos a pé até ao centro. As ruas completamente desertas, eis que aparece um carro da polícia.

“Mas o que é que as senhoras andam a fazer na rua a esta hora? Onde é que moram?” Recusámos responder a todas as perguntas. Era o que faltava que impedissem a nossa liberdade de circulação. Acabámos detidas, depois de termos sido ameaçadas de coimas e outros disparates. “Se não fosse a vossa idade, iam dormir ao posto, até de manhã as levarmos ao tribunal.”

Explicámos que não tinha problema, sempre íamos conhecer uns rapazes novos. Acederam. Foi uma noite bem animada. Às sete da manhã chegou o alarme do lar. Duas velhas tinham desaparecido, era uma vergonha. Os nossos amigos explicaram que tínhamos sido capturadas. Lá fomos ao tribunal. Sem a minha colega de aventura saber, tinha avisado antes um amigo meu que percebe imenso de Direito Constitucional. Ele tinha-me dito: “Faz tudo o que te apetecer. Eu defendo-te. Eles não sabem fazer as leis, é tudo inconstitucional.”

O delegado do Ministério Publico, um rapaz ainda novo, começou a falar connosco como se fôssemos atrasadas mentais. “Então as meninas andaram a passear?” Disse ao advogado oficioso: “S.f.f., dite para a ata: se o senhor delegado continuar neste tom, terá uma queixa no Conselho Superior da Magistratura.” O homem não gostou. “Peço que se aplique a coima e que, se as senhoras” — passámos a ser crescidas — “voltarem a fazer o mesmo, incorrem no crime de desobediência.”

Foi nesta altura que entrou o meu amigo. Levantaram-se todos, senhor professor para aqui, senhor professor para ali, os salamaleques habituais da Justiça. Tinham sido todos seus alunos. O resto da sessão foi breve. O meu amigo argumentou a total inconstitucionalidade daqueles estados que eles inventaram, catástrofe, calamidade e mais não sei o quê.

Claro que nenhum deles queria proferir uma sentença que fosse parar ao Tribunal Constitucional. Tive pena, dar-me-ia muito gozo. Mas talvez tenham aprendido que não podem fazer o que querem com os velhos. A partir daquele dia, o bicho passou a chamar-se Quo Vadis.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

António Guerreiro - Mortos de riso

* António Guerreiro

Cultura-Ípsilon - CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

22 de Maio de 2020, 9:43

 A palavra “propaganda” ficou tão associada aos modos de comunicação e de doutrinação ideológica que deixou de ser utilizada tanto na sua dimensão comercial (a que chamamos hoje “publicidade”, aludindo assim à ideia de esfera pública) como no metadiscurso político em vigor nos regimes democráticos. Mas é preciso referirmo-nos ao sentido e aos processos da propaganda para termos um entendimento crítico do discurso totalitário a que temos sido submetidos.

Não discuto se ele advém de boas razões e se é legitimado por uma boa causa, ou seja, pelo sentido de perigo e de extrema precaução exigidos aos nossos gestos e comportamentos quotidianos, em nome não apenas da saúde individual, mas também — ou sobretudo — da saúde pública. O que se tornou entretanto evidente é que a resposta à reclamação de absoluta segurança (algo impossível de alcançar, mas sempre presente nos tempos actuais) foi para além dos seus fins e agora nem os governos nem todos aqueles que, nos media, substituíram a informação pela propaganda e pelo moralismo sabem como atenuar a overdose de medo inoculado à população. Ao medo do vírus, sucedeu agora o medo de que os efeitos do confinamento e de todo o discurso público que o acompanhou — sempre informado pela lógica do pior — se tenham tornado permanentes.

As medidas do governo até podem ter sido prudentes e na medida certa (é pelo menos o que nos dizem muitos epidemiologistas cujo conhecimento desta matéria foi tido em conta, sabendo-se que não há nem pode haver aqui unanimidade), mas todo o discurso que as acompanhou, particularmente exacerbado em muitos canais de televisão, tem sempre como pressuposto a menoridade intelectual dos espectadores. Os elogios públicos ao civismo dos portugueses ganhou o sentido de um auto-elogio que se podia traduzir nestes termos: “Vejam como somos eficazes e performativos, vejam como a nossa acção é importante para que população (e é de população que se trata, não de povo) seja disciplinada e obediente”.

Face a um inimigo invisível que é o vírus, assistimos a uma operação de propaganda que construiu um medo útil, mas de acção mais duradoura e em dose mais exagerada do que seria agora conveniente. Uma operação de propaganda desta dimensão, no nosso tempo, só a encontramos na reacção a um outro inimigo que também legitimou uma política do medo: o terrorismo.

Para esta propaganda total contribuiu também a publicidade. Todos reparámos certamente que os spots publicitários não desapareceram, mas foram atacados pelo vírus do pudor e do didactismo moralista, paternalista e geralmente piegas. Deixaram de dizer “compre”, “pague um e leve dois”, “X lava mais branco”, para passarem a dizer: “seja responsável”, “fique feliz em casa: carpe diem”, “o nosso automóvel é experiente em curvas, saiba como achatar esta com que estamos confrontados”, “tudo vai ficar bem com a nossa ajuda”. De maneira mais ou menos directa, a publicidade passou a só falar do vírus. Tornou-se tão insuportável como as afectações “poéticas” de alguns apresentadores dos jornais televisivos, ilustrando na perfeição a verdade enfática dos propagandistas. E foi assim que ficámos não apenas reféns do medo, mas também dos bons sentimentos, das afecções da alma. Distanciamento social? Não, o que houve foi a “partilha” em modo superlativo. Fechados em casa, mas a partilhar e a receber de todos os lados — da publicidade, do jornalismo, do discurso público dominante —  mensagens de medo e de bons sentimentos. E o medo como o melhor dos sentimentos. O que fazer agora, com todo o medo que sobra?

Há ainda as máscaras. Como usá-las? Como fazê-las em casa? Que percentagem de gotículas elas filtram? Porque é que o seu uso indevido as pode tornar perigosas? A que certificação têm que estar sujeitas? Todas estas instruções são tão necessárias como as próprias máscaras. Mas até quando aguentamos um mundo de gente mascarada? E os políticos mascarados em todas as suas frequentes aparições públicas — o que é que isso contribui para a erosão do poder político? Não sabemos ainda, mas começamos a sentir que isto não se pode prolongar por muito tempo. A catástrofe está a tornar-se uma paródia e vamos todos acabar mortos de riso.