quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Margarida Rebelo Pinto: “O sexo era uma das poucas distracções"


Correio da Manhã


 Foto - Bernardo Coelho


Margarida Rebelo Pinto: "Escrever sobre sexo não é difícil. Escrever cenas de sexo é que é. Por isso, o pudor e a elegância têm de estar sempre presentes e vigilantes."
Entrevista a Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto lança o seu primeiro romance histórico. 'Minha Querida Inês' é uma obra ousada sobre a paixão imortal do rei D. Pedro I
Por:Ana Maria Ribeiro
Correio da Manhã - O seu novo livro, o primeiro romance histórico que escreve, vai surpreender o público a vários títulos. Para já, por ser um... romance histórico.
Margarida Rebelo Pinto - É um livro diferente porque passa-se na Idade Média, mas quem é meu leitor vai encontrar lá o mesmo tom intimista dos livros anteriores, as mesmas questões sobre amor, amizade, família, ciúme, desamor, solidão... Só que no século XIV.
- O romance histórico é um género que lhe apetecia ou o livro resulta dos desafios lançados por amigos. Cita Pedro Pina, Jorge Pereira de Sampaio e José Miguel Júdice nos agradecimentos...?
- Sim, há muito tempo que andava com a Inês de Castro na cabeça, desde 2005, quando o Jorge Pereira de Sampaio, Director do Mosteiro de Alcobaça, me pediu para escrever uma peça de teatro sobre ela. O Pedro Pina desde então foi insistindo comigo, que eu devia fazer uma coisa diferente, e o Zé Miguel sempre se interessou pelo projecto e facilitou-me estadias e visitas à Quinta das Lágrimas, onde se encontram as famosas fontes, Fonte do Amores e Fonte Nova, locais predilectos de Pedro e de Inês.
- O livro surpreende, também, porque coloca personagens históricas sob uma luz desconcertante. As cenas de sexo oral entre Pedro e Inês, apesar da elegância com que são descritas, vão deixar muita gente perplexa. Tinha consciência disso? Foi deliberado?
- Foi. Nunca escrevo nada sem ser deliberado. Já nem o poderia fazer, tenho uma grande responsabilidade perante os meus leitores. Na Idade Média, ao contrário do que as pessoas pensam, havia muita libertinagem, o sexo era uma das poucas distracções que as pessoas tinham. Inês e Pedro estiveram juntos muitos anos, é natural que entre eles existisse uma enorme cumplicidade sexual. O sexo faz parte da vida, escrever sobre sexo não é difícil. Escrever cenas de sexo é que é. Por isso, o pudor e a elegância têm de estar sempre presentes e vigilantes. Nunca se pode levantar completamente o véu.
- O carácter de Pedro sai um tanto prejudicado: para além de trair Inês com outras mulheres, fá-lo também com homens e com animais. É um facto registado pela História ou faz parte da liberdade criativa que assiste a qualquer romancista?
- Já Fernão Lopes dizia nas crónicas que Pedro amava mais Afonso Madeira do que é de bom-tom dizer. É um facto histórico. E D. João I, Mestre de Avis, Rei de Portugal, é filho de Teresa, uma mulher galega, aia de D. Inês. Depois de Inês ter morrido D. Pedro foi um bom rei, mas era vingativo e sanguinário, epiléptico, gago e insone, tal como o descrevo no livro.
- Quanto tempo demorou a escrever este livro: desde o início das pesquisas históricas até à versão final?
- Comecei a trabalhar nele em 2005 e acabei em Setembro de 2011, foi um processo muito mais longo do que é habitual.
- Conseguiu tornar totalmente credível este português que, não sendo antigo na grafia, é-o no ritmo e nas palavras usadas, na elevação da linguagem. Foi difícil de conseguir?
- Não, foi divertido. É como entrar na toada de uma canção. O maravilhoso romance de Pedro Canais, ‘A Lenda de Martim Regos', foi uma grande ajuda para conseguir utilizar alguma linguagem da época sem aumentar o grau de dificuldade da leitura. Há palavras arcaicas que as pessoas vão reconhecer, penso que isso vai divertir os leitores.
- Os seus leitores habituais podem esperar outros romances históricos da sua pena, ou vai voltar exclusivamente à linha a que os habituou?
- Não sinto que ‘Minha Querida Inês' tenha saído do meu estilo, porque aquilo que os meus leitores estão habituados a reconhecer na minha escrita está lá: a emoção, a intensidade, as reflexões sobre comportamentos amorosos, a paixão intensa e o sarcasmo na observação da condição humana... Ao mesmo tempo, o relato de um dos episódios mais fascinantes da História de Portugal. Inês de Castro é a nossa maior heroína romântica, é importante que os portugueses conheçam a sua história.
- Qual é o seu próximo projecto literário?
- Não faço ideia. Ainda tenho ‘Minha Querida Inês' debaixo da pele. Em Janeiro penso nisso. Tenho uma lista de projectos que já comecei. O mais certo é que um deles me apanhe na curva, porque são as histórias que nos apanham, e não o contrário.

domingo, 20 de novembro de 2011

Breves histórias - Entrevista de emprego por Tiago Rebelo


Correio da Manhã
“Ela acorda e ele foi-se embora. (...) no escritório, ele age como se nada tivesse acontecido”
Por:Tiago Rebelo, Escritor (breveshistorias@hotmail.com)


Assim que o conhece, decide que não gosta dele. Acha-o presunçoso, demasiado seguro de si. É atraente, mas a sua atitude deixa-a pouco à-vontade. Em contrapartida, ele não se apercebe que provoca esse efeito nela. Pergunta-lhe coisas da vida dela, quantos anos tem, que curso tirou, a sua experiência profissional, porque deixou o emprego anterior. Porque me pagavam mal e não gostava do que fazia, responde-lhe. E o que é que ela gosta?, pergunta-lhe num tom jovial. Sente-se a corar e odeia-o por isso. Remexe-se na cadeira, entrelaça os dedos no colo.
A pergunta soa-lhe demasiado inconveniente, nem sabe bem porquê. Não pode dizer a verdade, ou pode? Que quer simplesmente um emprego, não interessa o quê. Será que vai achá-la estúpida, sem ambição? Neste momento, diz, como as coisas estão, um emprego que pague as contas já é suficiente. Ele faz um sorriso que lhe parece constrangedoramente condescendente. Mas, no fim, oferece-lhe um lugar de secretária. Ela aceita, embora vá para casa contrariada. Contudo, no decorrer de duas semanas a embirração inicial foi-se atenuando e já o vê com outros olhos. Ele trata-a bem, gosta dela e não o esconde. É solteiro, não tem namorada, nada fixo, pelo menos.
Ficam a trabalhar até tarde, ele leva-a a casa, beija-a, passam a noite juntos, mas de manhã ela acorda e ele foi-se embora. Mais tarde, no escritório, ele age como se nada tivesse acontecido. Nos dias seguintes, sente-se incomodada com o seu comportamento, pois parece evitá-la o tempo todo. A relação deles torna-se estranha, até que ele parte numa viagem de negócios.
Uma semana mais tarde, ao regressar, fica a saber que ela se despediu. Quando partiu de viagem, sentiu--se aliviado, mas depois teve saudades dela, da sua presença, de a ouvir rir... Descobriu que gostava mais dela do que quis admitir.
Ela está na sala, a ler um livro depois do jantar. Tocam à campainha, olha para o relógio, admirada, vai ver quem é tão tarde. Olá, cheguei hoje, diz ele quando lhe abre a porta, e disseram-me que te foste embora. Ela sente as pernas fraquejarem. O que é que vieste aqui fazer? Vim saber porque te foste embora. Porque tu não me querias lá, responde. Tenho pensado em ti todos os dias, diz ele, ignorando o comentário, e hoje, quando cheguei ao aeroporto, fui directo ao escritório para te ver. Foste?, espanta-se.
Fui, trouxe-te um presente. Tira uma caixa do bolso, abre-a, é um anel com pequenas pedras brilhantes. Ele segura-lhe a mão, enfia-lhe o anel no dedo. Ela tem o coração num alvoroço. Eu pensei que..., começa a dizer, mas ele abraça-a, beija-a e pede-lhe que volte amanhã, voltas? E então ela abana a cabeça, volto, diz,  quase sem voz, amanhã volto.

sábado, 19 de novembro de 2011

Quase de nada místico - Ana Luisa Amaral




Quase de nada místico

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.

- Ana Luisa Amaral - in Às vezes o Paraíso
 —

Álbum:Fotos de ti em NICOLETTA TOMAS CARAVIA - finestre


(...)


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O encontro ~ Tiago Rebelo



Correio da Manhã
Breves histórias

O encontro

“Ele assumiu o controlo e ela deixa-se conduzir, quando ele lhe abre a porta do carro”
Por:Tiago Rebelo, Escritor (breveshistorias@hotmail.com)

Sentados numa esplanada na ponta do cais, ouvem o rumorejar das águas calmas a embaterem com uma cadência perfeita contra a pedra. A ponte à frente deles atravessa o rio ao final da tarde.
Os óculos de sol tapam-lhe os olhos, escondem a alma. Ele sabe o que faz e ela penaliza-se por não ter trazido também uns óculos para se proteger atrás deles. Porventura, ajudá-la-iam a sentir-se menos insegura.
Ele sugeriu aquele lugar encantador como se fosse apenas por uma questão prática, pois trabalha ali perto. Preciso de apanhar um bocado de ar, disse, se não te importas, vamos tomar um café. Não se importou, mas veio ter com ele com o nervosismo latente de um primeiro encontro. É uma parvoíce, diz de si para si, já não tenho idade, e no entanto não o consegue evitar.
Conheceram-se há dias num casamento de amigos comuns. Acabaram sozinhos na mesa quando os outros casais se levantaram para dançar no final do jantar. Ela não tinha par, ele também não. Ele, no lado oposto da mesa redonda, olhou para ela, sorriu-lhe, encolheu os ombros. Ela fez o mesmo. Ele levanta-se, rodeia a mesa e vai sentar-se ao lado dela. Apresenta-se, conversam, riem-se muito, chegam a dançar.
Ele telefonou-lhe, convidou-a para um café e ali estão. O sol vai caindo, as águas vão escurecendo. Ao longe, a ponte revela uma fila de pontos de luz dos faróis e, por baixo, a cidade ilumina-se. Ele retira os óculos, sorri-lhe, e ela sente-se menos ansiosa. A noite chega, ela estremece com um arrepio. Tens frio?, pergunta-lhe, atento. Um bocadinho, responde, esfregando os braços com as mãos. Ele chama o empregado, paga a conta.
Vão caminhando pela margem do rio. Ele despe o casaco, coloca-lho pelas costas, passando o braço por cima dos ombros dela e deixando-o ficar assim, como se fossem um casal de namorados. Mais quentinha? Muito melhor, obrigado, admite ela, dividida entre a ousadia dele, que se lhe afigura um pouco impertinente, e o agradável calor do seu corpo ainda presente no casaco. Leva os braços cruzados, vai um pouco rígida, o instinto diz-lhe que se liberte dele, mas a vontade derrete-se no seu abraço e dali a pouco relaxa, cede, encosta-se a ele.
Ele faz um comentário divertido sobre qualquer coisa e ela solta uma gargalhada espontânea, deixando escapar o último vestígio de resistência. Ele assumiu o controlo e ela deixa-se conduzir, quando ele lhe abre a porta do carro, dá a volta pela frente, abre a sua porta, entra, segura-lhe o rosto carinhosamente com as duas mãos, beija-a na boca. E ela, abandonada nas suas mãos, sentindo-se como se se dissolvesse nele, pensa, arrebatada, pronto, lá vou eu outra vez em direcção ao desconhecido.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

UMA PEQUENINA LUZ - Jorge de Sena



Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumiére

just a little light

una piccola…em todas as línguas do mundo

uma pequena luz bruxuleante

brilhando incerta mas brilhando

aqui no meio de nós

entre o bafo quente da multidão

a ventania dos cerros e a brisa dos mares

e o sopro azedo dos que a não vêem

só a advinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz

que vacila exacta

que bruxuleia firme

que não ilumina apenas brilha.

Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

Muda como a exactidão como a firmeza

como a justiça

Brilhando indefectível.

Silenciosa não crepita

não consome não custa dinheiro.

Não aquece também os que de frio se juntam.

Não ilumina também os rostos que se curvam.

Apenas brilha bruxuleia ondeia

Indefectível próxima dourada.

Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda

Como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Apenas como elas.

Mas brilha.

Não na distância. Aqui

No meio de nós.

Brilha.

JORGE DE SENA, "FIDELIDADE", 1958
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partilhado por Cecília Barata

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maria Filomena Mónica por Francisco Louçã


sábado, 12 de novembro de 2011

Não deseje eu ansiosamente - Tagore


Álbum:DALIAS · 3 de 6

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

- Tagore
 —