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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

António Carlos Cortez - As livrarias tinham de fechar

 * António Carlos Cortez

OPINIÃO

Em Portugal, país em que o livro é procuradíssimo, onde as livrarias estavam, como se lembram, a abarrotar de ávidos leitores, de bibliófilos e bibliómanos, este confinamento constitui um verdadeiro ataque.

3 de Fevereiro de 2021, 0:25

Se por acaso o que se projecta no mundo do “novo normal” for um quotidiano totalmente rendido ao digital, vendendo-se e comprando-se tudo através do online, então estamos no bom caminho, porquanto, a reboque deste vírus, Portugal tomou já a dianteira ao considerar o livro um bem não-essencial, privando, dessa forma, o acesso ao livro num tempo que poderia levar à leitura de textos pouco concordantes com a lei e a ordem. Tomando a dianteira, em Portugal há o inspirado plano de, proibindo a comercialização deste bem não-essencial, condenar inúmeras profissões afins ao livro a desaparecer. O futuro espera-nos, radioso! Uma sociedade nova emerge dos escombros da sociedade velha: uma certa forma de estar, de viver e de ser; forma essa que – meridional, latina, ou nórdica, alemã, ou asiática, russa, seja o que for – é uma forma humana, social, comunitária, eis o que em Portugal não veremos. Há que estar à frente do nosso tempo e as medidas contra o livro são sintoma da sapiência de quem nos dirige. Para quê, pois, apostar na venda de livros, seja nas livrarias, nos correios ou noutras superfícies, se o confinamento nos obriga mesmo a confinar, para outra idade, a sensibilidade, o entusiasmo de viver? Mais fácil será vencer o covid se, todos juntos na depressão, na incultura, formos um corpo único de gente para quem tudo é igual a nada e o nada o único absoluto. Feche-se, pois, a cultura e acabe-se de vez com tudo quanto nos faça sentir e pensar – se se decapitar o país cura-se a dor de cabeça.

Se o futuro que se está a construir, à luz dum modelo socioeconómico em que o que vai imperar é o clean, o já-feito, o fast-food, fast-book e o fast-living, o distanciamento entre as pessoas, o associal, o homem-maquinal (logo, mecânico, mais insensível, mais indiferente e mais dificilmente compassivo), então o encerramento das actividades culturais faz todo o sentido. Rapidamente teremos uma sociedade onde o grande desígnio das democracias — “Todos diferentes, todos iguais” — atingirá um patamar novo de nobreza de espírito e de ideal republicano: “Todos iguais, todos iguais”. Para tanto, esta pandemia exige medidas severas de confinamento, protegendo-se a saúde das massas, protegendo-as, sobretudo, do perigo que é frequentar espaços onde o vírus circula, predador. É o caso das livrarias.

Em Portugal, país em que o livro é procuradíssimo, onde as livrarias estavam, como se lembram, entre as quintas-feiras e os domingos, a abarrotar de ávidos leitores, de bibliófilos e bibliómanos, este confinamento constitui um verdadeiro ataque. Está em causa fazer-se diluir um dos traços definidores do português: a sua estrutural curiosidade para saber mais, para procurar o diferente, para cultivar as letras, as artes; enfim, para “fazer civilização”. Com este confinamento cultural, tão inteligentemente planeado, tão friamente pensado, impunha-se fechar livrarias, pois claro! É pena, mas louvável, posto que é a nossa saúde que se quer defender. Mas é pena porque, como todos o reconhecem, o português necessita de leitura, não convive bem com a ausência da biblioteca e do café com jornais. Não admite uma cidade sem lugares onde se pensa e sente.

Sem poder ler, discutir ideias, como costuma fazer, o português sofre, e pergunta-se qual o sentido de haver livrarias fechadas. Tudo ficava posto em causa se as livrarias estivessem abertas? Claro que sim! Pelo menos para o Governo. Já para para a esmagadora maioria dos portugueses não. Talvez porque as livrarias até se prepararam para a pandemia, talvez porque o uso de máscara era obrigatório dentro das lojas, talvez porque não se permitiam mais que pessoas dentro desta ou daquela área comercial, talvez porque se estava a conseguir equilibrar a venda online com vendas ao vivo e a cores; e talvez por isso nos pareça, a nós, que gostamos de livrarias, que fosse excesso de zelo fechar estes lugares onde há comércio e, ao mesmo tempo, medidas de segurança.

É que a realidade era indesmentível: os que ficavam fora das livrarias, quantas vezes às dezenas, às centenas, não olhavam, com certa acrimónia, para os felizes leitores que, no refúgio das livrarias, se pareciam esquecer do mundo? Suprema afronta! Em nome da saúde, fechar as livrarias impôs-se, pois então! Somos um país com uma profunda vivência cultural, com bom senso e bom gosto, povo dos mais eruditos da Europa, filhos de Camões, de Pessoa, de Saramago! Isso vê-se pelas edições de escritores de qualidade que sempre esgotam. Vê-se pela qualidade do nosso jornalismo, pelos índices de literacia, pela qualidade geral dos nossos deputados, pela argúcia e requinte dos debates políticos, pelas grelhas televisivas, formadoras do povo. Fecham-se as livrarias, condena-se à penúria o livreiro e o editor, o revisor, impede-se o leitor e demais agentes deste circuito de trabalharem com lojas e editoras abertas, mas é em nome da saúde de todos. E, não esquecemos: os dividendos, o lucro das livrarias e das editoras atingidos nos últimos anos permite aguentar esta crise passageira. Compreende-se perfeitamente. Para mais, num país como o nosso, com poder de compra, não tarda as livrarias, repito, estarão pejadas de gente, comprando alegremente os livros e os jornais, as revistas e os demais artigos que lhes faltaram entre 2020 e 2021. Por agora, haja decoro: as livrarias constituíam um dos pólos de contágio mais perigosos das nossas cidades e fechá-las, ver-se-á em breve, foi absolutamente decisivo no combate das nossas vidas!

E o mesmo se diga para o teatro, sempre com salas cheias, com bilhetes vendidos, repetindo-se, a cada temporada, esta ou aquela peça, tal a demanda esfaimada dum público conhecedor dos grandes dramaturgos nacionais e estrangeiros, dos textos essenciais da história do teatro. Os teatros, pela mesma razão, por estarem sempre cheios, também tinham de ser encerrados. E bem. Não fosse dar-se o caso de, depois da última peça n’A Barraca, com plateia cheia, haver milhares de contágios!

O Governo fez bem, tinha de encerrar estes espaços culturais, afinal tão perigosos para a saúde pública. No mundo pós-covid que teremos, depois de dois anos em casa, com aulas online, mais obesos, mais deprimidos, mais alienados, mais reféns da nova escravatura digital; mais distantes uns dos outros, ainda haverá quem diga que essa multidão de consumidores do objecto livro, e da leitura, em Portugal, tem de se adaptar ao “novo normal” e – pasme-se! – deixar-se cair na indigência dos jogos de computador, das séries televisivas, transformando-se na massa insensível à liberdade e à cultura que, pelo menos até agora, nunca fomos. Esse futuro de gente toda igual não é sonho das democracias? No limite, ao fecharem-se as livrarias até se evita um outro terrível perigo: a leitura de livros heterodoxos (dois exemplos: Frente ao Contágio, de Paolo Giordano, ou esse suspeitíssimo livro, em tempo de um por todos e todos por um: O Eterno Retorno do Fascismo, de Rob Riemen). Pode-se sempre comprar no online, pois é. E com que saber! E com que saber!! E sem dores de cabeça.

Poeta, crítico literário e professor

https://www.publico.pt/2021/02/03/opiniao/opiniao/livrarias-fechar-1948924

domingo, 13 de março de 2016

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir

17/01/09



Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos... 


Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

“Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à“Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
 


“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.” 

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.

Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro”e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte”também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).

 


O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.

Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.

De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.

Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”“(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.

 


“Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.

Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).

Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”. 

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.

Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.

Publicada por Alexa à(s) 20:06 

http://mercadodebemfica.blogspot.pt/2009/01/livrarte-40-anos-resistir.

Lucinda Canelas - Os livros não têm prazo de validade

A vida da Livrarte e da Ulmeiro confunde-se com a de José Antunes Ribeiro há quase 50 anos. Entramos nesta livraria/editora de Lisboa que corre o risco de fechar à procura dos seus autores e encontramos um bocadinho da história do país. Os livros ainda podem ser uma forma de resistir.

 Há milhares de livros por toda a parte, em estantes, amontoados em balcões estreitos e cadeiras ou empilhados no chão. Pelo meio há vinis, pinturas, desenhos emoldurados, vidros decorativos e outros objectosvintage, a lembrar que a Livrarte não é só uma livraria e não é, sobretudo, uma livraria qualquer. Quem quer chegar às prateleiras da “Arte”, onde é possível encontrar grande álbuns de pintura francesa, roteiros muito antigos do Louvre e de Arte Antiga e biografias de El Greco, Fragonard ou Delacroix, precisa de contornar uma mesa com ficção portuguesa e estrangeira, uma mala de viagem em cartão, e caixotes e caixotes de livros de bolso e revistas dos anos 1960 e 70. Um pequeno labirinto que deixará a muitos saudades se as portas deste espaço no bairro de Benfica, em Lisboa, abertas há quase 50 anos, vierem a fechar. 
José Antunes Ribeiro, o proprietário e editor da Ulmeiro (as duas casas confundem-se, sempre se confundiram), tudo fará para que esta livraria, misto de loja de “coisas antigas” e alfarrabista, se mantenha em actividade. E isso passa por dar entrevistas a jornais e revistas, por receber “clientes ilustres” como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o poeta e crítico Pedro Mexia ou o humorista Ricardo Araújo Pereira, e por atender os “amigos de sempre”, que nunca deixam de aparecer para comprar livros. Isso passa, inclusive, por reuniões com o ministro da Cultura, João Soares, com quem ficou de voltar a conversar sobre eventuais apoios aos livreiros independentes.
“O negócio mudou muito nos últimos tempos e os portugueses perderam poder de compra, o que não é novidade para ninguém. Aquilo que já era difícil de segurar tornou-se nos últimos três, quatro anos, impossível de manter”, diz ao PÚBLICO, numa tarde de semana em que são muitos os que entram na loja, de estudantes africanos de Economia a professores de Direito que procuram poesia, passando pela Carminho e a avó, que vêm à procura de Salvador, o grande gato ruivo que costuma dormir na montra. “Esta é uma livraria de bairro que se orgulha muito de ser uma livraria de bairro. Muitos dos que entram na porta são nossos vizinhos, nossos amigos”, assume José Antunes Ribeiro, garantindo que naquele espaço “os livros não são coisa sagrada” que só se visita às vezes.
“Para muitas pessoas parece que o livro está numa espécie de capela onde só entram os fiéis, os eleitos. E a pensar assim não vamos lá. O livro tem de ser uma coisa que nos faz falta no dia-a-dia, é preciso dessacralizá-lo, dinamizar o acesso, baixar os preços. É preciso mostrar que os livros não mordem e não têm prazo de validade. Temos a vida toda para ler um grande romance ou um grande poeta.”
Foi no início de Fevereiro que se tornou pública a difícil situação da Livrarte, indissociável da Ulmeiro, e desde aí as manifestações de apoio têm-se sucedido, na Internet e fora dela. Pessoas do Algarve e do Alentejo que nunca tinham estado na livraria deslocaram-se de propósito a Lisboa para as feiras que o editor tem organizado – não foi só Marcelo Rebelo de Sousa que comprou dezenas de livros, embora seja bem provável que só o chefe de Estado tenha juntado num mesmo lote antigos volumes de Direito Constitucional, folhetos políticos dos anos 1960 e 70 e clássicos juvenis intemporais de Enid Blyton – e até a Câmara de Lisboa já enviou um técnico para tentar perceber como se pode associar aos esforços para salvar aquele espaço ou, pelo menos, o que ele representa, diz José Antunes Ribeiro.
Na análise da situação a que a Livrarte chegou, o editor não poupa críticas à sua própria gestão nem à forma como os pequenos livreiros, “os poucos independentes que ainda restam”, trabalham: “Eu não sou o último dos livreiros, sou apenas um dos últimos. E o que vejo é que, mesmo sendo uma comunidade pequenina, cada um cultiva o seu quintal, sem olhar para os outros, o que não ajuda. Numa altura em que os livros praticamente desapareceram das televisões, em que já não há suplementos especializados nos jornais, e em que nós não temos dinheiro para anunciar como fazem os grandes conglomerados de editoras, temos de nos juntar para criar um circuito alternativo.”
Desse circuito alternativo fariam parte, por exemplo, feiras espalhadas pelo país – “há tanta pequena cidade que não tem uma livraria…” –, com livros “a bons preços”, que poderiam incluir leituras com os autores e concertos. “Tenho a certeza de que cada um dos milhares de livros que aqui estão têm no mundo um interessado. Tenho a certeza de que com livrarias e editores independentes teremos um mercado do livro que arrisca mais.”
Uma casa sem livros
José Antunes Ribeiro tem 73 anos e uma vida dedicada aos livros, com uma passagem breve pela propaganda médica, “um engano” que só teve a vantagem de lhe trazer um amigo, o compositor e guitarrista Carlos Paredes. A escolha de carreira, reconhece, não foi a mais óbvia para quem nasceu numa aldeia entre Tomar e Ourém, numa casa muito humilde, educado por uma mãe austera de fortes convicções religiosas, que o obrigava a rezar o terço todos os dias e que não sabia ler. “O meu pai, que trabalhava para a CP, lia alguma coisa, mas nós só tínhamos três livros lá em casa: um com uma ida à lua, que naquela altura só podia ser ficção, outro do Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra, e um outro, que nunca compreenderei como lá foi parar de tão erudito, Décadas da Ásia, de João de Barros [considerado um dos primeiros historiadores portugueses, nascido ainda no século XV]. O do Júlio Verne, claro, era o meu favorito.”

Foi graças à professora Maria dos Anjos e às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que apareciam na aldeia de Alburitel de 15 em 15 dias, que se apaixonou pela leitura. “Ficava à espera que a carrinha da Gulbenkian chegasse a saltava logo lá para dentro. Eles traziam livros de propósito para mim e tudo.”
O percurso nos livros começou na livraria Obelisco, na Amadora, e passou também pela fundação da Assírio & Alvim, no início da década de 1970, embora hoje o seu nome nem sempre apareça associado à história desta editora que tanto tem feito pela divulgação dos grandes nomes da poesia portuguesa e que desde 2012 integra o Grupo Porto Editora.
“No começo, a Assírio era uma editora muito contestatária”, diz, recordando que os primeiros comunicados que saíram da intersindical foram lá impressos. A contestação era, aliás, algo que partilhava com a Ulmeiro, que José Antunes Ribeiro cria em 1970. A edição, diz, via-a – parece vê-la ainda – como uma forma de militância.
Assumindo-se como um homem claramente de esquerda, nunca foi filiado em partido algum, mas sempre deixou claras as suas convicções, assinando em 1965, por exemplo, o manifesto contra a guerra colonial, em que o grupo dos chamados católicos progressistas, de que também faziam parte Nuno Teotónio Pereira, João Bénard da Costa ou Luís Salgado de Matos, denunciavam a cumplicidade entre a Igreja e o regime no que dizia respeito à guerra em África.
Por isso a Livrarte, que começou por ser o Espaço Ulmeiro, foi, desde que abriu, em 1969, um território de debate e de encontro entre escritores, artistas, poetas, críticos e outros intelectuais que se opunham ao Estado Novo. Nas suas tertúlias, onde se podiam encontrar músicos como Carlos Paredes, José Afonso e Vitorino, autores como Luiz Pacheco e Agostinho da Silva, discutia-se política “sem limitações”, conta.
A sua aposta na edição – “a militância contra a guerra colonial orientou muitas das escolhas”, diz – passava por autores africanos que considerava fundamentais para pensar a relação Europa-África, numa altura em que o governo português insistia “na ideia de um império ultramarino, contra tudo e contra todos”.
Esta atitude de resistência fazia com que, no final dos anos 1960, início dos 70, a PIDE, a polícia política do Estado Novo, entrasse com frequência na Ulmeiro e levasse edições inteiras, muitas vezes sem sequer um auto de apreensão. “Era uma coisa completamente abusiva e sem critérios minimamente lógicos. Eu costumava dizer que a trindade era sempre a mesma – Lenine, Estaline e Racine”, brinca José Antunes Ribeiro, garantindo que a terminação dos nomes dos autores e os títulos das obras, por mais inócuo que fosse o seu conteúdo, contava muito. A prová-lo, exemplifica, estão dois dos livros que a polícia do regime apreendeu: A Vida de Nijinsky e O Betão Armado. “Podia ser um livro técnico, de Engenharia, mas tinha 'armado' no título. E, para eles, o Nijinsky [bailarino e coreógrafo russo de origem polaca que foi um dos maiores e mais trágicos nomes da dança do século XX] só poderia ser um perigoso comunista, assim como o Racine [poeta e dramaturgo francês do século XVII]. A censura não olhava para o que lá estava escrito.”
Nesses anos, explica, a Ulmeiro era relevante em termos de “resistência e contestação” pelo que editava, mas também pelo que distribuía na língua original, sobretudo no que toca à literatura em castelhano, de autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar.
Em tribunal por um livro
José Antunes Ribeiro, que colaborara com jornais e revistas como oComércio do FunchalO Tempo e o Modo O Diário de Lisboa,publica o primeiro livro na Ulmeiro em Janeiro de 1970Isto Anda Tudo Ligado, do jornalista e poeta Eduardo Guerra Carneiro, foi o título inicial da colecção Cadernos Peninsulares, que haveria de continuar com A Poesia Deve Ser Feita por Todos, obra de Carlos Loures que viria a figurar na extensa lista de obras da editora que foram apreendidas.

Entre os livros que editava e os que vendia na livraria, títulos houve, no entanto, que a PIDE terá considerado como ainda mais desafiadores do regime e dos seus valores, como Portugal Sem Salazar, de Mário Mesquita, O Casamento dos Padres, do padre Felicidade Alves, eAntologia das Mulheres-Poetas Portuguesas, organizada pelo também poeta António Salvado, que neste volume tinha a “veleidade” de mostrar, diz José Antunes Ribeiro, “que o lugar da mulher portuguesa não era a cozinha, ao contrário do que defendia o Estado Novo”.
A polícia chegava a levar 2500 livros, o que acaba por afectar economicamente a editora, recorda. “Queriam acabar com a editora e a livraria. E depois levavam-me também. A minha mulher ficava em pânico, mas a conversa era sempre a mesma: ‘Você é um comunista disfarçado de comerciante’, diziam-me eles.” Numa das vezes, “só para desafiar”, recusou-se a assinar o relatório da sua detenção, justificando-se com o facto de o português em que estava escrito ser mau de mais.
As apreensões foram muitas, mas nenhum dos livros da Ulmeiro, ou por ela distribuídos, teve tanta exposição mediática como o que levou o editor a tribunal militar. E já no pós-25 de Abril. Massacres na Guerra Colonial: Tete, um exemplo, volume com organização, introdução e notas de José Amaro, poeta e jornalista, foi publicado em 1976 e reúne um conjunto de documentos marcados como “secretos” e que dizem respeito a operações das tropas portuguesas na província de Tete, na região central de Moçambique, em Dezembro de 1972. Massacres “desde sempre negados e dissimulados pelo Governo português”, lê-se nas primeiras páginas, e que deixaram para trás centenas de mortos, muitos deles mulheres e crianças.
“Ainda hoje me orgulho de ter editado esse livro. Ainda hoje me lembro bem de algumas passagens dos relatórios dos padres que deram conta dos massacres, da crueldade dos militares… É muito difícil esquecer as imagens que esses relatórios nos obrigam a criar na nossa cabeça”, acrescenta José Antunes Ribeiro, lembrando que o processo em tribunal acabou com ele amnistiado porque o que era preciso, diz, era tirar o livro e o que nele se mostrava das páginas dos jornais. “A imprensa pegava muito naquilo para responsabilizar os militares que tinham sido coniventes com o regime e o que interessava era calar-nos. Irritado, na altura, eu cheguei a dizer que queria ser absolvido ou condenado – que uma amnistia não era nada.”
Teotónio Pereira e frei Bento Domingues estavam entre as suas testemunhas de defesa, num julgamento que foi militar porque os documentos que a edição reproduzia deviam ter permanecido secretos. “Ainda hoje há muita coisa por discutir dessa guerra”, defende, com o espírito inquieto e insatisfeito que diz ser uma das marcas da sua personalidade. “Mas se calhar há quem ainda não esteja pronto para essa discussão.”
A Ulmeiro continua
Só “dentro de uma ou duas semanas” é que José Antunes Ribeiro saberá se tem condições para manter a livraria aberta em Benfica. Tem propostas para a levar para outras paragens, mas preferia ficar no bairro. Para já, a única certeza é a de que a editora, que publicou o seu título mais recente há já cerca de seis anos, vai continuar. Com ela gostaria de publicar ainda alguns dos seus autores de sempre, como Antero de Quental, Hélia Correia, Marguerite Duras e Ruy Belo.

Para fazer um bom livro, diz, o escritor não precisa de ter apenas uma boa história – “os melhores livros não têm só uma história, têm muitas, mesmo quando não parece” , precisa de dominar a sua gramática, que não é só a da língua. O que é a gramática do livro? “Uma série de recursos, de conhecimentos, que o autor vai sedimentando depois de ter lido muitos outros. Não conheço nenhum grande escritor que não seja um grande leitor.”
Para já, José Antunes Ribeiro tem praticamente pronta uma nova revista, dirigida pelo poeta e pintor Hugo Beja, “homem de ciência que Portugal infelizmente não conhece como devia”, e que reúne poesia, conto, ensaio e desenho, tendo neste primeiro número colaboradores como Lídia Martinez, Juan Carlos Mestre, António Serra e Mário Rui Cordeiro.
Esta publicação, cujo lançamento não está ainda marcado, vai chamar-se O Voo da Coruja, a lembrar uma casa no meio da floresta, onde durante mais de 20 anos José Antunes Ribeiro criou estas rapinas que, diz ele, não se podem domesticar. “São como eu, sempre inquietas.” 
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/os-livros-nao-tem-prazo-de-validade-1725975?page=-1

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Porto ~ Livraria Lello e Irmão



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Por Nelson Garrido

 




27.01.11 Por Susana Cruto
É considerada uma das mais belas livrarias do mundo. A centenária Lello é uma instituição do Porto e é já visita obrigatória para quem vem de fora.

Entra-se e há livros... muitos livros. Um local onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam numa escadaria vermelha, que sozinha conta histórias e ilustra imagens. Na Rua das Carmelitas, no Porto, a Livraria Lello & Irmão faz na próxima quinta-feira 104 anos e já mostrou a quem por lá passa que é mais do que uma loja de instrumentos de leitura.
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Perto da ala nocturna da Rua das Galerias de Paris, onde os mais jovens acolhem a noite com risadas e euforia, está a requintada e histórica livraria - uma segunda casa para muitos, um ponto de visita para outros.
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Tacos de madeira, organizados, compõem o chão que os nossos pés pisam levemente. Dois andares e uma união arrebatadora: uma longa e característica escadaria vermelha. São mais de 120.000 títulos que embelezam este local de grande culto nas mais diversas áreas e línguas.
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Um refúgio sem dúvida hospitaleiro que faz parte da memória de Beatriz Pacheco Pereira desde criança. Fundou o Fantasporto, escreve sobre o Porto e luta pela cidade Invicta. "É uma livraria que me acompanha, mas tem um defeito grande. Entra-se atraído pelas montras, sempre cuidadas, mas depois há um momento de esplendor que nos faz esquecer por que entramos, o livro da montra que iríamos comprar. E talvez estes deslumbres sejam maus para o negócio dos livros", partilha. Mas também tem uma qualidade. "Continua a ser uma livraria a sério, como já não há muitas na cidade. Requintada, solene, um templo do livro e do saber. Magnífica. E, para raiva de muitos, no Porto...E o ambiente? Calmo, nada tecnológico e industrial. Entre o sublime e o realista."
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A Lello é um recanto sagrado, onde os livros fazem viajar a lugares encantados. Entramos num mundo cheio de pormenores que embelezam o número 144 da Rua das carmelitas. Em estilo neo-gótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da livraria. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência.
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Um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração imponente. Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado. À esquerda e à direita, nos longos pilares, distinguem-se os ilustres homens das letras, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Teófilo Braga ou Guerra Junqueiro. E se é do tempo do filme O Xangô de Baker Street recorde-se que aqui foram filmadas algumas cenas desse filme baseado no romance de Jô Soares.
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Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. Mas António Pedro Ribeiro não é de representar. Entrou pela primeira vez na livraria há cinco anos e ficou impressionado. Um poeta e cronista do Porto que invade poucas vezes a livraria, mas que já conseguiu traçar uma caracterização bastante poética. "A Lello é um espaço aberto ao leitor e à leitura. Um hino ao livro e à leitura. E é mais do que uma livraria. É uma maravilha da arquitectura. Uma casa do livro, do convite à leitura e do convívio entre leitores", qualifica.
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O aspecto arquitectónico chama logo à atenção a quem seja ou não arquitecto. Mas os especialistas da matéria têm mais a dizer. São amigos de longa data, mas foi há sete anos que Vasco Morais Soares, arquitecto da Lello & Irmão, convidou António Fuentes Flores a visitar a reabilitação que tinha concretizado. Veio do México, pisou a obra histórica e não escondeu que ficou encantado. E comenta, sem rodeios, as virtudes desta obra. "É um espaço bonito, muito bem feito, que preserva e respeita o seu estilo original, com trabalho de madeira também fantástico nas prateleiras. A escada central iluminada e um vidro manchado magnífico, assim como as inovações tecnológicas do seu tempo, como o carrinho de faixas para o transporte dos livros, são pormenores belos. Eu não me atreveria a mudar alguma coisa neste espaço", refere.
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A Lello & Irmão é considerada a livraria mais antiga de Portugal. Está no Porto desde 1881 e fica num prédio com vitrais, painéis, colunas e com uma escadaria no centro. "A principal, e extraordinária característica do edifício, é singular. Nunca se ouviu dizer que é parecido com..." - é assim que José Manuel Lello, um dos responsáveis da livraria, começa a descrição deste mundo dos livros. Já conhece os turistas e consegue revelar algumas das reacções a este espaço. "Os turistas, além de ficarem espantados à entrada - embora a conheçam de fotografias, querem conhecer o espaço ao vivo -, procuram livros sobre Portugal, o Douro, Vinho do Porto, azulejos, guias turísticos, literatura portuguesa traduzida na sua língua, e também recordações da livraria - brochura com a história, postais, etc.", conta.
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Há quem diga ao ouvido que, se a Lello fosse uma pessoa, poderia ser um filósofo aristocrata ou até mesmo Salomé, segundo os desenhos de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde. Mas há quem vá mais longe e consiga relatar um dia completo desta mulher. Inês Botelho é autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005) e narra assim um dia desta mulher Lello: "Vinha todos os dias sentar-se na esplanada, a figura elegante, mas nunca totalmente correcta. Na roupa de corte irrepreensível, entre o clássico e o moderno, havia uma bainha dobrada, ou uma pequena nódoa de tinta-da-china, ou um ombro deformado pelo peso da pasta sobrelotada de livros, revistas, jornais." E deixa correr a imaginação: "Ou então era o cabelo, bem penteado mas desgrenhado pelo vento, ou pelos dedos que o levantavam e enrodilhavam num gesto inconsciente. Ou talvez se limitasse a um excesso de perfume, um odor demasiado intenso a lavanda que lembrava prados junto a um castelo granítico após uma manhã de temporal, ou uma fragrância forte, a tender para o doce e a convocar noites quentes em cafés vagamente orientais." Mas põe um travão na fantasia e termina: "Algo incerto, imprevisível. Pequenas preciosidades, como os berlindes, canetas, flores secas, caderninhos que numa ou noutra ocasião lhe caíam dos bolsos."
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E se um dia for editado algum livro sobre a história da livraria, Beatriz Pacheco Pereira escreveria assim no prefácio: "Nasceu neogótica como era a grande moda do século XIX, com ares de Walter Scott, com toques pré-rafaelitas. Depois assumiu-se local de saber e do livro, depois local de romagem nostálgica ou divertidamente turística. Há uma confluência mágica na Lello."