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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ainda o domingo na poesia

 * Manuel Alegre – Poemarma
* Alfred Lichtenstein - Domingo à tarde
* Vinicius de Morais - Soneto de um domingo
* ferlumbras - Domingo à noite merece um poema
* Cazuza -  QUERIDO DIÁRIO (TÓPICOS PARA UMA SEMANA UTÓPICA)
* Jorge de Sena - Lisboa um domingo
* Alda Lara - AS BELAS MENINAS PARDAS
* Chico Buarque - Deus lhe Pague
* Fernando Namora - Foi hoje um domingo Bonito
* Cecília Meireles - Domingo na praça
* Federico Garcia Lorca – DEMONIO
* Rui Belo - Emprego e Desemprego do Poeta
* Eugénio de Andrade - Pequena elegia chamada domingo
*  Manuel Alegre - COMO OUVI LINDA CANTAR POR SEU AMIGO JOSÉ
* António Gedeão - Poema de Domingo

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* Manuel Alegre

Poemarma


 Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua
.
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas .

Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.



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* Alfred Lichtenstein

Domingo à tarde


Em ruas podres acampa o casario,
Sobre cuja bossa baço sol clareia.
Um cão de luxo perfumado e com cio
Atira ao mundo olhares de quem esgazeia

De fraldas cheias gritam bebés zangados.
Numa janela, a apanhar moscas, está um moço.
Um comboio no céu, sobre ventosos prados,
Vai pintando lento e longo traço grosso.

Como máquinas matraqueiam ferraduras.
Cheios de pó chegam ginastas ruidosos.
Lançam-se gritos brutais de tascas escuras.
Mas são cortados por inóspita maviosos.

Nos lupanares, onde s atletas lutam,
Difuso entardecer já tudo engole.
Um realejo uiva e criadas cantam.
Um homem esmaga mulher podre e mole.

A tradução portuguesa do poema é de João Barrento.
~in http://viciodapoesia.wordpress.com/2013/03/10/domingo-a-tarde-o-poema-de-alfred-lichtenstein-com-paisagens-urbanas-de-egon-schiele/

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* Vinicius de Morais

Soneto de um domingo


Em casa há muita paz por um domingo assim.
A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai...
Esqueço de quem sou para sentir-me pai
E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim,

Um relógio bater, e outro dentro de mim...
Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai
Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai
A despeito do vento e da terra que é ruim.

Na verdade é o infinito essa casa pequena
Que me amortalha o sonho e abriga a desventura
E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena.

Deus que és pai como eu e a estimas, porventura:
Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena
Levando apenas esse pouco que não dura.


Rio de Janeiro, 1944.

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Enviado por ferlumbras
em 23/04/2012 00:51:1

Domingo à noite merece um poema.


Domingo à noite merece um poema.
Desses com gosto de vômito e cinzas de cigarro.
Desses com gosto de goza feminina.
Domingo à noite merece tristesse, blues e barbarismos.

Ah, quem me dera incorporar Manuel Bandeira,
Bukowski, algum poeta maldito,
Algum poeta desconhecido,
Quem me dera ser eu mesmo por mais um verso,
E mandar tudo pro Diabo com uma caligrafia de médium!

Mandar o amor, a paixão, as ilusões,
Livros e mais livros sobre São Foucault,
Sobre a Perestroika e os puteiros da Lapa,
Lançar tudo no inferno junto com meus sonhos não satisfeitos
E meus Deuses Desconhecidos!

Quem me dera cuspir toda essas palavras na folha
Para que sujem a superfície dela como sangue:
Sangue que não se saiba donde veio.
Sangue que não se saiba de quem veio.
Menstruação de algum anjo.

Um dia qualquer já fomos gente,
Já fomos pessoas em algum momento dessa vida trágica.
Hoje somos apenas pessoas esperando que o Domingo à noite passe,
Esperando que alguma peça grega já não nos tenha traduzido,
Que algum poeta latino já não nos tenha amaldiçoado em versos.

Nesse momento, que passa despercebido como a Lua,
Estamos aqui, esperando que o fim do mundo chegue.
Então tenhamos pressa!
Antes que a Hora Que Ninguém Sabe seja agora,
E não tenhamos bebido a saideira das saideiras!
Quem sabe a Morte, de salto alto e cabelos soltos,
Não nos acompanhe na privada gorfando o nosso último gole?


Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=220136#ixzz2he9mdMLR
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

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* Cazuza

QUERIDO DIÁRIO
(TÓPICOS PARA UMA SEMANA UTÓPICA)

Segunda-feira:
Criar a partir do feio
Enfeitar o feio
Até o feio seduzir o belo

Terça-feira:
Evitar mentiras meigas
Enfrentar taras obscuras
Amar de pau duro

Quarta-feira:
Magia acima de tudo
Drogas, barbitúricos
I Ching
Seitas macabras
O irracional como aceitação do universo

Quinta-feira:
Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção do surdo
Falar com os olhos e as mãos
Como fazem os mudos

Sexta-feira:
Assunto de família:
Melhor fazer as malas
E procurar uma nova
(Só as mães são felizes)

Sábado:
Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres

Domingo:
Não pisar em falso
Nem nos formigueiros de domingo
Amar ensina a não ser só
Só fogos de São João no céu sem lua
Mas reparar e não pisar em falso
Nem nas moitas dos metrôs nos muros
E esquinas sacanas comendo a rua
Porque amar ensina a ser só
Lamente longe, por favor
Chore sem fazer barulho


http://pensador.uol.com.br/poemas_cazuza/

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* Jorge de Sena

Lisboa um domingo

              1
Dominical a rua
e branco de silêncio
Agosto varre o sol
e papéis velhos das
soleiras carcomidas
por beirais de sombra.
              2
Não nada
e que fica
só mentira
alheia.
Não há nos defenda:
perfídia
alheia.
Que resta
e o durar mais
só como queira
maldade alheia.
               3
Um vento que ouço de árvores:
nenhuma voz humana.
Ninguém me ouve ninguém:
um vento que ouço de árvores.
               4
Do alto da ponte
encostas de cidade
e prata rio e mar.
               5
Rapazes conversam
em gritos grosseiros.
Silêncio de alegres mortos.
                                           (26/8/1973)

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/poesia/o-exilio-e-as-patrias/

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* Alda Lara

AS BELAS MENINAS PARDAS

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos>>>

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trabajadas.
Direitinhas. Aprumdas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/angola/alda_lara.html

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* Chico Buarque

Deus lhe Pague

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague

Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra fomentar e um samba pra distrair

Deus lhe pague

Por essa praia, essa saia, pelas essas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi

Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Por mais um dia de, agonia, pra suportar a assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir

Deus lhe pague

(Da ópera Vai Trabalhar, Malandro)

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* Fernando Namora

Foi hoje um domingo Bonito


Foi hoje um domingo bonito, Cacilda!
A sanfona correu o lugar de lés a lés.
- Quem deu pelas histórias dos velhos?
Ninguém.
Quem ouviu a fome do gado, preso no curral?
Ninguém.
Quem espantou as galinhas, debicando nos cachos?
Ninguém.
Na venda, houve surra, abriram cabeças.
E farnéis na charneca e dança
no sobrado da tua avó.
O brasileiro trouxe aquela caixa que tem música
e modas di lá.
Tudo foi bonito, Cacilda!
Vem banhar-te na alegria


http://textosdepoesia.wordpress.com/2013/08/04/foi-hoje-um-domingo-bonito-fernando-namora/

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* Cecília Meireles

Domingo na praça


Em três altas ondas a fonte desata
na negra bacia
suas longas madeixas de prata.

Entre o lago e as flores, desliza alegria
nas areias quietas:
cantos de ciranda, sapatinhos brancos,
aros velozes de bicicletas.

Depois dos canteiros, dois a dois, sentados,
falando em sonho, sonhando acordados,
os namorados enamorados
dizem loucuras, pelos bancos.

Ah, Deus, - e a grande lua antiga,
que volta de viagens, saindo do oceano,
ouve a alegria, ouve a cantiga,
ouve a linguagem de puro engano,

ouve a fonte que desata
na negra bacia
novas madeixas de prata ...

As águas não eram estas,
há um ano, há um mês, há um dia ...
Nem as crianças, nem as flores,
nem o rosto dos amores ...

onde estão águas e festas
anteriores ?

E a imagem da praça, agora,
que será, daqui a um ano,
a um mês, a um dia, a uma hora ? ...

das penas adormecidas.
Deixa o amanhã.


http://ceciliameireles2009.blogspot.pt/2009/06/domingo-na-praca.html


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* Federico Garcia Lorca.

DEMONIO

Quia tu es Deus, fortitudo mea,
quare me sepulisti?
et quare tristis incedo dum
affligit me inimicus?

Honda luz cegadora de materia crujiente,
luz oblicua de espadas y mercurio de estrella,
anunciaban el cuerpo sin amor que llegaba
por todas las esquinas del abierto domingo.

Forma de la belleza sin nostalgias ni sueño.
Rumor de superficies libertadas y locas.
Medula de presente. Seguridad fingida
de flotar sobre el agua con el torso de mármol.

Cuerpo de la belleza que late y que se escapa.
Un momento de venas y ternura de ombligo.
Amor entre paredes y besos limitados,
con el miedo seguro de la meta encendida.

Bello de luz, oriente de la mano que palpa.
Vendaval y mancebo de rizos y moluscos.
Fuego para la carne sensible que se quema.
Níquel para el sollozo que busca a Dios volando.

Las nubes proyectaban sombras de cocodrilo
sobre un cielo incoloro batido por motores.
Altas esquinas grises y letras encendidas
señalaban las tiendas del enemigo Bello.

No es la mujer desnuda ni el duro adolescente
ni el corazón clavado con besos y lancetas.
No es el dueño de todos los caballos del mundo
ni descubrir el anca musical de la luna.

El encanto secreto del enemigo es otro.
Permanecer. Quedarse en la luz del instante.
Permanecer clavados en su belleza triste
y evitar la inocencia de las aguas nacidas.

Que al balido reciente y a la flor desnortada
y a los senos sin huellas de la monja dormida
responda negro toro de límites maduros
con la flor de un momento sin pudor ni mañana.

Para vencer la carne del enemigo bello,
mágico prodigioso de fuegos y colores,
das tu cuerpo celeste y tu sangre divina
en este Sacramento definido que canto.

Desciendes a la materia para hacerte visible
a los ojos que observan tu vida renovada
y vences sin espadas, en unidad sencilla,
al enemigo bello de las mil calidades.

¡Alegrísimo Dios! ¡Alegrísima Forma!
Aleluya reciente de todas las mañanas.
Misterio facilísimo de razón o de sueño,
si es fácil la belleza visible de la rosa.

Aleluya, aleluya del zapato y la nieve.
Alba pura de acantos en la mano incompleta.
Aleluya, aleluya de la norma y punto
sobre los cuatro vientos sin afán deportivo.

Lanza tu Sacramento semillas de alegría
contra los perdigones de dolor del Demonio,
y en el estéril valle de luz y roca pura
la aguja de la flauta rompe un ángel de vidrio.


http://www.versos.net/federico_garcia_lorca/oda_al_santisimo_sacramento_del_altar/demonio.html

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* Rui Belo

Emprego e Desemprego do Poeta

Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
http://www.citador.pt/poemas/emprego-e-desemprego-do-poeta-ruy-belo


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* Eugénio de Andrade

Pequena elegia chamada domingo

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.


http://cercarte.blogspot.pt/2009/05/pequena-elegia-chamada-domingo-eugenio.html

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*  Manuel Alegre

COMO OUVI LINDA CANTAR POR SEU AMIGO JOSÉ

Se sabeis novas do meu amigo
novas dizei-me que vou morrendo
por meu amigo que me levaram
num carro negro de madrugada.

Dizei-me novas do meu amigo
em sua torre tecendo os dias
dai-me palavras pra lhe mandar
com ruas brisa domingos sol.

Se sabeis novas de meu amigo
novas dizei-me que desespero
por meu amigo que longe espera
tecendo os dias tecendo a esperança.

Mando recados não sei se chegam
leva-me ó vento da noite triste
ou diz-me novas de meu amigo
que tece o tempo na torre negra.

Que tece o tempo que tece a esperança.
Já da ternura fiz uma corda
ó vento prende-a na torre negra
que meu amigo por ela desça.

Por essa corda feita de lágrimas
que meu amigo por ela desça
ou mande a esperança que vai tecendo
que desespero sem meu amigo.


Manuel Alegre, Praça da Canção/O Canto e As Armas, 1.ª ed. de bolso, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, pp. 85-86.

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* António Gedeão


Poema de Domingo

Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

- Antônio Gedeão, in "Novos poemas póstumos", (Sá da Costa Ed., 1990), in "Poesia Completa" (Sá da Costa Ed., 1996)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

poesia sobre a AUSÊNCIA (1)


POESIA SOBRE A AUSÊNCIA

Vinícius de Morais – Ausência
Carlos Drummond de Andrade – Ausência
Carlos Drummond de Andrade – A um ausente
Alberto Caeiro – O amor é uma companhia
Jorge Luís Borges – Ausência
André Díspore Cancian – Ausência
Mano Terra – O vazio da ausência (poesia gaúcha)
Carlos Drummond de Andrade - Memória
Roberto Pontes - Ars Superandi
Roberto Pontes – Os ausentes
Sofia de Melo Breyner Andresen – Ausência
Pablo Neruda – Ausência
David Moya Posas – Poema da ausência
Victor Nogueira - Liberdade
Victor Nogueira – Todo o dia esperei por ti


Vinícius De Moraes


Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus
dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no
espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

.
MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.
.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
A um ausente
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
.
Frases Sobre a Ausência

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.


Fernando Pessoa
.

O amor é uma companhia
Alberto Caeiro

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.


Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
.
Ausencia


Jorge Luis Borges


Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,






*****
Ausência

André Díspore Cancian
Estão mortas as crenças
O carrasco foi a razão
Estão mortos os sonhos
O veneno foi solidão
Desfeitas as ilusões
A golpes de integridade
Desfeitas as esperanças
A golpes de sobriedade
No coração uma pedra
Por amar a verdade
Nos olhos a mágoa
Por sua frialdade
Na boca o amargor
De viver sem sentido
No peito o vazio
De viver sem sentir
Nas costas o fardo
De toda a inteligência
Na face a vergonha
De toda a demência
Na vida somente o peso
De uma constante ausência
Na morte somente o fim
Desta vã resistência
.
O Vazio da Ausência


Mano Terra


Hoje a tristeza pealou-me
e a dor está dentro do peito.
O luto se impõe por respeito
e como um ritual entre os homens.
Peço a Jesus, santo nome,
e a sua mãe, Nossa Senhora,
que me amparem nessa hora.
Preciso reunir coragem
pra enfrentar essa passagem
até que essa dor vá-se embora.

Perdi um pedaço de mim
num forte golpeio da morte.
Fiquei quase sem suporte
diante da hora do fim.
Perder quem se ama, assim,
no más, mui de repente,
desmancha por dentro a gente,
arrancando as fibras da alma.
Contrariado, perco a calma,
não consigo aceitar, simplesmente.

A morte é a senhora Maldade,
que chega sempre ao disfarce
e não se contenta em fartar-se
na mais feroz crueldade.
Deixa viuvez e orfandade
quando passa e sacrifica.
Não argumenta, não se explica,
vai logo fazendo o aparte.
Deixa um vazio quando parte
e nem liga pra quem fica.

Dói muito esta dor supradita.
O coração despedaça.
Em nada mais acha graça
aquele que a morte visita.
Parece uma sina maldita
chorar a perda de alguém.
Não há neste mundo, ninguém
que se escape dessa hora:
por pai, irmão, filho ou por nora,
acaba chorando também.

Esse pedaço de pano
negro como a noite mais escura,
é sinal de desventura
pra quem, no seu quotidiano,
já perdeu um ser humano.
O preto é a ausência da cor,
sinal de recolhimento e dor
.
É o pesar do extremo tributo
que a morte cobra com o luto
na conta corrente do amor.

Eu já perdi um punhado
dos meus entes mais queridos.
O meu peito está ferido,
o coração despedaçado
e o vazio sempre ampliado.
Foi-se embora pro além-mundo
gente de valor mui profundo
na seara da fé e da cultura.
Enfeitou-se a sepultura,
ficou mais pobre este mundo.

Foram muitos os viajores,
uns do sangue e outros não.
Foi-se o pai, a mãe, o irmão,
os amigos, poetas, cantores,
mestres e professores...
É verdade, outros chegaram
e pouco a pouco ocuparam
em parte o espaço vazio.
Mas, a dor tem efeito tardio
e as penas até se agrandaram.

Nesses tempos mais recentes,
a lista ficou maior.
E a gente sabe de cor
todos os nomes dos ausentes.
O Honeide, certamente,
o Boca, o Rillo, o Cenair,
também o Noel Guarani,
o Passarinho e a passarada,
o Jaime Caetano, a payada,
e outros que não esqueci.

O Bertussi foi na frente
e levou a gaita na presilha.
O cancioneiro das coxilhas
ficou no ouvido da gente
como alvorada permanente
do verso com alma brava
e um ronco de mamangava
tirando touro do mato.
Enquanto o pago maragato
pra vigília se aprontava.

A guitarra ao desatino
borda um canto-choro de rio.
Ainda se ouve o assobio
na boca de algum menino
pra que o vazio do destino
não seja tão fundo, quiçá.
E a voz do Cenair Maicá
parou no meio do verso.
Uma bugra reza o terço
enquanto canta um sabiá.

O Marco Aurélio, apressado,
se calou antes da hora.
Sem avisar, foi-se embora,
nem mesmo deixou recado.
Não tinha motivo, o danado,
pra partir antes do dia.
A guitarra em agonia
registra ainda o seu verso.
Pra ser feliz no universo,
ele fez a travessia.

O Rillo, também de repente,
disse adeus e se mandou.
Parece que se mudou
e não disse nada pra gente.
O céu recebeu um presente,
ganhou importância o bolicho.
O vazio que deixa Aparício,
é a dor da eterna saudade.
Que as asas da eternidade
conduzam esse bom patrício.

O Noel Guarany ensaiou,
repetiu, resistiu,
ficou até que o pavio
da lamparina acabou.
Mas, nem assim aliviou
a dor que fere na marra.
As milongas e a algazarra,
pararam em rito silente.
Foi-se o índio e a vertente,
o payador, o campo, a guitarra.

Outro que teve pressa
foi o César Passarinho.
Deixou a meio caminho,
uma canção e uma promessa.
O negro interrompe a peça
na gaita que o pai deixou.
O guri, de tristeza chorou.
Ficaram milongas, bugios...
Que também não tapam o vazio
que a sua partida cavou.

Assim, no más, mui temprano,
foi-se o outro missioneiro,
versejador galponeiro
e payador, Jaime Caetano.
Até o vento minuano
chorou em lamento dolente.
Acende-se a estrela do poente
com nome, com luz e alvor.
É o Caetano Braun, payador,
que agora brilha pra sempre.

Também o Leopoldo Rassier
bateu na marca e se foi.
Fica o mugido do boi
e os gritos de oigaletê.
Jamais saberemos por quê,
por que saberemos jamais
vão-se aos poucos os imortais.
Na lista das perdas imensas
a morte se faz extensa
e a cada pouco cresce mais.

Payadas, canções, sapucais
ficam gravados nas mentes.
As cachoeiras e as vertentes.
As lagoas, os mananciais.
Os ecos dos madrigais
e os caminhos tracejados,
serão luzes e raiados,
rastreando clarões e orientes.
E as gerações descendentes
têm um tesouro guardado.

O cemitério, ao meu juízo,
parece mais enfeitado.
Mas, o que está engalanado
com certeza é o paraíso.
E eles, lá, de sobre-aviso
alumbram a rosa-dos-ventos.
E todos nós com sentimento,
rezamos por nossos ídolos.
E reforçando esses símbolos,
fica este verso em lamento.

Que o céu seja o paradeiro,
de todos por recompensa.
Por seu exemplo e presença,
o nosso respeito primeiro.
São Pedro, virtuoso posteiro,
das estâncias do outro lado
já pode fazer o preparado
p'ras tertúlias celestinas,
em noites de rimas divinas
com seus novos convidados.

Enquanto não chega o meu dia
de partir pro outro lado,
pra juntar-me ao convidados
dessa eterna Sesmaria,
quero ter a serventia
de, ao menos, poder trovar.
E na minha trova, rezar
por todos meus entes queridos
que um dia tenham partido
na frente pra me esperar.

Eu não sei quando me vou,
pois não tem hora marcada.
Quero a alma transbordada
pelas riquezas do amor.
Fortuna que o Deus Criador
reservou a todos mortais
(e são tantos seus sinais):
SÓ SE LEVA QUANDO PARTE,
AQUILO QUE SE REPARTE
E QUE, AO REPARTIR, CRESCE MAIS!

Poesia gaúcha
.


Anexo -

- por Elizabeth Dias Martins

Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
5 5 contra o sem sentido
apelo do não
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
10 10 Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade

Ars Superandi
Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.
C.D.A.
Não sendo lindas
As coisas findas
Devem ficar
Soltas no ar.
5 5 Não asão bem-vindas.
São como aindas
A dissipar
Em qualquer bar.
E se são findas
10 10 Quais as razões
De assim trocar
Coisas florindas
Por ilusões?
– Deixá-las ‘tar.
Roberto Pontes
Os ausentes
Ao Frei Tito
Os ausentes necessitam sempre
bilhetes, cartas e coisas
vezes pequenas lembranças
uma gravata, um poema, um postal.
5 5 Os ausentes são tão necessitados
que ninguém os lembra
nem só por saudade ou falta
Os ausentes têm mãos invisíveis
e figura tão diáfana
10 10 que os versos para eles
já nascem feitos poemas.
Os ausentes por qualquer acaso
jamais fogem ao nosso convívio
ainda que a distância seja tanta.
15 15 Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro, irreal.

Roberto Pontes


- Sítio Virtual Pernambucano da Poesia Contemporânea de Língua Portuguesa
.

AUSÊNCIA - SOPHIA de MELLO BREYNER ANDRESEN
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
.
PABLO NERUDA
Ausencia

Apenas te he dejado,
vas en mí, cristalina
o temblorosa,
o inquieta, herida por mí mismo
o colmada de amor, como cuando tus ojos
se cierran sobre el don de la vida
que sin cesar te entrego.
Amor mío,
nos hemos encontrado
sedientos y nos hemos
bebido toda el agua y la sangre,
nos encontramos
con hambre
y nos mordimos
como el fuego muerde,
dejándonos heridas.
Pero espérame,
guárdame tu dulzura.
Yo te daré también
una rosa.
.

POEMA DE LA AUSENCIA

David Moya Posas
 
Estoy lejos de ti, con el castigo
de verte renacer a cada instante.
Pues siento que entre más y más distante
estás, con mas amor vives conmigo.
 
Aún viviendo sin ti vivo contigo.
Te llevo como lágrima constante.
y si pretendo huir de tu agobiante
recuerdo, sin quererlo lo persigo.
 
lnútil ya lo sé que es todo intento
y aunque sienta la forma como siento
que vives reviviendo lo vivido.
 
Sé que al perderte a ti todo lo pierdo.
Si trato de olvidarme del recuerdo
comienzo a recordarme del olvido.

(Honduras)


*****
LIBERDADE
Victor Nogueira

A felicidade tem o travo amargo
..................de tudo aquilo que é finito
e no entanto distingo
..................por entre a multidão
o teu rosto alegre e o teu ar sereno!
Nas tuas mãos e nos teus dedos
.......................nasce uma criança
que sorri e corre dentro de mim.
Em silêncio junto as palavras
................percorro o teu corpo
................flexível e moreno.
Um rio enche a casa com o murmúrio de mil candeias
enquanto ouço e reconheço os teus passos.
Rio, choro e bailo contigo
quando assomas à porta e
..........busco o veludo dos teus lábios e do teu rosto.
Reparto contigo o pão sobre a mesa
e bebemos o vinho da esperança.
Tudo tem agora outra qualidade
.........................a qualidade do trigo em flor
........................................da brisa incandescente
........................................da sombra refrescante
........................................do sol sem ardor
E no entanto
para lá deste dia
moram o medo, a fome e a solidão
quando tu não estás.



[Victor Nogueira]
,


Todo o dia esperei por ti
.................alinhando o tempo em banho-maria
.................num fervilhar lento e calmo
submergindo a ebulição do meu sentir e pensar
Todo o dia tratei dos meus assuntos
................paguei as contas
................comprei livros
................passeei pela cidade
................temperei os bifes e trouxe o gelado
Todo o dia guardei em mim as mil-palavras
................«expressão» do meu sentir que tão bem conheces
................sem volta na ponta
................talvez maçadoras
Todo o dia estive contigo
...............retraindo o impulso de beijar os teus lábios
..............de afagar o teu rosto e cabelos
Todo o dia refreei a minha impaciência de subir ao Sol e á Lua e cobri-los de estrelas
Todo o dia estive nas tuas mãos
..............frágil como ave inquieta ou cana agitada pela brisa
.....................sem a fortaleza de saber que me queres
Todo o dia não permiti entusiasmar-me com a tua vinda
Todo o dia contei em silêncio os minutos
..............e as horas passaram lentamente
....................... .....................até ao teu telefonema
.............................................à tua voz triste
.............................................às palavras que não dissemos
.............................................à inquietação e desassossego que ficaram em mim
Todo o dia esperei por ti e dói-me a tua ausência!




___________


Fotografia retirada d'aqui deste blog pensadora2