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domingo, 3 de abril de 2016

MATT MARRIOTT – A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE – POR JOSÉ PIRES

Kuentro 2

sexta-feira, 13 de julho de 2012


MATT MARRIOTT – A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE – POR JOSÉ PIRES


Imagem no blogue The Crib Sheet, de Domingos Isabelinho

A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE 

Um autor inglês, de génio, que merece ser observado e compreendido por quem gosta de BD 

Por José Pires 

Quando mostrámos este projecto a um grupo de amigos nossos, houve alguém entre eles que opinou: "eu prefiro a tira original". Nada temos contra. Até eu preferia o formato original, a tira, pois esta série foi projectada e realizada para ser publicada num vespertino britâ­nico, o Evening News, e nos jornais, já se sabe, ou se publicam tiras diárias ou páginas dominicais. E no caso de Matt Marriott era a tira. Mas isso traria para nós um problema de resolução impossível. É que para publicarmos as tiras no seu for­mato original, a nossa publicação teria de aparecer em formato A3, e isso estragáva­-nos toda a nossa estratégia de publica­ção, que é o formato A4! Podíamos apre­sentar a coisa neste formato, claro, mas assim os esplêndidos desenhos de Tony Weare iriam aparecer muito mais reduzi­dos, diminuindo na mesma proporção a capacidade dos nossos leitores para ürarem todo o proveito da maestria deste génio da BD. 

No entanto, para todos aqueles que prefe­rem Matt Marriott no esplendor das tiras originais, recomendo a edição italiana da Ed C. Conti*, que respeita a série, tal como ela apareceu no vespertino inglês. O problema é que, para além de aparecerem com textos em italiano, o formato é o A3 (só podia!), o que torna números algo incómodos para se arrumarem numa estante. Lá terá de haver uma prate­leira especial.

Mas para pu­ristas, como aquele nosso amigo, não conheço nada melhor. A Ed. C Conti tem uma colecção de Matt Marriott muito completa e bem cuidada, que fará as delícias dos apreciadores do western de qualidade. É que as his­tórias de Matt Marriott, por terem sido publicadas em jomal, também possuíam, por isso mesmo, conteúdos mais adultos, diferentes em quase tudo das histórias de álbuns, cujo público consumidor é maioritariamente o juvenil. Esta série foi publicada em Portugal, na sua esmaga­dora maioria, no Mundo de Aventuras, formato A5! Ora aqui, para que os paginado­res conseguissem encai­xar as vinhetas de Tony Weare num formato tão re­duzido, desenhos havia que eram pura e simplesmente obliterados. E na sua quase totalidade surgiam ou ampoutados ou acrescentados de forma atroz, para preencherem páginas minúsculas, para as quais não haviam sido dimensionadas, roubando assim toda a magia dos maravilhosos enquadramentos que o seu autor usava para explanar as histórias de Matt Marriott! Era o exemplo mais acabado do velho ditado, “meter o Rossio na rua da Betesgal” Mas não obstante, a série obteve um sucesso notável, arregimentando uma verdadeira legião de admiradores, entre os quais eu próprio! 


Só quando Jorge Magalhães tomou conta da coordenação das publicações da Agência Portuguesa de Revistas, é que Matt Marriott surgiu no seu formato original, a tira, mas mesmo assim, em tamanho A4. Sempre era melhor do que a solução anterior, mas tinha um senão: os desenhos apareciam em forma­to bem mais reduzido do que os da versão original! 


Eis porque não nos restou outra solução que desmontar a tira e publicar os de­senhos num formato maior do que a ver­são do Evening News. Se é certo que se perde o detalhe da técnica narrativa da tira diária (que é diferente da publica­ção em álbum), ganha-se na superior observação que se oferece dos desenhos de Tony Weare. Quem perca um pouco de tempo a observar a maneira como ele resolvia os mais pequenos problemas de realização, vai aperceber-se da extraor­dinária genialidade do seu autor. E ga­ranto-vos que isso será um verdadeiro prazer para quem for um autêntico apre­ciador de BD. Da boa, claro, como é o caso deste western de eleição, para mim o melhor que até hoje se fez no género. Já mostrei numa intervenção anterior que Tony Weare se servia de referências foto­gráficas, inevitavelmente de fotogramas de cinema. É que aqueles enquadramentos, aquele espantoso jogo de sombras, aquelas atmosferas quase hiper-realistas são quase impossíveis de se conceberem de memória E Tony Weare tinha de esgalhar nada menos de três, diariamente, sába­dos e domingos incluí­dos! E durante mais de um quarto de século! Mas para melhor enten­derem aquilo que digo, reparem na vinheta ao lado. Os contornos do ca­valeiro em primeiro plano não existem, sendo a figura recortada pelos segundos planos, aqui, na sua maioria, o próprio céu. O mais espantoso é que, não obstante a atmosfera estar coberta de traços a toda a lar­gura, a imagem surge-nos impregnada de uma luminosidade quase ofuscante! Agora repa­rem bem na figura do cowboy em segundo pla­no: a chapada de luz que lhe bate nas costas é recortada pelas sombras intensas do lado não iluminado. Reparem na cabeça do respectivo cavalo Também ali não há linha de contorno, sendo este fornecido pelo contraste luz/sombra. Ora para obter efeitos como estes, tornava-se necessário um sério estudo prévio do que se pretendia fazer. E fazer isto com a regularidade com que Tony Weare fazia, é uma coisa de estarrecer! Não acham? Observem atenta­mente, então, os desenhos do resto da história. 







Não quisemos deixar de publicar aqui o texto de José Pires que apareceu num dos Fandaventurasdedicado a Matt Marriott ainda em formato A4 (A Pista de Chisolm), de Junho de 2008, assim como duas pranchas do mesmo. Todo este material (a transcrição do texto é nossa), assim como o do nº 6 – Série Especial – com o episódio As Culpas dos Pais, de Outubro de 2009, já em formato italiano, foi “pescado” no blogue de Geraldes Lino “Fanzines de Banda Desenhada”.
Original de Tony Weare, da colecção de Domingos Isabelinho, em exposição no VIII Festival Internacional de BD de Beja'2012.

O mesmo desenho no blogue The Crib Sheet, de Domingos Isabelinho

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BIOGRAFIA DE TONY WEARE

Tony Weare (1912 - 1994)

David Ashford Tony Weare nasceu em Wincanton, Somerset, em 1 de Janeiro de 1912. Weare recordou mais tarde, que esteve sempre “entre o desejo de uma vida de acção e a cedência à sua dedicação artística”. 


Fez um curso de Arte durante três anos e trabalhou, de seguida, na indústria do tabaco. Antes da guerra, publicou trabalhos nos magazines BritaniaJohn BullNash'sPearson'sStrand and Windsor. Durante a II Grande Guerra serviu no exército como operador comunicações e depois de ter sido desmobilizado, Waere focou-se na criação de comics vomeçando a trabalhar para a Mickey Mouse Weekly, em séries como Pride of the CircusSavage SplendourRobin Alone e, a notável Billy Brave. Ao mesmo tempo aparece nas publicações CometCow Boy ComicsThe Daily Mirror e no Daily Express


Em meados da década de 1950 foi contactado pela Agência Associated Newspaper, para iniciar uma série de western, com o argumentista Jim Edgar. O resultado foi a série Matt Marriott, publicada em tiras diárias no jornal London Evening News e que terminaria em 1977 quando Tony Weare teve de ser hospitalizado. 


Tony Weare criou também comics com as biografias de Billy The KidJesse James e Jack The Ripper para a Tornado, assim como realizou a adaptação de um conto de Rockwood para a Look & Learn, chegando a desenhar algumas sequências para V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, convidado por este último, por ser um grande admirador do seu trabalho. 


Weare retirou-se nos anos 1980 e dedicou-se à pintura, mas incapaz de enfrentar a imobilidade crescente, suicidou-se, saltando de um cais em Porthleven, Cornwall, em 2 de Dezembro de 1994, um mês antes de completar 83 anos. Deixou um cartoon de despedida, mostrando os seus pès a aparecerem fora da água...




Originais de Tony Weare

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terça-feira, 8 de abril de 2008

D. JOÃO VI CARIOCA - NO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

abril 08, 2008

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O Diário de Notícias de sábado passado, dia 5, publicou uma entrevista com João Spacca de Oliveira, conduzida por Catarina Carvalho, sobre o livro D. JOÃO CARIOCA, de Lilia Moritz Schwarcz (argumento) e Spacca (desenho), editado no Brasil no ambito das comemorações dos 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Rio (em 1808), em fuga "estratégica" às tropas de Napoleão.

Para quem não leu a entrevista (onde se inseria também uma caixa com a opinião do Spacca sobre o acordo ortográfico), aqui fica um excerto:

Sabia que o Presidente português glosou o título do seu livro numa entrevista que deu ao jornal Globo?

Olha só! Bem, quis dar a entender isso no último quadrinho da história: "Um rei bonacheirão e astuto, que gostava de música, sombra e água fresca." Só falta a trilha sonora de Bossa Nova para completar o quadro .

Porque escolheu o título "D. João, o carioca"?

Foi sugestão da Lília, a co-autora. E gostei. Quis brincar com o papagaio criado por Disney, Zé Carioca. O nome pode dar a entender que ele se acariocou, mas acho que não... o impacto da vinda dele para cá foi muito maior sobre os cariocas. D. João foi adoptado pelo Brasil. Ele procurou manter os mesmos gostos, a vidinha, assistir sua missa cantada... Além disso, foi, creio eu, o período mais feliz da vida dele, longe das pressões europeias, exercendo mais poder do que os outros reis.

D. João é uma figura polémica, ficou para a história como um indeciso, medroso, comilão.

O que me atraiu foi apresentar uma imagem não condizente com a caricatura pura. E a verdade mostrou-se interessante e engraçada o suficiente.

O que aprendeu na escola sobre ele?

Quando era criança, na escola. D. João VI não tinha má imagem. Era o pai do nosso imperador D. Pedro e dizia aquelas palavras proféticas para o filho, ao partir para Portugal: "Se o Brasil se separar, antes que seja para ti que me hás-de respeitar do que para algum desses aventureiros."

Que reacções teve ao livro?

Só elogios. As reacções mais contra vieram dos que acham que qualquer visão que não for a sátira desta família é a "história oficial".

Porque é que a ida da corte portuguesa para o Brasil ainda é tão malvista?

Acho que é uma soma de razões: dos brasileiros contra o domínio português, dos portugueses que não vieram e se sentiram abandonados, e dos republicanos contra a monarquia. Essa visão é reforçada pelo nosso hábito de não levar nada a sério. E funciona como justificativa dos nossos atrasos: "Pudera, com um governante desses, o Brasil só podia dar nisto." Nos últimos tempos, a oposição também pega carona, condenando o Governo actual por gastar nas comemorações dos 200 anos. Em suma, é tomate de todo lado... Na escola, há também um anedotário que os professores gostam de passar aos alunos, em parte para atrair o seu interesse com os detalhes mais pitorescos, mas também para acostumá-los a ser "irreverentes" desde cedo, como se isso os ajudasse a formar uma consciência anti-imperialista... Nos anos mais recentes, depois do regime militar que terminou em 1985, o ensino ficou iconoclasta, e todos os retratos mais sérios passaram a ser contestados. Sobre este tema, o filme Carlota Joaquina de 1995 virou referência não oficial, bastante usado em sala de aula.

Esse é o filme em que ela é retratada como uma ninfomaníaca?

Esse mesmo. Ela nem está tão mal, apesar de feia e mancando, pelo menos é a poderosa do filme. A mensagem que passa é que, casando à força e com aquele príncipe, só lhe restava pular a cerca mesmo.

Os brasileiros costumam dizer que estariam melhor se tivessem sido "descobertos" por franceses, ingleses ou holandeses. Concorda?

Não. E não é por estar na sua presença... A situação das Guianas não é lá muito inspiradora. Se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses, não tínhamos garantia de que terminaríamos sendo uma potência como os Estados Unidos, já que, devido ao clima, localização geográfica, os ingleses talvez optassem pelo mesmo tipo de produção agrícola em escala fabril, o que ajudou a determinar o tipo de sociedade que foi se desenvolvendo aqui. A questão não é tanto o povo, mas quem vem para as colónias e em que situação: se são famílias para morar, ou regimentos e feitores para explorar, se são católicos ou protestantes. Acho que o que vem a seguir tem mais a ver com a lógica colonial, o tipo de plantação adequada a cada região.

É interessante que essas figuras e a chegada da corte ainda sejam alvo de tanta polémica, 200 anos depois.

Esse é um tema muito debatido entre os académicos. Há os críticos do Nordeste, como o Ewaldo Cabral de Mello Neto, que defendem que a vinda da corte para cá só manteve o resto do Brasil em estado de colónia ou semicolónia. No Rio, há os pró-monarquistas, para quem D. João foi um grande estadista e inaugurou uma nova era (ou mesmo começou a fazer o Brasil existir), e estendem esse benefício ao Brasil como um todo. Além dessa polarização, o Ruy Castro, biógrafo seríssimo (que escreveu um livro sobre o rei), declarou que "há 200 anos se fala mal da família real, e chegou a hora de falar bem".

E qual é a sua posição pessoal?

É do retrato histórico honesto, e da reconstitui- ção criteriosa, evitando as armadilhas tanto do escracho quanto do ufanismo. A memória de D. João levou bordoadas dos dois lados do Atlântico, até por bons motivos (afinal, Portugal ficou à míngua e teve que livrar-se dos franceses e ingleses sem a Sua Real ajuda). Depois os republicanos completaram-lhe a caricatura. Coitado do gordinho. Merece um julgamento mais justo da história, mesmo que isso não nos renda um título de visconde...

Apesar de retratá-lo como gordo, nunca usou a imagem dos frangos nos bolsos, muito comum. Porquê?

Não encontrei um relato confiável, ou uma fonte localizada, sobre as coxinhas. Só li que na sala de despachos do rei havia um urinol que precisava ser trocado.... Um diplomata escreveu que, durante a audiência com D. João, havia à vista um penico cheio, que os criados não esvaziaram... Agora, gordo e com cara de bebezão, ele tinha mesmo.

Em quem se inspirou para desenhar essas personagens?

Todos os personagens foram inspirados em quadros e gravuras da época. Às vezes o personagem lembrava-me um actor. É o caso de Lord Strangford, o actor Bill Nighy... E também tem a citação do Zé-Povinho, criação do meu ilustre colega de traço Rafael Bordalo Pinheiro.

Como é que a história dos Bragança influenciou a imagem dos portugueses no Brasil?

A imagem dos portugueses vem da colonização toda, sendo que no século XX veio a leva de portugueses mais humildes, imigrantes. Então você tem o português da padaria, o mascate, o da construção civil. Como o "Oliveira" do meu nome, herança do meu avô mestre de padaria, Lucas Rodrigues de Oliveira.

O que se lembra dele?

Não sei se ele era filho de portugueses ou se veio pequeno. Era mestre padeiro, trabalhava em padarias italianas no bairro do Bexiga, em São Paulo. Eu o conheci já velhinho e morando numa casa muito simples. Era teimoso e tinha mania de procurar tesouros enterrados em todo o lado.

Como se documentou para desenhar este livro? Veio a Portugal?

Infelizmente, não fui a Portugal. Era para ter ido em Abril de 2007, mas a situação nos aeroportos estava um caos, e eu precisava iniciar logo a produção dos desenhos. Precisei me virar com fotografias, gravuras antigas, guias de viagem, mapas, fotos de satélite. Assisti a alguns filmes, desenhei actores. Adquiri em alfarrabistas livros preciosos sobre os tipos populares de Lisboa; comprei uma Ilustração Portuguesa de 1906, que traz uma reportagem sobre os tipos de outrora, e também Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo, livro ilustrado de Calderon Dinis. Achei numa livraria um livro com aquarelas magistrais de Roque Gameiro, que ilustrou muito a história de Portugal. O meu ponto de partida foram alguns capítulos dos livro A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. D. João VI no Brasil, do diplomata pernambucano Oliveira Lima, é o meu livro favorito sobre esse período. Uso muito a Internet com bastante critério e sem medo. O site Viriatus dedicado a miniaturas militares portuguesas foi de grande ajuda.


Publicado por jmachado in .

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