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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vijay Prashad - O socialismo amadurece lentamente | Carta semanal 21 (2026)




Olalekan Jeyifous (Nigéria), Devotos da Petrotopia 01, 2021.


* Vijay Prashad

26.05.26 

Embora o sistema capitalista recompense ciclos de curto prazo, construir um futuro digno é uma tarefa lenta que exige organização, disciplina e uma luta constante para fazer surgir as forças sociais de um novo mundo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Em 1921, poucos anos após o início da experiência soviética, V. I. Lenin publicou um ensaio com o título revelador Novos tempos e velhos erros sob nova aparência. O ensaio deu início a uma linha de investigação que permaneceria com Lênin até o fim de sua vida, o que ocorreu três anos depois. O que o cativou foi a questão de como construir o socialismo em um país devastado pela guerra, com um capital mínimo à sua disposição, uma sociedade predominantemente camponesa e com altas taxas de analfabetismo (cerca de 70%) e ainda sem uma administração pública capaz de administrar um Estado de orientação socialista. Nesse ensaio, Lênin reflete:

Após um esforço enorme e sem precedentes, a classe trabalhadora de um país de pequenos camponeses e em ruínas, a classe trabalhadora que, em grande parte, ficou desclassada, precisa de um intervalo de tempo para permitir que novas forças cresçam e venham à tona, e para que as forças antigas e desgastadas possam “se recuperar”. … É preciso compreender isso e levar em conta a necessária — ou melhor, inevitável — desaceleração do ritmo de crescimento das novas forças da classe trabalhadora.

Esta carta semanal será dedicada à ideia do “intervalo de tempo” necessário para que um “país em ruínas” seja ressuscitado de seu atraso e alcance o socialismo (tenho refletido sobre isso ao reler nosso dossiê n. 100, O futuro). Discutiremos essa ideia tendo em vista a lentidão com que o processo socialista amadurece, enquanto a sociedade capitalista agoniza em meio à crise. O conceito de “maturação lenta” será apresentado aqui e aprofundado posteriormente nos trabalhos do nosso instituto.


Konstantin Yuon (URSS), Povo, 1923

Todas as revoluções socialistas do mundo moderno ocorreram em países pobres, em que o campesinato predomina e a riqueza tem sido sistematicamente drenada de seu território para terras distantes. Nessas nações mais pobres, os novos governos revolucionários — seja na União Soviética (1917), no Vietnã (1945), na China (1949) ou em Cuba (1959) — tiveram de desenvolver sua própria capacidade estatal partindo praticamente do zero e reunindo recursos financeiros para a construção de infraestrutura e indústria. Nem a capacidade estatal nem o capital surgiram facilmente nesses processos revolucionários, o que os obrigou a realizar experiências que não foram devidamente documentadas. Aqui estão seis pontos elaborados a partir do que sabemos sobre esses processos, que servem como base para desenvolver uma teoria do conceito de “maturação lenta”. Convidamos você a nos escrever com suas próprias ideias sobre esse conceito, com base em suas experiências e estudos.

1. A confiança se conquista aos poucos, e é difícil abandonar velhos hábitos.
Os governos revolucionários herdam estruturas moldadas ao longo de gerações por antigas hierarquias de castas e tribais que regem as relações agrárias, pela humilhação e expropriação coloniais e pela privação social total. Os bolcheviques na União Soviética, por exemplo, descobriram rapidamente que a antiga cultura burocrática czarista não havia desaparecido em outubro de 1917. A corrupção, a deferência à autoridade e a desconfiança nas instituições coletivas persistiram durante anos. Na China, após a Revolução de 1949, o Partido Comunista enfrentou repetidamente os resquícios da hierarquia confucionista, os sistemas regionais de clientelismo e os hábitos de sobrevivência dos camponeses, forjados ao longo de séculos de insegurança. Em Cuba, após 1959, a liderança revolucionária falava abertamente sobre a criação de um “novo ser humano”, pois compreendia que a consciência socialista não poderia ser imposta por lei da noite para o dia.

As pessoas que vivem sob a violência do colonialismo e as desigualdades do capitalismo aprendem a se proteger individualmente ou por meio de redes familiares. Para que um projeto socialista tenha sucesso, as pessoas precisam aprender a confiar nos sistemas coletivos. Essa confiança cresce lentamente com a experiência – por meio de escolas que funcionam, clínicas que curam, moradias que abrigam e instituições que perduram. Uma revolução pode tomar o poder do Estado rapidamente, mas não consegue transformar a psicologia social de forma tão rápida.


Douglas-Perez-Cuba-The-porvenir-2008

2. As redes comerciais e financeiras favorecem a ordem global atual.
O capitalismo não domina apenas por meio da ideologia, mas também por meio de redes consolidadas de comércio e finanças, bem como da infraestrutura de transportes e comunicações. Os países que buscam uma transformação socialista entram em um mundo já organizado em torno da acumulação capitalista. Após a Revolução Russa, a União Soviética enfrentou dificuldades porque as cadeias de abastecimento industrial, as redes bancárias e as rotas comerciais eram controladas por potências capitalistas hostis. A experiência de Cuba após o colapso da União Soviética em 1991 demonstrou isso de forma contundente: a ilha perdeu o acesso a combustível, peças de reposição, crédito e relações comerciais praticamente da noite para o dia, pois a economia mundial estava estruturada em torno de sistemas dos quais Cuba estava amplamente excluída (e dos quais está sendo ainda mais excluída atualmente pelo embargo petrolífero ilegal imposto pelos Estados Unidos). Após a reunificação em 1975, o Vietnã enfrentou enormes dificuldades para reconstruir uma economia devastada pela guerra, mantendo-se à margem dos principais circuitos financeiros e comerciais. Os sistemas existentes se perpetuam porque todas as instituições, desde os portos até as moedas e os padrões de software, atuam nesse sentido. Construir redes alternativas leva décadas, não anos.

3. Os custos de capital e de infraestrutura são enormes nos países empobrecidos pelo colonialismo.
Quando os revolucionários vietnamitas derrotaram o imperialismo estadunidense, herdaram um país fisicamente devastado pelos bombardeios e quimicamente contaminado pelo Agente Laranja. Cuba herdou uma economia baseada na monocultura do açúcar, ligada quase exclusivamente aos Estados Unidos. Em 1949, a China emergiu de um século de humilhações e domínio dos senhores da guerra, do imperialismo japonês e da guerra civil, com baixa expectativa de vida, analfabetismo em massa e fraca capacidade industrial.

Essas revoluções tiveram que construir ferrovias e portos, escolas e instituições científicas, redes elétricas e siderúrgicas – praticamente do zero. Os países capitalistas do Atlântico Norte se industrializaram ao longo de séculos, financiados pela escravidão, pela pilhagem colonial e pelos tributos imperiais. Esperava-se que as instituições estatais socialistas dos países mais pobres que haviam sido colonizados condensassem esse processo em poucas décadas, mesmo sob bloqueio ou ameaça militar, e depois eram acusadas de falência estatal. O enorme peso material retardou a transformação.


Đặng Thái Tuấn (Vietnã), Sem título (Loja de conveniência móvel), 2021

4. Pressões externas – como sanções, sabotagem, isolamento diplomático e guerra – retardam o desenvolvimento.
Todos os Estados revolucionários do Terceiro Mundo enfrentaram cerco militar ou sanções econômicas. A União Soviética foi invadida por soldados de mais de uma dúzia de países estrangeiros após 1917 e, posteriormente, enfrentou a invasão nazista, que causou a morte de pelo menos 27 milhões de cidadãos soviéticos e destruiu dezenas de milhares de cidades e vilarejos. Cuba vem sofrendo há décadas com as sanções dos Estados Unidos, destinadas explicitamente a provocar escassez e descontentamento social. O governo da Unidade Popular (UP) do Chile tentou uma transformação estrutural, mas enfrentou uma desestabilização econômica imediata, resistência das elites e intervenção externa antes que as reformas de longo prazo pudessem se consolidar. O governo sandinista da Nicarágua enfrentou uma guerra contra os Contras, financiada pelos Estados Unidos, e a exploração dos portos do país, incluindo Corinto. O Vietnã travou uma guerra anticolonial entre 1945 e 1975.

Essas pressões consumiram recursos que teriam sido destinados ao desenvolvimento social. As sanções aumentam os custos de transação, limitam o acesso à tecnologia e geram escassez crônica. A guerra destrói a infraestrutura e redireciona a força de trabalho para a defesa. Nessas condições adversas, as ineficiências não decorrem de ideologias ou erros de planejamento, mas das condições de emergência permanente impostas por potências hostis.

5. Todo processo é ineficiente em suas fases iniciais.
Os Estados revolucionários procuram criar novos sistemas administrativos, ao mesmo tempo que ampliam os serviços de educação e saúde, além de promover a reforma agrária e o desenvolvimento industrial. Erros e confusões burocráticas, gargalos e escassez são inevitáveis. O sistema de planejamento soviético inicial enfrentou dificuldades de coordenação, pois não havia precedentes históricos para a administração de uma economia continental baseada na justiça social, em vez do lucro. As comunas e os projetos industriais da China foram prejudicados pela falta de conhecimento técnico e pela implementação local desigual. Em Cuba, a escassez de profissionais qualificados se agravou quando muitos fugiram para Miami após a revolução.

A administração pública aprende com a prática. As instituições amadurecem por meio de tentativa e erro. Espera-se que os governos socialistas dos países mais pobres alcancem eficiência de imediato, ao mesmo tempo que enfrentam embargos, baixas taxas de alfabetização e escassez de tecnologia. A ineficiência inicial não é, portanto, algo excepcional, mas sim uma característica de qualquer transformação social em grande escala.


Ming Wong (Cingapura), Ascensão ao Palácio Celestial III, 2015.


6. Os ciclos eleitorais curtos impedem a transformação social.
A transformação social exige horizontes de planejamento que se estendem por décadas — e não por ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, que privilegiam o consumo imediato em detrimento da reconstrução a longo prazo. Os governos revolucionários exigem paciência antes que se vejam resultados concretos. Mesmo fora dos Estados explicitamente socialistas, governos que tentam implementar programas de redistribuição ou de desenvolvimento frequentemente enfrentam sabotagem por meio de eleições antes que os projetos amadureçam. Uma política transformadora exige continuidade, mas os sistemas eleitorais, moldados pelos ciclos da mídia e pelas pressões financeiras, recompensam a gestão de curto prazo. As experiências socialistas, portanto, se depararam repetidamente com a contradição entre o tempo histórico (o longo período necessário para transformar a sociedade) e o tempo eleitoral (o ritmo acelerado da política moderna).


Eva Schulze-Knabe (RDA), Mulheres

Na peça “A Mãe” (1931), de Bertolt Brecht, a personagem principal, Pelagea Vlassova, enfrenta uma tragédia após outra até que a Revolução Russa a leva a agir. Quando ela se vê numa cozinha com várias mulheres, uma das quais reclama que o comunismo não passa de um crime, ela responde cantando:

É lógico – qualquer pessoa consegue entender. É fácil.
Se você não é um explorador, você consegue entender.
Isso faz bem para você. Dê uma olhada nisso.
Os tolos chamam de tolice, e os corruptos chamam de corrupção.
É contra o que está podre e contra a estupidez.
Os exploradores chamam isso de crime.
Mas sabemos
É o fim do crime.
Não é loucura, mas
o fim da loucura.
Não é o caos
mas ordem.
É uma coisa simples
tão difícil de conseguir.

Ao pensar em “amadurecer lentamente”, me lembrei da música da Vlassova. Vlassova trabalhou a vida inteira, mas pouco tinha para mostrar além de sua dignidade. Ela pode não ter tido uma educação completa, mas era muito esperta. Ela sabia que o comunismo era uma “coisa simples”, mas não era do tipo que vivia no mundo da fantasia. É simples, mas “difícil de colocar em prática”.

Cordialmente,

Vijay

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/o-socialismo-amadurece-lentamente-256739
https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-amadurece-lentamente/

quarta-feira, 20 de maio de 2026

hélder moura - O Socialismo segundo Albert Einstein

.hélder moura 20.05.26

 

É sempre recompensador einteressante tentar apercebermo-nos como as inteligências mais reputadas articulam os seus pensamentos. Infelizmente, grande parte dos seus escritos são demasiado técnicos ou especializados, estampados num cânone de si limitativo, o que dificulta essa desejada leitura.

Mas nem sempre é esse o caso, como por exemplo neste artigo de Albert Einstein, por ele intitulado “Why Socialism?”, publicado em maio de 1949 na primeira edição da Monthly Review, que aqui deixo na sua tradução integral:

 

 

Será aconselhável que alguém sem conhecimentos em questões económicas e sociais expresse opiniões sobre o socialismo? Acredito que sim, por uma série de razões.

 

Consideremos em primeiro lugar a questão do ponto de vista do conhecimento científico. Pode parecer que não existem diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos procuram descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenómenos, de modo a tornar a interligação destes fenómenos o mais compreensível possível. Mas, na realidade, tais diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no domínio da economia é dificultada pelo facto de os fenómenos económicos observados serem frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade foi — como é sabido — largamente influenciada e limitada por causas que não são, de modo algum, exclusivamente económicas. Por exemplo, a maioria dos grandes estados da história deve a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram a propriedade da terra e nomearam um sacerdócio entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controlo da educação, transformaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelo qual o povo passou a ser guiado, em grande parte inconscientemente, no seu comportamento social.

 

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em momento algum superamos de facto aquilo a que Thorstein Veblen chamou a “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis ​​pertencem a esta fase e mesmo as leis que deles podemos derivar não são aplicáveis ​​a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar e avançar para além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu estado atual pouco pode esclarecer sobre a sociedade socialista do futuro.

 

Em segundo lugar, o socialismo está direcionado para um fim socio ético. A ciência, no entanto, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; A ciência, no máximo, pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos e — se esses fins não nascerem mortos, mas antes vitais e vigorosos — são adotados e levados avante por muitos seres humanos que, quase inconscientemente, determinam a lenta evolução da sociedade.

Por estas razões, devemos ter cuidado para não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos presumir que apenas os especialistas têm o direito de se exprimir sobre questões que afetam a organização da sociedade.

 

Inúmeras vozes têm vindo a afirmar desde há algum tempo que a sociedade humana atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico de tal situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o que quero dizer, permitam-me que registe aqui uma experiência pessoal. Recentemente, conversei com um homem inteligente e bem-intencionado sobre a ameaça de uma outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e observei que só uma organização supranacional ofereceria proteção contra este perigo. Perante isto, o meu visitante, com muita calma e frieza, disse-me: “Porque se opõe tão veementemente ao desaparecimento da raça humana?”

 

Estou certo de que, há pouco mais de um século, ninguém teria feito uma afirmação deste tipo com tanta leviandade. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar o equilíbrio interior e que, em certa medida, perdeu a esperança de o obter. É a expressão de uma dolorosa solidão e isolamento que afligem tantas pessoas nos dias de hoje. Qual a causa? Existe uma saída?

 

É fácil levantar tais questões, mas difícil respondê-las com qualquer grau de certeza. Devo, contudo, tentar da melhor maneira possível, embora esteja bem ciente de que os nossos sentimentos e aspirações são frequentemente contraditórios e obscuros, e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

 

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, procura proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são mais próximos, satisfazer os seus desejos pessoais e desenvolver as suas capacidades inatas. Como ser social, procura obter o reconhecimento e o afeto dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Só a existência destas aspirações variadas e frequentemente conflituantes explica o carácter especial de um homem, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destas duas aspirações seja, em grande parte, determinada pela hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é amplamente formada pelo meio em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade e pela sua avaliação de determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa, para o ser humano individual, a soma total das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar por si próprio; mas depende tanto da sociedade — na sua existência física, intelectual e emocional — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que fornece ao homem alimento, vestuário, habitação, instrumentos de trabalho, linguagem, formas de pensamento e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida torna-se possível graças ao trabalho e às realizações de milhões de pessoas, do passado e do presente, que estão todas escondidas por detrás da pequena palavra “sociedade”.

 

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido — tal como no caso das formigas e das abelhas. Contudo, enquanto todo o processo vital das formigas e das abelhas é determinado, até o menor detalhe, por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos seres humanos são muito variáveis ​​e suscetíveis a mudanças. A memória, a capacidade de fazer novas combinações e o dom da comunicação oral possibilitaram desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas conquistas científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica como, num certo sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste processo, o pensamento e o desejo conscientes podem desempenhar um papel.

 

O homem adquire, à nascença, por hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, ao longo da vida, o indivíduo adquire uma constituição cultural que adota da sociedade através da comunicação e de muitas outras influências. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita a alterações e que determina, em grande medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensinou-nos, através da investigação comparativa das culturas ditas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode variar muito, dependendo dos padrões culturais predominantes e dos tipos de organização que prevalecem na sociedade. É nisto que aqueles que se esforçam por melhorar a condição humana podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se mutuamente ou a estarem à mercê de um destino cruel e autoimposto.

 

Se nos interrogarmos sobre a forma como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser alteradas para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar constantemente conscientes de que existem certas condições que não podemos modificar. Como já foi referido anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os efeitos práticos, não está sujeita a alterações. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente densamente povoadas, com os bens indispensáveis ​​à sua sobrevivência, é absolutamente necessária uma divisão extrema do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo — que, olhando para trás, parece tão idílico — passou para sempre, quando indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Não é exagero afirmar que a humanidade constitui, ainda hoje, uma comunidade planetária de produção e consumo.

 

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente aquilo que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não vive esta dependência como um ativo positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas da sua natureza são constantemente acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja a sua posição na sociedade, sofrem com este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, solitários e privados do prazer ingénuo, simples e descomplicado da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, dedicando-se à sociedade.

 

A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma vasta comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente por privar uns aos outros dos frutos do seu trabalho coletivo — não pela força, mas, em geral, em fiel conformidade com as normas legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante perceber que os meios de produção — isto é, toda a capacidade produtiva necessária para a produção de bens de consumo, bem como de bens de capital adicionais — podem ser, e na maioria das vezes são, propriedade privada de indivíduos.

 

Por uma questão de simplicidade, na discussão que se segue, chamarei “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a propriedade dos meios de produção — embora isso não corresponda exatamente ao uso habitual do termo. O proprietário dos meios de produção está em condições de comprar a força de trabalho do trabalhador. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que passam a ser propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe é pago, sendo ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas em relação à força de trabalho, considerando o número de trabalhadores que competem por vagas. É importante compreender que, mesmo em teoria, a remuneração do trabalhador não é determinada pelo valor do seu produto.

 

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho incentivam a formação de unidades de produção maiores em detrimento das mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado nem sequer por uma sociedade política organizada democraticamente. Isto acontece porque os membros dos órgãos legislativos são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado do legislativo. A consequência é que os representantes do povo não protegem, de facto, suficientemente os interesses das camadas menos favorecidas da população. Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Assim, torna-se extremamente difícil, e na maioria dos casos praticamente impossível, para o cidadão comum chegar a conclusões objetivas e exercer os seus direitos políticos de forma inteligente.

 

A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do capital é, portanto, caracterizada por dois princípios principais: em primeiro lugar, os meios de produção (capital) são propriedade privada e os proprietários dispõem deles como bem entenderem; segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. Em particular, é de notar que os trabalhadores, através de longas e árduas lutas políticas, conseguiram garantir uma forma um pouco melhorada do “contrato de trabalho livre” para certas categorias de trabalhadores. Mas, de um modo geral, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.

 

A produção é realizada com o objetivo de lucro, não para uso. Não há garantia de que todos os capazes e dispostos a trabalhar encontrarão sempre emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador vive constantemente com medo de perder o emprego. Como os trabalhadores desempregados e mal remunerados não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é limitada, resultando em grandes dificuldades. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego do que numa redução da carga de trabalho para todos. A procura do lucro, em conjunto com a competição entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição desenfreada leva a um enorme desperdício de mão-de-obra e ao enfraquecimento da consciência social dos indivíduos, como já referi anteriormente.

 

Considero este enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude competitiva exacerbada é inculcada no aluno, que é treinado para idolatrar o sucesso material como preparação para a sua futura carreira.

 

Estou convencido de que só existe uma forma de eliminar estes graves males: o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educativo orientado para os objetivos sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertencem à própria sociedade e são utilizados de forma planificada. Uma economia planificada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho por todos os capazes de trabalhar e garantiria o sustento de todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, para além de promover as suas capacidades inatas, procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade para com os seus semelhantes, em vez da glorificação do poder e do sucesso presentes na nossa sociedade atual.

 

Contudo, é necessário lembrar que uma economia planificada ainda não é socialismo. Uma economia planificada, por si só, pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A conquista do socialismo exige a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, perante a ampla centralização do poder político e económico, impedir que a burocracia se torne omnipotente e prepotente? Como proteger os direitos do indivíduo e, assim, garantir um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

 

A clareza sobre os objetivos e os problemas do socialismo é de primordial importância na nossa era de transição. Uma vez que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e desimpedida destes problemas se tornou um forte tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Robin Philpot - Einstein opôs-se à colonização sionista na Palestina e previu a catástrofe atual



– As suas opiniões sobre Israel e o sionismo foram ocultadas e distorcidas durante décadas

Robin Philpot [*]

Capa de 'Einstein', de Fred Jerome.

Algumas semanas antes da criação do Estado de Israel, Shepard Rifkin, um representante sediado em Nova Iorque do Grupo Stern, uma organização paramilitar sionista fundada na Palestina Mandatória, solicitou que representantes do grupo se reunissem com Albert Einstein nos Estados Unidos, "a maior figura judaica da época", segundo o jornalista I.F. Stone. A resposta de Einstein foi inequívoca:

Quando uma catástrofe real e definitiva nos atingir na Palestina, os primeiros responsáveis por ela serão os britânicos e os segundos responsáveis serão as organizações terroristas criadas a partir das nossas próprias fileiras. Não estou disposto a ver ninguém associado a essas pessoas iludidas e criminosas.

Einstein disse que a sua "vida estava dividida entre equações e política". No entanto, entre os seus biógrafos — existem centenas deles — e nos meios de comunicação social dominantes, os seus extensos escritos políticos sobre Israel e o sionismo foram, na melhor das hipóteses, varridos para debaixo do tapete ou, na pior das hipóteses, completamente distorcidos, identificando-o como um apoiante do Estado de Israel.

Isto é, até que o falecido Fred Jerome os procurou, encontrou, mandou traduzir (na sua maioria do alemão) e os publicou no livro, Einstein on Israel and Zionism. Infelizmente, a primeira edição deste texto, publicada por uma editora de Nova Iorque, teve uma tiragem muito pequena, nunca foi promovida nem transformada em e-book, e esgotou num instante. É por isso que a Baraka Books publicou uma nova edição com o consentimento de Jocelyn Jerome, viúva do autor.

Foi na Alemanha da década de 1920, uma época de antissemitismo desenfreado em que a teoria da relatividade era atacada como "ciência judaica", que Einstein se sentiu atraído pelo movimento sionista. Só em 1914, quando chegou à Alemanha, é que "descobriu pela primeira vez que era judeu", uma descoberta que atribuiu mais aos "gentios do que aos judeus". Antes disso, ele via-se como um membro da espécie humana.

Ele autodenominava-se um “sionista cultural”, mas já em 1921 Kurt Blumenfeld, um ativista sionista enviado para recrutar Einstein, advertiu Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, sobre o grande cientista:

Einstein, como sabe, não é sionista, e peço-lhe que não tente torná-lo sionista nem que tente ligá-lo à nossa organização. … Einstein, que se inclina para o socialismo, sente-se muito envolvido com a causa do trabalho judaico e dos trabalhadores judeus… Ouvi dizer… que espera que Einstein faça discursos. Por favor, tenha muito cuidado com isso. Einstein… diz frequentemente coisas por ingenuidade que não são bem-vindas por nós.

Para além da suposta "ingenuidade" de Einstein, Blumenfeld não poderia ter dito melhor. Einstein viria a ser um obstáculo constante ao projeto sionista de colonização da Palestina e à criação do Estado de Israel até à sua morte, em 1955.

Eis alguns exemplos das posições que assumiu.

As suas trocas de correspondência com Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, ilustram o quão importante Einstein era para os sionistas, mas, mais importante ainda, como as suas opiniões divergiam das deles. Numa carta a Weizmann, datada de 25 de novembro de 1929, escreveu:

Se não formos capazes de encontrar um caminho para uma cooperação honesta e pactos honestos com os árabes, então não aprendemos nada durante os nossos dois mil anos de sofrimento e merecemos o destino que nos sobrevirá.

A ideia do "destino que nos sobrevirá" surge frequentemente. Em 1929, ele parece já ter previsto que o Estado-nação que os sionistas sonhavam criar sem "cooperação honesta e pactos honestos" com os seus vizinhos palestinos se tornaria o que é hoje, nomeadamente o lugar mais perigoso do mundo para os judeus viverem.

Algumas semanas depois, a 14 de dezembro de 1929, escreveu a Selig Brodetsky, da Organização Sionista em Londres: "Estou feliz por não termos poder. Se a teimosia nacional se revelar suficientemente forte, então vamos dar com as cabeças na parede, como merecemos."

Além disso, Leon Simon, um dos seus primeiros editores e tradutores, escreveu:

No nacionalismo do Professor Einstein não há espaço para qualquer tipo de agressividade ou chauvinismo. Para ele, o domínio dos judeus sobre os árabes na Palestina, ou a perpetuação de um estado de hostilidade mútua entre os dois povos, significaria o fracasso do sionismo.

Ao contrário da grande maioria dos sionistas, o apoio de Einstein a uma possível "pátria judaica" — não um Estado — não se limitava à Palestina. Não havia nada de religioso no seu compromisso. Alguns sionistas defendiam a criação de tal pátria na China, no Peru ou em Birobidzhan, na União Soviética, mas em total acordo com as autoridades estatais e as populações em cada caso.

Einstein apoiou estas medidas. Por exemplo, sobre a pátria judaica de Birobidzhan na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, escreveu:

Não devemos esquecer que, naqueles anos de perseguição atroz do povo judeu, a Rússia Soviética foi a única grande nação que salvou centenas de milhares de vidas judaicas. A iniciativa de instalar 30 000 órfãos de guerra judeus em Birobidzhan e garantir-lhes, desta forma, um futuro satisfatório e feliz é uma nova prova da atitude humana da Rússia para com o nosso povo judeu. Ao ajudar esta causa, contribuiremos de forma muito eficaz para a salvação dos remanescentes do judaísmo europeu.

Nos anos cruciais entre o fim da guerra e a sua morte em 1955, Einstein foi franco quanto ao projeto do Estado judeu. Convidado a testemunhar perante a Comissão Anglo-Americana de Inquérito sobre a Palestina em Washington, DC, em janeiro de 1946, Einstein respondeu inequivocamente quando questionado sobre a possibilidade de um Estado de Israel versus uma pátria cultural: "Nunca fui a favor de um Estado".

Em março de 1947, I.Z. David, membro do grupo terrorista Irgun liderado por Menachem Begin, enviou-lhe um questionário ao qual ele respondeu de forma incisiva e clara:

Pergunta: Qual é a sua opinião sobre a criação de uma Palestina Nacional Judaica livre?
Einstein: Pátria Nacional Judaica? Sim. Palestina Nacional Judaica? Não. Sou a favor de uma Palestina livre e binacional numa data posterior, após acordo com os árabes.
Pergunta: Opinião sobre a partilha da Palestina e as propostas de Chaim Weizmann relativas à partição?
Einstein: Sou contra a partição.

Quanto à questão da aliança entre o imperialismo britânico e o americano, Einstein não nutria ilusões:

Parece-me que os nossos queridos americanos estão agora a moldar a sua política externa ao modelo dos alemães, uma vez que parecem ter herdado a presunção e a arrogância destes últimos. Aparentemente, também querem assumir o papel que a Inglaterra desempenhou até agora. Recusam-se a aprender uns com os outros; e aprendem pouco mesmo com a sua própria experiência amarga. O que foi incutido nas mentes desde a juventude está mais firmemente enraizado do que a experiência e o raciocínio. Os ingleses são mais um bom exemplo disso. Os seus métodos antiquados de reprimir as massas, recorrendo a elementos locais sem escrúpulos da classe económica alta, irão em breve custar-lhes todo o seu império, mas são incapazes de se convencerem a mudar os seus métodos; independentemente de serem os conservadores ou os socialistas. Com os alemães, foi exatamente o mesmo. Tudo isto seria bom e belo, se não fosse o facto de ser tão triste para os elementos melhores e para os oprimidos.

Quanto aos antepassados políticos do atual governo de Netanyahu, Einstein atacou-os a eles e aos seus partidos políticos, particularmente no New York Times. Quando Menachem Begin veio a Nova Iorque no final de 1948, Einstein, Hannah Arendt e outras figuras intelectuais judaicas nos Estados Unidos publicaram uma carta a denunciar a sua visita e a organização que ele liderava, chamando-a de "um partido político muito próximo, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, dos partidos nazis e fascistas". Um exemplo que citaram foi o massacre de 240 homens, mulheres e crianças na aldeia palestina de Deir Yassin.

Einstein repetiu esta acusação até à sua morte em 1955:   "Estas pessoas são nazis nos seus pensamentos e ações." Qualquer pessoa que diga isto hoje nos meios de comunicação social tradicionais é imediatamente rotulada de antissemita e colocada na lista negra.

É de conhecimento geral que, quando Chaim Weizmann morreu em 1952, o primeiro-ministro de Israel ofereceu a presidência de Israel a Albert Einstein. Menos conhecida, no entanto, é a razão que Einstein deu para esta recusa:   “Eu teria de dizer ao povo israelense coisas que eles não gostariam de ouvir”. Ainda menos conhecida é a declaração de Ben Gurion:   “Diga-me o que fazer se ele disser sim! Tive de lhe oferecer o cargo porque era impossível não o fazer, mas se ele aceitar, vamos ter problemas".

Centenas, senão milhares, de pessoas estão a ser acusadas de antissemitismo ou despedidas dos seus empregos por se atreverem a criticar o Estado de Israel, chamá-lo de Estado de apartheid e denunciar o genocídio dos palestinos. Que fiquem tranquilos:   estão em boa companhia, porque se Einstein estivesse vivo hoje estaria na linha da frente a manifestar-se com eles.

13/Maio/2026

Ver também:
  • Porquê o Socialismo?, de Albert Einstein.
  • [*] Editor da Baraka Books. Todas as citações são da nova edição enriquecida de Einstein on Israel and Zionism (Setembro/2024) de Fred Jerome.

    O original encontra-se em www.defenddemocracy.press/einstein-opposed-zionist-colonization-in-palestine-and-predicted-the-current-catastrophe/

    segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

    Winston Churchill - Discurso da "Cortina de Ferro" (Fulton 1946)


    "Cortina de Ferro"

    NATO (2022)


    NATO e Pacto de Varsóvia (1991)


    * Winston Churchill

    5 de março de 1946.

    Estou feliz por vir ao Westminster College esta tarde, e estou elogiado por vocês me darem um diploma. O nome “Westminster” é de alguma forma familiar para mim.

    Parece que já ouvi falar disso antes. De fato, foi em Westminster que recebi uma grande parte da minha educação em política, dialética, retórica e uma ou duas outras coisas. Na verdade, nós dois fomos educados no mesmo, ou similar, ou, pelo menos, estabelecimentos semelhantes.

    Também é uma honra, talvez quase única, para um visitante particular ser apresentado a uma audiência acadêmica pelo Presidente dos Estados Unidos. Em meio a seus pesados ​​fardos, deveres e responsabilidades — não procurados, mas não recuados — o Presidente viajou mil milhas para dignificar e magnificar nosso encontro aqui hoje e para me dar uma oportunidade de me dirigir a esta nação afim, bem como aos meus próprios compatriotas do outro lado do oceano, e talvez a alguns outros países também. O Presidente disse a vocês que é seu desejo, como tenho certeza de que é o seu, que eu tenha total liberdade para dar meu conselho verdadeiro e fiel nestes tempos ansiosos e desconcertantes. Certamente aproveitarei esta liberdade e me sentirei mais no direito de fazê-lo porque quaisquer ambições particulares que eu possa ter acalentado em meus dias de juventude foram satisfeitas além dos meus sonhos mais loucos. Deixe-me, no entanto, deixar claro que não tenho nenhuma missão oficial ou status de qualquer tipo, e que falo apenas por mim. Não há nada aqui além do que vocês veem.

    Posso, portanto, permitir que minha mente, com a experiência de uma vida inteira, reflita sobre os problemas que nos afligem no dia seguinte à nossa vitória absoluta nas armas e tentar garantir, com a força que tenho, que o que foi conquistado com tanto sacrifício e sofrimento seja preservado para a glória e segurança futuras da humanidade.

    Os Estados Unidos estão neste momento no auge do poder mundial. É um momento solene para a Democracia Americana. Pois com a primazia no poder também se junta uma responsabilidade inspiradora para o futuro. Se você olhar ao seu redor, você deve sentir não apenas a sensação de dever cumprido, mas também deve sentir ansiedade para não cair abaixo do nível de realização. A oportunidade está aqui agora, clara e brilhante para ambos os nossos países. Rejeitá-la, ignorá-la ou desperdiçá-la trará sobre nós todas as longas reprovações do tempo posterior. É necessário que a constância de espírito, a persistência de propósito e a grande simplicidade de decisão guiem e governem a conduta dos povos de língua inglesa em paz, como fizeram na guerra. Devemos, e acredito que o faremos, provar que somos iguais a esta exigência severa.

    Quando os militares americanos abordam alguma situação séria, eles costumam escrever no início de sua diretriz as palavras “conceito estratégico geral”. Há sabedoria nisso, pois leva à clareza de pensamento. Qual é então o conceito estratégico geral que deveríamos inscrever hoje? É nada menos que a segurança e o bem-estar, a liberdade e o progresso de todos os lares e famílias de todos os homens e mulheres em todas as terras. E aqui falo particularmente das inúmeras casas de campo ou apartamentos onde o assalariado se esforça em meio aos acidentes e dificuldades da vida para proteger sua esposa e filhos da privação e criar a família no temor do Senhor, ou em concepções éticas que muitas vezes desempenham seu papel potente.

    Para dar segurança a esses inúmeros lares, eles devem ser protegidos dos dois gigantes saqueadores, a guerra e a tirania. Todos nós conhecemos as perturbações assustadoras nas quais a família comum é mergulhada quando a maldição da guerra cai sobre o ganha-pão e aqueles para quem ele trabalha e planeja. A terrível ruína da Europa, com todas as suas glórias desaparecidas, e de grandes partes da Ásia nos encara. Quando os desígnios de homens perversos ou o impulso agressivo de Estados poderosos dissolvem em grandes áreas a estrutura da sociedade civilizada, as pessoas humildes são confrontadas com dificuldades com as quais não conseguem lidar. Para elas, tudo é distorcido, tudo é quebrado, até mesmo moído em polpa.

    Quando estou aqui nesta tarde tranquila, estremeço ao visualizar o que realmente está acontecendo com milhões agora e o que vai acontecer neste período em que a fome assola a Terra. Ninguém pode calcular o que foi chamado de "a soma incalculável da dor humana". Nossa tarefa e dever supremos é proteger os lares das pessoas comuns dos horrores e misérias de outra guerra. Estamos todos de acordo com isso.

    Nossos colegas militares americanos, depois de terem proclamado seu “conceito estratégico geral” e computado os recursos disponíveis, sempre procedem para o próximo passo, ou seja, o método. Aqui novamente há um amplo acordo. Uma organização mundial já foi erguida com o propósito principal de prevenir a guerra, a ONU, a sucessora da Liga das Nações, com a adição decisiva dos Estados Unidos e tudo o que isso significa, já está em ação. Devemos garantir que seu trabalho seja frutífero, que seja uma realidade e não uma farsa, que seja uma força para ação, e não apenas uma espuma de palavras, que seja um verdadeiro templo de paz no qual os escudos de muitas nações possam algum dia ser pendurados, e não apenas uma cabine em uma Torre de Babel. Antes de jogarmos fora as sólidas garantias de armamentos nacionais para autopreservação, devemos ter certeza de que nosso templo é construído, não sobre areias movediças ou atoleiros, mas sobre a rocha. Qualquer um pode ver com os olhos abertos que nosso caminho será difícil e também longo, mas se perseverarmos juntos como fizemos nas duas guerras mundiais — embora, infelizmente, não no intervalo entre elas — não posso duvidar que alcançaremos nosso propósito comum no final.

    Tenho, no entanto, uma proposta definitiva e prática para fazer para ação. Tribunais e magistrados podem ser criados, mas não podem funcionar sem xerifes e policiais. A Organização das Nações Unidas deve começar imediatamente a ser equipada com uma força armada internacional. Em tal assunto, só podemos ir passo a passo, mas devemos começar agora. Proponho que cada uma das Potências e Estados seja convidada a delegar um certo número de esquadrões aéreos para o serviço da organização mundial. Esses esquadrões seriam treinados e preparados em seus próprios países, mas se moveriam em rotação de um país para outro. Eles usariam o uniforme de seus próprios países, mas com distintivos diferentes. Eles não seriam obrigados a agir contra sua própria nação, mas em outros aspectos seriam direcionados pela organização mundial. Isso pode ser iniciado em uma escala modesta e cresceria conforme a confiança aumentasse. Eu desejava ver isso feito depois da Primeira Guerra Mundial, e confio devotamente que isso pode ser feito imediatamente.

    No entanto, seria errado e imprudente confiar o conhecimento secreto ou a experiência da bomba atômica, que os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Canadá agora compartilham, à organização mundial, enquanto ela ainda está em sua infância. Seria loucura criminosa lançá-la à deriva neste mundo ainda agitado e não unido. Ninguém em nenhum país dormiu menos bem em suas camas porque esse conhecimento, o método e as matérias-primas para aplicá-lo estão atualmente retidos em grande parte nas mãos americanas. Não acredito que todos nós teríamos dormido tão profundamente se as posições tivessem sido invertidas e se algum Estado comunista ou neofascista monopolizasse por enquanto essas agências terríveis. O medo delas sozinho poderia facilmente ter sido usado para impor sistemas totalitários ao mundo democrático livre, com consequências terríveis para a imaginação humana. Deus quis que isso não acontecesse e temos pelo menos um espaço para respirar para colocar nossa casa em ordem antes que esse perigo tenha que ser enfrentado: e mesmo assim, se nenhum esforço for poupado, ainda devemos possuir uma superioridade tão formidável a ponto de impor impedimentos eficazes ao seu emprego, ou ameaça de emprego, por outros. Em última análise, quando a fraternidade essencial do homem for verdadeiramente incorporada e expressa em uma organização mundial com todas as salvaguardas práticas necessárias para torná-la eficaz, esses poderes seriam naturalmente confiados a essa organização mundial.

    Agora chego ao segundo perigo desses dois saqueadores que ameaçam a casa de campo, o lar e as pessoas comuns - a saber, a tirania. Não podemos ficar cegos ao fato de que as liberdades desfrutadas por cidadãos individuais em todo o Império Britânico não são válidas em um número considerável de países, alguns dos quais são muito poderosos. Nesses Estados, o controle é imposto às pessoas comuns por vários tipos de governos policiais abrangentes. O poder do Estado é exercido sem restrições, seja por ditadores ou por oligarquias compactas operando por meio de um partido privilegiado e uma polícia política. Não é nosso dever, neste momento em que as dificuldades são tão numerosas, interferir à força nos assuntos internos de países que não conquistamos na guerra. Mas nunca devemos deixar de proclamar em tons destemidos os grandes princípios da liberdade e os direitos do homem que são a herança conjunta do mundo de língua inglesa e que, por meio da Magna Carta, da Declaração de Direitos, do Habeas Corpus, do julgamento por júri e do direito comum inglês, encontram sua expressão mais famosa na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

    Tudo isso significa que o povo de qualquer país tem o direito, e deve ter o poder por ação constitucional, por eleições livres e irrestritas, com voto secreto, para escolher ou mudar o caráter ou forma de governo sob o qual habitam; que a liberdade de expressão e pensamento deve reinar; que os tribunais de justiça, independentes do executivo, imparciais por qualquer partido, devem administrar leis que receberam o amplo consentimento de grandes maiorias ou são consagradas pelo tempo e pelo costume. Aqui estão os títulos de propriedade da liberdade que devem estar em cada casa de campo. Aqui está a mensagem dos povos britânico e americano para a humanidade. Vamos pregar o que praticamos - vamos praticar o que pregamos.

    Já declarei os dois grandes perigos que ameaçam os lares do povo: Guerra e Tirania. Ainda não falei da pobreza e da privação que são, em muitos casos, a ansiedade predominante. Mas se os perigos da guerra e da tirania forem removidos, não há dúvida de que a ciência e a cooperação podem trazer nos próximos anos ao mundo, certamente nas próximas décadas, recém-ensinadas na escola de guerra, uma expansão do bem-estar material além de qualquer coisa que já tenha ocorrido na experiência humana. Agora, neste momento triste e ofegante, estamos mergulhados na fome e na angústia que são o resultado de nossa luta estupenda; mas isso passará e pode passar rapidamente, e não há razão, exceto a loucura humana ou o crime subumano, que deveria negar a todas as nações a inauguração e o desfrute de uma era de abundância. Muitas vezes usei palavras que aprendi há cinquenta anos de um grande orador irlandês-americano, um amigo meu, o Sr. Bourke Cockran. "Há o suficiente para todos. A terra é uma mãe generosa; ela fornecerá em abundância abundante comida para todos os seus filhos se eles cultivarem seu solo com justiça e paz.” Até agora, sinto que estamos em pleno acordo.

    Agora, enquanto ainda busco o método de concretizar nosso conceito estratégico geral, chego ao ponto crucial do que viajei aqui para dizer. Nem a prevenção segura da guerra, nem a ascensão contínua da organização mundial serão obtidas sem o que chamei de associação fraternal dos povos de língua inglesa. Isso significa um relacionamento especial entre a Comunidade Britânica e o Império e os Estados Unidos. Este não é o momento para generalidades, e me aventurarei a ser preciso. A associação fraternal requer não apenas a crescente amizade e compreensão mútua entre nossos dois vastos, mas semelhantes, sistemas de sociedade, mas a continuidade do relacionamento íntimo entre nossos conselheiros militares, levando ao estudo comum de perigos potenciais, à similaridade de armas e manuais de instruções, e ao intercâmbio de oficiais e cadetes em faculdades técnicas. Deve levar consigo a continuidade das atuais instalações para segurança mútua pelo uso conjunto de todas as bases navais e da força aérea em posse de qualquer um dos países em todo o mundo. Isso talvez dobraria a mobilidade da Marinha e da Força Aérea americanas. Isso expandiria muito o das Forças do Império Britânico e poderia muito bem levar, se e à medida que o mundo se acalmasse, a importantes economias financeiras. Já usamos juntos um grande número de ilhas; mais podem muito bem ser confiadas aos nossos cuidados conjuntos no futuro próximo.

    Os Estados Unidos já têm um Acordo de Defesa Permanente com o Domínio do Canadá, que é tão devotadamente ligado à Comunidade Britânica e ao Império. Este Acordo é mais eficaz do que muitos daqueles que muitas vezes foram feitos sob alianças formais. Este princípio deve ser estendido a todas as Comunidades Britânicas com total reciprocidade. Assim, aconteça o que acontecer, e somente assim, estaremos seguros e capazes de trabalhar juntos pelas causas elevadas e simples que são caras para nós e não auguram mal a ninguém. Eventualmente pode vir — sinto que eventualmente virá — o princípio da cidadania comum, mas que podemos nos contentar em deixar ao destino, cujo braço estendido muitos de nós já podemos ver claramente.

    Há, no entanto, uma questão importante que devemos nos perguntar. Um relacionamento especial entre os Estados Unidos e a Comunidade Britânica seria inconsistente com nossas lealdades predominantes à Organização Mundial? Respondo que, pelo contrário, é provavelmente o único meio pelo qual essa organização atingirá sua estatura e força plenas. Já existem as relações especiais dos Estados Unidos com o Canadá que acabei de mencionar, e existem as relações especiais entre os Estados Unidos e as Repúblicas Sul-Americanas. Nós, britânicos, temos nosso Tratado de Colaboração e Assistência Mútua de vinte anos com a Rússia Soviética. Concordo com o Sr. Bevin, o Secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, que pode muito bem ser um Tratado de cinquenta anos, no que nos diz respeito. Nosso objetivo é nada além de assistência mútua e colaboração. Os britânicos têm uma aliança com Portugal ininterrupta desde 1384, e que produziu resultados frutíferos em momentos críticos na última guerra. Nenhum deles colide com o interesse geral de um acordo mundial ou de uma organização mundial; pelo contrário, eles o ajudam. "Na casa de meu pai há muitas mansões." Associações especiais entre membros das Nações Unidas que não tenham nenhum ponto agressivo contra qualquer outro país, que não abriguem nenhum desígnio incompatível com a Carta das Nações Unidas, longe de serem prejudiciais, são benéficas e, como acredito, indispensáveis.

    Falei antes do Templo da Paz. Trabalhadores de todos os países devem construir esse templo. Se dois dos trabalhadores se conhecem particularmente bem e são velhos amigos, se suas famílias estão misturadas e se eles têm "fé no propósito um do outro, esperança no futuro um do outro e caridade para com as deficiências um do outro" - para citar algumas boas palavras que li aqui outro dia - por que eles não podem trabalhar juntos na tarefa comum como amigos e parceiros? Por que eles não podem compartilhar suas ferramentas e, assim, aumentar os poderes de trabalho um do outro? De fato, eles devem fazê-lo ou então o templo pode não ser construído, ou, sendo construído, pode entrar em colapso, e todos nós seremos novamente provados como indomáveis ​​e teremos que ir e tentar aprender novamente pela terceira vez em uma escola de guerra, incomparavelmente mais rigorosa do que aquela da qual acabamos de ser libertados. A idade das trevas pode retornar, a Idade da Pedra pode retornar nas asas brilhantes da ciência, e o que agora pode derramar bênçãos materiais imensuráveis ​​sobre a humanidade, pode até mesmo causar sua destruição total. Cuidado, eu digo; o tempo pode ser curto. Não vamos tomar o curso de permitir que os eventos sigam adiante até que seja tarde demais. Se houver uma associação fraternal do tipo que descrevi, com toda a força e segurança extras que ambos os nossos países podem derivar dela, vamos nos certificar de que esse grande fato seja conhecido pelo mundo, e que ele desempenhe seu papel em firmar e estabilizar as fundações da paz. Esse é o caminho da sabedoria. A prevenção é melhor do que a cura.

    Uma sombra caiu sobre as cenas tão recentemente iluminadas pela vitória dos Aliados. Ninguém sabe o que a Rússia Soviética e sua organização internacional comunista pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites, se houver, para suas tendências expansivas e proselitistas. Tenho uma forte admiração e consideração pelo valente povo russo e por meu camarada de guerra, o marechal Stalin. Há profunda simpatia e boa vontade na Grã-Bretanha - e não duvido que aqui também - em relação aos povos de todas as Rússias e uma determinação de perseverar através de muitas diferenças e rejeições no estabelecimento de amizades duradouras. Entendemos que a necessidade russa de estar segura em suas fronteiras ocidentais pela remoção de toda possibilidade de agressão alemã. Damos as boas-vindas à Rússia em seu lugar de direito entre as principais nações do mundo. Damos as boas-vindas à sua bandeira nos mares. Acima de tudo, damos as boas-vindas aos contatos constantes, frequentes e crescentes entre o povo russo e nosso próprio povo em ambos os lados do Atlântico. É meu dever, no entanto, pois tenho certeza de que você gostaria que eu apresentasse os fatos como os vejo para você, para colocar diante de você certos fatos sobre a posição atual da Europa.

    De Stettin no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha estão todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas cidades famosas e as populações ao redor delas estão no que devo chamar de esfera soviética, e todas estão sujeitas de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas a uma medida muito alta e, em muitos casos, crescente de controle de Moscou. Somente Atenas - Grécia com suas glórias imortais - é livre para decidir seu futuro em uma eleição sob observação britânica, americana e francesa. O governo polonês dominado pela Rússia foi encorajado a fazer incursões enormes e injustas na Alemanha, e expulsões em massa de milhões de alemães em uma escala grave e inimaginável estão ocorrendo agora. Os partidos comunistas, que eram muito pequenos em todos esses estados orientais da Europa, foram elevados à preeminência e ao poder muito além de seus números e estão buscando em todos os lugares obter controle totalitário. Os governos policiais prevalecem em quase todos os casos e, até agora, exceto na Tchecoslováquia, não existe uma verdadeira democracia.

    Turquia e Pérsia estão profundamente alarmadas e perturbadas com as reivindicações que estão sendo feitas sobre elas e com a pressão exercida pelo Governo de Moscou. Uma tentativa está sendo feita pelos russos em Berlim para construir um partido quase comunista em sua zona da Alemanha ocupada, mostrando favores especiais a grupos de líderes alemães de esquerda. No final da luta em junho passado, os exércitos americano e britânico recuaram para o oeste, de acordo com um acordo anterior, a uma profundidade em alguns pontos de 150 milhas em uma frente de quase quatrocentas milhas, a fim de permitir que nossos aliados russos ocupassem esta vasta extensão de território que as democracias ocidentais haviam conquistado.

    Se agora o Governo Soviético tentar, por ação separada, construir uma Alemanha pró-comunista em suas áreas, isso causará novas dificuldades sérias nas zonas britânica e americana, e dará aos alemães derrotados o poder de se colocarem em leilão entre os soviéticos e as democracias ocidentais. Quaisquer que sejam as conclusões que possam ser tiradas desses fatos — e fatos são — esta certamente não é a Europa Libertada que lutamos para construir. Nem é uma que contém os elementos essenciais da paz permanente.

    A segurança do mundo requer uma nova unidade na Europa, da qual nenhuma nação deve ser permanentemente excluída. É das disputas das fortes raças-mãe na Europa que as guerras mundiais que testemunhamos, ou que ocorreram em tempos anteriores, surgiram. Duas vezes em nossa própria vida, vimos os Estados Unidos, contra seus desejos e tradições, contra argumentos, cuja força é impossível não compreender, atraídos por forças irresistíveis, para essas guerras a tempo de garantir a vitória da boa causa, mas somente após a matança e devastação assustadoras terem ocorrido. Duas vezes os Estados Unidos tiveram que enviar vários milhões de seus jovens através do Atlântico para encontrar a guerra; mas agora a guerra pode encontrar qualquer nação, onde quer que ela esteja entre o anoitecer e o amanhecer. Certamente deveríamos trabalhar com propósito consciente para uma grande pacificação da Europa, dentro da estrutura das Nações Unidas e de acordo com sua Carta. Isso eu sinto ser uma causa aberta de política de grande importância.

    Em frente à cortina de ferro que cobre a Europa, há outras causas de ansiedade. Na Itália, o Partido Comunista é seriamente prejudicado por ter que apoiar as reivindicações do marechal Tito, treinado pelos comunistas, sobre o antigo território italiano na cabeceira do Adriático. No entanto, o futuro da Itália está em jogo. Novamente, não se pode imaginar uma Europa regenerada sem uma França forte. Durante toda a minha vida pública, trabalhei por uma França forte e nunca perdi a fé em seu destino, mesmo nas horas mais sombrias. Não perderei a fé agora. No entanto, em um grande número de países, longe das fronteiras russas e em todo o mundo, quintas colunas comunistas são estabelecidas e trabalham em completa unidade e obediência absoluta às instruções que recebem do centro comunista. Exceto na Comunidade Britânica e nos Estados Unidos, onde o comunismo está em sua infância, os partidos comunistas ou quintas colunas constituem um desafio e perigo crescentes para a civilização cristã. Esses são fatos sombrios para qualquer um ter que recitar no dia seguinte de uma vitória conquistada por tanta camaradagem esplêndida em armas e na causa da liberdade e da democracia; mas seria muito imprudente não enfrentá-los diretamente enquanto ainda há tempo.

    A perspectiva também é ansiosa no Extremo Oriente e especialmente na Manchúria. O Acordo que foi feito em Yalta, do qual eu era parte, era extremamente favorável à Rússia Soviética, mas foi feito em um momento em que ninguém poderia dizer que a guerra alemã não poderia se estender por todo o verão e outono de 1945 e quando a guerra japonesa era esperada para durar mais 18 meses a partir do fim da guerra alemã. Neste país, vocês são todos tão bem informados sobre o Extremo Oriente, e amigos tão devotados da China, que não preciso me estender sobre a situação lá.

    Eu me senti obrigado a retratar a sombra que, tanto no oeste quanto no leste, cai sobre o mundo. Eu era um alto ministro na época do Tratado de Versalhes e um amigo próximo do Sr. Lloyd-George, que era o chefe da delegação britânica em Versalhes. Eu mesmo não concordei com muitas coisas que foram feitas, mas tenho uma impressão muito forte em minha mente daquela situação, e acho doloroso contrastá-la com a que prevalece agora. Naqueles dias, havia grandes esperanças e confiança ilimitada de que as guerras haviam acabado e que a Liga das Nações se tornaria todo-poderosa. Não vejo ou sinto essa mesma confiança ou mesmo as mesmas esperanças no mundo abatido no momento presente.

    Por outro lado, rejeito a ideia de que uma nova guerra é inevitável; ainda mais que é iminente. É porque tenho certeza de que nossas fortunas ainda estão em nossas próprias mãos e que temos o poder de salvar o futuro, que sinto o dever de falar agora que tenho a ocasião e a oportunidade de fazê-lo. Não acredito que a Rússia Soviética deseje a guerra. O que eles desejam são os frutos da guerra e a expansão indefinida de seu poder e doutrinas. Mas o que temos que considerar aqui hoje, enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento de condições de liberdade e democracia o mais rápido possível em todos os países. Nossas dificuldades e perigos não serão removidos fechando nossos olhos para eles. Eles não serão removidos apenas esperando para ver o que acontece; nem serão removidos por uma política de apaziguamento. O que é necessário é um acordo, e quanto mais isso for adiado, mais difícil será e maiores serão nossos perigos.

    Pelo que vi de nossos amigos e aliados russos durante a guerra, estou convencido de que não há nada que eles admirem tanto quanto a força, e não há nada pelo qual eles tenham menos respeito do que pela fraqueza, especialmente a fraqueza militar. Por essa razão, a velha doutrina de equilíbrio de poder é insalubre. Não podemos nos dar ao luxo, se pudermos evitar, de trabalhar em margens estreitas, oferecendo tentações para um teste de força. Se as democracias ocidentais permanecerem unidas em estrita adesão aos princípios da Carta das Nações Unidas, sua influência para promover esses princípios será imensa e ninguém provavelmente as molestará. Se, no entanto, elas se dividirem ou vacilarem em seu dever e se esses anos tão importantes forem deixados escapar, então, de fato, uma catástrofe pode nos sobrepujar a todos.

    Da última vez, vi tudo chegando e gritei alto para meus próprios compatriotas e para o mundo, mas ninguém prestou atenção. Até o ano de 1933 ou mesmo 1935, a Alemanha poderia ter sido salva do terrível destino que a atingiu e todos nós poderíamos ter sido poupados das misérias que Hitler soltou sobre a humanidade. Nunca houve uma guerra em toda a história mais fácil de prevenir por ação oportuna do que aquela que acabou de desolar áreas tão grandes do globo. Poderia ter sido evitada, na minha opinião, sem o disparo de um único tiro, e a Alemanha poderia ser poderosa, próspera e honrada hoje; mas ninguém quis ouvir e um por um fomos todos sugados para o terrível redemoinho. Certamente não devemos deixar que isso aconteça novamente. Isso só pode ser alcançado alcançando agora, em 1946, um bom entendimento em todos os pontos com a Rússia sob a autoridade geral da Organização das Nações Unidas e pela manutenção desse bom entendimento por muitos anos pacíficos, pelo instrumento mundial, apoiado por toda a força do mundo de língua inglesa e todas as suas conexões. Esta é a solução que respeitosamente ofereço a vocês neste Discurso ao qual dei o título de “Os Tendões da Paz”.

    Que nenhum homem subestime o poder duradouro do Império Britânico e da Comunidade Britânica. Porque você vê os 46 milhões em nossa ilha assediados sobre seu suprimento de alimentos, dos quais eles cultivam apenas metade, mesmo em tempos de guerra, ou porque temos dificuldade em reiniciar nossas indústrias e comércio de exportação após seis anos de esforço de guerra apaixonado, não suponha que não passaremos por esses anos sombrios de privação como passamos pelos anos gloriosos de agonia, ou que daqui a meio século, você não verá 70 ou 80 milhões de britânicos espalhados pelo mundo e unidos em defesa de nossas tradições, nosso modo de vida e das causas mundiais que você e nós defendemos. Se a população das Comunidades Britânicas de língua inglesa for adicionada à dos Estados Unidos com tudo o que essa cooperação implica no ar, no mar, em todo o globo e na ciência e na indústria, e na força moral, não haverá equilíbrio de poder trêmulo e precário para oferecer sua tentação à ambição ou aventura. Pelo contrário, haverá uma garantia avassaladora de segurança. Se aderirmos fielmente à Carta das Nações Unidas e caminharmos adiante com força serena e sóbria, sem buscar a terra ou o tesouro de ninguém, sem tentar impor controle arbitrário sobre os pensamentos dos homens; se todas as forças e convicções morais e materiais britânicas se unirem às suas em associação fraternal, as estradas principais do futuro estarão claras, não apenas para nós, mas para todos, não apenas para o nosso tempo, mas para um século vindouro.

    https://winstonchurchill.org/resources/speeches/1946-1963-elder-statesman/the-sinews-of-peace/