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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Semelhanças e Diferenças - uma opinião


Joffre Justino


Mais um texto para criticarem em coisasdehoje, o meu blog



Semelhanças e Diferenças


(Galp baixou preços dos combustíveis às 0:00 horas de hoje)…


Que há que aproxime as pessoas de Rabo de Peixe, nos Açores, às da Quinta da Fonte?


Nada, aparentemente.


Algo os torna entretanto, afins, a Pobreza, mas nada os aproxima de facto, por muito que tal custe a alguns “analistas”.


Tal como nada aproxima, na minha humilde opinião, os “ciganos” dos “africanos”, (mas já algo aproxima os “ciganos” das pessoas da comunidade de Rabo de Peixe…).


As comunidades de Rabo de Peixe e “cigana” têm algo de comum – o não se identificarem com a vivência na sociedade actual, no que ela tem de consumista, de identificadora pela imagem transmitida de alto para baixo, de busca desesperada do enriquecimento, da Riqueza ostentatória, (ou da aparência da mesma, pelo menos), de identificação do seu corpo com o “corpo ideal”, (o definido em alto e divulgado, para baixo), o de se não identificarem com a imagem do que o eu deve ser, divulgada pela comunicação social, em especial a audiovisual.


Mas o que os distingue é demasiado – a comunidade de Rabo de Peixe existe para se anular, enquanto que a(s) comunidade(s), cigana(s), existe(m) para se afirmar(em) pela diferença, orgulhando-se do seu passado, da sua marginalidade, do seu desprezo pelo “Outro”.


Já a(s) comunidade(s) “africana(s) querem integrar-se, enriquecer, consumir, identificar-se.


No entanto, mais uma vez algo que os torna afins, todas estas comunidades se deparam com uma rejeição colectiva das restantes comunidades que as envolvem.


Este é um problema adicional a ter em conta.


Reparemos – todas as comunidades “alienígenas”, atrás, recebem subsídios perante as situações de infortúnio em que vivem. A de Rabo de Peixe aproveita-os, ao que dizem alguns, para tentar “aumentar a espécie”; a(s) “cigana”(s) para facilitar a vivência no contexto da sua marginalidade; a(s) africana(s) para mais rapidamente se integrarem.


Por isso o acréscimo da participação dos membros das comunidades “africanas” na escola, a busca permanente de Emprego, de habitação, de condições, mínimas que sejam, de vida.


Não há banditismo “africano”?


Há. As armas existentes na Quinta da Fonte, o ataque violento à(s) comunidade(s) cigana(s), assim o provam.


Na verdade, o que se viveu na Quinta da Fonte foi, precisamente, uma ocupação paramilitar de um território.


Daí o desejo de afastamento, desse bairro, da(s) comunidade(s) cigana(s). Para ela(s), houve uma derrota territorial.


Assim, a Inclusão, social, cultural, étnica, é impossível?


Não.


Mas a mesma Inclusão não convive bem, nem com o amorfismo, nem com a complacência institucional.


Está provada a existência de armas.


Porque se espera para as procurar? Porque se espera para deter quem as tiver em casa?


Porque nunca haverá Inclusão, social, cultural, étnica, enquanto as comunidades se sentirem organizadas, para militarmente, isto é, com um “Estado” ao lado do Estado.


Não é aceitável que se aceite que a Quinta da Fonte deixe de ser “cigana” para passar a ser “africana”. Até porque nem a maioria dos “africanos” o desejam, mesmo que se silenciem.


A Inclusão exige participação livre e democrática e não “Estados” dentro do Estado. Exige diálogo intercultural permanente e não o “diálogo” das armas. Exige a percepção da cedência multifacetada e não a autoridade imposta.


E se é fácil aceitar a ideia da “mudança de Estado”, enquanto forma de poupar custos no investimento para a Inclusão, a verdade que esse é um percurso conhecido – o que conduziu às actuais favelas militarizadas brasileiras, enquanto reduto dos “gestores” do mundo da droga.


E isso nada tem a ver com Inclusão!


Joffre Justino


Nota: Finalmente, a GALP baixou os preços! Que tem tal a ver com a Pobreza? Tudo, porque estes preços ainda são altos!


Joffre Justino


remetido por
L. Martins
ter 29-07-2008 16:50
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ver também
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Os Ciganos - Povo, Cultura e Discriminação
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in
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... scriptorium.index
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Rabo de Peixe - Wikipédia, a enciclopédia livre
Rabo de Peixe é uma vila e freguesia portuguesa do concelho da Ribeira Grande, nos Açores.




terça-feira, 8 de abril de 2008

Na trilha de Macunaíma (1)


por Celio Turino*

Celio Turino estréia hoje, como colunista do Vermelho e escreverá às segundas-feiras.


Apresentação

Esta série, com 16 artigos, faz parte do livro Na Trilha de Macunaíma – ócio e trabalho na cidade (Ed. SENAC, 2005), de autoria de Célio Turino, e trata a preguiça, como um elemento da própria identidade brasileira, um ócio criativo, gingado e inovador. O objetivo é contribuir na luta pela redução da jornada de trabalho no Brasil, subsidiando sindicalistas, militantes e pessoas de mente aberta a re-questionarem valores como ócio e trabalho e inserindo este debate para além da fronteira estritamente economicista.


Está autorizada a reprodução destes artigos para fins não comerciais, desde que citada a fonte (nome do autor, livro e site Vermelho).

O autor

Célio Turino - mestre em história pela Unicamp, autor de diversos ensaios e livros é militante comunista desde 1978. Atualmente exerce a função de Secretário Nacional de Programas e Projetos – Ministério da Cultura, sendo responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura em todo o Brasil.

***

A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada

1- Encontro com o Paraíso

''Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio, Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito'' (Pero Vaz de Caminha, TERRA DE VERA CRUZ, abril de 1500)

Aos primeiros dias na terra que viria a ser o Brasil dá-se um alegre encontro entre os povos da terra e aqueles que haviam chegado do mar; e o coletor de impostos, almoxarife Diogo Dias, homem gracioso e de prazer, meteu-se com os índios a dançar. Essa foi a primeira troca simbólica do país que começava a nascer; nenhuma palavra foi dita, apenas gestos e sons. Mas antes deste encontro, os povos que habitavam o lugar, viviam em festa, obtendo seu sustento com pouco esforço, pois a terra lhes oferecia tudo que fosse necessário. ''Primeiras sociedades do lazer, primeiras sociedades da abundância'', este foi o mundo que os portugueses encontraram ao cruzar o Atlântico. A impressão é de que haviam chegado ao Éden.
À época de Colombo, muitas foram as discussões a este respeito. Mapas indicavam a localização do Paraíso, cosmógrafos ajustavam suas cartas, teólogos debatiam o Gênese. O próprio Cristóvão Colombo dá a entender que chegou à porta do Paraíso por especial graça de Deus:

''Já disse, aquilo que achava deste hemisfério e da sua feiúra, e creio, se passasse por debaixo da linha equinocial, que ali chegando, neste lugar mais alto, achara maior temperança e diversidade nas estrelas e nas águas, não porque acredite que onde se acha a altura extrema seja possível navegar-se ou seja possível subir até lá, pois creio que lá está o Paraíso Terrestre, onde ninguém pode chegar, salvo por vontade divina...'' (in. Visão do Paraíso, pg. 194).

Sérgio Buarque de Holanda parte do imaginário medieval do Paraíso, encontrado no Gênese para compreender esse deslumbramento com o mundo que se descortinava:

''...o Senhor Deus, tendo criado o homem, em quem insuflou o fôlego da vida e o fez assim alma vivente, plantou para sua habitação um horto ‘da banda do Oriente’. Ali espalhou por toda parte, plantas agradáveis à vista e boas para comida...''

Nessa terra de muito bons ares, a comida estava ao alcance das mãos, bastava extrair frutos, plantar -pois ''dar-se-á de tudo, por bem das águas que tem'', caçar ou pescar. Santo Isidoro de Sevilha , chamou as terras encontradas de Ilhas Afortunadas (Insulae Fortunatae) e assim o fez por considerar que possuem todos os bens necessários a uma vida feliz e ditosa:

''Espontaneamente dão muito rico fruto nas árvores; os bosques cobrem-se espontaneamente de vides; em vez de ervas há ali messes: de onde aquele erro dos gentios, e dos versos dos poetas quando julgam que tais ilhas, pela fecundidade do solo, constituem o Paraíso. Situam-se no Oceano, do lado esquerdo da Mauritânia, próximas do Ocidente e separadas dela pelo mar'' (Visão do Paraíso, pg. 195).

Na carta de Caminha há uma primeira descrição sobre a ida à terra firme em busca de água e comida:

''Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água (...). Ali ficamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto, tamanho, tão basto e de tantas prumagens, que homem as não pode contar. Há entre ele muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos''

Beber e folgar ao mesmo tempo em que se busca o alimento, esse era o cotidiano de trabalho encontrado nas terras de Pindorama. Os índios sabiam extrair da terra aquilo que ela lhes oferecia e assim que conseguiam o suficiente podiam se dedicar à arte, às brincadeiras e à festa. Na verdade, a arte, as brincadeiras e a festa estavam misturadas com a busca do sustento. O sentido do trabalho em um ambiente como este, certamente era diferente da realidade da Europa medieval e os portugueses da frota cabralina que foram buscar água e comida, por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água, também se deixaram folgar pelo caminho e mesmo assim, colheram muitos e bons palmitos. E essa percepção de um reino da abundância, não foi apenas dos portugueses, um anônimo inglês deixou o seguinte relato:

''...aqueles que lá estiveram são acordes, sem exceção, que viram os melhores e mais verdes prados e campinas, os outeiros mais aprazíveis, cobertos de árvores e frutas de toda casta, os mais formosos vales, os mais deleitosos rios de águas frescas, providas de infinitas variedades de peixes, as florestas mais densas, sempre verdejantes, cheias de frutos, que possam exibir no mundo inteiro''

Mas no mesmo tempo que a riqueza natural da terra deslumbrou os visitantes, ela também despertou a cobiça e, quase que na mesma seqüência, a inveja em relação àqueles povos que prescindiam do trabalho para levar as suas vidas. Prescindiam do trabalho e também do Estado, dois dos principais axiomas da civilização ocidental. A falta da necessidade de um trabalho duro estava presente não apenas entre povos nômades, como também em relação aos agricultores tupis-guaranis; portugueses, franceses ou espanhóis não admitiam uma realidade assim, a ociosidade nativa os chocava. O antropólogo Pierre Clastres faz a seguinte descrição do ritmo de trabalho destes povos:

''Uma mesma área de cultivo era utilizada por um período ininterrupto de quatro a seis anos. Em seguida era abandonada, por esgotar-se o solo (...) O grosso do trabalho efetuado pelos homens consistia em arrotear, por meio de um machado de pedra e com o auxílio do fogo, a superfície necessária. Essa tarefa no fim da estação das chuvas, mobilizava os homens durante um ou dois meses. Quase todo o resto do processo agrícola – plantar, mondar, colher -, em conformidade com a divisão sexual do trabalho, era executado por mulheres.''

Cabe ressaltar que a tradição atribuída aos índios de atear fogo para abrir plantações, já era conhecida dos portugueses e utilizada na Ilha da Madeira em dimensões muito maiores do que a queimada localizada dos Tupis. Um relato de 1455, de João Gonçalves Zarco, sobre a queimada na Ilha da Madeira, ou seja, de antes da chegada dos portugueses ao Brasil, descreve a experiência dos portugueses na transformação da Ilha:

''...não havia ali um palmo de terra que não fosse coberto por árvores grandíssimas. Para cultiva-la, tiveram os primeiros povoadores de recorrer ao sistema que depois usariam no Brasil, de destruir a mata deitando-lhe fogo. O qual fogo andou lavrando pela ilha grande espaço de tempo, e foi tamanho, que os moradores com suas mulheres e filhos, tiveram-se que acolher-se à água do mar, e assim estiveram com ela até o pescoço dois dias e duas noites, sem comer nem beber, pois de outro modo teriam morrido queimados. Desaparecendo por essa forma o bosque, tudo se tornou um terreno para cultivo, além das canas doces, de vinhas e trigo'' (Visão do Paraíso, pg. 188).

A queimada localizada é uma prática indígena; mas a queimada em proporções dantescas, antes de representar uma prova da preguiça nativa, é resultado da ganância e da busca do lucro sem medir conseqüências. Clastres conclui que, para os homens havia a necessidade de apenas dois meses de trabalho duro a cada quatro anos, o tempo restante era passado em ocupações como a pesca e a caça que, apesar de proverem a comunidade de alimentos, não eram consideradas penosas e sim como prazer, estando misturadas, como dissemos, com festas e brincadeiras. Cabe lembrar, no entanto, que, entre os tupi-guaranis, a divisão de trabalho existia na diferença entre homens e mulheres. Engels e Marx, em uma concepção um tanto quanto romântica, conforme aponta Herbert Marcuse, devem ter se inspirado neste modelo de comunismo primitivo ao fazerem sua conhecida descrição da futura sociedade comunista: ''onde cada um não tem uma esfera de atividade exclusiva, mas pode aperfeiçoar-se no ramo que lhe apraz, a sociedade regula a produção geral, dando-me a possibilidade de hoje fazer tal coisa, amanhã outra, caçar pela manhã, pescar à tarde, criar animais ao anoitecer, criticar após o jantar, segundo meu desejo, sem jamais tornar-me caçador, pescador, pastor ou crítico'' (A ideologia Alemã – pg. 47).

Mesmo entre os índios da atualidade, a presença do trabalho na vida cotidiana é bastante reduzida. J. Lizot, antropólogo que viveu vários anos entre os yanomami da Amazônia venezuelana, estudou o tempo que os adultos dedicavam ao trabalho, marcando todas as atividades necessárias para o cumprimento da tarefa. Em qualquer situação esse tempo nunca ultrapassou três horas diárias. Pierre Clastres, mesmo sem uma contagem exata do tempo, constatou que em sua experiência pessoal no contato com os índios guaiaquis, do Paraguai, o tempo que eles dedicavam ao trabalho nunca superou metade do dia ''...passavam pelo menos metade do dia em quase completa ociosidade, uma vez que a caça e a coleta se efetuavam, e não todos os dias, entre, mais ou menos, 6 e 11 horas da manhã''. A lógica destas sociedades não é exatamente da recusa do trabalho; eles trabalham pouco é verdade, mas enfrentam suas obrigações, a diferença [em relação aos europeus] é que param no momento que suas necessidades são satisfeitas. Ou seja, dependendo das condições ecológicas, podem trabalhar mais ou menos, no entanto, o sentido de suas vidas é encontrado no lazer, na busca do significado das coisas e não na acumulação de riquezas materiais. Essa foi a diferença encontrada pelos portugueses há quinhentos anos.

''Águas são muitas; infinitas'', de forma poética, Vaz de Caminha descreveu a realidade vista por ele em que a abundância de recursos naturais parecia inesgotável. Lamentavelmente essa idéia de que as riquezas naturais do Brasil são infinitas está presente até os dias de hoje, fazendo com que os recursos da terra sejam extraídos como se nunca acabassem. Até que um dia acabam. Inclusive as águas, que já foram muitas. Foi um encontro com o Paraíso:

''A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso tem tanta inocência como em mostrar o rosto. (...) Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas ta altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha''.

(continua)

No próximo capítulo: Ócio e Trabalho

* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in vermelho - 18 DE FEVEREIRO DE 2008 - 19h14

*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.

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* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Roberto Piva - Ode a Fernando Pessoa

.S. Paulo - Brasil - 1960
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Ode a Fernando Pessoa

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Roberto Piva (1962)
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O rádio toca Stravinsky para homens surdos e eu recomponho na minha imaginação
a tua vida triste passada em Lisboa.
Ó Mestre da plenitude da Vida cavalgada em Emoções,
Eu e meus amigos te saudamos!
Onde estarás sentindo agora?
Eu te chamo do meio da multidão com minha voz arrebatada,
A ti, que és também Caeiro, Reis, Tu-mesmo, mas é como Campos que vou
saudar-te, e sei que não ficarás sentido por isso.
Quero oferecer-te o palpitar dos meus dias e noites,
A ti, que escutaste tudo quanto se passou no universo,
Grande Aventureiro do Desconhecido, o canto que me ensinaste foi de libertação.
Quando leio teus poemas, alastra-se pela minh'alma dentro um comichão de
saudade da Grande Vida,
Da Grande Vida batida de sol dos trópicos,
Da Grande Vida de aventuras marítimas salpicada de crimes,
Da grande vida dos piratas, Césares do Mar Antigo.
Teus poemas são gritos alegras de Posse,
Vibração nascida com o Mundo, diálogos contínuos com a Morte,
Amor feito a força com toda Terra.

Sempre levo teus poemas na alma e todos os meus amigos fazem o mesmo.
Sei que não sofres fisicamente pelos que estão doentes de Saudade, mas de
Madrugada; quando exaustos nos sentamos nas praças, Tu estás conosco, eu
sei disso, e te respiramos na brisa.
Quero que venhas compartilhar conosco as orgias da meia-noite, queremos ser
para ti mais do que para o resto do mundo.
Fernando Pessoa, Grande Mestre, em que direção aponta tua loucura esta noite?
Que paisagens são estas?
Quem são estes descabelados com gestos de bailarinos?

Vamos, o subúrbio da cidade espera nossa aventura,
As meninas já abandonaram o sono das famílias,
Adolescentes iletrados nos esperam nos parques.
Vamos com o vento nas folhagens, pelos planetas, cavalgando vaga-lumes cegos até o Infinito.
Nós, tenebrosos vagabundos de São Paulo, te ofertamos em turíbulo para uma
bacanal em espuma e fúria.
Quero violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, Vamos viver para além da burguesia triste que domina meu país alegremente
Antropófago.
Todos os desconhecidos se aproximam de nós.
Ah, vamos girar juntos pela cidade, não importa o que faças ou quem sejas, eu te
abraço, vamos!
Alimentar o resto da vida com uma hora de loucura, mandar à merda todos os deveres, chutar os padres quando passarmos por eles nas ruas, amar os
pederastas pelo simples prazer de traí-los depois,
Amar livremente mulheres, adolescentes, desobedecer integralmente uma ordem
por cumprir, numa orgia insaciável e insaciada de todos os propósitos-
Sombra.
Em mim e em Ti todos os ritmos da alma humana, todos os risos, todos os olhares,
todos os passos, os crimes, as fugas, Todos os êxtases sentidos de uma vez,
Todas as vidas vividas num minuto Completo e Eterno,
Eu e Tu, Toda a Vida!
Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã,
enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado.
Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente
dorme, e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.
Tu, todas as crianças vivazes e sonolentas,
Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o
professor não vê;
Tu, o Ampliado, latitude-longitude, Portugal África Brasil Angola Lisboa São
Paulo e o resto do mundo,
Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima, de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche.
Tu, o rumor dos planaltos, tumulto do tráfego na hora do ¿rush¿, repique dos
sinos de São Bento, hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá,
Digo em sussurro teus poemas ao ouvido do Brasil, adolescente moreno empinando papagaios na América.
Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios, escorrendo pelas
águas do Amazonas, batendo em chapa na caatinga nordestina, debruçando
no Corcovado,
Ouçamos a bossa-nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda
diretamente do coração do morro.
Tu, a selvagem inocência nos beijos dos que se amam,
Tu o desengajado, o repentino, o livre.
Agora, vem comigo ao Bar, e beberemos de tudo nunca passando pela caixa,
Vamos ao Brás beber vinho e comer pizza no Lucas, para depois vomitarmos
tudo de cima da ponte,
Vem comigo, eu te mostrarei tudo: o Largo do Arouche à tarde, o Jardim da Luz
pela manhã, veremos os bondes gingando nos trilhos da Avenida, assaltaremos o Fasano, iremos ver ¿as luzes do Cambuci pelas noites de crime¿,
onde está a menina-moça violada por nós num dia de Chuva e Tédio,
Não te levarei ao Paissandu para não acordarmos o sexo do Mário de Andrade
(ai de nós se ele desperta!),
Mas vamos respirar a Noite do alto da Serra do Mar: quero ver as estrelas refletidas
em teus olhos.
Sobre as crianças que dormem, tuas palavras dormem; eu deles me aproximo e
dou-lhes um beijo familiar na face direita.
Teu canto para mim foi música de redenção,
Para tudo e todos a recíproca atração de Alma e Corpo.
Doce intermediário entre nós e a minha maneira predileta de pecar.
Descartes tomando banho-maria, penso, logo minto, na cidade futura, industrial
e inútil.
Mundo, fruto amadurecido em meus braços arqueados de te embalar,
Resumirei para Ti a minha história:
Venho aos trambolhões pelos séculos,
Encarno todos os fora da lei e todos os desajustados,
Não existe um gangster juvenil preso por roubo e nenhum louco sexual que eu
não acompanhe para ser julgado e condenado;
Desconheço exame de consciência, nunca tive remorsos, sou como um lobo
dissonante nas lonjuras de Deus.
Os que me amam dançam nas sepulturas.
Da vidraça aberta olho as estrelas disseminadas no céu; onde estás, Mestre Fernando?
Foste levar a desobediência aos aplicados meninos do Jardim América?
Dás um lírio para quem fugir de casa?
Grande indisciplinador, é verdade?

Vamos ao norte amar as coisas divinamente rudes.
Vamos lá, Fernando, dançar maxixe na Bahia e beber cerveja até cair com um
baque surdo no centro da Cidade Baixa.
Sabes que há mais vida num beco da Bahia ou num morro carioca do que em
toda São Paulo?
São Paulo, cidade minha, até quando serás o convento do Brasil?
Até teus comunistas são mais puritanos do que padres.
Pardos burocratas de São Paulo, vamos fugir para as praias?
Ó cidade das sempiternas mesmices, quando te racharás ao meio?
Quero cuspir no olho do teu Governador e queimar os troncos medrosos da floresta
humana.
Ó Faculdade de Direito, antro de cavalgaduras eloqüentes da masturbação transferida!
Ó mocidade sufocada nas Igrejas, vamos ao ar puro das manhãs de setembro!
Ó maior parque industrial do Brasil, quando limparei minha bunda em ti?
Fornalha do meu Tédio transbordando até o Espasmo.
Horda de bugres galopando a minha raiva!
Sei que não há horizontes para a minha inquietação sem nexo,
Não me limitem, mercadores!
Quero estar livre no meio do Dilúvio!
Quero beber todos os delírios e todas as loucuras, mais profundamente que
qualquer Deus!
Põe-te daqui para fora, policiamento familiar da alma dos fortes: eu quero ser
como um raio para vós!
Violência sincopada de todos os "boxeurs"!
Brasileira do Chiado em dias de porre de absinto.
Arcabouço de todas as náuseas da vida levada em carícias de Infinito.
Tudo dói na tua alma, Nando, tudo te penetra, e eu sinto contigo o íntimo tédio
de tudo.
Realizarei todos os teus poemas, imaginando como eu seria feliz se pudesse estar
contigo e ser tua Sombra.
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LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR
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foto e texto em in
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www.roberto_piva.blogger.com.br/
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A arte de transgredir (uma introdução a Roberto Piva)

João Silvério Trevisan


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1..


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Roberto PivaA história pessoal do poeta Roberto Piva começa e gira em torno da cidade de São Paulo. Ele cresceu e formou-se entre a capital e as antigas fazendas do pai, no interior do Estado de São Paulo. Seus primeiros poemas foram publicados em 1961, quando tinha 23 anos. Nessa mesma época, integrou a famosa Antologia dos Novíssimos, de Massao Ohno, na qual se lançaram vários poetas brasileiros iniciantes, que depois desenvolveram uma obra poética de importância. Piva formou-se em sociologia. Sobreviveu em grande parte como professor de estudos sociais e história. Em suas aulas aos adolescentes do segundo grau, costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar. Foi um professor de muito sucesso, com rara vocação como pedagogo. Nos anos de 1970, tornou-se produtor de shows de rock. Piva mora em São Paulo, cidade que lhe parece apocalíptica, exemplo do que não deve ser feito contra o meio ambiente, mas que forneceu todo o pano de fundo para sua obra poética. Tem medo de avião.

Por isso, raramente se distanciou demais da capital, de onde foge sempre que pode, de ônibus ou carro, sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo, refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico, o gavião.

2.

Mirta KupfermincA genealogia poética de Roberto Piva apresenta raízes e inclui influências muito raras na literatura brasileira, formando uma mistura-fina que é única por sua erudição, mas também por sua transgressão. Começa com Dante Alighieri. Ainda na década de 60, por três anos Piva aprofundou-se nos estudos da Divina Comédia, orientado por Eduardo Bizzarri, adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Esse contato com Dante foi como seu imprinting poético-filosófico: marcou para sempre sua visão de mundo, sua política e sua poesia.

Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses, sobretudo William Blake, Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com o sagrado e a vida interior.

A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa experiência com uma ponta de pessimismo, que deixou de ser circunstancial quando, ainda na década de 60, Roberto Piva teve contato com a obra de um filósofo praticamente desconhecido, no Brasil do período: Friedrich Nietzsche.

À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. Mas nem só de espírito, nem só de intelecto fez-se o aprendizado juvenil de Roberto Piva, que cedo descobriu Rimbaud e Lautréamont, recebendo a influência desses dois poetas visionários, que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias.

A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à poesia. Das vanguardas do começo do século 20, Roberto Piva absorveu lições do surrealismo, na vertente francesa de André Breton, Antonin Artaud e René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no famoso Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. A partir de Artaud, Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto entre poesia e vida.

O dito artaudiano “para conhecer minha obra, leia-se minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. Também é flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu culto à fragmentação moderna), acrescida de algumas expressões musicais da contemporaneidade do pós-guerra, através da onipresente marca do jazz e da bossa nova, duas fidelíssimas paixões de Roberto Piva. Mas há mais duas fortes presenças contemporâneas em sua poética. Uma é a beat generation americana, da qual Piva não só absorveu a estilística fragmentada e a temática que aproxima o contemporâneo do arcaico, mas através da qual também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos costumes do seu tempo.

Na década de 70, a transgressão foi reforçada pela descoberta do outsider Pier Paolo Pasolini, protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas do paradoxo. Dos poetas brasileiros, essa genealogia poética agregou as figuras de Murilo Mendes - com seu surrealismo intenso, expontâneo e sensorial, ao contrário dos franceses intelectualizados - e Jorge de Lima, sobretudo aquele barroco, visionário e atormentado de “Invenção de Orfeu”. Os elementos finais da construção poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o aspecto mágico.

Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de Mairiporã e serra da Cantareira, ambas nos arredores de São Paulo, além de Jarinu, no interior do estado, selaram sua ligação sagrada com a natureza.

Essa sacralidade é, para Piva, a única salvação possível ao mundo moderno, que colocou a destruição da natureza como parte do seu projeto consumista. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico, enquanto forças da natureza, Piva passou a estudar e praticar o xamanismo. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza, foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade, mas sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé. Ele não só cultua seus orixás (Xangô, Yemanjá e Oxum) mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico, o gavião.

Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado, Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. Um: a ingestão de drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. Dois: o culto a uma erótica homossexual, resgatando para a modernidade o amor grego, como um componente de transgressão do desejo.

Tome-se, como referência, seu "Poema XIV", de 20 Poemas com Brócoli, dedicado ao Carlinhos:

"vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas

coxas imberbes & brancas.

vou dilapidar a riqueza de tua

adolescência. vou queimar teus

olhos com ferro em brasa.

vou incinerar teu coração de carne &

de tuas cinzas vou fabricar a

substância enlouquecida das

cartas de amor." (20 Poemas com Brócoli, 1981)

3.

Mirta KupfermincOs traços mais presentes na obra de Roberto Piva giram em torno dessas influências ou ao menos partem delas. Trata-se, antes de tudo, de uma poética de transgressão: na abordagem, na temática e na quebra de fronteiras entre os contrários. Portanto, uma transgressão que desemboca no paradoxo - por exemplo, entre carne & espírito, vida & obra, contemporâneo & arcaico. Sua expressão poética persegue o rastilho da escrita automática de extração surrealista: recuperar para a poesia os estados primitivos do sonho e da loucura.

No caso de Roberto Piva, talvez fosse mais adequado falar em escrita delirante. Essa prática levou, também no caso do poeta brasileiro, à utilização do método da livre associação de idéias, a partir da crença na importância poética do inconsciente. Resultado: metáforas explosivas que Roberto Piva articula com estonteante propriedade. Do seu poema “A vida me carrega no ar como um gigantesco abutre”, veja-se o final delirante:

"minha dor é um anjo ferido

de morte

você é um pequeno deus verde

& rigoroso

horários de morte cidades cemitérios

a morte é a ordem do dia

a noite vem raptar o que

sobra de um soluço". (Coxas, 1979)

Ou, no início do seu "Poema VII" de 20 Poemas com brócoli, note-se a homenagem embutida numa metáfora explosiva, que mistura elementos de sensualidade contraditória:

"mestre Murilo Mendes tua poesia são

os sapatos de abóboras que eu calço

nestes dias de verão." (20 Poemas com brócoli, 1981)

Outro traço marcante na obra de Roberto Piva é o total desmantelamento da versificação métrica, influência modernista que, no seu caso, caotiza-se, na tentativa de transpor para a poética escrita o ritmo sincopado do jazz e a respiração do músico de jazz.

A rítmica entrecortada, a batida imprevista e a respiração irregular, com notas se sucedendo lânguidas, são traduzidas inclusive numa distribuição desordenada dos versos o espaço da página. Veja-se como o poema dança, neste seu "O Robot Pederasta":

"Não vale

sair

com asas

onde

o cra cra cra cra cra cra cra

cra cra cra cra cra cra

se amassava

nas

velas apagadas

quem

quer

o telhado

de lágrimas?

beberei veneno

contra

teu temperamento

alegria que se

espera

raio X de gente que

desce do alto

porta acesa

olhar inchado no escuro

Signorine, la danza della Morte è servita

algumas ficaram

LOUCAS" (Piazzas, 1964)

Depois, veio a influência do cinema. Trata-se de uma obra pontuada por cortes cinematográficos que remetem ao cinema experimental, com passagens abruptas de espaço, tempo e imagética. Confira-se neste “Ganimedes 76”:

"Teu sorriso

olhinhos como margaridas negras

meu amor navegando na tarde

batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de

fuligem

cabelos ouriçados como um pequeno deus de um salão

rococó

força de um corpo frágil como âncoras

gostei de você eu também

amanhã então às 7

amanhã às 7

tudo começa agora num ritual lento & cercados de

gardênias de pano

Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde

de São Paulo como um desejo espetacular tão

dopado de coragem

marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti

assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem" (Abra os olhos e diga Ah!, 1976)

No geral, temos uma temática muito diversificada, que parte do urbano e quotidiano, passando pelo erótico e carnal, até atingir o metafísico e o sagrado. Confira-se neste trecho do seu "Beija-flor badulaque":

"nus & feéricos/ olho no gatilho meia-lua/ nado esta

manhã a favor da correnteza/ à deriva/ no miolo do

furacão/ eu era uma Sibila entre os gonzos da lingua-

gem/ Samba-Vírus/ exus nanicos carregando cabaças

de pedra da lua no portal do meu ouvido/ cruzamento

das Avenidas Assassinato & 69/ garoto-pombinha no

balcão da lanchonete/ esperando o pernilongo da Mor-

te/ estrelas rachadas gotejam leite dos deuses/ é com

este que eu vou sambar até a Pradaria -Kamikase/ no

trecho Belém-Brasília da Teogonia" (Quizumba, 1983)

4.

Mirta KupfermincO resultado geral é uma expressão poética fragmentada, que resume exemplarmente as soluções expressivas, as inquietações e encruzilhadas da contemporaneidade. Assim, Roberto Piva inaugurou traços singulares no contexto poético brasileiro, que fazem de sua obra uma das mais originais e inovadoras dentro da poesia brasileira contemporânea. Como sempre esteve eqüidistante das escolas conhecidas, pode-se dizer que ele é sua própria escola.

Roberto Piva persegue e vive o ideal do poeta-profeta, como menciona em seu "Poema Vertigem":

"Eu sou uma metralhadora em

estado de Graça

Eu sou a pomba-gira do Absoluto".

No espelho da poesia, sua imagem é daquele que reflete, de modo nem sempre aceitável, os paradoxos da contemporaneidade, através dos seus próprios. Define-se a si mesmo como um anarquista de direita. E, muito contemporaneamente, ama as corridas de carros, ainda que criticando o culto à tecnologia. Com suas transgressões na vida e na poesia - que formam um só organismo - Piva veio para confundir.

Por ser incômodo, recebe mais pedras do que reconhecimento dos seus contemporâneos. Para não falar da conspiração de silêncio da qual sua obra poética tem sido vítima.

Como gente demais no Brasil não o conhece, encerro com mais um exemplo da sua contundência. Saboreiem este festival de musicalidade, ritmo e delírio expressivo em seu

"Piazza V", um dos poemas mais emblemáticos da sua obra emblemática:

"Oswald Spengler tem uma

porta no seu tornozelo

& nuvens através dele

limpando a pele

que projeta

um velho cachecol marrom

em seu olho

eu penso

pelos seus

líquidos compassos de sátiro

até

um cenário de músculos

impedido de esmagar

o carvão de

vidro verde

que aquece

a estrela nua de

anteontem

Oswald Spengler tem uma porta no seu tornozelo

batendo

até

altas horas" (Piazzas, 1964)

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João Silvério Trevisan (Brasil, 1944). Ficcionista, ensaísta e tradutor. Autor de livros como Em Nome do Desejo (romance, 1983), Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986), e Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998). Palestra proferida na Biblioteca Mário de Andrade, 24/04/96, em São Paulo. Posteriormente publicada em Pedaço de mim (Ed. Record, 2002). Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina).

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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004

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Agulha - Revista de Cultura

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Roberto Piva - Fotografia de Mario Rui Feliciani

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Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina)

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