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sábado, 15 de junho de 2024

Carlos Coutinho - NOTÍCIAS da peste




* Carlos Coutinho

    NOTÍCIAS da peste: a Assembleia da República vai passar a assinalar anualmente o dia 25 de novembro de 1975, à semelhança do que acontece com o 25 de Abril. 

Para tanto bastaram os votos do PSD, do Chega e da Iniciativa Liberal. Desta vez, o PS ainda votou contra, acompanhado pelo Bloco, PCP e Livre, assim se impedindo a criação de um novo feriado nacional proposta pelo Chega.

Já o mesmo não aconteceu na deliberação seguidamente acontecida, quando os deputados alegadamente socialistas votaram em sintonia com toda a direita e extrema-direita a inclusão pelo Parlamento, por proposta da IL, a inclusão dos 50 anos do 25 de novembro no programa do cinquentenário do 25 de Abril. 

No caso do feriado nacional, só o Chega e o CDS-PP votaram favoravelmente. 

A IL absteve-se, porque também há patrões intermitentemente liberais e cordiais, mas nem todos selvagens, segundo o incontrolável Darwin. E, como é da sabedoria das vítimas ainda vivas, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.

Até Almada Negreiros, depois de ter sido o ilustrador do mantra salazarista do mantra “Deus, Pátria, Família e Autoridade”, já tinha avisado: 

O povo completo será aquele que terá reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses: só vos faltam as qualidades.” 

O que levou Jorge Sousa Braga a confessar, entre dois acessos de tosse: “Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do império, mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado.”

Aliás, Fernando Pessoa já tinha lamentado: “Pertenço a um género de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho. A morte é certa.


2024 06 14

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896



Imagens por VN  
Almada Negreiros. 1933. “Voto na Nova Constituição”. (90cm X 116cm). Cartaz impresso com litografia no Lith. de Portugal usando três cores. BNP.

"Deus, Pátria, Família" - este,  editado em 1938, integra uma série de sete cartazes intitulados “A Lição de Salazar”, distribuídos por todas as escolas primárias do país, como forma de celebração dos dez anos de governo do Estado Novo.. A escola era, assim, palco não só para a inculação dos valores do Estado Novo, como também para glorificar a obra feita até então pelo ditador. O principal objetivo destes, era demonstrar a superioridade de um Estado forte e autoritário sobre os regimes demoliberais.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

José Pacheco Pereira - A São na campanha do PS

* José Pacheco Pereira

17 de Fevereiro de 2024


Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.


Cartaz de propaganda eleitoral do Partido Socialista, Fevereiro de 2024 DR

  Experimentem dizer alto “Ação”. Os mais velhos, que têm a memória de como se diz “Acção”, dirão direito, os mais novos educados já na novilíngua, e os mais velhos modernaços e oficialmente muito obedientes, dirão “A São”. Entrou, pois, a São na campanha eleitoral do PS, e Pedro Nuno Santos quer “mais a São”.

 Por que raio quer ele mais a São? Não sei, mas duvido que haja muitas razões benévolas para isso, e as perversas ficam para as redes sociais. Repito o plebeísmo, que é sempre apropriado para estas coisas enquanto não for proibido. Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo no seu primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que ficaram mais estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira, que é, junto com a inércia, a grande força motora do novo acordo ortográfico, em bom rigor, a única. Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.

 Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo no seu primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que ficaram mais estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira

O Acordo Ortográfico de 1990, pomposamente assinado pela maioria dos países de língua portuguesa, foi um dos maiores desastres diplomáticos dos últimos anos, com países como Angola e Moçambique a continuarem na mesma e todos os outros com diferentes graus de implementação. E, mesmo no Brasil, cada um escreve como quer, o que é aliás um dos factores do dinamismo do português do Brasil, fruto da pujança da sociedade brasileira, para o bem e para o mal.

Os resultados do Acordo foram separar ainda mais, uns dos outros, os países cuja língua oficial é o português e, dentro de cada um, haver na prática duas ortografias, como se vê neste jornal. Mesmo quando todos os passos legais para a sua implementação foram dados, quem escreve português bem, recusa o Acordo. E mais: considera uma questão de princípio escrever com a ortografia antiga, o que torna muito mais radical a divisão. Basta comparar os jornais dos vários países da CPLP para perceber isso, já para não falar de Portugal. Só que em Portugal deu-se um passo, cuja legalidade é contestada, de obrigar instituições, escolas e outras dependências do Estado a usar esse abastardamento da língua portuguesa que é o Acordo de 1990. E isso trouxe, como aliás a decisão de fazer o Acordo, muitos interesses económicos em jogo, que só se têm reforçado e hoje são um lóbi poderoso.

Apesar de uma enorme contestação, por que razão não se volta a escrever o português que tem a riqueza da memória da língua? A razão principal é que os nossos governantes, do PSD ao PS, estão-se literalmente nas tintas para o que é importante na nossa identidade cultural, mesmo quando se mostram muito indignados com a bandeirinha vermelha e verde, cuja história também desconhecem, ou se esquecem de colocar no orçamento as verbas para comemorar o Camões.

 (No Arquivo Ephemera não nos ensaiamos nada para colocar o episódio do Velho do Restelo em painéis pelas cidades com estes versos em negrito

"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

para envergonhar a São…)

A memória de uma língua, que muitas vezes se traduz na ortografia – e não me venham com o “pharmacia”, que é outra coisa –,​ faz parte da sua riqueza, nunca impediu ninguém que fale português no Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde ou na Guiné, de ler Camões, Vieira, Camilo, Eça de Queirós ou Pessoa. Aliás, são mais lidos no Brasil do que cá. O que atenta contra essa capacidade de ler é outra coisa, é o ataque à leitura em papel, é a progressiva desaparição dos livros nas escolas, como se os ecrãs os substituíssem, é a desaparição da herança cultural das histórias da mitologia clássica ou da Bíblia, que são indispensáveis para ler, por exemplo, Os Maias, que é suposto ser lido nas escolas e que eu duvido muito se possa ler sem essas histórias, e, por fim, a progressiva limitação do vocabulário circulante, que empobrece a capacidade de expressão, logo, o poder de quem fala ou escreve.

 Quando o Ministério Público está a espatifar o sistema político e a democracia, entre a intencionalidade e a irresponsabilidade, quando a campanha eleitoral foge de tudo o que é importante cá dentro e lá fora, quando Trump apela à invasão russa da Europa, quando a traição à Ucrânia e aos palestinianos mostra a nossa cobardia e vergonha, quando Putin assassina na cadeia o seu principal opositor, porque é que a São é relevante? Porque a diferença entre a São e a Acção tem que ver connosco, com a nossa identidade, com a nossa língua, com a nossa cultura, com a nossa capacidade de falar bem, logo, de pensar bem, logo, de sermos mais fortes. E vamos muito precisar de ser mais fortes nos tempos que aí vêm.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2024/02/17/opiniao/opiniao/sao-campanha-ps-2080597


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

José Pacheco - A liberdade de Corto Maltese e a inspiração de Spike Lee

SEMANÁRIO 09.02.2024

Exclusivo

FISGA

1994 Cong S.A. Suisse

Em Paris e Oslo, olha-se para a liberdade desenhada por Corto Maltese. Em Nova Iorque, Spike Lee abre o baú das suas inspirações

  •  

08 FEVEREIRO 2024 22:57

João Pacheco

 

PARIS — OSLO — AVELLINO — VENEZA

Um dia, uma amiga da mãe pegou na mão esquerda do rapaz. Olhou e ficou horrorizada. Não havia ali a linha do destino. O rapaz não pensou muito e foi buscar uma lâmina de barbear do pai. Inventou na palma daquela mão uma linha profunda e longa. Pela vida fora, nunca chegaria a acumular tesouros bem fechados. Mas sempre foi livre.

O rapaz chamava-se Corto Maltese e tinha nascido na ilha de Malta, no verão de 1887, filho de uma cigana de Sevilha e de um marinheiro inglês de Tintagel, na Cornualha. Aliás, o viajante Corto Maltese nasceu para o mundo 80 anos depois, no livro “A Balada do Mar Salgado”, de 1967. Corto é a grande personagem criada pelo autor de banda desenhada Hugo Pratt (1927-1995). E viajou por vários continentes, partindo de La Valletta no veleiro “Vanità Dorata” (ou seja, Vaidade Dourada). Nos livros de Pratt, Corto viveu apaixonado pela liberdade, sempre pronto para partir. Era também capaz de declarar amor, perguntando: “Queres partir comigo?”

Um próximo destino cortomaltesiano pode ser Paris, onde o Pompidou terá de 29 de maio a 4 de novembro três exposições de banda desenhada em simultâneo. A iniciativa chama-se “La BD à tous les étages” (A BD em todos os andares), com destaque para “Corto Maltese, une vie romanesque” (uma vida de romance). Já na capital da Noruega, Corto Maltese está presente até 22 de março no Istituto Italiano di Cultura di Oslo, na exposição “Hugo Pratt. Opphavet, verket, livshistorien” (a herança, a obra, a biografia).

Da biografia de Pratt faz parte a amizade com o cartoonista Milo Manara, conhecido sobretudo pelo erotismo e pela beleza de livros de banda desenhada como “O Clic”. E, em entrevista ao Expresso em 2022, Milo Manara contou que Pratt era Corto Maltese, mudando o contexto histórico. “Corto Maltese vivia numa época em que não era preciso pedir autorização para chegar de barco e ancorar num sítio qualquer. Agora é completamente diferente.” No atual contexto histórico, a cidade de Avellino está na linha do destino de quem quiser ver a exposição “Milo Manara — Così fan tutte. Le Metamorfosi d’amore”, que está até 9 de março no Museo Irpino e parte da ópera “Così fan tutte”, de Wolfgang Amadeus Mozart. De Avellino, será boa ideia prolongar a linha da sorte até a uma ponta aquática do mapa de Itália, para caminhar sem destino por Veneza, um dos territórios importantes para Corto Maltese. Haja liberdade.


NOVA IORQUE

A inspiração de Spike Lee


Sim, poderíamos ocupar-nos apenas de massa fresca. Mas é essencial lembrar outros aspetos da História, no contexto atual de propagação da extrema-direita, na Europa e no mundo. Este póster foi feito em Itália em 1944, durante a II Guerra Mundial. Contém racismo e pertence à coleção do casal Spike Lee e Tonya Lewis Lee. O autor do cartaz desenhou-o nos últimos tempos do regime fascista do ditador Benito Mussolini (1883-1945). E sim, a ideia era que vinham aí os soldados americanos, preparados para pilhar e violar as riquezas e os corpos de Itália. Para estimular o medo e a coesão entre a população, era preciso mostrar que, com uma possível invasão norte-americana, chegaria o caos personificado por soldados afro-americanos. Agora, este bocado de guerra psicológica faz parte da exposição “Spike Lee: Creative Sources” (Fontes Criativas), que está até segunda-feira no Brooklyn Museum, em Nova Iorque. Para ir às fontes de inspiração do realizador afro-americano Spike Lee, há aqui mais de 400 objetos fornecidos pelo autor. Haja inspiração.

https://expresso.pt/revista/fisga/2024-02-08-A-liberdade-de-Corto-Maltese-e-a-inspiracao-de-Spike-Lee-05a3faac

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Filipe Chinita - estas as curtas viagens.tão diversas.



* Filipe Chinita

estas as curtas viagens.tão diversas.
(nas).tardes de sol.
(nas) tardes.quase noite.inverno duro.
(nas) manhãs.já maduras.do meio-dia.
densas madrugadas.quase manhã(s)
.
estas as viagens curtas.tão diversas.
de campo maior em elvas.
de elvas em campo maior.
em travos iguais.tantas vezes.
por vezes diferentes.
'degladiantes'
até
.
estas as curtas viagens.tão diversas.
(no) negro.negro.do escuro da(s) noite(s).
em que quase nada se vê.
.
e nas manhãs.sem geada.
em que tudo é cristalino.
no verde.verde.das searas 
a crescer.dominantes
.
estas.as curtas viagens.tão diversas.
dos.por vezes.tenazes.olhares.
mas também do 
muito sono 
a correr.
e quantas ideias! 
pensamentos.sonhos.
a desfilar
.
estas.as viagens longas.tão diversas.
de bandeiras desfraldadas.
as barricadas (não) 
incendiárias.ao 
compasso 
destes 
dias.
incandescentes.talvez decisivos
.
longas viagens.estas.tão diversas
no tempo de ainda ....... e portas.
neste alentejo.de reforma agrária.
neste portugal ainda 
de abril
.
estas.de.longas.viagens.tão diversas.
(nas) tardes tão quentes.sol a queimar.
frescas tardes.na água do barril
que alguém ainda!
leva ao lado
.
meu alentejo.de reforma agrária.
que revolução
é!
a maior e a mais bela viagem
que na vida farei.
fiz!
.
estas as curtas viagens.
tão diversas
.
fj
vermelho 
eu

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Bagão Felix - “Óscares” para os cartazes eleitorais

Valha-nos o bom-humor, para além da piscadela de olho ao CDS/PSD sem esquecer o Bloco (Victor Nogueira)

******


21 de Setembro de 2017, 08:21

Por


“Óscares” para os cartazes eleitorais

E
stamos a uma semana das eleições locais. Confesso a minha pouca paciência para ler ou ouvir o que dizem os candidatos. Mais do mesmo, com qualidade em preocupante decréscimo. Admito, porém, que não devo generalizar e que estarei a ser injusto para pessoas que, com coragem, se abalançaram a um inestimável serviço público.

Mas nem tudo é monótono. Por exemplo, os cartazes – que hoje é possível conhecer por esse país fora, sobretudo através da Net – têm sempre um sabor especial, seja no humor, seja na imaginação e no aproveitamento do nome das terras, seja ainda no excêntrico, senão mesmo no ridículo.
Embora acautelando não estar absolutamente seguro de que, nalgum caso, possa haver montagens (hoje tão comuns na Internet que, aliás, me fazem duvidar de tanta coisa que por lá passa…), partilho com os leitores os meus “Óscares”, sem me referir aos partidos ou movimentos responsáveis pelos cartazes, o que, para este efeito, não importa.
Depois de aturada análise, o principal galardão vai para um cartaz algures: “ENTRE O PASSADO E O PRESENTE, ESCOLHO O FUTURO”. Na mouche
Quanto ao “Óscar” gastronómico, selecciono três cartazes: “POR AMOR A FAJÕES”, não sei se vermelhos, manteiga ou mesmo frade, “CONTINUAR LEITÕES”, ainda que não na Bairrada e “JUNTOS PELOS BISCOITOS”, neste caso biscoitos açorianos.
Na categoria de “Saúde”, estão indigitados: “CONTINUAMOS CALVOS”, apesar do candidato na fotografia exibir um assinalável cabelo que contradiz a alopécia ínsita no cartaz, “COM CANO NO CORAÇÃO”, não sei se com comparticipação no cateterismo cardíaco  e “A NOVA ALTERNATIVA PARA DEGOLADOS”, que não imagino, nem quero imaginar qual seja.
Na categoria de promessas vai ser complicado escolher entre “FAZER COM TODOS” (de um candidato independente, evidentemente), “FAZER MAIS”,” FAZER PELOS DOIS”, “CONSIGO, TODOS OS DIAS” e “A NOSSA É MAIOR QUE A DELES” (paixão), não sabendo, ainda, se um cartaz de 2013 se repete este ano (“COINA PARA TODOS”).
Já na categoria de “Promessas especiais”, os indigitados para o “Óscar” são: o mais tétrico “REDUÇÃO DO PREÇO DAS CAMPAS PARA METADE” e o mais caprichoso “QUEREMOS CORNES SEMPRE MELHOR”.
Quanto ao melhor argumento, estão seleccionados “PASSOS PARA TODOS”, “JUNTAR COSTA E ENCOSTA”, “4 ANOS DE GARANTIA” e “TODOS SOMOS SARILHOS GRANDES”.
O prémio para o cartaz em língua estrangeira vai para “JE SUIS ESPOSENDE”.
Na categoria de efeitos especiais, a luta será entre “PODAME AOS PODAMENSES”, “EU SOU O DIOGO, MAS PODES CHAMAR-ME SALOMÉ” (estranhamente do CDS e não do Bloco de Esquerda…) e “POMBAL HUMANO”, uma espécie de columbofilia transgénero.
No sector da limpeza, concorrem “PELO PÓ, SEMPRE” (sabotando a publicidade a produtos de limpeza), “PELA BRANCA TUDO CLARO COMO A ÁGUA” e o quase seu contrário “POR UMA BRANCA DIFERENTE”.
Há, ainda, um troféu honorário destinado ao cartaz de carreira. Venceu “SOU DE CONFIANÇA”. Esclarecedor, sem dúvida. Fez-me lembrar, em sentido oposto (ou talvez não), um velho cartaz no Brasil: “ROUBO, MAS FAÇO!”.
Pena não se coligarem ao menos os cartazes do PSD e CDS em Lisboa. Um é “POR UMA SENHORA LISBOA”, outro refere “PELA NOSSA LISBOA”. A junção daria um cartaz religioso “PELA NOSSA SENHORA DE LISBOA” que concorreria com Fátima.
Por fim, o cartaz que venceu o “Óscar” da inutilidade: “SOU CANDIDATO”.
Tudo menos economia, como se constata.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/09/21/oscares-para-os-cartazes-eleitorais/#comment-49700

quinta-feira, 3 de março de 2016

Vasco Cardoso - Uma longa estrada


***
 

  • Vasco Cardoso 


Uma longa estrada
Durante anos estiveram ao serviço de Moscovo, conspiraram e desenvolveram actividades subversivas contra os interesses da Nação. Quiseram impor uma ditadura em Portugal, aniquilar liberdades e a democracia. Quiseram roubar as terras, o gado e nacionalizar a propriedade até à última barbearia. Expulsaram e perseguiram camaradas seus, fizeram purgas, impuseram uma disciplina férrea que esmaga o indivíduo e a sua identidade. Têm arquivos secretos, segredos terríveis e planos ameaçadores. Fazem greves só para destruir empresas e chatear a vida de quem trabalha. Querem os sindicatos como correias de transmissão dos seus mesquinhos interesses. Gostariam de ver em Portugal o regime da Coreia do Norte. Vivem da miséria do povo e precisam dela para existir. Cantam sempre vitória mesmo quando têm derrotas. São praticamente os únicos que ainda existem na Europa. Só sabem protestar e não têm qualquer vocação para governar. Agora são a muleta do Governo PS. Esperam pela primeira oportunidade para mandar o Governo abaixo. São velhos e têm uma cassete. Têm uma festa com coisas muito estranhas. Querem coisas impossíveis, como não pagar a dívida, sair do euro ou nacionalizar bancos. Não compreendem que o mundo mudou e falam da classe operária, dos trabalhadores, do imperialismo, do futuro socialista e comunista. Esperam pelos amanhãs que cantam...


O conjunto de barbaridades, calúnias e ataques dirigidos ao PCP não são um pormenor de conjuntura. São uma realidade factual, presente ao longo de décadas de luta do Partido, uma arma de arremesso usada pelas classes dominantes, difundindo a mentira, estimulando o preconceito. Com diferentes matizes ao longo dos tempos, o objectivo supremo da construção de uma sociedade nova e a acção consequente para o concretizar, suscita o ódio de classe capaz de mobilizar poderosos meios para limitar a capacidade de atracção do ideal comunista e do PCP. Temem a força dos ideais e das convicções, a justeza das propostas e da acção política, a presença e acção organizada, a ligação aos trabalhadores e ao povo, o reconhecimento do seu trabalho, honestidade e competência. Temem a capacidade de resistir, a alegria de lutar, a confiança no povo e no futuro. Eles estão prestes a completar 95 anos e têm consciência da longa estrada que têm pela frente.

http://avante.pt/pt/2205/opiniao/139338/

sábado, 7 de novembro de 2015

Há 98 anos da Revolução Russa, cinco poemas que permanecem atuais


Poster soviético com os dizeres "O que a Revolução de Outubro deu às trabalhadoras e camponesas", trazendo ao fundo bibliotecas, centros de cultura, de lazer, escolas e institutos de ensino, antes privilégio

6 de novembro de 2015 - 11h38 

Em novembro os comunistas e os povos do mundo comemoram 98 anos do triunfo da revolução que levou ao poder o Partido Bolchevique na então União Soviética. O Prosa, Poesia e Arte desta semana fez uma seleção de cinco poemas, todos escritos em 1917 (o ano da revolução), por poetas russos engajados no processo revolucionário.

Por Mariana Serafini

Poetas selecionados: Andréi Biéli, Boris Pasternak, Vladimir Maiakovski e Sierguéi IessiêninPoetas selecionados: Andréi Biéli, Boris Pasternak, Vladimir Maiakovski e Sierguéi Iessiênin Extremamente avançados para a época, tanto na forma, quanto no conteúdo, os poemas valorizam o poder da palavra. Minimalistas e certeiros, muitos dos poetas russos estavam longe de ser panfletários ou óbvios ao atuarem na trincheira da luta de ideais com as mais diversas armas: além da poesia, o teatro, o cinema, o romance. 

De estética simples, e muito avançada para a época, os poemas apresentam formatos e conteúdo que foram aplicados mais de 40 anos depois na dramaturgia e na literatura em países como Inglaterra e Irlanda que são consagrados por terem inaugurado uma nova vertente da dramaturgia, tida como contemporânea e minimalista. No entanto, a inovação de fato aconteceu no início do século, já em 1903, 1910, na Rússia. 

Os poemas foram extraídos do livro Poesia Russa Moderna, traduzidos no Brasil por Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. 

Leia na íntegra: 

A Palavra
           
(Andréi Biéli)

Na febre de som
do sopro
a treva é flama-fala.

Lá fugindo da laringe, 
a terra exala. 

Expiram
As almas
Das palavras não compostas.

Deposita-se a crosta
Dos mundos que nos portam.

Sobre o mundo formado
Paira a profundidade
Das palavras proferíveis.

Profundamente ora
A palavra das palavras, Sarça viva.

E do futuro
Paraíso
Alça-se a terra adunca

Por onde em chamas, consumindo,
Não passarei: nunca.

Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman


O Dom da Poesia 

(Boris Pasternak)

Deixa a palavra escorregar,
Como um jardim o âmbar e a cidra,
Magnânimo e distraído,
Devagar, devagar, devagar.

Tradução de Augusto de Campos


Definição de Poesia

(Boris Pasternak)

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite revela
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água, 
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham, 
E no entanto o universo está surdo. 

Tradução de Aroldo de Campos


Nacos de Nuvem

(Vladimir Maiakóvski

No céu flutuavam trapos
de nuvem – quatro farrapos:

do primeiro ao terceiro – gente; 
o quarto – um camelo errante.

A ele, levado pelo instinto, 
no caminho junta-se um quinto.

Do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.

Um sexto salta – parece.
Susto: o grupo desaparece.

E em seu rasto agora se afasta
o sol – amarela girafa.

Tradução de Augusto de Campos


De Transfiguração 

(Sierguéi Iessiênin)

Ei, russos!
Pescadores do universo,
Na rede da aurora colhendo o céu - 
Troai as trompas!

Sob a charrua do raio
Ruge a terra.
Rompe os penhasco a auridente
Relha.

Novo semeador
Erra pelos campos
Novas sementes
Arroja aos sulcos.

Um hóspede-luz
Vem num coche.
Corre entre as nuvens
Uma égua

Sela da égua - 
Azul.
Sinos da sela - 
Estrelas. 

Tradução de Augusto de Campos

http://www.vermelho.org.br/noticia/272427-11

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ruy Belo - Esplendor na Relva




* Ruy Belo


Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste


A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste


na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais 





in Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, 2010



Ruy Belo: uma poesia que aprendeu a ver com o cinema


No dia em que o cinema Medeia Monumental acolhe em Lisboa uma sessão dedicada à relação da poesia de Ruy Belo com a sétima arte, que encerrará com a exibição de Esplendor na Relva, o PÚBLICO revela o manuscrito original do célebre soneto que o filme de Elia Kazan inspirou ao autor de Homem de Palavra(s).

“Eu sei que deanie loomis não existe/mas entre as mais essa mulher caminha/ e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”. Com esta quadra, que evoca a protagonista de Esplendor na Relva (Splendour in the Grass, 1961), interpretada por Natalie Wood no filme de Elia Kazan, inicia Ruy Belo (1933-1978) um dos seus mais notáveis e discutidos poemas, de que aqui apresentamos o manuscrito original, e ainda um posterior dactiloscrito emendado à mão, dois documentos inéditos cedidos pela mulher do poeta, Teresa Belo.

Este e outros poemas do autor nos quais comparecem expressamente filmes e actores, como No way out, Humphrey Bogart, Vício de matar ou Na morte de Marilyn, irão ser ditos hoje à noite pelo actor Pedro Lamares, no Medeia Monumental, em Lisboa, a abrir uma sessão dedicada à funda e persistente relação que a poesia de Ruy Belo estabeleceu com o cinema. A noite fechará com a exibição de Esplendor na Relva, mas antes ainda será possível ouvir o ensaísta António M. Feijó falard’A Deanie Loomis de Ruy Belo, e assistir a um breve filme que o linguista e filólogo Luís Filipe Lindley Cintra rodou do casamento do poeta com Teresa Belo, celebrado em Vila do Conde, donde esta é natural, em 1966.

Ruy Belo evoca este momento no poema Portugal sacro-profano - Vila do Conde, que também se irá ouvir no Monumental, mas na voz do actor e encenador Luís Miguel Cintra, filho do cineasta de ocasião, que também assistiu à boda quando tinha 17 anos. O seu pai, de resto, não foi apenas o realizador de serviço, tendo assumido também funções de produção.

Desde logo, conta Luís Miguel Cintra, foi preciso desencantar o noivo, que não aparecia. “Faltou à hora do casamento e alguém disse que se calhar se tinha distraído e ainda estava na pensão. O meu pai foi procurá-lo e lá estava ele: era fim de tarde e distraiu-se a ver o pôr-do-sol”.

Mas “o mais engraçado”, acrescenta o actor, é que “eram tão ingénuos, tão puros, que não tinham combinado onde iam passar a lua-de-mel, não sabiam o que iam fazer a seguir, e foi o meu pai que os meteu no carro, depois do copo de água, à procura de um sítio simpático onde os pudesse deixar”.

Teresa Belo precisa que o local escolhido acabou por ser Espinho. E se ignora em que momento Ruy Belo escreveu o poema de Vila do Conde, esse “lugar onde o coração se esconde/ e a mulher eterna tem a luz na fronte”, sabe, em contrapartida, que Literatura explicativa, o poema inicial de Homem de Palavra(s), “foi escrito em Espinho, nessa lua-de-mel improvisada”. E tendo em conta os caeirianos versos que o abrem, tudo indica que o poeta continuava fascinado com os pores-do-sol que já o distraíam em Vila do Conde: “O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol/ nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol (…)”.

Ruy Belo não costumava datar os manuscritos, de modo que Teresa Belo também não sabe quando este escreveu a primeira versão de Esplendor na Relva, mas o mais provável é que tenha sido logo após ter visto a obra de Kazan, que se estreou em Portugal em 1962. “Começámos a namorar em 1961, e deve ter sido mais ou menos por essa altura que fomos ver o filme ao antigo cinema Eden”, conta.

E não a surpreende que Ruy Belo tenho esperado até ao final da década para dar a conhecer este soneto em Homem de Palavra(s), publicado em 1969 na icónica colecção dos Cadernos de Poesia da D. Quixote. “Ele escrevia livros muito organizados, e portanto ficavam bastantes poemas de fora à espera de um livro onde coubessem.”

As duas versões, manuscrita e dactiloscrita, que encontrou nos seus papéis e que nos autorizou a reproduzir mostram como o poema evoluiu até Ruy Belo se dar por satisfeito. Sendo que aquele que foi porventura o mais virtuoso fabbro da poesia portuguesa da segunda metade do século XX tendia a só se satisfazer com a exactidão.

É talvez por isso que, sendo emocionante ver agora na elegante caligrafia do poeta um soneto que os leitores de Ruy Belo tantas vezes leram em letra de forma, não deixa também de causar uma certa estranheza constatar que este Esplendor na relva possa ter tido versões anteriores, que não tenha nascido logo inteiro e perfeito, como sempre o conhecemos. Mas o que nos deveria espantar é justamente o contrário: que só alguns detalhes, ainda que bastante decisivos, distanciem esta primeira tentativa, escrita ao correr da caneta, do que veio a ser o resultado final.

Ruy Belo escreveu o poema depois de ver o filme de Kazan, que por sua vez se inspirou numa conhecida ode de William Wordsworth, fundador do Romantismo inglês e um poeta central na genealogia literária do poeta português, o que complica a aparente linearidade poema-filme-poema. Não por acaso, Esplendor na relva é um dos poemas de Ruy Belo que mais tinta tem feito correr, a começar pela do próprio autor, que em 1978, no prefácio à segunda edição de Homem de Palavra(s), o integra nos “poemas onde o cinema [o] ensinou a ver”.

Também o poeta e ensaísta Joaquim Manuel Magalhães, autor de alguns dos mais importantes e pioneiros textos críticos sobre Ruy Belo, e organizador da primeira compilação da sua obra poética, alude a este poema, vendo nele um exemplo da lição wordsworthiana: a da “poesia como memória, como transbordar de sentimentos após ter passado a emoção de os ter vivido”. Uma perspectiva que Pedro Serra, num ensaio mais recente, tenta pelo menos matizar, servindo-se deste mesmo poema para tentar demonstrar as dimensões pós-românticas da poesia de Ruy Belo.

Para lá de hesitações menos significativas - e descontando as maiúsculas nos nomes próprios, que o poeta viria a abolir em toda a sua poesia, para que "palavra alguma levante a cabeça no meio da frase" -, a versão manuscrita apresenta dois versos diferentes (e consideravelmente menos interessantes): onde hoje estão os já citados “e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”, o poeta começara por escrever: “e tem comportamento de rainha/ só possível a quem no ser persiste”. Versos que transitam ainda para o dactiloscrito, onde são depois riscados e corrigidos à mão para a sua versão definitiva.

E estes dois versos posteriores serão justamente aqueles em que irá centrar-se João Bénard da Costa, num texto que, sendo uma apreciação do filme de Kazan, é também do que de mais belo se escreveu sobre o poema que este inspirou. O histórico director da Cinemateca pergunta: “Resiste à ‘imaginação pura’ (…) ou resiste, ‘pura’, à imaginação? (…) Ou seja, o adjectivo ‘pura’ refere-se à imaginação ou a Deanie Loomis? Ou – pode ser também – à ‘linha que resiste’? Nestas três perguntas está o cerne de Deanie Loomis, de Natalie Wood e de Splendor in the Grass. São mulheres e filme da nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem à nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem a uma linha evolutiva que só na nossa imaginação existe?”.

Admite não ter respostas e suspeita de que o poeta também as não teria. O que sabe é que concorda com o que o próprio Ruy Belo escreveu, e que explica bem a importância do cinema na sua obra: “Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era já para os gregos”.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ruy-belo-uma-poesia-que-aprendeu-a-ver-com-o-cinema-1709272?page=-1

segunda-feira, 28 de julho de 2014

françoise sagan - bom dia tristeza

BONJOUR TRISTESSE

La villa est magnifique, l été brûlant, la Méditerranée toute proche. Cécile a dix-sept ans. Elle ne connaît de l amour que des baisers, rendez-vous, lassitudes. Pas pour longtemps. Son père, veuf, est un adepte joyeux des liaisons passagères et sans importance. Ils s amusent, ils n ont besoin de personne, ils sont heureux. La visite d une femme de coeur, intelligente et calme, vient troubler ce délicieux désordre. Comment écarter la menace? Dans la pinède embrasée, un jeu cruel se prépare. C était l été 1954. On entendait pour la première fois la voix sèche et rapide d un charmant petit monstre qui allait faire scandale. La deuxième moitié du XXe siècle commençait. Elle serait à l image de cette adolescente déchirée entre le remords et le culte du plaisir.


"A nitidez de minhas lembranças a partir daquele momento me assombra. Adquiria uma consciência mais atenta dos outros, de mim mesma. A espontaneidade e um egoísmo fácil sempre haviam sido para mim um luxo natural. Sempre havia vivido. Ora, eis que aqueles poucos dias me haviam perturbado o bastante para que fosse levada a refletir, a me encontrar vivendo. Passava por todos os horrores da introspecção sem, por isso, reconciliar-me comigo mesma."
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