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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

João Manso Pinheiro - «E agora, José?» Centenário de Cardoso Pires


* João Manso Pinheiro  

Car­doso Pires não era um es­critor que ser­visse às ló­gicas an­si­osas e vo­razes do mer­cado


José Cardoso Pires foi um dos maiores romancistas da língua portuguesa do século XX (uma generalização a que se recorre de modo a não comprar qualquer guerra literária). Apesar disso, como outros tantos (José Rodrigues Miguéis é um bom exemplo), por largos anos, era mais fácil encontrá-lo nas estantes de bibliotecas municipais e alfarrabistas (foi definitivamente republicado apenas em 2015), espaços de silêncio que, bem vistas as coisas, até eram os mais apropriados para um homem que procurava a “solidão”.

Car­doso Pires não era um es­critor que ser­visse às ló­gicas an­si­osas e vo­razes do mer­cado (algo que, ainda em vida, muito o pre­ju­di­cava1). Em­bora es­cre­vesse com grande vo­ra­ci­dade, em­pe­nhando-se dias a fio neste seu tra­balho, os acessos cri­a­tivos só o aco­me­tiam de tempos a tempos, abrindo longos in­ter­valos na sua obra pu­bli­cada, es­pe­ci­al­mente no que toca aos ro­mances: entre O Delfim (1968) e a Ba­lada da Praia dos Cães (1982) de­correm 14 anos (e uma Re­vo­lução). Era, afinal de contas, um “es­critor bis­sexto”.

A in­sa­tis­fação quase per­ma­nente com o pro­jecto em mãos leva-o a pro­duzir vá­rias ver­sões de uma mesma obra, ra­su­rando, apa­gando, des­truindo, des­vi­ando, per­se­guindo, acres­cen­tando, de cor­recção em cor­recção até à im­pressão final. Este pro­cesso mi­nu­cioso re­sul­tava numa «prosa muito limpa, talvez a mais limpa ou mon­dada que hoje temos»2 (afir­mação pro­fe­rida pelo pro­fessor Óscar Lopes em 1963, por oca­sião da en­trega do Prémio Ca­milo Cas­telo Branco a Car­doso Pires, e que não perdeu ne­nhuma da sua ac­tu­a­li­dade), apenas pos­sível nas mãos de um autor que con­si­de­rava um dia pro­du­tivo aquele em que apa­gava mais de 3 mil pa­la­vras.

Para além do ro­mance (Ale­xandra Alpha, de 1987, me­rece também des­taque), José Car­doso Pires foi ainda cro­nista, en­saísta e con­tista. A sua pri­meira co­lecção de contos, Os Ca­mi­nheiros e Ou­tros Contos, de 1949 (fi­nan­ciada por Alves Redol, Mário Di­o­nísio, entre ou­tros), de­nota ainda as suas pri­mor­diais in­fluên­cias neo-re­a­listas, um gé­nero que nunca chega re­al­mente a aban­donar, in­te­grando este re­gisto no seu es­tilo par­ti­cular. Ainda que con­si­de­rasse o tra­balho li­te­rário da maior parte dos li­vros neo-re­a­listas «mau», por mais de uma vez afirmou que foi este mo­vi­mento que, em Por­tugal, «pro­moveu a li­ber­tação da língua», lim­pando a prosa e os ca­mi­nhos para vá­rias ge­ra­ções de novos es­cri­tores.

Após a pu­bli­cação da co­lecção de contos Cartas de Amor, em 1952, acaba por ser de­tido pela PIDE, que apre­ende as edi­ções dos seus dois li­vros pu­bli­cados. A po­lícia po­lí­tica do fas­cismo co­nhece-o como «fonte de in­for­mação da po­lí­tica e so­ci­o­logia ac­tu­ante no sector in­te­lec­tual do PCP; trans­missor de li­vros proi­bidos, ma­ni­festos de in­te­lec­tuais e de pu­bli­ca­ções pú­blicas e par­ti­cu­lares de ór­gãos de par­tidos co­mu­nistas es­tran­geiros ou de in­te­lec­tuais por­tu­gueses».

O seu com­pro­misso com a luta e re­sis­tência an­ti­fas­cista afirma-se antes, e de­pois, do 25 de Abril de 1974, no qual par­ti­cipa ac­ti­va­mente. No dia se­guinte à Re­vo­lução, di­rige-se à prisão de Ca­xias como parte in­te­grante da Co­missão de Apoio aos Presos Po­lí­ticos.

Nas­cido a 2 de Ou­tubro de 1925, em Vila de Rei, Beira Baixa, há exac­ta­mente 100 anos, cedo Car­doso Pires torna a Lisboa, ci­dade que faz sua, a única que «ver­da­dei­ra­mente co­nhece» em todo o País. O «grande fas­cínio» que sente pela ca­pital (com ex­cepção da Av. Al­mi­rante Reis) está es­pe­lhado na sua úl­tima obra – Lisboa, Livro de Bordo (1997).

José Car­doso Pires morreu aos 73 anos, em 1998, na sequência de um se­gundo AVC. O pri­meiro ins­pi­rara De Pro­fundis, Valsa Lenta (1997), em que o autor con­fronta as suas novas li­mi­ta­ções im­postas pelo aci­dente vas­cular. Por­tugal ficou, de­fi­ni­ti­va­mente, um país mais “mal fre­quen­tado”.     

 

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Bruno Carvalho: «Há situações em que não podemos ser meros espectadores»



 * João Manso Pinheiro    

 08.May.24    

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Em menos de um mês, A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, já está a preparar a terceira edição. O AbrilAbril conversou com o autor sobre a sua experiência numa guerra fora dos holofotes.

A um mundo de distância (e, para nós, o Donbass está mesmo num outro mundo), torna-se difícil acreditar que no meio daquela massa anónima existam mesmo pessoas. Que por ali andem criaturas dotadas com as suas próprias vontades, gostos, idiossincrasias engraçadas (para os outros). Que sejam, no fundo, como nós.

No Donbass estão os outros. Não lhes sabemos os nomes, não lhes é conhecida opinião ou vontade. Limitam-se a ser. Uns tantos mil que sobrevivem numa pequena cidade devastada por prolongadas batalhas, outros tantas centenas a combater em batalhões separatistas. Uma, duas, três, dez crianças que morrem na leva diária de bombardeamentos contra populações que vivem em terras com nomes que tão dificilmente sabemos pronunciar.

Este apagamento, de entre os vários motivos que levaram as redacções ocidentais a recusar-se a cobrir o que se passava no Donbass durante «o maior acontecimento geopolítico do pós-guerra fria», será talvez o mais flagrantemente antideontológico. Sem jornalismo e com a censura de órgãos de comunicação social «do outro lado», aquela gente é reduzida a coisa nenhuma. Não existem. Sem semblante de humanidade, é fácil odiarmos os nossos “inimigos” (ou pior: “os maus”).
Longe da vista, longe do coração.

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Conhecemo-los agora pelo nome: Luís Castañeda, colombiano, que veio estudar para Donetsk nos anos 80 e nunca mais voltou. Ekaterina, de Odessa, que em 2014 presenciou o massacre na casa sindical da cidade. Alexander, de 59 anos, antigo mineiro que sabe, hoje, distinguir artilharia pelo som. A família de Dima, que com a mulher e os quatro filhos viveu mais de um mês numa cave em Mariupol ou o soldado benfiquista que, em terras lusas, trabalhou na construção civil e hoje vigia estradas.

O Donbass está condenado a ser um «lugar errado»?


O que define um «lugar errado» não é a sua geografia. É o seu enquadramento político no contexto mundial. Há não muito tempo, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, dizia que a Europa é um jardim e, em contraposição, o resto do mundo uma selva. Imediatamente, veio-me à memória as imagens de seres humanos, africanos, expostos numa feira belga em 1958 como se fossem animais num jardim zoológico.

A herança colonial europeia está viva nas relações do Ocidente com os países do chamado Sul Global e não espanta que haja uma aproximação cada vez maior desses Estados com potências como a China, a Rússia, o Irão ou o Brasil. Quando alguém não nos trata como iguais, procuramos quem nos trate com dignidade e respeito. Nesse sentido, a imprensa hegemónica, alinhada com o poder, define quais são os lugares e quem são os líderes errados. Os talibans já foram os bons e agora são os maus. O Donbass continuará a ser um lugar «errado» enquanto não estiver debaixo do controlo de Kiev ou de qualquer outro aliado dos Estados Unidos e da União Europeia.

N’A Guerra a Leste, vários cidadãos das repúblicas de Donetsk e Lugansk (assim como a refugiados de diversas partes da Ucrânia) assumem uma posição separatista e, noutros casos, favorável à intervenção russa. É uma oportunidade de ver uma perspectiva praticamente inédita no panorama mediático europeu. Também havia, no Donbass, quem defendesse o outro lado? Seja a posição ucraniana ou simplesmente contra a adesão à Federação Russa?

Evidentemente, há gente que defende a manutenção do Donbass na Ucrânia ou a independência dessas repúblicas. Contudo, parecem-me opções minoritárias. Há também quem recorde com nostalgia a União Soviética. Antes da guerra, talvez houvesse espaço para um modelo confederal como tem a Suíça ou para um modelo de regiões com uma autonomia alargada. Os Acordos de Minsk previam essa possibilidade e eu acrescentava que podia ter sido adoptada uma solução como aquela encontrada no âmbito do Acordo de Dayton que criou duas entidades territoriais dentro da Bósnia, uma para a comunidade bósnia e outra para a comunidade sérvia.

Julgo que as opções eram muitas se houvesse vontade política dos actores em confronto, mas queria sublinhar a importância de se ouvir o que as populações têm a dizer. Não há nada mais democrático do que resolver este conflito auscultando-as e tomando decisões que respeitem essas escolhas.

O que aconteceu aos comunistas desta região? Apontas como, na última vez em que participaram em eleições (2013, foram banidos a seguir a 2014), tiveram cerca de 30% dos votos em algumas zonas do Donbass

Os comunistas eram uma força imprescindível desde o fim da União Soviética no Leste da Ucrânia. Sobretudo porque transportavam consigo essa herança histórica. Com a sublevação das regiões do Donbass em 2014, os comunistas foram importantes no processo de criação das autoproclamadas repúblicas.

Contudo, o contexto de guerra e a influência de Moscovo favoreceram a existência de governos quase de unidade nacional com um papel diminuído das forças comunistas. Mantêm a sua intervenção política num ambiente muito complexo, onde a maioria dos homens se encontra a combater. Lembro-me de estar em Donetsk no 1.º de Maio de 2022 e de haver uma manifestação, organizada pelo Partido Comunista, composta por mulheres e homens sem idade para participarem na guerra. Nas últimas eleições presidenciais, como aconteceu em praticamente toda a Rússia, os candidatos apoiados por Vladimir Putin arrasaram, incluindo no Donbass. Há muitas explicações para este facto. Uma delas é que ninguém quer mudar de presidente a meio de uma guerra e a outra é que há de facto muita gente que defende a intervenção russa no Donbass.

O apoio à intervenção da Rússia pode ser entendida como um apoio ao regime de Putin ou é um caso de interesses confluentes? Os separatistas garantem a independência e os grandes poderes económicos russos ganham acesso àquela que era a região mais industrializada da Ucrânia

Recordemos que os comunistas russos já tiveram diversos choques com as autoridades russas. Para além das questões económicas, houve militantes comunistas detidos em manifestações. A forma de regime também é questionada no sentido em que os comunistas russos, aos quais se juntaram os comunistas de Donetsk e Lugansk, defendem um regresso ao modelo soviético.

Há, certamente, contradições entre as forças que apoiam a intervenção militar e diferentes visões sobre como o conflito deve ser resolvido. Independentemente de estarmos de acordo ou não, a questão central apresentada pelos comunistas russos é a da necessidade de derrota do fascismo na Ucrânia e, naturalmente, a ilegalização dos comunistas ucranianos, e agora de praticamente toda a oposição, tem peso nessa análise.

Dos comunistas do Donbass com quem contactaste, qual era a posição deles em relação à Rússia de Putin (abstraindo-nos, um pouco, sobre toda a questão da invasão militar)

Vladimir Putin defende uma economia de mercado com alguma intervenção do Estado. Os comunistas defendem uma economia planificada. Há também visões distintas sobre como se deve organizar a sociedade.

Contudo, recordo que o presidente russo habilmente soube recuperar e valorizar a memória do passado soviético, sobretudo na preservação dos símbolos e dos monumentos, abdicando de confrontar uma história que é querida para uma parte substancial da população. Depois do desastre dos anos 90, com uma economia em colapso e com um presidente que abdicou da sua soberania, os russos parecem apostar na estabilidade económica e na preservação das suas fronteiras.

Dizes, a certo ponto, que não pertences a lado nenhum. É um contraste grande com a realidade no Donbass, onde tanto a população como alguns dos combatentes internacionais estão imersos numa luta de morte pelo direito a pertencer ao seu lugar

Mesmo que permaneça essa sensação de não pertencer a lado nenhum e ao mesmo tempo ser de todo o lado, ter um lugar donde se é também é um direito. Respeito muito a luta dos povos pela sua independência e autodeterminação e muitos desses combatentes estrangeiros acabaram por encontrar naquela luta e naquela terra o seu espaço. Foram recebidos de braços abertos por quem combatia e acabaram por obter a nacionalidade por parte das autoridades separatistas. Faz lembrar o título do enorme livro do jornalista Joseph North, Nenhum Homem é Estrangeiro [No Men Are Strangers, de 1958]

A luta que se trava no Donbass está muito longe de ser meramente uma disputa de territórios. Como mencionas n’A Guerra a Leste, há um confronto grande em termos de toponímia: Bakhmut mudou de nome para Artyomovsk em 1924, homenageando o revolucionário bolchevique Fyodor Sergeyev (Artyom). Voltou a mudar com a leis de descomunização de Poroshenko, em 2016. A recente conquista da cidade ditou a recuperação do nome soviético: Artyomovsk. No terreno, o confronto é muito ideológico?

Eu não diria que isso é sempre visível mas está presente. As tropas russas classificam o inimigo de fascista e essa é uma escolha que revela uma opção ideológica. Uma das consignas mais comuns no Donbass, mesmo que praticamente todos só saibam falar apenas russo, é «no pasarán», repetindo aquilo que aprenderam dos combatentes estrangeiros inspirados na guerra civil de Espanha.

Há bandeiras imperiais russas, bandeiras nacionalistas, bandeiras soviéticas, bandeiras religiosas. Do outro lado, nas minhas visitas às posições conquistadas às forças ucranianas encontrei simbologia neonazi em bandeiras, em murais, em autocolantes, também propaganda nacionalista. Há batalhões neonazis a combater pela Ucrânia que envergam todo o tipo de parafernália fascista. Aqui incluo estrangeiros, incluindo portugueses. Mas há ainda, sobretudo nas zonas mais mineiras e industriais, o culto do trabalho e do operariado, herança soviética.

Foi morto (poucos dias antes desta entrevista), o norte-americano «Texas», de Austin, nos EUA (que se juntou, após 2014, ao lado separatista) alegadamente por militares russos. Referes os encontros que tiveste com ele nesses oito meses. No final do livro destacas ainda a morte, em combate, do colombiano Alexis Castillo. O que estas pessoas procuraram no Donbass?

Tanto um como outro decidiram partir para o Donbass para combater o fascismo. As ondas do impacto do massacre de Odessa, na Casa dos Sindicatos, onde meia centena de manifestantes anti-Maidan morreu queimada, baleada e espancada, chegaram a todo o mundo.

O Alexis juntou-se às milícias separatistas inspirado pelas Brigadas Internacionais compostas por antifascistas de todo o mundo que combateram o franquismo nas trincheiras de Espanha em 1936. Foi contra a vontade do Partido Comunista dos Povos de Espanha, no qual militava na época. Aderiu posteriormente ao Partido Comunista de Donetsk.


O «Texas» tinha uma trajectória diferente. Talvez procurasse também a redenção pessoal. Esteve preso por posse de drogas, tinha servido no exército norte-americano. Depois contou-me que tinha encontrado o seu lugar. Era uma personagem muito peculiar. Houve outros tantos que caíram em combate. E na minha última viagem conheci um combatente brasileiro, que ascendeu a capitão do exército russo, de alcunha «MacGyver».

«Num jardim, em frente a uma escola, há várias sepulturas improvisadas. Numa das covas abertas, a espera de um cadáver, há uma placa: este lugar já está reservado». Há uma geração inteira de jovens e crianças que só conheceram a guerra, que dura já há 10 anos. Reparaste nalgum impacto desta realidade na juventude?

Quem tem agora 20 anos, tinha 10 quando a guerra começou. E se tem 20 anos, a não ser que esteja a estudar, está a combater na linha da frente. É uma absoluta falta de perspectiva de vida.

Conheço muitos que optaram por partir para a Rússia e começar a vida num lugar onde há alguma esperança. As aulas são à distância há cerca de dois anos, os órfãos foram transferidos para territórios seguros dentro da Rússia, as brincadeiras na rua são sempre limitadas.

Vi corpos de crianças em pedaços, famílias desfeitas. Da última vez, um só bombardeamento ucraniano atingiu uma casa no bairro de Petrovsky onde morreram três irmãos pequenos. A mãe já tinha perdido o marido na guerra e agora perdeu todos os filhos numa única noite. Ficou sem casa. É este o grau de barbárie.

Acompanhaste, primeiro, a destruição e, meses depois, o início do processo de reconstrução de Mariupol. Na tua primeira visita, quando chegaste perto de Azovstal, presenciaste o enterro de civis nos canteiros da cidade. Foi a tua experiência mais violenta nos oito meses no Donbass?

Foi a experiência mais intensa porque foram dias seguidos de combates comigo nas ruas a absorver tudo o que via. Nunca tinha estado num cenário deste tipo. Havia mortos enterrados em qualquer lado mas também havia mortos nas ruas, nas praias, dentro de edifícios. Depois acompanhei a trasladação de muitos desses cadáveres para cemitérios nos arredores. Mas diria que um dos dias mais duros foi em Donetsk quando um bombardeamento das forças ucranianas provocou a morte de mais de uma dezena de civis numa praça movimentada da cidade.

Ainda em Mariupol, relatas o momento em que mandaste uma mensagem a uma familiar de uma senhora na cidade, avisando-a de que a mesma estava viva. Estamos um pouco habituados, no Ocidente, a pensar nos jornalistas como fotógrafos da National Geographic, que não devem intervir com os sujeitos que observam.


«As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.»

Naturalmente, a guerra não pode ser um jardim zoológico. Há situações em que não podemos ser meros espectadores. E esta era uma delas. Fiz bem mais do que isso. Com outro camarada jornalista, salvámos a perna de uma mulher vítima de uma mina anti-terrestre colocada pelas forças ucranianas fazendo-lhe um garrote. Trata-se do mais elementar dever de ajudar o próximo em situações de desastre. Com isso não estava a tomar partido de ninguém ou a ajudar alguma das forças militares. Estava tão somente a ajudar civis.

«Éramos um pouco piratas». A certa altura, acabas por imprimir uns papeis a dizer PRESS e colas no material em segunda-mão que encontras. Este jornalismo improvisado, sem meios e agarrando as oportunidades à medida que vão surgindo (como fazes várias vezes ao longo dos teus oito meses de trabalho) consegue ir mais longe do que o jornalismo tradicional, que estaciona os repórteres em hotéis longe da frente?

Trata-se mais de vontade do que de capacidade. De facto, um jornalista de uma grande estação televisiva de um país como os Estados Unidos pode viajar num carro blindado com seguranças privados e toda uma equipa que o assessora na produção das reportagens. Mas, ainda assim, não havia nenhum daquele lado.

Com os nossos parcos recursos, apesar de haver naturalmente dinheiro envolvido porque não é barato arranjar um condutor, e é justo que assim seja porque aquela gente está a arriscar-se como nós, procurávamos estar onde estavam os acontecimentos. Éramos muito atrevidos, digamos assim. As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.

Foi essa qualidade do Donbass, de lugar pária, que atraiu este «jornalista outsider»? Habituado a estar no outro lado, nos bairros de Caracas, em áreas controladas pelas FARC, juntos dos independentistas bascos e agora nas regiões separatistas da Ucrânia

Sem dúvida. Eu gosto de dar voz a quem não tem voz.

Oito meses no Donbass depois, ainda acreditas que «o Jornalismo deve servir para fazer do mundo um lugar melhor»?

Independentemente do estado actual do jornalismo, continuo a acreditar que deve servir para fazer do mundo um lugar melhor. Para morder os pés dos poderosos e denunciar injustiças. Para dar aos cidadãos toda a informação que precisam para construir as suas opiniões e posições em absoluta liberdade.

Fonte: https://www.odiario.info/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que/

https://www.abrilabril.pt/cultura/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que-nao-podemos-ser-meros-espectadores

domingo, 4 de dezembro de 2022

Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»

INTERNACIONAL|JORNALISMO


Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»

AbrilAbril

POR JOÃO MANSO PINHEIRO 4 DE DEZEMBRO DE 2022

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De regresso do Donbass, onde trabalhou nos últimos meses, Bruno Carvalho falou ao AbrilAbril sobre o papel do jornalista em situação de guerra, os perigos a que se sujeitou e a ausência de pluralidade na comunicação social.


Numa cena do documentário Salvador, Itália (2018), Nanni Moretti entrevista um torturador chileno, preso pelos crimes cometidos durante a ditadura de Pinochet. Sendo confrontado pelo torcionário pela forma tendenciosa como estaria a conduzir a conversa, Moretti, embora dê todo o espaço para o torturador afirmar tudo o que lhe interessa, esclarece rapidamente: Ele, o realizador, o homem, não é imparcial.

 Nanni Morreti não renunciou à parcialidade.

Foi o ponto de partida para a conversa com Bruno Amaral de Carvalho, jornalista que passou seis dos últimos nove meses na região do Donbass, a cobrir os efeitos devastadores da guerra na Ucrânia nestas populações, martirizadas por oito longos anos de guerra civil, bombardeamentos e milhares de vítimas. 

Das fornalhas de Azovstal, em Mariupol, aos massacrados bairros de Donetsk, das movimentações relâmpago das tropas ucranianas e russas na região de Luhansk aos referendos promovidos pelas autoridades pró-russas nas quatro províncias anexadas, Bruno Carvalho não foi apenas o único jornalista português a acompanhar, de perto, a guerra no Donbass. Foi um de poucos jornalistas europeus que se recusou a ceder ao unanimismo prevalente nas redacções.

Um jornalista tem de abdicar das suas convicções para cumprir correctamente as suas funções? O código deontológico exige um trabalho independente, mas nunca imparcial ou que atente contra a consciência do jornalista...

Todas as pessoas têm convicções, incluindo os jornalistas. Eu prefiro o Joe Strummer ao Sid Vicious, gosto mais de García Márquez do que de Vargas Llosa, sou mais Maradona do que Pelé, prefiro Gillo Pontecorvo a Steven Spielberg. Cada um de nós traz um mundo dentro de si.


Resistência antifascista em Donbass

 

Nenhum jornalista é mais independente ou imparcial por esconder as suas convicções. Por isso é que há um conjunto de ferramentas jornalísticas para contornarmos o mais possível a influência das nossas escolhas no nosso trabalho. Até porque há outros factores no jornalismo que também têm influência nas nossas abordagens aos acontecimentos. Por exemplo, a linha editorial, que depende muito das convicções e dos interesses de quem financia os meios de informação.

Eu nunca escondi as minhas convicções porque sou um cidadão consciente dos seus direitos e disposto a exercê-los também como forma de os defender. Os jornalistas não têm menos direitos do que o resto da população.

Felizmente, tive um grande jornalista como professor que dizia aos seus alunos que o primeiro objectivo de quem trabalha na imprensa deve ser a ambição de mudar o mundo. Nesse sentido, o Oscar Mascarenhas valorizava os alunos que tinham uma vida cívica activa, fosse em teatros, associações desportivas, humanitárias ou políticas. Vivemos num mundo que nos quer impôr a não política. Ou seja, a ideia de que a política deve ser exclusiva dos que exercem cargos políticos e a democracia quer-se fechada nas instituições, com cidadãos cada vez menos activos e incómodos.

Faz-me confusão que haja quem ache que os jornalistas devem abdicar dessa intervenção enquanto cidadãos na vida colectiva. Sobretudo quando houve vários jornalistas que o fizeram. Recordo o caso do Mário Mesquita, do Alfredo Maia, da Carla Castelo e de tantos outros. A Comissão da Carteira estabelece algumas incompatibilidades, não apenas no exercício da actividade política, e apenas cargos a tempo inteiro são incompatíveis com o jornalismo.

Acabaste por te tornar mais notório do que muitas das tuas reportagens. Não é uma posição desconfortável para um jornalista, que supostamente não devia ser notícia?

Isso aconteceu, sobretudo, quando diferentes figuras me atacaram, como a ex-candidata presidencial Ana Gomes, a jornalista Fernanda Câncio, o secretário de Estado João Galamba, a escritora Inês Pedrosa, entre outros. O Correio da Manhã fez eco dessas acusações, assim como a revista Visão. Admito também que, para alguns jornalistas, o facto de eu ser um outsider os tenha deixado desconfortáveis. De repente, alguém que nunca esteve nos principais meios portugueses publicava reportagens no Público e na CNN.

Devido a esses ataques, o Público, com o qual tinha um compromisso verbal, apenas me comprou uma reportagem. Essas pessoas tentaram desacreditar-me e eu não podia ficar calado. Houve acusações, colando-me à ideia de eu que era putinista ou pró-russo, que num contexto de guerra são perigosas. Imagina que eu era capturado pelas forças ucranianas e que esses soldados compravam essas acusações contra mim.

Ainda assim, recebi muitas mensagens de solidariedade de muita gente, incluindo jornalistas, mas o Sindicato dos Jornalistas evitou defender-me. Houve vários jornalistas com muitos anos de experiência que me disseram que nunca viram nada assim.

Naturalmente, tive de assumir publicamente a minha própria defesa, assumindo um destaque que nunca me foi confortável, quando a única coisa que queria era dedicar-me, de forma plena, ao meu trabalho no Donbass.

Porque é que achas que, num estado de direito democrático, com uma imprensa livre e plural, as redacções tenham tomado a opção consciente de rejeitar qualquer investigação a um dos lados de uma guerra na zona do Donbass?

Repara, ao longo de todos estes meses foram vários os jornalistas portugueses e estrangeiros que me contactaram para os ajudar a entrar no Donbass. Eles queriam. Em vários desses casos, as direcções de informação não os deixaram ir. Portanto, há, desde logo, uma intencionalidade em cobrir apenas um lado da guerra, o que deixa a descoberto a excepcionalidade da CNN. Até agora, nas últimas décadas, estes meios sempre tiveram repórteres no lado do invasor. O problema é que agora o invasor não se chama Estados Unidos da América.

 

Agora, nunca me verão dizer que não deve haver jornalistas no lado controlado pela Ucrânia. Essa é a grande diferença. 

Hoje, jornalistas como Kapucinsky, Hemingway ou Robert Fisk são vistos como exemplos. O primeiro escreveu um grande livro sobre o trabalho que fez quando acompanhava a guerra civil em Angola, no lado controlado pelo MPLA, o segundo esteve no lado republicano da guerra civil espanhola e o terceiro fez uma entrevista ao Bin Laden. Entrámos num nível tal de controlo editorial e político, onde encaixo a proibição de canais russos na Europa, que são vários os meios que rasgaram de forma aberta e pública as antigas declarações de amor à objectividade e imparcialidade.

Sob a acusação de ser um espião russo, prenderam um jornalista basco na Polónia [Pablo González, colaborador frequente do Público espanhol e ao serviço do La Sexta TV, está preso há mais de 9 meses, sem julgamento] quando cobria a crise dos refugiados e ninguém parece demasiado preocupado com isso. Voltámos à guerra fria e ao maccarthismo.

Como analisas a cobertura da guerra feita pelos orgãos noticiosos portugueses? Notas algum contraste em relação a outros meios mainstream europeus?

Não. Em geral, seguem a mesma linha. Há excepções, contudo. Por exemplo, três canais italianos, incluindo a RAI, tiveram repórteres no lado controlado pelos russos. A Grécia também. De resto, há uma informação muito uniforme, o que não deixa de ser curioso.

Durante muitos anos justificava-se essa uniformidade porque a maioria dos meios não queria gastar dinheiro a enviar jornalistas para determinados cenários de guerra. Então, todos compravam as mesmas reportagens das principais agências. Agora, houve uma aposta muito grande em enviar repórteres mas a abordagem é praticamente igual em todo o lado. Algo que falta muito e, parece-me intencional, é a ausência de contexto.

O objectivo é claro: que não haja uma leitura histórica do conflito.

As populações de Donetsk, Mariupol, estranhavam a tua presença? Em certo momento eras dos únicos jornalistas a trabalhar na região. Com tão pouca presença mediática europeia, não estranhavam um português? Estavam satisfeitas por alguém as ouvir? 

Houve um momento em que era o único repórter a trabalhar para meios ocidentais em todo o lado controlado pelos russos. Não olho para isso como um feito mas como uma tragédia. É a morte do jornalismo.

Naturalmente, havia muita surpresa e também desconfiança. Afinal de contas, eu venho de um país cujos impostos são usados também para financiar as armas que matam civis em Donetsk. No Hospital de Traumatologia da cidade, houve vários pacientes que se recusaram a falar comigo por isso mesmo, por ser um jornalista de um país da NATO. Numa reportagem num mercado, houve uma idosa que gritou comigo e outro repórter acusando-nos de sermos responsáveis pelo que lhes estava a acontecer. Mas aconteceu em muitas ocasiões o contrário, entendendo o nosso trabalho, agradecendo e até encorajando.

Em Mariupol, a situação era tão desesperante que nos pediam ajuda para comunicarmos com familiares a viver no estrangeiro. Ali, até de enfermeiros fizemos para salvar a vida a uma idosa que apanhou com os fragmentos de uma mina anti-pessoal. Evitar quase sempre trabalhar em excursões organizadas pelas forças russas tornava o trabalho mais livre mas também mais perigoso. Foi um trabalho que exigiu muito tacto e sensibilidade com os civis, também com os militares, mas creio que a avaliação geral é positiva.

Já trabalhaste noutros cenários de guerra e conflito. Todos os conflitos são diferentes, mas há alguma características no Donbass que destaques?

Estive, em 2017, num acampamento das FARC, na Colômbia, num momento prévio à entrega de armas mas já durante o processo de paz. Havia uma tensão natural e prosseguiam os assassinatos de líderes sociais. Contudo, era um contexto totalmente diferente. No ano seguinte, visitei o Donbass e foi o meu primeiro contacto com a guerra civil que havia começado em 2014. Aí já ouvi alguns bombardeamentos, mas esporádicos. Apesar da violação constante dos Acordos de Minsk, havia já um conflito de baixa intensidade.

 

O que acontece hoje é de uma dimensão totalmente diferente. Caem cerca de cem projécteis todos os dias em Donetsk. Em média, há mais de um morto por dia na cidade. Mais de 2 100 feridos desde Fevereiro. E estamos a falar de uma cidade que não está em disputa, não tem combates terrestres, não tem homens a combater no seu interior. Mariupol, sim, estava em disputa e foi, de facto, um inferno. Havia mortos por todas as partes. 

Parece-me que é um erro dizer que esta guerra é apenas entre a Rússia e a Ucrânia. Há milhares de combatentes estrangeiros do lado ucraniano, armas ocidentais, estrategas militares ocidentais a assessorar operações, quando não a comandar, Kiev tem o apoio da inteligência dos satélites ocidentais, etc... Do outro lado, há combatentes das diversas realidades nacionais da Federação Russa, há os soldados do Donbass a combater desde 2014, assim como os cidadãos mobilizados desse mesmo território, há o grupo Wagner... Ou seja, há uma complexa teia diversa de afinidades e contradições.

Do ponto de vista mais geral, esta guerra representa um momento histórico de grande significado porque põe frente a frente duas realidades geopolíticas que se vinham confrontando de forma económica, política e também militar, mesmo que de forma indirecta, sobretudo no Médio Oriente, em que o Ocidente vê o seu poder questionado. É ingénuo acreditar que a guerra vai acabar sem que Washington ou Moscovo tenham uma palavra a dizer. A implicação do Ocidente é, hoje, tão óbvia que isso tem um preço nas nossas economias. 

Como vês a situação actual do Donbass? Depois da realização de referendos sem particular credibilidade, com enormes migrações internas, milhões de pessoas a abandonar a região, é expectável uma estabilização da situação?

A credibilidade dos processos eleitorais há muito que é algo secundário no contexto internacional. Há uma avaliação subjectiva em função dos interesses de cada país. O Kosovo tornou-se independente sem referendo, Juan Guaidó foi reconhecido presidente por muitos países sem qualquer eleição. Isso parece-me particularmente grave. À luz do que vi, de facto, não foram referendos que cumprissem aquilo que consideramos serem processos democráticos, embora não me pareça haver grandes dúvidas sobre a vontade daquela gente.

Basta ver o histórico eleitoral desde 1991 até 2014. Há um padrão praticamente inalterado de vitórias de forças pró-russas e comunistas. Toda a gente que entrevistei me disse que pouco lhe importava o não reconhecimento dos referendos por parte do Ocidente, uma vez que o Ocidente pouco se importou com a situação destas pessoas nos últimos oito anos. Parece-me que teria sido um passo para a paz se a Ucrânia e a Rússia aceitassem a realização de referendos com todas as garantias dando a palavra às populações com observadores dos dois lados. Não me parece que haja espaço para isso quando Kiev não cumpriu sequer os Acordos de Minsk em que estava previsto dar autonomia a estes territórios.

A Ucrânia não vai aceitar nunca a anexação do Donbass e das restantes regiões, incluindo a Crimeia, e, nesse sentido, a única perspectiva de estabilização virá com o fim da guerra que dependerá mais de Washington do que de Kiev. Sozinha, a Ucrânia não tem condições de manter esta dinâmica militar.

As populações do Donbass fazem ideia da dimensão do apoio à figura de Zelensky na União Europeia? Nos meios de comunicação, institucionais, nas redes sociais...

Sim, há essa noção. Para eles, o inimigo não é apenas Zelensky. São também os Estados Unidos e a União Europeia. E até a ONU é uma instituição questionada, sobretudo Guterres, acusando-o de declarações parciais. Há uma visão da Europa, não isenta de preconceitos, em que somos vistos como individualistas, demasiado apegados ao dinheiro e ao consumo, pouco dados aos valores da família e da comunidade, pouco solidários e, naturalmente, somos considerados fantoches dos norte-americanos. Mas também sabem que há gente que protesta, que não está de acordo com determinadas políticas e que se mobiliza contra a guerra.

O que me parece grave é que os líderes europeus fazem tudo para meter gasolina na fogueira como foi o caso de Josep Borrell, dizendo que a Europa era um jardim e o resto do mundo uma selva. Isto significa reforçar, no resto do mundo, o antagonismo ao eurocentrismo e a esta ideia de que a Europa é um oásis civilizacional no meio dos selvagens. 

https://www.abrilabril.pt/internacional/bruno-carvalho-nenhum-jornalista-e-mais-imparcial-por-esconder-suas-conviccoes