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domingo, 26 de julho de 2020

O Mistério da Estrada de Sintra. Mais do que um folhetim de verão


Em julho de 1870, Lisboa aborrecia-se ao sol. Provocadores, dois jovens membros da chamada Geração de 70, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, decidem agitar tal modorra com um folhetim intrigante iniciado com um crime na Estrada de Sintra. Publicaram-no no Diário de Notícias durante dois meses em que ninguém perdeu pitada.

Maria João Martins
25 Julho 2020 — 00:12

Sintra ainda se escrevia com "C" mas foi através das páginas do DN que dois jovens escritores, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, se dispuseram a abanar a sonolenta Lisboa, mergulhada na languidez da canícula: "Há 14 anos numa noite de verão, no Passeio Público, em frente de duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de sono (...) deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinando à Baixa das alturas do Diário de Notícias", escreve Eça de Queiroz no prefácio à segunda edição em livro de O Mistério da Estrada de Sintra, datada de 1884.

Como o fizeram? Usando essa novidade do seu tempo, que era o poder absoluto da imprensa escrita na formação da opinião pública, para expor as pequenas misérias de uma certa aristocracia lisboeta que ia a Sintra refrescar-se dos incómodos estivais da capital. Para isso, engendraram um enredo de tal maneira rocambolesco que seria digno das Proezas de Rocambole, o folhetim de Ponson du Terrail que criara este adjetivo ainda hoje comum: certa noite, indo um médico e um escritor de caleche pela estrada de Sintra (que se iniciava onde hoje é a Estrada de Benfica e ligava a capital àquela vila), foram surpreendidos e raptados por quatro homens embuçados, que os levariam a uma casa isolada. O objetivo era confirmar o óbito de um oficial britânico, a quem fora ministrada uma dose excessiva de ópio. À medida que a noite avançava os dois compreenderiam estar diante do trágico corolário de um triângulo amoroso constituído pelo assassinado, uma condessa portuguesa mal casada e uma bela rapariga chegada de Cuba. Tudo começara meses antes da fatídica noite, durante uma estada em Malta, à época parte do império britânico. Isto, claro, sem perder o tom jocoso com que Eça e Ramalho habitualmente tratavam as suas personagens.

Forjada a intriga, a mesma começaria a ser enviada em sucessivas cartas a Eduardo Coelho, primeiro diretor do Diário de Notícias. Na primeira, a atmosfera de mistério preparava já o espírito do leitor para um caso cheio de suspense: "Senhor Redator do DN, venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que eu entender mais adequado, publique a substância do que vou expor. Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou torna-se importantíssimo como chave única para a desvendação de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele senão um só ato."

Na véspera da sua publicação, a 23 de julho, o próprio jornal aguçará o apetite do leitor ao publicar este aviso no espaço imediato aos «Assuntos do dia»: "A hora já adiantada recebemos ontem um escrito singular. É uma carta, não assinada, enviada pelo correio à redação, com o princípio de uma narração estupenda, que dá ares de um crime horrível, envolto nas sombras do mistério, e cercado de circunstâncias verdadeiramente extraordinárias, e que parece terem sido feitas para aguçar a curiosidade, e confundir o espírito em milhares de vagas e contraditórias conjeturas. Trata­‑se da sequestração noturna de um médico, e de um amigo seu para assistirem a um ato gravíssimo, e, demais factos subsequentes. O interesse que esta narração desperta, a forma literária que a reveste, e o crime que parece revelar nos obrigam a não buscar resumi­‑la, e a dá­‑la na íntegra aos nossos leitores. Não podemos, porém, inseri-la sem eliminar o folhetim, e substituí­‑lo por esse escrito, o que faremos em a nossa folha de domingo."

A dúvida estava lançada: notícia ou ficção? Durante mais de dois meses, de 24 de julho a 27 de setembro, os leitores do jornal não perderam pitada, desconhecendo totalmente a autoria de quem escrevia, mas incapazes de resistir ao suspense que se lançava no final de cada capítulo do folhetim, uma técnica de "engodo" ainda hoje adotada pela ficção televisiva. O sucesso foi total. As 31 cartas seriam reunidas em livro nesse mesmo ano, numa edição da Parceria António Maria Pereira, só se revelando a sua na última, que também encerra a história.

Como escreve o estudioso da obra de Eça de Queiroz e catedrático da Universidade de Coimbra, Carlos Reis, na nota prefacial à edição crítica de O Mistério da Estrada de Sintra: "Este é um exercício de construção de uma ficção que habilmente disfarça essa sua condição. Ou que joga, de forma deliberada e divertida, com as frágeis fronteiras da ficção e com dispositivos contratuais e discursivos que põem em causa a distinção entre mundo ficcional e mundo real. Era um jovem que andava pelos 25 anos quem comparticipava naquele exercício, já então, como acontecera alguns anos antes com os folhetins da Gazeta de Portugal, com o claro propósito de introduzir uma vibrante nota de provocação nas rotinas culturais da burguesia lisboeta. Acompanhava Eça de Queiroz, na composição do romance, Ramalho Ortigão, mais velho nove anos do que o amigo (e seu antigo professor, como se sabe), na que seria uma primeira colaboração entre ambos, aprofundada, no ano seguinte ao do aparecimento d"O Mistério da Estrada de Sintra, quando irromperam, na cena cultural portuguesa, As Farpas."

Quinze anos depois, com os dois autores a serem já nomes conhecidos do grande público, far-se-ia uma segunda edição da obra, em que os dois esclareceriam as circunstâncias em que esta fora produzida: "O que pensamos hoje do romance que escrevemos (...)? Pensamos simplesmente - louvores a Deus - que é execrável." Mas acrescentam, sempre provocatórios. "Aos 20 anos é preciso que alguém seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite."

Folhetins, entretenimento das famílias

Num mundo anterior à rádio, ao cinema e à televisão, a leitura era o principal meio de entretenimento das famílias. Em França e em Inglaterra, jornais e revistas de grande tiragem começaram a publicar histórias, fundamentalmente de aventuras, em "episódios", de modo a fidelizar os leitores. Quanto mais agitadas fossem as peripécias dos heróis, melhor. Assim se estrearem, nas lides literárias, homens como Alexandre Dumas que começaria por escrever os seus maiores êxitos como Os Três Mosqueteiros ou O Conde de Monte Cristo no jornal Le Siècle. O mesmo aconteceria com outros autores como o referido Ponson du Terrail, Paul de Kock ou mesmo grandes nomes do cânone literário francês como Balzac ou Zola. Do outro lado da Mancha, o mesmo faria Charles Dickens, que, aliás, começaria por assinar a crónica judicial do que se passava nos tribunais de Londres. Em 1833 começaria a publicar na revista The Monthly Magazine um conjunto de apontamentos humorísticos a que daria o nome de Sketches by Boz, que reuniria em livro em 1836. Mas várias obras de Dickens fariam o mesmo percurso, como Os Cadernos de Pickwick ou mesmo romances como Oliver Twist (publicado originalmente na Bentley"s Magazine) ou Nicholas Nickleby. Lá, como cá, o método era sempre o mesmo: aparecia na parte inferior de uma página ímpar e, de edição para edição, tratava de agarrar o leitor com suspense e "cenas dos próximos capítulos". Já no século XX, jornalistas como Reinaldo Ferreira (o famoso Repórter X) usariam técnicas não muito diferentes em reportagens de longa duração, publicadas na imprensa diária, como O Táxi n.º 9297 (sobre o assassinato da atriz lisboeta Maria Alves, que mais tarde o próprio transformaria em livro e em filmes), que, ao longo de meses, acompanhou a intricada investigação em torno de quem, numa noite escura de 1926, atirara o corpo da mulher, já morta, de um táxi em andamento. Tivesse ele usado o título O Mistério do Regueirão dos Anjos e ninguém se teria escandalizado.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Vila do Conde em 1943, por Ramalho Ortigão

 


É talvez a menos frequentada pelos banhistas, o que não obsta a que seja uma das mais pitorescas e mais belas povoações marítimas de Portugal.

A uma hora do Pôrto pelo caminho de ferro da Póvoa, cuja linha é cortada por entre espessos pinheirais, Vila do Conde descobre-se repentinamente, numa volta de estrada, no meio de uma vasta paisagem, ampla, descoberta, de larga respiração.




Ao penetrar na ponte que une as duas colinas, ao nascente da vila, o viajante vê diante de si, ao longe, as montanhas de Rates, aos seus pés ondula o rio Ave por entre as viçosas margens cobertas pela verdura suave dos pinhais. Ao meio do rio, entre a ponte de ferro e a vila, um açude. Em cada uma das margens, um velho moinho, musgoso, move lentamente a sua grande roda denegrida e gotejante.



Assente sobre rocha, na margem esquerda do rio, sobranceiro à vila, o convento, grande edifício de Renascença francesa, tem um artístico aspecto, dominativo, senhorial, ostentando ao largo sol, sobre a cimalha, junto de uma monja com o hábito de Santa Clara, o grande elefante branco, símbolo da castidade, que constitui o brazão do convento. D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e sua mulher D. Teresa Martins de Menezes, filha do primeiro conde de Barcelos, foram os fundadores do convento, onde hoje estão sepultados, e que doaram às freiras franciscanas.

D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e sua mulher D. Teresa Martins de Menezes, filha do primeiro conde de Barcelos, foram os fundadores do convento, onde hoje estão sepultados, e que doaram às freiras franciscanas.



O mosteiro de Vila do Conde era rico e fidalgo. Habitavam-o 120 freiras, a maior parte delas de famílias nobres. Possuíam a povoação de Azurara que fica na margem sul do rio, dízimos e outros direitos senhoriais. Eram donatárias de Vila do Conde, de entre outras vilas de Entre-Douro-e-Minho, e de Alcoentre no Ribatejo. A abadessa sentenciava as apelações das sentenças do juiz. Tinham finalmente direitos soberanos.

D. João III tirou-lhes o senhorio e jurisdição, e instituiu por donatário o infante D. Duarte. Azurara, com a sua bela igreja manuelina, passou a pertencer a si mesma. Os Dízimos foram extintos. De sorte que as freiras empobreceram. As poucas senhoras que actualmente assistem no mosteiro fabricam doce e vendem a especial gulodice da ordem - os pastéis de Santa Clara.

A igreja matriz é do tempo de D. Manuel e no estilo manuelino como a de Azurara.

A ermida de Nossa Senhora do Socorro, que se avista da ponte e fica entre ela e a barra, à beira rio, é redonda, tem a forma de uma mesquita otomana, a que só falta o complemento de uma palmeira e o apenso de um camelo ou um cavalo árabe.



Além de algumas famílias muito distintas e especialmente hospitaleiras e amáveis a população de Vila do Conde é composta principalmente por pescadores e rendilheiras.



Todo o trabalho gera uma virtude que lhe corresponde. Do fabrico de renda, delicadamente construída por meio de uma infinidade complicadíssima de bilros, com linha branca finíssima, resultam os hábitos de ordem, de aceio, de reflexão, de espírito de sistema.



Não é possível fazer renda e ter uma casa em desordem; não é possível fazer renda e ter as mãos sujas ou deitar nódoas no fato; não é possível fazer renda e murmurar ao mesmo tempo a vida alheia ou alterar com as vizinhas, como sucede a quem doba, a quem fia, a quem faz meia, a quem se ocupa de trabalhos de máquina puramente automáticos.

O fabrico da renda é profundamente moralizador. Dêle procede o carácter e o ar senhorial das mulheres de Vila do Conde e de algumas que particularmente me impressionaram em Peniche pela distinção das suas maneiras, pela gravidade das suas fisionomias, pela delicadeza das suas estaturas, pela elegância aristocrática das suas mãos.



As rendas de Vila do Conde, como as de Peniche, são do género chamado Honiton, semelhante à guipure de Chantilly. Magoa ao considerar os trabalhos destas simpáticas mulheres, ver tanta perfeição de acabamento, tão completa posse do processo, aliada a tão profunda ignorância artística.

Nem em Vila do Conde nem em Peniche encontramos uma só operária que soubesse desenhar. A criação de uma escola de desenho pública e gratuita é tão necessária em qualquer destas localidades como a escola das primeiras letras. A essas mulheres, que tão fiel e escrupulosamente executam os riscos, seria facílimo ensinar a manejar o lápis.

Se em cada uma das escolas de desenho a que nos referimos existisse uma colecção de bons modelos de ornato feitos pelos artistas de mais talento e os jornais especiais da moda francesa com todos os novos modelos, talvez dessas modestas operárias saíssem algumas artistas cuja aptidão contribuiria muito para dar à indústria das rendas portuguesas a grande importância económica de que ela é susceptível.



O campo que cerca Vila do Conde, atravessado pela arcaria do extenso aqueduto do convento, o qual lhe imprime um grandioso ar italiano, é ameno, posto que um pouco triste. As margens do rio perto da grandiosa aldeia de Retorta são extremamente pitorescas.

O único defeito de Vila do Conde como estação de banhos, é a distância que medeia entre a praia e casas da vila, unidas todavia por uma boa estrada, em que uma companhia edificadora estava o ano passado construindo novas casas.



Há feira semanal e feira grande a que concorre muito povo dos subúrbios.

A vila tem dois hotéis. Estivemos no maior, situado na praça em frente da antiga ponte. O aceio não é virtude especial que recomenda esta casa ao respeito dos viajantes. O proprietário distrai a atenção dos forasteiros da infecção de capoeira que caracteriza os salões, servindo-lhes magnífico vinho verde, admiráveis presuntos de Melgaço, de primeira ordem, e os melhores pastéis do convento.


In As praias de Portugal de Ramalho Ortigão, 1943

http://www.rancho-da-praca.com/paginas/VC_Ramalho/praias_vc.html