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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Carla Romualdo - Equívocos

Equívocos

No degrau onde um homem costuma dormir estava uma embalagem de donuts de morango. Não havia sinal do homem, mas estavam lá os cartões que lhe servem de colchão, agora ao alto, encostados à parede. No chão, a embalagem de plástico, fechada, com três donuts de um estridente cor-de-rosa E128, intactos. Faltava pouco para as nove da manhã. Os donuts eram de uma marca estranha, talvez saídos da loja de oportunidades da esquina, que vende produtos “de fora do nosso mercado”, como diz a gerente, e que vêm com rótulos em servo-croata e prazos de validade indecifráveis.
Quem os deixara ali? Podia ter sido uma compra disparatada, um desses impulsos de que é difícil não acabar arrependido. Podiam estar fora de prazo ou perto disso. Ou podiam ter sido comprados de propósito para oferecer ao homem que nunca pede esmola mas aceita o que lhe oferecem.
Apareceu, rua abaixo, uma mulher que conheço de vista e de quem me disseram que ajuda numa mercearia do bairro, acarreta caixas, sacos de batatas, e em troca dão-lhe arroz, latas de conservas, leite. É alta, sólida, com um andar masculino, ancas muito direitas e as pernas um tanto arqueadas. Vê os donuts e detém-se. Do outro lado da rua, vou subindo eu, vagarosa. A mulher vai apanhar os donuts, já sei que é isso que vai acontecer, mas estupidamente não afasto o olhar e ela sente-o, pelo canto do olho, vira o rosto para mim, envergonha-se e segue caminho, quase a correr, e de mãos vazias. Arrependo-me, mas de quê? De ter olhado.
À hora de almoço, quando desço a rua ensolarada, os donuts estão no mesmo sítio, uma massa pegajenta, ainda dentro do plástico.

https://aventar.eu/2017/10/20/equivocos/#more-1284142

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

História de um cão moscovita


Estima-se que vivam nas ruas de Moscovo cerca de 35 mil cães. Destes, cerca de 500 vivem nas estações de metro, um número impressionante se tivermos em conta que a cidade conta com um total de 200 estações. E entre estes, um número reduzido, aí uns 20, usa o metro para deslocar-se na cidade, um feito notável e que tem chamado a atenção dos estudiosos do comportamento animal. Imaginem um cão capaz de usar escadas rolantes, de escolher a linha de metro e a estação em que deve sair. Que não se assusta com o ruído da locomotiva, com a hostilidade do ambiente, que, seja pelo cheiro ou porque reconhece o nome da estação quando pronunciada pelo aviso sonoro, ou ambos, consegue orientar-se no labirinto subterrâneo.
Malchik não era um desses bichos que viajam, mantinha-se na estação, era fiel à sua casa. Até ao dia em que Yulia Romanova chegou à estação com o seu Staffordshire Bull Terrier, cujo nome a pequena História não registou. Há relatos contraditórios sobre o que terá acontecido: uma testemunha disse que Yulia incentivou o seu cão a ir morder Malchik, que dormia. Outra garantiu que foi Malchik que ladrou ao outro cão e à sua dona, embora todos concordem que não os atacou. Yulia tirou da mala uma faca de cozinha e espetou-a seis vezes em Malchik. Este acabou por morrer ali mesmo, no meio da estação, depois de minutos de agonia.
O assassinato de Malchik indignou muitos cidadãos. Yulia foi detida, descobriu-se entretanto que tinha um historial de maus-tratos a animais, e perturbações psiquiátricas que a levariam a ser submetida a tratamento. Um grupo de artistas, apoiados por cidadãos anónimos, ergueu uma estátua a Malchik, projecto que demoraria anos a concretizar-se. Malchik morreu em 2001 e foi preciso esperar até 2007 para que a sua estátua fosse colocada na estação de Mendeleyevskaya. Que, em seis anos, a memória de um cão vadio não tenha sido esquecida diz bastante sobre a popularidade do bicho e o choque que a sua morte provocou. E sobre a familiaridade dos moscovitas com os guardiães das suas estações.
Conta-se que os cães que viajam no metro evitam as carruagens apinhadas e preferem as do fundo, habitualmente menos frequentadas. Procuram a companhia dos humanos e resguardam-se dela, como é de esperar dos bichos que conhecem o melhor e o pior desses humanos. Esses vinte cães que atravessam a cidade talvez o façam apenas para procurar comida ou também por diversão e vontade de ver o desconhecido. Exploram o que a cidade tem para oferecer-lhes, o que os humanos construíram, e sobrevivem num mundo que não foi feito para eles, mas que os tolera. Mas quando a vida na cidade se endurece, são eles que guardam as estações, são eles que acompanham e defendem os humanos que dormem nas ruas, são eles que retomam o lugar que nunca perderam por inteiro, o de companheiros e defensores de seres humanos solitários e amedrontados.
https://aventar.eu/2016/02/26/historia-de-um-cao-moscovita/#more-1248192

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Carla Romualdo - O inútil


O vizinho que ficou desempregado há dois anos faz umas horitas nas lojas da rua. Meia hora na sapataria, três quartos de hora no parque de estacionamento, duas horinhas na loja ortopédica. O suficiente para que os donos, que já não têm dinheiro para contratar empregados, possam dar um saltinho às finanças, ao banco, a tratar daquele assunto que tem de ser em horário de expediente. Ele faz tudo sem ligar nenhuma a nada. Não está para vender nem para dar explicações. É só mesmo dizer que o patrão vem já, que é melhor passar depois, e garantir que ninguém deita a mão a nada. Aceita cartas e encomendas, atende o telefone para dizer que o patrão vai estar da parte da tarde. Mais do que isso não é com ele.
Assim que fica livre, vai sentar-se na cadeira de rodas que está todo o dia em exposição à porta da loja ortopédica. A cadeira está protegida por um plástico que já começou a rasgar-se, mas o dono da loja sente-se em dívida e não diz nada. Sentado na cadeira, a olhar o mundo a passar, aí é que ele se sente bem. Se pudesse dedicar-se a isso na vida…
Se o deixassem ver o mundo e dizer bom dia às pessoas e pensar sobre as vidas delas, e decifrar, pelo semblante que levam nesse dia, se a vida lhes corre bem, se houve discussão lá em casa. E ajudar algum turista que anda com o mapa só para fazer de conta porque não sabe lê-lo, ou as senhoras que vêm de Miranda do Douro fazer a mamografia no consultório ali ao lado, e andam perdidas como se as tivessem enviado a outro país. Ou meter o carro na garagem ao Dr. Mota, que não atina bem com as distâncias e arranha sempre a pintura metalizada. Ou ir com a viúva do Sr. Meneses à Caixa para levantar a reforma, porque desde aquele dia em que se juntou um grupinho à volta dela e ela teve que gritar “Quem me acode!” que já não se atreve a andar sozinha com dinheiro no bolso. Ou chamar a atenção à D. Rosa, que é mãe solteira e passa o dia fora, que o rapaz anda com umas companhias esquisitas e com umas olheiras que não são bom sinal, e se calhar era hora de ter uma conversa com ele.
O país verá o meu vizinho com desdém e impaciência, um homem ainda jovem, sem ocupação digna desse nome, sem contribuições para a segurança social nem para o fisco, um desocupado que passa o dia na rua, mas suspeito que poucos conhecem o país como ele. Nada sabe de temas fracturantes, de números, de previsões. É um analfabeto económico, um ignorante político, um homem pouco escolarizado. Provavelmente, nenhuma empresa o contratará até ao fim da vida. Mas ele sabe ler a teia fina que se tece entre pessoas, reconhece um problema antes que ele se manifeste, interpreta com precisão sinais de crise ou de retoma pelo movimento nas lojas do bairro, pelas idas ao multibanco.
É pouco refinado, diz palavrões, faltam-lhe as palavras certas quando tenta explicar-se. Mas sabe sempre o que fazer, sabe estar onde é preciso, não lhe faltaram as palavras quando a vizinha se atirou da janela e foi ele a chamar a ambulância, e a esperar com ela, sabendo que ela estava morta, mas que nem por isso ele era menos necessário ao lado dela.
O vizinho conta apenas nas estatísticas dos desempregados. É um inútil, um encargo para o país. Mas se perguntarem no bairro, onde todos sabem quem ele é, não se imagina a vida sem ele.~
Imagem: «ARA General Belgrano», Guy Denning

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Carla Romualdo - Primeiras letras



Uma das primeiras profissões que pensei que poderia vir a ter era a de preenchedora de impressos. Ocorreu-me isso quando me levaram ao serviço de identificação para fazer o meu primeiro bilhete de identidade e descobri que à porta vagueava um grupo de homens (confesso que não me lembro de nenhuma mulher), cada um munido de capinha e caneta, à espera do recém-chegado cliente com letra débil, caligrafia insegura, gramática titubeante, para de imediato apresentar os seus serviços e se ocupar de preencher os indigestos formulários estatais.
Para muitos, o contacto com a pesada máquina da administração pública cingia-se a renovar documentos, requisitar uma certidão, pedir um subsídio, e traduzia-se invariavelmente em impressos, formulários, requerimentos que metiam medo a quem raramente escrevia uma linha. Eram obrigados a comprar folhas que não sabiam como preencher, tinham medo de se enganar, a caneta tremia-lhes nas mãos quando se preparavam para fazer a primeira mancha, o primeiro traço de tinta no formulário impecável. Desistiam, não eram capazes. E aí estavam os solícitos preenchedores, gente calejada na tarefa e que não se atrapalhava quando se enganava numa letra e tinha de passar por cima com mais força.
– Como é se chama? Onde é que nasceu? Como se chamava a sua mãe? Assine aqui onde está a cruzinha.
Eram despachados, um nadinha paternalistas, mas sobretudo úteis. Em troca dos seus serviços, recebiam umas moedas e o agradecimento sincero de quem os achava imprescindíveis. Apanhavam sol e chuva, mau hálito e perdigotos dos fregueses, mas sempre era um serviço de escritório (para chamar-lhe de alguma maneira), limpinho, só se sujavam os dedos de tinta. Os fregueses mais agradecidos chamavam-lhes “doutores”, essa cortesia do povo português para com todo o graúdo cuja dignidade não querem beliscar.
Aos olhos de uma criança, os adultos analfabetos causam algum embaraço, baralham a ordem natural das coisas. Aparecem diminuídos, infantilizados, reduzidos a uma dependência que é indigna e vexatória, e que há que mitigar com delicadeza. Conheci, nesses anos, muitos adultos analfabetos e alguns ainda bastante jovens. À minha casa vinha regularmente uma vizinha a quem a minha mãe escrevia umas cartas para a família emigrada no Brasil e que começavam sempre assim:
“Meus queridos irmão e cunhada, espero que esta vos encontre bem.”
Semanas depois, a vizinha trazia a resposta para que a minha mãe a lesse, e soava sempre engraçada porque fora escrita para ser lida com um sotaque brasileiro que a minha mãe não tinha. Acabava invariavelmente com “Receba um abraço do tamanho do Pão-de-Açúcar”, e eu imaginava um pão-de-deus gigantesco (esse bolo coberto de açúcar e coco), que estaria no cimo de um morro, voltado para Copacabana, a despejar salpicos de açúcar no areal.
Não me recordo de um único homem que pedisse ajuda para ler o que não era capaz de decifrar, mas as mulheres faziam-no constantemente. Um rótulo no supermercado, o destino de um autocarro, a carta da segurança social… Elas não tinham vergonha de reconhecer que o mundo das letras as deixara de fora, como se sofressem de um tipo de cegueira muito particular, ou fossem estrangeiras, vindas de um mundo em que só havia gestos e vozes. E de fora significava uma forma de castração,  uma perpetuação da infância, porque sem saber ler nem escrever esses homens e mulheres não chegavam a adquirir todos os direitos que a idade adulta lhes deveria ter concedido. E a valentia que era necessária para voltarem aos bancos de escola, mulheres e homens feitos, avós, bisavós!, e teimar com os dedos que deixavam escapar o lápis, insistir até ser capaz de domá-lo, e a alegria das primeiras letras desenhadas aos setenta, oitenta anos!
Agora já não se escrevem cartas, é sabido, e o cartão de cidadão não precisa de formulários. Os analfabetos, felizmente, vão sendo cada vez menos. Já perceber e interpretar o que se lê é outra história, mas não é para aqui chamada. Extinguiram-se os preenchedores e à porta do serviço de identificação só vi uns pintas a vender óculos de sol contrafeitos. Os escrevinhadores, como eu, por vezes praticam nos blogues, onde se é incomparavelmente menos útil mas mais livre, que é como quem diz mais feliz.

Foto: Chema Madoz