Mostrar mensagens com a etiqueta Romance. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romance. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Bom Soldado Švejk





CRÍTICA

Político até dizer chega


***“Tu és tão parvo como Švejk” quase soa a elogio: o anti-herói criado por Jaroslav Hašek para ridicularizar a máquina do poder é brilhante a desmontar o absurdo da guerra. E finalmente conhece a justa edição em português.

Diz-se “xeveique”. A nota é do tradutor. É a pronúncia correcta de um nome que designa uma personalidade insólita, subversiva, com longa carreira na literatura, viral e contagiosa - até fora das letras. Diz-se “xeveique”, mas escreve-se Švejk e nasceu para ser dado em fascículos no ano de 1923, o mesmo em que o seu criador, Jaroslav Hašek, morreria vítima de uma paragem cardíaca sem tempo de pôr um ponto final naquela que seria uma das obras mais hilariantes e nostálgicas, subversivas e pacifistas que a literatura foi capaz de conceber.
O Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, conhece por fim a justa edição em português, tão completa quanto possível, dado tratar-se de uma obra inacabada. A versão anterior, publicada pela Europa-América, não ia além da primeira parte, pouco mais de 200 páginas de um volume que agora ultrapassa as 800 e foi traduzido do checo por Lumir Nahodil para a colecção de humor da Tinta-da-China, dirigida por Ricardo Araújo Pereira. Mesmo a tempo de entrar para a lista dos acontecimentos literários de 2012.
Contemporâneo de Franz Kafka (o autor de O Castelo e de A Metamorfose morreu em 1924), Hašek desmonta de forma tão ou mais corrosiva a máquina do poder e a sua mesquinhez, só que pelo lado do riso, expondo-a a um ridículo desarmante e criando para o efeito a figura de um soldado, Švejk, “que tendo há anos abandonado o serviço militar, depois de definitivamente ser declarado idiota pela junta médica militar, ganhava o seu sustento com a venda de cães, feios monstros de sangue impuro, aos quais ele falsificava as árvores genealógicas”. Vamos encontrar Švejk em Praga, no momento em que é informado pela sua mulher-a-dias da morte do arquiduque Francisco Fernando, em Sarajevo - uma e outra cidade faziam então parte do imenso império austro-húngaro. Perante o facto, e depois do inevitável espanto, Švejk atreve-se a avançar com a hipótese de uma guerra. “A guerra é inevitável”, dirá depois de um “trago de dimensões épicas” numa cervejaria, em converseta com o cervejeiro Palivec e o polícia Bretschneider, protótipo do bufo ao serviço de uma bandeira e de um hino que Švejk, mais uma vez, admite recriar ofensivamente à força do álcool. Perante os factos, o polícia prende Švejk e Palivec, este por ter retirado da parede a imagem do Imperador. A justificação - “cagavam nele as moscas” - não só não convenceu Bretschneider como o provocou.
O que se segue é um festival em que o pícaro e o absurdo andam a par da crítica mais feroz à guerra e às artimanhas do poder. Hašek, anarquista, filho de um matemático que nunca se deu bem na vida e o deixou órfão aos 13 anos, fez da sua curta existência uma luta contra as instituições, sobretudo as que representavam o império austro-húngaro, colocando-se do lado dos defensores da independência checa. Meio vagabundo, foi jornalista e escritor que apostou numa obra única - apesar das centenas de pequenas obras -, pensada para ser publicada em seis volumes. Morreu aos 40 anos, fisicamente debilitado, incapaz ele próprio de escrever e ditando as últimas páginas deste O Bom Soldado Švejk, que não seriam as que ele imaginou como derradeiras.
Escrito sempre num tom jocoso, com a linguagem tratada sem os pudores associados à literatura de então - “gente que se incomoda com uma expressão forte é gente covarde, visto que a vida real surpreende”, escreverá no posfácio à primeira parte -, o livro assenta na suposta idiotice de Švejk, homem que se confessa “político até dizer chega”, numa estupidez que nunca se sabe se é inata ou um finíssimo artifício de inteligência do soldado que decide ir servir na Primeira Guerra Mundial de cadeira de rodas, devido ao reumatismo de que supostamente sofre. É homem que começa qualquer dialogo com a autoridade com a expressão “declaro obedientemente”, e que se sente agradecido por passar pelo um manicómio onde há liberdade para se ser tudo o que se quer. Essa passagem é uma das mais delirantes deste livro, traduzido a partir da 12.ª edição (no original, dois volumes de 480 páginas cada), editada em 1946. Um ano depois de o nazismo abandonar o território checo, antes da ocupação comunista.
O problema de falar ou de escrever sobre Švejk é que há a tentação de citar cada frase, de contar cada uma das histórias e aventuras que saem da boca do soldado de forma desenfreada - como se também a tagarelice fosse contágio -, numa tentativa, sempre defraudada, de revelar a perícia com que Hašek dominava a língua e os dialectos daquele imenso império onde imperava o alemão. Uma dor de cabeça para o tradutor, que assume aqui que construiu um léxico próprio para poder passar todas essas nuances.
Domínio exímio é também o da arte do humor. No caso, no que o humor tem de mais colado à alma. A gargalhada sai com a inquietude de quem, ao rir, percebe que ela é forma de reagir e de suportar a guerra e uma autoridade que não pode ser contestada. Nada então como banalizá-la, desmontando-a e às suas tragédias. Eis a humanidade e o seu grande absurdo. E quem melhor para denunciar do que um idiota, um anti-herói que inspirou por exemplo Joseph Heller a escrever outro clássico da guerra, já na década de 40: Catch 22.
Hašek conseguiu mais do que aquilo a que se propôs. Não apenas que a palavra “Švejk” se tornasse “um novo insulto na florida grinalda dos impropérios” e com isso enriquecesse a língua checa, mas que o insulto “Tu és tão parvo como o Švejk” soe a algo próximo do elogio.
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/politico-ate-dizer-chega-1658116


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Dinis Machado - O que diz Molero



* Dinis Machado

A melhor cena de pancadaria alguma vez escrita
ABRIL 29, 2015

«“Chegou uma esquadra”, disse Austin, “e aqueles a quem chamavam os camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro”. “Essas excursões a bairros desconhecidos desvendam mundos novos”, interrompeu Mister DeLuxe. “Fiz duas ou três desse género e tirei excelentes fotografias”. Austin sorriu. “Bem”, disse ele, “os camones continuaram a subir a rua, pararam junto ao Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, com os camones, estoicos a irem e a virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também não se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça das couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor de rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas , isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino , deu duas voltas lá dentro fazendo parar máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca, levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o metro e meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados, e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raúl Pechisbeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bébé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guarda, ó da guarda, muitíssimo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o Fox Terrier do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex- Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a mascarilha”. Houve uma pausa. ”O rapaz assistiu a tudo isto dentro da mercearia do João Azeiteiro, atrás de um saco de feijão, atónito perante aquilo que Molero denomina o maior fogo de artifício de que há memória em matéria de pancadaria, a balbúrdia plena, o filme de trinta e uma partes em carne viva, o real que se sobrepõe ao mítico, sonhar é pouco, é entra rapaziada, é entrar, eis a maior zaragata de todos os tempos, resolvida numa só sessão e sem ser preciso comprar bilhete, sem cenários de cartão, sem trucagens, sem intervalo segue imediatamente, cabeças, pernas e braços indiscutivelmente partidos, a cara do Pé de Cabra tapada pelo sangue que lhe escorria da cabeça, o Lucas Pireza transportado para o hospital na carripana do Bigodes Piaçaba, os intestinos enfiados outra vez na barriga um pouco à pressa, os camones espalhados pela rua, as mulheres a trazerem bacias de água e toalhas para limpar os feridos, as acusações mútuas, ó camone porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets?, não foram os camones, foi o Ângelo, o Ângelo é que começou logo a enfardar, isto foi coisa dos Vai ou Racha, os Vai ou Racha e os camones juntos são a lepra e a diarreia, as lágrimas e os gemidos, Vovô Resmungas de bengala no ar a despontar à esquina ao colo do Roque Sacristão,a Mafalda capoeira a correr atrás das galinhas, o Zeca Trampa a procurar lulas e carapaus nas couves do Hipólito, o Metro e Meio a vomitar coisas de cores esquisitas, esverdeadas e lilases, o Celestino a dizer ao Peito Rente mas tu não podias foder o material a outro?, o Tonecas Arenas a pedir para o ajudarem a sair do andaime, o Joca Farpelas de casaco na mão a chamar de filho da puta para cima a toda a gente, o Gil Penteadinho à procura do dente de oiro, se virem um dente de oiro é meu, o Pimentel à porta da barbearia com meia barba por fazer e o guardanapo ao pescoço, a Gertrudes com o bebé ao colo, alternando, num tom de voz claramente diferenciado, o ó papão vai-te embora, deixa dormir o menino, com o cambada de malandros, cambada de malandros, o Raul Pechisbeque a recolher, de nariz no chão e no boné de um dos camones, pedrinhas coloridas, colares, broches e anéis, o Silva Farmacêutico a tentar tirar da boca do fox-terrier os fundilhos das calças do camone, os Moscatéis a perguntarem ao Marocas se a carvoaria era uma pista de corridas, o Marocas a coxear e a dizer foda-se, foda-se, não mexam na mota, não mexam na mota, o Tó Peneiras rua abaixo em grande velocidade agarrado à trela do Alsácia que perseguia um dos gatos da Dona Maria Bicharoco, o Ventura dos móveis a explicar a um camone que a bed estava partida, o camone a contar com os dedos os galos que tinha na cabeça, o Zeferino Torrão de Alicante a dizer que desta vez ainda tinha sido melhor do que com os ciganos, o Chinês a dizer que sim com a cabeça, o carro da policia a chegar, o Joaquim Navalhinhas a perguntar mas o que é que a policia vem fazer agora?, vem contar os mortos?, o Ângelo a por os óculos e a desaparecer, o Zuca havia de dizer mais tarde, que ele desaparecera no ar como o Mandrake, a Dona Ermelinda a devolver o sombrero do Tonecas Arenas pela janela por onde tinha entrado, o sombrero a descrever uma curva larga, planando e caindo suavemente aos pés do Dick Tracy, que era o policia à paisana lá da área, e o Dick Tracy, segundo Molero, conta quem sabe, de sombrero na mão, a perguntar a toda a gente e a ninguém: o que é que se passou?, o que é que se passou?, o que é que se passou?”»

O que diz Molero, Dinis Machado (Ed. Bertrand, pp. 32-38)

https://novaziodaonda.wordpress.com/2015/04/29/a-melhor-cena-de-pancadaria-alguma-vez-escrita/

terça-feira, 8 de março de 2016

Maria, por Urariano Mota



8 de março de 2016 - 9h21 

Dona Maria era o que era, e com isso os homens queriam dizer que ela era a pessoa física apenas, carnes. Deste modo e maneiras eles a viam: mulher – e aqui vai um gênero e universo de entendimento bárbaro -, gorda, baixinha, mas com um aspecto, ar, que não devia ser o da sua condição.

Por Urariano Mota* 

O Filho Renegado de Deus, livro de Urariano.O Filho Renegado de Deus, livro de Urariano. Viam como um contrassenso absoluto aquela pessoa, digo, aquela mulher gorda e baixa, que não se dava conta da sua espécie. Num tempo das divas glamorosas do cinema, num tempo de massacre da beleza anônima dos subúrbios, dona Maria não passava de “uma albacora”. Crua, essa palavra além da redução a um peixe, pois mulheres apenas se comiam e se tornar alimento era sua razão de ser, tal definição, difamação, amesquinhava-a numa coisa aquém do que entendiam o gênero feminino, pois era, além de mulher, gorda e baixinha, larga como as albacoras, que não eram uma dieta ideal para os comedores de carne bovina. Peixe gordo, congelado, a se comer apenas nas sextas-feiras santas, em sinal de penitência. 

É curioso, no entanto, como as mulheres vizinhas possuíam de Maria outra visão. Elas a reconheciam como uma senhora decidida, solidária e resguardada de merecer piedade. Ela rejeitava, “me repugna”, como dizia, qualquer piedade para a sua condição. Mulher brava, de coragem e de raiva. Do gênero e da forma daqueles bravos a quem os fracos não temem, porque sabem que essa bravura se dirige somente contra o injusto mais forte. Lídia, a sua jovem comadre, dela falaria na lembrança em 2012: “Ela era uma mulher bonita, de rostinho redondo, com os olhos pequeninos, muito vivos. Para mim, era uma boneca índia”. E com os olhos rasos d’água se balançava na cadeira, como a lembrar em silêncio a injustiça que atravessa a vida de mulheres como Maria, uma injustiça que também era feita contra Lídia, depois de passar por fracassados casamentos. “Dona Maria era muito bonita, com os olhos miúdos, negrinhos”, repete. E cala, e embarga a voz. “Vocês não querem sapoti? Tá fresquinho”, oferece. 

No filho de Maria dá uma brutal vontade de abraçar Lídia, de lhe dizer “eu compreendo os seus sapotis, eu compreendo a sua dor, eu sei da sua infelicidade, eu sei do que você não se queixa, do que a magoa, eu sei, amiga da minha mãe”. E mais, amarga como uma proposta e uma promessa que é uma formulação de princípio: “Eu não vou calar o seu mundo”. Ele sabe, e não diz nem a si mesmo, que revê em Lídia aquela mulher que se foi tão pletórica, vermelha, no vigor e sangue farto na altura dos seus 30 anos. Ah, é da sua natureza a reencarnação, ah, é do seu gênero, gênese e ser de transmigração, como se o espírito quisesse um novo corpo para uma vida que não foi possível. Dói nele uma dorzinha doce e fina porque Lídia não é a sua mãe, mas por ela será capaz de a ouvir e de lhe falar. Com a intensidade aguda de um violino em uma romanza, naquela, ele sabe, guardada em silêncio, naquela maldita e fina romanza número 2 em fá maior. Porque tudo então lhe recorda a senhora gorda, albacora, brava e bonita como uma bonequinha índia. Para o filho, sempre como uma mulher toda e tão só ternura. Desde 1956, passando por 1957, 1958, os anos da sua terra de felicidade, ele a guardaria nos traços e feições. Uma guarda de modo inconsciente. Era um modo retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do rosto até o pescoço, o que era um modo geral dos porta-retratos, e ao mesmo tempo, em Maria, uma exclusão, pois lhe negavam a totalidade do corpo. Ele a veria, fortalecido na lembrança por aquele retrato, como o rosto da mulher brava que era só suavidade.

Nota: Para o Dia Internacional da Mulher, recorto um trecho do romance O Filho Renegado de Deus. 

*Publicado originalmente no Diário de Pernambuco, 8 de março de 2016

http://www.vermelho.org.br/noticia/277295-11

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Jorge Reis - Matai-vos uns aos outtros




Matai-vos Uns aos Outros
"Croniqueta de província", redigida em Paris, em 1958, a narrativa é protagonizada pelo agente da judiciária António Santiago, destacado para Vila Velha para averiguar a morte de um rico proprietário, Manuel dos Santos, que morrera envenenado depois de uma ceia com dez amigos. Colhendo estratégias narrativas firmadas pelo neorrealismo, e submetendo-as à estrutura do romance policial, a narrativa é construída através da alternância e oposição entre o discurso interior do agente, em itálico, e o discurso das diversas testemunhas. Além da paródia ao intertexto bíblico, visível desde o título e corroborada com múltiplas outras alusões que invertem o sentido da mensagem evangélica ("o assassino está no meio de nós"), o romance, que tem como pano de fundo um contexto da repressão policial sobre o povo de Vila Velha, formula uma crítica à desumanização capitalista: "Ele não sabia, nem os seus pares o sabem, que são condenados à espera da morte, cadáveres em cata de sepultura!... E são-no, na medida em que a grandeza deles é feita do empobrecimento de outrem... Mas eles não o sabem, ninguém o sabe... [...] De onde vêm? Para onde vão? Não sabem. Ninguém sabe. Vivem, sem curar desvendar o sentido dos seus atos. Nada!..."
    Como referenciar: in Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-02-06 13:36:58]. Disponível na Internet: 
    Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

    JORGE REIS (1926-2005) 

    Quase por acaso percebo que os fusíveis da vida deram mais um estoiro e romperam-me uma companhia que nunca usufruí no vivo de presença física. E no entanto, a sua voz e a sua pena marcam de forma impressiva a minha formação como homem social.

    Por um lado, um velho livro - que livro! – que descarnava magistralmente as teias das cumplicidades sacanas dos “situacionistas bem instalados” na modorra do sabor do poder eterno numa qualquer cidade de província do Portugal assalazarado. A escrita era (e é) de primeira água (leiam-no agora e digam se agora se escreve melhor), o título era um panfleto (“Matai-vos uns aos outros”) e o livro, logo proibido e apreendido, era comprado por baixo do balcão naqueles livreiros que se governavam à pala das proibições da Censura.

    Depois, ainda a televisão não irrompera ou ainda era coisa de poucos e com os noticiários feitos propaganda do fascismo, era uso que a fita de cinema fosse antecedida de desenhos animados e de uma coisa que nos ligava às notícias do mundo, chamada “Actualidades Francesas”. A locução era feita por uma voz em bom português mas com sotaque especial (explicíto mas afrancesado) e uma ênfase de narração envolvente que pontualializava os altos das notícias de uma mundivivência que nos parecia vir de muito longe do nosso ruralismo pacóvio e presbítero. A voz era a do romancista de curta obra.

    Fugido da PIDE em 1949, este ribatejano de muitas e duras cepas, homem das grandes greves de 1944, ficou-se por França e marcou a nossa diáspora que ali caiu fugida á fome ou à guerra colonial. Julgo que tão agarrado ficou ao exílio, aos exilados e emigrantes, lá construindo família, que nem o 25 de Abril lhe conseguiu impor regresso à sua lezíria ribatejana onde lhe cresceram as raízes da razão, da luta e da sensibilidade.

    Com atraso - ele morreu no passado 1 de Outubro - soube da sua tão silenciosa e silenciada perda aqui. Onde também fiquei a saber que esse homem que foi meu Mestre “à distância” se chamava Atilano Jorge dos Reis Ambrósio. E onde leio essa singela e estética nota necrológica:

    “Hélène, a sua esposa, Annie e Jean-Claude, os seus filhos, Alexandra e Olivier, os seus netos, têm a profunda tristeza de anunciar a morte de Jorge Reis, escritor, jornalista, cronista, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, que faleceu em Paris, no dia 1 de Outubro de 2005. A cerimónia fúnebre decorreu no Cemitério Père-Lachaise de Paris, no dia 8 de Outubro. Que a memória de Jorge Reis continue presente no espírito dos que o conheceram.”

    Se continua presente! O seu livro é de estimação perene. A sua voz chegou-me outra vez, e do ouvido já não sai, como se fosse ele mesmo a ler, no “Actualidades Francesas”, a notícia do seu último exílio sem regresso. E eu a sentir-me sentado numa sala escura de cinema a ligar-me ao mundo, ouvindo-o, antes que a película do filme esperado comece a rodar nos carretos da maquineta que tem fama de fabricar ilusões.
    Publicado por João Tunes às 15:30

    http://agualisa6.blogs.sapo.pt/877247.html

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Paulo Moura - 1147 O tesouro de Lisboa


paulo moura

repórter à solta


1147 O tesouro de Lisboa


Introdução

Em Julho de 2006, um grupo de antropólogos da Universidade de Coimbra decidiu abrir o túmulo de D. Afonso Henriques. O objectivo era, através de recolhas de ADN, análises químicas e toxicológicas, TACs e testes por radiocarbono,  saber mais sobre a constituição física e a história do primeiro rei de Portugal.
No último momento, porém, a abertura do túmulo foi cancelada pelo Governo. Razão oficial: os investigadores não tinham obtido as necessárias autorizações. Seguiu-se um coro de queixas, acusações, declarações contraditórias, explicações confusas. Durante algumas semanas, os jornais publicaram editoriais, artigos de opinião, dossiers sobre reis, cientistas e túmulos. Depois o assunto morreu. Como se tivesse sido encerrado no próprio túmulo do rei, que não chegou a ser exumado.
Tudo isto era muito estranho e eu decidi fazer uma investigação. Entrevistei historiadores, arqueólogos e antropólogos, visitei arquivos e bibliotecas e o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde se encontra a sepultura. O que descobri foi surpreendente, embora não o possa revelar na totalidade. Fá-lo-ei quando tiver concluído a investigação e reunido todas as provas.
Para já, posso adiantar que dentro do grande túmulo de pedra existem duas urnas de madeira. Uma contém a ossada do rei. Quanto à outra, guardou em tempos os restos mortais de Mafalda, esposa de Afonso Henriques. Mas já não. Em algum momento, entre o século XV e o século XXI, o conteúdo da pequena caixa foi substituído.
Uma investigadora chegou a abrir o túmulo e a sua descoberta lançou tal pânico nas autoridades políticas, científicas e religiosas, que toda a operação foi interrompida.
Dentro da carcomida urna não havia ossos mas papéis. E antes que fossem confiscados pela Polícia ou pelo instituto governamental do património arquitectónico, a cientista, com quem eu havia mantido várias conversas, tomou uma estranha decisão: entregou à minha guarda todos os manuscritos que encontrou no túmulo.
Ignoro porque o fez, ou porque confiou em mim. Antes nunca tivesse tido essa ideia. A responsabilidade que deixou nas minhas mãos é mais pesada do que me sentia capaz de suportar. Mas a partir do momento em que me achei na posse dos manuscritos, não tive escolha. Comecei a trabalhar. Era preciso descobrir tudo sobre aqueles livros: o que dizem, quem os escreveu e quando e como foram ali parar, em que época e pela mão de quem.
Trata-se de uma dezena de livros, da autoria de um português, nascido na zona de Coimbra no início da década de 1120, chamado Raul Santo-Varão. Isto é certo. Tudo o resto é ainda um mistério.
Há no entanto indícios de que os manuscritos, ou parte deles, terão sido entregues, ainda no século XII, a D. Teotónio, fundador e prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que os terá passado a um sucessor de confiança, e este a um outro, e assim sucessivamente. Alguns documentos sugerem que, no século XIII, os livros de Raul Santo-Varão tenham estado na posse de Fernando Martins de Bulhões, mais tarde conhecido como Santo António de Lisboa, ou de Pádua, que foi estudante em Santa Cruz. Uma análise atenta de outros textos, entre os quais os “Lusíadas”, abre a possibilidade de o próprio Luís de Camões, no século XVI, ter sido o fiel depositário dos escritos de Santo Varão.
Pode datar dessa época, aliás, a sua transferência para o túmulo de Afonso Henriques, quando as ossadas foram trasladadas para a capela-mor do mosteiro, onde hoje se encontram.
Nada disto é fácil de provar, e ainda menos de explicar. Mas tudo indica que D. Teotónio criou uma corrente, que atravessou a História, para garantir a sobrevivência dos manuscritos daquele que foi seu amigo e aliado. Na origem dessa espécie de pacto, parece estar um compromisso com certas ideias revolucionárias que na altura surgiram na Europa, e a solidariedade com alguns cristãos portugueses que nasceram e viveram nas regiões ocupadas pelos muçulmanos.
Mas quem e porquê e como, ainda não sei explicar. São matérias nebulosas, a carecer de um enorme esforço de investigação.
Sabe-se que a Europa era atravessada por uma onda de fundamentalismo cristão. No tempo em que decorre a acção do manuscrito que publicamos, tinha ocorrido a primeira cruzada ao Oriente e estava a começar a segunda. Depois do apelo do papa Urbano II, em 1095, para que os cristãos corressem a libertar Jerusalém das mãos dos muçulmanos, foi a vez de Eugénio III, coadjuvado pelo Abade Bernardo de Claraval, solicitar uma segunda corrida à Terra Santa. Estávamos no ano de 1147, o mesmo em que D. Afonso Henriques, depois de conquistar Santarém aos Mouros, decidiu fazer uma segunda tentativa de tomar Lisboa.
Bernardo de Claraval era o líder mundial desse movimento fundamentalista. Andava pela Europa a pregar que fazer a guerra contra os infiéis era garantia de salvação da alma, mesmo dos criminosos e corruptos. E também que a palavra de Deus deveria ser aceite sem questões ou discussões, e que essa palavra era legitimamente veiculada pelos representantes da Igreja.
Esta ideologia altamente conservadora insurgia-se contra um racionalismo embrionário que surgia na Europa através de pensadores como Pedro Abelardo, e levou à criação da ordem de Cister, em 1090, e depois à dos Templários.
Ambas se instalaram em Portugal no tempo de Afonso Henriques, que adoptou esse fundamentalismo como religião para o novo reino. Em troca, Bernardo de Claraval convenceu os cruzados a ajudarem-no na conquista de Lisboa, e o papa a reconhecer a independência de Portugal.
Sabe-se também que esta ideologia, como lhe chamaríamos hoje, levou, durante a Reconquista, a uma política de extermínio não só de todas as populações muçulmanas, mas também das cristãs que viviam sob o domínio muçulmano. Os moçárabes, como se designavam estes cristãos, tinham misturado elementos culturais e religiosos islâmicos à sua base cristã. A sua língua e linhagem de sangue também não eram “puras”, depois de quatrocentos anos em terras mouras. Por isso se viu neles um perigo de contaminação dos cristãos “verdadeiros” e se optou pela “limpeza étnica”. O novo reino, para existir, teria de ser étnica e religiosamente puro.
Sabe-se ainda que, ao contrário dos mais altos dignitários da Igreja portucalense, D. Teotónio se insurgiu contra este extermínio dos cristãos moçárabes. E que, por essa razão, se desentendeu com a rainha, D. Mafalda.
Tudo isto é conhecido dos historiadores. O que não se sabia mas eu estou em condições de afirmar, é que D. Teotónio protagonizou várias operações, mais ou menos secretas, para tentar salvar os moçárabes. Não o tendo conseguido, empenhou-se pelo menos em que a história desse “genocídio” não fosse esquecida.
Eis uma explicação possível para o “culto” destes manuscritos. Uma espécie de sociedade “racionalista” e defensora avan-la-lettre dos direitos humanos terá, através dos séculos, conservado e por fim depositado os livros junto a Afonso Henriques, no lugar da odiada Mafalda de Sabóia, na esperança de um dia serem encontrados e lidos. Esse dia talvez tenha chegado cedo demais. Porque Raul Santo Varão conta histórias que ninguém conhecia, e que põem em questão a forma como conhecemos a História.
Mas quem era afinal este homem? Um escritor que inventou um novo género literário: a “reportagem”. Ao mesmo tempo, um espião, um agente secreto cujas missões alteraram por diversas vezes o rumo dos eventos. Um intelectual iconoclasta, adepto do racionalismo de Abelardo, de quem foi aluno, que viajou pelo mundo e escreveu relatos impressionantes dos acontecimentos que marcaram uma das épocas mais fascinantes da História: o século XII.
Alguns documentos da época mencionam Raul Santo Varão. Referem-no sempre como um homem belo e inteligente, de personalidade forte, corajoso, gentil e bem-falante. Qualidades, portanto, que talvez possuísse de facto, mas certamente aparentava. O que constitui mais uma qualidade, sem dúvida importante no seu desempenho como agente secreto.
Referem também os documentos que Santo Varão era viajado. Sabemos que, antes dos acontecimentos aqui narrados, viveu em Paris e visitou outras cidades europeias. Mas, depois de 1147, é certo que correu o mundo. Viajou com os cruzados até ao Oriente, viveu aventuras assombrosas, correu perigos, presenciou feitos momentosos, uns históricos, outros que a História desconhece.
Foi como agente secreto que em várias ocasiões se achou no centro do mundo. Conheceu protagonistas e eminências pardas, guardou segredos, desvendou mistérios. E sobre tudo isso escreveu. Livros que são documentos históricos de valor inestimável e que apenas uma pessoa, no nosso século, teve o privilégio de ler. Contrafeito mas fiel depositário do espólio de Santo Varão, tenho consciência da missão que, embora involuntariamente, assumi: divulgar, ainda que leve toda a vida a lutar contra os polícias da cultura, a obra do repórter medieval português.
O estilo das suas reportagens nem sempre é perfeito e o seu papel nos acontecimentos é quase sempre ambíguo. Mas é precisamente por isso que o que escreve é tão revelador.
Este livro, sobre a conquista de Lisboa, em que apenas actualizei alguns termos e conceitos, para que a leitura não se tornasse fastidiosa, poderia ter sido escrito hoje. Quase se poderia dizer que Raul, perfeitamente capaz de compreender a razão humana numa época futura, o escreveu para nós. E ao fazê-lo tenha acreditado que, 860 anos depois, a mesma razão humana nos fizesse compreendê-lo a ele.
Lisboa, 27 de Outubro de 2006

1

O assombro é fonte de vida. O rosto de Herveu de Glanvill, quando o navio entrou no esteiro do Tejo, tornava-se mais uma prova desse poder flagrante da realidade. Lisboa era mais bela do que tinha sonhado e esse facto reanimava-o.
A nossa era a primeira de uma frota de quase duzentas naus. A derradeira etapa da viagem não fora fácil. Uma tempestade ao largo de Peniche, onde pernoitámos pela primeira vez desde a saída do Porto, afundara três embarcações. Os esforços de salvamento não conseguiram evitar dezenas de mortos. Outra borrasca, no Golfo da Biscaia, engolira várias naus e cruzados. A confusão foi enorme, as naus perderam-se umas das outras. Só nas costas da Galiza se viriam a reencontrar, já perto do cabo Finisterra. Aí, aportaram nas margens do rio Tambre, para que homens e mulheres caminhassem 15 quilómetros e pudessem finalmente rezar em Santiago de Compostela.
Num mês de viagem, desde Darmouth, o saldo da morte quase atingia a centena. E o que é pior: ainda não tinham começado os combates, se exceptuarmos um pequeno recontro com piratas. Episódio, aliás, que ficou resolvido com a entrega de uma nau com mantimentos, mulheres e escravos.
Mas agora chegávamos à grande cidade mourisca de Lisboa e ninguém queria recordar as atribulações passadas. A expectativa era grande e ainda maiores as decisões que urgia tomar.
Permanecer ou partir? O objectivo da viagem era claro, justo e conveniente para todos. Não importava se vinham de Norfolk ou Suffolk, de Kent ou Londres, da Bretanha, Escócia, Flandres, Colónia ou do Império Germânico. A ideia era a mesma: responder ao apelo de Bernardo de Claraval e de Eugénio III, nosso Papa, para que fossem ao Oriente ajudar a recuperar as terras onde Cristo nasceu, pregou e morreu.
Mas ao escolherem a via marítima, para evitar os salteadores na Europa, Balcãs e Ásia Menor, depararam com este novo desafio: o rei de Portugal queria ajuda para conquistar Lisboa aos mouros.
Seria, argumentava D. Afonso Henriques, um feito tão glorioso como a defesa do Santo Sepulcro, já que a lendária cidade do Atlântico fora arrebatada pelos muçulmanos à Cristandade e estava a ser por eles diariamente violada havia mais de 400 anos. Por outro lado, os benefícios de uma empresa militar em Lisboa ultrapassavam as mais optimistas previsões de ganhos numa longa cruzada para Oriente. Porquê? Isso era uma segredo a revelar na devida altura. Por agora, era preciso lançar âncoras no Tejo e esperar.

2

Os mouros viram-nos chegar. Não só os sentinelas nas torres da muralha, mas também centenas de outros, cujas cabeças se alternavam em alvoroço nas ameias. Ou se esticavam nos terraços, telhados e torres. Que pensariam eles? O espectáculo dos barcos a atracar em redor da cidade não lhes devia deixar muitas dúvidas sobre as nossas intenções. Decerto não vínhamos para uma visita de amigos. Também não éramos apenas comerciantes cristãos, dos que se aproximavam dos muros para comprar âmbar e tecidos orientais. Nem simples piratas como os que regularmente atacavam as costas do reino mourisco, chegavam a fazer incursões nos seus territórios, a ocupar durante anos as suas cidades. Os piratas normandos, loiros e selvagens, que chegavam em embarcações vermelhas e recurvas, para saquear e violar. É verdade que alguns, como o viking Sigurd, filho de Bastod, rei da Noruega, tentou conquistar a cidade. Mas isso fora há 40 anos e poucos mouros agora vivos se recordavam dos combates sangrentos que levariam os lisboetas a robustecer a muralha protectora e também o seu próprio carácter, reconhecidamente negligente e até licencioso.
Seja como for, para um habitante de Al-Ashbuna, a chegada de 200 navios cristãos à base da sua muralha deveria ser algo insólito e aterrador. Pressentia-se grande agitação do lado de dentro daqueles muros. Era fácil de adivinhar que os sentinelas tivessem já avisado os seus chefes militares e estes os líderes políticos. E que em poucas horas o rumor tivesse percorrido a medina e conduzido a população à beira do pânico.
— Não me parece que estivessem à nossa espera. Talvez conste dos escritos divinos que os devamos poupar, meu caro Raul.
Sem se voltar, Herveu de Glanvill tinha sentido a minha presença.
— Dos escritos divinos só é lei para os homens o que os homens neles puderem ler — respondi, apercebendo-me logo de que não estava a usar a melhor estratégia. Porque seria?
— O teu rei fez mal em escolher um herege como emissário. A sua sorte é que o que está escrito está escrito, e nada o pode alterar. A propósito, vamos falar com ele. Não percamos mais tempo.
Não sei porquê, tive a suspeita de que Herveu, apesar de determinista confesso e reputado exegeta de sonhos, não tinha ainda conhecimento do conteúdo dos escritos divinos sobre as deliberações que iam ser tomadas. Disse-lhe:
— Amanhã. Está marcado o encontro, com D. Pedro Pitões e D. João Peculiar, no acampamento do rei, logo pela manhã. — Mas percebendo a expressão de contrariedade em Herveu, que finalmente me olhava, acrescentei: — Um grupo saiu já a terra com a missão de recolher víveres para o jantar. — E afastei-me.
Horas antes, ainda as embarcações deslizavam pelo estuário, falara com Pedro Pitões, bispo do Porto, sobre a oportunidade de visitar Afonso Henriques mal chegássemos a Lisboa. A reunião com o rei era de suma importância, lembrara D. Pedro, que sobre o assunto já conferenciara com o seu colega bispo de Braga, João Peculiar. Negócios cruciais para o futuro de Portugal e da Cristandade aí seriam tratados, pelo que era preciso agir com toda a prudência. A discórdia entre os vários líderes estrangeiros era profunda, como diversos eram os interesses em causa. Conseguir um acordo era tarefa quase impossível, um passo em falso deitaria tudo a perder. Seria necessário usar toda a argúcia, toda a subtileza diplomática de que fôssemos capazes, e escolher o momento propício. Esse era sem dúvida o dia seguinte, 29 de Junho, domingo de São Pedro. Todas as igrejas do mundo cristão recordariam, com missas e cânticos, o martírio de São Pedro e São Paulo, onze séculos antes, na Roma de Nero. As naus e os acampamentos cristãos às portas da Lisboa muçulmana não seriam excepção, o que contagiaria aos duros líderes militares um espírito mais piedoso. Tudo isto aconselhava, ponderaram os bispos, a que a reunião ficasse para o dia seguinte.

 3

Ao jantar houve convidados. Como o dia era de festa, por se ter cumprido uma etapa tão importante do percurso, Herveu chamou para o nosso barco os outros condestáveis ingleses, Sahério de Archelles, Simão de Dover e André de Toron, e os respectivos séquitos de guerreiros, padres e mulheres.
As tropas dos portugueses, que se encontravam há mais de oito dias acampadas à volta de Lisboa, tinham-se encarregado de atacar e assaltar os pequenos arrabaldes mouros, cujas populações foram obrigadas a refugiar-se no interior das muralhas da cidade, abandonando aos soldados cristãos casas, gado, reservas de cereais e outros mantimentos.
Era portanto um período de grandes fartura e euforia e, para impressionar os senhores vindos do Norte, Afonso Henriques mandara desde logo entregar grandes quantidades de carne e vinho.
Desde a partida de Darmouth que os guerreiros de Cristo não eram assim tratados. Tudo parecia montado para os desencorajar de seguir viagem. Para lhes mostrar que Lisboa era, nos meses seguintes, a missão que lhes estava reservada, a Jerusalém que tinham obrigação de libertar.
Foi servido o manjar, na nau, como se fosse num palácio. Arranjou-se uma mesa e um bancal de fino tecido árabe, sobre o qual, como provocação, foi colocado, em grandes terrinas, um guisado de carne de porco. Mas antes houvera sopa de peixe do Tejo (o rio que os habitantes da região garantem possuir dois terços de água para um terço de peixe) e assado de caça — garça e galeirão, temperados com um molho de azeite, coentros e salsa. Para emitir um claro sinal de opulência e poder, Herveu intercedeu pessoalmente junto dos cozinheiros para que não fossem servidos legumes ou hortaliças. Também as cerejas e pêssegos foram banidas, por ordem expressa de Venâncio de Suffolk, o médico privativo de Sahério de Archelles, que classificou essas frutas como “viandas húmidas”, portanto muito nocivas à saúde.
O vinho, esse, corria sem restrições, e cedo começou a algazarra entre os comensais, mas mal as primeiras vitualhas foram colocadas sobre as grandes rodelas de pão, um homenzinho de barriga proeminente e melenas a pingar sobre o olho esquerdo bateu as palmas.
— Atenção! Vamos proceder às verificações científicas. Ninguém toca na comida — era Venâncio que gritava, agitando na mão a sua maleta de bizarros instrumentos.
Debruçou-se sobre uma escudela onde um criado vertera a sopa de Sahério e mergulhou nela a sua alfaia mais eficaz, um fio de ouro com dois pingentes, de ágata e pedra-serpentina.  Se as pedras mudassem de cor, significaria que algum ingrediente nefasto fora acrescentado à sopa. Se desatassem a sangrar seria prova evidente de que o caldo tinha um veneno mortal. Como a serpentina escorresse apenas sopa e não sangue, o alimento estava aprovado. Mas não era tudo. Em confirmação, Venâncio mexeu o líquido cinzento com um chifre de unicórnio. Agora sim. O repasto podia começar.
D. Pedro e D. João entreolharam-se. De quem teria Sahério tanto medo? Não dos árabes, decerto. A esses teria sido praticamente impossível infiltrar algum agente para envenenar a comida, que vinha directamente das hostes portuguesas.
— A prudência é uma qualidade muitas vezes negligenciada num cavaleiro — começou D. João, sem olhar directamente para Sahério. Mas foi ele quem respondeu, fixando nos olhos o Peculiar.
— Porém sempre apreciada num rei! — Mergulhou as mãos num gomil de prata que lhe estendera um serviçal, limpou-as à toalha. — Será porventura o mais ímpio merecedor de maiores benesses? A verdade, caro arcebispo, é que são preocupantes os rumores que nos chegaram. Em consequência dos sábios argumentos por vós apresentados no nosso primeiro encontro, no Porto, estudávamos precisamente o mérito espiritual dos nossos actos. Quais deles seriam mais susceptíveis de agradar a Deus. Por outras palavras, se Lisboa, tão longe de Jerusalém, estaria para nós mais próxima da Jerusalém Celeste.
— E repare que nessa contabilidade não entram recompensas materiais — acrescentou Herveu de Glanvill, seguro de que os prelados portugueses sabiam perfeitamente do que se estava a falar. E tinha razão. Também aos ouvidos de Pitões e Peculiar haviam chegado os boatos de que ao grupo dos flamengos tinham sido prometidas alvíssaras especiais. Tanto quanto sabiam, não tinha havido nenhuma reunião secreta com o chefe dos flamengos, Cristiano de Gistell. Mas era essa a informação que corria nas naus e acampamentos à volta de Lisboa. Herveu falava com uma agressividade alto teatral, como que a lançar um teste a Pitões e Peculiar:
— Um rei digno desse título não tenta angariar aliados espalhando a animosidade e a desconfiança no seu seio.
Os bispos calaram-se, vexados com aquelas insinuações, e Herveu continuou:
— Pela nossa parte, sentimo-nos honrados por não termos sido objecto de ofertas extraordinárias. E agradecidos a Afonso Henriques por confiar na nossa devoção, que, por si só, nos motivaria a ajudá-lo. Já com outros preferiu jogar pelo seguro…
Incitado pelo desafio retórico, D. Pedro começou a preparar uma resposta à altura da ironia de Herveu, mas a barulheira à mesa era cada vez mais ensurdecedora e desencorajava a conversa.
Foram servidas as carnes e já ninguém, excepto Sahério, reparava em Venâncio, que andava de terrina em terrina a mergulhar no molho um dente de escorpião pendurado num castão de prata.
Sahério, cuja renitência às propostas do rei português era sobejamente conhecida, não tocava em nada antes do veredicto do médico. Apesar da protecção de todos os seus amuletos, tinha razões para temer que a ganância levasse Cristiano a atentar contra a sua vida. Sahério era conhecido e invejado pela sua colecção de relíquias, entre as quais uma lasca da cruz de Cristo e um dedo de São Bartolomeu, um pêlo da barba de São Paulino e um dente já podre do beato Isidoro.
Para o resto dos convivas, a simples chegada a Lisboa era motivo de celebração. Beberam e cantaram pela tarde dentro e, a certa altura, um grupo levantou-se, com a intenção de ir espairecer para terra firme. Herveu e Sahério opuseram-se. Era cedo para saber que perigos os espreitariam nas imediações da muralha. Todas as acções teriam de ser bem planeadas e concertadas. Mas os homens estavam excitados e afoitos. De certa forma, acusavam os efeitos da incerteza e desorientação que dominavam os seus chefes. Desobedeceram e saíram.
Chegada a hora das sobremesas, os portugueses decidiram mostrar aos guerreiros da Europa do Norte alguma da doçura do novo país. Todos saborearam a especialidade da terra, compota de talos de alface, não antes, é claro, de o médico ter nela empapado o lingueiro de onde pendiam três línguas mortas de serpente.

  4

Caía a noite e o grupo de uns 50 ingleses veio deleitar-se com a brisa da praia. Caminharam alguns metros, sem se afastarem da nave, aferrada na parte oriental do esteiro do rio. Para além do berreiro que provinha das naus, não se ouvia nada. Os mouros, era como se não existissem.
Ganhando confiança, os homens avançaram um pouco mais na areia, aproximaram-se de duas casas abandonadas. Não parecia haver qualquer perigo e, além do mais, estavam bem armados, alguns de loriga e capacete, uns com espada, outros com lança. Inspeccionaram as casas e um quintal com figueiras, mas já tudo fora pilhado.
— Sahério tem razão — disse um dos homens. — Os portugueses não vão deixar nada para ninguém.
— Isso é o que se vai ver — disse outro. — Por mim, ficava por aqui. Ocupava uma dessas quintas, arrecadava um bom quinhão de ouro e de órfãs…
Exploraram o casario do arrabalde abandonado, comeram alguns figos e uvas, dispersaram-se um pouco pelas hortas que foram viçosas e bem tratadas até à razia dos selvagens portugueses. Era fácil imaginá-lo, como era fácil pensar que tudo aquilo já lhes pertencia, e que os muçulmanos afinal não existiam, ou só esperavam a oportunidade de fugir para as suas terras inóspitas e diabólicas.
De súbito, um dos ingleses viu algo mover-se entre os arbustos. Fez sinal aos outros, aproximaram-se sem ruído. Era um mouro. Observaram-no, com alguma dificuldade, na penumbra. O rapaz, de túnica branca a contrastar com a tez muito escura, afastara-se de um grupo que caminhava apressadamente ao longo da muralha, para se embrenhar entre uns arbustos. Chegou muito próximo do local onde os ingleses espreitavam, imóveis, sem respirar, e parou. De repente desapareceu.
Então o inglês que o avistara primeiro voltou-se para os companheiros. A sua cara estava a rebentar de riso.
— O que foi? — Os outros não tinham percebido nada, impacientavam-se. — Onde se meteu o  cabrão do sarraceno? De que ris?
— Eles mijam como as mulheres!
— O quê? — Agora todos queriam ver. Empurraram-se, atropelaram-se, quase denunciando a sua presença, mas o mouro já se tinha levantado e juntado aos amigos.
— Viste aquilo?
— Não. O quê? Estás a troçar de nós?
— Ele mijava assim… — o inglês acocorou-se imitando o muçulmano.
— Vamos atrás deles!
— Vamos!
E a trupe correu atrás dos mouros, que não seriam mais de quatro ou cinco. Atravessaram a fina língua de areia no local onde a muralha quase toca a água do rio, seguiram até às proximidades de uma primeira torre, já do lado ocidental da cidade. Quase alcançaram os fugitivos, que entretanto tinham desatado a correr, soltando estranhos gritos, na língua deles. Mas ao dobrar a esquina da torre, um grande portão de madeira e ferro abre-se subitamente. Os mouros fugidiços somem-se para o interior da almedina, mas eis que do acesso a que, saberíamos depois, os lisbonenses chamavam Porta do Ferro, salta uma caterva de mouros armados até aos dentes.
Os ingleses levam as mãos às espadas, recompõem-se rapidamente da surpresa, dão luta feroz aos pagãos. Mas eles são muitos, e não param de sair. O portalhão só se fecha quando mais de uma centena está cá fora, em ensurdecedora berraria, manejando os sabres com destreza. Os ingleses organizam-se, assumem posições tácticas, impedindo que os inimigos fechem o assédio à sua volta. Mas a inferioridade numérica, o cansaço e a ligeira embriaguez levam-nos de vencida. Recuam. Desorientam-se. Combatem com bravura mas vão cedendo, e torna-se evidente que, se continuarem, serão chacinados. Os mouros empurram-nos até à língua de areia junto à chamada Porta do Mar, e aí ficam ao alcance da vista dos companheiros que, nas naus, já tinham sido alertados pelo chinfrim da escaramuça, e assomavam à popa.
Furioso, Sahério de Archelles empunha a espada e, com um pequeno grupo de combatentes, desembarca. Vendo isso, Herveu de Glanvill considera que não pode ficar para trás e, com uma equipa de homens corajosos, na qual me incluo, vai também ajudar os companheiros.
A peleja depressa muda de figura. Organizados pelos condestáveis, os ingleses passam ao ataque. Os infiéis apercebem-se da alteração de forças e fogem. Perseguimo-los ao longo dos muros, enquanto uma pequena unidade se adianta para lhes barrar a passagem na Porta do Ferro. Eles continuam a correr como desalmados e acabam, em grande sarapatel, por se introduzir na cidade por um passadouro mais a norte, a Porta da Alfofa.
Os cristãos ajoelharam-se para agradecer a Deus a sua primeira vitória, mas não houve ensejo para festejar. Sahério e Herveu não disseram nada, mas todos compreenderam que eles estavam desgostosos. Mesmo sem ter decidido se ficavam para ajudar o rei português, já tinham sido obrigados a combater. Agora os infiéis haviam recebido o sinal, e começariam a preparar-se. Não tardariam em responder. As hostilidades estavam desencadeadas. Um cavaleiro não ataca quando não tenciona fazer a guerra.
Sahério e Herveu olharam para os seus homens, que estavam cabisbaixos, envergonhados. Que fazer agora?
Sahério conversou em surdina com Herveu, e depois declarou:
— Um cavaleiro não abandona o terreno, depois de vencer uma batalha. Ocupa-o, para mostrar que não tem medo e que não combateu em vão.
E perante a incredulidade dos soldados, mandou-os ir aos barcos buscar tendas. A maioria foi e não voltou. Os mais fiéis regressaram com o que era necessário para pernoitar ali: tendas, comida, archotes e armas. Sahério guiou-nos até um monte mais próximo da muralha do que um tiro de lança. E ficámos. Trinta e nove homens, numa vigília desafiadora. Era noite de São Pedro, um capelão disse missa. Em redor, viam-se as luzes de Lisboa, das naus e do acampamento de D. Afonso Henriques. Herveu não dormiu e eu também não. Conversámos muito. Ele contou-me os seus sonhos e visões, eu falei-lhe das minhas aventuras. A noite foi longa e ficámos amigos. 
~ http://blogues.publico.pt/reporterasolta/1147-o-tesouro-de-lisboa/