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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Verdade Histórica - Alves de Fraga

A Verdade Histórica
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Correm já na Internet duas cartas abertas, uma, da autoria do Coronel reformado Manuel Bernardo e dirigida ao Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa e, outra, assinada pelo Coronel Sousa e Castro em resposta ao primeiro.
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Manuel Bernardo é um oficial com quem me cruzei uma ou duas vezes na vida e que, por conseguinte, mal conheço – fiquei a saber que, no 25 de Abril de 1974, foi saneado embora desconheça como foi reintegrado antes do 25 de Novembro de 1975 (uma vez que afirma ter sido frequentador assíduo do gabinete de Jaime Neves, no Regimento de Comandos). Ao que sei, tem publicados, pelo menos, dois livros sobre a época conturbada do pós-Revolução de 25 de Abril. Pelo que dele li, é marcadamente um homem que se identifica com a direita política; às vezes, pressente-se-lhe, até, uma ponta de ódio pela Revolução levada a efeito na madrugada de 25 de Abril de 1974.
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Por que razão escreve Manuel Bernardo uma carta aberta ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa? Pelo simples motivo de este ter prefaciado o livro do Coronel Sousa e Castro, dando, deste modo, cobertura às afirmações do autor. Nessa epístola aberta, Manuel Bernardo para além de confundir a realidade distorce-a, descontextualizando afirmações de Sousa e Castro.
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Para quem como eu faz História, através da busca constante da verdade, estas polémicas são interessantes, mas perigosas, porque dão cores diversas aos factos passados.
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Tanto Sousa e Castro como Manuel Bernardo lutam por verdades que julgam “verdadeiras”, mas fazem-no a partir da sua “trincheira”, do seu posto de observação e com as “lentes dos binóculos” que antecipadamente escolheram.
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A verdade histórica, aquela que vai interessar aos historiadores e que irá ser tomada como a síntese possível de se fazer, não resulta dos testemunhos de Sousa e Castro, de Otelo Saraiva de Carvalho, de Vasco Lourenço, de Pires Veloso ou de outros que deixaram para os vindouros as suas interpretações. Eles foram meros “soldados” na “batalha” que ocorreu; uns mais bem colocados do que outros, mas todos tiveram uma visão “rasteira” da verdade. Esta, se de facto, foi alguma vez completamente apreendida, esteve nas mãos dos “generais” e esses não a confessaram.
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Os grandes condutores de todo o processo foram Álvaro Cunhal, Costa Gomes e, em posição muito mais baixa, Mário Soares. Os dois primeiros nunca revelaram tudo o que souberam nem todos os mecanismos que movimentaram. O terceiro escapa-se a deixar dito o que realmente sabe da “grande intriga” internacional.

Ainda está por divulgar todo o alcance do pensamento e do comportamento político do grande obreiro da Democracia em Portugal: Costa Gomes. Foi nas mãos dele e pelas mãos dele que passaram as rédeas do Poder, as rédeas que conduziram o “cavalo à solta” que foi todo o PREC.
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Álvaro Cunhal foi o motor de uma mudança. Uma mudança que ia para onde?
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São muitos os que defendem que iria para o comunismo, mas dizem-no por facciosismo, falta de informação ou mero mimetismo político. O mais que se sabe é que ia para a democracia. Mas que democracia? Esta? A Outra? Ou a que se vive na Madeira, por exemplo?
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Quem é que, de facto, coordenou o PREC? Washington ou Moscovo? Porque os estrategistas do Processo Revolucionário em Curso (PREC) estavam fora de Portugal, só os “generais” poderiam responder. E não se pense que Vasco Gonçalves era um “general”; ele, como todos os outros, incluindo Mário Soares, foi um “soldado” melhor colocado.
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A verdade há-de ser encontrada quando se cruzarem informações dispersas, documentos perdidos e não é o Coronel Manuel Bernardo nem o Sousa e Castro que são detentores de verdades absolutas. Até, porque, em História, não há verdades absolutas!    
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Coronel Luís Alves de Fraga
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PortugalClub - seg 28-12-2009 00:03
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Jaime Neves recusou essa missão, por a considerar demasiado perigosa

 Jaime Neves recusou essa missão, por a considerar demasiado perigosa



Caro Sousa e Castro,



O homem (com h bem pequenino) tinha de voltar a atacar.

E, mais uma vez, me envolve nas suas diatribes, invenções, aldrabices e quejandos.

Faz-me rir (apesar do assunto ser sério) a nova calúnia que me dirige (desta vez, juntando-me a ti) quando afirma que “(…) pode ser imputada a estes dois militares a inveja de não terem conseguido atingir o almejado posto de general, apesar de o terem tentado mais do que uma vez, enquanto membros do Conselho da Revolução, ou quando este órgão político-militar foi extinto”.

Tu já lhe respondeste.

Por mim, lembro que estive graduado em oficial general (Novembro de 1975 a Agosto de 1976, brigadeiro; de Agosto de 1976 a Abril de 1978, general) durante dois anos e meio, desempenhando o cargo de comandante da RML e governador militar de Lisboa, em condições difíceis e com resultados que muito contribuíram para o orgulho pessoal que tenho do meu currículo. Acção essa a que, diga-se de passagem – como já te disse na crítica que fiz ao teu livro – prestas pouca atenção nesse mesmo livro. O que não invalida, como te referi, que, em termos globais, tenha gostado do mesmo. Lembro ainda que é por demais conhecido publicamente (tu estavas lá e participaste activamente nisso) que, quando terminou o Conselho da Revolução e me quiseram promover a brigadeiro, recusei liminarmente tal hipótese.

Como voltei a recusar, há pouco tempo, quando me sondaram para ser usado como “moeda de troca” na inqualificável promoção do Jaime Neves a general!

Acredita que vou fazendo esforços inauditos para não reagir “à bruta” às atitudes da criatura em causa.

Junto em anexo o texto que escrevi sobre esse “rapaz”, quando me mimoseou com as suas diatribes, aquando da publicação de “Do Interior da Revolução”. Aí poderás ver, se ainda não conhecias o texto, o que penso do mesmo.

Quanto à carta aberta que o homenzinho escreveu a Marcelo Rebelo de Sousa (ainda não percebi a tua escolha…) já lhe respondeste… e bem, ainda que em tom bastante moderado. Como usas bastante a ironia, corres o risco de, a começar por ele, haver quem não perceba. Muitas vezes, é necessário usar a velha máxima do “clarinho, clarinho, para militar perceber”…!

O facto de te estares quase a iniciar nestas contendas, ainda te dá paciência que, confesso, já me falta!

No texto em causa, continua a utilizar o seu método preferido: coloca na boca de outros aquilo que quer afirmar. Desta vez, serve-se do Manuel Monge, que nós conhecemos bem e que às vezes faz afirmações que só vistas…! Agora, foi sobre a descolonização. Aqui, por ele, insiste em vomitar e repetir slogans que, por acreditar que “uma mentira muito repetida se transforma em verdade”, não deixa de praticar.

E lá volta a envolver-me no ataque ao Carlos Fabião que, como homem e como militar, foi um gigante ao lado de pigmeus da laia do autor destes ataques.

Quanto ao Jaime Neves, junto também (convém lembrar e reunir dados) o artigo que sobre a sua recente promoção escrevi em O Referencial.

Talvez fosse bom contactar a Maria Tavares, actriz do grupo de “Os Malucos do Riso”, e tentar obter esclarecimentos sobre a noite de 24 para 25 de Abril de 1974. É que parece que ela estará em condições de fazer luz sobre a actuação dele nessa noite.

No que se refere ao cartaz do PPD no gabinete do comandante do Regimento de Comandos, posso confirmar que, após o 25 de Novembro, esse partido político fez um cartaz que foi distribuído profusamente nesse regimento, onde enaltecia a acção dos Comandos no 25 de Novembro.

Cartaz esse que me obrigou a ter uma firme atitude, proibindo os mesmos nas instalações da unidade e alertando para as novas tentativas de instrumentalização que se estavam a verificar dos partidos políticos para com os militares. Se se consultarem os documentos de então, pode ver-se a minha intervenção na unidade quando da visita que, como comandante da RML, aí realizei nessa altura.

Como não poderia deixar de ser, repete os argumentos que inventaram para a sua condecoração com a Torre Espada. Já desmontei isso no artigo de O Referencial, afirmo agora que não é o facto de o Presidente da República o ter condecorado que faz dele merecedor desse acto. Aliás, é por demais conhecida a forma como alguns “heróis” obtiveram as condecorações que ostentam… Nem o texto que justifica essa condecoração se torna “Lei”, só porque foi assinado pelo mesmo Presidente da República… Então, quando baseia essa condecoração na “(…) participação decisiva nas acções militares que conduziram à restauração da democracia em Portugal e à sua intransigente defesa, nomeadamente pela sua actuação no 16 de Março (?), 25 de Abril (?) e 25 de Novembro (…)” estamos conversados…!

No que se refere aos elogios do Presidente da República de então (lembro que era o general Costa Gomes), ainda há pouco revi a gravação dos mesmos, quando ele se dirigiu aos Comandos, na visita que fez à unidade em 29 de Novembro de 1975 e realçou o papel desempenhado pelos Comandos e pelos seus comandantes, nomeadamente Jaime Neves. Relembro: “Sob o ponto de vista estritamente militar tenho que vos declarar que todas as acções em que vos empenhastes foram executadas de uma forma superior e isso deve-se aos vossos comandantes, como também à vossa instrução, à vossa determinação e também à técnica que os Comandos adquiriam ao longo da sua vida!”

Para quem te acusa de omissões…

Como lhes faz jeito a foto do Eduardo Gageiro, onde se vê o Jaime Noves a regressar da conversa que teve com o Pato Anselmo! E tens razão: quem forçou a rendição deste foi o Cunha e Brito (primo do Edmundo Pedro) que deixara há pouco de ser capitão miliciano, por passagem à disponibilidade…

Quanto à tomada da DGS na António Maria Cardoso, confirmo que o Otelo afirma que “O Jaime Neves recusou essa missão, por a considerar demasiado perigosa”. Valha-nos, ao menos, que neste caso se recusou previamente a aceitar essa missão…!

Um pequeno comentário às afirmações reproduzidas, do Marcelo Rebelo de Sousa, sobre legitimidades revolucionárias e democráticas, só para realçar outra “omissão” do MB, neste caso, o facto de a legitimidade democrática ter decidido prolongar a legitimidade revolucionária, instituindo o período de transição, na própria Constituição da República aprovada em 2 de Abril de 1976.

Mas aqui, voltamos à velha “justificação” de que foram as condições existentes que os “obrigaram” a isso!

Como se isso não fosse “o pão-nosso de cada dia”…

Quanto às omissões que te apontam, acontece contigo o mesmo que comigo: não compreendem que não pretendemos fazer a história do 25 de Abril, mas tão-só contar a nossa experiência… Ainda que, como te referi na crítica ao teu livro, “há omissões e omissões”.

Mas as acusações que o “rapaz” te faz deram para descobrir que houve grandes actores no processo do 25 de Abril, como o Mariz Fernandes, o José Pais e o Lobato Faria… Vá lá, junta-lhe o Hugo dos Santos, o que deve constituir uma ofensa para este.



Caro Rodrigo,



Podes usar esta carta como entenderes, sendo certo que a irei juntar à tua resposta ao MB (a propósito, junto também uma declaração do Alfredo Assunção sobre este assunto), na difusão que, como me pediste, irei fazer da mesma.



Um abraço amigo Vasco Lourenço
PortugalClub - ter 05-01-2010 18:40
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Carta Aberta ao meu camarada Manuel Bernardo - Rodrigo de Sousa e Castro

Carta Aberta ao meu camarada Manuel Bernardo

            Rodrigo de Sousa e Castro

Caro camarada,


Não o conheço pessoalmente, sigo todavia a sua intermitente intervenção política, sob forma escrita, a propósito dos acontecimentos que vivemos há cerca de três décadas.


Nunca emiti publicamente qualquer juízo de valor acerca das suas opiniões políticas e outras, apesar de em relação a algumas delas discordar profundamente. Que me recorde, apenas por uma vez me interessei pela sua pessoa, perguntando  ao nosso camarada Vasco Lourenço por si. Foi-me então dito que o camarada tinha sido um dos raros oficiais, de patente abaixo de tenente-coronel, saneados na sequência do 25 de Abril. A conversa ficou por aí.


Inicio por isso esta missiva, partindo da seguinte convicção: o camarada foi provavelmente alvo de uma injustiça, da parte de militares que como eu se empenharam na Revolução Libertadora, e que não lhe reconheceram na altura a sua hoje proclamada adesão aos valores da Democracia, Liberdade e Pluralismo. Apesar da probabilidade de termos errado, é absolutamente certo que se indícios houvesse, por ínfimos que fossem, de que se tinha empenhado no derrube da ditadura, tal acto não se verificaria. Creio que não negará esta evidência e aceitará que ela balize, desde já, esta minha resposta. 


Em relação aos acontecimentos anteriores a 25 de Abril de 1974, nos quais estive razoavelmente envolvido, não encontro de si registo significativo em nenhum deles. Em relação ao 16 de Março de 1974 e ao 11 de Março de 1975, no que vai ficar para a História, não reza qualquer intervenção significativa da sua parte. Fiquei agora a saber que os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974 o perturbaram significativamente.


Afirma que desde “finais de 1974 a fins de 1975, praticamente passava todos os dias no gabinete do Coronel Jaime Neves…”. Tal facto, por si só, permite concluir que o camarada foi um dos mais destacados oficiais que fizeram a contenção do aventureirismo esquerdista de Novembro de 75, integrando ou o grupo político dos moderados ou o seu grupo militar de apoio. No mínimo, terá sido um conselheiro privilegiado do comandante dos Comandos da Amadora. Não posso por isso de deixar de o felicitar pela discrição, quando apela ao reconhecimento público da acção de grandes revolucionários e democratas esquecidos, como Mariz Fernandes, José Pais, Lobato Faria e outros, renunciando a enunciar a sua própria acção. Considero-o pois, desde já, um “ certo capitão” de Novembro. Consideração que constitui a outra baliza da minha resposta.


Apesar de a sua carta constituir, no essencial, um enunciado caótico de acusações, relatos falsos de factos historicamente provados e juízos de valor de discutível pertinência, não posso deixar de o felicitar por sair à liça em defesa de Jaime Neves o que não deixa de ser um são acto de camaradagem.

E comecemos por aqui. Acusa-me de utilizar a técnica da omissão. Todavia, nas citações que faz do meu livro, descontextualizando-as demagogicamente, afirma-se afinal perito nessa técnica. Por exemplo quando me cita sobre o que digo em relação a Jaime Neves: “… em 25 de Novembro, emerge impante como comandante da força aríete. Eanes fará dele, publicamente, o herói do momento e da circunstância…”, porque é que o camarada não continua a citação? Vou então eu fazê-lo: “… Jaime Neves, numa estranha manifestação de gratidão, responder-lhe-á com o apoio indefectível a Soares Carneiro durante as Presidenciais de 1980, corroborando o coro de ataques e insultos ao seu comandante de Outono de 1975”. Leu agora bem o que eu escrevi, camarada? Existe um dito popular para qualificar aquela atitude de Jaime Neves, o povo diz que é “ morder a mão do dono” !


Apenas um outro exemplo da sua, essa sim, descarada “técnica” de descontextualização e omissão. Quando digo, convictamente, que Jaime Neves é um zero à esquerda do ponto de vista político faço-o no quadro da seguinte afirmação: “Era realmente um homem extraordinariamente valoroso em termos de combate, decidido, mas politicamente um zero à esquerda”. Diferente, não é camarada? Tão diferente que arrisco-me a dizer que poucos, dos que conhecem Jaime Neves, no Exército Português e fora dele, não corroborarão tal afirmação, por certeira e justa.


Vejamos agora outras questões que levanta na sua carta:


1.    Em 28 de Setembro, como relato no meu livro, estou em Cascais a comandar a Bateria de Instrução, com a consciência que era um oficial para quem todo o quartel olhava naquela conjuntura difícil. Estava ainda com Otelo e contra Spínola e não hesitei um segundo. Devo lembrar-lhe que Jaime Neves estava com Otelo e que por essa altura, em jeito de “bravata”, afirmava que liquidando uns quantos fascistas resolvia a situação. Era ainda a lua de mel com Otelo... 
     
2.    Anoto também a opinião que reproduz de Manuel Monge sobre a descolonização, alinhando, aliás, no coro insensato e desleal de atribuirmos aos nossos camaradas sejam eles conotados com a direita ou com a esquerda  responsabilidades politicas primeiras e quase exclusivas, em tal processo, quando, para além de Spínola e do Conselho de Estado da altura - onde pontificavam ilustres apoiantes de Spinola e personalidades como Freitas do Amaral - foram Mário Soares e Almeida Santos os protagonistas do essencial da política de descolonização.  Mário Soares, “porta-voz” da Internacional  Socialista, Ministro dos Negócios Estrangeiros no I,II e III Governos Provisórios, o período decisivo da descolonização. O mesmo Mário Soares que sempre protegeu alguns militares (e só esses), como Pires Veloso, Jaime Neves e outros, incluindo  Manuel Monge, a quem por fim o Partido Socialista veio a fazer Governador Civil. Neste particular aspecto (o da descolonização) vou lembrar ao camarada o que ficará para a história: Rosa Coutinho sai de Angola quando é assinado, livremente, o acordo de Alvor entre os três movimentos angolanos, que estavam à altura em absoluto pé de igualdade. Mário Soares era à época Ministro dos Negócios Estrangeiros e continuará a sê-lo até Março seguinte. Interessante, não é? Pois  é camarada, para algumas pessoas, nem as evidências históricas, nem o tempo que aconselha à reflexão, conseguem atalhar o facciosismo. 
     
3.    Denuncio o saneamento político de Rosa Coutinho tal como denunciaria o seu, se tivesse elementos para isso (julgo até que pela sua eventual iniquidade terão bastante paralelismo). Faço uma mera apreciação política, discutível por certo, sobre a  actuação daquele militar em Angola, donde regressou, aliás, muito antes da data da independência, como se deve recordar; 
     
4.    Foram os militares moderados do Conselho da Revolução que autorizaram e impuseram o recrutamento das companhias de comandos, e a quem mais poderiam recorrer senão a ex-comandos e à própria Associação de Comandos?
     
5.    A sugestão de que eu me moveria por interesses de promoções cai pela base no momento em que me recusei a admitir sequer a hipótese de ser graduado para comandar a Região Militar Norte em substituição de Corvacho, tal como desejavam muitos camaradas nossos da RMN. Sobre questões desse género peço meças a todos os nossos camaradas; 
     
6.    Passei à reserva, apesar de alguns ilustres artilheiros terem insistido na minha continuação no activo, e dediquei-me a negócios privados, partindo do zero e trabalhando no duro para atingir o nível de vida que hoje felizmente usufruo. Talvez a imagem de um ex-conselheiro da Revolução, que nada pediu e nada obteve da dita, carregando caixotes de mercadoria, ora em carrinhas,  pelas estradas de Portugal, ora aos ombros abastecendo lojas da região de Lisboa, - “sem lhe caírem os parentes na lama”-, o pudesse levar a reflectir sobre a arrogante dimensão do seu sectarismo. 
     
7.    A tropa , os políticos e a Pátria nada me devem e pago-lhes integralmente na mesma moeda: eis o meu passaporte de homem livre e livre pensador, capaz de criticar e fazer auto-crítica. Eis porque caminho de cabeça levantada.

Por outro lado, algumas inexactidões da sua carta são tão flagrantes que não me dispenso de o corrigir:


      1.    Quem prendeu Pato Anselmo e o neutralizou foi um cidadão CIVIL, de seu nome Brito e Cunha, armado com uma pistola que lhe foi cedida na altura por Salgueiro Maia, após Jaime Neves, nesse dia com visível azar, ter “fracassado” também nessa missão. Este é um facto histórico, por muito que nós militares o não o evidenciemos ou o neguemos mesmo.
      2.    Jaime Neves NÃO chegou antes de Salgueiro Maia ao Terreiro do Paço, mas sim depois, e após ter anunciado a Otelo no Posto de Comando as razões dos seus “fracassos” naquela madrugada;
      3.    O coronel Costa Campos nunca esteve no Terreiro do Paço. Refere-se certamente ao coronel Correia de Campos, oficial superior enviado para o Terreiro do Paço, a pedido expresso de Salgueiro Maia;
      4.    NUNCA trabalhei com Inês de Medeiros, que aliás não conheço pessoalmente, sendo absolutamente critico em relação à caricatura de filme que produziu, pretensamente sobre o 25 de Abril. Francamente, camarada, não sei onde raio poderá ter ido buscar tal ideia!!!

Quanto às inusitadas considerações sobre o acto cívico de Marcelo Rebelo de Sousa dispenso-me de as comentar, mas não posso terminar sem lhe fazer uma pergunta. Depois de ter lido (e leu com toda a certeza) o livro do brigadeiro Pires Veloso,  e de ter constatado os insultos que aquele nosso camarada profere em relação ao homem e ao militar que é Ramalho Eanes, não lhe ocorreu na altura escrever uma carta aberta ao Bispo Emérito de Setúbal D. Manuel Martins, apresentador do livro, ou a Mário Soares autor do prefácio?

 Pois não, não lhe ocorreu.  É pena…      Do camarada   Rodrigo de Sousa e Castro

sábado, 23 de agosto de 2008

25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (33) - Afinal onde pára o mandante?


Humberto Delgado
Sobre a Morte de Humberto Delgado

A intenção de Salazar era eliminar-me!

Mário Soares, in Visão de 14-8-2008

Lá coerente é o Mário

E um génio em casmurrice:

Nunca diz hoje o contrário

Das asneiras que ontem disse

José Caniné, in “O Diabo” 2007

Com o seu ego cada vez maior, pois a idade não perdoa, Mário Soares a propósito de contar histórias de há 40 anos, quando foi mandado para S. Tomé e Príncipe, em Março de 1968, para uma situação de exílio, pelo regime de Salazar, veio recentemente fazer afirmações de tentativa de homicídio de sua pessoa por parte deste político, que nem ele, nem nenhum O.C.S. tinha aludido anteriormente. Isto acontece quando vários autores têm vindo recentemente a pôr em causa a versão socialista e da esquerda em geral, de ter sido Salazar o mandante da morte do General Humberto Delgado.

Em Fevereiro deste ano, Manuel Braz (In “Salazar; a Cadeira do Poder”; p 143) afirmava que “ alguns comentadores e historiadores condescendem em admitir que a execução de Delgado por um comando da PIDE, chefiado pelo inspector Rosa Casaco, terá sido praticada por iniciativa deste ou de um dos agentes que comandava, à margem das instruções recebidas”; referia, logo a seguir, que tal seria de rejeitar, face às relações anteriores de Salazar com a PIDE. Acrescentava ainda que a deportação de Mário Soares para S. Tomé, tinha origem no “seu silenciamento e impedir a sua acção na descoberta da verdade da morte de Delgado, por ser advogado da sua família.”

Também outro autor, Miguel Nunes Ramalho (In “Opressão Salazarista e a Força da Liberdade …”/2007, p. 214), voltara a repetir a requentada tese da esquerda, mas sem qualquer base científica apresentada, afirmando que (…) dissimulado numa humildade seráfica, Salazar possuía uma forma hábil de lidar com os opositores, escolhendo-lhes o destino. Para Aristides de Sousa Mendes prepararia uma morte lenta; em relação a Humberto Delgado, ordenou à PIDE que o assassinasse. (…)

Entretanto em Abril de 2008 (In Humberto Delgado; Biografia do General Sem Medo”; pp.1125/1126), o neto do General, Frederico Delgado Rosa, que fez uma aprofundada investigação sobre a sua vida e obra…, veio referir que a “Operação Outono”, da PIDE, com diligências e infiltrações feitas durante muitos meses (desde Paris e Roma), se traduzia em fazer-lhe uma cilada na zona da fronteira de Badajoz, com o objectivo de o prender e trazê-lo para Portugal, onde “responderia pelos crimes de terrorismo de que era acusado”.

E mais à frente, este investigador, apesar de ser adepto da tese do “agrément tácito” de Salazar à execução de Delgado pela PIDE, vem curiosamente referir o seguinte:

(…) Não encontramos razões para rejeitar os depoimentos que, a esse respeito, Fernando Silva Pais (Director Geral da PIDE) viria a prestar em Justiça após o 25 de Abril, os quais permitem reconstituir textualmente a maneira como inteirou Salazar naquele mês de Fevereiro de 1965:

“- Senhor Presidente, dizem-me os meus homens que o General não compareceu ao encontro. Mas estão convencidos que ele esteve em Badajoz, onde certamente encontrou um grupo de correligionários ou pretensos correligionários. Terá havido distúrbios graves, eventualmente com cenas de tiros, dado o feitio do General, que vossa Excelência bem conhece. É esta a opinião da brigada, com a qual eu concordo inteiramente. Suponho que tão cedo não se ouvirá falar no General Delgado.”

Ainda segundo o testemunho de Silva Pais, Salazar “não pediu mais esclarecimentos”, nem deu “quaisquer instruções”. Até por isso mesmo, o Director da PIDE “ficou convencido de que o Presidente do Conselho percebeu que aquilo que ele imputava a um falso grupo se passara com a brigada da PIDE.” Em suma, o silêncio de sepulcro era a palavra do ditador. Impunha-se a esperança que de Espanha não viesse maus ventos, pelo que Silva Pais achou por bem dizer – de forma menos velada – ao ministro do Interior, Alfredo dos Santos Júnior, “que os corpos tinham ficado lá e que nunca mais apareceriam.”

Recorde-se que Silva Pais, apreensivo sobre a maneira como Salazar reagiria, esteve vários dias sem o contactar para lhe comunicar o ocorrido. Terá sido Rosa Casaco, homem da confiança do Presidente do Conselho a dar-lhe antes a notícia, como se refere a seguir.

Indícios para outra versão

O Professor Diogo Freitas do Amaral, no prefácio do livro de Felícia Cabrita, Os Amores de Salazar.(2006), já referira que segundo “o testemunho de Ivone Perestrelo Cavaco, parece-me corresponder à verdade que a PIDE matou Humberto Delgado, mas sem prévio conhecimento ou autorização de Salazar. Aliás, se este fosse pessoa para mandar matar os inimigos mais perigosos do Regime, tê-lo-ia feito com muito mais forte razão relativamente a Álvaro Cunhal”.

E mais à frente neste livro, a autora destaca o seguinte (pp. 170, 171):

(…) A 13 de Fevereiro de 1965, Humberto Delgado aparece morto em Villanueva del Fresno, nos arredores de Olivença. O regime reagia na sua forma mais brutal: assassinara o “general sem medo”. Maria da Conceição e Salazar passeiam nos jardins de S. Bento, quando António Rosa Casaco, o homem da secreta, que chefiava o comando criminoso, dá a notícia. Ivone Perestrelo Cavaco, nora de Julinha Etelvina, ouviu-a muitas vezes contar o episódio. Salazar perturbado, deita as mãos à cabeça e pergunta: “Mas foi um dos seus correligionários?” O outro, que sim. Maria da Conceição (Santana Marques), que há muito o tentara convencer a testar a abertura no regime, fica chocada. Mas nada a faria afastar dele.

Sobre este tema, merece destaque o depoimento do inspector da PIDE, Rosa Casaco. Em livro publicado, (“Servi a Pátria e Acreditei no Regime /2003, pp 144/145) afirma o seguinte:

“ (…) Se está mais do que provado que Humberto Delgado e Arajarir Campos foram assassinados por agentes da PIDE (poderia ter acrescentado “a que eu assisti…”) e se está igualmente provado que houve premeditação, resta esclarecer o móbil do crime. Se atentarmos nos factos relatados, verificamos que, por um lado, se assiste a uma preparação minuciosa ao longo de muitos meses, em que pouco ou nada foi deixado ao acaso, e que, por outro, deparamos com um claríssimo curto-circuito nas ordens da missão, o que, para além de levantar inúmeras interrogações, conduziu a um desenlace trágico, atabalhoado e altamente comprometedor para a PIDE. Por consequência, existia uma forte motivação para eliminar o general e a sua amante, que este duplo assassínio concretizaria, deixando deliberadamente pistas incriminatórias, que no tempo seriam descobertas, como o foram.

“Esta conclusão é, em meu entender, meridianamente clara, uma vez ponderados todos os factos apresentados, que poderão ser confirmados pela leitura da documentação disponível sobre o assunto. Resta pois esclarecer a quem aproveitaria o crime.

“Se é certo que foi tomada a decisão de eliminar fisicamente o general Delgado, eu, até à presente data, nunca consegui saber se a morte do general foi ordenada: (destaque, a negro, destas palavras feito por Rosa Casaco)

*pelo triunvirato da PIDE (Silva Pais, Barbieri Cardoso e Pereira de Carvalho);

*por algum dos seus membros isoladamente;

*se foi obra de iniciativa pessoal de Casimiro Monteiro, sem para tal estar mandatado;

*ou se terá agido a mando de terceiros, a troco de dinheiro, porque era um homem sempre em dificuldades financeiras e muito perigoso com uma arma na mão, embora fosse um patriota convicto e exaltado.

“Qualquer destas teses é admissível, mas, a meu ver, de demonstração impossível. Também nunca cheguei a saber porque é que o chefe de brigada Tienza era portador de uma pistola com silenciador e porque razão transportava material pouco ortodoxo na bagageira do carro (garrafão, saco de cal, pá e picareta, visto por ele, à passagem da fronteira).

“E porque actuara aparentemente de parceria com o Casimiro Monteiro.

“Perante estas conclusões, e as limitações do meu conhecimento profundo sobre o assunto, nada mais poderei esclarecer, considerando que se mantém e manterá um mistério no seu âmago. Posso afirmar, sem sombra para dúvidas, que o caso começou de livre iniciativa de um ou mais elementos da direcção da PIDE e terminou no Casimiro Monteiro.”

Analisando a versão de Rosa Casaco

Face aos antecedentes conhecidos e o sucedido posteriormente, estou inclinado para a 2.ª hipótese da análise de Rosa Casaco (ordenada por um dirigente isoladamente). Segundos os indícios que colhi, quer quando estive no Tribunal Militar, quer em contactos com elementos da PIDE, presos conjuntamente com o Major Silva Pais, a ordem para a sua eliminação não terá partido deste director, pois na prisão de Caxias, depois do 25 de Abril até cortou relações com Pereira de Carvalho por esse motivo. Terá concluído que este estaria por dentro da ordem de execução. Lembro que, em declarações publicadas, o Inspector Óscar Cardoso (In Bruno dos Santos. Histórias Secretas da PIDE-DGS/2000 ) avançaria com a ideia da ligação deste dirigente à CIA, falando inclusivé na sua boa situação económica, que não estaria de acordo com o que recebia na organização.

Contra a tese de Casimiro Monteiro ter apenas actuado por sua iniciativa pessoal, estará a verificação de ele ter entrado na PIDE cerca de um mês e meio antes do atentado, logo com a categoria de subinspector, e de (conforme também afirma Rosa Casaco) ter sido transferido para Moçambique, com essa categoria e onde ficou a trabalhar nos Serviços Reservados (recorde-se a sua participação no atentado bombista, que vitimou Eduardo Mondlane, da FRELIMO, em Fevereiro de 1969). Daqui fugiu para a África do Sul, no pós-25 de Abril, onde serviu nos serviços secretos deste país.

Também Ernesto Lopes Ramos foi transferido para Luanda e promovido a inspector. Mais tarde saiu da PIDE a seu pedido, tendo ficado como advogado em Luanda. A este indivíduo, depois de ser preso e transferido para Lisboa, a seguir ao 25 de Abril, acusado de participação no crime do homicídio do General H. Delgado, ser-lhe-ia dada a fuga para o Brasil, onde ainda deve residir. É que, entre outras razões, a versão da esquerda de ter sido Salazar a mandar matar o General não devia ser posta em causa… A morte de Fernando Onetto (que segundo constou na época teria sido envenenado num bar nocturno lisboeta), quando investigava o mesmo tema junto dos elementos da PIDE detidos, terá igualmente a ver com este assunto.

Assim, na minha opinião, Rosa Casaco, talvez esteja mais próximo do realmente sucedido do que aquilo que está subjacente aos factos dados como provados pelo 2.º Tribunal Militar na sua sentença de 27-7-1981 (validada depois pelo Supremo Tribunal Militar), já que apresentou uma versão mais convincente que aquela. Da decisão judicial, contestada pela família de Humberto Delgado, consta a não condenação de Rosa Casaco, e dos dirigentes da PIDE pelo homicídio de Humberto Delgado: Silva Pais, Barbieri Cardoso e Pereira de Carvalho. Destes, apenas os dois últimos seriam condenados respectivamente por autoria moral de crimes de falsificação de documentos e por pertencer à PIDE, já que entretanto ocorrera o falecimento de Silva Pais e o seu procedimento criminal seria extinto. Rosa Casaco foi condenado em oito anos e um mês, por ser apenas autor moral de quatro crimes de falsificação de documentos e autor material de dois crimes de falsificação de selo.

Convém realçar que não será com juízos de intenção, como os de Mário Soares em relação a si próprio e ao caso em apreço, mas apenas através de investigação séria e desapaixonada que se poderá chegar próximo da verdade histórica sobre o homicídio do General Humberto Delgado. Os repórteres de investigação que ainda existem na Imprensa portuguesa terão neste campo uma boa área de actuação..., em relação a um caso mal esclarecido como este.

C

Coor. Manuel Amaro Bernardo

Agosto de 2008

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in PortugalClub

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Contra ventos e marés ....

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25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (5)
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General Silva Cardoso (1)

do livro: "Memórias da Revolução" de: Manuel Amaro Bernardo

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P: Com a admiração que tinha pelo Almirante Rosa Coutinho, apenas terá ficado esclarecido sobre as suas intenções, lá para Outubro ou Novembro de 1974, depois da sua actuação em benefício do MPLA...

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R: De facto, quando ocorreram certos factos, como as prisões de vários oficiais e a ordem para se atacar a sede da FNLA e que o Altino Magalhães não cumpriu, após ouvir a opinião do Coronel Correia Dinis, dos Comandos, foi, com uma certa desilusão, que comecei a ver, no Rosa Coutinho, um homem diferente, reconhecendo a razão dos que tanto o atacavam.

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No caso do ataque à sede da FNLA, em Luanda, ele sabia que eu estava em Kinshasa, com o Mobutu e o Holden Roberto. Tinha viajado num avião da FAP e eles disseram, para não reter o aparelho, que se encarregariam, depois, do meu regresso a Luanda. Ingenuamente, concordei, ficando nas suas mãos. Nessa mesma noite, a delegação da FNLA, em Luanda, fez um comunicado, em que desfaziam o Rosa Coutinho e a administração portuguesa, pelas suas intenções de entregar Angola ao MPLA. A reacção do almirante foi de querer rechaçar a FNLA em Luanda, ocupando, pela força, a sua delegação. Ignorou que eu estava em poder da FNLA e estes retiveram-me em Kinshasa, até saberem o que iria suceder na capital angolana. Só quando o Altino Magalhães, depois de falar com o Coronel Dinis, se negou a executar a ordem, é que ele recuou. Foi, nessa altura, que o General Altino deu aquela resposta: Não cumpro a ordem e agora o problema é do senhor! Então, conferenciou com o seu Estado Maior pessoal e retirou a ordem. Se esta tem sido cumprida, não sei se estaria aqui, hoje, para contar este episódio, em que o amor-próprio se pode sobrepor, talvez, à vida de um camarada.

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P: Um aspecto que Pezarat Correia refere no seu livro A Descolonização de Angola foi o sucedido com o Coronel Alcino Roque. Este era um militar com prestígio em Angola e aquele oficial refere que o Brigadeiro Silva Cardoso se lhe dirigiu, dizendo, com triunfalismo, que já tinha substituído o Roque no gabinete do MFA. Isto é verdade?

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R: É completamente falso. O Roque saiu por sua iniciativa e por livre vontade. Sou seu amigo pessoal e tenho por ele uma grande admiração. Conversámos longamente sobre o assunto e compreendi a sua decisão. Afinal, durante catorze anos dera o seu melhor a uma causa em que acreditava, como tantos outros e, de repente, sentiu-se como que traído, não podendo continuar a destruir o seu sonho. Saiu porque quis e não por qualquer pressão que eu tenha exercido.

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A Revolta de Cabinda

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P: Pode descrever o sucedido no Sector de Cabinda, na altura comandado pelo então Brigadeiro Themudo Barata ?

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R: Isso foi tudo muito complexo. O que ocorreu poderá inserir-se numa tentativa de reabilitar as FAPLA, as forças militares do MPLA. Como já referi, este tinha sido militarmente derrotado. Eu estava muito bem informado, pois tinha saído de Angola, em Setembro de 1973 e, como o responsável pelas informações da Zona Militar Leste(2), tinha referido, nessa altura e naquela área, apenas existiam umas escassas duas dezenas de guerrilheiros armados, dispersos por aquela imensidão, sem comando e em retirada(3).

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Na 1.ª Região Político-Militar, perto de Luanda, que foi sempre o Quartel General do MPLA, na noite de 25 de Abril, estava, no Quijoão, uma pequena equipa das nossas Forças Armadas, que se tinha deslocado numa simples viatura ligeira e pernoitava numa das fazendas abandonadas existentes na área. A razão da sua deslocação era proceder à auscultação das populações locais sobre as suas carências mais urgentes, a fim de serem convenientemente apoiadas. Isto só era possível, porque não existia, na zona, o mais pequeno sinal de resistência do MPLA.

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Além disso, apenas havia um pequeno grupo armado, no Congo Brazaville, junto à fronteira de Cabinda, e que constituía, na prática, todo o potencial militar do MPLA, aquando do 25 de Abril.

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Segundo o acordo de cessar-fogo, as forças do MPLA, como as dos outros movimentos, deviam ficar no local onde se encontravam na altura, até ao dia da independência. Então, o MPLA, que tinha sido totalmente batido no terreno, necessitava de ser reabilitado...

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P: Plano esse fomentado por Rosa Coutinho e Pezarat Correia...

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R: Sim. E executado em estreita colaboração com os responsáveis do MPLA. Como é sabido, as populações africanas, levadas por um forte sentido de defesa, aderem à força, como forma de protecção. Foi assim que elas vieram até nós. Conquistámos o povo de Angola, porque eles aderiram à nossa força. A tentativa ou a necessidade de reabilitar as FAPLA, inseria-se neste estado de espírito ou simples sobrevivência das populações.

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Então, houve uma tentativa do sr. Ndozi, comandante daquele grupo armado do MPLA, no Congo, de se instalar na cidade de Cabinda. Aliás, já tinha tentado, por várias vezes, junto do Brigadeiro Themudo Barata, que fosse autorizado a instalar a sua força, em Cabinda.

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P: Mas havia algum acordo anterior ?

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R: Havia o acordo do cessar-fogo, que fora feito, (4) tendo ficado estipulado, como, aliás, com todos os outros movimentos, de que as forças militares ficariam onde se encontravam, à data da assinatura do acordo e até à independência, como referi. Diga-se a verdade, que ninguém cumpriu.

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P: O que aconteceu depois?

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R: Quando aquele chefe do MPLA pressionou o Brigadeiro Themudo Barata, este pôs o problema ao Rosa Coutinho, tendo o Presidente da Junta Governativa sugerido para ele dar um jeito. Então, o Comandante do Sector de Cabinda disse que só acediria ao pedido do Ndozi, com uma ordem, por escrito, do Comandante-Chefe, que não teve lugar.

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Aquele indivíduo desapareceu de Cabinda, constando-se que seguira secretamente para Luanda, onde permaneceu quatro ou cinco dias, durante os quais, com a conivência do Rosa Coutinho e elementos da Coordenadora do MFA, cozinharam o plano para conseguirem o fim em vista.

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O Ndozi voltou para Cabinda e, no dia seguinte, ocorreu aquela invasão da cidade, com a colaboração de alguns elementos das nossas tropas.(5) Lembro-me de um Capitão Faria, que liderou o pessoal militar português. Este oficial, conjuntamente com pessoal do MPLA, prendeu todos os oficiais do Comando do Sector, cerca de catorze, incluindo o Comandante, Brigadeiro Themudo Barata. Também fazia parte, desse Comando, o Hermínio Martinho, entidade bem conhecida nos meios políticos.

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A Junta teve conhecimento desta situação porque, entretanto, foram cortadas todas as comunicações com Cabinda, restando, apenas, as do Comando Naval com a Capitania do porto local. O Almirante Rosa Coutinho deslocou-se pessoalmente a esse Comando, de Luanda, para contactar com os revoltosos e, no regresso, informou a Junta da situação e que eles apenas aceitavam dialogar com o Presidente da República.

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Não compreendi aquela posição, demasiado ultrajante para as nossas forças e, muito menos, a aparente aceitação por alguns membros da Junta, em especial, o seu Presidente. Nós, que detínhamos o poder em Angola, ficarmos de braços cruzados perante esta abominável afronta às Forças Armadas Portuguesas, era absolutamente impensável e insustentável.

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Depois de ouvir toda a discussão gerada em torno do problema, sem que se tivesse chegado a qualquer conclusão ou linha de acção para resolver a inqualificável situação, informei da minha disponibilidade para me deslocar, de imediato, a Cabinda e acabar com aquela vergonha. Olharam-me com espanto e disseram mesmo que eu era louco. Louco ou não, estava determinado e apenas pedi que não dissessem nada para lá, sobre a minha deslocação, a fim de ter a pista desimpedida e poder aterrar em segurança.

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P: Foi sozinho ?

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R: Não tinha qualquer intenção de levar fosse quem fosse, para além dos restantes tripulantes do avião. Porém, à última hora, decidiram que dois elementos da Coordenadora do MFA, o Major Pezarat Correia e o 1.º Tenente Soares Rodrigues, me acompanhariam. Não pus objecções e, cerca de duas a três horas depois, aterrámos em Cabinda.

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Pedi ao alferes da Força Aérea, responsável pelo aerodrómo, que me arranjasse um jeep com condutor, para me levar para a cidade, tendo ele retorquido que era impossível, visto a estrada estar com inúmeras barragens, feitas por guerrilheiros do MPLA. Não dei importância às indicações deste militar e decidi viajar desarmado, acompanhado pelos outros dois oficiais, que não tiveram a mínima interferência. Passado algum tempo, uma patrulha, com elementos do MPLA armados até aos dentes, mandou-nos parar e disseram algo que não percebi. Retorqui, em tom enérgico, que era oficial da Força Aérea e membro da Junta Governativa e me dirigia para a cidade. Não houve qualquer reacção e a estrada foi desobstruída, o mesmo acontecendo uns quilómetros, mais à frente. Sem outros incidentes de relevo, acabámos por chegar junto do edifício, em cujo 1.º andar, funcionava o Comando do Sector.

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O panorama era desolador: soldados portugueses sentados por toda a parte, ou vagueando com ar apático pelo largo, pareciam estar à margem de tudo quanto ali ocorria, enquanto guerrilheiros do MPLA, bem armados, se dispunham em frente do edifício e ao longo da escadaria, que conduzia ao primeiro andar. Sem hesitações, subi as escadas, não tendo havido a mínima obstrução. No topo destas, apareceu o Capitão Faria, a quem perguntei: Onde está o vosso Comandante, Brigadeiro Themudo Barata? Resposta dele: Está ali numa sala, guardado por homens do MPLA armados. Tive uma breve conversa com este oficial e dei ordens para todos os militares do MPLA, dentro e fora do edifício, desaparecessem imediatamente. A ordem foi cumprida de imediato e eu entrei na pequena sala onde se amontoavam os nossos camaradas que, naturalmente, saíram em total liberdade.

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Depois, decorreram uma série de reuniões, tendo-se chegado à conclusão de que não havia condições para estes oficiais continuarem a exercer funções de comando, em Cabinda. Assim, tinha o seu epílogo o estratagema idealizado para possibilitar a reabilitação das FAPLA, que não mais saíram da cidade, porque o novo comandante de Sector, Coronel Cardoso Fontão, colaborou com o Presidente da Junta e seus correlegionários.

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P: Nessa altura não houve uma actuação do Capitão Teixeira Gil, dos Comandos, com uma companhia ?

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R: Não houve qualquer intervenção de Comandos, em Cabinda. Ainda nessa noite, partimos para Luanda com o apoio de um avião Nord Atlas, porquanto não era possível trazê-los todos, no PV-2, que eu tinha utilizado.

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P: O novo comandante de Sector era, também, do MFA local.

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R: Não me recordo. Apenas não tenho dúvidas de que todos estavam em sintonia ...

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P: Soube algo sobre a conversa do General Spínola com o Presidente Mobutu do Zaire, na Ilha do Sal ?

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R: Recordo o encontro, mas não tenho qualquer ideia do teor das conversações que tiveram lugar.

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Negociando o cessar-fogo com a FNLA

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P: Ainda em 1974, chegou a ter contactos com os países limítrofes?

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R: Estive, por três vezes, em Kinshasa, para encontros ao mais alto nível. Na primeira, acompanhado pelo então Major Barata, fui encontrar-me com o Holden Roberto e o Jonhy Eduardo, no Palácio de Mobutu. Mal recebidos, após uma viagem bastante atribulada, esse deslocamento acabou por ser positivo, depois de ter posto, de uma forma bem clara, as nossas intenções sobre o processo de descolonização de Angola. Também tive vários contactos com o Savimbi, nas matas do Leste de Angola e no Zaire. Devo salientar que nunca me foi facilitado qualquer encontro com o Agostinho Neto.

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P: Qual era a opinião do Holden Roberto sobre as vossas propostas?

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R: Ele estava confiante. Mas tudo isto partia de uma base errada, pois, pelo que observava diariamente no terreno, o processo não parecia ser viável. Logo que foi assinado o cessar-fogo com os três movimentos, passei a convidar, como membro da Junta, os responsáveis das delegações dos movimentos para almoços informais, na Messe da Força Aérea. Através destes contactos, passei a ter uma ideia mais clara das suas intenções, algumas bastantes preocupantes.

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P: Quando assinaram o cessar-fogo, entraram em Luanda ...

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R: Efectivamente, cada um dos movimentos estabeleceu a sua delegação, em Luanda, dispondo de forças de segurança próprias, que nunca deixaram de crescer duma forma incontrolável e que acabariam por estar na base dos violentos confrontos armados, que tiveram lugar na cidade e nos arredores.

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P: Dos contactos privados com os responsáveis dos movimentos o que é que apurou, em concreto ?

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P: Da UNITA conheci um jovem (22 anos) Wilson dos Santos, que se fazia acompanhar pelo Capitão Sabino, sendo, depois, um elemento importante em toda aquela problemática, pelas relações fáceis que tinha com os outros dois movimentos e estar aberto a todas as sugestões para uma transição pacífica para a independência. Algo imaturo e desconhecedor da realidade angolana, era bem intencionado.

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Da FNLA contactava com o Vaal Neto e o Barreiros, Chefe do Estado Maior do ELNA (Forças Armadas da FNLA), em Luanda, que se mostraram prontos a colaborar, mas lembrando, sempre, a sua acção durante a guerra e o seu actual poderio militar. O Comandante Barreiros, que seria um mau soldado no Exército, num determinado dia e já com uns copos, dizia-me: O Barreiros, em menos de um ano, também será general e estará na Fortaleza de Luanda, como Comandante-Chefe das Forças Armadas Angolanas. Perante tal afirmação, era mais do que evidente que a FNLA se preparava para tomar o poder pela força, contando, para tal, com o apoio do Zaire, que também não escondiam.

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Do MPLA, tive, como interlocutores, Lúcio Lara e Lopo do Nascimento, que sempre se mostraram bastante reservados, não revelando qualquer linha de acção, mas preferindo conhecer as nossas intenções. Acabei por me aperceber da estreita colaboração que havia entre este movimento e o MFA e da grande aversão que sentiam em relação à FNLA, sendo impensável qualquer espécie de entendimento entre ambos, pelo que a luta armada pelo poder, seria inevitável.

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A FRA e as tropelias de Rosa Coutinho

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P: Desculpe, mas gostava que apreciasse um outro aspecto do sucedido, ainda em 1974. Aqueles brancos, que lá se encontravam, envolveram-se em certos movimentos, como a FRA. Qual foi a actuação desta Frente ?

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R: Não chegou a ter actuação significativa e credível. Foram criados imensos movimentos, em especial no papel, houve imensas intenções... e também o descrédito nas nossas instituições, já que os brancos foram completamente ignorados. Eles, que tinham feito Angola e dado o seu melhor àquela terra, ficaram marginalizados e algumas vezes sujeitos a violências físicas e morais.

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P: Principalmente depois da chegada de Rosa Coutinho a Luanda ...

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R: Antes dessa altura, pouco ou nada de significativo aconteceu nesse campo. A intenção de entregar Angola ao MPLA, condicionou todo o processo aos interesses inerentes e neutralizou tudo o que pudesse afectar este propósito, por detrás do qual, estava a União Soviética.

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P: Antes disse que a URSS tinha deixado de apoiar o MPLA...

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R: O apoio, nestas condições, tinha uma outra amplitude e incluía vectores que, durante a guerra, não poderiam ser considerados, tal como a estreita colaboração do MFA.

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P: Teve conhecimento de que chegou a haver entrega de brancos ao MPLA e encarcerados nas suas prisões ?

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R: Sim. Prisões havia todos os dias, a todas as horas. Brancos, pretos, mestiços...

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P: Também feitas por fuzileiros portugueses...como foi o caso do marido de uma senhora grávida, entregue nos cárceres do MPLA, que o General Altino Magalhães impôs, ao Rosa Coutinho, a sua libertação e, dias depois, apareceu nu na estrada do aeroporto...(6)

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R: Lembro-me perfeitamente disso. Havia prisões arbitrárias e quase todos os dias desapareciam pessoas.

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P: Havia indivíduos que nunca mais apareciam ?

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R: Claro. Incluindo brancos. Quem fazia isso com mais frequência era o MPLA, embora a FNLA e até a UNITA não estejam isentas de culpas nesse campo.

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P: As entregas de presos efectuadas por fuzileiros e marinheiros, ligados ao Rosa Coutinho, eram feitas ao MPLA ?

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R: Não tenho essa ideia, pelo menos numa escala significativa. Pode ter havido um caso ou outro, mas não era a norma. Aliás, eram casos sempre conduzidos nos chamados segredos dos Deuses.

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Quando ocorriam incidentes, de certa envergadura, procurava-se resolver a questão com as delegações dos três movimentos, que eram chamadas ao Palácio. Recordo perfeitamente, das precauções que havia a tomar, para que os representantes do MPLA e da FNLA não se encontrassem, nem nos bastidores. Sentia-se um ódio visceral entre aquelas duas organizações...

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P: E antes das delegações estarem instaladas em Luanda ?

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R: Elementos, ligados ao MPLA, eram uma presença quase sistemática. Sempre que aparecia algum mais importante, o Rosa Coutinho dizia: Esses vão aparecendo aos poucos. Dizia-o com uma grande satisfação, traduzindo o desejo de ver o MPLA com uma estrutura, cada vez mais forte. Quanto aos outros movimentos e nesse período, raramente apareciam ou eram solicitados a tal.

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P: Nessa altura, ainda não havia cessar-fogo em Angola. Continuavam a decorrer operações de guerra, no terreno...

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O cessar-fogo com o MPLA e o relançar da UNITA

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R: O cessar-fogo, com a UNITA, foi assinado logo após o 25 de Abril, tendo-se deslocado, ao Leste, o Pezarat Correia e o Passos Ramos, hoje oficial general. Na altura, este movimento estava a ser objecto de acções militares, na minha opinião, erradamente, não tendo havido qualquer dificuldade em estabelecer este cessar-fogo.

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Com o MPLA, a guerra tinha terminado havia algum tempo, por este movimento se ter totalmente desmembrado, política e militarmente.

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Com a FNLA, prosseguia a intercepção das colunas e abastecimento aos seus santuários nos Dembos, que acabaram com todo o seu poder ou força, no interior de Angola. O cessar-fogo foi conseguido, após negociações conduzidas a partir de Nóqui e assinado no iate do Presidente Mobutu. A delegação portuguesa era presidida pelo General Fontes Pereira de Melo, que se deslocara de Lisboa, para o efeito, e incluía também o Leonel Cardoso e outros elementos das nossas Forças Armadas, não pertencentes à Coordenadora do MFA.(7)

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P: E o cessar-fogo com o MPLA ?

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R: Com esse movimento, não tinha, praticamente, quaisquer contactos. Tudo se passava com o Rosa Coutinho e com o seu staff pessoal, sendo acordado por eles, sem o meu conhecimento. Só recordo que, num determinado dia, cheguei ao aeroporto de Luanda, procedente de Lisboa e notei um movimento pouco habitual naquela área. Indagando da sua razão, informaram-me de que iriam partir três aviões para a zona libertada do Leste, a fim de se assinar o cessar-fogo com o MPLA. (8) Fiquei estupefacto e disse para comigo: Tudo foi planeado nas minhas costas e chamam zona libertada do Leste a uma área, onde o MPLA foi batido em toda a linha! E vamos sujeitar-nos a uma coisa destas ?. Nada havia a fazer e o plano, para entregar Angola ao MPLA, prosseguia os seus trâmites.

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Ao acordo com a FNLA tinha-se dado uma grande projecção, por sua exigência ou de Mobutu. Agora, com o MPLA, o cenário era o mesmo, tendente a projectá-lo, tanto interna como externamente.

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P: Qual foi a constituição da delegação desse último encontro ?

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R: Não me recordo, mas com certeza, os elementos da Junta, em Luanda, a Coordenadora do MFA e toda a Comunicação Social. Como disse atrás, utilizaram-se três aviões. Diria, talvez, uma centena de pessoas.

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P: Eles ainda tinham actuações no terreno, contra nós ?

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R: Como já referi, o MPLA estava completamente desconjuntado.(9) Tudo aquilo foi montado apenas para efeitos propagandísticos, o que também tinha sido evidente com a FNLA mas, neste caso, por exigência deles. Como considerava a UNITA uma peça fundamental neste processo, pela necessidade de existir uma espécie de amortecedor das tensões, mais que claras, entre os outros movimentos, pensei em dar também uma certa projecção a esta organização, promovendo um encontro da Junta Governativa com o Savimbi, na presença da Comunicação Social. Considerava esta projecção essencial para o processo de descolonização de Angola.

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P: Isso não passou de intenção ?

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R: Não. Após uma longa conversa com o Rosa Coutinho, este acabou por aceitar encontrar-se com Savimbi, indicando, como únicos locais, o Luso ou a Base Aérea de Henrique de Carvalho. De imediato marquei um encontro com aquele líder guerrilheiro mas, na véspera, surgiram-me febres altas e o médico, Dr. Carlos Pinto, não autorizava a minha ida, no dia seguinte, até ao Leste. Após apresentar as razões imperiosas da minha deslocação, acedeu, com a condição de me acompanhar...

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Como habitualmente, fomos de avião até ao Luso e, depois, de helicóptero para o meio da chana, donde, após cerca de dez minutos a pé, lá chegámos ao local acordado, bem no seio da mata... Pouco depois chegou o Savimbi, acompanhado de um conselheiro e, posto a par da razão do nosso encontro, disse-me ser impossível a realização dessa conversa já no próximo Domingo, visto estar a decorrer o congresso do partido, que se prolongava até essa data.

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Retorqui-lhe, com firmeza: Tomar uma posição dessas, quando se pretende dar projecção ao seu movimento, que pouco significado tem e nem sequer é reconhecido pela OUA... Portanto, se quer fazer parte do processo, arranje as coisas como entender, mas tem que comparecer a este encontro!. Depois de muita conversa, acabou por concordar: Vou ter que obter autorização dos congressistas e não pode ser no Luso, nem em Henrique de Carvalho, mas, aqui, em Cangumbe. Era um simples apeadeiro do Caminho de Ferro, desactivado e com as casas em ruínas.

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Lá convenci o Rosa Coutinho de que, por causa do congresso em curso, tínhamos de mudar de local e, no dia seguinte, seguimos todos para Cangumbe. (10) Tinha-se combinado o encontro para as 9H00. Eram 11H00, quando o Savimbi chegou com uma comitiva e uma escolta fortemente armada, pois tinham marchado a pé, desde as 01H00, altura em que conseguira convencer os seus congressistas. Foi a partir daí que, em termos de opinião pública, a UNITA se projectou e ganhou dimensão interna e externa.

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P: Existe uma teoria, abordada em alguns livros, de que o General Spínola pretendia demitir o Rosa Coutinho e substituí-lo por Altino Magalhães, no 28 de Setembro. Qual é o seu comentário ?

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R: Não tem o mínimo fundamento. Até o General Spínola teria consciência de que, naquela altura, era impossível destituir o Rosa Coutinho, não só porque tinha o apoio de todo o MFA mas, também, porque a missão que o levara a Angola, ainda não tinha sido cumprida.

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Manipulação dos catangueses e perseguições do MFA

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P: Considera que tenha havido uma tentativa do Coronel Costa Campos de aliciar os catangueses ?

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R: Não tenho qualquer ideia de que tal tenha ocorrido. Houve muita coisa, pouco clara, em torno dos catangueses, mas essa não me constou.

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P: Teve conhecimento dos mandados de captura contra o secretário geral do PDCA, Dr. Ferronha e do director do Província de Angola, Dr. Rui de Freitas ?

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R: Houve esses e muitos outros mandados de captura, determinados por conjunturas não devidamente esclarecidas e cozinhadas pelo Presidente da Junta, MFA e, quase certo, o MPLA. Qualquer indício de actividade, que se pudesse opor ou dificultar a estratégia delineada, era, desta forma, neutralizada. O mesmo se viria a passar com os próprios militares.

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P: Uma questão que deve ter abordado com Mobutu, nas suas deslocações a Kinshasa, foi a problemática dos catangueses...

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R: Essa era uma das grandes preocupações e, daí, a sua intenção de procurar pôr, à frente de Angola, a FNLA e, assim, garantir a sua neutralização. Com a finalidade de o tranquilizar fui a Kinshasa, levando como intérprete o Dr. Jorge Campinos, tendo sido dadas garantias de que, enquanto vigorasse a admnistração portuguesa, os catangueses jamais intentariam qualquer acção contra o Zaire.

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P: No pós 25 de Abril, qual foi o procedimento dos catangueses ?

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R: Ficaram completamente desorientados. Como sabe, eles tinham combatido ao nosso lado, durante a guerra, dita de libertação de Angola. Nestas condições, a sua situação era precária e, dado o seu enorme potencial de combate, eram objecto do namoro dos três movimentos.

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P: Terá havido uma jogada para os atrair ao MPLA, através de um Capitão Figueiredo?

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R: Sem qualquer dúvida, embora tudo se passasse fora do âmbito da Junta ou, pelo menos, de alguns dos seus membros. Tentei, por vezes, saber o que estava a ocorrer, mas sem êxito.

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P: Parece que tinha cobertura superior. Julgo que o General Ferreira de Macedo também estaria envolvido ... (11)

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R: Nada me custa a aceitar o seu envolvimento, embora tudo tenha sido conduzido, dentro do maior secretismo. Penso que terá havido uma certa chantagem com os catangueses, pelo facto de terem combatido ao nosso lado, designados como fiéis.

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P: Na altura da independência ainda estavam com o MPLA ?

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R: Naturalmente, embora desconheça o que se passou, com o recrudescimento da UNITA e do controlo da área, onde estavam acantonados.

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P: Havia ordens e ocorrências que não eram do seu conhecimento ?

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R: Claramente. Dada a aceitação que tinha, no seio das Forças Armadas, o conhecimento de determinados factos podia conduzir à tomada de reacções, que prejudicariam o processo em curso, ao lado do MPLA. Assim aconteceu, quanto à intenção de prender três majores: Monteiro Pereira, Alves Ribeiro e um outro, também de Cavalaria. A questão, que levara a esta situação, foi rapidamente esclarecida pelo General Altino Magalhães, não chegando os oficiais em questão, diga-se, de grande prestígio, a serem presos.

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No caso do Coronel Dinis dos Comandos e do Major Cerqueira Rocha, foi o próprio Rosa Coutinho a comunicar-me a sua intenção. Fiquei atónito e não podia crer em tal posição.

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Era amigo do Rosa Coutinho. Durante algum tempo, fui mesmo o seu defensor, junto da população de Luanda, que o apelidava de Almirante Vermelho e não só. Quando me comunicou a sua intenção, olhei-o bem de frente e afirmei-lhe: Estás louco, agora percebo porque toda essa gente não te pode ver e tem razões para essa atitude. Só por cima de mim é que eles seguem presos para Lisboa.

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Saí dali, telefonei ao Altino e contei-lhe o que se estava a tramar, sabendo, de antemão, que ele estava sempre ao meu lado. Como éramos cinco, na Junta, precisava também, do voto do Leonel Cardoso, para garantir a anulação da ordem.

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P: Esse falhou ?

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R: Éramos amigos desde os tempos da Escola Naval, onde foi meu instrutor de Educação Física. Após duas longas horas de conversa, saí, sem saber qual a posição que iria tomar durante a sessão da Junta, onde a questão iria ser abordada.

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Voltei para o Palácio e perguntei ao Rosa Coutinho se ele conhecia, de facto, os camaradas em questão. Respondeu-me de uma forma bastante evasiva, o que me levou a concluir que o seu conhecimento era superficial.

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Retorqui-lhe: Conheço-os bem e não tenho dúvidas de que são incapazes de se meter em traições, ou coisas que não sejam exclusivamente militares. São militares a sério. De maneira que, chama-os e conversa com eles. Não tomes decisões precipitadas e sem qualquer justificação de facto !

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Algum tempo depois, mandou-os convocar e, durante cerca de uma hora, conversaram os três, sempre em movimento, dentro da sala, numa marcha, que os oficiais tinham dificuldades em acompanhar... A um canto, meio na penumbra, aguardava o veredicto final.

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Depois de os ter despedido, sem ter revelado a verdadeira intenção da sua convocatória, virou-se e disse: Eles não vão presos e oxalá que nunca venha a arrepender-me ! Não fiquei completamente esclarecido sobre a sua posição neste caso. Aguardemos.

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Assim, o Dinis e o Cerqueira Rocha continuaram em Angola nas mesmas funções, sem qualquer problema que pudesse afectar a sua missão.

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P: Eram esses os procedimentos dos elementos do MFA de Angola...

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R: Afastar todos aqueles que se opusessem à estratégia delineada, no sentido de equipar, armar e potenciar o MPLA, de modo a não ter problemas, aquando da tomada do poder.

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A FNLA contava, por seu turno, com a ajuda de Mobutu, pois como constatei, posteriormente, as suas forças também tinham sido completamente desfeitas.

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Era notória a preocupação de dar força e credibilidade ao MPLA e todos os meios eram utilizados.

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P: E quanto àquele caso, em 23 de Outubro, de a FRA ir executar um golpe...

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R: Tudo isso foi mais uma inventona, um fantasma. As acções eram desencadeadas, essencialmente, com base em informações, que recebiam do MPLA e apenas um pequeno grupo do MFA mexia os cordelinhos, no sentido de colmatar brechas no processo, que havia de levar este movimento ao poder.

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P: Segundo o General António de Spínola, no seu livro País Sem Rumo seria um grupo de dez militares ...

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R: Na minha opinião, os mais activistas eram os então Majores Pezarat Correia e José Emílio da Silva, o Capitão de Fragata Correia Jesuíno e o 1.º Tenente Soares Rodrigues. Não significa que não existissem outros, empenhados nesta manobra...

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P: O que tem a referir sobre a demissão do General Altino Magalhães?

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R: Sempre esteve ao meu lado, nas tomadas de posição e era difícil demitirem dois membros da Junta. No entanto, quando se recusou a cumprir a ordem do Rosa Coutinho, para destruir a sede da FNLA, iniciou-se o esquema para o afastarem e, naturalmente, com sucesso.

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P: Qual foi o argumento utilizado ?

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R: Não tenho qualquer ideia mas, naquela altura, tudo era permitido ao poder instituído.

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Nos preparativos do Acordo do Alvor

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P: Qual foi o seu papel na preparação do Acordo do Alvor ?

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R: Fiquei extraordinariamente surpreendido, quando me disseram que iria fazer parte da delegação portuguesa. Tinham havido várias tentativas ou intenções do Rosa Coutinho, para reunir os três movimentos connosco, a fim de se estabelecer o plano, que haveria de conduzir Angola à independência total. Ainda hoje, recordo as suas palavras: Faça-se uma reunião nos Açores ou no Continente, ou em Angola, ou em qualquer outro lado, pois nós temos de mostrar ao mundo que estamos de acordo e que chegámos a uma plataforma de entendimento. É preciso fazer este teatro.

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Pensei comigo, que tudo aquilo era loucura e não se podia, assim, brincar com o povo angolano. Parti para Kinshasa, acompanhado pelo Major Arnão Metelo, a fim de me encontrar com Holden Roberto, e convencê-lo da necessidade dos movimentos fazerem uma reunião prévia, para discutirem todo o contencioso existente entre eles e, quando conseguissem uma posição de entendimento comum, discutirem, então, com a parte portuguesa.

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P: Tinha uma certa lógica e era mais coerente...

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R: Anteriormente, em Luanda, tinha feito uma experiência interessante: juntar, à mesma mesa, os principais elementos das delegações dos movimentos. Tal intenção mereceu a hilaridade de Rosa Coutinho e seus pagens, pois era sabido que persistia um ódio visceral entre os homens do MPLA e da FNLA e que, nem nos bastidores, desejavam encontrar-se. (...)

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Após ter recebido luz verde e com a preciosa ajuda de Wilson dos Santos, da UNITA, consegui fazê-lo, durante dois dias, onde estiveram Lúcio Lara e Lopo do Nascimento, do MPLA, Vaal Neto e Barreiros, da FNLA e Wilson Santos e Sabino, da UNITA.

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P: Quais foram os problemas discutidos ?

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R: Foram duas questões essenciais: um sistema de informações perfeitamente funcional, no pós-independência e a constituição de uma força militar, independente dos movimentos, com grande capacidade operacional.

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No primeiro caso, ainda estiveram em funcionamento núcleos de recolha de notícias, que eram enviadas a órgãos constituídos por elementos dos três movimentos, onde se procedia à sua triagem, análise e difusão. Mas foi sol de pouca dura, por se verificar uma enorme parcialidade na recolha das notícias. Cada um só informava aquilo que lhe interessava e nem sempre correspondia aos factos.

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Quanto à segunda questão, ficou acordado constituir uma companhia de pára-quedistas, com pessoal cedido pelos três movimentos. A preparação desta força foi iniciada, através da formação dos quadros, cujo lançamento teve honras de cerimónia oficial, onde me desloquei e falei sobre os objectivos que presidiam a esta acção, tal como da sua extraordinária importância para a Angola de amanhã. Também, neste campo e apesar do esforço realizado, a muito curto prazo, tudo se desfez pelo abandono dos elementos nomeados pelos movimentos, os quais, sem explicações, foram partindo, a pouco e pouco, até tudo ter terminado.

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P: Foi com base nessa acção que o levaram para o Alvor...

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R: Creio que sim. Foi considerado quase impossível juntar aquela gente e eu tinha-o conseguido, em circunstâncias bastante difíceis. Por isso e pela fácil ligação, que tinha com os homens dos três movimentos, acabei por ser nomeado Alto-Comissário.

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Nomeação para Alto-Comissário de Angola

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P: No entanto, no Alvor, o MPLA queria o Rosa Coutinho e a FNLA e a UNITA só desejavam o senhor para Alto-Comissário...

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R: Sim. A FNLA e a UNITA afirmavam que eu seria a única pessoa capaz de conduzir o processo com isenção e, daí, a sua preferência. Como já referi, tinha relançado a posição da UNITA, com o encontro de Cangumbe. Igualmente, dado o fácil relacionamento mantido com os principais dirigentes da FNLA, pela frequência, com que me deslocara a Kinshasa, conduziram, inevitavelmente, a esta preferência, que ninguém estranhava.

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Quanto ao MPLA, as minhas relações com Lúcio Lara, Lopo do Nascimento e, praticamente, todos os dirigentes deste movimento, presentes em Luanda, era bastante amistosas. Por isso, o General Costa Gomes abordou-me, ainda antes do Alvor, para o exercício dessas funções, tendo-lhe respondido: Nem pensar nisso. Tinha plena consciência que me iriam atribuir uma missão impossível.

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Acrescentei: Já dei muito a Angola, tanto antes, como depois do 25 de Abril. Para que possa haver uma saída minimamente digna, eu sei, agora, que isso é impossível. O MPLA vai enveredar pela via da força, assim como a FNLA também está preparada para tomar o poder, pelo mesmo meio. Aquilo vai ser um inferno, uma grande tragédia...

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P: Qual foi a reacção dele ?

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R: Perguntou se eu estava doente ou cansado, tendo-lhe respondido afirmativamente e, sem mais conversas, o Alvor arrancou. Já perto do final, o Presidente da República deslocou-se ao Algarve, tendo voltado a pôr-me a questão do Alto-Comissário. Disse-lhe, depois de muito instado, saber que a FNLA e a UNITA me aceitavam. Se o Agostinho Neto me convidasse, ficaria.

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Não sem surpresa, nessa mesma noite, tive um convite para jantar com este líder, no Hotel da Penina, onde me convidou para aquelas funções.

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P: Ficou amarrado...

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R: Nunca acreditei e fiquei mesmo amarrado.

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Bastante tempo antes de sair de Angola para a conferência do Alvor, referi ao Rosa Coutinho, da necessidade de partir, o mais cedo possível, a fim da delegação portuguesa poder preparar um projecto para a fase subsequente da descolonização, que defendesse os interesses dos angolanos e dos próprios portugueses lá residentes. Retorquiu para não me preocupar, pois o pessoal, em Lisboa, estava a tratar do assunto.

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P: Portugal constituía uma das partes...

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R: Sem dúvida e devíamos ter o nosso próprio projecto. Na realidade, os dias foram passando e só na véspera, do início da reunião, já depois da meia-noite, fomos chamados pelo Melo Antunes, que se limitou a informar: Amanhã vamos discutir este papel. Era o que o MPLA tinha apresentado em Mombaça e fora aceite pelos outros movimentos, praticamente, sem discussão.

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Tinha provocado a reunião de Mombaça, para evitar que o teatro, como pretendia o Rosa Coutinho, tivesse lugar, em qualquer local, o mais rapidamente possível.

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Como referi, tinha ido a Kinshasa, onde me encontrei com o Holden Roberto e o seu Estado Maior. Falei-lhe da necessidade dos movimentos discutirem entre si o vasto contencioso existente, antes de qualquer reunião, ao mais alto nível ter lugar, e encontrarem uma plataforma de entendimento, para se poder chegar, com Portugal, a um acordo com bases sólidas.

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Eventualmente, o Dr. Savimbi encontrava-se, também, em Kinshasa e não perdi a oportunidade de lhe apresentar a questão, com a qual concordou. Pretendi dar um salto até Brazaville, onde se encontrava o Dr. Agostinho Neto, mas o Savimbi disse não ser necessário porquanto, ele próprio trataria do assunto com o Presidente do MPLA. Adiantei quão importante seria a presença de Portugal, na reunião, que viessem a acordar, mesmo como simples observadores. O conhecimento que tínhamos da realidade angolana podia ser bastante conveniente. Anuiu, mas frisou que a nossa presença seria apenas como observadores, devendo eu ser incluído na delegação, assim como outro elemento, por mim indicado.

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Depois de regressar a Luanda, elaborei um pequeno relatório, que o Arnão Metelo trouxe para Lisboa.

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A reunião preparatória sempre teve lugar em Mombaça, onde apenas foi discutido o projecto apresentado pelo MPLA, que os outros aceitaram, praticamente sem discussão. A UNITA concordou nas suas linhas gerais, pois a questão das eleições estava contemplada e este ponto era importante para Savimbi. A FNLA tencionando tomar o poder pela força, não quis levantar problemas.

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P: Chegou a ir a Mombaça ?

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R: Não. O MFA indicou o Pezarat Correia e um outro elemento da Coordenadora, que não recordo. Eles rejeitaram, não estando, desta forma, Portugal representado.

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Aliás, hoje estou convencido de que não havia qualquer interesse na nossa presença, nessa reunião, por ter fortes suspeitas de que o documento apresentado pelo MPLA foi cozinhado em estreita ligação com o MFA. Estava tudo em família !

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P: E o texto que saiu no acordo ?

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R: Foi o apresentado por Melo Antunes, com pequenas e insignificantes alterações, propostas pelos movimentos. Nos bastidores, ainda cheguei a aventar a hipótese de as Forças Armadas Portuguesas só deixarem o seu dispositivo, em Angola, depois de definidas ou concretizadas no terreno, as condições para procederem a eleições.

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P: Esse ponto foi aceite ?

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R: Nem tão pouco discutido, pois, desde logo, foi considerado inaceitável pelos movimentos, embora estivesse plenamente convicto de que, à partida, não se realizariam eleições, sem a participação activa do lado português. Nesta altura, recordei a conversa com o Chefe do Estado Maior do ELNA, havida meses antes: o problema de Angola apenas se resolve pela força e nós vamos ganhar.

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Depois, quando cheguei a Luanda, para assumir as funções de Alto-Comissário e perguntei pelo Iko Carreira, disseram que estava na União Soviética a seleccionar o armamento, para equipar o MPLA, o qual chegou a Ponta Negra, a bordo de navios.

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Desempenhando uma Missão Impossível

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P: Também utilizavam a via aérea ?

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R: Com certeza e até aconteceu estar um dia, no aeroporto, quando aterrou um avião procedente de Ponta Negra. O oficial encarregado da segurança, ao pretender saber qual o tipo de carga a bordo, foi informado tratar-se de fardamento e equipamentos. Quando mostrou interesse em revistar o avião, foi a isso impedido por elementos do MPLA e as suas suspeitas aumentaram. Aproveitando a minha presença no local, pôs-me a questão, tendo ordenado, de imediato, a verificação da carga.

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Ao constatar-se ser esta, constituída por armamento, foi o mesmo apreendido e entregue à guarda do Batalhão de Pára-quedistas.

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Posteriormente, fui com frequência, pressionado pelos elementos da Coordenadora do MFA para entregar o material ao MPLA. Sempre recusei, até que um dia, saturado e farto da conversa, anuí à entrega. Mas tive uma agradável surpresa: os Pára-quedistas, sob o comando do Ten-Coronel Gonçalves Ramos, Comandante do Batalhão de Pára-quedistas, recusaram-se a cumprir a ordem, alegando que, mais tarde, esse mesmo armamento poderia ser utilizado contra eles. Aqui está uma ordem, cujo não cumprimento, poderia merecer um louvor!!

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P: Quando o Rosa Coutinho ainda estava em Angola, será verdade que ele apoiava da mesma forma e por igual, os três movimentos, em armas e dinheiro ?

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R: Em relação ao dinheiro julgo que isso era um facto, pelo menos, em termos oficiais. Só que, nos bastidores, tudo era possível e o mais apoiado por todas as formas, como já referi, foi o MPLA.

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P: Em algum momento pensou que a sua acção estava a prejudicar a evolução do processo concebido pelo MFA, no que se refere à descolonização de Angola?

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R: Houve várias tentativas para me demitirem ou criarem as condições que levassem à minha demissão. Antes de assumir funções, tinha, naturalmente, concebido o meu Estado Maior pessoal. Mas, à minha chegada, deparei-me com uma Coordenadora do MFA, paredes meias com o meu Gabinete e idealizada pelo Pezarat Correia que, entretanto, regressara a Portugal. Esta Comissão tinha o engenho de controlar a minha actividade e ocupar todo o meu tempo, limitando a capacidade para tratar de outros assuntos, muito mais importantes e prioritários. Andava meio louco com aquela gente, que não me dava um minuto de descanso...

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A neutralidade activa e os incidentes em Luanda

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P: Houve ocasiões em que tentaram derrubá-lo ?

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R: Creio que sim, mas entretanto os ânimos tinham sossegado, tendo sido definido o conceito de neutralidade activa, que ninguém sabia bem o que era. Pelo menos, eu nunca percebi... nem era para perceber. Seria para bater quando fosse preciso, ou só bater na FNLA e na UNITA, facilitando a vida ao MPLA ?

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P: Acabou por se demitir em Julho ?

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R: Sim. Entretanto, depois duma cena ocorrida nas comemorações do 25 de Abril e da referida neutralidade activa, tiveram lugar os grandes incidentes de Luanda: o confronto entre o MPLA e a FNLA. Aconteceu que o MPLA, desde o primeiro dia, após a minha chegada a Luanda, como Alto-Comissário ( e até já antes, quando saí de Angola para vir para o encontro do Alvor), passou a provocar a FNLA, duma forma quase directa e sistemática, no sentido de acicatar os ânimos e levá-los ao confronto armado. Era isso, exactamente, o que o MPLA pretendia, e neste campo, tudo era válido. Só importavam os fins. Os meios eram os necessários e mais adequados, independentemente das consequências. Prisões arbitrárias, mortes indiscriminadas, uma tremenda tragédia, impossível de descrever.

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P: Tinha havido provocação do MPLA ?

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R: Sim. Provocações, utilizando a rádio e os chamados atiradores furtivos, para criar tal insegurança que acabou, natural e logicamente, no confronto armado entre os dois movimentos.

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P: O Savimbi estava em Luanda, nessa altura ?

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R: Não. Mas tinha lá a sua delegação, à frente da qual se encontrava o Wilson dos Santos, um moço que, apesar dos seus 22 anos, mostrava uma grande maturidade e vontade de ajudar na solução dos conflitos. Após reuniões intermináveis, ia conseguindo umas tréguas sempre precárias, algumas vezes, mesmo antes de assinarmos o papel, com os acordos encontrados. Uma vez, após dois dias e uma noite consecutivos de diálogo, na altura das rubricas, recomeçou o rebentamento dos morteiros, disparados de forma indiscriminada. Houve, então, um homem extraordinário do MPLA, que me disse: Meu General, não vale a pena tentar levar isto através do diálogo e chegar a solução consensual. Não é possível.

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P: Quem era esse indivíduo ?

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R: O Jacob João, mais conhecido pelo Monstro Imortal. Um bom homem, excelente militar, que acabou por morrer, ou ter sido morto, pouco tempo depois de eu deixar as funções de Alto-Comissário ...

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P: Naquelas depurações que eram habituais, neste tipo de organizações...

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R: Talvez, embora não possa crer que o tenham eliminado, porquanto tinha um enorme prestígio, no seio das FAPLA.

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P: Lembra-se de ter havido alguma revolta em Nova Lisboa ? Uma, em que terão chegado a queimar a Bandeira Portuguesa ?

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R: Aconteceram bastantes incidentes, durante esse período, mas não me recordo de nenhum em que se tenha chegado a tal extremo. Posso dizer-lhe que a média de atitudes inconvenientes levadas a efeito pelos movimentos, atingiu uma média de sete por dia, alguns bastante preocupantes, como os que envolviam o desaparecimento ou assassínio, puro e simples de todo o tipo de pessoas.

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P: Como conseguiu esses dados ?

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R: Tínhamos um serviço de informações a funcionar, onde se fazia o registo de todos os incidentes cometidos pelos movimentos ou outras organizações. À data da minha partida, a situação era, sensivelmente, 800 atribuídos ao MPLA, 350 à FNLA e 180 á UNITA.

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P: Alguma vez mandou actuar, pela força, contra tropas portuguesas, por actos de indisciplina ou rebelião ?

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R: Julgo que, pelo menos uma vez, em Cabinda, no Belize, não me recordando dos pormenores de tal intervenção. Também tivemos outros problemas, de menor significado, tendo sido resolvidos dentro dos princípios que regem a disciplina militar e que, naquela situação, determinava que a bitola da pena a aplicar fosse, ou se aproximasse do limite máximo, previsto na lei. Foi, sem dúvida, um período difícil, mas quero afirmar que estou particularmente grato e mesmo honrado, por ter tido sob o meu comando homens, que nunca hesitaram em cumprir qualquer missão, independentemente dos riscos inerentes. E houve algumas baixas da nossa parte. Claro que houve excepções, despoletadas e alimentadas por elementos que apenas procuravam a desestabilização geral, essencial para, com maior facilidade, atingirem os seus objectivos pré-definidos.

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A desafronta de Vila Alice

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P: Pode descrever o sucedido naquele caso de Vila Alice, com o MPLA ?

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R: Esse acontecimento, altamente lamentável, teve lugar em fins de Julho de 1975. Certo dia dia, já tarde, um jeep das nossas Forças Armadas, transportando um sargento e respectivo condutor, foi interceptado e mandado parar por uma patrulha do MPLA. Depois de identificados, foram autorizados a prosseguir mas, logo que a viatura se pôs em marcha, o sargento foi alvejado pelas costas, tendo ficado gravemente ferido.

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P: Não houve mortos ?

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R: Não. Tive conhecimento desta ocorrência, já bastante tarde, creio que depois da meia-noite. Reuni, de imediato, a Comissão Coordenadora e os Comandantes Militares. Perante a gravidade da situação, foi decidido exigir, ao MPLA, a entrega do autor do disparo cobarde e traiçoeiro, para ser julgado, de acordo com a legislação em vigor. Deixei bem claro que a entrega teria de se processar, a bem ou a mal, às primeiras horas da manhã seguinte.

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P: A quem confiou a execução dessa missão ?

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R: Ao Brigadeiro Heitor Almendra, Comandante do COPLAD, militar da minha inteira confiança e que gozava de grande prestígio, não só no seio das nossas Forças Armadas, como entre os militares dos movimentos. Foi-lhe conferida toda a liberdade de acção para o cumprimento da missão, usando os meios e as modalidades que julgasse mais adequadas.(12)

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P: A Comissão Coordenadora concordou com essa acção ?

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R: Nem abriram a boca. Compreende-se, num caso destes, em que os nossos militares foram alvejados pelas costas ... Alguém tinha a coragem de tomar uma atitude contra uma ordem destas ?

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P: Qual foi a reacção do MPLA, a essa operação ?

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R: Na altura, compreenderam mas, depois, vieram explorar o sucedido, como algo criminoso da minha parte.

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P: Acusaram-no de ter dado a ordem de atirar sobre a sede do MPLA, em Vila Alice ?

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R: Sim. Através da Comunicação Social e não só....

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Uma demissão inevitável...

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P: Qual foi a razão da sua demissão, em Julho de 1975 ?

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R: Havia uma situação concreta, no terreno, bastante grave. A FNLA estava à entrada de Luanda e punha-se o problema de nós irmos ou não, ajudar o MPLA a travar a FNLA ou deixar que ambos resolvessem a questão. No Palácio reuni todos os comandos dos três Ramos, os elementos da Coordenadora, o Secretário Geral, etc., num total de 42 pessoas.

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Descrevi a situação e, depois, um por um, todos se pronunciaram sobre o caso. Com excepção do Major Gomes de Abreu, todos os restantes foram de opinião que nos devíamos manter afastados daquele confronto. Praticamente, desde o primeiro dia, o Acordo do Alvor tinha sido sistematicamente violado, pelo que, um novo confronto entre os dois movimentos não seria novidade.

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P: Qual foi a posição da Coordenadora do MFA ?

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R: À excepção daquele oficial, todos os outros se manifestaram no mesmo sentido, pelo que foi extraordinariamente fácil tomar a decisão: a neutralidade, não sei se passiva, se activa. Só no caso do conflito alastrar para dentro da cidade, nessa altura, seríamos activos em defesa das populações. Recordo que a reunião terminou cerca das 23H00 e a decisão tinha sido tomada, praticamente, por unanimidade... Nessa mesma noite, dois elementos da Coordenadora viajaram para Lisboa. Não liguei ao caso, por se tratar de algo rotineiro.

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No dia seguinte, recebi uma mensagem do Presidente da República, descrevendo, com grande pormenor, a situação vivida em Luanda, dizendo para se actuar segundo a posição, que o Major Abreu defendera. Isto é, o contrário do que tinha sido decidido, com a opinião unânime de todos os outros camaradas - devia apoiar o MPLA, no confronto com a FNLA !

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Devo acrescentar que o referido major não tinha seguido para Lisboa. Não podia cumprir esta ordem. De imediato, telefonei ao Presidente da República e perguntei-lhe: O Meu General tem conhecimento desta mensagem ?. Obtive como resposta: Ah, isso foram os seus rapazes que “cozinharam”.... Voltei a insistir: Estou a perguntar-lhe se tem conhecimento do conteúdo da mensagem ? Como a resposta foi a mesma, disse-lhe: Pronto, estou esclarecido. Vou fazer as malas e seguir para Lisboa, cessando funções.

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P: Qual foi a sua reacção ?

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R: Não reagiu. Como também era militar, sabia perfeitamente que, depois de uma decisão tomada naquelas circunstâncias, era impossível alterar a posição e fazer o contrário.

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P: Em relação aos movimentos, qual foi atitude que tomaram ?

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R: Sucedeu um caso interessante. Apesar de toda a guerra, que o MPLA me moveu, houve algo, neste final, que me tocou. A decisão de cessar funções apenas foi comunicada aos comandantes dos Ramos, em Luanda, Comissão Coordenadora e ao Secretário Geral.

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Nesse mesmo dia, deslocaram-se ao Palácio, para apresentarem os seus cumprimentos de despedida duas entidades do MPLA: O Lopo de Nascimento, Primeiro Ministro, da parte daquele movimento, que me disse reconhecer o enorme esforço que tinha desenvolvido duma forma tão imparcial que, diria mesmo, quase obsessiva, embora, publicamente, pudesse ser acusado do contrário, expressando a sua gratidão; o outro, o Lúcio Lara, disse vir agradecer tudo o que tinha tentado fazer por Angola, reconhecia a minha honestidade e o enorme desejo de ver aquela terra o melhor possível, frisando que, se não tinha resultado não fora por culpa minha... Isto, poucos dias depois de se ter desenrolado a acção militar na Vila Alice!

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P: E os líderes dos outros movimentos ?

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R: Nem sequer sabiam da minha decisão. O MPLA conhecia-a através da Comissão Coordenadora do MFA, naturalmente !

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P: Quer dizer que essa ligação funcionou sempre ?

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R: Claro. E eu fiquei espantado. O Lúcio Lara era um homem extraordinariamente racista, que odiava o branco, talvez por ser mulato e por esse facto lhe causar dificuldades dentro do próprio MPLA. Um dia, convidei-o para jantar, no Palácio e não se cansou de focar os crimes que tínhamos cometido durante a guerra, como a destruição das lavras, que constituíam a base da sua alimentação, em operações, etc. Pois, foi este um dos homens que teve a amabilidade de ir, ao Palácio, para se despedir, agradecer e elogiar a minha acção.(13)

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P: Em 1978, Rosa Coutinho em declarações públicas (“O Jornal” de 1-12-1988 ) referiu que haveria uma conspiração encabeçada por Jorge Jardim, com um plano de levantamento (a iniciar na Beira) em 16 de Setembro, em Moçambique e entre 21 e 24 do mesmo mês, em Angola, estendendo-se, depois, ao Continente, em ligação com a programada manifestação da maioria silenciosa (28 de Setembro). Que comentário lhe merecem estas afirmações?

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R: Isso são das tais cabalas, que não cabem na cabeça de ninguém. Não existia qualquer interligação entre os três casos. Ninguém dispunha de capacidade para levar a efeito tal manobra. O MFA controlava tudo, incluindo as próprias Forças Armadas.

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Comentando a descolonização de Angola

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P: Para finalizar, gostaria de perguntar o que pensa da descolonização em geral ou da dita descolonização possível ?

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R: Julgo que vai sendo tempo para se começar a fazer o balanço duma época tão trágica da História Portuguesa. Nomeadamente porque muitos dos intervenientes estão ainda vivos e deverão testemunhar os factos que, realmente, escreverão sobre essa História. Se isso não se fizer agora, grande parte da Verdade perder-se-á e o trabalho dos historiadores vir a ser mais ingrato. Por isso, não fugi às suas perguntas e, nas respostas, fiz a minha apreciação de vários comportamentos. Agora, os visados que contestem, se desejarem que eu refresque mais a minha memória. Antes de ocorrer o 25 de Abril e já com Marcello Caetano no poder, surgiram indícios claros de que o problema da guerra colonial iria ser resolvido através de uma solução política. Entre esses indícios, poder-se-ão enumerar:

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1. A vitória militar em Angola, com o potencial de combate da guerrilha praticamente reduzido a zero, o que reforçava a capacidade de Portugal, em qualquer solução política, que o Governo decidisse.

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2. O livro Portugal e o Futuro do General Spínola era um alerta sério para se repensar a estratégia ultramarina.

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3. O início de negociações oficiosas entre Portugal e o PAIGC, que tivera, lugar em Londres, sob o maior secretismo, conforme foi revelado pelo Dr. Rui Patrício, há dois anos, na televisão e confirmadas por elementos desse partido, presentes nas negociações.

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4. Uma certa liberalização do regime vigente em Portugal, há mais de 40 anos, aparecendo na então Assembleia Nacional, um grupo de deputados, claramente em oposição à ditadura.

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Outros sintomas poderiam ser indicados, alguns por mim próprio vividos, mas julgo que estes são suficientes para provar que tudo se encaminhava para uma solução política da questão dos territórios ultramarinos. Isto, apesar da euforia resultante da vitória militar em Angola.

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Podemos imaginar, que tipo de solução política, o Governo do anterior regime, procuraria encontrar: pró-ocidental ou pró-soviética? Parece que ninguém tem dúvidas que acabaria por ser pró-ocidental, com todas as consequências, altamente negativas para a estratégia global do Leste.

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Por isso, o Governo teria de agir, com rapidez, a coberto duma guerra que conduzisse a uma solução política a curto/médio prazo e a uma democratização, que se avizinhava. E em Portugal, havia já forças democráticas poderosas, que pretendiam uma solução deste tipo. Mas havia, também, as outras, que queriam arrastar as Províncias Ultramarinas para a órbita soviética, e essas, além de radicais, estavam organizadas para actuar. Por isso, foram os principais agentes do 25 de Abril que, segundo as mesmas, era necessário fazer, não tanto pela democratização de Portugal, mas para impor o controlo do Sul de África pelo Urso Soviético (como Lenine preconizava), impedindo que a solução política do Ultramar fosse favorável ao Ocidente. O seu objectivo só não foi totalmente conseguido, porque se acelerava o desmoronamento do sistema comunista do bloco soviético...

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Assim, a descolonização não foi a possível, mas a cuidadosamente gizada e planeada por forças internas (diminutas) e forças externas (as grandes impulsionadoras). Depois, para a execução do plano, não faltaram os actores: os esclarecidos, os oportunistas, os indiferentes, os coagidos, os revoltados, os ingénuos e, no final, os sacrificados, com o seu rol de misérias, dor e morte.

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Repare-se quem, nesse período conturbado da vida nacional, pensou a sério e com realismo no enorme problema da descolonização. Uma impensável intranquilidade política, social, económica, etc., perfeita anarquia foi gerada e alimentada na então chamada Metrópole, como manobra de diversão, para ocupar as cabeças pensantes deste País e deixar correr a descolonização, segundo os desígnios e fins, até hoje ainda não totalmente revelados, em que os verdadeiros manobradores iam puxando os cordelinhos, segundo a sua vontade ou orientações recebidas... Uns poucos, mais com os pés na terra, tentaram lutar contra o fogo, mas foram neutralizados ou desacreditados.

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A História far-se-á, sem vencidos nem vencedores, nesta triste batalha, da qual ficou, tão somente, a tragédia. É doloroso ver que, dos territórios mais ricos e prósperos de toda a África Negra, em poucos anos, caíram para o fundo da tabela das nações mais pobres do mundo, onde a fome era o maior flagelo.

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Haver muitos responsáveis políticos de então, ainda hoje figuras de relevo, com grande peso na consciência porque, da sua acção, apenas resultou a miséria e a fome; outros que nada fizeram, a não ser autopromoverem-se, também não podem ter um sono tranquilo; aceitam tudo por ignorância ou simplesmente como uma fatalidade; outros, talvez um dia, cheguem a falar, se a velocidade infernal do correr do tempo, não lhes varrer a memória...

NOTAS:

(1) Entrevista ( 2.ª Parte) realizada em 7-2-1997, em Lisboa.

(2) Refere-se ao agora Major General Passos Ramos.

(3) Segundo outro oficial, a prestar serviço na área das informações, no Comando-Chefe de Angola, aquando do 25 de Abril, existiriam apenas 30 guerrilheiros armados, em todo o território angolano. Ver Manuel A. Bernardo.Marcello e Spínola; A Ruptura; As Forças Armada e a Imprensa na Queda do Estado Novo 1973-1974”. Lisboa, Ed. Estampa, 1996, pp 75.

(4) Em 21-10-1974. Ver Boaventura de Sousa Santos, Maria Manuela Cruzeiro e Maria Natércia Coimbra.O Pulsar da Revolução; Cronologia da Revolução de 25 de Abril (1973-1976)”. Lisboa, Ed. Afrontamento, 1997.

(5) Terá ocorrido em 2-11-1974. Ver Boaventura Sousa Santos (...). Ob. cit.

(6) Efectuado em 12-10-1974. Ver Boaventura Sousa Santos (...). Ob. cit.

(7) Efectuado em 21-10-1974, como já referido.

(8) De facto, desde Janeiro de 1973, que Daniel Chipenda se separara do MPLA (Revolta do Leste) e tinha ocorrido, entretanto, a designada “Revolta Activa” de Joaquim Pinto de Andrade. Foi tentada a unidade das três facções no Congresso de Lusaka, em Agosto de 1974, mas Agostinho Neto abandonou a sala, após a votação com uma dezena de votos a mais para Chipenda. Ver depoimento do Coronel Alcino Roque, neste trabalho.

No entanto, outra fonte considera apenas ter havido a diferença de um voto (165 contra 164 e 70 para a "Revolta Activa"). Ver João Paulo Guerra. “Descolonização; o Regresso das Caravelas”. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1996, pp 158.

Deste modo, continuou o rompimento das três facções, tendo Daniel Chipenda ocupado quartéis no Leste, no pós-25 de Abril, com o acordo inicial das autoridades portuguesas e até aberto uma delegação em Luanda. Posteriormente viria a ligar-se à FNLA.

(10) Ter-se-á realizado em 28-10-1974. Ver João Paulo Guerra. Ob. cit. pp 164.

(11) Terá havido uma tentativa do MFA/Angola de desestabilização dos catangueses, para posterior controlo, que apenas seria do conhecimento dos então General Costa Gomes, Almirante Rosa Coutinho, Brigadeiro Ferreira de Macedo, Major Pezarat Correia e Capitão Figueiredo. (Fonte confidencial n.º 2).

(12) Foi executada em 27-7-1975. Ver Boaventura Sousa Santos (...). Ob. cit. e entrevista com o Major General Heitor Almendra, constante deste trabalho.

(13) O General Silva Cardoso, à chegada a Lisboa, em 4-8-1975, afirmava significativamente:

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Trago, ainda nos ouvidos, os discursos demagógicos em que sistematicamente se afirma que tudo se faz pelo povo e para povo, quando no fim é o povo que sofre, é o povo que morre. Isto tudo devido a ambições desmedidas, que não conhecem meios e que sacrificam tudo para atingir os seus fins. Vim expressamente, como já disse, para falar com Sua Ex.ª o Presidente da República, que me confiou aquela que seria, talvez, a nobre missão de representar a soberania portuguesa naquele território. Missão na qual empenhei todos os esforços, todas as minhas capacidades, missão que me causou grandes desilusões. Já não acredito nos homens, principalmente nos políticos, e estou cansado da mentira, das falsas promessas e das atitudes de fachada. Venho cansado da miséria, de ver a miséria, o ódio e o desespero. Venho cansado do egoísmo, da crueldade e da ambição desmedida. Estou aqui em Portugal, estou aqui, como sempre estive à disposição dos meus superiores hierárquicos para receber ordens, ordens para um militar que sempre fui, um militar que nunca deixei de ser e que sempre serei.

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Quero dirigir as últimas palavras àqueles milhares de portugueses europeus brancos, escorraçados daquela terra, terra que já consideravam como a sua nova pátria e que têm perdido tudo e deixando tudo, se vieram refugiar em Portugal. Muitos já vieram, muitos, infelizmente, ainda hão-de vir, ou terão mesmo que vir. Para eles o meu carinho e um voto sincero de melhores dias e mais sorte. Nunca é demais para começar. Tenham fé nos destinos do nosso País. Ver “Diário de Notícias” de 5-8-1975.

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Curiosamente na mesma edição, o Almirante Rosa Coutinho afirmava, não querendo comentar estas afirmações do General Silva Cardoso: “(...) não ser oportuna uma intervenção militar em Angola, conduzida pela OUA e que nada há de concreto sobre a possibilidade de intervenção dos capacetes azuis da ONU.”

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foto retirada daqui:

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