Mostrar mensagens com a etiqueta Jurema José. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jurema José. Mostrar todas as mensagens

sábado, 8 de março de 2008

Dia Internacional da Mulher

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.




O Dia Internacional da Mulher é celebrado a 8 de Março. É um dia comemorativo para a celebração dos feitos económicos, políticos e sociais alcançados pela mulher.

.

A ideia da existência de um dia internacional da mulher foi inicialmente proposta na viragem do século XX, durante o rápido processo de industrialização e expansão económica que levou aos protestos sobre as condições de trabalho. As mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, em que protestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários.

.

Existem outros acontecimentos que possam provar a tese como o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, que também aconteceu em Nova Iorque, em 25 de março de 1911, onde morreram 146 trabalhadoras. Segundo esta versão, 129 trabalhadoras durante um protesto teriam sido trancadas e queimadas vivas. Este evento porém nunca aconteceu e o incêndio da Triangle Shirtwaist continua como o pior incêndio da história de Nova Iorque.

.

Muitos outros protestos se seguiram nos anos seguintes ao episódio de 8 de Março, destacando-se um outro em 1908, onde 15.000 mulheres marcharam sobre a cidade de Nova Iorque exigindo a redução de horário, melhores salários, e o direito ao voto. Assim, o primeiro Dia Internacional da Mulher observou-se a 28 de Fevereiro de 1909 nos Estados Unidos da América após uma declaração do Partido Socialista da América. Em 1910, a primeira conferência internacional sobre a mulher ocorreu em Copenhaga, dirigida pela Internacional Socialista, e o Dia Internacional da Mulher foi estabelecido. No ano seguinte, esse dia foi celebrado por mais de um milhão de pessoas na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, no dia 19 de Março. No entanto, logo depois, um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist mataria 140 costureiras; o número elevado de mortes foi atribuído às más condições de segurança do edifício. Além disto, ocorreram também manifestações pela Paz em toda a Europa nas vésperas da Primeira Guerra Mundial.

.

Na Rússia, as comemorações do Dia Internacional da Mulher serviram de estopim para a Revolução russa de 1917. Depois da Revolução de Outubro, a feminista bolchevique Alexandra Kollontai persuadiu Lenin para torná-lo num dia oficial que, durante o período soviético permaneceu numa celebração da "heróica mulher trabalhadora". No entanto, o feriado rapidamente perderia a sua vertente política e tornar-se-ia numa ocasião em que os homens manifestavam a sua simpatia ou amor pelas mulheres da sua vida — um tanto semelhante a uma mistura dos feriados ocidentais Dia da Mãe e Dia dos Namorados. O dia permanece como feriado oficial na Rússia (bem como na Bielorrússia, Macedónia, Moldávia e Ucrânia), e verifica-se pelas ofertas de prendas e flores dos homens às mulheres (quaisquer mulheres). Quando à Checoslováquia integrou o Bloco Soviético, esta celebração foi apoiada oficialmente e gradualmente transformada em paródia — ver MDŽ.

.

No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado durante as décadas de 1910 e 1920, mas esmoreceu. Foi revitalizado pelo feminismo na década de 1960. Em 1975, designado como o Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações Unidas começou a patrocinar o Dia Internacional da Mulher.

.

Ver também

Ligações externas

.
.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Julieta Gandra

[215638.jpg]



.


* São José Almeida

Julieta Gandra viveu 90 anos de ousadia. Desafiou regras, desafiou convenções, desafiou poderes. Foi uma referência para gerações de jovens de esquerda. Viveu a política com alegria e convicção e por uma causa: Angola

"Olhe! Em vez de estar aí parado ajude-me a carregar os embrulhos!" Sem dar tempo para ao pide, que lhe vigiava a casa, reagir, Julieta Gandra despejou os muitos pacotes com que chegara ao nº 7 da Ilha do Príncipe, em Lisboa, e obrigou assim o agente da polícia política a subir até ao 4º-B, carregando as suas compras em silêncio. Esta história desconcertante é recordada, entre sorrisos, por Diana Andringa, que, na segunda metade dos anos 60, morava no 5º-A e que conviveu com Julieta Gandra, médica, oposicionista, militante feminista e anticolonialista e, sobretudo, transgressora, falecida a 8 de Outubro, em Lisboa, com 90 anos.

Nascida a 16 de Setembro de 1917, em Oliveira de Azeméis, Maria Julieta Guimarães Gandra era filha de Aurora e Mário Gandra, solicitador e pequeno comerciante, e tinha três irmãos, Fernanda, mais velha e ainda viva, Ângela, e Hernâni, arquitecto que militou no PCP.

Julieta cursou medicina, em Lisboa, onde conheceu Ernesto Cochat Osório, oposicionista e poeta, natural de Angola. Depois de casados e de ter nascido, em 1944, o seu filho Miguel (que não quis colaborar neste trabalho), rumam de barco a Luanda. Julieta é então especialista em medicina tropical. Irá interessar-se por obstetrícia e ginecologia e será ela a introdutora do parto sem dor em Angola. Médica das jovens brancas da elite de Luanda, dá também consulta a mulheres pobres, brancas e pretas.

Em Luanda, priva com intelectuais não afectos ao regime e frequenta o Cine-Clube e a Sociedade Cultural de Angola. O que fora uma aproximação à oposição na faculdade torna-se ligação ao PCP em Angola. (Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, III vol. pp. 517-526). Em meados dos anos 50, participa na formação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Vem de então a sua amizade com Agostinho Neto, Lúcio Lara, Paulo Jorge e Arménio Santos.

Durante a década e meia que vive em Angola, viaja. Vem a Lisboa. E, em 1958, depois de visitar, em Bruxelas, a exposição mundial, ruma à União Soviética. De regresso a Luanda, passa por Paris e Lisboa e, a sua sobrinha Ana Rita Gandra Gonçalves, ainda hoje se lembra das discrições de um espectáculo de Ives Montand e os discos de Léo Ferré que distribui pelos mais novos.Processo dos 50A 29 de Março de 1959, Julieta Gandra é presa pela PIDE. Em Agosto, realiza-se o primeiro julgamento político de nacionalistas angolanos, "o processo dos 50".

No final, os presos brancos serão enviados para a metrópole, enquanto os negros irão reabrir o Campo do Tarrafal.

A sua prisão causa polémica e constrangimento na Luanda branca. Era uma intelectual influente e médica da elite. Chegou a sair da prisão para ir assistir a um parto da filha de um engenheiro belga, responsável de uma petrolífera, que assim o exigiu.

O seu tempo de prisão em Luanda foi de cela aberta. Primeiro na PSP, onde a sua detenção incomodava, pois era médica da instituição. Depois, na ala feminina do hospital psiquiátrico, que funcionou como prisão, pois não havia cadeias para presas políticas. O director acaba por exigir mesmo a retirada do pide que vigia a porta, argumento: perturba as doentes da ala feminina.

Em Lisboa, amigos da família tentam libertar Julieta. Há mesmo quem interpele o ministro Paulo Cunha, ao que este responde: "Não me fale dessa senhora!"

Julieta foi acusada de ter dado 500 escudos ao MPLA, ter convidado para jantar um membro do movimento, ter enviado um sobrescrito contendo papéis do MPLA e ser militante do PCP. As provas nunca apareceram no Tribunal Militar de Luanda e o seu advogado ficou retido em Lisboa.

Foi condenada a 12 meses de prisão. Pena que foi agravada para dois anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos, após recurso do Ministério Público. Julieta recorre também e realiza-se novo julgamento, já em Lisboa, mas a pena aumenta: quatro anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos.

Depois do processo, o filho vem viver com a tia Fernanda e estudar no Colégio Moderno, da família Soares, de que era amiga, já que o pai de Julieta e João Soares foram correlegionários na I República. Mário Soares será o advogado já no período final da cadeia e conduzirá a libertação, após uma campanha internacional conduzida pela Amnistia, a partir de Londres.

Presa do ano
.

Em 1964, Julieta Gandra é escolhida como "presa consciência do ano", depois de já ter sido o centro de uma campanha do grupo de defesa dos direitos humanos West Bristol, em 1962. Foi a primeira vez que um preso português é escolhido, o que voltará a acontecer com Mário Soares, em 1973, explica ao P2 Vítor Nogueira, da Amnistia Internacional, que privou também com Julieta Gandra.

No início de Julho de 1965, Julieta Gandra abandona finalmente a prisão de Caxias, onde chegara a 8 de Novembro de 1960. E onde partilhou cela com figuras como Maria Eugénia Varela Gomes, presa no Golpe de Beja, que sobre ela contou: ""Era muitíssimo inteligente, cultíssima, uma grande dama, corajosa politicamente, uma mulher frontal, impecável perante a PIDE, uma boa médica, uma mulher muito interessante."

Também a militante comunista Ivone Dias Lourenço partilhou cela com Julieta: "Era extremamente solidária, nunca fez vida à parte, nunca fez luta à parte. Ela foi sempre de uma extrema ajuda, culta, enciclopédica, interessava-se por tudo, viva, uma grande contadora de histórias, muito viajada, era o centro das nossas conversas, alimentava a curiosidade, tinha uma visão contemporânea do mundo. Eu própria considero que lhe devo o abrir dos olhos para o mundo."

Transgressão máxima
.

É também na cela, em Caxias, que conhece Fernanda da Paiva Tomás, nascida a 8 de Novembro de 1928, com quem manterá desde então uma relação afectiva, até à morte de Fernanda, com um tumor cerebral, em 15 de Setembro de 1984.

Fernanda da Paiva Tomás era uma alta dirigente do PCP, que entrara já em ruptura com o partido - "queriam que ela deixasse a clandestinidade para visitar Joaquim Carreira, o pai do filho, que fora preso, e ela achava que era militante comunista e não companheira", conta Diana Andringa, que esteve na mesma cela de Fernanda, no final dos anos 60. Presa em 6 de Fevereiro de 1961, Fernanda só será libertada em 19 de Novembro de 1970, sendo a mulher que mais tempo sucessivo esteve presa pela PIDE, um total de nove anos e nove meses, que se somam a onze anos de clandestinidade anterior."Com a saída de Fernanda Tomás da cadeia foi uma lufada de ar fresco na vida da Julieta e naquela casa. Foi um período muito porreiro. Mas nunca abordei a relação, para mim eram apenas duas pessoas que viviam na mesma casa", diz Amílcar Sequeira, amigo de Julieta que até à sua morte continuou a visitá-la no lar, onde vivia desde 2001.

O início da relação entre ambas, em Caxias, é referido por Maria Eugénia Varela Gomes em Contra Ventos e Marés (pp. 229/230). Ao P2 apenas diz: "Era visível dentro da cela a relação das duas, escrevi porque é a verdade histórica." Já Ivone Dias Lourenço sublinha: "Era muito miúda, não tinha experiência de vida, não me apercebi de nada, só soube depois da Fernanda morrer.

"Apesar de o assunto ser omitido ainda hoje por muitos que privaram com as duas, Ana Rita Gandra Gonçalves, sobrinha de Julieta, assume: "Eu gostava muito da Fernanda, era uma pessoa muito especial. Elas tinham uma atitude muito natural em relação à situação. Não houve propriamente festa de casamento, mas naquelas idades não se faz isso."

Por sua vez, Maria Teresa Horta é peremptória em afirmar que, com o passar dos anos sobre a morte de Fernanda Tomás, "a relação foi silenciada, mas as pessoas sabem, até porque criou celeuma na própria cela". E prossegue: "Tinham uma afectividade imensa e uma solidariedade imensa entre as duas. Para fazer aquilo que elas fizeram, era preciso que houvesse uma grande coragem e um grande amor. Mesmo depois do 25 de Abril havia silêncio à volta do assunto. Não por elas, que não escondiam. Mas em relação à mulher é mais difícil falar-se, não há homossexualidade feminina porque não há sexualidade feminina."

E frisa: "Imagine-se o que é duas mulheres assumirem uma relação dentro de uma cela de uma cadeia da PIDE cheia de presas do PCP. É um acto de transgressão máxima, para mais porque são presas políticas do fascismo. Além da transgressão que as leva ali, há esta."

Uso da pílula em Portugal
.

É também no período de Caxias que Julieta Gandra se afasta do PCP, embora sobre isso Ivone Dias Lourenço apenas diga: "Não sei quem se afastou de quem." Já Teresa Horta, que foi também militante do PCP, acrescenta: "Tentei falar sobre o assunto com Alda Nogueira [esteve presa na mesma cela] e com Georgete Ferreira, ambas não quiseram falar." O afastamento consuma-se já fora da prisão e dá-se a aproximação à extrema-esquerda, se bem que o centro da luta de Julieta fosse a questão colonial.

Junta-se então ao filho em casa da irmã Fernanda e pouco depois começa a dar consultas em Sintra e monta consultório na Rua Manuel da Maia, em Lisboa, onde dará emprego a Aida Paula, com quem esteve presa em Caxias. Volta a exercer clínica, tornando-se uma das ginecologistas percursoras do uso da pílula em Portugal.

"Ela ia muito à frente, falava com grande liberdade do prazer sexual a que a mulher tinha direito sem ser penalizada com a gravidez. E pesava sobre ela o peso da suspeição do regime. Era uma mulher muito corajosa", afirma Teresa Horta acrescentando: "Fazia muita medicina gratuita, o que lhe interessava era aquilo que hoje se chama serviço público."

Santuário angolano
.

Após alguns meses a dormir no consultório, aluga a casa da Rua Ilha do Príncipe. Será este o lugar mítico para gerações de militantes de esquerda não alinhados com o PCP e, acima de tudo, o santuário do independentismo angolano.

"Ela era uma referência. A casa da Julieta era importante. Para mim foi um livro aberto", diz Amílcar Sequeira. É lá que as novas gerações convivem com figuras do independentismo. "Permitiu-nos ouvir históricos como o Ilídio Machado e Arménio Santos", salienta Diana Andringa que assume a dívida: "Se me perguntarem qual a minha pátria, digo Angola. De alguma forma, Julieta ajudou-me a isso. Fez-me não ter vergonha de ser branca e privilegiada."É lá que se realiza, após o 25 de Abril, a primeira reunião para organizar a primeira manifestação anticolonial, onde estiveram Carlos Antunes e Cabral Fernandes, entre outros. E Julieta integra uma delegação da Casa de Angola que vai ao Alvor, durante a assinatura do acordo das independências, reunir-se com Agostinho Neto.

Em 1975, regressa a Luanda, para ai montar o serviço de saúde e despacha directamente com Neto. Fernanda Tomás vai consigo e trabalha no Ministério da Educação. Julieta Gandra instala o serviço de vacinação e a rede de enfermeiros e faz o levantamento para determinação de epidemias. Regressa a Lisboa profundamente doente, de urgência, em 1977, e ruma a Londres onde lhe é diagnosticado um edema pulmonar.

A dívida de Angola para com Julieta Gandra é expressa numa subvenção que recebia irregularmente do Governo angolano e que completava a subvenção atribuída no Governo de António Guterres, em reconhecimento da sua luta como antifascista. Mas recusou-se a receber a Ordem da Liberdade, já no segundo mandato de Jorge Sampaio.

"Era pessoa forte, opinativa", lembra Ana Rita Gandra Gonçalves. "Obrigava-nos a pensar. Tinha pouca paciência para chavões. Na altura da guerra do Biafra, dizia que não era adoptando uma criança que se resolvia o problema. Tinha muita paciência para nós, os mais novos, mas não tinha paciência para pieguices e disparates", lembra Diana Andringa e acrescenta: "Era uma militante feminista e anticolonial. Em tudo o que dizia e fazia estava presente que as mulheres são iguais aos homens, têm os mesmos direitos e os mesmo deveres, até o dever de pensar."

.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A escrita feminina no panorama literário africano em língua portuguesa

A produção literária de autoria feminina ainda é muito incipiente nos países africanos de língua portuguesa. Isto constitui um paradoxo, já que durante as lutas libertárias as mulheres desempenharam importante papel político nas organizações que lutavam contra o colonialismo.

A literatura angolana se solidifica no final de 1940 com o movimento «Vamos Descobrir Angola», que gerou as bases literárias consolidadas e atestadas «pelos variados prêmios outorgados aos escritores, como o prêmio Camões, concedido a Pepetela em 1997» (Macêdo, Tania. In: Contatos e ressonâncias: literaturas africanas de língua portuguesa, p. 157).

No cenário literário angolano figura como precursora na poesia Alda Lara, autora de Poemas (1966), Poesia (1979) e de um livro de contos intitulado Tempo de Chuva (1973). A temática de sua obra é a opressão, que assola homens e mulheres em geral, e, apesar de abordar questões universais como a fraternidade, a solidariedade e a paz, seu enfoque poético está direcionado para as formas de ação feminina na busca do espaço sonhado, em especial nos anos de 1950-1960, quando se intensificava o projeto libertário angolano.

Tal projeto se nutria da utopia de homens e mulheres compartilharem a construção da nação idealizada pelos angolanos. Com nítida percepção do sofrimento que assolava a humanidade da época, Alda Lara ultrapassa a concepção nacionalista para ouvir as «vozes silenciadas» além da África de língua portuguesa:

Os gritos perderam-se sem encontrar eco.
Os punhos cerrados e os ódios calados
Dividiram os Homens,
que se não reconheceram mais...

Mas as lágrimas cavaram sulcos fundos
nos olhos vazios de esperança,
e os sulcos não se apagaram...

(«Poema», in:Antologia da poesia africana de língua portuguesa, Rio de Janeiro: Lacerda Editores, p.67).

Trilhando entre o «eu», o sonho e o povo, características que a aproximam de Alda Lara, Noémia de Sousa direciona seus versos para apreender o próprio «eu» como expressão da subjetividade feminina repleta de imagens que corporificam os desejos «espirituais, admirações, dores e sensações» (Mata, Inocência. Literatura Angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, p. 122).

Em busca de uma maneira singular de ser moçambicana, Noémia de Sousa privilegia a investigação da infância, alicerçada na memória dos elementos da terra. As imagens da terra construídas em sua poesia corporificam a confraternização com sua infância rememorada imageticamente por meio de símbolos típicos de Moçambique, revivificados num código lingüístico repleto de marcas acústicas que caracterizam uma recorrência da poesia fundada na oralidade.

A valorização do ritmo, da musicalidade, da repetição de termos e expressões, das frases feitas, das sentenças, dos ditos e dos refrões, aspectos oriundos da oratura, enriquecem o fazer poético de Noémia de Sousa, que estabelece um pacto com o contexto, com a história local, o que reforça a autenticidade de sua poesia vincada na moçambicanidade. Segundo Alfredo Margarido, se as raízes do poeta são autenticamente moçambicanas, suas razões de ser, de estar, de existir terão também de ser moçambicanas (Margarido, Alfredo. Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa, p. 486).

Noémia de Sousa não tem livros publicados, mas deixou um legado literário de impacto, como bem definiu António Jacinto ao tomar contato com o caderno Sangue negro, composto de 43 poemas, em 1951. Em suas reflexões, António Jacinto viu naquele discurso um caminho que poderia ser tomado também pelos angolanos em sua produção literária. «O impacto dos poemas propagou-se à Casa dos Estudantes do Império. Noémia de Sousa nunca publicou qualquer livro, para além desse caderno policopiado, de divulgação clandestina, pois nem todos os textos poderiam circular sem problemas» (Laranjeira, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa, p. 269).

Numa fase em que os jornais eram o lugar de reflexões contundentes, parte dos poemas de Noémia de Sousa circularam por revistas, jornais e coletâneas da época, como O Brado Africano, Itinerário, Vértice e Mensagem (CEI), entre outros. O fazer poético desta autora encontrou no ser negro envolto numa aura de valoração do que é da terra seu viés discursivo para contestar a colonização em Moçambique. Segundo Pires Laranjeira, em Literaturas africanas de língua portuguesa, a poesia de Noémia de Sousa situa-se na intersecção do neo-realismo com a Negritude, embora ainda não houvesse tomado contato com os textos da negritude em voga no Haiti e Cuba, por exemplo.

No poema «Negra», Noémia de Sousa corporifica na imagem feminina características da «mãe-terra», transferindo sensações, desejos e sonhos que sendo aparentemente uma particularidade da mulher moçambicana ali idealizada acabam por forjar no corpo do poema um sentimento que ultrapassa a busca de um «eu» individualizado. Quando o sujeito lírico se identifica como cidadã moçambicana, constata-se que a sua dor é também a das demais mulheres de seu grupo social e se assemelha, numa leitura alargada do poema, à busca da subjetividade feminina que nutre os sonhos das «filhas da mãe negra», ou melhor, da grande mãe África silenciada em várias partes pelo jugo colonialista.

Este poema, na visão de Alfredo Margarido, nos coloca perante as «gentes estranhas» que «com seus olhos cheios de outros mundos» pretenderam captar os encantos da África, mas que, por via dos seus rendilhados cantos formalistas, não puderam aceder à substância autêntica da mulher negra africana. Tal é, afinal, seu grande desejo: identificar a África, identificar-se com ela. (Margarido, Alfredo. Estudos sobre literatura das nações africanas de língua portuguesa, p.488).

Numa leitura intertextual entre «Negra», de Noémia de Sousa, e «Prelúdio», de Alda Lara, verifica-se a força da voz poética feminina, que no dizer de Inocência Mata, em Literatura Angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, se liga à idéia de regresso e comunhão com a Terra, com o Povo e com a causa coletiva.

As seguintes estrofes do poema «Prelúdio», de Alda Lara, ilustram a busca da identificação imagética da situação a que foram expostas as comunidades africanas de língua portuguesa, em especial as mulheres, durante a colonização:

Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...
(...)
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
(...)
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

(MATA, Inocência. In: Literatura angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, p.112).

As marcas da oralidade e da História que permeiam a poesia de Alda Lara e Noémia de Sousa também estão presentes no itinerário poético da angolana Ana Paula Tavares, autora de Ritos de passagem (1985), O lago da lua (1999) e de um livro de crônicas intitulado O sangue da buganvília (1998). Ana Paula busca o espaço profícuo para encenar na força criativa das palavras formas e tons de uma escrita singular. Presenciam-se em seu discurso cenas de dor, de carência, de guerra e de morte, subjacentes a uma voz lírica que trilha a tradição, recriando o passado a partir da seleção e interpretação do patrimônio cultural angolano para converter as inúmeras vozes femininas presentes em seu texto numa poética do «grito» libertário, para além do silenciado cercado a que as mulheres angolanas estiveram culturalmente submetidas.

A ensaísta Laura Cavalcante Padilha, no artigo «Paula Tavares e a semeadura das palavras», assinala a presença da «palavra grito» nos textos da poetisa como forma de «tentar quebrar o silêncio, pois o sujeito histórico reconhece a necessidade de preencher tal silêncio. De qualquer modo e com muita urgência» (in: África & Brasil: letras em laços, p. 288).

Ana Paula Tavares percorre o universo que protesta contra a situação vivida pelas mulheres e crianças de sua pátria. Em O sangue da buganvília: crônicas, a autora diz:

Faz falta a palavra grito a crescer por cima desse silêncio todo, construída livremente com o respeito antigo pelo lugar, mas trazendo as novas do tempo, dos participantes e das promessas. É preciso que a palavra acolha esta mais-valia de tantos anos de espera e silêncio e se solte e proteste e renasça na plantação das consciências (p. 33).

Assim, o caos deixado pela guerra não esconde a raiz de sua procura: um desejo de conhecimento do mundo que necessita, com urgência, reencontrar o sentido da humanidade. Ele aponta, antes, para um retorno às origens, uma abertura para outra possibilidade de organização do mundo a partir do som, do grito, da palavra poética. Dimensionada pelos sentidos que recuperam através da palavra o cheiro, os sons, os ritmos da terra, como referências para cruzar aspectos da tradição angolana e da fala das mulheres partida pela história de guerras e exclusão a que foram submetidas.

Sob o signo da letra, a obra de Ana Paula Tavares pode ser definida pelo acúmulo de experiências da vida diária, transformando sua terra e sua gente em matriz de sentidos. Assim, o perfil de uma especial face angolana em seus poemas monta-se por meio da convergência de signos como fogueiras, gado, lago, lua, lavras, frutos, etc. Todos organizados segundo o princípio da contenção que favorece uma sintaxe singular dos sentidos.

No cenário poético contemporâneo situa-se também Vera Duarte, cabo-verdiana com poemas publicados em várias antologias poéticas e autora do livro Amanhã amadrugada (1993). Com um discurso marcado por sua posição política, esta escritora procura interpretar os sentimentos e sonhos daqueles que metaforiza por meio da voz lírica, e capta o desejo de

(...)
Homens mulheres crianças
Na pátria livre libertada
Plantando mil milharais
Serão a chuva caindo
Na nossa terra explorada

(DUARTE, Vera. 1993, p.99).

Para reinventar o sentido da vida em Cabo Verde, a poética de Vera Duarte representa abundância vivificante nas horas tristes, reanimadas pela voz lírica feminina que clama por todos aqueles que habitam imageticamente o Arquipélago, que ainda busca no plano real uma saída semelhante à que supriu a falta de chuvas, de liberdade, para vencer a dor que se esvai nos versos:

(...)
Num setembro de chuvas abundantes
a água varreu o lamaçal
limpou os corpos caídos
levou dejectos e tudo
e apenas deixou
- redimidos -
os homens, a terra
e o futuro

(DUARTE, Vera, in: Amanhã amadrugada, p.67).

As imagens dos tempos difíceis são paradigmaticamente apagadas pela chuva complacente, companheira de luta, «amante amorosa que se entrega com doçura» (Sepúlveda, Maria do Carmo, in: África & Brasil: letras em laços, p. 334) ao processo de purificação na reinvenção poética capaz de tecer os sonhos para alimentar a alma do homem cabo-verdiano.

A escritura de Vera Duarte constrói-se a partir da ruptura com as formas canônicas do verso, demarcadoras dos limites entre a prosa e a poesia. Ela elabora seus textos livremente com o intuito de se libertar das amarras a que está submetido o sujeito, símbolo daquelas vozes que encontram na poesia a invocação à natureza.

Vozes pedindo chuva...
tuas rochas pedindo chuva...
terra à espera de chuva
poemas de chuva caindo

(Duarte, Vera. p.78).

Para concluir o panorama literário das vozes femininas dos países de língua portuguesa, convoca-se aqui Paulina Chiziane, autora de A balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1995), O sétimo juramento (2000) e Niketche, uma história de poligamia (2002). Estas duas últimas obras criticam os costumes e a postura patriarcal da sociedade moçambicana, e também a prática de obter o poder a qualquer preço. Estas obras distintas têm em comum a denúncia dos tortuosos meios encontrados por um sistema social que silencia as vozes femininas em prol de uma valoração das ações e feitos masculinos.

Em O sétimo juramento os valores animistas constituem o foco da narrativa, que traz à tona uma prática recusada pelo sistema colonial, mas subentendida no comportamento sócio-cultural vigente durante o processo revolucionário moçambicano. No dizer de Ana Mafalda Leite (Literaturas africanas e formulações pós-coloniais, p.69), o "apagamento" das tradições religiosas animistas e a ocidentalização dos costumes levaram, por um lado, ao seu recrudescimento clandestino e, por outro, à incapacidade de defesa e compreensão comportamental que possibilitavam. O choque cultural se faz presente nesta passagem de O sétimo juramento:

− Diz-me, avó, pode o meu filho estar possesso, pode? − Os espíritos fazem a vítima sofrer. Abrem caminhos, fecham caminhos, transtornam. Dão cabo da cabeça, enlouquecem. (...) Estou a rever memórias do tempo antigo. (...) As almas não morrem, Vera, encarnam-se. E este filho nunca foi teu, nunca te pertenceu. Começa por decifrar o mistério do seu nome (...) No nome está a raiz do problema. Os antepassados sempre disseram A VITO I MPONDO (Chiziane, Paulina, p. 59).

Além da fragmentação conceitual acerca dos rituais do passado, visíveis na fala da personagem que protagoniza a cena de possessão do filho, constata-se no decorrer da leitura que ela se torna vítima da ambição de um homem que faz uma "viagem iniciática ao mundo dos mortos, não olhando a meios, sacrificando ritualmente a família, para conseguir os seus almejados objetivos" (Leite, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais, p. 70).

Neste cenário de poder masculino, a figura feminina encontra-se duas vezes violentada pelos códigos sociais estabelecidos: pelo patriarcado e pela ausência de conhecimento sobre as tradições religiosas da comunidade a que pertence, e que a ajudariam a compreender pelo menos os efeitos das ações daquele homem nos membros da família, quando estabelece um pacto com os «mundos infernais» para obter rapidamente o poder desejado.

A crítica aos costumes patriarcais destoantes em O sétimo juramento também será feita pela via da ironia em Nieketche, uma história de poligamia. Segundo Ana Mafalda Leite, Nieketche está inscrita numa linha narrativa feminina de crítica à poligamia, que se tornou recorrente no cenário literário de mulheres africanas que buscam denunciar por meio da paródia a «forma perversa como a poligamia foi adulterada na sociedade urbana, não se respeitando os direitos que as mulheres tinham na sociedade tradicional» (Leite, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais, p. 70).

Entre os temas propostos pelas escritoras, está o repensar da condição feminina, num cenário social marcado pela opressão, pela submissão feminina e pelas guerras coloniais que silenciaram a confraternização presente no ritual do contar estórias em volta das fogueiras. Mas há também lugar para o amor revivificado na intersecção dos tempos, ponto de convergência entre tradição e modernidade.

A poética e a prosa femininas nas comunidades africanas de língua portuguesa colocam o leitor diante de cenas e sinais de mulheres em espera e ação, em silêncio e canto, em cansaço e renovação, metaforizadas por vozes marcadamente orais que aproximam os sentidos na reescrita literária, reinventando imageticamente o papel da mulher nessas comunidades.

Notas

Professora Doutora Substituta da Universidade Estadual do Estado do Rio de Janeiro -UERJ

.

in

união dos escritores angolanos