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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Manuel António Pina - Café Orfeu

Café Orfeu
Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
* Manuel António Pina

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.

E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.


terça-feira, 28 de abril de 2020

Manuel António Pina - O medo

* Manuel António Pina

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

sábado, 19 de outubro de 2019

Manuel Antonio Pina - A pensar de pernas para o ar

 * Manuel Antonio Pina

Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Manuel António Pina - A poesia vai acabar

* Manuel António Pina


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -

domingo, 26 de novembro de 2017

Manuel António Pina . Não o Sonho


Gravura  - Gerhard Glueck


Manuel António Pina,


Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.


Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Manuel António Pina - A poesia vai acabar

* Manuel António Pina 


A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não 
acabarem). esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive de voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
– Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


Manuel António Pina, Poesia, saudade da prosa.

sábado, 1 de abril de 2017

Manuel António Pina - Primeiro sabem-se as respostas, as perguntas chegam depois

* Manuel António Pina


Primeiro sabem-se as respostas. 
As perguntas chegam depois, 
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas. 

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado? 
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado. 

Porquê, tão tardo, o passado? 
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas? 
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas, 
e de poços, e de portas entreabertas, 
e sonham no escuro
as coisas inacabadas. 

Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

poesia de manuel antónio pina



* Manuel António Pina

TRANSFORMA-SE A COISA ESCRITA NO ESCRITOR


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.


(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.


Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.


~~~~~~~~~~~

Tenho a sensação de não estar onde não estou,
de já ter passado qualquer coisa que já se passou,
e de ter a sensação passada de sentir-me a não estar lá,
suspenso sobre a Literatura.


~~~~~~~~~~

Kindergarten


As filhas brincam fora de o quê, 
que infinitamente se interroga?
O fora de elas é dentro
de que exterior centro?

Quem está lá aqui
assistindo a isto e a mim,
e às filhas brincando e ao jardim?
Que coisa essencial em qualquer sítio perdi?

Também eu ou alguém brincou há muito tempo
em outro jardim, brincando.
Sem que palavras lá estando?
Fora de que memória não me lembrando?


~~~~~~~~~~~~

Teoria das cordas

Não era isso que eu queria dizer, 
queria dizer que na alma 
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve, 
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada, 
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente, 
um vazio no vazio, vagamente ciente 
de si, não haver resposta
nem segredo.


~~~~~~~~~~~~~~~~~~

O nome do cão

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,
nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava


ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.

E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.

Então sonhava
o sonho sólido que existia.
E não compreendia.

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.

Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: " É a vida..."


~~~~~~~~~~~~~~~~~

O segundo gato 

Em cada gato há outro gato 
um pouco menos exacto 
e um pouco menos opaco. 

Um gato incoincidente 
com o gato, iridescente, 
caminhando à sua frente 

ou a seu lado, 
espírito alado 
do que é terrestre no gato. 

É o segundo gato 
que permanece acordado 
com o gato afundado 

em sono abstracto, 
aos seus pés enrolado, 
espécie de gato do gato. 

Ou que, mais tardo, 
deambula pela sala 
enquanto o gato se lava, 

às vezes assomando 
nos olhos do gato 
como um passado imóvel e 

enclausurado. 
O próprio gato 
não sabe 

que anda por ali 
algo que não cabe 
dentro nem fora de si. 


~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Cálculo e elegia

Quantos dos que conheci
(se é que sempre os conheci)
homens, mulheres
(se é que ainda vigora esta diferença)
passaram este limiar
(se é isto limiar)
atravessaram esta ponte
(se ponte se lhe pode chamar) – 

Quantos após uma existência mais curta ou mais comprida
(se é que para eles persiste a diferença),
boa porque começou,
má porque teve um fim
(se é que não queriam tê-lo dito inversamente), 
se encontraram na outra margem
(se é que se encontraram
e a outra margem existe ) –

Certeza alguma me é dada
da sorte que os espera
(se comum destino há
ou mesmo até um destino) -

Tudo
(se com esta palavra não crio limites) 
deixaram para trás / (se é que não à frente) –

Quantos não saltaram do tempo vertiginoso 
para cada vez mais ternamente ao longe se sumirem
(se é que adianta crer na perspectiva) – 

Quantos
(se é que a pergunta tem sentido, 
se é que é possível alcançar a soma derradeira
antes que o que conta a si também se conte ) 
caíram nesse sonho mais fundo
(se é que não há outro mais fundo ainda) –

Adeus.
Até amanhã. 
Até à próxima. 
Já não o querem
(se é que não) repetir. 
Adstritos a um interminável
(se é que não outro) silêncio. 
Ocupados só com aquilo
(se é que só) 
a que os obriga a ausência.


~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Schweizer Hof Hotel

Já aqui estive, já fiz esta viagem, 
e estive neste bar neste momento
e escrevi isto diante deste espelho
e da minha imagem diante da minha imagem.

Não mudou nada, nem eu próprio; a mão
escreve os mesmos versos no papel obscuro.
Que aconteceu então fora de tudo?
De que esquecimento se lembra o coração? 

Algum passado, alguma ausência, 
se passam talvez a meu lado, 
talvez tudo exista exilado
de alguma verdadeira existência. 

E eu, os versos, o bar, o espelho, 
sejamos só imagens noutro espelho
diante de algum Deus em cujo lasso 
olhar se fundem outro e mesmo, tempo e espaço.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

um poema de Manuel António Pina

`* Manuel António Pina

Primeiro sabem-se as respostas. 
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas.
Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.
Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança
se recolhem também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas inacabadas.
Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Manuel António Pina - Depois

Primeiro sabem-se as respostas. 
As perguntas chegam depois, 
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas. 

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado? 
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado. 

Porquê, tão tardo, o passado? 
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas? 
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas, 
e de poços, e de portas entreabertas, 
e sonham no escuro
as coisas inacabadas. 

Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa.
.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Manuel António Pina - O ANO EM QUE O CALENDÁRIO AVARIOU

* Manuel António Pina

Foi numa noite de Natal.

Estávamos em maio mas não fazia mal,
tinha havido uma avaria no calendário
e naquele ano saiu tudo ao contrário:
o Natal em maio, a primavera em novembro,
o 1.º de abril a 22 de setembro.

Eu que tenho mais de 100 anos não
me lembro de ter feito tanto calor como em dezembro.

Houve semanas com cinco dias, outras inteiras,
uma em julho teve 16 segundas-feiras!

Até houve a semana dos nove dias.

Muitas promessas foram naquele ano cumpridas!

Foi um ano tão maluco,
tão completamente bissexto,
que para muitos serviu de pretexto
para trocar as voltas ao calendário
e festejar todos os dias o aniversário.

Naquele ano espantoso
cada um podia ter à vontade
as suas manias
porque todos os dias
eram todos os dias.

Eu que não sou menos que os demais,

naquele ano tive vinte natais

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Manuel António Pina, - Pensar de pernas para o ar

* JOANA LOPES

18.11.15
Manuel António Pina, 72 

Nasceu em 18 de Novembro de 1943 e morreu há três anos. Por mais banal que seja, nem por isso deixa de ser importante lembrar que continua a fazer-nos muita falta com as suas crónicas nconfundíveis e com os seus excelentes livros.

Neste momento tão especial da vida deste país, seria certamente uma voz bem forte e lúcida que nos daria força e alento para ler o momento presente e enfrentar o que aí vem – «A pensar de pernas para o ar»:

Pensar de pernas para o ar 
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

Manuel António Pina, in O país das pessoas de pernas para o ar


http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2015/11/manuel-antonio-pina-72.html

sábado, 19 de outubro de 2013

Manuel António Pina - no 1º aniversário da sua morte





* Manuel António Pina - no 1º aniversário da sua morte

 ~~~ 

O LIVRO


É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando coma nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Poema de Manuel António Pina, "como se desenha uma casa", edição Assírio & Alvim, 2011