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sábado, 14 de novembro de 2015

Voltaire e o Fanatismo, no Dicionário Filosófico





Voltaire, Dicionário Filosófico, excertos do artigo “Fanatismo”:
Resumindo, todos os horrores de quinze séculos podem ser renovados num só, desde as pessoas sem defensa chacinadas aos pés dos altares, dos reis esfaqueados ou envenenados, um vasto Estado reduzido a metade pelos seus próprios cidadãos, desde a nação mais belicosa até à mais pacífica dividida pela espada desembainhada entre o pai e o filho, os usurpadores, os tiranos, os executores, os parricidas e os sacrilégios violando todas as convenções divinas e humanas pelo espirito da religião: cá está a história do fanatismo e dos feitos.
Não há outro remédio a esta maldita epidemia que o espirito filosófico, que espalha, passo a passo, os costumes dos homens e que impede os acessos do mal. As leis e a religião não chegam para lutar contra a peste das almas. A religião, longe de ser um alimento salutar, torna-se um veneno nos cérebros infectados. Os miseráveis inspiram-se sem cessar no exemplo de Aod que assassinou o rei Églon; de Judith que cortou a cabeça de Holopherne enquanto dormia com ele; de Samuel que desfez o Rei Agag; do padre Joad que assassinou a sua rainha etc. etc. Eles não percebem que estes exemplos, que são respeitáveis na Antiguidade, são abomináveis no tempo presente: eles põem a sua loucura na própria religião que os condena.
O que podemos responder a um homem que te diz que prefere obedecer a Deus que aos homens e que em consequência disso ele está certo de merecer o céu por te matar?
Os líderes dos fanáticos, que colocam os punhais nas suas mãos, são uns velhacos maliciosos. Eles assemelham-se ao Velho da montanha que, diz-se, deu às pessoas fracas uma pequena amostra do paraíso, prometendo-lhes uma eternidade de tais prazeres, desde que eles matassem todos aqueles que ele lhes ordenasse. Em todo o mundo só uma religião não foi conspurcada pelo fanatismo, a dos literatos chineses. Quanto aos filósofos, em vez de serem infectados por essa pestilência, eles foram um remédio contra ela pois o efeito da filosofia é compor a alma e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Relativamente à nossa santa religião ter sido tão corrompida por estes infernais impulsos, é a loucura dos homens que se deve culpar.


http://aventar.eu/2015/11/14/o-que-responder/ 

Dicionário Filosófico. Autor: François-Marie Arouet (Voltaire)
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000022.pdf

sábado, 6 de agosto de 2011

Pangloss - Why not the best?

Up@dawn

reflections caught at daybreak

Why not the best?

September 23, 2009
leibniz
bniz: this universe must be in reality better than every other
possible universe…Leibniz
This universe must be in reality better than every other possible universe Gottfried WilhelmLeibniz (1646-1716)
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Dr. Pangloss taught metaphysico- theologo- cosmolonigology. He could prove that there is no effect without a cause; and, that in this best of all possible worlds, the Baron’s castle was the most magnificent of all castles, and My Lady the best of all possible baronesses.
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“It is demonstrable,” said he, “that things cannot be otherwise than as they are; for as all
pangloss things have been created for some end, they must necessarily be created for the best end. Observe, for instance, the nose is formed for spectacles, therefore we wear spectacles. The legs are visibly designed for stockings, accordingly we wear stockings… Voltaire(1694-1778), Candide
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So she’s like all “problem of evil.” And I’m like, “theodicy, barmaid, theodicy!”


..if you wish for superficiality incarnate, you have only to read that charmingly written Theodicyof Leibniz, in which he sought to justify the ways of God to man, and to prove that the world we live in is the best of possible worlds… William James, Pragmatism 
wj



Philosopher Susan Neiman reminds us that eighteenth century thinkers like Voltaire saw the great Lisbon earthquake as a metaphysically game-changing event.
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For some, Lisbon lessened either God’s beneficence or his power.
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For others, the quake lessened their estimation of human reason  and a reasonable world. Nature, according to enlightened minds,  was a benign and intelligible force. Its well-oiled operation  reflected the intelligence and skill of a designer God. Could we,  though, retain our confidence in reason, and thus in God’s ways,  in the rubble of Lisbon?
voltaire
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Where are our Voltaires, spotlighting the suffering wrought by natural phenomena (Katrina, quakes, tsunamis, tornadoes et al) and the challenges they pose to any rational theist?


Well, there’s Bart Ehrman. (BTW: Ehrman is a former classmate of my colleague Mike Hinz. We hope to bring him to our fair campus next year.) He’s a respected Bible scholar at the University of North Carolina who until quite recently considered himself a devout Christian.
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The leading reason given by atheists and agnostics for their disbelief is the problem of suffering or evil. David Hume put it this way, in Dialogues Concerning Natural Religion: “Epicurus’ old questions are yet unanswered. Is God willing to prevent evil, but not able? Then he is impotent. Is he able, but not willing? Then he is malevolent. Is he both able and willing? Whence then is evil?”
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In God’s ProblemEhrman joins the skeptics. He writes:  “the Bible fails to answer our most important question– why we suffer.” Suffering, he says, “is not only senseless, it is also random, capricious, and unevenly distributed… Why are the sick wracked with unspeakable pain? Why are babies born with birth defects? Why are young children kidnapped, raped, and murdered? Why does a child die  of hunger every five seconds?”
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That was Dostoevsky’s question too, in Brothers Karamazov (Book V, Ch. 4 – “Rebellion”), where Ivan asks:  ”Are you fond of children, Alyosha? I know you are, and you will understand why I prefer to speak of them. If they, too, suffer horribly on earth, they must suffer for their fathers’ sins, they must be punished for their fathers, who have eaten  the apple; but that reasoning is of the other world and is incomprehensible for the heart of man here on earth…
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dostoevsky
I renounce the higher harmony altogether. It’s not worth the tears of that one tortured child who beat itself on the breast with its little fist and prayed… to ’dear, kind God’! It’s not worth it, because those tears are unatoned for. They must be atoned for, or there can be no harmony.”


So is Ehrman the Christian-cum-agnostic in despair about evil? No. “The solution to life is to enjoy it while we
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ecclesiastes
 can, because it is fleeting. The idea that this life is all there is should not be an occasion for despair and despondency. It should be a source of joy and dreams—joy of living for the moment, and dreams of trying to make the world a better place… This means working to alleviate suffering.”


Finally, consider a somewhat banal analogy. “Suppose you found yourself at school in a dormitory. Things are not too good.  The roof leaks, there are rats, the food is almost inedible, some students in fact starve to death.
dorm
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There is a closed door, behind which is the management, but the management never comes out. You get to speculate what the management must be like. Can you infer from the dormitory as you find it that the management, first, knows… …exactly what conditions are like, second, cares intensely for your welfare, and third, possesses unlimited resources for fixing things? The inference is crazy. You would be almost certain to infer that either the management doesn’t know, doesn’t care, or cannot do anything about it. Nor does it make things any better if occasionally you come across a student who declaims that he has become privy to the mind of the management, and is assured that the management indeed knows, cares, and has resources and ability to do what it wants. The overwhelming inference is not that the management is like that, but that this student is deluded. Perhaps his very deprivations have deluded him.” Simon Blackburn, Think


And perhaps belief runs hotter in nice dorms. Should it?
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http://osopher.wordpress.com/2009/09/23/why-not-the-best/

Cândido ou o otimista - Voltaire



Recanto das Letras


O MELHOR DOS MUNDOS

“... as coisas não podem ser de outro modo: pois, como tudo foi criado para uma finalidade, tudo está necessariamente destinado à melhor finalidade.”Cândido ou o otimistaVoltaireCândido vive como agregado no castelo de um dos homens mais poderosos do local e tem como preceptor o mestre Pangloss. Durante toda sua vida aprendeu que deveria compreender todos os acontecimentos da melhor forma possível, pois nasceu como uma inserção possível no melhor dos mundos, e alimenta sua grande paixão por Cunegundes, filha do Barão que o abriga.O enredo nos surpreende com uma sucessão de desgraças: Cândido é expulso do castelo por ser surpreendido no único encontro com Cunegundes, Mestre Pangloss é enforcado, dissecado e reaparece vivo com explicações absurdas, Cunegundes se prostitui, envelhece carcomida por infortúnios... Os personagens cruzam o mundo em busca de um encontro possível, mas estão naufragados num mar de otimismo irracional.O leitor é contagiado pela ironia de Voltaire. As diferenças sociais, os preconceitos, os idealismos exacerbados, as guerras permanentes e não motivadas, os inocentes, a corrupção... Ricos argumentos para a vida de Cândido que teima em “sustentar que tudo está bem quando tudo está mal”, segundo os ensinamentos de Pangloss.O velho sábio Martinho enriquece as vivências de Cândido. Surge como acompanhante e transforma-se no contraponto necessário às percepções que só encontram alicerces na filosofia ministrada por Pangloss. No trajeto final, é o olhar realista das sombras fragmentadas de desgraças e realizações que insistem em manter os caminhos primitivos e sacramentam, definitivamente, a impossibilidade de uma visão conformista e otimista.Martinho é maniqueísta e não espera coisa alguma do mundo ou das pessoas. Seu olhar é realista, apesar de tão aviltante. “Por toda a parte os fracos abominam os poderosos perante os quais rastejam, e os poderosos os tratam como rebanhos de que vendem a lã e a carne”“- Que mundo é este?” A indagação costura as mazelas do protagonista e encontra diversas respostas: “o melhor dos mundos possíveis” de Pangloss ou “alguma coisa de louco e abominável” de Martinho.A grande lição é dada pelo velho turco que passou a vida cuidando de sua família dentro dos limites de sua propriedade: “aqueles que se metem em negócios públicos acabam miseravelmente”. A vida de sua família está em harmonia: plantam e colhem os frutos do trabalho no pequeno sítio. O homem, distante das pretensões intelectuais, ensina aos filhos que o trabalho afasta os três grandes males: “o tédio, o vício e a necessidade”.Cândido retorna para a propriedade. Sua vida realizou-se à margem do ideal. Cunegundes, a donzela desejada, só se transformou em realidade quando já velha e gasta. Os sábios ainda tentam travar os embates filosóficos, contudo, a platéia sucumbiu às intempéries sem âncoras previdentes. Os personagens enforcaram-se nos nós cotidianos, dissecaram suas intimidades nas possíveis relações e se iludiram com ideais extemporâneos.“O melhor dos mundos possíveis...” Após ouvir que todos os acontecimentos estavam encadeados da melhor forma possível no melhor dos mundos. Cândido encerra nossa leitura: “Tudo isso está bem dito... mas devemos cultivar nosso jardim.”Voltaire escreveu “Cândido ou o otimista” quando conseguir superar todas as prisões, intrigas e infortúnios que marcaram sua história. Nos últimos vinte anos, viveu em companhia da sobrinha num domínio de Ferney, na província de Gex, quando transformou a fazenda maltratada numa terra produtiva. Cândido e Pangloss foram concebidos neste período de estabilidade, quando o escritor elaborou suas vivências e conhecimentos, costurando uma de suas obras mais conhecidas e respeitadas.Contudo, Voltaire permanecia envolvido com os “negócios públicos”: ao defender a família de um jovem que se suicidara, Calas, iniciou uma luta por todos os que lhe pareciam injustiçados, incluindo a defesa do jovem La Barre, acusado de mutilar crucifixos.Muitos sábios como Pangloss sobrevivem e espalham suas idéias otimistas, tentando ludibriar cândidos e inocentes com a certeza dos melhores mundos. Diversos artigos e ensaios costuram os personagens de Voltaire em contextos econômicos e sociais atuais e tentam satirizar alguns protagonistas contemporâneos. Alguns meios de comunicação sustentam que tudo está bem quando tudo está mal.Mas... Infelizmente estes são os negócios públicos que causam a miséria aos que se envolvem sem defesas e com fortes idealismos. Na construção do mundo possível, o homem deve se estruturar com todas as ferramentas ao seu alcance. Uma ampla visão da humanidade, suas contradições e convergências, e uma segura restrição de sua inserção nas causas sociais nas possibilidades de realizações e conquistas pessoais. O homem é a realidade que laborada com empenho gera frutos e escreve a verdadeira filosofia com atitudes legítimas.O mundo não é bom ou mau, é apenas um mundo que deve ser encarado com força e coragem.Tudo está bem dito. E você, leitor, já cultivou o seu jardim?
Helena Sut

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Biblioteca de Nova York celebra 250 anos de 'Cândido', de Voltaire

 http://i.s8.com.br/images/books/cover/img7/11267_4.jpg
 
Qui, 29 Out, 04h51

NOVA YORK, EUA (AFP) - A Biblioteca Pública de Nova York inaugura nesta sexta-feira uma exposição dedicada ao livro "Candide", "Cândido", de Voltaire, um conto filosófico, 250 anos depois de ter provocado um escândalo na Europa.


A mostra inclui as 17 edições de 1759 desse pequeno livro e o único manuscrito conhecido, corrigido de próprio punho pelo escritor (1694-1778).
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A exposição, que permanecerá aberta até o próximo 25 de abril, inclui, além disso, edições posteriores - até versões em quadrinhos - e documentos sobre obras de teatro, além de uma ópera inspirada no livro.
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Em seu conto, Voltaire parte da constatação de que a história do ser humano é "uma série de desgraças inúteis" sem sentido, ao contrário do que professam algumas religiões, incluindo a cristã.
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No final, depois de um longo périplo pelo mundo durante o qual passa por várias desventuras e lamenta que a mulher de seus sonhos tornou-se feia e amarga, Cândido recomenda como filosofia de vida "cultivar nosso próprio jardim".
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"Cândido é uma sátira maliciosa e divertida com muitos alvos", disse Paul LeClerc, diretor da biblioteca, que disse à AFP ser admirador de Voltaire e fanático pelo livro desde a adolescência.
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Segundo LeClerc, "sob uma enganosa leviandade, há uma busca profunda sobre como a humanidade deve compreender e enfrentar a maldade no mundo".
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O livro conheceu um sucesso fulgurante, com 20.000 exemplares publicados no ano de seu lançamento. "Voltaire foi famoso em vida, a primeira estrela do rock literário", disse LeClerc.
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Pelo tratamento satírico de temas como a religião, a sexualidade e o poder, Cândido foi alvo da censura na França e no Vaticano, o que provavelmente não contribuiu, senão, para exacerbar sua popularidade.
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Entre os objetos incluídos na exposição de Nova York se destaca uma carteira de couro vermelho com o nome gravado do escritor em letras douradas e com a qual Voltaire viajava pela Europa do século XVIII.


Biblioteca de Nova York celebra 250 anos de 'Cândido', de Voltaire  Foto:/AFP
Foto: AFP: Biblioteca de Nova York celebra 250 anos de 'Cândido', de Voltaire Foto:/AFP
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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Poème sur le désastre de Lisbonne - Voltaire


Há 250 anos, Lisboa tornava-se no centro das atenções por via de um terrível acontecimento - um devastador terramoto, com epicentro 200 km a sul do Cabo de São Vicente.
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Na altura, Lisboa era uma das capitais mais bonitas da Europa, com uma população estimada de 250.000 habitantes. A violência do sismo precipitou milhares de pessoas para o Rio Tejo onde, cerca de 30 minutos mais tarde, seriam engolidas pelas ondas gigantes resultantes do Tsunami.
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O balanço final estimou-se em cerca de 60.000 mortos.
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Hoje realizamos aquilo por que Lisboa terá passado.
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A memória das imagens de Dezembro de 2004 não nos permite esquecer..



Recentemente, foi lançado um livro sobre o assunto.
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O autor é João Duarte Fonseca e esta excelente obra foi editada pela Argumentum. Bilingue - em português e inglês, vale a pena percorrer este livro, onde um pouco da nossa história nesse período está muitíssimo bem documentada.


Earthquake at Lisbon, 1755

Em 1756, Voltaire afirmava que "all for the best" dita em sentido lato, sem ter em conta a esperança no futuro, era um insulto à nossa pobre existência.
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Escreveu então o Poème sur le désastre de Lisbonne que gerou alguma polémica, alimentada por Jean-Jacques Rousseau, que o acusou de unicamente proferir tal afirmação na qualidade de intelectual privilegiado; fôra Voltaire camponês e a conversa seria outra.
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Hoje prova-se que Rousseau estava enganado.
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Os media contribuem enormemente para a solidariedade entre os homens.


Poème sur le désastre de Lisbonne

O malheureux mortels! ô terre déplorable!
O de tous les mortels assemblage effroyable!
D'inutiles douleurs éternel entretien!
Philosophes trompés qui criez: "Tout est bien"
Accourez, contemplez ces ruines affreuses
Ces débris, ces lambeaux, ces cendres malheureuses,
Ces femmes, ces enfants l'un sur l'autre entassés,
Sous ces marbres rompus ces membres dispersés;
Cent mille infortunés que la terre dévore,
Qui, sanglants, déchirés, et palpitants encore,
Enterrés sous leurs toits, terminent sans secours
Dans l'horreur des tourments leurs lamentables jours!
Aux cris demi-formés de leurs voix expirantes,
Au spectacle effrayant de leurs cendres fumantes,
Direz-vous: "C'est l'effet des éternelles lois
Qui d'un Dieu libre et bon nécessitent le choix"?
Direz-vous, en voyant cet amas de victimes:
"Dieu s'est vengé, leur mort est le prix de leurs crimes"?
Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants?
Lisbonne, qui n'est plus, eut-elle plus de vices
Que Londres, que Paris, plongés dans les délices?
Lisbonne est abîmée, et l'on danse à Paris.
Tranquilles spectateurs, intrépides esprits,
De vos frères mourants contemplant les naufrages,
Vous recherchez en paix les causes des orages:
Mais du sort ennemi quand vous sentez les coups,
Devenus plus humains, vous pleurez comme nous.
Croyez-moi, quand la terre entrouvre ses abîmes
Ma plainte est innocente et mes cris légitimes
Partout environnés des cruautés du sort,
Des fureurs des méchants, des pièges de la mort
De tous les éléments éprouvant les atteintes,
Compagnons de nos maux, permettez-nous les plaintes.
C'est l'orgueil, dites-vous, l'orgueil séditieux,
Qui prétend qu'étant mal, nous pouvions être mieux.
Allez interroger les rivages du Tage;
Fouillez dans les débris de ce sanglant ravage;
Demandez aux mourants, dans ce séjour d'effroi
Si c'est l'orgueil qui crie "O ciel, secourez-moi!
O ciel, ayez pitié de l'humaine misère!"
"Tout est bien, dites-vous, et tout est nécessaire."
Quoi! l'univers entier, sans ce gouffre infernal
Sans engloutir Lisbonne, eût-il été plus mal?
Etes-vous assurés que la cause éternelle
Qui fait tout, qui sait tout, qui créa tout pour elle,
Ne pouvait nous jeter dans ces tristes climats
Sans former des volcans allumés sous nos pas?
Borneriez-vous ainsi la suprême puissance?
Lui défendriez-vous d'exercer sa clémence?
L'éternel artisan n'a-t-il pas dans ses mains
Des moyens infinis tout prêts pour ses desseins?
Je désire humblement, sans offenser mon maître,
Que ce gouffre enflammé de soufre et de salpêtre
Eût allumé ses feux dans le fond des déserts.
Je respecte mon Dieu, mais j'aime l'univers.
Quand l'homme ose gémir d'un fléau si terrible
Il n'est point orgueilleux, hélas! Il est sensible.
Les tristes habitants de ces bords désolés
Dans l'horreur des tourments seraient-ils consolés
Si quelqu'un leur disait: "Tombez, mourez tranquilles;
Pour le bonheur du monde on détruit vos asiles.
D'autres mains vont bâtir vos palais embrasés
D'autres peuples naîtront dans vos murs écrasés;
Le Nord va s'enrichir de vos pertes fatales
Tous vos maux sont un bien dans les lois générales
Dieu vous voit du même oeil que les vils vermisseaux
Dont vous serez la proie au fond de vos tombeaux"?
A des infortunés quel horrible langage!
Cruels, à mes douleurs n'ajoutez point l'outrage.
Non, ne présentez plus à mon coeur agité
Ces immuables lois de la nécessité
Cette chaîne des corps, des esprits, et des mondes.
O rêves des savants! ô chimères profondes!
Dieu tient en main la chaîne, et n'est point enchaîné
Par son choix bienfaisant tout est déterminé:
Il est libre, il est juste, il n'est point implacable.
Pourquoi donc souffrons-nous sous un maître équitable?
Voilà le noeud fatal qu'il fallait délier.
Guérirez-vous nos maux en osant les nier?
Tous les peuples, tremblant sous une main divine
Du mal que vous niez ont cherché l'origine.
Si l'éternelle loi qui meut les éléments
Fait tomber les rochers sous les efforts des vents
Si les chênes touffus par la foudre s'embrasent,
Ils ne ressentent point des coups qui les écrasent:
Mais je vis, mais je sens, mais mon coeur opprimé
Demande des secours au Dieu qui l'a formé.
Enfants du Tout-Puissant, mais nés dans la misère,
Nous étendons les mains vers notre commun père.
Le vase, on le sait bien, ne dit point au potier:
"Pourquoi suis-je si vil, si faible et si grossier?"
Il n'a point la parole, il n'a point la pensée;
Cette urne en se formant qui tombe fracassée
De la main du potier ne reçut point un coeur
Qui désirât les biens et sentît son malheur
"Ce malheur, dites-vous, est le bien d'un autre être."
De mon corps tout sanglant mille insectes vont naître;
Quand la mort met le comble aux maux que j'ai soufferts
Le beau soulagement d'être mangé des vers!
Tristes calculateurs des misères humaines
Ne me consolez point, vous aigrissez mes peines
Et je ne vois en vous que l'effort impuissant
D'un fier infortuné qui feint d'être content.
Je ne suis du grand tout qu'une faible partie:
Oui; mais les animaux condamnés à la vie,
Tous les êtres sentants, nés sous la même loi,
Vivent dans la douleur, et meurent comme moi.
Le vautour acharné sur sa timide proie
De ses membres sanglants se repaît avec joie;
Tout semble bien pour lui, mais bientôt à son tour
Un aigle au bec tranchant dévore le vautour;
L'homme d'un plomb mortel atteint cette aigle altière:
Et l'homme aux champs de Mars couché sur la poussière,
Sanglant, percé de coups, sur un tas de mourants,
Sert d'aliment affreux aux oiseaux dévorants.
Ainsi du monde entier tous les membres gémissent;
Nés tous pour les tourments, l'un par l'autre ils périssent:
Et vous composerez dans ce chaos fatal
Des malheurs de chaque être un bonheur général!
Quel bonheur! ô mortel et faible et misérable.
Vous criez: "Tout est bien" d'une voix lamentable,
L'univers vous dément, et votre propre coeur
Cent fois de votre esprit a réfuté l'erreur.
Eléments, animaux, humains, tout est en guerre.
Il le faut avouer, le mal est sur la terre:
Son principe secret ne nous est point connu.
De l'auteur de tout bien le mal est-il venu?
Est-ce le noir Typhon, le barbare Arimane,
Dont la loi tyrannique à souffrir nous condamne?
Mon esprit n'admet point ces monstres odieux
Dont le monde en tremblant fit autrefois des dieux.
Mais comment concevoir un Dieu, la bonté même,
Qui prodigua ses biens à ses enfants qu'il aime,
Et qui versa sur eux les maux à pleines mains?
Quel oeil peut pénétrer dans ses profonds desseins?
De l'Etre tout parfait le mal ne pouvait naître;
Il ne vient point d'autrui, puisque Dieu seul est maître:
Il existe pourtant. O tristes vérités!
O mélange étonnant de contrariétés!
Un Dieu vint consoler notre race affligée;
Il visita la terre et ne l'a point changée!
Un sophiste arrogant nous dit qu'il ne l'a pu;
"Il le pouvait, dit l'autre, et ne l'a point voulu:
Il le voudra, sans doute"; et tandis qu'on raisonne,
Des foudres souterrains engloutissent Lisbonne,
Et de trente cités dispersent les débris,
Des bords sanglants du Tage à la mer de Cadix.
Ou l'homme est né coupable, et Dieu punit sa race,
Ou ce maître absolu de l'être et de l'espace,
Sans courroux, sans pitié, tranquille, indifférent,
De ses premiers décrets suit l'éternel torrent;
Ou la matière informe à son maître rebelle,
Porte en soi des défauts nécessaires comme elle;
Ou bien Dieu nous éprouve, et ce séjour mortel
N'est qu'un passage étroit vers un monde éternel.
Nous essuyons ici des douleurs passagères:
Le trépas est un bien qui finit nos misères.
Mais quand nous sortirons de ce passage affreux,
Qui de nous prétendra mériter d'être heureux?
Quelque parti qu'on prenne, on doit frémir, sans doute
Il n'est rien qu'on connaisse, et rien qu'on ne redoute.
La nature est muette, on l'interroge en vain;
On a besoin d'un Dieu qui parle au genre humain.
Il n'appartient qu'à lui d'expliquer son ouvrage,
De consoler le faible, et d'éclairer le sage.
L'homme, au doute, à l'erreur, abandonné sans lui,
Cherche en vain des roseaux qui lui servent d'appui.
Leibnitz ne m'apprend point par quels noeuds invisibles,
Dans le mieux ordonné des univers possibles,
Un désordre éternel, un chaos de malheurs,
Mêle à nos vains plaisirs de réelles douleurs,
Ni pourquoi l'innocent, ainsi que le coupable
Subit également ce mal inévitable.
Je ne conçois pas plus comment tout serait bien:
Je suis comme un docteur, hélas! je ne sais rien.
Platon dit qu'autrefois l'homme avait eu des ailes,
Un corps impénétrable aux atteintes mortelles;
La douleur, le trépas, n'approchaient point de lui.
De cet état brillant qu'il diffère aujourd'hui!
Il rampe, il souffre, il meurt; tout ce qui naît expire;
De la destruction la nature est l'empire.
Un faible composé de nerfs et d'ossements
Ne peut être insensible au choc des éléments;
Ce mélange de sang, de liqueurs, et de poudre,
Puisqu'il fut assemblé, fut fait pour se dissoudre;
Et le sentiment prompt de ces nerfs délicats
Fut soumis aux douleurs, ministres du trépas:
C'est là ce que m'apprend la voix de la nature.
J'abandonne Platon, je rejette Epicure.
Bayle en sait plus qu'eux tous; je vais le consulter:
La balance à la main, Bayle enseigne à douter,
Assez sage, assez grand pour être sans système,
Il les a tous détruits, et se combat lui-même:
Semblable à cet aveugle en butte aux Philistins
Qui tomba sous les murs abattus par ses mains.
Que peut donc de l'esprit la plus vaste étendue?
Rien; le livre du sort se ferme à notre vue.
L'homme, étranger à soi, de l'homme est ignoré.
Que suis-je, où suis-je, où vais-je, et d'où suis-je tiré?
Atomes tourmentés sur cet amas de boue
Que la mort engloutit et dont le sort se joue,
Mais atomes pensants, atomes dont les yeux,
Guidés par la pensée, ont mesuré les cieux;
Au sein de l'infini nous élançons notre être,
Sans pouvoir un moment nous voir et nous connaître.
Ce monde, ce théâtre et d'orgueil et d'erreur,
Est plein d'infortunés qui parlent de bonheur.
Tout se plaint, tout gémit en cherchant le bien-être:
Nul ne voudrait mourir, nul ne voudrait renaître.
Quelquefois, dans nos jours consacrés aux douleurs,
Par la main du plaisir nous essuyons nos pleurs;
Mais le plaisir s'envole, et passe comme une ombre;
Nos chagrins, nos regrets, nos pertes, sont sans nombre.
Le passé n'est pour nous qu'un triste souvenir;
Le présent est affreux, s'il n'est point d'avenir,
Si la nuit du tombeau détruit l'être qui pense.
Un jour tout sera bien, voilà notre espérance;
Tout est bien aujourd'hui, voilà l'illusion.
Les sages me trompaient, et Dieu seul a raison.
Humble dans mes soupirs, soumis dans ma souffrance,
Je ne m'élève point contre la Providence.
Sur un ton moins lugubre on me vit autrefois
Chanter des doux plaisirs les séduisantes lois:
D'autres temps, d'autres moeurs: instruit par la vieillesse,
Des humains égarés partageant la faiblesse
Dans une épaisse nuit cherchant à m'éclairer,
Je ne sais que souffrir, et non pas murmurer.
Un calife autrefois, à son heure dernière,
Au Dieu qu'il adorait dit pour toute prière:
"Je t'apporte, ô seul roi, seul être illimité,
Tout ce que tu n'as pas dans ton immensité,
Les défauts, les regrets, les maux et l'ignorance."
Mais il pouvait encore ajouter l'espérance.

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in Luminescencias publicado por ABA @ 01:50

O Poema sobre o Desastre de Lisboa - Voltaire



:: O Poema sobre o Desastre de Lisboa - Voltaire (2005)

Volto agora atrás no que disse, como começa a acontecer-me com alguma frequência. Suponho que seja sinal da passagem do tempo, mudarmos mais vezes de ideias. Ou então não. Depois de uma primeira tentativa de ler – há tanto tempo… – Voltaire em poesia, com a gesta de Henrique IV, reincido, com o poema que o escritor e filósofo francês dedicou ao terramoto de Lisboa de 1755 – O Poema sobre o Desastre de Lisboa. Ao contrário de muitos, eu engano-me, hesito, mudo de ideias.
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Voltaire (François-Marie Arouet adoptou este anagrama quando de uma das suas encarcerações na Bastilha) nasceu em 1694 e morreu em 1778. De certa forma, até pela provecta idade com que morreu, o autor simboliza o espírito do seu tempo, o século dezoito: atravessou os seus mais importantes acontecimentos e ergueu uma obra portentosa, em que cumpre destacar a ficção – Zadig, Nicromegas, Cândido – e a filosofia – Elementos da Filosofia de Newton, Cartas Filosóficas –, embora a poesia tenha sido, na verdade, o seu primeiro apelo – épica, como o pediam os modos do século – Édipo e Henriada.
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Traduzido por V. Graça Moura, o poema de Voltaire, publicado em edição bilingue (sempre um ponto a favor, na minha opinião) pela Alêtheia, começa por ser um objecto apelativo (passe o assomo de estética valorativa), na sua elegante sobriedade (no que se inclui o bom gosto demonstrado na escolha do papel da capa e do interior do pequeno livro), nos seus tipos bem seleccionados, nas gravuras que enriquecem o opúsculo, nas notas que o tradutor disponibiliza (de Voltaire e de anteriores editores do francês), na disposição, enfim, das matérias da leitura. Prossegue com a qualidade da tradução (que não da revisão, que, essa, deixa muito a desejar e dá muito que criticar), na mão hábil de Graça Moura, num trabalho que faz jus à nobreza do seu percurso (como mero exemplo, atente-se no modo como o tradutor verteu o trecho voltairiano «Tous les peuples, tremblant sous une main divine/ Du mal que vous niez ont cherché l'origine.»: «Cada povo, a tremer, sob uma mão divina,/ na origem para o mal que vós negais se obstina.» [pp. 40-41]) V.G.M. manteve o artifício da rima, logrando, com efeitos francamente notáveis, equilibrar-se, com firmeza e elegância, na dura camisa-de-forças do poema rimado de Voltaire.
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É Graça Moura, ele próprio, quem nos confidencia «a questionável qualidade literária do texto» (p.14), preferindo pôr em evidência, por um lado, a genealogia histórico-literária da obra de Voltaire, e, por outro, as forças pelo autor medidas com nomes como Pope, Leibnitz, ou Bayle. Mediante o fundo temático do poema voltairiano (e não «voltaireano», como mais de uma vez se lê; nem «por que é que»; nem «vou-o consultar» – por todas as entidades celestes, ó senhores revisores do meu país!), V.G.M. passa em revista obras de autores portugueses que, de certo modo, poderiam operar prenúncios ao poema de Voltaire. Assim se alinham nomes como Gil Vicente, ou João Xavier de Matos. Parece-me particularmente profícua a análise que G. Moura leva a cabo, em torno dessa espécie de «batalha dos livros» travada entre Voltaire, por um lado, e Leibnitz e Pope (e não esqueçamos que Voltaire esteve exilado em Inglaterra e que conviveu com Pope, Swift e Locke), do outro – muito simplificando, opondo, do lado destes últimos, a perspectiva de que tudo está bem (que os leitores do Rascunho reconhecerão de outro trabalho de Voltaire), e, do lado do francês, a perspectiva de que, nos seus versos (p.45), «o mal está na terra».
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Poème sur le Desastre de Lisbonne é uma composição una – cujos versos correm com um só fôlego, ao modo de uma pequena épica – de teor especulativo e tom reflexivo, em que o autor discorre sobre a desgraça que impressionou a Europa setecentista (Kant escreveria sobre o terramoto de 1755), assim como a persona do poema voltairiano. Pathos encenado, por certo, mas em que, ainda assim (paradoxalmente), pelo clássico rigor da sua linguagem, assoma o vigor da vida, uma emoção que, de tão sabiamente elaborada em escrita, quase nos parece sincera, sangrada (e não será?) – «vós procurais em paz a causa às trovoadas» (p.37), nos diz a voz segura, pétrea do inviável poeta.
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Perante a desolação de Lisboa, figurada nas páginas de Voltaire (que, em fins de 1755, compôs o seu poema, o qual viria a lume logo no princípio do ano seguinte, em contrafacção [o mal não é de agora], para ser publicado, já com o beneplácito do autor e com os seus acrescentos, nesse mesmo ano), o autor increpa os que crêem ter o melhor dos mundos diante dos seus olhos, clamando contra a sua autocomplacência «Vinde pois, contemplai ruínas desoladas,/ restos, farrapos só, cinzas desventutradas» (p.35). De resto, poderíamos ler no seu poema um edifício retórico em que se pretende, desde os alicerces, erguer a persuasão, mover a virtual audiência, provar um ponto de vista – «Eu respeito o meu Deus, porém amo o universo [quer dizer, «Universo»].» (p.39) Nesse sentido, O Poema sobre o Desastre é uma composição filosófica – «Nada sabido é, nada há que não se tema. À natureza muda as questões pôr não vale» (p.47) – e religiosa – «Deus segura a cadeia e não é encadeado;/ seu benfazejo ser tudo há determinado;/ é livre e justo, e não cruel nem vingativo.» (p.41) –, servida por um rigoroso linguajar: rígido mas preciso, carregado mas vibrátil, o ínvio fulgor de um (neo-)clássico.

Hugo Santos 2007