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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Jorge Seabra - Carlucci e Companhia

 * Jorge Seabra  

Se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».


Créditos/ Jornal de Negócios  

Voltar ao passado pode parecer fútil num tempo em que se desenrolam importantes lutas pela reposição de direitos do trabalho e já cheio de temas «fracturantes», que um amigo, com humor, diz serem uma questão ortopédica.

Contudo, as memórias podem ajudar a perceber como algumas forças políticas se alinharam em tempos idos, escondendo, debaixo de um manto diáfano de belas frases, objectivos estratégicos ligados aos piores interesses.

Vem isto a propósito do recente falecimento de Frank Carlucci, antigo embaixador americano em Portugal entre 1975 e 78, indo depois ocupar o cargo de Director-adjunto da CIA (78-81).

«Durante o longo tempo em que esteve em Portugal, criou, com o futuro Presidente Mário Soares, uma cumplicidade estratégica essencial», – declarou o Presidente Marcelo, também ele um amigo de Frank Carlucci.

Na realidade, Carlucci esteve só três anos como embaixador em Portugal mas foi, de longe, o mais famoso de todos. E a forma como se fala dele é, agora, muito diferente. 

«Cumplicidade estratégica» entre Carlucci e Mário  Soares?...

Nos anos 70, se alguém o dissesse, corria o sério risco de ser apelidado de mentiroso, radical, sectário comunista! Mesmo o jovem Marcelo, ainda a adaptar-se à mudança por ter vivido sempre «encostado» à ditadura, talvez dissesse que nem conhecia o ianque…

A ligação aos USA e à CIA, então implicados no sangrento golpe de Pinochet, no Chile (1973), queimava. O presidente eleito, Salvador Allende, e a via pacífica para uma sociedade mais justa de matriz socialista, sucumbiam à violência da CIA que supervisionou a imposição de uma brutal ditadura. 

Um ano depois, em Portugal, a Revolução do Cravos, punha de novo o povo a berrar «o povo unido jamais será vencido» e outras coisas acabadas de silenciar à bala no Chile.

Para os USA, era mais uma intolerável chatice. Agora na Europa. Lá teria a CIA de fazer as malas e vir tratar do assunto. E foi o que fez. Demitiu o embaixador «normal» e enviou para cá um dos seus mais qualificados agentes em assuntos «especiais».

Carlucci era o homem. Tinha estado no Congo onde desempenhara um papel principal no assassinato de Lumumba, o mítico dirigente nacionalista africano, admirado em todo o mundo.

Obedecendo a Eisenhower (Robert Johnson, membro do National Security Council, confirmou depois ter ouvido o presidente dos USA dar a ordem para matar o primeiro-ministro congolês), Carlucci foi enviado para o Congo para tratar do assunto.

A CIA chegou a pensar usar armas químicas (método que agora se diz ser uma marca dos russos), mas o crime resolveu-se com a ajuda de belgas e catangueses.

«Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil "ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard" (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.»

O desaparecimento de Lumumba serviu para os americanos imporem Mobutu, um exemplo de democrata que matou todos os que vagamente se lhe opuseram na delapidação das riquezas do país. Anos depois, como detalhou a revista Afrique-Asie, a sua fortuna pessoal (incluindo um palacete isolado, frente ao mar, no Algarve), correspondia a toda a dívida externa do país.

Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil «ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard» (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.

A CIA apoiou e financiou os generais golpistas de extrema-direita (Ranieri Mazilli , Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e João Figueiredo), que instalaram um longo período de ditadura. E Carlucci lá estava a ajudar o Brasil a libertar-se de «comunas», intelectuais e cantores, manifestando mais uma vez o seu amor pela democracia, com prisões, torturas e assassinatos da «Operação Condor», aproveitando para aprender o português.

Chegado em Janeiro de 75, Frank Carlucci iniciou as suas funções de embaixador em Portugal, passando as primeiras semanas em… Madrid.
A estadia na capital espanhola aparece justificada, pelo Presidente Marcelo, por «razões de segurança».

Mas talvez essa questão fosse secundária, até porque Carlucci era um homem habituado a riscos que, de resto, em Portugal e em Janeiro de 75, nem eram demasiados.

A explicação será mais pragmática. Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP («Exército  de Libertação de Portugal»), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP («Movimento Democrático de Libertação de Portugal»), de Spínola, que queriam «libertar» a terra-pátria, supostamente dominada pelos «comunas». Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar. Em breve o ar em Portugal, principalmente a Norte, iria aquecer.

Como sumariza Jorge Sarabando, no seu livro O 25 de Novembro a Norte (que, com o de Miguel Carvalho, Quando Portugal Ardeu, constituem leituras obrigatórias para perceber o que se passou), «a estratégia delineada, sem nada de inteiramente novo que já não tivesse sido experimentado em outros teatros de operações, foi adaptada às circunstâncias, às forças em presença e ao perfil dos actores no terreno. Captar apoios militares, dividir o MFA e o movimento popular, impedir a coordenação dos centros de decisão, promover a sabotagem económica e a fuga de capitais, utilizar a chantagem económica e militar internacional, financiar organizações patronais e sindicais divisionistas, controlar a comunicação social, incentivar a instabilidade e o descrédito das instituições no quadro de uma escalada de insegurança e de tensão. Em pano de fundo, a defesa da liberdade supostamente ameaçada.»

Logo a 11 de Março de 75 deu-se o golpe falhado de Spínola, fugindo aos hábitos mais organizados de Carlucci. Mas o «Verão Quente» estava a chegar já com o trabalho adiantado, com os padres a pregarem contra os vermelhos e o terrorismo das bombas do ELP e do MDLP a incendiarem e matarem à esquerda, tudo enquadrado na «cumplicidade  estratégica essencial» de Carlucci com Soares, forjada «numa pequena cúpula do telhado da embaixada», longe dos olhares dos portugueses.

«Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP ("Exército de Libertação de Portugal"), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP ("Movimento Democrático de Libertação de Portugal"), de Spínola, que queriam "libertar" a terra-pátria, supostamente dominada pelos "comunas". Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar.»

«O doutor Soares e eu passávamos muitas horas aqui a conversar sobre os problemas políticos portugueses», disse o ex-embaixador dos USA, numa entrevista ao Público, em 23-9-2006.

E, entre Maio de 75 e Abril de 77, houve 566 acções terroristas, contabilizando 310 atentados à bomba, 194 assaltos e incêndios a sedes e centros de trabalho do PCP e de organizações de esquerda, 16 atentados a tiro.

«Uma onda de fundo do povo português», dirá Soares, englobando toda a agitação da época. Para além do apoio às bombas e bombistas que aterrorizaram o país no «Verão Quente» de 75 e a sua coordenação «estratégica» com manifestações do PS contra a imaginária ameaça da «ditadura comunista», Carlucci não se esquece de visitar a hierarquia da igreja que pregava o medo dos «comunas» que matavam os velhos com injecções atrás da orelha (ao contrário do que agora votaram).

Entre 3 e 6 de Novembro, nas vésperas do golpe, reúne com os bispos de Viseu, Vila-Real e Braga. Homem experiente, Carlucci, «pequeno e vivo… um típico mafioso italiano», na descrição de Soares, apoia também, à socapa, os super-revolucionários «de esquerda» que combatem os «revisas» do PCP com a mesma raiva da direita, como o MRPP, a quem encheu de dinheiro.

«São como um saco para onde o dinheiro é atirado, não se sabe por quem, e retirado à medida das necessidades», como refere, num ensaio, Saldanha Sanches, então ex-dirigente dissidente da organização.

Em entrevista à «Association for Diplomatic Studies and Training», Carlucci, rememorando os seus tempos em Portugal afirmou, divertido: «O MRPP – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (sic) –,tomou a estação de rádio católica, mas foi o Partido Comunista que foi considerado culpado. Então temos o líder do Partido Comunista Português na televisão a dizer que não são anti-católicos. Claro que ninguém acreditou!...».

Relatórios americanos desclassificados esclarecem o papel de Carlucci em Portugal, pela sua própria voz: «Tudo o que a CIA fez foi sob o meu comando».

E se as coisas tivessem corrido mal no 25 de Novembro? – a pergunta surge no contexto da entrevista de Carlucci e Soares ao Público. «Honestamente, não tínhamos nenhum plano de contingência. Soares vai para o Porto, no dia 25. Por estradas secundárias. O general Lemos Ferreira tinha levado os aviões para o Norte. O general Pires Veloso comandava as forças militares no Norte e o grupo dos nove conspirava activamente».

Mas Carlucci admite ao jornal que «havia alguns apoios preparados». «Sobretudo dos ingleses», diz. Um «simpático» agente do M16, enviado por Callaghan, estivera em Portugal a ver o que era preciso. «Combustível para os aviões do Lemos Ferreira. E isso eles podiam garantir.»

Assim se conclui que se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro, tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».

Por essa descarada ingerência da CIA em Portugal, então escondida mas depois elogiada sem pudor por PS,PSD e CDS, Carlucci foi condecorado, em 2004, por Jorge Sampaio e Santana Lopes, com a grã-cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, e Portas atribuiu-lhe a medalha de Defesa Nacional. «Por relevantes serviços prestados».

À bomba e a tiro, quase sempre. No Congo, no Brasil ou em Portugal. Sem a piedade de um anjo ou a vida de um político «normal», como agora o querem descrever. Deixando um rasto de pobreza, corrupção e morte.
Também, na altura, o PS, com um discurso de esquerda e agitando de vez em quando um retrato de Marx, optou pela defesa dos grandes interesses…

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PS – Apesar do que ainda agora se diz sobre o descalabro financeiro causado pelo «gonçalvismo», uma missão da OCDE que visitou Portugal em finais de 1975 considerou «a economia portuguesa surpreendentemente saudável», com um «desempenho extremamente robusto», atendendo à crise internacional e às mudanças acontecidas. Os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo é que ficaram mais pobres.  

 13 de Junho de 2018

https://www.abrilabril.pt/nacional/carlucci-e-companhia


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Jorge Seabra - A silly season e uma distraída reflexão sobre o rigor

* Jorge Seabra


SEGUNDA, 15 DE AGOSTO DE 2016
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Nessa floresta de enganos, o «rigor» e as «regras», conceitos frequentemente associados, têm um lugar de destaque, talvez por estabelecerem, a priori, uma ideia de honestidade cumpridora, limpa e exacta, pouco latina e muito germânica, a acreditar no que tantas vezes se ouve. 

Paro a olhar uma montra de relógios num dia abafado de Verão, ajeitando o boné e olhando por cima dos óculos a tentar ler a fila de pequenas letras alinhadas de um mostrador. E o que vejo faz-me pensar nas palavras vulgares que vão entrando na rotina dos dias, ganhando as «novas qualidades» de que falam Camões (e Marx), acabando por marcar uma época em que, por serem tão repetidas, definem uma conotação temporal e ideológica, depois de esvaziadas do seu conteúdo.

Nessa floresta de enganos, o «rigor» e as «regras», conceitos frequentemente associados, têm um lugar de destaque, talvez por estabelecerem, a priori, uma ideia de honestidade cumpridora, limpa e exacta, pouco latina e muito germânica, a acreditar no que tantas vezes se ouve.

E aí começam as interrogações, porque esses estereótipos podem levar-nos a admirar o rigor com que alemães «normais» contabilizavam os judeus que amontoavam em vagões a caminho dos campos de extermínio, ou o rigor do registo clínico das bárbaras experiências que faziam com prisioneiros indefesos.

Contudo, já que estamos a falar de rigor, temos também de referir que o povo alemão não engoliu tão bem o Fuhrer como por vezes se diz, já que nunca o partido nazi conseguiu ter a maioria absoluta em eleições, e os que resistiram corajosamente à «Nova Ordem», sujeitos a torturas e ao sacrifício da própria vida, eram também alemães, a maioria dos quais de um grande partido operário, talvez por isso esquecidos na «História Ocidental» que costuma reduzir a resistência ao III Reich ao atentando bombista de um pequeno grupo de oficiais desesperados, já com a guerra perdida.

«A verdade é que as diversas formas de "rigor" e de "regras", da nova ordem neoliberal dos partidos do "arco do poder", acabaram por inquinar os nossos últimos anos»

De qualquer forma, a imagem do rigor e da ordem faz-nos pensar na precisão alemã e nos seus automóveis, no «carro do povo», o Volkswagen, que Hitler prometeu a cada família para ganhar votos, deixando o cumprimento da promessa para depois da guerra, pelo que, os que nele acreditaram, acabaram sem carro, sem casa, sem comida e, muitos, sem vida.

Ora foi a Volkswagen com «das Auto!» (o automóvel!) por baixo – na publicitária arrogância do orgulho germânico que nem a traduz –, uma das marcas a abalar essa fama de rigor, ao aldrabar de forma manhosa as regras do controlo de poluição, fazendo com que nos testes tudo estivesse bem, sem se importar depois de gasear os humanos à vontade.

«Das» Poluição. «Das» Falsificação. «Das» Aldrabice. Uma habilidade alemã com um cheiro a vigarice do Sul.

A esses maus hábitos hunos, podemos juntar outras traficâncias, como a da Siemens nas olimpíadas gregas e da Ferrostaal com chorudas «comissões» para impingir submarinos, que também não seguiram, propriamente, as boas regras do rigor e da decência. Mas aí foram os hunos a untar as mãos aos seus amigalhaços do Sul, o que poderá ter significado quanto ao papel histórico assumido pelas respectivas «elites»: umas compram o direito de pernada, outras vendem-se por um prato de lentilhas dizendo que «não há alternativa».

A verdade é que as diversas formas de «rigor» e de «regras», da nova ordem neoliberal dos partidos do «arco do poder», acabaram por inquinar os nossos últimos anos: das «criativas» baixas do desemprego (apagando os que desistem, os que não se apresentam, os que não preenchem a burocracia ou os que fazem estágios sem interesse e sem saída), à promoção dos cinco anos de licenciatura a mestrado (aumentando, num ápice, o número de mestres); da diminuição dos cidadãos sem médico de família (apagando os que não foram ao Centro de Saúde durante três anos), à avaliação da produtividade cirúrgica só pelo número (sem diferenciar a extracção de uma unha de uma complexa operação ao fígado), ou à classificação dos institutos de investigação como o Centro de Estudos Clássicos de Lisboa (sem que, nos 16 membros do júri, houvesse um único especialista da área).

«É essa mesma mitologia do "rigor" e das "regras", apregoada pelos governos da troika e prolongada pela subserviência dos pequenos tentáculos das chefias intermédias, que faz lembrar a irracionalidade servil de Vichy»

E não podemos deixar de invocar os exemplos-mãe de todos os rigores: o das agências de rating (Fitch, Moody's, Standard & Poors) que deram o triplo Ada máxima segurança a empresas de crédito e bancos americanos atafulhados de bolhas especulativas, dias antes de todos falirem com estrondo, ou o rigorcom que o general Colin Powels, representante dos EUA na ONU, justificou a invasão do Iraque mostrando as fotografias de armas de destruição maciça que afinal não existiam, repetindo a forma como desencadearam a guerra ao Vietnam do Norte em alegada resposta a um ataque a navios americanos no famoso «incidente do Golfo de Tonkin» que, afinal, segundo os arquivos da National Security Agency tornados públicos, em 2005, também nunca aconteceu.

Quase tudo se acaba por saber ou reconhecer...anos depois!

Por isso, ainda vamos perceber o rigor do inédito «doping de Estado» com que a Rússia, apesar de já não ser vermelha (nem nada que se pareça), foi excluída dos Jogos Olímpicos do Rio.

Em meados de Julho, surgiu, na ordem do dia, o rigor dos 0,2% de desvio do défice, com ameaças da «europa» ao ex-bom aluno que timidamente ameaça desviar-se das «regras» e se desmancha em explicações. E embora o 3% do limite seja um numero etéreo e inexplicado, de um rigor semrigor, violado pelos grandes com o ar displicente de quem pode e quer, é bom que a gentinha do Sul perceba como se joga esse jogo de domínio. Porque afinal, como dizia Müller, o cínico mas realista oficial SS da sérieUma aldeia francesa da RTP 2, as regras devem servir a quem manda.

E é essa mesma mitologia do «rigor» e das «regras», apregoada pelos governos da troika e prolongada pela subserviência dos pequenos tentáculos das chefias intermédias, que faz lembrar a irracionalidade servil de Vichy.

Tal como então, a supervisionar um tempo de «exigência» cheio de números transviados e estatísticas marteladas, tivemos gente com perfil a condizer, como o suado «doutor» Relvas, das trinta e cinco equivalências; o competente engenheiro Sócrates, do inglês técnico ao domingo e das casas-mamarracho da Guarda; Passos Coelho, da Tecnoforma, formador em segurança do pessoal de aeródromos desactivados; Victor Constâncio, cujas primeiras palavras balbuciadas na infância, para espanto dos pais, foram «É preciso apertar o cinto», depois governador do Banco de Portugal que «vigiou» a fraudulenta falência do BPN e BPP e foi promovido para fazer o mesmo na «europa»; ou o seu sucessor Carlos Costa e o nosso ex-presidente Cavaco, que nos sossegaram a todos porque o BES estava sólido e entregue a boa gente, como os Espírito Santo, os donos disto tudo que puseram a «funcionar o Moedas», agora em funções na Comissão Europeia; ou Durão Barroso, antigo presidente da dita, que saltou para a administração da Goldman Sachs, o banco de piratas que «aldrabou» a (distraída) União Europeia nas contas da Grécia, irmão de armas do Deutch Bank (cujo maior accionista privado é um fundo da casa real do Qatar), multado por contornar as regras, o que nos faz voltar ao afamado rigor alemão.

«O que dizer do ex-presidente alemão, Christian Wulff, que se demitiu, em 2012, acusado de suborno e tráfico de influências? Rigor no desempenho do cargo? Um disfarçado latino?»

Mas não haverá, em tudo isto, um desvio genético dos morenos do Sul que contagia alguns arianos mais puros? Não existirá a marca de um povo que dizem depressivo ou bipolar e que tanto dá azo a ladrões como a gente do pelotão da frente dos que, na Europa, se esfolam mais horas a trabalhar, ao contrário do que afirma (com pouco rigor) a Big Merkel alemã, a quem o presidente Marcelo se apressou a prestar vassalagem?

E o que dizer do ex-presidente alemão, Christian Wulff, que se demitiu, em 2012, acusado de suborno e tráfico de influências? Rigor no desempenho do cargo? Um disfarçado latino?

Apesar do fenómeno parecer estar mais na essência do sistema do que numa sua pontual degenerescência, temos de convir que o contributo do ex-chanceler Schröder, ao saltar directamente do governo germânico para a empresa russa Gazprom, constituiu um estimulo para a actuação do «nosso» Durão Lusitano, proporcionando-lhe um lugar de relevo na gloriosa epopeia das maiores transumâncias do público para o privado, ultrapassando, de uma só penada, os ex-ministros Maria Luís e Paulo Portas, bem posicionados no ranking desta brilhante globalização.

Um leve encontrão, de um qualquer turista distraído, faz-me ajeitar os óculos e acordar dos oníricos ensaios sobre o rigor e as regras em que estava a desaguar, regressando a aspectos mais comezinhos do nosso tórrido Estio.


Mas, já agora, como o leitor pode querer comprar um relógio à prova de água, aconselho-o a não se fiar no rigor da referência «water resistant - 50 m», pensando que pode mergulhar com ele à vontade. Consulte o Google e verá que, conforme as regras definidas pela International Satandardization Organization (ISO 2281/2010), apenas pode tomar banho de chuveiro e, no máximo, dar umas braçadas à superfície. Para mergulhar, não dá. Nem a 1 metro. Acredite. O melhor é deixá-lo a seco. Por uma questão de rigor...

http://www.abrilabril.pt/silly-season-e-uma-distraida-reflexao-sobre-o-rigor